Franz Kreüther Pereira (Painel de Lendas & Mitos da Amazônia) Parte 8

Trabalho premiado (1º lugar) no Concurso “Folclore Amazônico 1993” da Academia Paraense de Letras

IARA
Uiara, Oiara, Eiara, Igpupiara, Hipupiara


Mito baseado no modelo das sereias dos contos homéricos, a Iara é a Vênus amazônica; é uma ninfa loira de corpo deslumbrante e de beleza irresistível. Sua voz é melodiosa e seu canto, tal como no original grego, é capaz de enfeitiçar a todos que o ouvem, arrastando-os em sua direção, até o fundo do rio, lagos, igarapés, etc., onde vivem esses seres fabulosos. Na Amazônia o tapuio que escuta o cantar da Iara fica “mundiado” e é atraído por ele; o mesmo se dá com as crianças que desaparecem misteriosamente. Crêem os ribeirinhos que essas crianças estão “encantadas” no reino da “gente do fundo”. Lá o menino é instruído no preparo de todos os tipos de puçangas e remédios. Ao fim de sete anos, durante os quais foi iniciado nas artes mágicas, na manipulação de plantas e ervas, etc.; o jovem pode retornar para junto dos seus, onde, geralmente, se torna um grande xamã, um medicine-man.

Se as sereias e seu consorte, o Tritão, existem realmente, ninguém sabe, mas um caso acontecido com o senhor Cícero, velho pescador e antigo delegado da cidade de Soure, na Ilha do Marajó, quase nos deixa com um testemunho da existência dessas criaturas. O caso nos é contado pelo neto do protagonista, o pesquisador e estudioso de magia nativa, Antonio Jorge (Brito da Silva) Thor[6].

Corria o ano de 1925, e como sempre faziam, seu Cícero e seus amigos prepararam-se para mais uma pescaria no seu pesqueiro favorito, de onde nunca saíam sem que estivessem carregados dos mais diversos peixes. Este lugar era secreto, conhecido apenas por eles, mas naquela noite enluarada, uma estranha calmaria, uma quietude desconhecida no mar,  prenunciava surpresas.

As horas passavam e, estranhamente, nenhum peixe beliscava as imóveis iscas e anzóis. De repente o senhor Cícero sentiu um forte puxão na linha, indicativo evidente de que fisgara um dos grandes; o que foi confirmado pelo esforço que fazia para puxar a presa, tanto que teve de pedir ajuda aos companheiros. Deixemos que Thor continue:

“Em dado instante a parte que parecia estar bem iscada, cedeu!… Naquele momento, oportunamente, o pensamento foi um só: – Perdemos o peixe! Entretanto, ao chegar com o anzol a flor d’água […]estava lá, bem enrolado no anzol de bom tamanho, algo que os faria interrogativos para o resto de suas vidas: – um monte de cabelos loiros, os quais mediam entre 1,5 metro a 2,5 metros.”

O pavor que tomou conta dos surpresos pescadores foi tanto que fugiram do local abandonando anzóis, linhas e, provavelmente, a única prova palpável, insofismável, de que as sereias, as Iaras, existem.

Na nossa cultura o mito da deidade fluvial Iara, mesclou-se com seus congêneres europeus (sereias) e africanos (Iemanjá) causando alguma confusão. Confusão esta provocada pelo que Victor Jabouille chama de “espírito de evangelização”, que todo colonizador se acha possuído, a ponto de “destruir as velhas tradições e os velhos mitos pela imposição das  realidades alheias. “Por força dessa circunstância, outro de nossos mitos autóctones que incorporou elementos europeus e africanos foi o do SACI PERERÊ que é muito confundido com o CURUPIRA e com o CAAPORA.

CAAPORA

Na bibliografia que compulsamos, a maioria dos pesquisadores não apresenta um consenso quanto às características e particularidades deste que vêm a ser um dos mais férteis nume caboclo. Encontramos os seguintes nomes e grafias: cayapóra, cayapora, kaápora, caipora, jurupari, anhangá, koropyra, curupira, currupira, tatacy, çacy, saci, saci-pererê, sacy-cererê, maty, matinta, matinta pereira, mati-taperê ou simplesmente sererê.

O que queremos mostrar é a dificuldade para se dar a esse mito um contorno definido e esclarecer as funções da divindade. E é exatamente aí o fulcro da confusão que coloca o  Caapora, o Curupira e o Saci, como uma só entidade. Embora exista uma diferença estrutural evidente entre Caapora e Çacy*, ambos são membros da mesma família. O vocábulo Caá-pora, ligado à imagem de protetor, função exercida pelo Curupira e pelo Saci, na nossa opinião, é o verdadeiro foco da confusão. Veremos mais adiante, com um pouco mais de detalhes, alguns dos elementos que compõem a família dos demônios protetores das selvas amazônicas. Mas, voltemos ao Caapora, que Gonçalves Dias[7] registrou em “O Brasil e a Oceania” com as seguintes palavras:

“O Caapora veste as feições de um índio anão de estatura, com armas proporcionais ao seu tamanho; habita o tronco das árvores carcomidas onde atrai os meninos que encontra desgarrados na floresta, outras vezes divaga sobre um tapir ou governa uma vara de infinitos caitetus, cavalgando o maior deles. Os vaga-lumes são seus batedores, é tão forte seu condão que o índio que por desgraça o avistasse era mal sucedido em todos os seus passos. Daqui vem chamar-se Caipora ao homem a que tudo se dá ao contrário.”

O Caapora apresenta-se como um moleque pretinho, que cavalga porcos selvagens; mas também pode ser descrito como uma caboclinha de longos cabelos, duros feito espinhos, e que, em troca de tabaco, é capaz de dar ao caçador tanto a caça que ele deseja quanto o próprio sexo.

Os índios e caboclos acreditam que prendendo um Caapora, ele é obrigado a conceder um “poderzinho” ou atender a um desejo, em troca da liberdade. A armadilha para capturá-lo e a isca utilizada consistem apenas numa cuia e aguardente. Derrama-se a cachaça na cuia, que deve ser colocada num lugar onde ele já tenha aparecido, ou no local para onde tenha sido chamado previamente. Depois de ter bebido a cachaça, torna-se presa fácil para qualquer um, porém até hoje ninguém conseguiu realizar tal façanha.

Apesar de, em alguns casos, essa entidade aparecer como má e vingativa, a versão geral é de que ele é um duende protetor da floresta e da caça. Daí alguns autores o identificarem com o Curupira, como já vimos, mas ele guarda, também, certa semelhança com outro habitante das matas, outro gênio florestal, o MAPINGUARI.
 
MAPINGUARI

Esta criatura é descrita como um macaco de tamanho descomunal -5 a 6 metros – peludo como porco espinho, “só que os pêlos são de aço”[8]. Dentro dessa descrição – um grande macaco, “uma espécie de orangotango, coberto de longo e denso pelágio”, etc. – encontramos, como veremos, o Curupira, mas as semelhanças não terminam aí; numa versão o Mapinguari tem um só olho, enorme, no meio da testa, e uma bocarra vertical que desce até o umbigo; Hurley descreve o Curupira de maneira parecida.

Cada passo do Mapinguari mede três metros e seu alimento favorito é a cabeça das vítimas, geralmente pessoas que ele caça durante o dia, deixando para dormir à noite. Há aqueles que afirmam ser impossível matá-lo: é invulnerável. Noutra versão ele é apresentado como um ser dos mais fantásticos, com dois olhos, mas “três bocas”, sendo uma debaixo de cada braço e outra sobre o coração. Essa última é considerada seu “calcanhar de Aquiles”, pois quando ele abre a boca pode-se acertar seu coração, única maneira de matá-lo.

    Em  reportagens para a revista ISTOÉ nos 1266 e 1294 (05/01/1994 e 20/07/1994, p.35-36 e p. 44-47, respectivamente), o norte-americano David C. Oren, doutor em zoologia e especialista em biodiversidade amazônica do Museu Paraense Emílio Goeldi, derruba a lenda que o Mapinguari é um grande símio. Ele afirma a existência de um gigantesco bicho-preguiça terrestre de 200 a 300 quilos e 2 metros de altura, ainda vivo nas selvas amazônicas, que ele diz ser o Mapinguari. O Dr. Oren baseia suas teorias, afirmações e pesquisas em restos fossilizados e relatos de índios e garimpeiros: “Conheci pelo menos 30 pessoas que viram o Mapinguari e mais de 100 que acharam seus rastros”.   E  sentencia:

 “Da mesma forma que a Cobra Grande é baseada na cobra sucuriju, e o boto encantado que vira homem para engravidar as mulheres se origina no boto da bacia amazônica, a inspiração do Mapinguari é o preguiça terrestre.”.   
–––––-
Notas
*    Além dos caracteres físicos, diferem também nos etimológicos: Caá significa mato e Cy, mãe, portanto “Çacy” é  Mãe do Mato; enquanto “Caá-pora” significa, morador da mata.
6 THOR (ou THOT, como é chamado atualmente), Antonio Jorge. Introdução à teoria dos elementais. Edição do autor. Não tem ficha catalográfica, mas nos garantiu ele que foi publicado no ano de 1985, em Belém.
7  DIAS, A. Gonçalves. O Brasil e a Oceania. Paris: H. Garnier. s. d.
8   OLIVEIRA, Adélia Engracia de. O mundo encantado e maravilhoso dos índios Mura. Belém: Falangola,
        1984, p. 35.

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