Tere Penhabe (Caderno de Poesias)

A CHUVA

A chuva cai
Impiedosa!
Eu precisava do sol
para viver
para sorrir
e ele não veio.
Veio a chuva
em seu lugar
e atrevida
inda me sorri
e pergunta-me:
– Quem é você,
para não me querer?
Eu vou cair
em sua vida
muito tempo ainda
e vou molhar você.
Depois gargalha
e vai embora.
Mas o sol não vem…

A DONA DA HISTORIA

Se naquele dia
a coragem não me faltasse
se contigo eu não me casasse
e se o vento não levasse
tantos sonhos meus e teus… 

Que teria sido
desse destino vencido
que percorremos separados
porém unidos, ligados
pela filha que tivemos…

E depois, muito depois
qual seria a história de nós dois
se naquele carnaval
entre risos e cuba libre
eu tivesse aceitado você de volta…

Se eu pudesse, se soubesse
que serias tão infeliz
quem sabe teria aceito
o teu amor aprendiz
e te ensinado a viver…

Não fui a dona da história
perdoe-me, se puder
você se foi desse mundo
sem nem aprender sorrir
só agora a história eu li…

Que bom seria
se a vida fosse um roteiro
com direito a remanejo
com direito a reversão
história de segunda-mão…

Mas não é.
O escritor desse roteiro
dá o direito de escolha
só que é feita no escuro
ninguém é dono da história.

A LUA E EU

A lua me deixa assim
inquieta
com o mundo nas mãos
o mar ao meu lado
querendo amor e amar. 

Querendo um abraço
que me abraçasse por dentro
aquietasse-me a alma
suavizasse os gritos roucos
do meu coração.

A lua me deixa assim
querendo o calor da sua pele
suas mãos me tocando
seus lábios ao meu alcance
mas eu não tenho.

Posso sentir com intensidade
o silêncio da sua inexistência
uma fera estoura as grades
que embriaga esta  vontade 
que eu tenho de buscar você.

Já não sei quem sou
com passos felinos
esgueiro-me pela vida
procurando o sentido
do que a lua me proporciona.

Vejo-o nos braços de anjos
a embalarem seu sono
coberto de sorrisos mansos
paz e docilidade…
Falta coragem à fera…

Você já foi fera um dia
entenderia?…
O medo me consome
violenta meus sentidos
deita-me ao mar sereno.

Tentáculos do mar me abraçam
como se ele pudesse
fazer-me o que você faria
na volúpia desse momento eu vejo:
não é bem isso que eu queria…

Queria que você fosse o mar
adentrasse a alma e o coração
possuísse meu corpo
tomando-me um pouco
da vida que explode em mim.

Queria os seus beijos quentes
que abrasadores, intrépidos
arrebentassem minhas correntes
libertando-me para sempre
deixando-me voar livre outra vez.

E de repente
a imagem refletida no espelho
parte-se lentamente
cacos de medo se desprendem
lembro-me onde tudo começou…

A lua me deixa assim…

ÁGUA DOCE DO RIO

A água do rio é doce
só até chegar no mar
pois quer queira ou não queira
ele sempre há de chegar.
E ele vem petulante
certo de que irá adoçar
com sua mansidão de longe
toda a violência do mar.
Ao perceber seu engano
se enfurece e quer voltar
mas é sempre muito tarde
a pororoca se dá.
O mar, em contradição
abre os braços e o recebe
no melhor do coração
como o amor que lhe apetece.
Nessa suave união
corpos se banham felizes
sentindo o sal do mar
e a mansidão do aprendiz.
Que sem ter pra onde ir
aceita seu novo destino
vai entrando com carinho
no gigante tão humilde.
Essa magia tão bela
que ao rio, o mar aquartela
vale a pena conhecer.
Sentir na alma e na pele
a carícia inconfundível
de águas doces que se salgam
deixando então de ser rios.

ANTES DA PRIMAVERA

Minh’alma e coração dançam felizes
pelos campos de trigo do outono
mas é também primavera em mim
floresce o nosso jardim…
Desabrocham  nossas primeiras flores…
não estás comigo para a colheita
mas fizeste parte do plantio, esperarei
sei que chegarás algum dia, na praia eu o verei…
Por isso colho atenciosamente cada uma das flores
eu as guardarei com carinho, se precisar
secarei as pétalas em páginas do livro
onde começamos a escrever a nossa vida!
Meus olhos buscam, teimosos, o horizonte
que já haviam abandonado…
nele também floresce, as mais lindas flores
cultivadas na tristeza da tua ausência…
Mas amanhã (que eu sei, haverá de chegar)
elas ainda estarão vivas comigo
e eu poderei te entregar… não demores amor
venha antes da primavera voltar!

ARCO-ÍRIS

Gosto do branco nos meus lençóis
imaculada e ousadamente puros
rude contraste com o qual premeio
o corpo em sonhos de paixão desfeito. 

Gosto do azul, anil ou royal, claros
caminhando na praia em devaneios
na espessa bruma da madrugada,
ouvir as ondas me cantando enleios.

Gosto do verde, que me lembra as matas
onde meu corpo jovem se embrenhava
buscando flores que eu nunca mais vi
 cujo perfume eu nunca me esqueci.

O vermelho, de todas, a minha preferida
relembra-me paixões da minha vida
se não foram tantas, bem que foram lindas
a saudade delas, não chegará ao fim.

Elas lembram alguém forte e tão amado
que me arrancava desse mundo ingrato
impunemente deitados na macia relva
trocávamos sonhos e vida.

Nunca esquecerei, de tão doces beijos…

AOS VERSOS DE UM POETA


Tarde morna… sol abraçando a serra
a sua tão amada serra menina.
Ao longe, um pássaro canta:
bem-te-vi, bem-te-vi, eu bem que te vi… 


É mais que um lamento, quase um grito
incontido, de tristezas feito
nesse canto de harmonia, acontece a alquimia
transformando o triste em belo: perfeito! 


Não chora a ave. Chora a vida pelo que fez
pelo inusitado, fatal e rudemente provocado
o brilho que vê naqueles olhinhos, creia
é só o reflexo dos teus olhos…


Abra suas mãos, que de versos é feita
pois é sempre de versos as mãos de um poeta
deixa que o doce pássaro pouse  sobre elas
passe a cantar a dor, que ele sente também.


Talvez se surpreenda pela compreensão
que abranda-lhe no peito, a dor da missão
e cantarão juntos, o mesmo gorjeio lindo
brilhando seus olhares, como tantas vezes.

Fonte:

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Arquivado em caderno de poesias, Santos, São Paulo

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