Arquivo do mês: abril 2012

Academia de Letras do Brasil (Falecimento do Escritor Paranaense Valter Martins de Toledo)


A Academia de Letras do Brasil (ALB), através de seu Presidente Nacional, Prof. Dr. Mário Carabajal e ALB para o Estado do Paraná, na pessoa do Presidente Pró-tempore, escritor Imortal, Dr. José Feldman, somam-se aos familiares, amigos e leitores do Confrade, escritor Imortal VALTER MARTINS DE TOLEDO, ocupante da Cadeira n. 4 da Academia de Letras do Brasil/Paraná, Patrono: Ildefonso Pereira Correia, Barão do Serro Azul. Seu falecimento ocorreu às 6 horas da manhã do dia de hoje, 29 de abril de 2012, em Curitiba. O velório realiza-se no Tribunal de Justiça do Paraná, Av. Cândido de Abreu, ao lado da Assembléia Legislativa do Paraná, a partir das 18 horas

Valter Martins de Toledo
Formado em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), autor do projeto “Exercício da Cidadania”.

Era Magistrado aposentado do Tribunal de Justiça do Paraná. Conciliador voluntário do Núcleo de Conciliação do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.

Membro:
Academia de Cultura de Curitiba,
Academia de Cultura do Paraná, com sede em Londrina
Centro de Letras do Paraná,
Academia de Artes,
Academia Sul Brasileira de Letras,
fundador e presidente da Academia Paranaense de Letras Maçônicas, no período de 1996 a 2006.
Academia de Letras do Brasil pelo Paraná
entre outros.

Condecorações:
Membro Honorário da Força Aérea Brasileira
Medalha do “Mérito Santos Dumont” da FAB.

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Arquivado em Curitiba, Nota de Falecimento, Paraná

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Mato Grosso do Sul

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30 de abril de 2012 · 00:41

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 11)

Uma Trova Do Assis

Prometi-lhe, amada minha,
mil estrelas, as mais belas.
Bobagem…Você sozinha
brilha mais que todas elas!
A. A. de ASSIS (PR)

Uma Trova de Nova Friburgo

Foi um erro, reconheço,
o nosso medo de amar…
E hoje pagamos o preço
por nosso medo de errar!…
RODOPLHO ABBUD (RJ)

Uma Trova Paranaense

Poeta não faz escolha,
desafia qualquer tema,
desdobra folha por folha
e compõe o seu poema.
DARI PEREIRA (PR)

Trova Premiada

1988 – Certame de Trovas Adelmar Tavares – UBT/SP
Tema Nacional: Castelo – Vencedor

Neste alaúde singelo,
dedilhando sons tristonhos,
vou, de castelo em castelo,
cantando em trovas meus sonhos.
VASQUES FILHO (CE)

Um Poetrix

nu divã
ROONALDO RIBEIRO JACOBINA (BA)

Id ao divã divagar
Vã tentativa
de voar

Uma Trova do Prof. Garcia

Em cada verso que eu faço,
brota uma trova, uma flor,
e em cada flor, o regaço
de quatro versos de amor.
PROF. GARCIA (RN)

Trovadores que Deixaram Saudade

Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.”
FERNANDO VASCONCELOS (PR)

2 de setembro de 1937 (Diamantina/MG) – 17 de abril de 2010 (Ponta Grossa/PR)

Fernando Vasconcelos (Fernando Silvio Roque de Vasconcelos), jornalista e publicitário, mineiro de Diamantina e paranaense de Ponta Grossa.

Filho de Sandoval Roque dos Santos e Maria de Lurdes de Vasconcelos Roque (poética Tia Velha), casado com Jelena Ruta e sete filhos e três netos.

Recebeu várias honrarias do poder público e da iniciativa privada, entre os quais
Título Cultural
Placa do Mérito Regional
Prêmio Rotary 98/área de Artes
Placa Homenagem por Incansável Jornada Literária (Sesc)

Título de Cidadão Ponta-Grossense (Lei 3.207 de 11/12/1979),
Mérito Leonístico Putanqui – Cultural,
Honra ao Mérito do Rotary Club 2009.

Pertence a dezenas de entidades culturais, inclusive em Portugal, sendo o vice-presidente da Academia de Letras dos Campos Gerais.
Conta com 170 premiações literárias nacionais e internacionais.

São seus livros publicados:
– Pequena Consciência (1974) ;- As Narrativas de Nhô Fela (1983) ; – Nos Espaços D’Alma (1985) ; – Êta Vida Besta, Sô! – (1990) ; – Estou Nascendo Para a Trova (1994) ; – Pô, Meu! (1995) ; – A Danadinha da Crase ( 1997) ; – Da Cacimba do Coração (1998) ; – Fiapico (1998) ; – Abaretama – a sedução do guerreiro (1999) ; – Os Pombinhos do Deus Tupã (2003) ; – Eu Conto (2004) ; – Gotinhas de Orvalho (2005) ; – Branduras (2007).

Um Haikai

Primavera
CLICIE PONTES (SP)

Calmo entardecer —
Revoada de beija-flôres
alegra o jardim…

Uma Trova da Sara Josefina

O imortal trovador
Luiz Otávio nos ensina
somente onde existe amor
a poesia não termina
Sara Josefina de Souza [14 anos] (PR)

Uma Fábula em Versos

O Lobo Pleiteando Contra o Raposo Perante o Macaco
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Queixou-se uma vez o lobo
De que se via roubado,
E um mau vizinho raposo
Foi deste roubo acusado.

Perante o mono foi logo
O réu pelo autor levado,
E ali se expôs a querela
Sem escrivão, nem letrado.

“À porta da minha fuma.
Dizia o lobo enraivado.
Pegadas deste gatuno
Tenho na terra observado.”

Dizia o réu em defesa:
“Tu, que és ladrão refinado!
O que, se vives de roubos.
Podia eu ter-te furtado?

— Furtaste! — Mentes! — Não minto!
Questões, gritos, muito enfado.
Já do severo juiz
Tinham a testa azoado.

Nunca Têmis vira um pleito
Tão dúbio, tão intrincado!
Nem que pelos litigantes
Fosse tão bem manejado.

Mas da malícia dos dois
Instruído o magistrado,
Lhes disse: “Há tempo que estou
De quem vós sois informado:

Portanto, em custas em dobro
Seja um e outro multado,
E tanto o réu como o autor,
Por três anos degredado”.

Dando por paus e por pedras
O mono tinha assentado,
Que sempre acerta o juiz,
Quando condena um malvado.

Uma Estória da Trova

Jogos Florais de Niterói…Reunião para a seleção das trovas recebidas. As trovas vão sendo lidas e os trovadores dizem que “sim” ou que “não”. De repente aparece:
A chuva qual se escutasse
o que em pensamento eu disse,
passou, pra que ela chegasse,
firmou, pra que não partisse…
O Izo, dando um pulo, grita:
“Sim! Sim! Sim! É linda !!!”
A Manita esbraveja:
– “DE jeito nenhum! Não!!! Tem dois “pras”!
O Izo retruca:
– “Podia ter até dez “pras”! É linda!!!”
Depois de muita discussão a Trova fica.
No dia da apuração ela recebe Menção Honrosa, e a Manita continua protestando:
– “Tá vendo! Agora ela vai para o livro de premiadas dos Jogos Florais de Niterói!”
O Izo vibra e faz questão de abrir o envelope e identificar o autor… O nome é de: J. G. Pires de Mello, nada mais, nada menos que… o irmão de Manita!!!
Nem por isto ela se deu por achada, continuou protestando contra a premiação…
Alguma Poesia

Vai ao Encontro
AGENIR LEONARDO VICTOR (PR)

Essa pressa é sua.
Vai ao encontro sem espera
Parece que tudo é tão calmo, mas não é!
O mundo é um agito só.
Um corre-corre interminável
Chega noite e volta manhã
Quantos problemas que não se acabam
É bom parar para pensar!
E no outro mundo, como será?
Espero ser bem melhor que esse!
Aqui as pessoas vivem no mesmo teto,
Num céu criado por Deus
Mas, ainda não chegaram à conclusão
Que esse teto lindo azul, nublado
Ensolarado, enluarado ou estrelado
Também não é seu!

Uma Trova do Manicardi

Maringá do sertanejo,
da viola e do violão,
cidade linda que vejo
nascida de uma canção.
ANTONIO MARIO MANICARDI (PR)

Um Soneto

De Bem com a Vida
ARMANDO BETTINARDI (PR)

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente.

Fontes:
seleção por José Feldman

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Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 5

A Família (pintura de Tarsila do Amaral)
Família cristianizada

Família cristianizada –
que adota e vive as virtudes –
é o bem ganhando a empreitada
pelos caminhos mais rudes.

Notícia para o grupo familiar

Um viver abençoado
no qual de fato confio:
se o grupo põe mão no arado,
vence o passado sombrio.

A família na ação social

A vida ganha sentido,
expressão, muita beleza,
quando o pão é repartido
muito além de nossas mesas.

Parentela e paciência

Paciência! – eis a senha!
Renovação das mais ricas:
tem domínio quem se empenha –
largando o ódio e futricas…

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

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Errata

Nos Devaneios Poéticos n.6, no Soneto do dia, houve um pequeno erro de digitação no nome do autor, que está sendo corrigido no blog.
Onde constava Cecil Calixto,
o correto é Cecim Calixto.

Perdoe a falha.

J.Feldman

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A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Mato Grosso

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28 de abril de 2012 · 22:45

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 10)

Uma Trova da Delcy

Em vez do vício, a virtude
e….da revolta, a harmonia!
Quisera que a juventude
se drogasse de poesia!
DELCY CANALLES (RS)

Uma Trova de Fortaleza

Este amor que me consome,
e esta saudade – entonteia! …
traço nas dunas teu nome
e beijo as letras na areia!…
FERNANDO CÂNCIO ARAUJO (CE)

Uma Trova Paranaense

Cresceu estranho tumor
no pé descalço do Zé.
– “Será que eu tenho, Doutor,
apendicite no pé?”
HELENA KOLODY (PR)

Trova Premiada

2004 – XXXIV Jogos Florais de Niterói
Tema Nacional: Cansaço – Vencedor

Sou, no final da existência,
em meu cansaço, grisalho,
folha seca na iminência
de desprender-se do galho!
ARLINDO TADEU HAGEN (MG)

Um Poetrix

borboleta
ROSA CLEMENT (AM)

centro da cidade
a mariposa entra no ônibus
e passa pela borboleta

Uma Trova do Hildemar

Todo conto do vigário
encerra duplo sentido:
há sempre um sabido, otário,
e um otário mais sabido.
HILDEMAR DE ARAÚJO COSTA (BA)

Trovadores que Deixaram Saudade

Do bairro a mulher mais bela
mora na esquina, a Gioconda.
— Rondam tanto a casa dela
que a esquina ficou redonda…”
CESÍDIO AMBROGI (SP)

Cesídio Ambrogi (Natividade da Serra, 22 de maio de 1893 — Taubaté, 27 de julho de 1974). Considerado um dos maiores nomes da intelectualidade valeparaibana do século XX.

Foi professor, escritor e jornalista. Poeta eclético, sonetista emérito, além de notável trovador. Fundador de diversos periódicos, foi também um dos fundadores da “Sociedade Taubateana de Ensino” e considerado presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores (UBT-Taubaté).

Como trovador fez jus a vários troféus e menções honrosas. Colaborou assiduamente nos diversos órgãos da imprensa do Vale do Paraíba e de São Paulo.

Filho dos comerciantes Bernardo Ambrogi e de Marianna Nardi, imigrantes italianos vindo para o Brasil, estabelecidos em Natividade da Serra no final do século XIX. Nasceu e passou sua infância em Natividade da Serra onde amava pássaros. Em 1905 sua família se transferiu pra Taubaté onde fez seus preparatórios e ingressou no tradicional ginásio “Nogueira da Gama” de Jacareí, no qual concluiu o curso secundário. Tentou estudar engenharia na Escola Politécnica de São Paulo, mas sem êxito. Foi pra Itália, onde se matriculou na Universidade de Pisa, como aluno do curso de Engenharia e Letras Clássicas que se graduou. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial interrompeu os estudos e regressou ao Brasil em companhia do primo Dante Cicchi.

Algum tempo depois tentou colocação no alto comércio do Rio de Janeiro onde o pai desfrutava de boas relações comerciais. Sua mãe não vendo vocação do filho para trabalhar com comércio, trouxe-o de volta para Taubaté e através da influência dos amigos da família Puccini, foi nomeado para o cargo de coletor federal, que lhe fora oferecido.

Mais tarde aceitou o convite para exercer as funções de fiscal federal, junto à antiga escola de comércio de Taubaté. Em meados da Década de 20, Cesídio Ambrogi já dispunha de uma apreciável bagagem literária (Prosa e Verso) o que lhe valeu o convite para figurar no primeiro corpo docente do recém criado ginásio do estado, em Taubaté.

Casou-se duas vezes com mulheres de descendência italiana. Seu primeiro casamento em 22 de maio de 1920 com Petronilha Chiaradia, falecida em 26 de julho de 1933, teve um casal de filhos nascidos em Taubaté. Depois de ter ficado viúvo, Cesídio em 21 de fevereiro de 1938 casou-se com sua segunda esposa, a professora, advogada e trovadora Lygia Teresinha Fumagalli, com quem teve os seguintes 5 filhos nascidos em Taubaté.

Por várias décadas, como mestre e poeta, Cesídio honrou o seu mister, dedicando-se ao magistério com amor e dignidade, tendo lecionado lingua portuguesa e literatura brasileira, exercendo notável influência na formação de professores, muitos dos quais, pontificam hoje na Universidade de Taubaté.

Cesídio Ambrogi foi amigo íntimo do escritor Monteiro Lobato de quem recebeu o apelido de “jacaré”. E entre as inúmeras correspondências trocadas, a famosa frase escrita por Monteiro Lobato ao amigo Cesídio Ambrogi: ” As coisas mais belas que um leitor encontra num livro não são o que pomos nele – são as que estão dentro do leitor e nós apenas sugerimos”.

Durante o período que Monteiro Lobato esteve no comando literário das editoras Monteiro Lobato & Cia e Companhia Editora Nacional, ele apresentou e publicou algumas obras do amigo Cesídio Ambrogi.

Faleceu no dia 27 de julho de 1974, em Taubaté, vítima de insuficiência respiratória aguda e de carcinoma broncogênico. Foi sepultado no Cemitério Municipal de Taubaté.

Obras Literárias

Livros
O Caboclo do Vale do Paraitinga, São Paulo, 1943.
O opúsculo satírico “Janíadas”, publicado com o pseudônimo de K. Mões de Araque, 1945.

Livros de Poesia
As Moreninhas 1943.
Os Poemas vermelhos 1947.

Um Haikai

Verão
JOSÉ MARINS (PR)

Calor de verão
A trabalheira que dá
ter essa preguiça

Uma Trova do Aldo

Sempre que ponho em versos
as coisas do coração,
os pensamentos dispersos
tomam forma de oração.
ALDO SILVA JÚNIOR (PR)

Uma Fábula em Versos

O Conselho dos Ratos
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome.
Sua alcunha — Esgana-ratos.

As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Inda o rato mais muchucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.

Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês.
Sim por um vivo diabo.

Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.

Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.

Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:

“Enquanto o permite a noite.
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo:
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã.
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir'”.

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem Fizesse a diligência.

“Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão.
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.”

— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!

— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: “Eu não, eu não!”

Tornou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal,
Que o remédio que se encontra
Inda é pior do que o mal.

Assim mil coisas que assentam
Numa assembléia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que tem dente de coelho.

Uma Estória da Trova

Jogos Florais de Niterói… Missa em trova com a Igreja repleta.
Durval Mendonça que, em sendo cego, tinha dificuldade em se movimentar em lugares com muita gente, pede à Magdalena Léa:
“ Quando acabar a missa, deixa eu colocar a mão no seu ombro para sair da Igreja?”
Madalena concorda e, ao fim da missa, se levanta. Durval estende as mãos e toca os seios de Magdalena que, brinca com ele:
“– Olha essa mão boba, Durval!!!”
De repente, Magdalena dá uma gargalhada.
Durval dissera, baixinho, ao seu ouvido:
Como é bom ser um ceguinho,
se a nossa mão vai, de leve,
procurando o seu caminho,
por caminhos que não deve…

Alguma Poesia

Final dos Tempos (As almas dos poetas vão chorar)
HERMOCLYDES S. FRANCO (RJ)

Quando as flores perecerem nas Campinas,
Quando o sonho olvidar os namorados,
Na perda das belezas femininas,
Entre as sendas dos vícios e pecados;

Quando o verde do mundo for neblina,
Que os homens provocarem, desvairados,
Ao domínio do fel da adrenalina
E no fremir dos campos calcinados;

Quando os pólos perderem os seus mantos,
Derretidos e inflando o velho mar,
Aos povos restarão gritos e prantos,
Nem resquícios de vida irão sobrar;

Quando a Terra não mais passar no teste
De manter a natura em seu lugar,
Na certeza do fim ser inconteste.
As almas dos poetas vão chorar!…

Uma Trova da Maria Nascimento

Sempre a saudade se gaba
de não haver o que impeça.
Começa se tudo acaba;
não acaba, se começa…
MARIA NASCIMENTO S. CARVALHO (RJ)

Um Soneto

Rua dos Cataventos IV
MARIO QUINTANA (RS)

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente.

Fonte:
seleção por José Feldman

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Wagner Marques Lopes/MG (A FAMÍLIA em trovas) parte 4

Pintura de Lasar Segall (A Família)
Agregando riqueza

Quando a família descobre
a trilha certa do bem,
todo o viver se faz nobre,
mais riqueza ela detém.

Na sustentação da família

No núcleo familiar,
um só farol alumia:
aquele que sabe amar
e mais dispensa alegria.

Ternura

Atenção, boa palavra
no meio familiar –
gestos ternos de quem lavra
nas terras do verbo amar.

Rebelde sem causa

A mãe se faz conselheira
para um filho todo dia,
que ao repetir tanta asneira,
sofre mais… Por rebeldia.

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

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Arquivado em Minas Gerais, Trovas

Ialmar Pio Schneider (Soneto a Alberto de Oliveira)


– Aniversário de nascimento do poeta : 28.4.1857.

Para escrever este soneto agora
e render homenagem ao poeta,
que foi dos mais românticos, outrora,
empunho a lira mágica e discreta…

Pois quem do “Vaso Grego” foi esteta
e fez versos que o tempo não descora,
foi muito mais além, foi um profeta
que aqui permaneceu sem ir embora…

E quando, enfim, a lira já quebrada,
tomou-a onde a deixou dependurada
ao vento, entoa um hino de louvor,

escutam-se canções na voz sentida
do velho sino, que a rezar convida,
a todos os que tem um grande amor…

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

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Arquivado em homenagem, Soneto.

Aécio Nordman Lopes Cavalcante (Livro de Sonetos)

SONETO A UMA PRINCIPIANTE

Os versos teus, tão dolentes,
(Por Deus, como não minto)
Por serem tudo o que sentes,
Não são mais do que eu sinto;

Que se vês alegre e extinto
De pranto e ranger de dentes
O peito meu – antes recinto
Das chagas mais maldizentes,

É que esse peito teu, criança,
Era alheio ao mal que se sente
Quando mal se vai a esperança;

E o meu, se sorri de repente,
É que esconde os ais da lança,
Dentro de um coração dormente!

ENTRE CACHORRO E GATO

Fosse eu um mágico, em um estranho truque
Roubava, do King, os olhos; do Kicão, o pêlo;
Do Tuli, a fome; e o cheirinho do Baruque,
De tudo eu faria, para eternamente tê-lo.

Tirava-me de vez da cartola e do smoke,
E de tudo o que antes fora, longe de sê-lo,
Eu iria a latir e a miar, e a mais querê-lo
Longe de mim, para do que sou mais lucre…

Quem sabe assim, se entre cachorro e gato,
Fosse eu ser-te o eterno guardião eleito,
A cheirar, do solo, a sola do teu sapato.

Mas, ai! Como me dói a idealização do feito!
Vai-te-me sonho! Não me sejas tão insensato,
Que trocar-me não posso o coração do peito!

A MINHA JURA

Ontem eu jurei: nunca mais hei eu
De amá-la! Tampouco querer vê-la!
Ela é para mim como uma estrela
Que já não brilha porque já morreu.

Seguirei meu caminho mesmo sem ela…
Posso lembrar que um dia lhe pertenceu
Todo este amor que sufoca o meu
Peito, mas contente e longe dela.

Isso eu jurei ontem, porque ainda
Hoje cedo minha vista quis revê-la,
E, louca, a procurou em busca infinda…

E o meu amor, que jamais atura
Um instante sequer sem merecê-la,
Hoje me fez quebrar a minha jura!

EIS O POETA

Tive de amar Joana, para amar Dolores;
Meu grito de amor, guardar bem quedo;
Ando mui lento, mas se avisto horrores,
Corro mil léguas, que não sou de enredo;

Sorrio ao inimigo que me apronta dores,
Tranco-me ao amigo que se faz de ledo;
Não sou nacional, por estar tão cedo,
E sou nacional, por sufocar rancores;

Por ti, leitor, vou de escravo a amo;
Quando em vida, dou milhões de flores,
Quando em morte, não aceito um ramo;

Em toca de santo eu não ponho o dedo;
O que mais detesto é o que mais amo,
E o que mais temo… é o medo.

SONETO A UM AMIGO HERÓI

Fraco guerreiro, já sem fé e sem trilho,
Descrido por todos nas feições do porte,
Eis que surgiste dos bordões da morte,
A gritar: “vencer!” – o teu só estribilho.

E deixaste lar, pátria, mulher e filho…
Em tua mente otimista, sorrias da sorte:
“- Hei de vencer, como só vence um forte:
Com coragem e bravura e garra e brilho!…”

E marchaste então à luta, grande soldado,
Sem corcel e sem escudo, tendo apenas
Por arma, a esperança no ideal traçado.

Foste e venceste, e tuas feições serenas
É incentivo maior ao viajor cansado,
Que não alcança na luta a razão das penas!

SONETO DA FALSA EXPRESSÃO

Se abro da pena e traço-te estes versos
No louco afã de decantar meu amor,
É que, afogado entre pranto e dor,
Quero afastar-me d’alma os ais imersos.

Mas na ânsia de dizer-te o quanto for,
Peco nos ditos, que os vês inversos
E frágeis, e de tão maus e reversos
Põem falso o poema que te vou compor.

Nem sei o que te diga, e sinto, e penso
Que por mais que eu t’o pinte infinito,
Minto; o meu amor é bem mais intenso.

Para o ter, não basta um frasear bonito,
Que há, nas palavras, o final tão denso,
E há, no amor, sempre algo pra ser dito!

SONETO A UMA MULHER BRIGUENTA

Dou toque-e-retoques sem achar-te o jeito
De veres-me perfeito nesses teus ciúmes:
Se avisto os cumes, estufas-te o peito,
E me pões afeito ao fedor de estrumes…

Nada te faço sem que, apressada, arrumes
Fingidos queixumes com arte e despeito:
Dou-te o direito a sentires-me ciúmes,
Dares-me aos perfumes o mais vil defeito;

Que eu, bem é certo, ouvir-te-ei calado
O injusto ralhar, e alheio ao meu enfado,
Estender-te-ei a mão para mais um bolo.

E se passo, de ti, indiferente a tudo,
Nem sequer percebes, do meu ódio mudo,
O quanto sou sábio em me fazer de tolo!

SONETO DO DESENCANTO

Ontem, quando pela primeira vez
Vi-te ali prostada ao pé de mim,
Sem a dúvida cruel do teu “talvez”,
Sem a negação do teu próprio “sim”,

Fitei então com tamanha altivez
Tua face roxo-clara de cetim,
Que todo o teu encanto se desfez
E pude constatar, surpreso, enfim,

Que não eras visão, mas carne e osso;
E a veste que te cobria, do mesmo pano
Que sempre cobriu o meu corpo de moço.

Eras mais uma Maria (morto o engano)
Com os pés em terra, incapaz de dano,
A puxar um cãozinho pelo pescoço.

SONETO DA BUSCA DA FELICIDADE

Seguindo sempre a atraente senda,
Fui-te, felicidade, com a fama:
Sempre mais alto do odor da lama,
Cri teu corpo por detrás da venda.

Oh! dor de ver tão cheia esta tenda
De tudo o que é belo e se mais ama,
E só ouvir o som que se derrama
Por vasta fenda de invisível fenda!

Cerra os meus olhos do vazio aberto
Aonde vai a estrela pueril e errante;
Sana, ó destino, cavaleiro incerto,

Da vida, a realidade ora jorrante:
A dor de vê-la cada vez mais perto,
E tê-la cada vez mais distante!

SONETO A OLAVO BILAC

“Príncipe dos Poetas” – o eterno eleito
De todos foste, brasileiro e forte,
A cantar, em gloriosa lira, o peito
Em dores mil, sem que da dor suporte

Os ferrões… E eu nada sou, que malfeito
É-me o estilo, e de desprezível porte
Ante o teu estilo, que, já sem jeito,
Maldigo, do saber, minha pouca sorte

De nunca achar em verso meu o estilo
Mais justo para as mágoas que abrigo,
E só compor-me verso como viste:

Sem perícia; que me acho, ao redigi-lo,
Pequeno ante as glórias que conseguiste,
E grande ante as glórias que não consigo!

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=83&x=15&y=8

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Arquivado em livro de sonetos, Pernambuco

Olivaldo Júnior (Cristais Poéticos)

COMPENSAÇÃO

Não tinha nome,
mas tinha fome.

Não tinha casa,
mas tinha asa.

Não tinha onde,
mas tinha aonde.

Não tinha graça,
mas tinha a praça.

Não tinha hoje,
mas tinha ontem.

CHUVINHA FINA

Não é chuva forte,
mas chuvinha fina.

A chuvinha fina,
que, mansinha, escorre
e concorre ao mar.

Folha a folha, molha,
a chuvinha fina.

A chuvinha fina,
que, sozinha, escolhe
onde ser e estar.

Não é chuva forte,
mas chuvinha fina.

DESCOBRIR
(Poema ao Descobrimento de um Brasil não descoberto)

Um Brasil não descoberto,
todo dia, pela tela,
aparece em minha casa
e me leva.

Um Brasil não descoberto,
toda noite, na novela,
aparece em minha casa
e me vela.

Um Brasil não descoberto,
toda tarde, pela tela,
aparece em minha casa,
cara cela.

Um Brasil não descoberto
sente falta de Cabral,
aparece em minha casa
num canal.

Um Brasil não descoberto
comemora o Carnaval,
aparece em minha casa
num jornal.

Um Brasil não descoberto,
todo dia, se revela.

Um Brasil não descoberto
sente muito e passa mal.

DUPLO SENTIDO

Minha vida está vazia,
foi-se embora de uma vez.

Foi-se agora a fantasia,
não se vê nenhum talvez.

Minha vida está vadia,
foi-se embora ao fim do mês.

Foi-se agora a poesia,
não se vê ninguém feliz.

Minha vida está vazia,
foi-se embora a cicatriz.

Foi-se agora a letargia,
não se tem sequer um bis.

Minha vida está vadia,
foi-se embora como nós.

Foi-se agora a nostalgia,
não se fica mais a sós.

Minha vida está vazia,
já se encheu de Mario Bros.

Foi-se agora a companhia,
não se liga mais a luz.

Minha vida está vadia,
foi-se embora com Jesus.

Foi-se agora o que existia,
mas existe a minha cruz.

Minha vida está vazia,
mas preenche seu lugar.

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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Arquivado em Poemas, São Paulo

Roda de Leitura (5 de Maio, em Guarulhos/SP)


sábado, 5 de Maio de 2012

Das 15h até 17h

Grátis

Biblioteca Comunitária do Coletivo 308
– Rua Paschoalina Migliorini, 121, Ponte Grande, Guarulhos/SP
(Próximo ao E. E. Dom Paulo Rolim Loureiro)

CICLO DISTOPIAS

Dando prosseguimento ao Ciclo Distopias, no mês de maio faremos a discussão da leitura de A REVOLUÇÃO DOS BICHOS, de George Orwell, publicado originalmente em 1945.

Mediação de Lucia Sasaki, bibliotecária, contadora de histórias e mediadora de Rodas de Leitura desde 2008.

É importante que os interessados compareçam com a leitura individual já realizada para facilitar as discussões a respeito do livro, que pode ser emprestado nas bibliotecas públicas.

O projeto Roda de Leitura visa oferecer ao público a oportunidade de leitura e discussão mediada de obras literárias.

Fonte:
Clevane Pessoa

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Arquivado em Encontro Literário, Notícias Em Tempo

Clevane Pessoa (Das Livrarias)

Livrarias são guardiãs temporárias
da Cultura Literária.

Quando as luzes se apagam, saem das páginas adormecidas
toda a Vida ali guardada:estórias, História e pesonagem,
vêm graves ou lépidos ,
conversar, cantarolar, trocar idéias.
Dançam sílfides e fadas,
feiticeiras espalham filtros e magia.
Por isso, as livrarias são encantadas, sempre.

As livrarias são as guardiãs responsáveis
da cultura de um lugar, do Universo,
dos autores e leitores.

E quando vendem Poesia,
estendem um tapete de alegoria
estampado de metáforas.

Mesmo o poema mais metonímico,
mais mínimo,
sempre será anímico
e pleno de parábolas,
chamamentos e sinalizações.
Atinge a alma, com dardos de flores
e perfuma os ares.

A Poesia, é a essência da literatura.

E o livreiro que a elege,
uma alma que a depura
e expõe a quintessência
da palavra.

Fonte:
Poema enviado pela autora

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Arquivado em Minas Gerais, poema.

Clube de Escritores de Ipatinga (Premiação e Lançamento de Coletânea, dia 5 de Maio)

clique sobre a imagem para melhor visualização
Mais uma vez, o Clube de Escritores de Ipatinga nos brinda com uma antologia.

A poeta Marília Siqueira Lacerda organiza certames -inclusive o respeitado CECON_Circuito Estadual de Contos – o jornal da entidade, divulga livros, enfim ,bastante movimentação cultural, agregadora por natureza.

Será dia 05 de maio, haverá a premiação do 11o Circuito de Literatura e a entrega das coletâneas, cuja impressão sempre agrada ao olhar.

A partir das 20 horas, no Centro Cultural USIMINAs. Ipatinga fica no “Vale do Aço”, em Minas Gerais, Brasil.

85 escritores nacionais:

A. Zarfeg
Adriano Alcantara
Aglaé Torres
Agnaldo Tadeu
Alzira Umbelino
Amélia Luz
Andreia Donadon Leal
Angela Togeiro
Angélica Vaccarini
Antônio de Oliveira
Antônio Geraldo
Aroldo Chagas
Braz Henriques
Carlos Alberto Cavalcanti
Carlos Soares de Oliveira
Cesar Cardoso
César Teixeira
Chames Salles Rolim
Cida Pinho
Cirlena Costa
Clara Lúcia
Clauder Arcanjo
Cláudia Bergo
Clevane Pessoa
Dalva Abrahão
Daniel Retamoso
Dércio Braúna
Désio Cafiero Filho
Éder Rodrigues
Édson Roberto
Elza Teixeira de Freitas
Erna Pidner
Eustáquio Gorgone
Fabrício Gortes
France Gripp
Frederico Spada
Gabriel Bicalho
Geraldo Dias Cruz
Geraldo Magela
Goretti de Freitas
Hebe Rôla
Humberto Venuto
J.B.Donadon-Leal
Jefferson Silveira
Jhonatan Oliveira
João Batista Trevenzoli
José Carlos Aragão
José Di Lorenzo Serpa
José Manuel
José Senaldoria
J.S.Ferreira
Kelson Oliveira
Lázaro Barreto
Lenemar Calhau
Ligia Porto
Lúcia Trevenzoli
Luiz Dias Vasconcelos
Luis Pimentel
Marcelo Leite
Marcelo Rocha
Márcia De Conti
Maria Helena Camargos
Marilda Ladeira
Marilia Siqueira Lacerda
Mário Roberto
Marta Miranda
Merivaldo Pinheiro
Moacir Chrisóstomo
Nélio Canêdo
Nely Morato
Nena de Castro
Nivaldo Resende
Odemir Tex Júnior
Pérola Gandra
Romero Lamego
Santos Peres
Sebastião Nascimento
Simone Eberle
Tanussi Cardoso
Vagner Canuto
Vanda Gallinari
Valdir Azambuja
Vanderlei Lourenço
Zarife Selim de Salles

Visitem o site do CLESI:
http://www.clesi.com.br

Fonte:
Clevane Pessoa (Haruko)
Diretora Regional do InBrasCi em belo Horioznte
Acadêmica Fundadora da ALB/Mariana.

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Arquivado em Convite, Lançamento de Livro, Minas Gerais, Premiações

Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, SP/SP (Teatro Infantil: Apresentação de "Lado de Lá")


Com Cia Luarnoar

O infantil relata um pouco das histórias africanas contadas a partir das curiosidades e das observações que este povo faz na natureza. Como, por exemplo: Por que a girafa não fala, por que o morcego só sai à noite, por que o cachorro se tornou um fiel amigo do homem…

Esses questionamentos e inquietações viraram lendas, que revelam a riqueza do povo africano.

Livre.

50 min.

2 de maio (qua) – 14h30

Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato

Fonte:
Secretaria Municipal de Cultura de SP

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Arquivado em peça teatral, Teatro

Vivaldo Terres / SC (Não Sei Por Que lembro?)

Não sei por que lembro agora?
Quando vinhas da escola
Sorrindo a cantarolar.
Com a mochila as costas…
Fazendo zigue e zague.
Para das pedrinhas
Te livrar.

Isso porque tu jogavas…
Nas colegas com o fito…
…de brincar.
E elas faziam o mesmo,
Felizes a caminhar.

Mas durante o trajeto.
Não deixavas de me olhar.
Foi coisa de adolescente…
Mas que te amei…
…loucamente!
Isso não podes negar!

O tempo passou.
Fosses para outra cidade.
Visando um futuro melhor.

Durante esse tempo…
Muita coisa aconteceu.
Foi fácil de me esqueceres…
Pois só quem amou fui eu!

Fonte:
Poema enviado pelo autor

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Arquivado em poema.

Fernando Sabino (O Agrônomo Suíço)


O poeta estava calmamente no bar, tomando um aperitivo, quando lhe telefonaram.

Quem o chamava era eu. O poeta não tem telefone em casa e há dias que eu o vinha procurando: a menos que me tivesse enganado, ele sabia de um amigo seu que conhecia um agrônomo suíço, interessado em administrar fazendas. Ora, outro amigo meu, a quem dei conhecimento da existência desse suíço, me disse que estava precisando exatamente de uma pessoa assim. E me pediu que conseguisse maiores informações com o poeta.

No bar, àquela hora, fazia um barulho infernal. O poeta veio ao telefone e mal conseguiu ouvir o meu nome:

– Quem?

– Eu, rapaz! Então não está conhecendo a minha voz?

– Eu quem?

Levou uns bons cinco minutos para descobrir com quem estava falando. Talvez já tivesse tomado mais de um aperitivo, é possível.

– Que houve? Aconteceu alguma coisa?

Eu mal conseguia escutá-lo e ele não me ouvia de todo:

– Você se lembra daquele agrônomo que um conhecido seu…

– Daquele o quê?

– Daquele AGRÔNOMO!

– Você está enganado, não conheço ninguém com esse nome.

– Eu nem falei ainda o nome dele! É um suíço.

– Luís?

– SUÍÇO! Você um dia me falou…

– Não conheço nenhum Luís. Eu estava pensando que …

– Fale mais alto! Sua voz está sumindo.

– Não, estou por aí mesmo… Você é que anda sumido.

Respirei fundo e voltei à carga:

– Eu sei que você não conhece o suíço. Um conhecido seu é que conhece.

– Escuta, que brincadeira é essa? Eu estava aqui tomando o meu uísque…

– Desculpe incomodá-lo no bar, mas você não tem telefone em casa…

– Não tem importância. Só que está parecendo brincadeira. Entendi você falar num suíço…

– Isso!

– Isso? Ah, eu tinha entendido suíço, imagine.

– Pois é isso mesmo, quer dizer: é suíço mesmo. O homem está em cima de mim para arranjar…

– Que homem? Não estou entendendo nada, muito barulho aqui.

– Um amigo meu, você não conhece. Está precisando de um agrônomo para a fazenda dele.

– Fazendo o quê?

Perdi a paciência:

– Olha, telefona para minha casa amanhã de manhã, está bem?

Mas o poeta agora estava interessado:

– Não precisa se zangar! Aconteceu alguma coisa com você?

– Conversar com bêbado dá é nisso.

– Você está bêbado?

– Bêbado está você, essa é boa!

– Espera! Entendi direitinho você falar que estava bêbado. Deve ser o barulho. Espera um pouco. Ouvi pelo fone sua voz para os que o rodeavam:

– Vocês aí, querem fazer o favor de falar um pouco mais baixo? Um amigo meu está em dificuldades, e eu não escuto nada.

De novo para mim:

– Alô! Pode falar agora que estou ouvindo perfeitamente. Você está precisando de alguma coisa?

– Estou: que você me telefone amanhã de manhã. E desliguei. No dia seguinte era ele quem me procurava:

– Você talvez não se lembre, mas ontem eu estava calmamente no bar, tomando um aperitivo, quando você me telefonou no maior pileque para me contar que estava sendo perseguido por um sujeito chamado Luís. Que você quis dizer com isso?

– Isso, não: suíço – arrematei.

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

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Clarice Lispector (A Quinta História)


Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te… Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de…” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas.

Fonte:
LISPECTOR, Clarice. A Legião Estrangeira. São Paulo: Ática, 1977.

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Esopo (Fábula 6: O Cão e a Sombra)


Um cão, que levava um naco de carne na boca, passava numa ponte sobre um rio, quando viu a sua sombra refletida na água lá em baixo. Pensando que era outro cão que levava um segundo naco de carne, o insaciável do cão não resistiu a atirar-se à água para lhe roubar a carne. É claro que, em vez de lhe roubar o segundo naco de carne, perdeu o que tinha, que caiu ao fundo do rio.

Moral da história

Quem tudo quer, tudo perde. A cobiça acaba por perder aquilo que deseja, e aquele que pretende mais do que lhe é devido merece perder o que tem.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

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Joaquim Manuel de Macedo (As Vítimas-Algozes – Quadros da Escravidão)

O livro As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, foi escrito na segunda metade do século XIX, em 1869, 19 anos antes da Abolição da Escravidão. O livro pertence ao Romantismo, que foi uma escola literária de grande importância para a história de nossa literatura.

A obra não agradou o público oitocentista e recebeu várias críticas publicadas na imprensa, sendo considerado por Ubiratan Machado como “o livro mais atacado pela crítica durante o período romântico”.

As Vítimas-Algozes é, ao seu modo, um romance abolicionista. Não daquele abolicionismo que encontramos nas obras dos poetas acima relacionados. Como explica Macedo, na nota “Aos Nossos Leitores”, não lhe interessou, nas “educativas” e “moralizantes” histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar “o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo”, mas, sim, o “quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor”. Dito de maneira mais direta, o romance antiescravista de Macedo quer convencer os seus leitores de que é preciso libertar os escravos não por razões humanitárias, mas porque os cativos, sempre imiscuídos nas casas-grandes e sobrados, introduzem a corrupção física e moral no seio das famílias brancas.

Na obra o autor expressa a idéia de que a escravidão faz vítimas algozes e deve ser gradualmente extinta, sem prejuízo para os grandes proprietários de terra. Num tom conservador e usando personagens como a escrava Lucinda, o autor defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente, mas com uma perversão lógica, imoral e com influência corruptora.

O tratamento entre patrão e escravo nos últimos anos do cativeiro, uma intimidade que beira o sado-masoquismo foi retratada por Joaquim Manuel de Macedo neste livro. Ele denuncia que, se o escravo é inegavelmente vítima de um regime desumano, a sua presença igualmente desagrega a sociedade branca no que ela teria de mais recomendável.

A obra é um retrato perfeito do Brasil pós-abolicionista.

De acordo com o contexto histórico da época, Joaquim Manuel alertava ao leitor burguês de que o melhor a fazer era gradualmente abolir a escravidão. Depois da abolição, ele explica que os negros foram ‘largados’ nas favelas, como acontece no início do filme “Cidade de Deus”.

Desfilam pelas páginas das três histórias que compõem o livro: o negro feiticeiro, o “moleque” traiçoeiro, a escrava assassina, as negras que se amasiam com seus patrões, a mucama lasciva, os negros desocupados dos botequins, os mulatos espertalhões, enfim, um sem número de tipos que demonstram ao leitor o quão comprometedor da estabilidade social era a presença do escravo na intimidade doméstica.

O objetivo político das três histórias que compõem o livro está claro desde a nota inicial aos leitores. Professando narrar apenas “histórias verdadeiras”, queria firmar, na “consciência” do público, “as verdades que vamos dizer”. Obra de convencimento, portanto, As vítimas-algozes era tentativa de obrigar os leitores a “encarar de face, a medir, a sondar em toda sua profundeza um mal enorme que afeia, infecciona, avilta, deturpa e corrói a nossa sociedade, e a que nossa sociedade ainda se apega semelhante a desgraçada mulher que, tomando o hábito da prostituição, a ela se abandona com indecente desvario”. A retórica é semelhante àquela dos conselheiros de Estado em 1867, e Macedo recita as estrofes do isolamento internacional do país, do exemplo da guerra civil americana, do processo de emancipação em Cuba, e do caráter “implacável” da reforma, “exigência (…) da civilização e do século”. Afirma que a escravidão é “cancro social”, que se não “estirpa (…) sem dor”; mas o “adiamento teimoso do problema” agravaria o mal, pois o país poderia ter de enfrentar a “emancipação imediata e absoluta dos escravos”, colocando “em convulsão o país, em desordem descomunal e em soçobro a riqueza particular e pública, em miséria o povo, em bancarrota o Estado”.

O cenário apocalíptico que Macedo antevê como decorrência de uma possível emancipação imediata dos escravos revela já de início o que seria esta obra, a forma como faz desfilar uma galeria medonha de escravos astuciosos, trapaceiros e devassos, sempre dispostos a ludibriar os senhores e ameaçar os valores e o bem-estar da família senhorial. Preocupado em não deixar nada por explicar, Macedo esclarece que havia dois caminhos a seguir para mostrar aos leitores “a reprovação profunda que deve inspirar a escravidão”. O primeiro consistiria em narrar as misérias e os sofrimentos dos escravos, suas vidas “de amarguras sem termo”, o “inferno perpétuo no mundo negro da escravidão”. Seria o quadro do mal que o senhor faz ao escravo, “ainda sem querer”. O segundo caminho, aquele escolhido por Macedo, mostraria “os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos dos escravos, inimigo natural e rancoroso do seu senhor”. Seria o quadro do mal que o escravo faz ao senhor, “de assentado propósito ou às vezes involuntária e irrefletidamente”.

1ª narrativa – “Simeão, o crioulo”

O protagonista, Simeão, perdera a mãe, que fora ama-de-leite da sinhazinha, aos dois anos, tendo sido criado pelos patrões. Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo.

Tinha algumas regalias em função disso, mas não deixava de ter o estatuto e o tratamento de escravo, fator que se agravava e se tornava mais claro conforme ele se fazia adulto.

Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho.

Devia ter 20 anos, crioulo de raça pura africana, cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, era calçado e tinha vícios de linguagem.

Havia, no entanto, a expectativa de que seria alforriado quando o patrão morresse, o que não acontece, tendo este, em seu testamento, transferido a alforria certa para o momento em que a esposa falecesse.

Simeão, que já alimentava ódio contra os patrões, trama e realiza, juntamente com um comparsa, o assassinato da família toda e o saque do ouro e da prata que guardava. O quadro se reveste de maior crueldade porque os proprietários de Simeão se achavam, no íntimo, protetores bem-intencionados do mesmo, tendo, inclusive, na véspera do crime, decidido que iriam alforriá-lo imediatamente. Não eram, no entanto, capazes de questionar o sistema que os privilegiava, em todos os sentidos, e desumanizava o outro pólo (os escravos) da sociedade. Sistema que, Macedo diz com todas as letras, produz o ódio e o crime, no que o romancista estava se apoiando em dados da sociedade real.

Sua personalidade era ingratidão perversa, indiferença selvagem, inimizade, raiva, vícios, era vadio, dissimulado, ladrão, tinha instintos animais e era atrevido.

Seus senhores eram: Domingos Caetano, Angélica, Florinda e Hermano de Sales. Eram bons e humanos, tinham delicadeza de sentimentos e sentimentos generosos. Honestos e trabalhadores.

O autor constrói um perfil aterrorizante para o escravo, misto de tigre e serpente, de vítima e algoz, capaz de atacar quando menos se espera. Claramente procura amedrontar os brancos senhores de escravos e sugere como solução o fim da escravidão. Solução que configura a tese básica que passa pela conclusão de cada um dos três quadros da escravidão.

A novela não tem por final um desfecho romanesco, mas a reafirmação da tese do autor:

Simeão foi o mais ingrato e perverso dos homens.
Pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso.
A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes.

O narrador é didata: ele explicita a conduta, a forma de agir a ser adotada pelo leitor: Se quereis matar Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a escravidão.

2ª narrativa – “Pai-Raiol”

O feiticeiro. Algumas considerações do autor: o feitiço, como sífilis, veio da Àfrica; o escravo africano é o rei do feitiço.

Paulo Borges era um rico fazendeiro. Casara-se aos quarenta anos com Teresa, uma senhora ainda jovem que já lhe dera 2 filhos.

A compra de 20 escravos, entre eles Pai Raiol e Esméria. É o ano fatal de Paulo Borges. Acontece o adultério.

Os personagens são:

Paulo Borges – 46 anos. Alto, cabelos castanhos e crespos; fronte baixa sob sobrancelhas bastas; olhos pretos e belos, nariz aquilino; boca rasgada, lábios grossos e eróticos; rosto oval e bronzeado; seco de músculos; peitos largos e mãos engrandecidas e calejadas pelo trabalho. O tipo do lavrador honesto que hoje raramente se encontra, do pobre rico que se subtraia ao mundo, e só queria conhecer a roça e a casa, os escravos e a família, trabalhando sempre, gastando pouco, ajuntando muito, e não pesando a nenhum outro homem como ele. Não comprava homens, comprava máquinas; queria braços e não corações; gabava-se de senhor severo e forte, entrava nos seus timbres amansar os negros altanados e incorrigíveis.

Teresa – Jovem, simples de costumes, honesta, laboriosa, afeita à vida rural dos fazendeiros. Dirigia a dispensa, a enfermaria, e a grosseira rouparia dos escravos.

Os filhos Luís e Inês

Pai Raiol – Negro africano de 30 a 36 anos; baixa estatura, corpo exageradamente maior que as pernas; cabeça grande; olhos vesgos, mas brilhantes e impossíveis de se resistir à fixidez do seu olhar pela impressão incômoda do estrabismo duplo e por não sabermos que fruição de magnetismo infernal. Nas faces cicatrizes vultuosas de sarjaduras recebidas na infância: um golpe de azorrague partira pelo meio o lábio superior, e a fenda resultante deixara a descoberto dous dentes brancos, alvejantes, pontudos dentes caninos que pareciam ostentar-se ameaçadores. Sua boca era pois como mal fechada por três lábios; dous superiores e completamente separados, e um inferior perfeito. O rir era hediondo por semelhante deformidade. A barba retorcida e pobre, mal crescida no queixo, como erva mesquinha em solo árido. Suas orelhas perdera o terço da concha na parte superior, cortada irregularmente em violência de castigo ou furor de desordem. Tinha má reputação: desordem com os parceiros, furtos, envenenamentos. Já tivera 4 senhores. O último morrera de ulcerações no estômago e intestinos. Pai– Raiol acabara por dobrar-se humilde às condições da escravidão. Dizem que mudara devido aos seus felizes amores com a crioula Esméria, que com ele convivia e o dominava.

Esméria – Era uma crioula de 20 anos com as rudes feições da sua raça abrandadas pela influência da nova geração em mais suave clima; em seus olhos, porém, e no conjunto de seus traços fisionômicos, havia certa expressão de inteligência e de humildade que agradou à senhora. Esméria não era o que parecia. Refinara o fingimento. Via nos filhos de seus senhores futuros e aborrecidos opressores, e beijava-lhes os pés que às vezes desejava morder. Luzia-lhe nos olhos o amor da senhora, que a amava e distinguia, e lhe dispensava favores, e no fundo do coração maldizia dela. Invejava-lhe os vestidos, os gozos, a condição. Em sua louca vaidade pretendia ser mais bonita, mais bem feita, mais sedutora que Teresa. Era possessa do demônio da luxúria; amava os amantes de sua raça, preferia-os a todos os outros, mas envergonhava-se deles. Aspirava a fortuna do amor, da posse, da paixão delirante de um homem livre e rico. Ao contrário do que se pensava não havia uma influência benéfica de Esméria sobre o Pai-Raiol e sim uma influência satânica do Pai- Raiol sobre Esméria.

Tio Alberto

Lourença

O plano de Pai-Rayol: seis meses depois, os bois e as bestas morriam, e não havia peste: tornaram-se evidentes os sinais de envenenamento.

Em uma noite de ventania, o fogo devorou o imenso canavial. Mais uma vez as bestas, os bois e os carneiros morreram às dezenas, envenenados.

Paulo Borges amava Teresa, mas grosseiro escravo da sensualidade sucumbiu à sedução de Esméria. O demônio da lascívia deu poder à crioula. O senhor, o velho senhor ficou escravo da sua escrava.

O adultério hediondo faz da escrava rival da senhora, rival preferida que desordena a casa, enluta a família, e é cratera aberta do vulcão que espalha a ruína.

Teresa descobre o adultério e a traição: envelhecera 20 anos em 8 dias.

Atropelando a decência, insultando manifestamente a esposa, semeando a indisciplina e a mais perigosa desmoralização na fazenda, Paulo freqüentou de dia e aos olhos de todos, a senzala de Esméria.

Morre Teresa envenenada por Esméria. Esméria assume a casa do amante. Morre o filho recém-nascido de Teresa e Paulo, por falta do aleitamento materno; morrem Luís e Inês envenenados; Esméria começa a envenenar Paulo.

Lourença denuncia Esméria e prova a verdade a Paulo. Pai-Raiol é morto em uma luta pelo tio Alberto que é alforriado por Paulo. Esméria é presa. Paulo Borges arrasta sombria velhice atormentado pelos remorsos.

3ª narrativa – “Lucinda – A mucama”

É o terceiro e último romance em As vítimas-algozes.

Os personagens são:

Lucinda – “Engomo, coso, penteio e sei fazer bonecas”; a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro de criaturas humanas, que se chama escravidão. Tem 12 anos, um pouco magra, de estatura regular, ligeira de movimentos, afetada sem excesso condenável no andar. Muito viva e alegre com pretensões a bom gosto no vestir; com aparências de compostura decente nos modos; diligente e satisfeita no trabalho. Trazia dissimuladamente escondidos os conhecimentos e noviciados dos vícios e das perversões da escravidão; corrupta, licenciosa, imoral; indigna de se aproximar de uma senhora honesta, quanto mais de uma inocente menina.

Plácido Rodrigues – padrinho de Cândida, o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar; pai de Frederico.

Frederico – perdeu a mãe ao nascer e foi amamentado por Leonídia. Inteligente e estudioso. Reflexão fria e segurança de juízo. Foi juntamente com Liberato à Europa para fazer estudos regulares de agricultura e pretendiam continuar os estudos nos Estados Unidos. Fronte magnífica, a face porém descarnada, de ossos salientes, pálida, desproporcionada e melancólica, os olhos ardentes. Dedicado aos amigos e na dedicação capaz de ir até a heroicidade. Muito racional. Era ele o planejado noivo de Cândida.

Cândida – loura, olhos azuis e belos, olhar de suavidade cativadora; rosto oval da cor da magnólia com duas rosas a insinuarem-se nas faces; os lábios quase imperceptivelmente arqueados, lindíssimos, os dentes iguais, de justa proporção e de esmalte puríssimo; as mãos e os pés de perfeição e delicadeza maravilhosas; o pescoço e o corpo com a gentileza própria de sua idade. Cândida antes de Lucinda tinha 11 anos e com a perfeita inocência de sua primeira infância; espírito cheio de luz suave e idéias serenas e preciosas; eeu coração era um altar adornado pelo amor de seus pais. Cândida de pois de Lucinda era capaz de ser ardilosa e dissimulada para enganar a mãe; “prendeu a alma às palavras venenosas, às explicações necessariamente imorais da escrava”.

Florêncio da Silva – honrado, inteligente e rico negociante; um pouco agricultor por distração e gosto: bom, afável e generoso, repartindo as sobras da riqueza que acumulava com os pobres que não eram vadios; tinha poderosa e legítima influência eleitoral e política na sua comarca.

Leonídia – esposa modelo; mãe extremosa.

Liberato – irmão mais velho de Cândida; bonito de rosto e elegante de figura; fazia seus estudos preparatórios na Corte; muito amigo de Frederico, inteligente e estudioso; possuía brilhantismo de imaginação.

Alfredo Souvanel – Amigo de Liberato e Frederico. Encontraram–se na Suíça. Tinha 26 anos, estatura regular, louro, de olhos cintilantes, era de aspecto agradável, bem talhado de corpo. Esmerava-se no trajar, embora não tivesse muitos recursos. Tinha instrução superficial, mas inteligência fácil, espírito, e gênio alegre. Habilíssimo pianista e excelente voz de barítono. Era francês, mas esperava ganhar dinheiro no Brasil ensinando piano e canto. Era o mais alegrão, travesso, original, espirituoso e endiabrado companheiro de folganças. Tornou-se professor de Cândida.

A narrativa conta a história de Cândida, filha de honrado negociante e agricultor do interior da província do Rio de Janeiro. Em seu aniversário de onze anos, a menina recebera de presente do padrinho, Plácido Rodrigues, “o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar”, uma escrava crioula chamada Lucinda, de doze anos, que havia sido enviada à Corte para aprender a servir de mucama. A mucama logo conquistou a senhorinha ao dizer que sabia fazer bonecas e penteá-las. O padrinho empenhara-se em conseguir uma escrava que pudesse agradar a afilhada porque sabia que a menina andava triste devido à recente partida de Joana, “uma boa senhora, mulher pobre, mas livre e de sãos costumes, que fora sua ama de leite e a idolatrava como seus pais”. Joana, que enviuvara ainda moça, encontrara segundo noivo num “laborioso e honrado lavrador”, deixando por isso a sua adorada Cândida “com o maior pesar”.

Macedo oferece uma primeira ilustração de sua tese no romance ao contrastar a virtuosíssima Joana com a mucama Lucinda. Joana é descrita como uma “segunda mãe”, “criada amiga”, “companheira do seu quarto de dormir”, mulher “simples, boa e religiosa”. Cândida perdera “a companhia da mulher que era nobre, porque era livre” e que servia com o “coração cheio de amor generoso”, algo só possível “quando a liberdade exclui toda imposição de deveres forçados por vontade absoluta de senhor”. Em substituição, a menina recebera a crioula quase de sua idade, “a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro desumanizador de criaturas humanas, que se chama escravidão”. Diante desse quadro os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sendo que o maior desafio é entender o porquê de Macedo ter achado necessário escrever quase quatrocentas páginas para contar essa história. A mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente nos anos seguintes. Ensina-lhe o que ocorre quando a menina vira moça, desperta-lhe a curiosidade pelos rapazes, ministra-lhe lições de flerte e namoro, mostra-lhe ser mais divertido namorar vários rapazes ao mesmo tempo, e assim por diante, num desfilar constante de idéias destinadas a “excitar os sentidos” da donzela cândida e pura. As lições de amor da mucama eram inspiradas “pelo sensualismo brutal, em que se resume todo o amor nos escravos”; portanto, “a mucama escrava ao pé da menina e da donzela é o charco posto em comunicação com a fonte límpida”.

Com a mucama escrava infiltrada no quarto da donzela, foi possível a um conquistador barato, um francês estróina e ladrão, insinuar-se aos amores de Cândida, conquistá-la efetivamente e tirar-lhe o maior símbolo da honestidade feminina. Lucinda, criatura ruim como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, tornara-se ela mesma amante de Souvanel, tramara tudo com ele, e até abrira o quarto da virgem para a consumação do delito. A idéia dos biltres era forçar o casamento de Souvanel com Cândida; dado o golpe do baú, Lucinda ganharia a liberdade e ficaria teúda e manteúda do francês. No final, Frederico, criatura virtuosa como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, filho do padrinho de Cândida, apaixonado por ela desde menino, perdoa o erro da amada e casa com ela. Descobrira-se que Souvanel era na verdade Dermany, criminoso procurado na França. O vilão é preso e deportado. Lucinda e o pajem do pai de Cândida, também envolvido na trama para aproximar Souvanel da donzela, fogem dos senhores, são capturados, mas acabam abandonados ao poder público pela família. Frederico, o anjo, fecha o romance e o nosso martírio com um discurso abolicionista que aqui transcrevo, para martirizar o leitor, ou ao menos para dividir com ele o meu sofrimento. O discurso aparece nas páginas 388 e 389 do segundo volume de As vítimas-algozes (o primeiro volume, com outras duas histórias). Referindo-se a Lucinda e ao pajem, “esses dous traidores e perversos”, Frederico disse:

– Árvore da escravidão deram seus frutos. Quem pede ao charco água pura, saúde à peste, vida ao veneno que mata, moralidade à depravação, é louco. Dizeis que com os escravos, e pelo seu trabalho vos enriqueceis: que seja assim; mas em primeiro lugar donde tirais o direito da opressão? …em face de que Deus vos direis senhores de homens, que são homens como vós, e de que vos intitulais donos, senhores, árbitros absolutos? … e depois com esses escravos ao pé de vós, em torno de vós, com esses miseráveis degradados pela condição violentada, engolfados nos vícios mais torpes, materializados, corruptos, apodrecidos na escravidão, pestíferos pelo viver no pantanal [“patanal”, no original] da peste e tão vis tão perigosos postos em contato convosco, com vossas esposas, com vossas filhas, que podereis esperar desses escravos, do seu contato obrigado, da sua influência fatal? …Oh! bani a escravidão!… a escravidão é um crime da sociedade escravagista, e a escravidão se vinga desmoralizando, envenenando [“evenenando”, no original], desonrando, empestando, assassinando seus opressores. Oh! …bani a escravidão! bani a escravidão! bani a escravidão!….

Nota: Ainda que Macedo atribua os defeitos morais de Lucinda e seus pares à instituição da escravidão, a sua descrição dos cativos é tão impiedosamente desfavorável que torna-se difícil pensar na possibilidade de que essas pessoas, uma vez libertas, possam usufruir de direitos de cidadania e participar da vida política. De fato, uma característica intrigante de vários pronunciamentos favoráveis à lei de 1871 era a descrição dos escravos como seres quase destituídos de humanidade, pois a violência da instituição os desprovia de cultura, de regras de comportamento; por conseguinte, não desenvolviam laços de família, relacionavam-se sexualmente como animais, atacavam os senhores como bestas feras. Enfim, pareciam condenados a uma espécie de coisificação moral, resultado direto de sua condição de propriedade, de sua representação como coisa no direito positivo.

Fonte:
Passeiweb

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A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Maranhão

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28 de abril de 2012 · 00:33

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 9)

Gato Maestro

Uma Trova do Pessoa

Mesmo que lhe desagrade
dentre os sabores prefira
o amargo de uma verdade
ao doce de uma mentira.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA (CE)

Uma Trova de Porto Alegre

Num encontro repentino,
sem promessas, sem espera,
tu foste meu desatino
e nosso amor foi quimera
CLÊNIO BORGES (RS)

Uma Trova Paranaense

O pranto na mocidade,
qualquer brisa põe em fuga;
E o que restar de umidade,
o toque de um beijo enxuga.
LOURDES STROZZI (PR)

Trova Premiada

1994 – XI Jogos Florais de Ribeirão Preto/SP
Tema Nacional: Brega – 1. Lugar

“Meu bem” – indaga o marido
“O que é brega… que eu não sei?”
“– É aquela saia, querido,
que me deste e eu, nunca usei.
HELOISA ZANCONATO PINTO (MG)

Um Poetrix

oh jardineira
SILVANA GUIMARÃES (MG)

eu vou te contar um caso:
o vaso ruim quebrou,
mas sobrou eu, seja como flor.

Uma Trova da Vânia

O elemento H2O
Fonte de vida e energia,
vale mais do que ouro em pó.
Nossa maior loteria!
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES (PR)

Trovadores que Deixaram Saudade

Vem, palhaço, sem tardança,
com teus trejeitos, teus chistes,
e acorda a alegre criança
que dorme nos homens tristes…
ELTON CARVALHO (RJ)

Élton Carvalho nasceu em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, no dia 29 de agosto de 1916 e faleceu na mesma Cidade, no dia 03 de março de 1994. Foi casado com Maria Nascimento Santos Carvalho.

Élton Carvalho iniciou sua carreira militar na Arma de Infantaria e, graças aos seus esforços e dedicação, pôde encerrá-la como General-de-Divisão do Exército Brasileiro, depois de permanecer na instituição por mais de quatro décadas. Exerceu, por muitos anos, a função de Professor Catedrático de Filosofia, no Colégio Militar do Rio de Janeiro.

A partir de 1970, ingressou, como Professor, na Escola Superior de Guerra, tendo realizado mais de 100 Conferências, em todo o território nacional.

Como era contista e compositor, compôs o dobrado do 13º Batalhão do Exército de Ponta Grossa – PR, em coautoria com o General de Exército Ernani Airosa, ex- ministro da Guerra no governo do General João Figueiredo e Everaldo José da Silva. Este dobrado até hoje é executado nos eventos militares da região.

Em 1983, reformou-se no Exército.

Élton publicou vários livros: “Instantâneos”, 1973 (200 Trovas líricas e filosóficas); “Sogra, Coroa, Bebida e Outras Bombas”,1974 (200 trovas humorísticas); “Ciranda de Sonhos”, 1979, (200 trovas líricas e filosóficas); “Aquarelas”, 1981 (500 trovas líricas e filosóficas); “Rosas na Pedra” 1984 , (com 40 poemas e 25 sonetos) e “Sogra… & Outras Piadas” 1993, (com 250 trovas humorísticas).

Foi o único autor a produzir dois livros exclusivamente com trovas humorísticas. Escreveu um mini romance: “A História do Sapateiro” infanto-juvenil e “Miragens” Sonetos.

Deixou inéditos os livros : Oásis; Ferro Velho; Rosas na Pedra; A Vida em Quatro Versos; Feira de Humor; Piadas sem Sal; Sucata; (todos de trovas) A História do mau Sapateiro; (mini-conto), Miragens; (sonetos) etc

Élton Carvalho, que fazia Trovas de todos os gêneros, apesar de produzir muitas trovas humorísticas brincando com as sogras, as coroas, era um grande admirador das mulheres e um genro excepcional, que demonstrava em cada palavra, em cada gesto, o carinho e o respeito que devotava à sua sogra, à sogra de seus amigos, às pessoas idosas, aos humildes.

Um Haikai

Primavera
EUNICE ARRUDA (SP)

Por entre as flores
procurando pela mãe
Dia de Finados

Uma Trova Do Ademar

Todinho, suco e licor,
ou qualquer outra iguaria,
jamais se iguala ao sabor
do “café que mãe fazia”!
ADEMAR MACEDO (RN)

Uma Fábula em Versos

O Carvalho e o Caniço
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Dizia ao caniço robusto carvalho:
“Sou grande, sou forte;
És débil e deves, com justos motivos,
Queixar-te da sorte!

Inclinas-te ao peso da frágil carriça;
E a leve bafagem.
Que enruga das águas a linha tranqüila
Te averga a folhagem.

Mas minha cimeira tufões assoberba.
Com serras entesta;
Do sol aos fulgores barreiras opondo,
Domina a floresta.

Qual rija lufada, do zéfiro o sopro,
Te soa aos ouvidos,
E a mim se afiguram suaves favônios
Do Norte os bramidos.

Se desta ramagem, que ensombra os contornos,
A abrigo nasceras,
Amparo eu te fora de suis e procelas,
E menos sofreras.

Mas tens como berço brejais e alagados,
Que o vento devasta.
Confesso que sobram razões de acusares
A sorte madrasta.”

Responde o caniço: “Das almas sensíveis
É ter compaixão;
Mas crede que os ventos, não menos que os fracos,
Minazes vos são.

Eu vergo e não quebro. Da luta com o vento
Fazeis grande alarde:
Julgais que heis de sempre zombar das borrascas?
Até ver não é tarde.”

Mal isto dissera, dispara do fundo
Dum céu carregado
O mais formidável dos filhos que o Norte
No seio há gerado.

Ereto o carvalho, faz frente à refrega;
E o frágil arbusto
Vergando, flexível — do vento aos arrancos
Resiste, sem custo.

Mas logo a nortada, dobrando de força,
Por terra lançava
O roble que às nuvens se erguia e as raízes
No chão profundava.

Uma Estória da Trova

Na década de 70, havia no Rio e Janeiro, um “artista”, que se apresentava em boates, restaurantes e bares, dizendo Trovas! Seu nome era Milton e ele se assinava de forma original: “1.000ton”.
Milton Santos Lima, carioca, funcionário aposentado da Prefeitura, fazia sucesso com trovas assim:
Para uma mesa onde não havia mulheres

Quem não bebe, joga ou fuma,
tem o seu valor qualquer.
Mas não vale cousa alguma
quem não gosta de mulher!
(ARAIFE DAVID)

Numa mesa onde havia uma mulher bonita

Ai, Maria Maricota,
que beleza tem você!
Quem vai na frente não nota,
quem vai atrás é que vê!!!
(NELSON LUZ)

Quando sabia que os ocupantes da mesa eram noivos

Lá vem os noivos chegando…
Assisto a festa e… depois…
fico invejoso pensando
na festa só deles dois…
(ADAUTO GONDIM)

Apesar do gosto e do conhecimento de Trovas, ao que se saiba, o Milton nunca fez trovas ou participou de entidades trovadorescas.

Alguma Poesia

Envelhecer Feliz
ROBERTO CALDAS (CE)

Olhar a vida,
depois dos anos passados
é perguntar ao tempo
o que foi feito mesmo
do tempo que nos foi dado.

Sentir que os cabelos embranqueceram,
os filhos, sempre pequenos, cresceram;
apareceram deles outros herdeiros
e que tantos carnavais vividos
é sempre um convite para vivê-los mais.

Viver mais, no limite máximo
que o desígnio do viver permita;
não ser econômico em gostar da vida:
fazer festa, ser a comida, a bebida,
ser espetáculo para ser visto e pedido bis.

Não ter vergonha de ser feliz,
se quadrado, quadrado,
se moderno, moderno… e daí?

Passou o tempo de ter compostura,
mergulhar em alegria pura,
ser, como nunca antes, audaz.

Saber-se obra por Deus construída
e jamais lamentar as feridas,
aos ingratos esboçar perdão,
das saudades fazer um colchão,
pra lembrar das maravilhas fruídas.

Ser idoso é coroamento
de um ciclo que o sol simboliza,
é passar de calor abrasante
que a força da juventude esparge
para o calor plácido e amigo
que, sem ele,
talvez nenhum ser sobreviva.

Envelhecer feliz
é provar que VIVER VALE A PENA!

Uma Trova do Sinésio

Quatro versos: eis a prova,
sim, num texto independente,
da grandeza de uma trova.
Sete sílabas somente.
SINÉSIO CABRAL (CE)

Um Soneto

Auto-Retrato
EDMAR JAPIASSU MAIA (RJ)

Nem sei há quanto tempo que um sorriso
não enfeita o meu rosto macerado
pelas dores que têm me dominado,
pelos árduos caminhos que hoje piso…

Bem sei o quanto tenho me esforçado
para encontrar o amor de que preciso,
e transportar-me em luz ao paraíso
de sonhos que a ilusão me tem negado…

Quando tristonho ao pranto me condeno,
percebo ser no pranto um Ser pequeno,
que na apatia busca o seu abrigo.

E a sorte, nos seus rasgos de avareza,
não deixa que eu me dispa da tristeza,
e possa parecer menos comigo!

Fontes:
seleção por José Feldman
– O Trovadoresco. Natal/RN , outubro de 2006, n. 16.
– Calêndula Literária – UBT Porto Alegre, n. 327. 2005.
– Boletim Informativo Nacional da UBT – junho 2006, n. 455.
– Boletim Informativo Nacional da UBT – 2009, n. 494
– Mensageiro da Poesia, Fortaleza/CE – outubro 2009, n. 275.
– Mensageiro da Poesia, Fortaleza/CE – agosto 2009, n. 273
– Binóculo, Fortaleza/CE – julho 2009, n. 92.

Biografia de Élton por Maria Nascimento Santos Carvalho. in http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2690883

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Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 3

Mãe

A mãe é o ser que confia
em seu filho, a toda prova.
Ora, age e renuncia
para vê-lo em senda nova.

A fórmula da paz caseira

Brigas em casa, à vontade?
Eis a fórmula eficaz:
ouvir com serenidade
+ perdão = a paz.

Família – opção pelo ser

Fama, glória, altas vistas…
Minimiza sempre o ter.
Liberdade tu conquistas
Aperfeiçoando o Ser.

Amor em família

Em família, a vida é feita
de senões, a cada instante.
Não podendo ser perfeita,
tendo o amor… Eis o bastante.

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

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Clotilde Tavares (Aconteceu na Caatinga)

Era meio-dia e a caatinga brilhava à luz incandescente do Sol. O pequeno Calango deslizou rápido sobre o solo seco, cheio de gravetos e pedras, parando na frente do majestoso Mandacaru, que apontava para o céu seus espinhos, os grandes braços abertos em cruz.

– Mandacaru! Mandacaru! Eu ouvi os homens conversando lá adiante e eles estavam dizendo que, como a caatinga está muito seca e cor de cinza, vão trazer do estrangeiro umas árvores que ficam sempre verdes quando crescem e estão sempre cheias de folhas.

– Mas que novidade é essa? – falou a Jurema.

– Coisa de gente besta – disse o Cardeiro, fazendo um muxoxo irritado e atirando espinhos para todo lado.

– Eu é que não acredito nessas novidades – sussurrou o pequeno e tímido Preá.

A velha Cobra, cheia de escamas de vidro e da idade do mundo, só fez balançar a cabeça de um lado para o outro e, como se achasse que não valia a pena falar, ficou em silêncio.

E no outro dia, bem cedinho, os homens já haviam plantado centenas de arvorezinhas muito agitadas, serelepes e faceiras, que falavam todas ao mesmo tempo na língua lá delas, reclamando de tudo: do Sol, da poeira, dos bichos e das plantas nativas, que elas achavam pobres, feias e espinhentas. Enquanto falavam, farfalhavam e balançavam os pequenos galhos, que iam crescendo, ganhando folhas e ficando cada vez mais fortes.

Enquanto isso, as plantas da caatinga, acostumadas a viver com pouca água, começaram a notar que essa água estava cada vez mais difícil de encontrar. As raízes do Mandacaru, da Jurema e do Cardeiro cavavam, cavavam e só encontravam a terra seca e esturricada.

O Calango então se reuniu com os outros bichos e plantas para encontrar uma solução. E foi a velha Cobra quem matou a charada:

– Quem está causando a seca são essas plantinhas importadas e metidas a besta! Eu me arrastei por debaixo da terra e vi o que elas fazem: bebem toda a nossa água e não deixam nada para a gente.

– Oxente! – gritou o Calango. – Então vou contar isso aos homens e pedir uma solução.

Mas logo o Calango voltou, triste e decepcionado.

– Os homens não me deram atenção – disse. – Falaram que eu não tenho instrução, não fiz universidade e que eu estou atrapalhando o progresso da caatinga.

E todos os bichos e plantas ficaram tristes, mas estavam com tanta sede que nem sequer puderam chorar: não havia água para fabricar as lágrimas. Por muitos dias ficaram assim e quando estavam à beira da morte houve um movimento: era o Preá, que levantou o narizinho, farejou o ar e, esquecendo a timidez, gritou:

– Estou sentindo cheiro de água!

– É mesmo! – gritaram todos.

– O que será que aconteceu? – perguntou a Jurema.

– Eu vou ver o que foi – e o Calango saiu veloz, espalhando poeira para todos os lados.

O Mandacaru estirou os braços, espreguiçou-se e sorriu:

– Estou recebendo água de novo! Hum… É muito bom! Mas vejam! O Calango está de volta com novidades!

E espichando meio palmo de língua de fora, morto de cansado pela carreira, o Calango contou tudo.

– As pequenas bandidas verdes, depois de beber quase toda a água da caatinga, estavam ameaçando a água dos rios e dos açudes perto das cidades. Os homens então viram o perigo e deram fim a todas elas. Estamos salvos!

E todos ficaram alegres, sentindo a água subir pelas raízes. Olharam para o céu azul da caatinga, aquele céu claro, o Sol brilhante, olharam uns para os outros e viram que eram irmãos, na mesma natureza, no mesmo tempo, na mesma Terra.

E a velha Cobra, desenroscando-se toda lentamente, piscou o olho e concluiu:

– É como dizia minha avó: cada macaco no seu galho!

Fonte:
Revista Nova Escola

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Arquivado em A Escritora com a Palavra, Rio Grande do Norte

Clotilde Tavares (1947)


CLOTILDE TAVARES é paraibana de Campina Grande (dezembro de 1947), filha de Nilo e Cleuza.

Graduou-se em Medicina pela UFRN em 1975, e em 1983 obteve o título de Mestre em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE.

Radicou-se em Natal e, como professora da UFRN desde 1976, dedicou-se à pesquisa no campo da Saúde Pública. Especialista em Epidemiologia pela UFRN.

O Teatro, a Literatura e os estudos sobre cultura popular também ocuparam lugar de destaque na sua vida, como atividade paralela.

A partir de 1993 passou a se dedicar exclusivamente às atividades artísticas e intelectuais, transferindo-se do Departamento de Saúde Coletiva e Nutrição da UFRN, onde ensinava desde 1976, para o Departamento de Artes da mesma Universidade.

Mesmo aposentada, continua exercendo intensa atividade cultural. Escreve em jornais, é atriz e diretora de teatro, dramaturga e desenvolve estudos na área da cultura popular, além de promover eventos culturais.

Divide suas atividades entre os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Fontes:
http://www.clotildenews.digi.com.br/eumesma.htm
http://www.skoob.com.br/autor/1543-clotilde-tavares

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Clarice Lispector (A Lucidez Perigosa)


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa actual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Fonte:
Portal São Francisco

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Rubem Braga (Como se fora um Coração Postiço…)


Nasceu, na doce Budapest, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há 7 anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”

Como se fora um coração postiço. . . O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria: a hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. .

Madrugada paulistana. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos – borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.

Vamos andar pelas praças desertas, onde as estátuas molhadas cabeceiam de sono. Menino do coração fora do peito, os primeiros bondes estrondam. Vamos ouvir de perto esses barulhos da madrugada.

6 horas. O coração fora do peito bate docemente. 7 horas – o coração bate… 8 horas- que sol claro, que barulho na rua!- o coração bate…

9 horas- morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem morrer, menino. O dr. Mereje resmunga: “Filho de pais alcoólatras e sifilíticos. . .” Deixe falar o dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os “pais alcoólatras e sifilíticos” fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado!- diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados.

O que é isso, “seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: “o dr. Mereje disse que. . .”- mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. ” Então o menino diz:

– Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vênto, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança…

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

– Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

– Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:

– E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum… E quando eu nasci, o dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: “parece um coração postiço”. Os homens todos, minha gente, são assim como o dr. Mereje.

Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema, e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, dr. Mereje!

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

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J. G. de Araújo Jorge (Começo de História)

Era uma vez, há muito… uma vila bisonha,
nada mais que um humilde e pequeno povoado
na longínqua fazenda de “Morro Queimado”…
– Umas casas na encosta da montanha,
e à frente a floresta, e a descer tal como uma serpente
pelo fundo do vale: a corrente do rio
com seu dorso de prata arrepiado de frio…

Foi no ano e mil oitocentos e dezoito,
(e era um plano talvez aventureiro e afoito)
– que D. João… (há de a História fazer-lhe Justiça!)
trouxe das altas serras dos cantões da Suíça
para colonizar a terra brasileira
100 famílias de gente pacífica e ordeira.

Ampliou-se depois… E as casas de madeira,
– como um trecho da Suíça em terra brasileira –
foram crescendo ao léu, pelo fundo do vale,
aconchegando aos ombros o vermelho xale
dos telhados, – tremendo ao frio e à geada,
sem ter uma lareira na sala apropriada…

Casas avarandadas, rústicas e belas,
com gerânios no friso alegre das janelas,
olhando o panorama claro e matinal
e a pensar que ainda estavam na terra natal!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo, 1961.

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Esopo (Fábula 5: O Leão, o Urso e a Raposa)


Um leão e um urso tinham apanhado um veadinho que depressa mataram. Mal o fizeram, começaram os dois a brigar para ficarem com ele. Tão longa e dura foi a batalha que, por fim, ficaram cansados e deitaram-se para ganhar fôlego.

Nesse momento, uma raposa que por ali passara correu como uma seta, agarrou no veado e levou-o. Os dois rivais tinham visto o que se passara, mas estavam muito cansados para interferir.

“Que tolos nós fomos!”, disseram eles. “Em vez de nos contentarmos em dividir a nossa presa, lutámos um com o outro, e agora perdemos tudo por causa da esperta da raposa!”

Moral da história

Quando duas pessoas litigam pelos seus direitos, acontece muitas vezes que um terceiro, mais inteligente, se aproveita da presa.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

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IV Prêmio de Literatura Unifor (Classificação Final)


Na noite de 25 de abril, foram conhecidos os vencedores do IV Prêmio de Literatura Unifor, que nesta edição contemplou o gênero poesia. Ao todo foram inscritos cerca de 350 trabalhos de 180 participantes, entre concorrentes do Ceará, Distrito Federal, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em solenidade realizada no Teatro Celina Queiroz, o livro “Cem pequenas poesias do dia a dia”, de autoria do paulista André Kondo, foi anunciado o grande vencedor na categoria Obra Inédita, que recebeu como prêmio uma viagem a Washington, para visitar a Biblioteca Nacional do Congresso Americano, além da publicação da obra.

Na categoria Trabalhos Inéditos, 20 autores foram premiados. O primeiro lugar ganhou uma viagem ao Rio de Janeiro, para visitar a Biblioteca Nacional, e os classificados do 2º ao 20º lugar foram agraciados com a publicação dos trabalhos numa coletânea, sendo disponibilizado 20 exemplares a cada um.

Confira os ganhadores:

Categoria: Obra Inédita

1º lugar – Cem pequenas poesias do dia a dia – André Kondo

Categoria: Trabalhos Inéditos

1º lugar – A menina e o mar – Perpétua Amorim
2º lugar – É melhor que fique assim – Nemésio Dias Silva Filho
3º lugar – Procissão – Maria Lúcia Sales Crisóstomo
4º lugar – Não sei como me sinto – Kalina Grangeiro Landim
5º lugar – Fotografia – José Osterno Campos de Araújo
6º lugar – Vermelho em dois tons – Talita Cavalcante Nogueira
7º lugar – Memórias de Macabéa – Lúcio Flávio Gondim da Silva
8º lugar – Poema de quando tudo é eterno – Valmir Luiz Saldanha
9º lugar – Tradição – Tatiana Alves Soares Caldas
10º lugar – Caminho Azul – Ana Cristina Mendes Gomes
11º lugar – Saudade – Francisco Edmar de Freitas
12º lugar – Ciranda da menina – Vera do Nascimento Alves
13º lugar – Pelas luzes do pé de carambola – Alan Mendonça
14º lugar – Das cores das flores – Ivaíze Rodrigues
15º lugar – O entardecer – Valdemir de Castro Pacheco
16º lugar – Antes da saudade de antes – Silvana Michele Ramos
17º lugar – Estação – André Kondo
18º lugar – Para José Alcides Pinto – Antônio Flávio da Silva
19º lugar – Fundo Infinito – Éder Rodrigues
20º lugar – Ela monta um sorriso – Thiago Fonseca Veras

Fonte:
http://concursos-literarios.blogspot.com

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Prêmio São Paulo de Literatura (Prazo até 2 de maio)


Última semana de inscrições para o Prêmio São Paulo de Literatura 2012

Prêmio do Governo do Estado de São Paulo concede R$ 400 mil, no total, para melhor autor e melhor autor estreante com livros publicados em 2011

O Prêmio São Paulo de Literatura entra em sua última semana de inscrições. Como a data final cai num domingo (29 de abril), a entrega da documentação poderá ser feita até 2/5, após o feriado.

Oferecido pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, é a maior premiação do gênero no País, com total de R$ 400 mil para os vencedores das categorias Melhor Livro e Melhor Livro do Ano – Autor Estreante. Podem ser inscritos romances de ficção em língua portuguesa publicados pela primeira vez em 2011.

Criado em 2008, o Prêmio São Paulo de Literatura vem se consolidando na valorização da produção literária e estímulo aos novos autores. No ano passado, o Prêmio consagrou o estreante Marcelo Ferroni com Método prático de guerrilha e também celebrou Rubens Figueiredo com a obra Passageiro do fim do dia.

Até o prazo limite para inscrições, os escritores e editoras podem entregar a documentação necessária pessoalmente ou enviar via correios para a Secretaria de Estado da Cultura / Núcleo de Protocolo e Expedição – Rua Mauá, 51, Luz. São Paulo – SP. CEP 01028-900.

O regulamento completo está disponível no site http://www.cultura.sp.gov.br.

Acesse aqui o edital e inscreva-se.

Fonte:

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I Concurso Literário de Pedro Leopoldo (Prorrogado até 15 de Maio)

Premiação:

I) Em cada gênero: 1º lugar: troféu e certificado; 2º lugar: medalha e certificado; 3° lugar: medalha e certificado

Prazo: Prorrogado até 15 de Maio de 2012

Organização:
Blog Cultura de Pedro Leopoldo, com a parceria da Padaria Santos
Contato: concursoliterariopl@gmail.com

Regulamento:

Pelo presente Regulamento está aberto o I Concurso Literário de Pedro Leopoldo. O Concurso Literário de Pedro Leopoldo, organizado pelo Blog Cultura de Pedro Leopoldo em parceria com a Padaria Santos. O Concurso Literário tem por finalidades valorizar e divulgar obras literárias produzidas no município, estimular novos talentos, valorizar a expressão literária, incentivar a difusão da produção literária e o gosto pela escrita e leitura em Pedro Leopoldo. Este Concurso objetiva também a difusão da cultura como valor educativo e o fortalecimento de espaços de convivência como ambientes difusores da arte e da literatura.

1. O Concurso Literário de Pedro Leopoldo é aberto a participantes residentes, trabalhadores, estudantes ou nascidos em Pedro Leopoldo, maiores ou menores de idade – os últimos, com autorização expressa do pai, mãe ou responsável.

2. O tema desta primeira edição é HUMOR, podendo o/a autor/a inscrever obras nos seguintes gêneros

1. Poesia
2. Conto ou mini-conto
3. Causo
4. Crônica
5. Peça teatral/ texto de dramaturgia
6. Biografia/ autobiografia
7. Quadrinhos e/ou charge
8. Lendas (rurais e/ou urbanas)

Não serão admitidas obras publicadas em qualquer veículo ou suporte, mantido o ineditismo inclusive durante a vigência do concurso, não admitida obra publicada na íntegra ou parcialmente em qualquer veículo ou suporte, sendo impresso ou virtual incluindo redes sociais, jornais, blogs etc.

Serão admitidas obras compostas por textos e/ou imagens, com ou sem projeto gráfico e escritas na língua portuguesa (para o caso de obras contendo textos), com um ou mais autores. Não há limite de páginas nem especificação de suporte/tamanho para apresentação das obras.

3. Serão eliminadas obras que exprimam quaisquer tipos de preconceitos, sejam religiosos, raciais, sexuais, de gênero, de classe social etc. Serão eliminadas obras que estimulem humilhações e violência.

4. Cada participante poderá inscrever quantas obras quiser, em qualquer gênero previsto no concurso.

5. As obras devem ser enviadas por correio postal. Será exigido: 1 via impressa, em envelope maior, sendo obra com capa com nome do Concurso, pseudônimo(s), acompanhada de CD-ROM com arquivo digital da obra inscrita. Em envelope separado, menor, lacrado, deverá conter a identificação do concorrente: ficha de inscrição (modelo anexo a este Regulamento), Termo de Cessão de direitos autorais (modelo anexo a este Regulamento), nome completo, pseudônimo, título do texto, data de nascimento, grau de escolaridade, CPF, endereço, e-mail, autorização do pai ou responsável (no caso de participante menor de idade – modelo anexo a este Regulamento), telefone, e-mail, documentos pessoais comprovando naturalidade, trabalho, estudo ou residência em Pedro Leopoldo, e breve currículo (aproximadamente cinco linhas). No exterior do envelope menor, que deverá estar lacrado, deverão constar apenas o pseudônimo do autor e o título do texto/obra. Para cada obra inscrita, o autor deverá obedecer a este procedimento.

No caso de autor menor de 18 anos será exigida a Ficha de autorização dos pais ou responsáveis para inscrição no Concurso (Anexo II).

6. As inscrições estão abertas e encerram-se em 15 de maio de 2012, valendo a data da postagem (data de correio) para aferição do cumprimento do prazo. Será eliminada obra encaminhada extemporaneamente ou entregue pessoalmente no endereço previsto. É pré-requisito para participação no Concurso a entrega por correio da obra inscrita, obedecendo-se os critérios de manutenção do sigilo em relação à autoria previstos neste regulamento. A critério exclusivo das entidades promotoras do Concurso, a data do encerramento das inscrições pode ser prorrogada.

7. Será automaticamente eliminado o texto que não satisfizer as exigências prescritas.

8. A obra inscrita deverá ser enviada para o seguinte endereço com destinatário

I Concurso Literário de Pedro Leopoldo 2012
Rua Comendador Antônio Alves, 268
Centro
Pedro Leopoldo/MG
33600-000
Gênero (especificar)

Como remetente, obrigatoriamente, deve contar, no envelope maior, apenas o Pseudônimo do autor e o seu endereço. A identificação de autoria deve constar dentro do envelope de postagem, em envelope menor, conforme orientação deste Regulamento.

9 – Para julgar os textos será nomeada uma Comissão constituída por membros de notória competência literária, mantida em anonimato.

10 – A premiação constará de 1 certificado, 1 troféu para primeiro colocado e medalha e certificado para segundos e terceiros colocados em cada gênero. No caso de haver mais de um autor, a premiação manter-se-á única.

11. Além dos três textos premiados em cada gênero, a comissão julgadora poderá atribuir menções honrosas, mediante concessão de Certificados e/ou Medalhas.

12. Divulgado o resultado e recebido o prêmio, na hipótese de ser apurada alguma fraude, como, por exemplo, o plágio e a paráfrase, o autor responderá por medidas judiciais pertinentes.

13. A entidade promotora do Concurso não arcará com o reembolso de despesas referentes à postagem dos textos, nem com o deslocamento e hospedagem dos ganhadores para comparecerem à cerimônia da entrega dos resultados.

14. Acerca do resultado do Concurso, os vencedores serão comunicados por telefone, por e-mail e pelo Blog Cultura de Pedro Leopoldo, a partir de 08 de junho de 2012. O regulamento e o resultado também ficarão disponíveis em culturadepedroleopoldo.wordpress.com

15. Não haverá, em hipótese alguma, devolução dos textos/das obras concorrentes. Findo o Concurso, e com a óbvia exceção dos textos premiados/selecionados, os demais serão incinerados, juntamente com os envelopes de identificação.

16. A publicação das obras premiadas dependerá de apoio cultural posterior À realização do Concurso, ficando reservados os direitos autorais à Organização do Concurso. Este Concurso Literário não tem finalidade lucrativa.

17. A comissão julgadora poderá deixar de atribuir o prêmio se considerar que a ele nenhum dos textos/obras concorrentes faz jus.

18. As decisões da comissão julgadora são soberanas e irrecorríveis.

19. Os vencedores do Concurso declaram, desde já, serem de suas autorias os textos/obras concorrentes, ao mesmo tempo em que, ao se inscreverem no Concurso, cedem e transferem direitos autorais aos Organizadores para publicação futura em meio digital (e impresso), sem quaisquer ônus, em caráter definitivo, plena e totalmente, com todos os direitos autorais sobre os referidos textos, para qualquer tipo de utilização, publicação ou reprodução.

20. A participação do Concurso implica o conhecimento e aceitação automática do participante a todas as cláusulas do presente regulamento.

21. Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Comissão Julgadora e pelos Organizadores do Concurso. Dúvidas e informações devem ser encaminhadas exclusivamente para o e-mail concursoliterariopl@gmail.com

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Concurso Nacional de Verso e Arte (Prazo: 30 de Junho)

Premiação:
I) Exposição, Medalhas e Certificados

Prazo: Os trabalhos serão recebidos até dia 30 de Junho de 2012

Organização:
Movimento Infanto-Juvenil Crescendo com Arte
artmicaversoearte@gmail.com

Regulamento:

I – Elaboração dos trabalhos

1. Proposta: O participante deverá pesquisar sobre o tema e criar uma poesia sobre uma arte ou um artista da natureza e ilustrar a poesia com uma pintura ou um desenho, alusivo à poesia, também de sua autoria. Poesia e ilustração deverão ser do mesmo autor;

2.Tema: A natureza e seus seres animais, vegetais e minerais;

3. Papel para o Trabalho: Folha sulfite (de desenho, canson ou similar) na cor branca ou reciclada no tamanho A4;

4. Planejamento: Dividir imaginariamente a folha de papel A4 em duas partes. Na parte superior ficará a ilustração e na parte inferior a poesia. Veja modelo no blog do MICA http://artmica.blogspot.com/;

5. Ilustração: O desenho ou pintura alusivo à poesia poderá ser feito a grafite, lápis de cor, giz de cera ou com qualquer tipo de tinta e deverá ser realizado na parte superior da folha. O desenho deverá ser feito na mesma folha da poesia e não colado sobre esta;

6. Poesia: A poesia deverá ser escrita abaixo da ilustração Deverá ser digitada na folha A4 em tamanho bem legível (de preferência na fonte arial ou times new roman) ou escrita em letra de forma. Poderá ser soneto, haicai, trova, quadrinha, ou um poema curto de qualquer outro gênero, que não poderá ultrapassar uma folha, onde acima estará a ilustração. A poesia deverá ter um título, colocado acima da poesia. Abaixo da poesia deverá constar apenas o nome completo do autor. Os demais dados, como idade, cidade, escola, serão colocados pela comissão organizadora do concurso em etiqueta na base do papel-cartão;

7. Montagem do trabalho: Após estar pronto o trabalho, a poesia (o verso) e a ilustração (a arte), colar com cola bastão a folha A4 em uma base de papel-cartão ou similar com dimensões de 30 X 40 cm, em cor forte, para contrastar com o branco do sulfite. Poesia e Arte, ou seja, todo o trabalho, será composto por apenas uma folha;

8. Identificação: Será feita na parte de trás da base/moldura de papel-cartão de 30 X40 cm, contendo: título da poesia, nome completo do autor(sem abreviar), idade, nome do professor(sem abreviar), endereço com CEP e e.mail da escola ou instituição. No caso de ser enviado individualmente, os dados do mesmo.

9. Envio dos trabalhos: Será aceito apenas um trabalho por participante com idade entre 6 e 16 anos. Sendo que, cada escola ou instituição poderá enviar quantos trabalhos quiser. Trabalhos realizados e enviados individualmente também serão aceitos.

10. Listagem dos trabalhos: Fica a cargo da escola ou instituição a elaboração de uma lista (solicite o modelo) com todos os títulos, nomes completos dos participantes (sem abreviações) e suas respectivas idades, nomes dos professores (um por lista), nome completo da escola ou instituição, endereço (com CEP) e e.mail (indispensável). Esta lista deve ser anexada aos trabalhos, no envio.

11. Não serão aceitos: Trabalhos que retratarem artes por adestramento de animais de estimação, animais em circo ou em outro tipo de espetáculo ou competição e de elementos da natureza que tenham sofrido a intervenção humana.

II -Envio dos trabalhos
Enviar pelo Correio Postal para o seguinte endereço:

Parque Estadual da Cantareira – Núcleo Pedra Grande
AC. Programa de Uso Público

Rua do Horto, 1799 – Bairro do Horto Florestal
CEP: 02377-000 São Paulo – SP

Data-limite de recebimento
(não de postagem) dos trabalhos:
30 de junho de 2012

III – Seleção dos trabalhos

1. A seleção, que qualificará os trabalhos para uma mostra e a escolha daqueles para os quais serão conferidas premiações será feita por júri formado por profissionais de reconhecido mérito, das áreas de Educação, Psicologia, Artes Plásticas e Cultura. A decisão se baseará nos seguintes critérios: adequação ao tema, materiais discriminados no regulamento, originalidade, técnica e criatividade.

2. Os trabalhos serão separados em 4 faixas etárias para as seleção e premiação.

3. A aceitação deste regulamento implica no reconhecimento da soberania da decisão da comissão julgadora, podendo a mesma, não conferir as seleção e premiação. Das decisões não caberão quaisquer tipos de recursos.

4. Os trabalhos, selecionados ou não, não serão devolvidos e poderão ser usados em outras mostras, independentemente da escolha da primeira seleção.

5. Os trabalhos selecionados serão expostos em mostra a ser realizada em agosto de 2012 no Museu da Pedra Grande.

6. Todos os autores dos trabalhos concordam, assim como seus responsáveis (pais ou tutores) e respectivas instituições/escolas, por força deste regulamento, em ceder sua imagem e de sua obra em divulgações relacionadas ao evento, sendo garantidos os direitos autorais, mas sem receber qualquer remuneração pelo uso dessas imagens.

IV -Premiação

1. Aos melhores trabalhos de cada faixa etária serão conferidas Medalhas para os 1º, 2º e 3º lugares e Menções Honrosas para 4º e 5º lugares

2. Aos trabalhos selecionados para a Mostra e não premiados, serão conferidos Certificados de Participação.

3. Aos professores que orientaram os autores dos trabalhos premiados do 1º ao 5º lugares de cada faixa etária receberão Certificados de Mérito Cultural.

V -Disposições Finais

1. O descumprimento de qualquer item deste regulamento acarretará a imediata eliminação do trabalho concorrente.

2. A inscrição neste concurso implica na plena e total aceitação deste regulamento, cabendo ao participante e aos orientadores seguirem as regras em sua totalidade.

3. Dúvidas quanto à interpretação deste regulamento e resolução do mesmo serão dirimidas junto à Comissão Organizadora.

Fontes:
http://artmica.blogspot.com.br/p/concurso-nacional-de-verso-e-arte.html
http://concursos-literarios.blogspot.com

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A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Goiás

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26 de abril de 2012 · 17:38

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 8)


Uma Trova do Edmar

Junto às roseiras formosas,
onde o amor aconteceu,
pairava o frescor das rosas,
mas o perfume…era teu!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA (RJ)

Uma Trova de Nova Friburgo

Quando o orgulho é o timoneiro
das viagens da paixão,
qualquer que seja o roteiro
não encontra direção.
ELISABETH SOUZA CRUZ (RJ)

Uma Trova Paranaense

Os mais ditosos momentos
de toda esta minha vida
foram os dois nascimentos
de minha prole querida!
MARIA ELIANA PALMA (PR)

Trova Premiada

1993 – XVI Jogos Florais de Pouso Alegre/MG
Tema Nacional: ILUSÃO – 3o. Lugar

Sempre a um jovem me assemelho
pois nas horas de sol posto
a ilusão embaça o espelho
e apaga a ruga em meu rosto!
EUGÊNIA MARIA RODRIGUES (MG)

Um Poetrix

perda de tempo
SILVIA MOTA (MG)

de tempos em tempos
enquanto homens resmungam
renova-se o Tempo.

Uma Trova da Carolina

Se eu sinto fugir a calma
e até viver me angustia,
eu abro as janelas da alma
e deixo entrar a Poesia!
CAROLINA RAMOS (SP)

Trovadores que Deixaram Saudade

Quanto mais o tempo avança,
mais eu fico a perceber
que a saudade é uma lembrança
que se esquece de morrer.
MIGUEL RUSSOWSKY (SC)

Miguel Kopstein Russowsky, filho de Jacob Russowsky e de Eva Russowsky, nasceu em 21/06/1923 em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Casou-se com Vitória Toaldo Russowsky e teve quatro filhos.

Cursou o primário na Escola São José, em Jaguari e o secundário no Colégio Estadual Santa Maria (Maristas), entre 1933 e 1940 (pré-médico). Em 1940 entrou na medicina URGS e formou-se em 1946, aos vinte e três anos em Porto Alegre. Exerceu clínica e cirurgia geral durante os últimos 50 anos de profissão, sempre pela medicina livre, sem vínculos empregatícios.

Transferiu-se, posteriormente, para Joaçaba-SC, onde se tornou médico-empresário. Fundador e Diretor do Hospital São Miguel, de Joaçaba-SC, um dos maiores da região. Exerceu com denodo a medicina livre, atuando como clínico e cirurgia geral, até 2006.

Mas, Miguel não era só médico, foi Enxadrista, com passagens nos jogos abertos de Santa Catarina, Empresário e proprietário de Hotéis, Cinemas e, sobretudo, um poeta-literato brilhante. Um campeão em concursos nacionais e internacionais de poesias e trovas. Foi assim que conquistou uma legião de amigos e admiradores pelo Brasil e exterior. Sonetista por excelência e trovador dos mais fluentes.

Nove (9) vezes Primeiro Prêmio em Sonetos, em concursos nacionais, e várias vezes em outras colocações. Onze (11) Primeiros Prêmios em concursos nacionais de poesias.

Ocupou a Cadeira nº 28 da Academia Sul-Brasileira de Letras.
Membro da UBT,
da Casa do Poeta “Lampião de Gás”,
do Movimento Poético, em São Paulo e
outras Entidades Lítero-culturais, além de colaborador de jornais, revistas, como o FANAL, ESTRO, A FIGUEIRA, entre outros alternativos.

O poeta sempre foi um mestre em tudo quanto fez. Fazia elogios e críticas construtivas quando necessário.

Dr. Miguel Russowsky curava as doenças do corpo com sua já consagrada habilidade médica, e as da alma com sua poesia de primeira qualidade, frutos de muito esforço, segundo costumava dizer.

Na primeira noite de outubro de 2009, sofreu um acidente de trânsito no centro de Joaçaba, a poucas quadras de casa. Com ferimentos na cabeça e três costelas fraturadas, foi atendido em seu próprio hospital. Faleceu na tarde de sábado, dia 03 de outubro de 2009, em decorrência de insuficiência renal.

Livros publicados:
Céu de Estrelas – 1951 (reeditado)
O Julgamento de Tiradentes – 1980 (peça teatral)
O Segredo do Pântano – 1983 (peça encenada pelo Grupo
Teatral Eugênio Marcheti, de Herval d´Oeste)
Poesias Melancólicas – 1994
Noite de Lua – 1996
Cadeira de Balanço – 1998
Confeitos de quimera – 2000
Cantares de um vulcão quase extinto – 2005

Um Haikai

Primavera
EDSON KENJI IURA (SP)

Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.

Uma Trova da Dinair

Na esperança verde e bela
há o otimismo de luz!
Se a porta fecha, a janela
se abre em par e o sol reluz!
DINAIR LEITE (PR)

Uma Fábula em Versos

O Galo e a Pérola
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Um galo achou num terreiro
Uma pérola, e ligeiro
Corre a um lapidário e diz:
“Isto é bom, é de valia.
De milho um grão todavia
Era um achado mais feliz”.

Um néscio ficou herdeiro
De um manuscrito, e a um livreiro
Vai à pressa, e fala assim:
“É bom, é livro acabado.
Concordo, mas um ducado
Valia mais para mim!”

Alguma Poesia

Cortesia
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (MG/RJ)

Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
– Este mundo está perdido!

Agora que ninguém porta
nem lembrança do chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.

Uma Trova Do Fabiano

Rouba a loja e logo estaca,
sem remorsos na consciência,
depois de ler numa placa:
“Grato pela preferência”…
JOSÉ FABIANO (MG)

Um Soneto

Em 19 de setembro de 1999, logo após a solenidade de premiação do Concurso de Trovas de Amparo/SP, onde a trovadora Eliana Dagmar deu mais outra prova de como se deve bem receber os irmãos trovadores, alguns trovadores foram desfrutar das alegrias da noite daquela tradicional e aprazível cidade paulista. Entre chopes, salames e queijos, os poetas presentes, após o inusitado atendimento do garçom, decidiram fazer um soneto a oito mãos. O soneto que segue abaixo, leva o nome dos autores abaixo de cada quarteto e terceto.
Um Jantar no Pau de Arara

Quando o garçom chegou desajeitado
servindo a mesa com total descaso,
a sopa que me trouxe em prato raso
esparramou-se, ao chão… por todo lado!
(HELOÍSA ZANCONATO/MG)

Confesso que fiquei bem irritado
e a minha reação foi um “arraso”:
– Chutei cadeiras, destruí um vaso
e botei p’rá correr o desgraçado!
(RENATA PACCOLA/SP)

Depois me arrependi – (pobre garçom!) –
que educado não foi para ser bom
e servir com respeito a freguesia…
(THALMA TAVARES/SP)

Então, deu uma “grana” para o “cara”,
que veio do Pará num “pau de arara”,
e há tempo uma gorjeta merecia!!!
(EDUARDO TOLEDO/MG)

Fontes:
seleção por José Feldman
Biografia de Miguel Russowski
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=10723&cat=Ensaios&vinda=S
http://www.recantodasletras.com.br/homenagens/1855259
http://www.hospitalsaomiguel.com.br/historia.php
Soneto obtido no Boletim Informativo da UBT Nacional, n. 492, p.4.

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Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 2

A dolorosa roda da herança

Roda de dor, muita antiga,
pesada, que não avança…
Até hoje, o que se briga
pela partilha da herança!…

Amor ao próximo mais próximo

Se aos estranhos dou incenso
e aos da casa só o fel,
onde a paz, o amor imenso,
se o desatino é cruel?…

Quem educa é detentor do futuro

Se corrijo e disciplino
o solo, garanto os grãos:
ao educar o menino
guardo o futuro nas mãos.

Em busca da família perfeita

– Quero a família perfeita,
antecipando o porvir.
Diz o Bem: – Você aceita
ser o primeiro a servir?…

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

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Marcia Paganini Cavéquia (A Menina e o Sapo)


Nina, menina airosa, formosa como ela só.
Bonito era ver Nina correr.
Ora corria rápido, feito tufão, ora devagar, parecendo brisa.

Nina corria pelo jardim.
Nina caía no gramado.
Nina fazia folia. E ria.

À noite, cansada das travessuras do dia, a menina dormia.

Certa vez, enquanto passeava pelo jardim, Nina viu um sapo.
Sapo também viu Nina.
“Será que, se Nina beijar o sapo, sapo vira príncipe?”
Nina não sabia, mas ficava imaginando como isso seria.

Nina beijou o sapo.
Sapo continuou sapo.
Não virou príncipe.
Mas se apaixonou por Nina.

Agora, onde Nina está, lá se vê o sapo apaixonado suspirando pela menina.

Na cabeça do sapo, Nina é uma princesa-sapa, transformada em menina por uma terrível feiticeira.
—————-
Marcia Paganini Cavéquia, autora deste conto, é pós-graduada em Metodologia do Ensino pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Fonte:
Revista Nova Escola

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Esopo (Fábula 4: O Milhafre e os Pombos)


Uns pombos, que tinham sido atacados por um falcão, foram ter com um milhafre e pediram-lhe que os protegesse. O milhafre foi devidamente coroado como rei dos pombos e prometeu solenemente guardar os seus súditos.

Mas, passado pouco tempo, o milhafre disse-lhes que agora era o rei e que tinha o direito de levar e comer um pombo sempre que lhe apetecesse. O resto da família do milhafre fez o mesmo, e os pombos depressa compreenderam que o milhafre estava a causar maior perturbação em poucas semanas do que o falcão causara em muitos meses.

“Não merecemos outra coisa!”, lamentaram-se os pombos. “Não o devíamos ter deixado entrar!”

Moral da história

É perigoso pedir a proteção dum homem perigoso e cheio de ambições. Pode estar unicamente interessado a proteger-se a si próprio.
——

Nota:
Milhafre, também conhecido por milhano ou bilhano, é a designação comum dada às aves do género Milvus e Circus da família Accipitridae. Nos Açores a designação corresponde às aves da espécie Buteo buteo ssp. rothschildi, também chamadas queimado ou águia-de-asa-redonda.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

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XVII Jogos Florais de Curitiba (Resultado Final)

– ÂMBITO NACIONAL/INTERNACIONAL – (Língua Portuguesa, exceto Paraná) –

TEMA: JUSTIÇA: (L/F)

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Maria Melinni de Araújo Garcia (Caicó – RN)
2º Lugar: José Ouverney (Pindamonhangaba-SP)
3º Lugar: Alba Christina Campos Netto (São Paulo – SP)
4º Lugar: Sergio Ferreira da Silva (Santo André – SP)
4° Lugar: Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba – SP)
5º Lugar: Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora – MG)

Obs:– Nos vencedores, houve um empate no 4o. lugar

Menções Honrosas: Por ordem de alfabética

Carolina Ramos (Santos – SP)
Darly O. Barros (São Paulo – SP)
José Ouverney (Pindamonhangaba – SP)
José Tavares de Lima (Juiz de Fora – MG)
Manoel Cavalcante de Souza Castro (Pau dos Ferros – RN)
Marina Bruna (São Paulo)
Messias da Rocha (Juiz de Fora – MG)
Wanderley Rodrigues Moreira (Santos – SP)
Menções Especiais: Por ordem de alfabética
Ederson Cardoso de Lima (Niterói- RJ)
Elen de Novais Felix (Niterói – RJ)
Izo Goldman (São Paulo – SP)
José Tavares de Lima (Juiz de Fora – MG) – (duas trovas)
Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba – SP)
Renata Paccola (São Paulo- SP)
Therezinha Dieguez Brisolla (São Paulo – SP)

Comissão Julgadora do Concurso:
Antonio Augusto de Assis
Janske Schlenker
Luíza Nelma Fillus
Olga Agulhon
Vanda Fagundes Queiroz
Coordenação Geral: Andréa Motta.

====

TEMA: TAPA (Humor):

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Wanda de Paula Mourtthé – (Belo Horizonte/MG)
2º Lugar: Pedro Mello (São Paulo/ SP)
3º Lugar: Elen de Novais Felix (Niterói/RJ)
4º Lugar: Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora/MG)
5º Lugar: Djalda Winter Santos (Rio de Janeiro/RJ)

Menções Honrosas:

Campos Sales (São Paulo/SP)
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora/MG)
José Lucas de Barros (Natal/ RN)
Roberto Tchepelentyky (São Paulo/SP)
Thereza Costa Val (Belo Horizonte/MG)

Menções Especiais:

Edmar Japiassú Maia (Nova Friburgo/RJ)
Eliana Ruiz Jimenez (Balneário Camboriú /SC).
Flávio Roberto Stefani (Porto Alegre /RS)
Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba/SP)
Messias da Rocha (Juiz de Fora/MG)

Comissão Julgadora do Concurso:
Nei Garcez
Roza de Oliveira
Wandira Fagundes Queiroz

Coordenação Geral: Andréa Motta.
======

AMBITO ESTADUAL

TEMA: TESOURO: (L/F)

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Antônio Augusto de Assis
2º Lugar: Roza de Oliveira
3º Lugar: Dari Pereira
4º Lugar: Vanda Fagundes Queiroz
5º Lugar: Antônio Augusto de Assis

Menção Honrosa: Por ordem alfabética

Antonio Augusto de Assis
Maria da Conceição Fagundes
Nei Garcez
Roza de Oliveira
Vanda Fagundes Queiroz

Menção Especial: Por ordem alfabética
Istela Marina Gotelipe Lima
Luiza Nelma Fillus
Maria Aparecida Pires
Maria Helena Oliveira Costa
Nei Garcez

TEMA: TESOURA (Humor):

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Vanda Fagundes Queiroz
2º Lugar: Antônio Augusto de Assis
3º Lugar: Antônio Augusto de Assis
4º Lugar: Maria Aparecida Pires
5º Lugar: Walneide Fagundes S. Guedes

Menções Honrosas: Por ordem alfabética

Antônio Augusto de Assis
Maria Aparecida Pires
Maria da Conceição Fagundes
Vanda Fagundes Queiroz (duas trovas)

Menções Especiais:

Istela Marina Gotelipe Lima
Nei Garcez (duas trovas)
Roza de Oliveira
Yara Mara de Castro Araújo.

Comissão Julgadora do Concurso:
José Lucas de Barros – Natal-RN
Thalma Tavares – São Simão-SP
Wanda de Paula Mourthé – Belo Horizonte-MG
Coordenação Geral: Professor Garcia.

=====

XVII Juegos Florales –Curitiba -PR-Brasil-2012
LÍNGUA ESPANHOLA

Tema: “Justicia”

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1° Lugar: Maria Cristina Fervier (Argentina)
2° Lugar: Rafael Ramos Nápoles (Venezuela)
3° Lugar Cristina Oliveira Chávez (USA)
3° Lugar Martha Alicia Qui Aguirre (México)

Mención Honrosa: (Por orden alfabética)

Cristina Oliveira Chávez (USA)
Martha Alicia Qui Aguirre (México)
Martha Senovia V. Vélez (Colombia)
Miguel Ángel Almada (Argentina)
Ricardo Ducoing ( México)
Teresa de Jesús R. Lara (España Islas Canarias)

Mención Especial: (Por orden alfabética)

Alicia Borgogno (Argentina)
Ángela Desirée Palacios (Venezuela)
Carmen Patiño Fernández (España)
Catalina Margarita Mangione (Argentina)
Freddy Ramos Carmona (México)
Nerina Thomas (Argentina)
Urbano Vilchis Miranda (USA)

Comisión Julgadora:
A. A. de Assis
Eliana Ruiz Jimenez
Francisco Garcia
Lisete Johnson

Coordinadora:
Gislaine Canales

Curitiba, 25 de abril de 2012.
Abraços fraternos,

Andréa Motta
Presidente da UBT-Curitiba

Fonte:
Resultado enviado por A. A. de Assis

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A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Espírito Santo

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25 de abril de 2012 · 20:40

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 7)

Uma Trova do Ouverney

Fugir, poeta, não queiras,
do que a vida preceitua:
teu destino é abrir fronteiras
e deixar que o sonho flua!
JOSÉ OUVERNEY (SP)

Uma Trova de Juiz de Fora

No inverno longo e silente,
que atinge a terceira idade,
há um fenômeno envolvente:
não cai neve… cai saudade!
JOSÉ MESSIAS BRAZ (MG)

Uma Trova Paranaense

Se no comer se extasia,
não pense que é o maioral.
Logo depois vem a azia:
“quem passa bem, passa mal”.
CECILIANO ENNES NETO (PR)

Trova Premiada

2010 – Concurso Associados da Seção São Paulo (Veteranos)
Tema- ORVALHO – Vencedor

Uma gotinha de orvalho…
E o poeta percebeu
que era lágrima do galho
chorando a flor que morreu!
CAMPOS SALES (SP)

Um Poetrix

geomética mente
TASSO ROSSI (RO)

tuas curvas,
meus planos…
tangentes.

Uma Trova do De Cápua

Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.
CLÁUDIO DE CAPUA (SP)

Trovadores que Deixaram Saudade

De manhã, se a vista espalho
para olhar coisas mimosas,
vejo pérolas de orvalho
sobre as pétalas de rosas…
ANALICE FEITOZA DE LIMA (SP)

Nasceu na Fazenda Cruz de São Miguel, município de Bom Conselho, estado de Pernambuco, no dia 18 de setembro de 1938 e faleceu em São Paulo, a 13 de janeiro de 2012. Filha de Pedro Feitoza de Lima e de D. Joanira Feitoza de Lima.

Escriturária aposentada, fez o Curso Prático de Comércio, diplomada em acordeon pelo Conservatório Musical Mangione (SP). Fez o curso de Metodologia Intelectual e outros. Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia,Ciências e Letras “Santana”, de São Paulo.

Assídua colaboradora da Imprensa, pertenceu à Casa do Poeta de São Paulo, União Brasileira de Escritores (UBE-SP), União Brasileira de Trovadores (UBT-SP), Clube da Simpatia-Olhão-Portugal, Casa de Francisca Júlia,da cidade de Eldorado (SP), Movimento Poético em São Paulo e outras.

Faz parte de várias coletâneas. Premiada em vários concursos de trova, poesias e haicais. Foi vice-presidente da Casa do Poeta “Lampião de Gás” de São Paulo. Colaborou com poesia em vários programas de Rádio.”Saudade Também tem Hora”, na extinta Rádio Excelsior de São Paulo,do radialista Délio Santos; Rádio Piratininga de São Paulo, e Rádio Mulher, nos de Silvana Aguiar. Na Rádio Cometa, de São Paulo, dizia poesias em um programa que a Casa do Poeta apresentava. Algumas vezes foi ao programa de Valdir Brambila, na Rádio Nacional de São Paulo, atual Rádio Globo. Em inúmeras ocasiões disse poesias no “Cantinho Poético “, de Maria de Lourdes Macedo, poetisa que ficou mais de vinte anos na Rádio São Paulo. Também colaborou no “Velho Realejo” do radialista Salomão Júnior. No programa de Alexandre Nemeth, na Rádio Gazeta de São Paulo. Participou , ainda, de vários programas da radialista Ariana Villar, nas rádios: Boa Nova de Guarulhos-SP; Cumbica; Ponto FM; Nova Tropical FM, etc.

Autora dos livros de poesias: APELOS DO CORAÇÃO, 1989, E CORAÇÃO EM CHAMAS, 2002.

Um Haikai

Orvalho
BENEDITA AZEVEDO (RJ)

Trilha na janela –
Gotas de orvalho escorrem
pela vidraça

Uma Trova da Yedda

Nosso amor, nossos carinhos,
vão conosco na viagem,
pondo flores nos caminhos
e embelezando a paisagem!
YEDDA PATRÍCIO (SP)

Uma Fábula em Versos

A Cigarra e a Formiga
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

– Amiga – diz a cigarra
– Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
– À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora!

Alguma Poesia

Noturno
IALMAR PIO SCHNEIDER (RS)

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Tem paciência,
Diz-me a consciência.
Mas um soluço me corta o fôlego.
Espero o sol como a criança
Fica na esperança
De receber um presente
Do Papai-Noel.

Oh! Como vai distante
O sonho não realizado,
A incerteza do amanhã.

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Sinto a solidão,
Não há perdão.
Oh! Poema caótico,
Confuso poema,
Vive o momento de ansiedade sem alivio,
É teu destino turvo continuar.

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Obstinadamente recebo emanações de luz
Na escuridão.
Quero ser alguém liberto das catástrofes,
Vencer o “Medo à Liberdade”.
Enfrentar meu castigo,
Fugir do perigo.

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Lamentar o que?
Eu preciso de você
Nestas horas incoerentes
Que se arrastam devagar.
Aqui junto de mim,
Aguardando amanhecer o dia,
Cheio de alegria
Para uma vida nova;
Enfim, rejuvenescer
E ser capaz de ser audaz, e ser jovial.

A noite é longa e muito mais se estenderá…

Uma Trova da Renata

Que os rumos de meus irmãos
não se percam nas estradas
e as vias de duas mãos
sejam vias de mãos dadas!
RENATA PACCOLA (SP)

Um Soneto

Acesa Chama
A. A. de Assis (PR)

Feliz aquele que aprendeu a amar
amando os filhos e a mulher querida,
e ao lado deles dá sentido à vida
edificando um verdadeiro lar.

Feliz aquele que ao voltar da lida
unida encontra à mesa do jantar
uma família com quem partilhar
os belos frutos da missão cumprida.

Feliz aquele, enfim, cuja energia
concentra-se em levar a quem o ama,
além do pão, a máxima alegria,

assim mantendo em casa acesa a chama
de um bem-querer que no seu dia a dia
a cada dia cresce e mais se inflama.

Fontes:
seleção por José Feldman
Fonte da Biografia de Analice: http://www.haicai.com.br/analicefeitoza.htm

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Wagner Marques Lopes (A FAMÍLIA em trovas), parte 1

Família, pedra angular da sociedade
Família – pedra angular
da sociedade e da raça.
Sem ela, esboroa o lar
e a cultura se esfumaça.
Família e renovação
Onde o infiel se renova?…
Luz dos céus, zelo divino!
A família aceita a prova,
reajustando o menino.
Família, estrela inapagável
Família é sol – força e vida –
quem há de obscurecê-la?
A nuvem mais densa é fluida,
de vez não tolda uma estrela.
Opção: família ou egoísmo?
Desde a mais remota era
a família tem valor.
Sem ela, o egoísmo impera
num circo avassalador.
Fonte:
O Autor

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Esopo (Fábula 3: O Lobo e o Cordeiro)


Estava um lobo a beber água num rio, quando avistou um cordeiro que também bebia da mesma água, um pouco mais abaixo. Mal viu o cordeiro, o lobo foi ter com ele.

“Que vem a ser isto, seu malandro ?”, disse o lobo. “Que pretendes, turvando a água para que eu não possa bebê-la ?”

“Desculpa”, replicou o cordeiro, “mas, como eu estava a beber mais abaixo, não pensei sujar a água onde tu estavas.”

O lobo estava resolvido a brigar com o cordeiro.

“Pode ser”, disse ele “mas há uns meses disseste mal de mim nas minhas costas, seu malvado.”

“Não pode ser”, disse o cordeiro.”Há seis meses eu ainda nem sequer tinha nascido!”

“O quê?”, disse o lobo. “Não tens vergonha? Toda a tua família sempre odiou a minha. Se não foste tu que disseste mal de mim, foi o teu pai!”

E, dizendo isto, o lobo saltou para cima do pobre cordeiro, despedaçou-o e comeu-o.

Moral da história

Os que são desprovidos de sentimentos humanos raramente darão ouvidos à voz da razão.
Quando o poder é dado à crueldade e à injustiça, é inútil argumentar contra eles, porque o
opressor achará sempre maneira de culpar a sua confiada vítima.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

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Fernando Paganatto (Livro de Sonetos)

clique sobre a imagem para melhor visualização

SÃO AMORES?

São amores estas ondas que trazes
Vindas de continentes tão distantes,
Que descrevo, agora, em versos e frases,
Em eternos e pequenos instantes?

São? Ora, me contas uma quimera!
E são as ondas como são amores,
Este incessante vai-e-vem? Quem dera,
Seria tão mais fácil aos amadores!

Mas não! Mais amor do que as ondas são
Recifes que na praia ao longe avisto
E misturam-se, ao horizonte, ao mar.

Marés altas e baixas passarão
E estas pedras tão imóveis, insisto,
Ficarão para sempre em nosso olhar.

GAVETA

Sonha nos braços da amada
Viver pra sempre o poeta,
Como uma frase olvidada
No fundo de uma gaveta.

Não que não será usada.
A frase, inda que secreta,
Vive n’alma apaixonada
E por esse amor completa.

E existe no seio amado,
De frases uma gaveta
A espera de seu poeta.

Para que na hora correta
Possa recitar ao lado
Do motivo de seu fado.

SONHO SOBRE UM CAMPO DE CENTEIO

Voando passei por prado de centeio
Vereda abriu sob meu ventre voador
Voltava num vasto devaneio
Vôo d’alma livre como dum condor

E os trigos gritavam: Sim, ele veio!
E me olhavam os ares com pudor
A tudo em volta voava eu alheio
De tal modo a sonhar ser sonhador

As estrelas calam a fala ao meio
Escala o sol a terra com ardor
Cola a noite o horizonte ao seio

Do menino a luz nos olhos é dor
Lembrar-se torna, ao travesseiro, anseio
De um futuro, de sonhos, rimador.

DOCE MEL

Doce mel de vívidos canaviais,
É a baba dos deuses pelos manjares.
Tem, portanto, propriedades vitais
Como a cura para certos pesares.

E estes pesares são os passionais,
Que vivem espreitando nossos lares
Afim de levar um coração mais
Para o umbral das almas que não têm pares.

Sim, amigo etílico, você entende
O que um homem pode, algum dia, passar.
O ruim é que teu consolo mal rende:

Os olhos já começam a pesar,
O som já quase não mais se compreende
E tudo que se deseja é acordar.

DA TRISTEZA D’MAR

Triste é o mar que é só mar
E milhas à frente nada,
A não ser o alvo luar
E minha rota ignorada.

Triste, então, é meu pensar
Na breve vida passada,
E dirijo ao mar o olhar,
Ao desejar ser tocada

Minh’alma por belas mãos,
Que acariciam, ao vento,
Em farta imaginação,

O bom de haver sofrimento.
Mas, teus olhos voltarão,
Quando não houver mais tempo.

SONETO DO TEU PARTIR

O que restou, somente, foi teu lenço
Largado, na partida, sobre o cais.
Acompanhando-o está meu silêncio
E essa dor que não se despede mais.

Queria que na brisa do oceano
Eu sentisse de novo teu perfume
E tornassem, com ventos assoprando
As lembranças da razão que nos une.

Só assim poderei virar de costas
Para o mar onde agora tu te encontras
E caminhar com o espírito leve.

E a cada atracar de uma nova frota
Uma esperança em meu coração brota:
A de ler, para sempre, quem escreve.

CORAÇÃO SELETIVO

Ao notar o arriar das velas,
Percebi que breve iria
Deixar lembranças mui belas,
Neste porto da alegria.

Sei que nada fiz por elas.
A mente, conservei fria.
Reparei nas caravelas
Que atracavam na baía,

E de todas me esqueci
Quando, de manhã, parti
Somente vendo uma imagem.

E durante toda a viagem,
Acompanhou-me a miragem,
Que, um dia, pude ter de ti.

SONETO DO ETERNO NAVEGAR

É longínquo o horizonte buscado
Como teu semblante, é cálido e firme,
E quanto mais as ondas eu domine
Fica distante o som do teu pecado.

Mas não pretendo, em falso, redimir-me
Pois sei o que me faz ter navegado
Tantas milhas ao mar, desesperado
A alcançar a imaginação sublime.

Se no horizonte não pude atracar
Em muitos portos fui bem recebido
Mas sempre terminei por navegar.

Posso estar sendo marujo atrevido
Porém, é meu destino sempre o mar
E sei, nunca serei bem sucedido.
Fonte:

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Fernando Paganatto (1985)

Nasceu em 13 de fevereiro de 1985.
 Escritor profissional.
Estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo.
Possui diversos cursos na área de Comunicação Institucional, Redação, Escrita Criativa e Marketing, principalmente Marketing Político.
Poeta e cronista, com publicações em diversas antologias e sites da internet.
Foi colunista de “Variedades” do site 40graus.com e colaborador de “Crônicas de Viagens” do site literário Blocos on line.
Redator de diversos blogs (literatura, comportamento, juventude, política, movimentos sociais, etc.).
Atuante em direitos humanos.
Publicações de matérias em sites como: Diário Liberdade, Correio da Cidadania, Caros Amigos, entre outros.
Prêmios:
Primeiro colocado no IV Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, 2008.
2º colocado no I Concurso Nacional de Poesia do GASP, 2009.
Finalista no X Concurso de Poesia Agostinho Gomes, Biblioteca Municipal Ferreira de Castro, Portugal, 2009.
Finalista Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro, edição 2009/Contos.
Classificado para publicação no Concurso Nacional Novos Poetas – Prêmio Poetize, 2012.
Fonte:

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Angela Lago (Tampinha)


Era uma vez uma menina tão pequena que, cada vez que espirravam por perto, ela voava. Seu nome era Tampinha. Ela usava uma tampinha de garrafa na cabeça para ficar mais pesada e aterrissar mais depressa quando voava.

Tampinha vivia com sua avó numa casa à margem do Rio do Mato Perdido. Essa avó era quem cuidava dos doentes da região. Ela sabia o chá certo para tudo, menos para a pequenez da menina.

Perto morava um rapaz… que eu esqueci o nome. Era um rapaz muito simpático e, para facilitar esta história, vou chamá-lo de Bonito.

Um dia Bonito ficou doente.

– Para salvar o Bonito só um chá da flor preta da árvore do Curupira – disse a avó.

– Mas onde vou arranjar alguém com coragem para buscar essa flor!

Na hora Tampinha respondeu:

– Eu vou.

– Imagina! Logo você, desse tamanhico!

Que tamanhico que nada! A menina entestou que iria de qualquer jeito e danou a falar que ia, porque ia, até a avó ficar desesperada:

– Então vai.

Mas, antes de a menina ir embora, a avó apanhou uma pimenta-malagueta bem forte. Amarrou a pimenta no pescoço de Tampinha e lhe ensinou umas palavras mágicas para ela falar nas horas de perigo.

E lá foi ela no seu barquinho de papel, com uma agulha servindo de espada, uma colherzinha de café como remo e a pimenta dependurada no pescoço.

Enquanto ela remava, ia recitando as palavras mágicas. Tinha medo de esquecer alguma na hora do perigo:

Pimentum, pimentom, pimentém, pimentim;
peixe quer água, eu quero atchim.
Pimentur, pimentor, pimenter, pimentir;
e quero voltar de onde eu quero ir.

Pois muito bem. De repente Tampinha deu de cara com Cobra Grande cantando:

Você tem avó, eu tenho um tio.
Venha comigo pro fundo do rio.
Você tem agulha, eu tenho um fio.
Venha calada sem dar nem um pio.

As palavras mágicas sumiram da cabeça da menina. Com muito custo, saiu, num fiapinho de voz:

– Pimentim, eu quero atchim…

A Cobra Grande se curvou para escutá-la, sentiu o cheiro forte da pimenta, teve uma coceira no nariz e acabou espirrando:

– A… A… Atchim!

Era o que era preciso. Lá se foi nossa heroína voando pelos ares.

Mas, como ela não tinha se lembrado de todas as palavras, a mágica funcionou um pouco errada, e ela aterrissou justo na praia da Onça-Pintada.

A Onça-Pintada viu aquela menina apetitosa, lambeu o beiço e veio andando com suas patas macias.

Tampinha ficou branca de medo e nada de lembrar os versos mágicos. Ela só conseguiu enrolar a língua de qualquer jeito:

– Pimentrim… primentrum…

A Onça espichou o ouvido para tentar entender e aí sentiu aquele cheiro desgraçado de pimenta. Seu nariz danou a coçar e veio o espirro:

– A… A… A… A… Atchim!

Tampinha voou pelos ares.

Mas, como ela tinha se atrapalhado com as palavras, a mágica também ficou meio atrapalhada. Ela logo caiu, como uma geringonça qualquer; por pouco não quebra a perna. De qualquer forma já estava livre da Onça. Na sua frente o que via era uma árvore enorme.

– Céus! A árvore do Curupira! Será que o Curupira…

Tampinha olhou para todos os lados:

– Que sorte! Parece que o Curupira não está por perto! A árvore era belíssima, sem nenhum exagero; alta, imensa. E lá, no último galho, estava a flor preta. O problema era que Tampinha não dava conta de subir nem no primeiro galho! Ela, então, sentou-se num canto, sem saber o que fazer.

Come esta frutinha
e cresça bonitinha.

A árvore farfalhou e deixou cair um fruto.

Tampinha provou, mas achou a fruta muito doce e não terminou de comer. Seus braços cresceram, mas o resto continuou do mesmo tamanho.

Ô filhote louco,
come mais um pouco.

A árvore farfalhou de novo e deixou cair mais um fruto.

Na segunda dentada, Tampinha jogou o fruto longe. Estava muito amargo. Pois muito bem: dessa vez, só suas pernas cresceram. Ela ficou horrível com as pernas e os braços compridos e o resto todo do mesmo tamanho.

Come de uma vez!
Um… dois… três!

Era a árvore jogando mais um fruto. Dessa vez Tampinha comeu tudo.

Quando terminou, estava moça feita. Alta, como qualquer moça, se vocês me acreditam. E o melhor: deu conta de apanhar a flor.

Mas, justo no momento em que ela estava apanhando a flor, alguém apareceu entre as folhas dos galhos… Era o Curupira!

– Com que direito você entrou no meu mato, subiu na minha árvore, apanhou a minha flor?!?

Tampinha ficou branca de novo, e tratou de recitar:

Peixe quer água, eu quero atchim.
Me esperam de volta, de onde eu vim.

Curupira se curvou para ouvir melhor a moça e sentiu o cheiro da pimenta. Seu nariz desandou a coçar e aconteceu o maior espirro que já houve no mundo.

ATCHIM!!!

E mais outro:

ATCHIM!!!

E mais outro:

ATCHIM!!!

A nossa moça, mesmo grande como estava, voou pelos ares, acima das árvores, sobre o rio…

Aterrissou direto na casa do moço Bonito. O chá foi feito imediatamente. Bem, o final vocês já sabem, a avó ficou feliz de ver a neta grande, Bonito sarou e…

– Vocês têm alguma coisa contra casamento?

Fonte:
Historinhas pescadas : antologia de contistas brasileiros / [coordenação editorial Maristela Petrili de Almeida Leite, Pascoal Soto].- São Paulo : Moderna, 2001. – (Literatura em minha casa ; v. 2)

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Ângela Lago (1945)


Ângela Maria Cardoso Lago (Belo Horizonte, 1945) é uma escritora e ilustradora brasileira.

A maior parte de sua obra é dedicada às crianças. Em alguns de seus livros não usa palavras, apenas imagens.

Entre suas obras destaca-se Cena de Rua, premiado na França e na Bienal de Bratislava. Cena de Rua foi publicado no México, na França, nos Estados Unidos da América e no Brasil.

Escritora e ilustradora, mineira, nascida em Belo Horizonte, em 1945, Angela Lago, inicia sua formação superior na Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais. Freqüentou o atelier do escultor Bitter, com um grupo de artistas plásticos.

Em 1969, leciona na Escola de Serviço Social e trabalha como assistente no Instituto Psico-Pedagógico, para crianças com dificuldades psico-pedagógicas e psiquiátricas.

Tendo recebido bolsa de estudos, passa três meses em Denver, Colorado, Estados Unidos, para um curso de psicopedagogia infantil. Vive fora do país durante a década de 1970, em razão do trabalho do marido.

Na Venezuela, onde permanece de 1970 a 1973, trabalha como professora da escola de Serviço Social da cidade de Puerto Ordaz. Em seguida, e após alguns meses em Londres, transfere-se para Edimburgo, onde frequenta o curso de artes gráficas no Napier College de 1973 a 1975.

De volta ao Brasil, começa a se dedicar à literatura infantil, atividade em que reúne sua experiência com crianças e a produção literária, iniciada com poemas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião (1916 – 1991).

Em 1980, são lançados os dois primeiros livros com texto e ilustrações de sua autoria: O Fio do Riso e Sangue de Barata.

Em 1985, depois de dez anos de atividade, fecha seu ateliê de programação visual para publicidade.

Ainda no fim da década de 1980, incorpora o computador a seu processo de criação, diversificando as técnicas usadas na produção de ilustrações, que incluem bico de pena e tinta acrílica.

Nos anos 1990, quando lança mais de dez livros – entre os quais Festa no Céu (1995) e ABC Doido (1999) -, trabalha como artista convidada em faculdades da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Desde então, dedica-se com exclusividade à literatura, tendo publicado cerca de trinta títulos, além aqueles em que atua apenas como ilustradora.

Algumas de suas obras são lançadas primeiramente no exterior, como é o caso de João Felizardo e o Rei dos Negócios, editado em 2006 no Brasil após ter sido publicado no México em 2003.

Comentário critico
Dialogando com artistas plásticos consagrados e compondo narrativas inspiradas na tradição popular brasileira, Angela Lago produz livros, sobretudo a partir de 1986, em que as ilustrações não se limitam a explicar o texto: a superposição dos elementos gráficos ultrapassa a temporalidade e a espacialização sugeridas pela palavra, ampliando as possibilidades interpretativas.

O diálogo com a cultura tradicional estrutura a obra de Lago desde O Fio do Riso (1980), sua estreia, em que a ilustração está ainda a serviço do texto. Nesse título, Nina, a protagonista, sozinha e entediada em sua casa, decide telefonar para um número aleatório. É atendida pela fada Plimpinar, que transporta a menina para o seu fantástico mundo, sob única condição: que não ria do que ali encontrar, ou a viagem se encerrará. Trata-se da mesma restrição imposta a Orfeu, que para resgatar a amada Eurídice do reino de Hades não pode ceder à tentação de encará-la durante a viagem.

A garota, contudo, ri – passando a ocupar, aos olhos da cozinheira Maria, a posição de quem é vítima da risada: “Que menina engraçada,/ esta que sonha acordada.’/ Nina ficou zangada:/ ‘Não me faça de piada'”. O aprendizado implicado no desfecho revela outra característica estruturante do trabalho de Lago: a combinação entre espaço real e onírico que amplia os limites da narrativa.

As fontes eruditas estarão sempre ao lado das populares – sendo estas patentemente presentes em Uni, Duni e Tê (1982). Trata-se, desde o título, de uma retomada de textos infantis. A narrativa apresenta a procura de uma comunidade por um assaltante que invade as casas para comer salame e sorvete, deixando um bilhete em código: “Uni duni e tê/ Salamê minguê/ um sorvete colorê/ uni duni e tê”. As personagens são todas extraídas de fontes semelhantes: Zé do Cravo, que briga com a namorada Rosa; Dona Xica, em cujo gato um pau é atirado; Samba Lelê, apelido do delegado Lelevaldo, que fica doente e com a cabeça “quebrada”.

O jogo metalinguístico vai além da presença do intertexto, passando a determinar também o comportamento do narrador. Embora se trate de um observador, e não de alguém que participa da trama, ele invade a história e dialoga com as personagens. A certa altura, por exemplo, uma das moradoras da vizinhança, durante discussões sobre a autoria do crime, diz às personagens: “Espera aí”. O subtítulo que inaugura o trecho seguinte da narrativa se chamará “Vamos esperar”.

Em 1986, a autora publica Chiquita Bacana e Outras Pequetitas. Nesse livro, uma garota recebe visitas noturnas das personagens-título, que lhe roubam objetos diversos, e por isso decide aprisioná-las. Chiquita, entretanto, não é capturada: à medida que se desenvolve a busca por ela, dentro da casa, outros elementos narrativos vão sendo revelados.

Na profusão de detalhes, o próprio tempo indicado – “uma noite de lua cheia” – é posto em questão: há pinturas na parede do quarto que, de uma página para a outra, se modificam, compondo narrativas paralelas e baseadas em andamento temporal particular. Uma delas retoma a fábula “João e o Pé de Feijão”, ilustrando o crescimento da planta. Outra, inspirada na sequência L’enfant au pigeon, de Pablo Picasso, mostra uma menina camponesa que, observando a liberdade dos pássaros, começa a voar. Há ainda, entre outros, imagens que retomam Chapeuzinho Vermelho.

A soberania da narrativa verbal é também posta em xeque, pois as estrofes em que se conta a história são impressas em páginas de livros trazidas pelas pequetitas. Os versos se tornam, dessa maneira, fio condutor para a leitura dos detalhes.

Os procedimentos serão intensificados em O Cântico dos Cânticos (1992), versão ilustrada de Angela Lago para o poema bíblico. Inspirada nos quadros do holandês Maurits Cornelis Escher (1898 – 1972), a artista transpõe a narrativa dos encontros e desencontros entre os amantes para figuras labirínticas em que não há orientação espacial ou linear.

O livro pode ser percorrido da primeira página à última ou da última à primeira: o encontro entre o casal ocorre nas imagens centrais, de modo a fundir o labirinto da amante, retratado sempre nas páginas pares, ao labirinto do amado, nas ímpares. O júbilo da realização amorosa é simbolizado pela irradiação, a partir de um centro onde está o casal, de luminosidade intensa e de uma força que faz sacudir páginas fictícias contidas dentro das páginas de fato.

A adaptação inclui ainda a transformação do cenário descrito nos versos da Bíblia em elementos que compõem as molduras das imagens. Pássaros, árvores, fontes tornam-se detalhes das bordas, que trazem ainda detalhes referentes ao Oriente Médio, como parreiras e arabescos, em uma retomada da atmosfera predominante no texto original.

Os exemplos ilustram a intrincada estrutura das obras de Angela Lago. Os abundantes elementos secundários – sejam detalhes gráficos ou personagens distantes da trama central – atuam na valorização e amplificação dos elementos centrais, inaugurando percursos diversos para a leitura.

Alguns Livros de Angela-Lago

Cena de Rua, Editora RHJ, Belo Horizonte, 1994
Tampinha, Editora Moderna, São Paulo, 1994
A festa no céu, Editora Melhoramentos, São Paulo, 1995
Uma palavra só, Editora Moderna, São Paulo, 1996
Um ano novo danado de bom, Editora Moderna, São Paulo, 1997
A novela da panela, Editora Moderna, São Paulo, 1999
Indo não sei aonde buscar não sei o quê, Editora RHJ, Belo Horizonte, 2000
Sete histórias para sacudir o esqueleto, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2002
A banguelinha, Editora Moderna, São Paulo, 2002
Muito capeta, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2004
A raça perfeita, Angela-Lago e Gisele Lotufo, Editora Projeto, Rio Grande do Sul, 2004
A casa da onça e do bode, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
A flauta do tatu, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
O bicho folharal, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
João felizardo, o rei dos negócios, Cosac-Naif, São Paulo, 2006
Um livro de horas, Editora Scipione, São Paulo, 2008

Fontes:
COELHO, Nely Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil / juvenil brasileira: 1882-1982. 2. ed. São Paulo: Quíron / Brasília, 1984. Disponível na wikipedia
Enciclopédia Itaú Cultural

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J. G. de Araújo Jorge (Catedral de Eucaliptos)

(À Praça 15, hoje Praça Getúlio Vargas)

I
Coração de Friburgo a pulsar cada dia
desde que o céu se tinge ao rubor matinal,
para mim, não és a praça somente, eu diria
que és, a um só tempo, praça, e imensa catedral.

Catedral de eucaliptos… Verde catedral
cuja cúpula é a densa e inquieta ramaria
que tem em cada copa um rendado vitral
tecido pela luz do luar na noite fria!

Templo leigo do povo aberto a toda gente:
– aos da terra e aos de longe, ao sadio e ao doente,
aos que crêem no belo, mesmo sendo ateus.

Com seu domo de ogivas vegetais, frondosas,
ampla, imensa, soberba, esplêndida, radiosa,
és, – na altura da serra, – a morada de Deus!

II
Catedral de eucaliptos, verdes, farfalhantes,
onde se esgueira o sol pelas manhãs douradas
em mil jatos de luz, nos mais belos cambiantes,
descendo entre os vitrais das mais altas ramadas!

Brincam a sua sombra as crianças confiantes,
e ao seu canto infantil – como em contos de fadas, –
os verdes tinhorões, em gestos cativantes
namoram, lado a lado, as rosas encarnadas…

Imensa catedral de belezas pagãs!
O sol, vem, como um Deus, em seu fulvo esplendor
rezar nos teus altares todas as manhãs…

E eu também, como o sol, ergo um canto feliz,
e rezo ao céu e à terra uma oração de amor
igual a que rezou São Francisco de Assis!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo,1961.

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Arquivado em Acre, poema.

Eça de Queiróz (A Ilustre Casa de Ramires)

Análise da obra

O romance simbólico, A Ilustre Casa de Ramires, é fruto da maturidade intelectual de Eça de Oueirós, revela o reencontro do autor com os temas e aspirações nacionais. A aproximação entre o protagonista, Gonçalo Mendes Ramires, e Portugal é explicitada no final, na comparação do amigo João Gouveia, que esboça com nitidez, no retrato que faz de Gonçalo, o caráter nacional português. Leia nas palavras de João Gouveia a síntese de um modo de ser português que o romance ilustrou fartamente:

     “– Pois eu tenho estudado muito o nono amigo Gonçalo Mondes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?

     – Quem?

    – Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    –  Quem?…

    –  Portugal.

    Os três amigos retornaram o caminho de Vila-Clara. No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu à torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas ave-marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras“.

O caráter paradoxal do protagonista, volúvel e persistente; desleixado e escrupuloso; sonhador e pragmático; vaidoso e despojado; melancólico e falador; medroso e afoito; covarde e heróico; apegado ao passado, mas que, num arroubo visionário, arremete-se à aventura africana; bom e mau; — todo esse jogo de contradições impõe a antítese como o elemento estrutural do romance, a partir da engenhosa solução de embutir no romance realista do sáculo XIX uma novela histórica, ambientada no sáculo XIII, e de entrelaçá­las como um jogo de antíteses, em torno do eixo fundamental: presente (a decadência) x passado (o heroismo, a glória).

Essa estrutura antitética permitiu a Eça exprimir sua dúbia natureza: a do observador crítico do seu mundo e de lírico visionário, através da composição de duas histórias distintas e contudo integradas, vazadas em dois estilos literários, o realista e o romântico, que dialogam incessantemente, em contraponto, constituindo uma unidade coerente, complexa e artisticamente bem realizada.

A construção e a fusão da história principal de Gonçalo e da novela inserida de Tructesindo exemplificam a mestria do escritor. Ao comparar as duas versões da obra, a publicada em folhetins, na Revista Moderna (1897 / 1898), e a definitiva, ampliada, editada em livro, no ano da morte de Eça, em 1900, Álvaro Lins. observa que, se ao escrever a novela histórica sobre Tructesindo Metidas Ramires, Eça pretendeu satirizar o gênero que consagrou Alexandre Herculano, Garrett e Rebelo da Silva, fazendo um “pastiche”, ou um paródia irônica, acabou por construir uma pequena obra-prima da história portuguesa, uma reabilitação do romance histórico.

Horneni Cidade observa que: “Nenhum romance histórico, de meu conhecimento, é, como este, adequado à demonstração da eficácia, do gênero para a ressurreição de uma alma amortecida, por insinuação das energias evocadas de antepassados históricos. Pode, talvez, admitir-se como possível de Eça a tese da ineficiência da novela histórica no fortalecimento das energias coletivas. Mas seria bem estranho que, para provar tal ineficiência, se pusesse tão poderosamente evidente a transformação, por uma novela, duma vida individual.” (Colóquio-Letras, nº 23, Janeiro de 1975)

Ao analisar o romance, João Medina destaca uma passagem na qual os vizinhos e amigos do fidalgo, sabendo do rasgo de Gonçalo ao castigar o valentia que o desrespeitara, “sorriam para a velha Torre, escura e rígida, na doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do herói, o secular fundamento de seu heroísmo”.

Para esse crítico, “todo o romance se condensa nesta frase simbólica: para Gonçalo, confesso retrato-símbolo do país, a questão é, como para Hamlet no palácio pestilencial de Elsenor, a do resgate da comunidade: conto agir? como quebrar o circulo do mal e nele inserir uma ação justa e libertadora? Como salvar-se e, ao fazê-lo, salvar a Dinamarca inteira? A resposta parece ser uma só: pelo recurso aos fundamentos mesmos da nacionalidade, ou seja, reacordando as forças da uma nação prostrada, mas ainda capaz de grandeza e vida.” (Colóquio-Letras, nº 14, julho de 1973)

O domínio que o autor exerce sobre o leitor é mais forte na versão do livro por causa do seu emprego maia vasto da narração e da descrição subjetivas, assim como da maior quantidade de diálogos dramáticos. Os ângulos ambíguos da narrativa e do diálogo unem mais o autor, o narrador, a personagem e o leitor na mesma projeção física e emocional. Muitas vezes o leitor não é capaz de dizer quem é que está a conduzir o fio da narrativa, ou quem está a falar em estilo indireto-livre, se é a personagem ou o narrador subjetivo. Essa ambigüidade do ângulo da narrativa e a mudança constante da narração objetiva para a subjetiva fazem parte da visão impressionista que Eça tinha da composição literária. Uma confusão ainda maior do foco narrativo é causada pelos múltiplos planos literários da ficção em A ilustre Casa da Ramires. A história principal (o romance realista-impressionista A Ilustre Casa de Ramires); a história inserida (a novela histórica romântica, ambientada na Idade Média, A Torre de D. Ramires, poemeto épico do tio Duarte, O Castelo de Santa lrinéia e o Fado dos Ramires, trovado pelo violeiro Videirinha; alternam no foco da narrativa e confundem ainda mais o leitor.

Foco narrativo / Tempo

Narrado em terceira pessoa, por narrador onisciente, que não se identifica na trama, o romance realista, ambientado na segunda metade do século XIX, tem a duração cronológica de cinco anos; do início da escritura da novela histórica, A Torre dos Ramires, em junho de, presumivelmente, 1696, até a conclusão da novela e quatro anos após, o regresso de Gonçalo de sua bem-sucedida aventura africana. Assim, o período em que o protagonista Gonçalo escreve a sua novela sobre o avoengo Tructesindo é o mesmo em que Eça escreve o romance realista, que tem como centro exatamente o Gonçalo, narrador de A Torre de Ramires. É o que se pode concluir do seguinte fato: Gonçalo, ao escrever a sua novela histórica, aclimatada no século XIII, tem como fonte um poemeto épico, O Castelo de Santa Irinéia, escrito pelo tio materno Duarte, em 1846. Gonçalo supõe que o poerneto do tio já tivesse sido esquecido, e que seria fácil transpor as formas fluídas do Romantismo de 1846 para a sua prosa máscula (como confessava o Pinheiro), de uma densidade de mármore (maneira lapidária de Salambô”.

Ao apontar a dois períodos literários que seriam comparados (o Romantismo de Tio Duarte, ou de Herculano, Garrett e Rebelo da Silva, e o Realismo de Gustavo Flaubert, autor de Salambô, Eça situa claramente a história no seu tempo, cerca de cinqüenta anos depois de 1846, ou seja, em 1896. Quanto à idade do protagonista, quando Gonçalo inicia seu empreendimento literário, pode ser determinada a partir de informações que constam do flash back inicial: Gonçalo encontrou Pinheiro, no Rossio, no mês anterior ao do começo da história – em julho, e isto aconteceu um ano depois de Gonçalo ter se formado em Coimbra. O pai do fidalgo morrera quando ele cursava, com 22 anos, o 3º ano da faculdade. Assim, 22 anos + 2 anos até a formatura + 1 ano depois de formado = 25 anos, quando o romance começa.

Enredo

No primeiro capítulo, o fidalgo aparece trabalhando o seu projeto literário, na livraria do solar de Santa Irinéia, tendo vista para a inspiradora de sua novela, a antiquíssima Torre dos Ramires, que remontava ao século X.

Depois de determinar o tempo imediato e o lugar da história, Eça recua no tempo para narrar a origem e evoluçãoda nobre linha dos Mendes Ramires, a começar com o casamento de Ordonho Mendes, em 987, com Dona Elduara, filha de Bermudo, o Gotoso, rei de Leão. Isto é feito, primeiro imediatamente, por intermédio da voz narrativa do genealogista dos Ramires, em estilo indireto livre: Gonçalo Mandes Rentes (como confessava esse severo genealogista, o barão de S. Prudêncio) era, talvez, o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal.

Desde os tempos de D. Ordonho Mendes que a família Ramires se notabilizara pelos seus feitos heróicos: “E assim, em cada lance da história de Portugal se encontra um Mendes Ramires.” O genealogista dá-nos, deste modo, a história dos Ramires, até o presente real. As intenções satíricasde Eça começam a transparecer através de um véu de semi-seriedade. Lourenço Ramires toma parte da batalha de Ourique e testemunha o aparecimento de Jesus Cristo;  Martim Ramires toma parte do cerco de Tavira; Egas Ramires recusa-se a deixar entrar Dona Leonor Teles na torre; Diogo Ramires mostra sua coragem em Aljubarrota; Fernão Ramiree e seu filho ganham fama em Alcácova; Baltazar Ramires deixa-se deliberadamente afundar com seu navio; Paulo RamiIres sacrifica-se em Alcácer-Quibir; Vicente Ramires ajuda na restauração de D. João IV na batalha contra o domínio espanhol.

O Ultimato Britânico de 1890, que exigia a retirada das forças portuguesas de uma de suas possessões africanas, que o governo humilhantemente acatou, e a virtual bancarrota que se seguiu ao duro abalo da ameaça inglesa acenderam os brios nacionais. Foi o que aconteceu também a Gonçalo: depois de ter chicoteado o valentão de suiças loiras, superando suas dúvidas e sua covardia, o fidalgo confessa: “Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejávamos urna guerra em Portugal, e nós, cercados na torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos espanhóis.

O passado imediato do pai de Gonçalo é narrado pela voz do narrador original, onisciente, que substitui o genealogista. O pai do protagonista é descrito como oscilando de partido em partido ora regenerador, ora histórico, vivendo constantemente endividado em Lisboa, até ser nomeado Governador Civil de Oliveira pelo Ministro, cuja amante ele costumava, respeitosameente, acompanhar a S. Carlos. Neste mesmo ano Gonçalo é reprovado no 3º ano de Coimbra. O fracasso do protagonista, na linha do tempo, é colocado em paralelo com as manobrar políticas do pai (semelhantes às que o filho protagonizará mais tarde). O narrador prepara o leitor para o modus operandi de Gonçalo.

O problema central de Gonçalo é a falta de dinheiro. Deve ainda seiscentos mil-réis do último ano da faculdade. O arrendamento de suas terras mal dá para manter o solar, com o Bento, velho criado, e Rosa, a cozinheira. Assim, a política pareceu o caminho mais fácil para a reabilitação econômica e social. Mas havia dois obstáculos: os históricos estavam no poder, e Gonçalo era do Partido Regenerador, e a cadeira de deputado, representante da sua circunscrição eleitoral, estava preenchida pelo velho e poderoso Sanches de Lucena, marido do D. Ana de Lucena, mulher formosa e mal-falada, vulgar, que, mais tarde, já viúva, será incorporada aos planos (frustrados) do fidalgo de arranjar-se economicamente.

Assim, a curto prazo, seus projetos políticos são inviáveis e resta a Gonçalo semear o seu nome através da glória literária, explorando o passado heróico dos ancestrais e associando as glórias dos Ramires à sua própria imagem. É o  que se chamaria hoje de um golpe de “marketing eleitoral”.

Não lhe faltava alguma experiência literária. Nos tempos de estudante havia publicado uma novela histórica, Dona Guiomar, no semanário A Pátria, dirigido pelo amigo José Lúcio Castanheiro. Essa mosmo Castanheiro, patriota assumido, tinha agora um projeto mais ambicioso: a edição dos Annaes de Literatura e de História, visando à “ressurreição do sentimento português”. Num encontro casual com Gonçalo, em Lisboa, Castanheiro cobrou o antigo projeto do ex-colega de escrever uma novela histórica, A Torre dos Ramires, acerca de Tructesindo Ramires, um antepassado dos tempos dos primeiros reis de Portugal, os Borgonhas, dos séculos XII e XIII. Gonçalo compreendeu que era a ocasião de implementar o seu projeto, esperando capitalizar algum dividendo eleitoral e social.

Com esses propósitos, na sua livraria, cercado da bibliografia necessária, em sua cadeira de couro, contemplando o grande símbolo de sua estirpe, a torre, principia o seu trabalho de escritor. Tem como base um poema heróico, escrito cinqüenta anos antes, por Tio Duarte – O Castelo de Santa Irinéia, de escassa repercussão na época, e agora certamente desconhecido. Assim, a matéria histórica e mesmo sugestões literárias poderiam ser livremente manipuladas, sem o risco de acusação de plágio. Urgia apenas refazer a linguagem heróica, enfática e romântica dos versos de Tio Duarte, colocando­os em prosa, ao gosto de sua época, o Realismo, e adaptar algumas situações, a principiar dos primeiros versos.

A partir da Restauração, em 1640, inicia-se a narração do declínio da linhagem histórica: Já, porém, como a nação, a raça forte enfraquece. Aqui Eça estabelece um contraste deliberado com o passado glorioso e o elemento humorístico toma-se predominate, à medida que o plano histérico e o contemporâneo convergem para mostrar a degenerescência da nação e da nobre linhagem. Álvaro Ramires, favorito de D. Pedro II, foge para Sevilha com a mulher de um inspetor de finanças que mandara açoitar até a morte, por escravos. E, nesta veia irônica e humorista, continua a enumerar a deterioração de cada menbro da família Ramires, até chegar ao avó de Gonçalo, Damião Ramires, doutor liberal, dado às musas, que desembarca com D. Pedro no Mindelo; compõe as empoladas proclamações do partido, funda um jornal, o Antifrade, e depois das guerras civis arrasta uma existência reumática em Santa Irinéia, embrulhado no seu capotão de briche, traduzindo para o vernáculo, com um léxicon e um pacote de simonte, as obras de Valério Flaco.

Mas as obrigações de proprietário rural desviam as atenções do fidalgo para o cotidiano. Manuel Relho, arrendatário da quinta, por oitocentos mil­réis, numa de suas bebedeiras habituais, começou a atirar pedras contra o solar de Gonçalo, atingindo a livraria. Acovardado, tranca-se no quarto, defendendo a porta com uma cômoda arrastada às pressas. No dia seguinte, vai ao regedor dar queixa do arrendatário, e obtém justa causa para despedi-lo, com a família. Um outro lavrador, José Casco, interessou-se pelo arrendamento e, após algumas negociações, aceita pagar novecentos e cinqüenta mil-réis ao fidalgo. Um aperto de mão sela o compromisso entre ambos, era o que bastava nos antigos códigos de honra.

Retoma a escritura das primeiras linhas da novela A Torre dos Ramires, mas encalacra logo no inicio. Adormece, entediado.

No capitulo segundo o fidalgo recebe a visita do Titó (Antônio Vilalobos), amigo velho, admirado por sua franqueza, pela força física, pela independência, e por una especialização no estudo das bastardias e crimes das famílias nobres de Portugal. Vinha convidar o Ramires para um jantar, no Gago, em companhia de dois outros amigos, o violeiro Videirinha e o João Gouveia. Gonçalo aceita o convite, e dispensa o caldo de galinha que Rosa preparava num rasgo de generosidade, manda levar a canja a uma viúva pobre, a Críspola, adoentada e cheia de filhos. Manda também dar algum dinheiro à viúva, além das suas recomendações. A atitude do fidalgo oscila entre a generosidade, o paternalismo e o populismo eleitoreiro que já se insinua. Atitude idêntica toma, por ocasião de sua visita ao deputado Sanches de Lucena, ao ceder sua montaria ao camponês Manuel Solha, que mal podia andar, ajudando o pobre a subir na sua égua, ainda que tivesse de sujar as luvas impecáveis para erguer o camponês. Sanches de Lucena ironizou Gonçalo a conduzir o trabalhador, comparando o fidalgo ao Bom Samaritano, da tradição bíblica.

André Cavaleiro, que funciona corno antagonista de Gonçalo, é apresentado ao leitor no fiash back expositivo de narrador onisciente, quando ele se detém no quinto ano do protagonista em Coimbra. Inimigo de André, que acabara de ser nomeado Governador Civil de Olveira, o narrador só mais tarde revelará as razões da inimizade do fidalgo. Alude, inicialmente, aos dois artigos ofensivos ao novo Governador Civil, que Gonçalo escrevera na Gazeta do Povo, sob o pseudônimo de Juvenal. Simbolizado pelos bigodes, André Cavaleiro seria atirado abaixo de seu cavalo, diz Gonçalo, fazendo um trocadilho óbvio. Só mais tarde, depois do jantar na estalagem do Gago, é que, através do discurso indireto livre o leitor fica sabendo da razão real do ódio que o fidalgo devotava a André Cavaleiro. Nos tempos de estudante, o agora Governador Civil cortejara Gracinha, irmã de Gonçalo, e freqüentara o solar dos Ramires, estimulado pela tolerância de Miss Rodhes, a governanta inglesa, e do próprio pai. Mas, sem explicação, ao entrar na política, abandonou a Irmã de Gonçalo. Graça acabou se consolando; casou-se com um ricaço apaixonado por ela, o ingênuo José Barrolo, apelidado o Bacoco (= tolo, ignorante, presunçoso), que desconhecia o antigo namoro, não de todo debelado. A proximidade de André, tido como mulherengo, era um perigo que Gonçalo temia, e que se tomou iminente, quando o Governador Civil começou a pavonear-se em frente à Casa dos Cunhaes, palacete em que viviam José Barrolo e Graça; daí o artigo de Gonçalo contra André, com o título apelativo de Monstruoso Atentado.

Vários motivos prenderam o fidalgo em Oliveira: o aniversário da irmã e a escritura de arrendamento da quinta a um outro pretendente, Manuel Pereira, ao preço acertado de um mil e cinqüenta réis, ou um conto e cinqüenta, como se dizia então. O fidalgo rompia, dessa forma, o acordo anterior com José Casco, apalavrado e formalizado com um aperto de mão. Mas as necessidades financeiras do fidalgo eram, momentaneamente, mais fortes que os resíduos de  sua fidalguia.

A essa altura, Gonçalo havia concluído o capitulo segundo da novela histórica A Torre dos Ramires. A escritura da novela e seu desenrolar são entremeados ao dia-a-dia do fidalgo, funcionando como uma espécie de contraponto heróico às contingências tão mesquinhas de seu narrador. No século XIII, Tructesindo, protagonista da novela histórica, assume os riscos de se opor ao novo rei de Portugal, D. Afonso II, por um juramento que fez ao seu pai, D. Sancho, de que seria o protetor de sua filha, D. Sancha. Vai à guerra em desvantagem, pela palavra empenhada. No século XIX, Gonçalo muda de partido, do Regenerador para o Histórico por simples oportunismo eleitoral (como também o fizera seu pai); rompe o compromisso assumido com José Casco, por alguma vantagem financeira, e acovarda-se diante das ameaças dos camponeses. O narrador onisciente diverte-se com o jogo de oposições passado x presente e com o emaranhado de ações e personagens.

Somando-se o romance à novela contabilizam-se noventa e quatro personagem atuantes, que são vistas” em ação; cento e cinqüenta personagens referidas, em diversas circunstância, pelas personagens atuantes; além de trinta e quatro mencionadas na árvore genealógica dos Ramires e da monarquia lusitana, sob a Dinastia de Borgonha (reis, heróis, guerreiros etc.).

José Casco dos Bravaes, enfurecido com a falta de palavra de Gonçalo quanto ao arrendamento das terras, põe o fidalgo a correr, com ameaças. Escoltado por empregados, vai a Vila Clara dar queixa do camponês. Aí as coisas começam a mudar de direção: em Vila Clara, o administrador e amigo, João Gouveia, dá noticia de Sanches de Lucena, o deputado da região: estava morto. Com isso, ficava aberta uma cadeira na Assembléia e ficava disponível a viúva. D. Ana, mulher bonita, rica e vulgar. Superando dois obstáculos: o fato de pertencer à oposição e ter de mudar de partido e, o mais grave, ter de se reconciliar com o inimigo, André Cavaleiro, de quem dependia a indicação partidária, Gonçalo, por sugestão de Gouveia, vale-se do episódio de José Casco para se reaproximar do Governador Civil, dando a ele queixa do camponês.

A reaproximação se concretizou, mesmo pondo em risco a honrada irmã do fidalgo, que ficaria exposta ao assédio de André Cavaleiro. O narrador onisciente, através do discurso indireto livre, reproduz o drama de consciência de Gonçalo, entre a ambição política e a honra familiar. Prevaleceu a ambição e, racionalizando cinicamente, o fidalgo supõe que Graça, volúvel e fútil como toda a mulher queirosiana, saberia defender sua própria honra.

Obtém a nomeação; marca um jantar de confratemização com André no palacete de Barrolo e Graça; participa aos amigos a candidatura; retoma sua novela histórica; ampara a mulher e o filho de José Casco (preso por ordem de André e solto, mais tarde, por pedido de Gonçalo); inicia a campanha política e, auxiliado pela “prima” Maria Mendonça, começa a se aproximar da víúva, D. Ana de Lucena e dos duzentos contos de sua herança, que falavam mais forte que as conhecidas origens da pretendida: filha de um açougueiro e irmã de um criminoso. Tudo parece correr bem para o fidalgo, apesar de alguns contratempos: Gonçalo recebe uma carta anônima insinuando que ele facilitara a aproximação de André e Graça e, numa vendinha de beira de estrada, foi Insultado por um valentão e fugiu, rapidinho, sem reagir: era o Ernesto de Nacejas.

A novela histórica prosperava, já que o José Lúcio Castanheiro, diretor dos Annaes de Literatura e de História, começava a pressionar o fidalgo quanto aos prazos para a publicação de A Torre dos Ramires. Concluído o terceiro capitulo, Gonçalo vai a Oliveira mostrar sua obra literária à irmã e ao Padre Soeiro, espécie de arquivista dos feitos dos Ramires do presente e do passado. De saída para Oliveira, recebe o apoio político do Visconde de Rio-Manso.

Na seqüência, deu-se o previsível. Chegando ao palacete não encontra o cunhado, mas, passeando pelo jardim, surpreende, sem ser visto, um diálogo amoroso (um pouco mais que isso) entre André Cavaleiro e Graça. Volta para Santa Irinéia arrasado, amargando a má consciência de ter facilitado o adultério, e um ódio difuso de todos: Graça, André, Barrolo e de si mesmo. Na verdade, o que temia era a repercussão do escândalo na sua campanha política.

Vive, a seguir, uma fase de profunda depressão. Sem dinheiro, com dívidas vencidas, ausentes os amigos de sempre (Videirinha, Titó e Gouvela), entrega-se ao capitulo final da novela e à projetada união com Dona Ana de Lucena,  com a diligente intermediação da onipresente “prima” Maria Mendonça. Após várias manobras de aproximação, o fidalgo desiste da viúva, quando Titó revela que D. Ana Lucena tinha a um amante (presumivelmente ele mesmo, Titó), além de lazer objeções à conduta da viúva Lucena.

Gonçalo passa a noite a remoer seus insucessos, sente-se medroso, dependente, fraco e exala “um suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro”. Adormece sonhando com os antigos Ramires. Escuta dos avoengos exortações como — “Neto, doce neto, toma minha lança nunca partida!…” — “oh neto, toma as nossas armas e vence a sorte inimiga…” Mas Gonçalo, mergulhado nos seus fracassos, responde: — “Oh avós, de que me servem as vossas armas — se me falta a vossa alma?…

Estamos já no décimo capitulo, no qual se opera uma mudança no rumo dos acontecimentos. Aqui começa a redenção de Gonçalo e dos valores que simboliza. A descoberta, pelo velho criado Bento, de um antiqüíssimo Chicote, com o castão de prata, perdido no sótão do solar, e que o fidalgo instituiu como seu chicote de guerra, antecipa a retomada das virtudes viris da família. Após o pesadelo com os antepassados, após suas exortações, Gonçalo acordou excepcionalmente implicante. Começou por libertar-se da tutela que Bento vinha exercendo, sorrateiramente, sobre sua vida, tratando o criado com rispidez. Armou-se do chicote de cavalo-marinho e saiu pela estrada, montado na sua égua. Pretendia visitar o Visconde de Rio-Manso, na quinta da Varandinha. Ao interpelar um rapaz, pedindo a indicação do melhor caminho para a Varandinha, Gonçalo topou pela terceira vez com o valentão que o injuriou novamente: — “oh Manuel, que estás tu aí a ensinar o caminho, homem! Este caminho aqui não é para os asnos!” O fidalgo reagiu e o valentão, Emesto de Nacejas, saiu-se com outro insulto: — “…E para diante é que vocêjá não passa, seu Ramires de Merd…”

E começou a redenção: o fidalgo investiu furioso sobre o valentão, a golpes de chicotadas, prostrando-o no chão, quase morto. Arremeteu-se aos berros contra o rapaz, que, em defesa do valentão, atirara de espingarda contra Gonçalo, errando o alvo. O chicote arrancou sangue do pescoço do Jovem Manuel, que caiu inerte, dando com a cabeça num pilar. O pai do rapaz quis interferir para salvar o filho, mas Gonçalo dominou-o e fê-lo correr diante de sua montaria, apesar das súplicas do velho. Sentia-se um verdadeiro Ramires, enfim, era um homem! A noticia da valentia do fidalgo propagou­se rapidamente.

A redenção da honra familiar dá-se na seqüência: Barrolo recebera uma carta anônima. insinuando irônica e maldosamente a relação entre Gracinha e André Cavaleiro, e fora mostrá-la ao fidalgo. Gonçalo guardou a carta e tranqüilizou o cunhado, atribuindo a denúncia às Lousadas, conhecidas maledicentes. Barrolo acatou a idéia de Gonçalo e desconsiderou as insinuações. O fidalgo, em seguida, exibe a carta à irmã e exige dela que ponha fim à relação com André. Obtém mais uma vitória, agora no front interno, na trincheira familiar.

Os jornais da capital noticiaram o feito de Gonçalo, Videirinha compôs mais duas trovas do seu Fado dos Ramires, alusivas à bravura do amigo: 

“Os Ramires doutras eras

venciam com grandes lanças,

este vence com um chicote, 

vede que estranhas mudanças!

É que os Ramires famosos,

da passada geração,

tinham a força nas armas

e este a tem no coração!”

Em meio a cartas de felicitações e homenagens, Gonçalo concluiu sua novela. A campanha eleitoral ia de vento em popa. O rei, por sugestão de André, outorga a Gonçalo o título de Marquês de Treixedo. Títulos de nobreza não faltavam a Gonçalo, fina-flor da nobiliarquia portuguesa. A comenda não o comoveu.

A eleição de Gonçalo deu-se por esmagadora maioria. Finalmente, era deputado. O sucesso literário não foi menos retumbante: a novela A Torre dos Ramires, publicada no primeiro número dos Annaes de Literatura e de História, foi um êxito completo, de critica e de público.

Em janeiro, por ocasião do início do ano legislativo, o fidalgo instala-se como deputado em Lisboa. Freqüenta com desenvoltura a alta roda, e torna-se conhecido na capital.

Mas eis que surge nova reviravolta. Quatro meses depois de instalado em Lisboa, Gonçalo consegue uma concessão de terra em Macheque, na Zambézia, possessão portuguesa na África. Hipoteca suas terras para obter capital e, em junho, acompanhado por Bento, parte para sua aventura africana, embarcado no paquete sugestivamente chamado Portugal. Já no segundo capítulo Gonçalo tivera um sonho em que se viu sobre as selvas profundas de África, debaixo de coqueiros sussurrantes…” No quarto capítulo confessara à sua irmã que andava com a idéia de ir para a África, romântica e ingênua idéia que extraiu da leitura do romance As Minas do Rei Salomão (do qual Eça fizera uma ‘tradução’ para a língua portuguesa).

Quatro anos depois, tendo plantado dois mil coqueiros, muito cacau e muita borracha, Gonçalo regressa a Portugal já abastado, a saúde revigorada e o moral retemperado. O último capitulo ocupa-se dos preparativos para o seu regresso triunfal à Santa Irinéa. Em carta à Graça, Maria Mendonça, a “prima” que se avistara como fidalgo em Lisboa, informa de seu estado de saúde e de espírito, e antecipa a notícia de seu casamento, em breve, com a Rosa, a neta do Visconde do Rio-Manso.

O livro termina com o paralelo entre Gonçalo e Portugal, transcrito e comentado no segundo parágrafo desta análise.

A novela histórica A Torre dos Ramires

Inserido na história principal, a novela escrita por Gonçalo sobre seus antepassados do século XII, sobre Tructesindo Mendes Ramires, pode ser lida em três planos:

1. No plano histórico, focaliza o estabelecimento do território português a consolidação da autoridade real durante o período do século XII. São referidas as figura históricas de D. Afonso Henriques, D. Tereza, D. Sancho I, D. Afonso II e os Infantes. As disputas incluem não só as discórdia entre a família afonsina, mas também a rivalidade entre a nobreza e o clero. A lealdade ao rei é disputada pelas Infantas, que são apoiadas pelas classes superiores do clero, incluindo o Papa. A questão da luta pelo poder – o rei, os nobres e o clero – passa também pela disputa dos direitos de propriedade, dentro da ordem feudal.

A questão da vassalagem e da lealdade, fundamental na Idade Média, a desencadeadora da novela. Tructesindo Mendes Ramires havia jurado lealdade a D. Sancho I, comprometendo-se a servir e proteger a sua filha D. Sancha. Morto o rei, assume o trono o primogênito, Afonso II, que entra em desavença com os irmãos sobre o testamento. Os infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam pela França e pelo Reino de Leão. D. Sancha, através do Alcaide de Aveiras (disfarçado em beduíno), pede o auxílio de Tructesindo. Eis o nó da questão: a quem se deve primeiro lealdade? Ao novo rei, D. Afonso II? A D. Sancho I e ao juramento anterior? Ao Papa o aos chefes da Igreja? Para Tructesindo a lealdade ao juramento transforma-se numa questão de honra, mesmo contra o novo rei, contra os conselhos do genro, Mendo Paes e contra os interesses mais imediatos.

“De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e comigo!” sentencia Tructesindo.

O sistema medieval de resolver as disputas era a guerra, e o protagonista da novela despacha seu filho Lourenço, com quinze cavaleiros e noventa homens de infantaria, para socorrer as infantas D. Sancha e D. Teresa. Em todos os passos da ação de Tructesindo, Lourenço e do antagonista, Lopo de Baião, se fazem presentes os códigos da cavalaria medieval, que admitia armadilhas, espionagem, ataques imprevistos e até a morte infamante, por vingança.

2. No plano humano, estão presentes os temas relacionados à grandeza e virilidade dos bárbaros cristianizados do século XII, especialmente o da vingança. A fortaleza de Tructesindo, na vingança da morte do filho o no cumprimento da palavra, a coragem diante da morto, o orgulho acima do amor, a superação de medo são temas que se entrelaçam na exaltação das virtudes do pai e do filho.

A autoridade de Tructesindo sobre sua família e seus vassalos é incontrastável: ele decide o destino de Lourenço e da filha Violante sem qualquer contestação.

3. No plano literário, que se sobrepõe a qualquer outro na novela inserida, Gonçalo comenta freqüentemente a sua narrativa e as suas personagem, na tentativa de fazer reviver a ficção histórica à maneira realista de Gustavo Flaubert, emSalambô. Seu objetivo é evocar os tempos medievais de maneira lapidar e não no tom melancólico e brando dos românticos. Para isso ele desenha suas personagens de acordo com o rígido código guerreiro, numa linguagem que lembra esses tempos rudes e primitivos. À medida que sua própria história progride, Gonçalo comenta seu estilo, pondo-o em contraste os seus métodos e técnicas com os do poema de Tio Duarte. O tema da oposição entre a ficção histórica romântica e a ficção histórica realista revela, na insistência com que é projetado, o gosto de Eça pela narrativa fantasista, na forma e nos moldes em que, como autor realista, admitia e admirava: “um manto diáfano de fantasia”.

Os elementos simbólicos harmonizam-se com os propósitos do romance e da novela. A torre é o principal símbolo de ligação entre Gonçalo e Tructesindo, no tempo e no espaço. Representando Portugal – passado, presente e futuro – através de Gonçalo e de seus antepassados que nela viveram, a torre é a figura dominante do passado coletivo de Portugal, assim como de seu futuro não realizado.

O brasão dos Ramires, o escudo de Tructesindo e a sua espada, herdada dos antepassados godos, sugerem a imagem de força e violência, das qualidades sublimes e bárbaras do mundo feudal do século XII, em contraste com o mundo de Gonçalo: Portugal do século XIX.

No capítulo cinco do romance, Gonçalo insere a batalha do Canta-Pedra, primeiro cometimento heróico da novela. Lourenço, mandado pelo pai em socorro às infantas, é interceptado pela forças do Lopo de Baião, o bastardo, que se aliara ao rei. Lopo havia sido recusado por Tructesindo corno pretendente à mão de D. Violante, filha mais nova do cavaleiro de Santa Irinéia. Havia entre ambos também uma questão familiar. Lourenço foi capturado e conduzido prisioneiro por Lopo de Baião, que pretendia trocar a liberdade e a vida do filho de Tructesindo pela mão da filha: D. Violanle. O filho, antes do pai, recusa a proposta. Lopo ameaça matar Lourenço com o punhal e Tructesindo atira sua espada no bastardo para que seu filho não fosse morto pelo vil punhal de Baião, mas pela sua nobre espada. O Bastardo se enfurece e enterra o punhal na garganta de Lourenço, abandona o corpo do morto e foge. Tructesindo vocifera seu juramento de vingança: — Muros de Santa Irinéia, não vos torne eu a ver, se em três dias, de sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de Baião!

Na perseguição do Bastardo, Tructesindo conta com um estrategista, D. Garcia de Viegas, que, prevendo os passos do inimigo, planeja sua captura. D. Pedro de Castro, também aliado, acolhe os cavaleiros de Santa Irinéia e oferece reforços a Tructesindo.

Surpreendidos, os cavaleIros de Lopo de Baião são massacrados e o Bastardo é feito prisioneiro e condenado à morte vil. 

Desnudado, amarrado a um poste, com o corpo imerso na água até a virilha, as sanguessugas começam a cobrir o corpo do condenado. Tructesindo saboreia, impávido, sua vingança, vendo o suplício do assassino de seu filho. Morto, depois de lenta agonia, Baião é apedrejado pelos cavaleiros de Santa Irinéia e tem seu rosto recoberto de estrume. Estava concluída a vingança e a novela, com a vitória do protagonista, nas armas, e de seu descendente, o narrador, nas letras.

Fonte:

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Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Ceará

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24 de abril de 2012 · 22:08