Franz Kreüther Pereira (Painel de Lendas & Mitos da Amazônia) Parte 7


Trabalho premiado (1º lugar) no Concurso “Folclore Amazônico 1993” da Academia Paraense de Letras

O BOTO

Zoologicamente se conhece na Amazônia duas espécies de boto, o vermelho e o preto ou “tucuxi”, mas, recentemente o oceanógrafo Jacques Cousteau divulgou a descoberta de um terceiro tipo, o boto cor-de-rosa. O fato de ser branco, preto ou cor-de-rosa não importa quando se trata da inteligência desses cetáceos, que inclusive auxiliam os cientistas em pesquisas submarinas e atividades militares. Entretanto, o foco de interesses para o estudo folclórico está mais nos órgãos que determinam o sexo desses animais do que nas suas atitudes consideradas inteligentes.

Certa ocasião o Dr. Wilson Amanajás, que recolheu farto e pitoresco material folk em suas viagens pelo interior paraense e que, por algum tempo, publicou seus “causos” em jornais de Belém, contou-me sua teoria de que o mito da sedução e feitiço que o boto exerce, pode ter surgido a partir da semelhança existente entre o órgão sexual do macho da espécie com o pênis masculino, e o da fêmea com a genitália feminina. Segundo ele, um caboclo poderia estar copulando com um boto fêmea, e devido ao esforço para se manter sobre o roliço e escorregadio ventre, aliado ao natural desgaste físico próprio do ato, veio a desfalecer, e foi descoberto neste estado pelos companheiros. Para justificar tão vexatória situação, o caboclo saiu-se com uma história de que havia sido enfeitiçado, “mundiado”, pelo animal. Se essa explicação carece de poesia, nem por isso está por completo distante da verdade. Sabemos que é comum, nos interiores, a zoofilia, o gostar de animais ao ponto de buscar neles o prazer sexual; daí ser plausível a teoria do Dr. Amanajás.

É comum ao amazônida atribuir dupla personalidade a certos elementos da flora ou da fauna. Assim, em relação ao boto, temos o delfim e o mito.

Reza a lenda que o boto costuma perseguir as mulheres que viajam pelos rios e inúmeros igarapés; ás vezes tenta virar a canoa em que elas se encontram, e suas investidas contra a embarcação se acentuam quando percebem que há mulheres menstruadas ou mesmo grávidas. Esse particular é curioso, e devemos observar que, em relação a mulher menstruada, há uma série de abusões e tabus, que realmente servem de vetor para certas atitudes e crenças populares. Durante a pesquisa de campo, algumas pessoas confessaram temer viajar nos pequenos “cascos” ou “montarias”, quando nelas está uma mulher “incomodada”. Outras nos contaram que o simples olhar de uma mulher gestante é capaz de fulminar uma cobra, e se ela passar por sobre o réptil então, o efeito é imediato. E há, ainda, a crença, que alguns caçadores possuem, segundo a qual, o simples toque de uma mulher menstruada pode azarar suas armas, tomando-as imprestáveis.

A que se deve essa superstição é difícil dizer. Pode estar, de alguma forma, relacionada com as influências da Lua e com as energias exudadas pala mulher durante este período em que seu organismo sofre sensíveis mudanças. É facilmente demonstrável pela Radiestesia – com o emprego de um simples pêndulo – que a mulher, durante seu cicio mensal, tem sua polaridade invertida; mas isso é assunto para a Parapsicologia.

Ele, o boto, é o grande encantado dos rios, que transformando-se num guapo rapaz, todo vestido de branco e portando um chapéu – que é para esconder o furo no alto da cabeça, por onde respira – percorre as vilas e povoados ribeirinhos, freqüenta as festas e seduz as moças, quase sempre engravidando-as. Há, inclusive, estórias em que a moça é fecundada durante o sono…

Para se livrarem da “influência” do bicho, os caboclos vão buscar ajuda na magia, apelando para os curandeiros e pajés. O primeiro com suas rezas e benzeduras exorciza a vítima, e o segundo “chupa” o feto do ventre da infeliz. É esse Don Juan caboclo, o sedutor das matas, o pai de todos os filhos cuja paternidade é “desconhecida”, que deu origem a deliciosa expressão regionalista: “Foi o boto, sinhá!”

A credibilidade no mito é tamanha que há casos de pescadores perseguindo e matando o pobre cetáceo, por achá-lo responsável pela gravidez indesejada de suas filhas ou mulheres.

Na magia nativa ou pajelança, os órgãos sexuais, tanto do macho quanto da fêmea, possuem propriedades afrodisíacas extraordinárias e podem ser facilmente encontrados no mercado de ervas do Ver-o-Peso, em Belém*. Também, nessas barracas especializadas se pode comprar os olhos do boto, que possuem qualidades talismânicas excepcionais quando preparados – ou como dizem os caboclos: “curados” – por um pajé. Segundo os expertos no assunto, é o olho direito o portador das propriedades mágicas. Este, depois de seco, produz um ruído quando é sacudido, mas alguns barraqueiros já introduzem um granulo no interior do olho esquerdo, antes que esse seque, para que passe pelo verdadeiro olho direito do boto.

Dizem, também, que os dentes do boto podem ser usados no combate às dores da primeira dentição, e os miolos podem ser empregados numa beberagem que coloca a pessoa que bebê-la, sob o domínio e poder de outra. A gordura extraída do peixe-boto dá um excelente azeite para candeeiros, mas dizem que pode causar cegueira.

Há muitas histórias sobre o boto. Um relato curioso foi colhido pelo Padre Alcionilio Brúzzi[4], por volta de 1952. Conta esse missionário que na tribo Taryana, do povoado Araripirá, no Rio Uaupés, uma antiga aluna da Missão de Iauareté, casou-se com um moço Tukano […], outro rapaz queria tê-la como esposa, e por vingança, indo certa vez em passeio pelo mato com o marido dela, deu-lhe a pegar uma folha de pirá-yawáre-púri, planta do boto”. O relato contínua informando que certo dia “o marido ficou como boto”, isto é, resfolegando como faz o boto fora da água, até que por fim mergulhou no Rio Negro, lá em Tapurucuara – antiga Santa Izabel -. Patrícia Izabel, a narradora do fato que o Padre Brüzzi transcreveu, informa ainda que o marido enfeitiçado ficou durante o dia todo dentro da água. Os botos o empurraram para a terra e ele “virou gente outra vez, e várias vezes “ele tem virado boto”.

O alter-ego feminino do boto é a IARA, uma bela mulher cujo canto enfeitiça e atrai os jovens para o fundo dos rios ou lagos. As primeiras referências ao mito datam, segundo o pesquisador Ararê M. Bezerra[5], de meados do século XIX.

4 BRÚZI, Alcionilio da Silva. A civilização dos indígenas do Uaupés. São Paulo: Linográfica Editora Ltda,
1962.
5 BEZERRA, Arare Marrocos. Amazônia, lendas e mitos. Belém: Editora da EMBRAPA,1985.
* “Dezenas de botos tucuxis são sacrificados semanalmente na Ilha do Marajó para abastecer o Ver-o-Peso com seus órgãos genitais.(…) Comprar vagina ou pênis de boto é negócio antigo aqui, disse o comerciante Adalberto Leal, 39 anos, há 11 vendedor de ervas. Para os crédulos, completa ele, usar amuleto com o sexo de ‘bota’ pendurado ao pescoço atrai boa sorte no relacionamento com os sexo oposto.” (Trecho da reportagem Matança de boto no Marajó, jornal O Liberal, set. 1997, via Internet). A pesca predatória e a matança indiscriminada de botos para atender este comércio ilegal tem sido motivo de justa preocupação para os ambientalistas e organizações não-governamentais ecológicas defensoras do Marajó.

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