Arquivo do mês: junho 2012

Prêmio SESC de Crônicas Rubem Braga (Prazo: 31 de Julho)

Organização:
SESC/AR/DF
0800-617617 e (61) 3217-9124
Regulamento:
I – DA PROMOÇÃO E DA REALIZAÇÃO
Art. 1º
O Prêmio SESC de Crônicas Rubem Braga é uma iniciativa cultural do Serviço Social do Comércio – Administração Regional no Distrito Federal -SESC/AR/DF.
II – DOS OBJETIVOS
Art. 2º
Incentivar a produção literária, revelar novos talentos no cenário da literatura brasileira e ampliar o espaço institucional do SESC/AR/DF na área cultural.
III – DA PARTICIPAÇÃO
Art. 3º
Poderão concorrer:
• Brasileiros maiores de 18 anos, residentes no território nacional;
• Estrangeiros que residam no Brasil, no mínimo, há 20 anos, e atualmente residentes no Distrito Federal;
• E entre 16 e 17 anos, residentes no território nacional, com a autorização e assinatura dos pais ou responsáveis na ficha de inscrição e no termo de cessão de direitos autorais.
Art. 4º
Cada participante poderá inscrever até duas crônicas inéditas e não publicadas. São consideradas inéditas as crônicas que nunca foram publicados, impressos, e/ou classificados em qualquer concurso de cunho literário.
Art. 5º
• É vedada a participação de funcionários do SESC;
• É vedada a participação de ex-jurado e familiares.
IV – DA NATUREZA E DO TEMA
Art. 6º
Entende-se por crônica um texto curto e narrado em primeira pessoa, onde o próprio escritor está “dialogando” com o leitor
Art. 7º
O tema é de livre escolha do participante.
Art. 8º
As crônicas devem conter elementos que promovam o bem estar e os valores morais.
V – DAS INSCRIÇÕES
Art. 9º
As inscrições são gratuitas e poderão ser efetuadas até 31 de julho, das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira
a) Nas seguintes Unidades Operacionais do SESC/AR/DF:
– SESC Estação 504 Sul, Av. W3 Sul, Quadra 504/505, Bloco “A”;
– Setor Comercial Sul, Quadra 2, Edifício Presidente Dutra;
– 913 Sul, W4, Quadra 713/913, Conjunto “F”;
– Taguatinga Sul, Setor “F” Sul, Área Especial 3;
– Taguatinga Norte, CNB 12, Área Especial 2/3;
– Gama, Setor leste Industrial, lotes 620, 640, 660, 680;
– Guará, QE 4, Área Especial;
– Centro de Atividades SESC Ceilândia, QNN 27, lote B, Ceilândia Norte.
b) Postados, com a remessa da documentação para o endereço abaixo: Serviço Social do Comércio Administração Regional no Distrito Federal, SESC Estação 504 Sul – Biblioteca Av. W3 Sul, Quadra 504/505, Bloco “A” – Brasília, DF, CEP 70331-570
Art. 10
A ficha de inscrição e este regulamento poderão ser obtidos na internet, no site http://www.sescdf.com.br
Ficha de Inscrição:
Art. 11
Informações complementares poderão ser obtidas pelos telefones 0800-617617 e (61) 3217-9124.
Art. 12
A inscrição será efetuada mediante a entrega ou a postagem de envelope lacrado, com etiqueta fixada no canto superior direito, com as seguintes informações:
Prêmio SESC de Crônicas Rubem Braga – 2012
Título(s) da(s) crônica(s):
_________________________________________________
Art. 13
O envelope deverá conter:
a) Ficha de inscrição devidamente preenchida;
b) A crônica impresso em 5 (cinco) vias, em papel A4, sem ilustrações, numa só face, com, no máximo, uma página digitada no Microsoft Word, fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento duplo e alinhamento justificado. O título da crônica deverá constar da parte superior da página inicial, digitado em negrito, em fonte Times New Roman, tamanho 14, alinhamento centralizado; 
c) 01 (um) CD contendo o texto da crônica inscrito;
d) Cópia da Carteira de Identidade e CPF.
e) 01 (um) CD contendo a foto do autor digitalizada em alta resolução, acompanhada de breve biografia do mesmo, com, no máximo 10 linhas, no formato doc.
f) Termo de Cessão de Direitos Autorais (conforme modelo);
Parágrafo único. É proibida qualquer forma de identificação nas margens, no rodapé e no texto da cônica, como pseudônimo,nome ou sobrenome do autor, suas iniciais, assinatura ou rubrica.
VI – DA SELEÇÃO E DA CLASSIFICAÇÃO
Art. 14
As crônicas serão analisados por Comissão especialmente designada pela Direção do SESC, composta por membros de notório conhecimento no campo literário, que procederá à seleção de 35 (trinta e cinco) crônicas e as classificará em ordem decrescente de pontos.
Art. 15
A decisão da Comissão é soberana e irrecorrível.
VII – DOS RESULTADOS
Art. 16
Os resultados dos processos de seleção e classificação serão divulgados nas Unidades do SESC/AR/DF e no site http://www.sescdf.com.br
VIII – DA PREMIAÇÃO
Art. 17
As 35 (trinta e cinco) crônicas selecionadas serão reunidas em Coletânea a ser publicada pelo SESC/AR/DF. 
A solenidade de premiação e o lançamento da Coletânea dar-se-ão em local, data e horário a serem definidos oportunamente, pelo SESC/AR/DF.
Art. 18
A critério da Direção do SESC/AR/DF, outras crônicas, além das selecionadas, poderão fazer parte da Coletânea.
Art. 19
Os autores das crônicas classificadas nos 3 (três) primeiros lugares receberão prêmio pecuniário, cujos valores, abaixo discriminados, são brutos, e deles serão deduzidos impostos e contribuições, com base na legislação em vigor:
1º classificado – R$ 2.000,00
2º classificado – R$ 1.500,00
3º classificado – R$ 1.000,00
Parágrafo único. Os autores das obras selecionadas receberão certificados de participação e exemplares da Coletânea.
IX – DAS DISPOSIÇÕES GERAIS
Art. 20
Os participantes, ao se inscreverem, manifestam plena concordância com o presente regulamento, cujo descumprimento ensejará sua desclassificação.
Art. 21
Os autores cujas crônicas tenham sido selecionados para integrar a coletânea deverão assinar e encaminhar ao SESC/ AR/DF (Estação 504 Sul), no prazo determinado:
a) Termo de Cessão de Direitos Autorais (conforme modelo), com firma reconhecida em cartório;
Art. 22
O SESC/AR/DF reserva-se o direito de:
a) Utilizar os trabalhos selecionados, em material institucional, por prazo indeterminado;
b) Proceder à revisão gramatical das crônicas selecionadas, com a finalidade de publicação da Coletânea;
c) Não devolver aos participantes o material da inscrição;
d) Não efetuar, sob nenhuma forma, pagamento de direitos autorais;
e) Não se responsabilizar por cópias, plágios ou fraudes;
f) A diagramação dos textos seguirá os critérios estipulados pelo SESC/AR/DF.
Parágrafo único: quaisquer manifestações contrárias às cláusulas deste regulamento deverão ser encaminhadas ao SESC/AR/DF, por meio de documento original assinado, em até 48 horas da publicação do resultado.
g) Desclassificar o participante que não entregar a documentação completa solicitada no artigo 13 deste Regulamento.
Art. 23
O SESC/AR/DF assegura aos participantes de outros estados, no caso de terem sido classificados em 1º, 2º ou 3º lugares, passagem aérea e hospedagem em Brasília, em sua Unidade de Turismo Receptivo, sem direito a acompanhante, para participarem da solenidade de entrega da premiação e do lançamento da Coletânea, sendo, para tal, indispensável a presença do candidato.
Art. 24
Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Direção do SESC/AR/DF. 
Fonte:

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Arquivado em concurso de cronicas, Inscrições Abertas

Mário Zamataro (A Mania das Palavras)

Ilustração por Carlos Araújo 
(veja nota abaixo)
As palavras têm a mania de querer ultrapassar os dicionários. Não se trata de mania de grandeza, mas, sim, de sentido. Mania de não aceitar uma definição qualquer que as prenda a determinado sentido. O que é natural.

 Cada ser vivo experimenta sensações próprias em suas experiências vividas. Alguns vão além, inventam sensações e imaginam experiências. E dão a este tipo de combinação um poder ainda maior para a significação dos eventos da vida. As significações se encadeiam e se transferem de um ser vivo a outro, o que forma um conjunto infinito…

 As palavras nascem assim, das sensações experimentadas e inventadas. E vão se juntar a outras, interminavelmente, neste mesmo conjunto infinito da vida.

 No subconjunto da poesia, as significações são potencializadas. Ou seja, as palavras ganham potência. Talvez seja este o melhor contexto para a demonstração e compreensão desta mania “incurável” que as palavras têm. É onde a combinação de palavras e significações forma uma trama inesgotável de sensações e de possibilidades de sensações; sugere a invenção de experiências; engendra imagens de matizes antes impossíveis; amplia as dimensões do mundo!

 Viva a mania das palavras!
———–
Nota:
Essa ilustração – ouvindo e procurando palavras num dicionário – foi criada para um livro didático (Língua Espanhola) da Editora Ática. Até o cachorro participa…

Fontes:

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Arquivado em Cronica, Curitiba, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra, Paraná

Manuel Bandeira (Poesias Infanto-Juvenis)

Ilustração de Robson Corrêa de Araújo

COTOVIA

– Alô, cotovia! 
 Aonde voaste,
 Por onde andaste,
 Que saudades me deixaste?
 – Andei onde deu o vento.
 Onde foi meu pensamento
 Em sítios, que nunca viste,
 De um país que não existe . . .
 Voltei, te trouxe a alegria.
 – Muito contas, cotovia!
 E que outras terras distantes
 Visitaste? Dize ao triste.
 – Líbia ardente, Cítia fria,
 Europa, França, Bahia . . .

 – E esqueceste Pernambuco, 
 Distraída?

 – Voei ao Recife, no Cais
 Pousei na Rua da Aurora.

 – Aurora da minha vida
 Que os anos não trazem mais!

 – Os anos não, nem os dias,
 Que isso cabe às cotovias.
 Meu bico é bem pequenino
 Para o bem que é deste mundo:
 Se enche com uma gota de água.
 Mas sei torcer o destino,
 Sei no espaço de um segundo
 Limpar o pesar mais fundo.
 Voei ao Recife, e dos longes
 Das distâncias, aonde alcança
 Só a asa da cotovia, 
 – Do mais remoto e perempto
 Dos teus dias de criança
 Te trouxe a extinta esperança,
 Trouxe a perdida alegria. 

A ONDA

A onda
a onda anda
 aonde anda
 a onda?
 a onda ainda
 ainda onda
 ainda anda
 aonde?
 aonde?
 a onda a onda

BELO BELO

 Belo belo minha bela
 Tenho tudo que não quero
 Não tenho nada que quero
 Não quero óculos nem tosse
 Nem obrigação de voto
 Quero quero
 Quero a solidão dos píncaros
 A água da fonte escondida
 A rosa que floresceu
 Sobre a escarpa inacessível
 A luz da primeira estrela
 Piscando no lusco-fusco
 Quero quero
 Quero dar a volta ao mundo
 Só num navio de vela
 Quero rever Pernambuco
 Quero ver Bagdá e Cusco
 Quero quero
 Quero o moreno de Estela
 Quero a brancura de Elisa
 Quero a saliva de Bela
 Quero as sardas de Adalgisa
 Quero quero tanta coisa
 Belo belo
 Mas basta de lero-lero
 Vida noves fora zero. 

ORAÇÃO PARA AVIADORES

Santa Clara, clareai
 Estes ares.
 Dai-nos ventos regulares,
 de feição.
 Estes mares, estes ares
 Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
 Se baixar a cerração,
 Alumiai
 Meus olhos na cerração.
 Estes montes e horizontes
 Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
 Sustentai
 Nossas asas.
 A salvo de árvores, casas,
 E penedos, nossas asas
 Governai.

Santa Clara, clareai.
 Afastai
 Todo risco.
 Por amor de S. Francisco,
 Vosso mestre, nosso pai,
 Santa Clara, todo risco
 Dissipai.

Santa Clara, clareai.

A ESTRELA 

Vi uma estrela tão alta, 
 Vi uma estrela tão fria! 
 Vi uma estrela luzindo 
 Na minha vida vazia. 

 Era uma estrela tão alta! 
 Era uma estrela tão fria! 
 Era uma estrela sozinha 
 Luzindo no fim do dia. 

 Por que da sua distância 
 Para a minha companhia 
 Não baixava aquela estrela? 
 Por que tão alto luzia? 

 E ouvi-a na sombra funda 
 Responder que assim fazia 
 Para dar uma esperança 
 Mais triste ao fim do meu dia. 

D. JANAÍNA 

D. Janaína
 Sereia do mar
 D. Janaína
 De maiô encarnado
 D. Janaína
 Vai se banhar.

 D. Janaína
 Princesa do mar
 D. Janaína
 Tem muitos amores
 É o rei do Congo
 É o rei de Aloanda
 É o sultão-dos-matos
 É S. Salavá!

 Saravá saravá
 D. Janaína
 Rainha do mar.

 D. Janaína
 Princesa do mar
 Dai-me licença
 Pra eu também brincar
 No vosso reinado.

BALÕEZINHOS

Na feira do arrabaldezinho 
 Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor: 
 – “O melhor divertimento para as crianças!” 
 Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres, 
 Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha. 
 Vão chegando as burguesinhas pobres, 
 E as criadas das burguesinhas ricas, 
 E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe, 
 Nas barraquinhas de cereais, 
 Junto às cestas de hortaliças 
 O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras, 
 Os tomatinhos vermelhos, 
 Nem as frutas, 
 Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a 
 [única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa: 
 – “O melhor divertimento para as crianças!” 
 E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um 
 [círculo inamovível de desejo e espanto. .

TREM DE FERRO

Café com pão
 Café com pão
 Café com pão

 Virgem Maria que foi isto maquinista?

 Agora sim
 Café com pão

Agora sim
 Café com pão

 Voa, fumaça
 Corre, cerca
 Ai seu foguista
 Bota fogo
 Na fornalha
 Que eu preciso
 Muita força
 Muita força
 Muita força

 Oô..
 Foge, bicho
 Foge, povo
 Passa ponte
 Passa poste
 Passa pato
 Passa boi
 Passa boiada
 Passa galho
 De ingazeira
 Debruçada
 Que vontade
 De cantar!

 Oô…
 Quando me prendero
 No canaviá
 Cada pé de cana
 Era um oficia
 Ôo…
 Menina bonita
 Do vestido verde
 Me dá tua boca
 Pra matá minha sede
 Ôo…
 Vou mimbora voou mimbora
 Não gosto daqui
 Nasci no sertão
 Sou de Ouricuri
 Ôo…

 Vou depressa
 Vou correndo

Vou na toda
 Que só levo
 Pouca gente
 Pouca gente
 Pouca gente…

Fonte:

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Arquivado em poesias para crianças, Recife, Rio de Janeiro

Antonio Carlos Viana (Tia Darci Ouve Vozes)

 Quando tia Darci voltou a ouvir vozes, eu não era mais tão criança. Ninguém lhe deu atenção. Diziam que era meio pancada só porque era solteirona. Minha mãe dizia que era falta de homem, que, se ela tivesse um ao lado, ia ver coisas bem mais interessantes, não ia ficar prestando atenção em vozes do outro mundo. Mas eu sentia verdade na voz de tia Darci. Quando ela disse que uma nova prova ia começar para a família, todo mundo ficou nervoso, mas preferiu disfarçar, dizendo que espíritos não voltam, se é que há espíritos. Como tia Darci viu que só eu deixava transparecer confiança em suas palavras, se pegou comigo e me chamava sempre que recebia um recado do além. Eu perguntava como era a voz. Ela dizia que não chegava a ser uma voz assim como quando a gente fala. Era uma coisa que se espalhava dentro dela, que ficava azucrinando e só lhe dava descanso quando ela parava tudo o que estivesse fazendo para escutar. Ela vivia fazendo jejuns e tinha certas comidas que não comia nem amarrada, dizia que lhe quebravam as forças. Seu maior sonho era ter as chagas de Cristo nas mãos. Ela lera isso numa revista, um padre italiano sangrava assim e fazia milagres.

 Um dia perguntei a ela o que a voz falava de mim. Ela disse para eu não ter medo do futuro, mas que tomasse cuidado com os inimigos que se fazem de amigos e a gente nem desconfia. Que inimigos? Por enquanto só o menino vizinho, que vivia pegando no meu pé porque no pião eu era imbatível. “Começa por aí”, ela falou. Passei a olhar o tal vizinho com olho torto. Ele vinha me chamar para brincar e eu dizia que não, tinha muita tarefa da escola pra fazer, precisava molhar as plantas do quintal, que se morresse uma roseira a culpa ia ser minha… É chato a gente mentir. Ele não se conformava e marcava então pra depois que eu terminasse minhas tarefas. Na verdade, eu não queria mais brincar com ele. Depois que tia Darci adivinhou que alguém ia se queimar com uma panela de água quente e meu irmão se queimou todo no peito, 0 que ela dizia não podia ser desprezado.

 Leonardo, o tal vizinho, veio brincar de pião num fim de tarde que quase terminou no hospital. Ele jogou o pião de um jeito que o bico caiu em cima do meu pé e fez um furo feio. Tia Darci falou que eu precisava levar a sério o que ela dizia, não fosse como os outros, que viviam zombando dela. E viviam mesmo. No almoço, todos à mesa, meu pai era o primeiro a desacatá-la de forma grosseira: “Que é que esse pato está lhe dizendo agora, Darci?”. A gente via que ele estava indo além dos limites. “A mim está dizendo que está muito gostoso”, respondia ele mesmo, com aquela risada sem controle, de fazer saltar carocinho de arroz por cima da gente. Tia Darci olhava para ele e eu via nos olhos dela um misto de raiva e compaixão. Havia na gaveta do armário dela um livro de são Cipriano, o Livro negro, que minha mãe dizia só servir para fazer mal aos outros. Eu era doido para folheá-lo, mas tia Darci não deixava. Dizia que ali havia remédio para tudo, até para a pessoa não ficar careca. Eu quis saber como era, para aplicar a fórmula, se eu precisasse um dia, mas ela nunca me deixou nem pegar nele.

 De manhã, todos nós ficávamos esperando tia Darci sair do quarto pra perguntar o que ela havia escutado durante a noite. Não era sempre que isso acontecia. Minha mãe só queria 05 números do bicho, era viciada. Tia Darci dizia que os espíritos não gostam de jogo e que, se minha mãe quisesse ganhar, fosse escutar as vozes dela, porque todos temos vozes que zelam por nós, é só querer escutá-las. Corno éramos crianças, ela dizia só coisas boas: eu iria ser escritor, Deo vai ser engenheiro, Caco vai ser um pintor famoso, Lia vai ser doutora, Nenzinho vai ser advogado.

 Num dia de muita chuva, todo mundo dentro de casa, tia Darci levantou a mão direita pedindo silêncio. Olhei pra ver se tinha alguma chaga. Não tinha. Nessas horas, ela se empertigava toda, parecia mais alta do que era, era a mais alta da família, muito magra, o rosto encovado, talvez de tanto sofrer com a descrença dos outros. Tinha os cabelos curtinhos, ela mesma os cortava com uma gilete, era uma pessoa toda sem vaidade. De longe, se estivesse de calça comprida, qualquer um pensava que era um rapazinho. Acho que o nome moldou seu corpo, porque Darci tanto podia ser nome de homem ou de mulher. Só quando falava, aparecia a sua feminilidade, uma voz doce e bonita, que puxava os cânticos nas novenas de junho.

 Ficamos então em silêncio, e tia Darci foi se empertigando toda, foi ficando distante de todos nós, seus olhos deixavam transparecer que não era coisa boa 0 que ela estava ouvindo. O silêncio era total na sala e dali a pouco ela veio voltando lentamente, sacudiu a cabeça e disse: “Coisas graves vão acontecer nesta casa”. Minha mãe disse logo: “Por que você não pega só as boas?”. “Não depende de mim”, ela respondeu, e saiu da sala. Depois de ouvir as tais vozes, tinha de tomar um banho de sal grosso para se livrar das energias negativas que ficavam em seu corpo. Se não tomasse, caía numa prostração feia que só o doutor conseguia curar com muita conversa no quarto escuro e bolinhas de homeopatia. Ela dizia que só se dava bem com elas, os outros remédios a fariam perder a capacidade de ouvir. Foi assim com um antibiótico que tomou para um ferimento na perna. Passou meses sem ouvir vozes. Da família, era a mais estudada, fora até o Normal, mas não se formou, pois começou a ouvir as tais vozes ainda no primeiro ano e isso atrapalhou tudo. Espalharam sua fama de feiticeira e ela foi ficando malvista por todos, até que desistiu da escola. Podia até ter vivido da sua mediunidade, mas nunca quis, dizia que não se cobrava pelo que era dado de graça por Deus. Por Deus?, retrucava minha mãe, sempre incrédula.

 Naquele dia, uma das coisas que tia Darci falou quando voltou do banho foi que meu pai deveria tomar cuidado. Devia adiar aquela viagem que ele ia fazer em outubro. Se ele fosse, não voltaria. Falou direto, acho que de tanta raiva que tinha dele, já que os dois viviam se pegando por qualquer tolice. E que a voz tinha dito que dele só restaria a malinha de ferramentas. Melhor não viajar. Pela primeira vez minha mãe deu ouvidos a tia Darci e fez tudo pra meu pai deixar aquela viagem pra depois, quando os espíritos soprassem tempo bom. Ele disse que, se fosse esperar pelos espíritos, a gente morria de fome. Precisava ir ao Rio resolver problemas de um emprego que tinha largado, trabalhar mais um pouco pra juntar dinheiro e depois voltava de vez pra morar com a gente e abrir uma torrefação de café. O olhar de tia Darci em cima dele parecia de pena.

 A gente estava almoçando quando o assunto voltou à baila. Meu pai, com seu jeito ríspido, falou: “Agora mesmo é que eu vou. Quero ver se essas vozes estão falando a verdade”. Achei que ele não devia ter falado assim, tia Darci já havia acertado comigo no caso de Leonardo. A malinha de ferramentas no canto da sala me pareceu sinistra. Nada fez meu pai desistir da viagem.

 Era outubro, bem no começo, ele nem se despediu da gente, só vi a porta bater e minha mãe ficar chorando na sala. Ela o amava muito, mesmo sendo ele um pobretão, como ela mesma dizia. Passou a primeira semana e nenhuma notícia dele. Passou a segunda, e a mesma coisa. A família começou a se inquietar. Como saber o que tinha acontecido? Tia Darci, mais calada do que nunca.

 Como ela havia previsto, meu pai nunca mais voltou. Só errou quanto à maleta de ferramentas, que se perdeu para sempre. Assim que soube da notícia, tia Darci sumiu de casa, e só muitos anos depois é que descobrimos seu paradeiro, quando já estávamos crescidos. Ela estava morando num asilo, numa cidade do interior. Fui visitá-la. Parecia bem tratada, de banho tomado. Engordara muito. Ali sentada na varanda, parecia um velho índio do Oeste, com uma trança branca descendo pelo ombro esquerdo. Não a reconheci. A imagem que me ficara era a de uma mulher seca, de cabelo cortado bem curtinho. Não deu a menor bola para. mim, apenas sorriu quando falei quem eu era. Minha voz quase não saía para dizer que nossa vida tinha sido muito difícil, que agora estava tudo bem. Que minha mãe tinha acertado na loteria e que todo mundo tinha se formado, mas em carreiras diferentes das que ela predissera. Num determinado momento, pensei que ela ia falar, apenas movimentou os lábios sem conseguir articular nada. Só fez esboçar um sorriso. Fiquei pensando se alguma voz lhe teria dito que ela acabaria assim, em silêncio total. Me despedi e, pela primeira vez, uma voz me disse que eu nunca mais a veria. Morreu meses depois. Fui lá pegar seus pertences, entre eles o Livro negro de são Cipriano. Pregada numa das páginas, uma foto de meu pai de paletó branco, ainda bem jovem e bonito, e em outra a de minha mãe, com os olhos furados.

Fonte:

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Arquivado em O Escritor com a Palavra, Sergipe

Antonio Carlos Viana (1944)

Antonio Carlos Mangueira Viana nasceu em Aracaju/SE, em 1944. 
Contista, tradutor e professor. 
Ainda menino, muda-se com a família para o Rio de Janeiro, e cursa o primário na Escola Pública Guatemala. Tenta a carreira diplomática, sem sucesso. Passou pela Psicologia e acabou ensinando Português, Literatura e Redação. Foi depois para Teresópolis. Lá, para complementar o necessário à sobrevivência, vendia cachorro-quente na porta do INPS
Retornam a Aracaju, em 1955, onde completa os estudos preparatórios. Ingressa, em seguida, no curso de letras com habilitação em francês da Universidade Federal de Sergipe – UFSE, instituição na qual, em 1976, é admitido como professor. Lá coordenou a Oficina de Redação do Departamento de Letras. Desse último trabalho nasce o livro Roteiro de Redação: Lendo e argumentando, da Scipione (participam ainda as professoras Ana Maria Macedo Valença, Denise Porto Cardoso e Sônia Maria Machado).
Chegou a sobreviver fazendo traduções. Sempre estudando, fez mestrado em Teoria Literária, na PUC-RS e doutoramento em Literatura Comparada pela Universidade de Nice, na França.
A estréia no mercado editorial se dá com o livro de contos Brincar de Manja, de 1974.  
De 1989 a 1990, participa do grupo responsável pela implementação do curso de pós-graduação em letras da UFSE. 
Concilia a produção literária com as atividades de docente até 1995, quando se aposenta na universidade e cria, em Aracaju, um curso de redação preparatório.
Coleciona ainda dois importantes títulos: vencedor do Prêmio Esso de Literatura – 1971 e do II Concurso Nacional de Literatura – 1992, promovido pela Prefeitura Municipal de Garibaldi – RS.
Dono de uma prosa concisa e econômica, sobretudo no que concerne a aspectos formais e de estilo, em geral, de tom seco e preciso. Constrói assim narrativas sem excessos e que versam essencialmente sobre a temática da infância, perda da inocência e morte. 
Viana não se considera um “escritor regional”: suas histórias transcorrem tanto no interior nordestino quanto em Paris, reflexo do período em que escritor estudou literatura comparada na França. Sua temática, sombria em princípio, não resvala, no entanto, só para enredos de infelicidade. O que prevalece é a perplexidade quase calma e a poesia discreta dos que se comunicam com poucas palavras e observações precisas.
Livros de sua autoria: 
“Cine Privê, “Brincar de Manja”, “Em pleno castigo”, “Aberto está o inferno”, “O meio do mundo” e “O meio do mundo e outros contos”.
Viana também participou de uma antologia de Os melhores contos brasileiros de 1974, em 1975, e da coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século (Objetiva – 2000), seleção de Ítalo Moriconi.
Fontes:
Biografia de AC Viana, por Landisvalth Lima, em Recanto das Letras

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Arquivado em Biografia, Sergipe

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 593)

Uma Trova de Ademar 

Saudade, dor cruciante 
que nos maltrata demais… 
Palavra sempre constante 
nas Trovas que a gente faz! 
–Ademar Macedo/RN– 

Uma Trova Nacional 

As paixões são como os ventos 
com efeitos especiais, 
que surgem serenos, lentos, 
depois viram vendavais! 
–Almira Guaracy Rebêlo/MG– 

Uma Trova Potiguar 

Seca: quanta desventura
enche a terra de tristeza!
O homem sofre, mas a cura
vem da própria natureza.
–Mara Melinni/RN– 

Uma Trova Premiada 

2012  –  P/ Uma Vida Melhor/SP 
Tema  –  TREM  –  1º Lugar 

Temperança é uma virtude,
que todos deviam ter!
Tão rara na juventude!
Tão necessária ao viver! 
–Delcy Canalles/RS– 

…E Suas Trovas Ficaram 

Sobre os rochedos medonhos 
dos mares da minha vida, 
foi o batel dos meus sonhos 
que se quebrou na batida!… 
–Aloísio Alves da Costa/CE– 

Uma Poesia 

Viver de fazer poesia 
sempre foi minha rotina, 
acho que herdei do meu “mano” 
esta sacrossanta sina; 
pois quando o verso sai fraco, 
“Macedo” pega o bisaco, 
desse do céu e me ensina… 
–Ademar Macedo/RN– 

Soneto do Dia

AUSÊNCIA DE COR
-Delcy R. Canalles/RS-

É triste o inverno do amor!
As emoções vão-se embora
e o mundo, quase sem cor,
desfalece a cada hora!

Quando chega o desamor
que, às vezes, vem sem demora,
o homem, que é só langor,
fica triste, sofre e chora!

E a Primavera florida,
querendo saudar a vida,
desabrocha em lindas flores!

Mas não basta a natureza,
mostrar-se em sua beleza,
se, na alma, há ausência de cores!

(Menção honrosa Estadual – tema: Cor – III Jogos Florais de Caxias do Sul, 2012)

Fontes:
As mensagens poéticas são elaboradas por Ademar Macedo.
Exceto este último soneto, que inclui audaciosamente (sem consultar o Ademar, pelo horário avançado), adicionado para que o leitor não se sinta desfalcado do conteúdo total das Mensagens Poéticas.

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42º Jogos Florais Internacionais Nossa Senhora do Carmo (Resultado Final)

QUADRAS

1º Prémio: Maria de Fátima Soares de Oliveira = Juiz de Fora – MG

2º Prémio: Elen de Novais Felix = Rio de Janeiro – RJ

3º Prémio: Domitilla Borges Beltrame = São Paulo – SP

MENÇÕES HONROSAS:

António Isidoro Viegas Cavaco = Faro, Portugal

Argemira Fernandes Marcondes = Taubaté – SP

Ernesto Silva = Aljezur, Portugal

Florinda da Conceição Dias B. Almeida = Porto, Portugal

Francisca Coelho Graça, Gambelas = Faro, Portugal

Glória Marreiros = Portimão, Portugal

Hermoclydes S. Franco = Rio de Janeiro – RJ

Izo Goldman = São Paulo – SP

João Francisco da Silva = Tiago dos Velhos, Portugal

José Gabriel Gonçalves = Carcavelos, Portugal

Júlio Silva Máximo Viegas = Queijas, Portugal

Maria Amélia Brandão de Azevedo = Estoril, Portugal

Maria José dos Santos C. Afonso = Faro, Portugal

Maria de Lourdes Agapito da Silva = Lisboa, Portugal

Maria de Lourdes T. Amorim = Lisboa, Portugal

Marina Gomes S. Valente = Bragança Paulista – SP

Renato Manuel Bravo Valdeiro = Estremoz, Portugal

Victor Manuel Capela Batista = Barreiro, Portugal

LÍRICA

1º Prémio: …

2º Prémio: Maria Romana Costa Lopes Rosa = Faro, Portugal

3º Prémio: Donzília da Conceição R. Martins = Paredes, Portugal

MENÇÕES HONROSAS:

André Telucazu Kondo = Caraguatatuba – SP

Therezinha de Jesus Lopes = Juiz de Fora – MG

SONETO

1º Prémio: Maria Madalena Ferreira = Magé – RJ

2º Prémio: Glória Marreiros = Portimão, Portugal

3º Prémio: Alba Helena Corrêa = Niterói – RJ

MENÇÕES HONROSAS:

António Isidoro Viegas Cavaco = Faro, Portugal

Dolores Guerreiro Costa = Portimão, Portugal

Judite da Conceição Nunes Higino = Portimão, Portugal

Manuela Odete Barata das Neves = Faro, Portugal

Maria Aliete Viegas Cavaco Penha = Faro, Portugal

Maria Amélia Brandão de Azevedo = Estoril, Portugal

Renata Paccola = São Paulo – SP

GLOSA

1º Prémio: …

2º Prémio: Maria Aliete Viegas Cavaco Penha = Faro, Portugal

3º Prémio: Maria Ruth de Brito Neto = Lisboa, Portugal

MENÇÕES HONROSAS

Alvaro Manuel Viegas Cavaco = Loulé, Portugal

António Isidoro Viegas Cavaco = Faro, Portugal

Manuel Bonfim = Olhão, Portugal

PROSA

1º Prémio: Maria João Lopes Gaspar Oliveira = Coimbra, Portugal

2º Prémio: Gabriel de Sousa = Lisboa, Portugal

3º Prémio: Judite da Conceição Nunes Higino = Portimão, Portugal

MENÇÕES HONROSAS:

Donzília da Conceição R. Martins = Paredes, Portugal

Ernesto Silva = Aljezur, Portugal

Glória Marreiros = Portimão, Portugal

Maria Hortense Jesus C. Maria = Fuseta, Portugal

Maria José dos Santos C. Afonso = Faro, Portugal

– Prémio Casa Museu Professora Maria José Fraqueza

Donzília da Conceição R. Martins = Paredes, Portugal

– Prémio Especial Nossa Senhora do Carmo

Judite da Conceição Nunes Higino = Portimão, Portugal

Maria Amélia Brandão de Azevedo = Estoril, Portugal

Maria Teresa Aguilar = Aljezur, Portugal

– Prêmio Jovem Autor

Yvette Batalha Leite, São Paulo – SP

Fonte:
http://concursos-literarios.blogspot.com 

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