Maria Granzoto (Caderno de Poesias)

MINHA MÃE 
  
 Em teu colo
 Repouso a minha dor…
 Forte é o poema que cresce
 Por amor
 ao teu amor
 Neste solo tão agreste
 Da tua ternura…
 Daquele olhar tão cândido
 Os meus olhos a procurar
 Como em busca do alívio
 Para a dor luarizar…
 Foste para as alturas,
 Deixaste o nosso convívio para sempre!
 Eu, às penas duras,
 Confesso que o tempo não resolve,
 Pois ele também não cicatriza
 As chagas da tua ausência,
 Não enfraquece a saudade,
 Não suaviza a demência
 Que a tua falta me faz!
 Só provoca a imensa vontade
 Que eu sinto de te abraçar!
 Neste mundo, nada, ninguém,
 Há de apagar a imagem
 Do branco
 da tua tez
 E dos teus pequeninos olhos
 A olhar-me
 pela última vez…

NADA

 O vazio é pleno
 A ausência angustiante
 Do nada sereno.
 Não há busca.
 É tão alucinante,
 Que nem assusta mais.
 Não há o mirante,
 Não há mais paz.
 Não há tolerância.
 Nada é comedido.
 Só, a ignorância
 De pobres sofridos,
 De almas vagando,
 Procurando guarida.

 QUEM CEIFA, CORTA!

A foice corta e ceifa.
 Resta o cepo
 Da árvore decepada.
 Devagarinho é arrancado e,
 Ambos,
 Em carvão, transformados.
 A terra geme pelo que lhe foi tirado
 de modo brutal.
 Mas lá vem o animal
 animando o arado
 arranhando seu ventre
 já violentado…
 Volta o homem
 com sementes espalhando,
 na cova certa,
 esperanças para tantos
 que há tanto já não comem.
 Nada mais causa espanto.
 É uma cena perfeita:
 Que falta faz 
 uma farta colheita!

SAL DA SAUDADE 

 Vai alta a noite.
 Os pensamentos, desalinhados,
 descem em açoites
 desesperados.
 Desesperança de um porvir
 que é lento,
 um amargo sentir
 sedimentado com o cimento
 da saudade que insiste
 em ficar me assistindo…
 Para quê vim?
 Para consumir as dores,
 consumar o fim?
 Não vê que no seu mundo,
 Continuo não existindo?
 Não mais reconheço as cores,
 não mais me reconheço em mim.
 Amanhece.
 Também amanheço
 De um jeito meio esquisito:
 Acabo de ver a saudade, brilhando
 No imenso do infinito…
 O sol aquece.
 Eu, inerte, padeço.

AMOR EM SILÊNCIO

Na noite de sono agitado,
 Insone, clamo teu corpo sem rosto…
 Grito em silêncio teu nome, amado!
 Lavro a palavra lavada
 em silencioso silêncio…
 Esse silêncio que pensa
 e produz a miragem
 da tua imagem…
 Talvez sejas a pergunta
 que em silêncio faço ao vento silente!
 Quantas coisas me dizes na quietude,
 que eu, demente, doente de amor,
 arquiteta da dor, não decifro esses
 planos que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
 Num frágil fragmento de silêncio,
 tento harmonizar o silêncio e a solidão.
 O nosso silêncio tão cortado
 pela imagem da ilusão.
 Na indagação de gestos tão vários,
 há o silêncio
 das palavras várias,
 com tantas variantes!
 E o silêncio, vibrante,
 mostra as variáveis
 incontroláveis
 que me expõem ao avesso da dor que explode
 ao abrir-se em amor…
 Então, na tela fico à espera da poesia que há por vir,
 que há de ir com certeza, exprimir
 a tua meiguice
 e a minha sandice…
 E em silêncio a minha poesia começa
 onde termina a tua ternura
 e prossegue a minha desventura.
 Em silêncio…

DOAÇÃO

 A você, doei-me por inteira,
 Sem ao menos, antes, conhecê-lo!
 Surgiu, então, um profundo golpe na velha madeira
 Que tombou a árvore que não fez por merecê-lo!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Doação de coração que dói,
 Qual verdadeira ferida!
 Maldade que a alma corrói
 Nos percursos e revezes da vida!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Amo-o tanto e tanto!
 Confessar que nem pareço verdadeira!
 Nada, ninguém faz cessar o pranto
 Que em mim desaba, feito cachoeira!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Apagaram o meu sol e assopraram a minha luz!
 Mataram minhas estrelas, minhas flores!
 Sufocaram o meu sentir e o transformaram em cruz!
 Aprisionaram meus pássaros em gaiolas sem cores!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Mutilaram o meu sentir,
 Meu grito lancinante, ninguém para ouvir!
 Nenhum afago nas noites insones
 Quando vivo a gritar você, seu nome! 
Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

ENTREGA 


Foi assim, bem me lembro…
 Nossos olhos diziam por
 nós…
 Estaríamos, um dia, atados
 por seguros nós…
 Até que chegou a hora, o dia!
 Foi um querer não sabendo se queria,
 se deveria…
 Nada falamos. Você me sorrria,
 eu, também, sorria!
 Demo-nos as mãos…
 Eu, trêmula, fui docemente levada ao seu peito!
 Não teve jeito…
 Corpos colados, bocas entreabertas,
 Levemente se roçando…
 Arfantes!
 Você me querendo,
 eu, me entregando…
 Então, nossas bocas se uniram,
 Nossos corpos vibraram,
 Ali, no chão,
 doei a minha alma!
 Entreguei meu coração!


Fontes:

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, Paraná

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s