J. G. de Araújo Jorge (Cantos de Amor, Esperança e Dor)

CANTO E ELEGIA 

Sejam as palavras a forma da minha dor
ou da minha alegria.

Que este é o destino real dos que trouxeram
a poesia,
existirem apenas no canto,
como a chama no fogo,
como a forma na flor!

Canto e elegia…
aonde eu for.

CANTO OU ELEGIA

Porque não me pertences eu te sinto minha.
Sei que estou no teu sono e nos teus movimentos.
Ah! se já tivesse apertado ao meu peito
talvez me pertencesses, – e não fosses minha.

Quantas, quantas julguei possuir, tive-as na posse
e perdi-as no instante em que a taça se esvaziou.
Ah! morremos de sede ! E é água pura que canta
perto de nós, no abismo, esse amor que não temos.

Morro de sede, e sofro… Ó música tão perto
e tão longe na minha solidão ardente!
– Quanto não a ouvirei porque a terei nos lábios?

Quando a possuirei sem notar-lhe a pureza?
E a beberei sem ver, que a estou, lento, matando,
e estou, lento, morrendo, sem saber que morro?

CANTO DO AMOR SEM TEMPO

“Porque nunca te estreitei contra mim
é que nunca te afastas.”
(Apontamentos de Malte Laurids Brigge.
Rainer Maria Rilke.)

Cresces no pensamento quanto mais te afastas,
nunca te afastas, nunca, se afinal ressurges
em cada vivo instante – ó flor sem estações,
numa árvore que tem mil profundas raízes!

Para mim, és aquela intangível presença
que construí com o meu louco desejo impossível.
Se não posso tocar-te, hás de acenar-me sempre:
loura estrela que a mão não apaga dos olhos.

Mais alem do desejo – essa fera em tocaia -,
da ternura – esse dote veneno que embriaga -,
paira o amor, e eis o amor, longe de nossas forças,
fruto de ouro da lenda que criamos juntos.

Ah! pudesse eu tocar-te e talvez esboroasses
como um gesto de areia ao abraço das vagas…
Ah! pudesses ser minha, e talvez percebesses
que então, já nunca mais poderias ser minha!

Ah! o amor, como nós o afastamos, no instante
em que julgamos, tontos, loucos, celebrá-lo.
Só depois que o possuímos é que compreendemos
que possui-lo é afinal parti-lo e mutila-lo.

Quem diria? A conquista é o “requiem” do amor,
e o que devera ser eterno e indivisível,
vai sendo mutilado toda vez que um golpe
de prazer, fere e atinge a substancia do sonho.

Só – como estas, assim, estou sempre ao teu lado,
sempre comigo estas -, assim só, como estou.
Que faríamos nós para salvar o amor
se eu pudesse planta-lo em teu corpo, a enraizar-me?

Ah! os braços são alças do esquife imprevisto,
colhem flor sem raiz, colhem astros sem céu.
o meu amor, só tu cintilas em meu sonho
porque enquanto me buscas eu jamais to alcanço!

O destino do eterno atraiçoou nossos planos.
Nossa conspiração frustrada nos endeusa.
E esse amor, que eu quisera estrangular de beijos
sobe como uma chama angelizada no ar!

CANTO DE ONTEM

Vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
Passeávamos assim, e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.

Muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.

Que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?

Tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.

Tu me queres ainda, eu sei que te aninhas, por habito ou por frio
junto ao meu corpo, e esperas.

E eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano…

Vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.

CANTO INTEGRAL DO AMOR

Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma,. presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.

Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração
como o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.

Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.

E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
– e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.

CANTO AO FUTURO

O trabalho não pesará. Será como a tua cabeça
que carregas todos os dias sem sentir.

Os caminhos serão os mesmos – subindo as montanhas –
rasgando as planícies – serão os mesmos –

A inveja não minará a bondade
a bondade não será apenas a face que ri.

Nem haverá caridade. – só a justiça –
ninguém agradecerá, ninguém se curvará,
a gratidão se purificará.

Todos chegaremos a ser homens
depois de ser crianças,
não virá a ferramenta
sem passar pelo brinquedo,
não chegará a ciência
antes da história de fadas,

A necessidade não atropelará a infância .
Oh! a infância, sagrada infância!
não será privilégio, – estará em todos os passados,
subiremos a serra para encontrá-la .

Sairá das tuas mãos o que nela estiver
teu cérebro trabalhará contigo para melhor ate ofereceres.

Não haverá rumos impostos,
escolheremos a direção.
Nem haverá boléias, – todos conduziremos
os nossos carros, as novas vidas.

CANTO DO POETA MENOR

Sou o poeta menor, o trovador humilde,
que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
em meio às árvores, aos pássaros, aos rios e jacarés
porque o resto não há.

Não me recebem. Estão sempre em reunião importante.

Estou na rua, com o povo, que “a praça é do povo
como o céu é do condor”,
já cantou o grande Poeta.

Não trago quatrocentos anos na sacola,
não sou de ferro, não sou de bronze,
não desci orgulhoso da alta montanha
falando como Zaratustra,
– sou um poeta, de barro,
como qualquer homem…

Não cheguei de Ita, com alma palaciana,
disposto a conquistar a grande capital,
não invadi os jornais e suplementos
construindo “igrejinhas” sem fieis.

Sou o poeta menor, o poeta humilde, sem história,
que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
pra lá, muito pra lá…
– a vila de Tarauacá.

Poeta sem brasão, sem orgulhos, sem rodinhas,
apátrida entre irmãos,
poeta nú e sozinho, com sua poesia,
pelos quatro cantos de sua terra
misturado com o povo.

Sou o poeta antigabinete ministerial
sem rondós e sem falsas luxúrias,
não sou amigo dos reis,
sou simplesmente o poeta da rua,
como um violeiro e sua viola,
como um cego e seu realejo…

Quando toca a minha poesia
a criançada vem correndo para ouvir,
os trabalhadores param o serviço
e comentam,
as empregadas e os transeuntes fazem roda.
as moças se debruçam nas janelas
e ficam cantarolando.

Sou o poeta menor. Não me recebem.
Estão sempre em reunião importante.

Não faz mal. De mãos dadas com o povo,
como em noite de lua
faço ciranda na rua.

CANTO SOLITÁRIO E TRISTE
à Memória de Medgar Evers

(Líder negro assassinado traiçoeiramente, em sua luta contra a segregação racial nos Estados Unidos)

A maldade e a covardia caminham de mãos dadas
sobre a tua memória.

Os versos vertebrados de Langsthon Hughes
(Ó soturnas e graves badaladas!)
antecipavam tua sorte
e descreviam tua história.

Colheu-te a morte, megera branca,
– noiva do nada,
sem ter coragem de olhar-te a face
transfigurada.

Nos campos de Springfield os restos de Lincoln,
teu velho Presidente, – o que caiu por teu amor,-
sofreram como as raízes que no âmago da terra
sofrem, quando o tronco recebe os golpes do lenhador.

Tombaste, tal como Lincoln,
o velho Presidente,
e sobre o solo, teu sangue rubro
é essa bandeira, cor da revolta,
que segue à frente!

E agora, feito luz
que se liberta e irradia,
– diáfano, sem cor,
chegaste à verdadeira Democracia
que é o Reino do Senhor!

Irmão negro que caíste à traição
vítima do Caim-branco norte-americano
na mais nefanda guerra,
guarda este canto, – misto de hino e de prece,-
que de meu peito fugiu,

– canto de um poeta nascido em outra terra
feliz e orgulhosa de ser mestiça,
onde os homens brancos, negros, amarelos,
são todos Brasil!

Guarda este canto em tua memória
de um poeta teu irmão que hoje queria apenas
a glória
de poder ser negro como tu,
ao menos um minuto,
para, por tua morte e pela espécie humana,
pôr-se também de luto!

CANTO DE ÓDIO E AMOR

I
Sempre nos encontraremos
não adianta fugir, nos encontraremos .

Meu passo estará adiante, minha mão estará à frente
aguçada coma uma lâmina.

Sim, sou cristão . Sei amar a odiar com justiça .
Não darei a outra face à bofetada
nem terás tempo .

Só que não merecias a terra, a doce terra democrática,
onde te dissolverás com antecedência
para que o ódio termine.

Meu irmão, ire buscar-te, no fundo do abismo de mil degraus
nos feriremos juntos, as mãos, o coração,
dividirei o meu gole dágua
entregarei meu pão, cederei minha cama .

Oh! o amor, sim amarei! – Mais que meu braço, secarei meu corpo
me dispersarei na total doação, terei mil corações,
descansarei no grande berço, na doce terra democrática,
para que haja amor.

CANTO DO COLONO

Há quatrocentos anos te disseram que estes campos
e estas montanhas tinham dono,
deram-te uma enxada, só a primeira,
eras teu avô.

Houve festas, império, casa-grande e senzala,
corpetes, cartolas, mulatos, padrinhos,
culote, carruagem, charutos, escravos.

Sempre escravos, – ontem, – hoje.

Agora te dizem que estas terras têm donos
teus filhos morreram, teus frutos levaram,
compraste uma enxada e te pões a cavar.

Só falta uma cruz.

CANTO IMPASSÍVEL À SOLIDÃO

Hoje estou só,
perfeitamente só.

No vazio apartamento, nada desejo senão esta solidão
receio mesmo encontrar-me e surpreender-me com os
[restos de algum naufrágio cotidiano.

Não serviria vinho ao amigo que nesta hora fosse
[apenas um intruso
não sorriria ao amor, cujo carinho seria apenas um
[irritante contacto,
fechei todos os livros, silenciei-os como túmulos
nem desejo ressuscitar fantasmas em meu branco
[pensamento.
Hoje estou só,
deixei que o tempo passasse para que pudesse
[encontrar-me
sem perturbação,
preparei-me para abrir a janela sobre abismos sem
[perturbar-me a vertigem
das alturas.

Nem mesmo a música, essa alma da criação, esse halo
[das coisas
poderia chegar aos meus ouvidos, sem bater como uma
[estranha.

Hoje estou só, perfeitamente só, conscientemente só
como um rochedo no alto mar
orgulhoso do meu egoísmo e da minha força, satisfeito
[como um deus,

criando a minha música e me divertindo.

E percebo deslumbrado
que nunca estarei só
nem nunca temerei a solidão
como o resto dos homens.

CANTO INICIAL

Hoje sou puro, nada me perturba
nenhuma mancha me atingirá.

Nada desejo, além das coisas que me cercam
as ruas, as casas, as árvores, a amanhã.

Ouço pássaros com suas claras vozes na minha alegria,
vejo a terra úmida com suas águas que passam
[escachoantes
e as verdes folhas que nascem na sombra com a forma
[de coração
e que tomam a voz dos córregos para cantar.

Não quero ler, não quero contágios, não quero poluir-me,
encontrei-me numa remota infância, sem futuro, sem passado,
sem vida,
e tenho nu o corpo, sinto o sol na epiderme.

Hoje quero olhar o céu, as nuvens itinerantes
desmanchando símbolos ao vento,
quero molhar os pés no mar, no vazio mar, na vazia praia
mesmo cheio de barcos, mesmo cheia de gente.

Hoje quero surpreender-me nas origens
descobrir-me, como a um córrego entre pedras verdes
na mata fechada onde a luz é um bailado de frestas inquietas.

Quero surpreender-me nas origens, e vou escalar-me,
[vou descobrir-me
nas coisas que me cercam,
no canto dos pássaros, no movimento das folhas, na
[alegria do mar,
na música do espaço.

Hoje, sou puro, os animais não se espantam à minha
[passagem, os peixes conversarão comigo,
os pássaros responderão ao meu canto,
as crianças me estenderão as mãos para fazer roda,
e inutilizarei todas as palavras, e em silêncio, no
[profundo e luminoso silêncio
cantarei

Hoje sinto-me puro, – o instinto como um cristal
[trespassado de luz.

CANTO EFÊMERO

Feliz no mundo eu só!… Ninguém mais é feliz!
Ninguém mais é feliz!… Eu só, sorrio e canto!
Enfim o teu amor!… Quanta coisa! Quem diz,
– quem poderia crer que eu merecesse tanto!

Esplendor! a paisagem mudou por encanto!
No negro da minha alma há rabiscos de giz
traçando ante meus olhos trêmulos de espanto.
– “Feliz no mundo, eu só !… Ninguém mais é feliz!”

Certo do teu amor, tudo ao redor se anima,
em ouro se transforma a fuligem do pó
e a minha alma, a beleza das coisas sublima!

Enfim o teu amor!… E o teu amor primeiro!
Meu Deus! eu sou feliz!… Feliz no mundo eu só!
Ninguém mais é feliz, ninguém!… no mundo inteiro!

CANTO PRETENSIOSO

Exilado num tempo de perfídias,
de misérias, de lutas, de torpezas,
– pergunto em vão, nesse clamor de insídias
onde vivem as almas e as belezas?

Trago as asas e as ânsias sempre presas
se o mundo é um choque eterno de dissídias…
– onde andarão aquelas naturezas
do século de Péricles e Fídias ?

No meu destino singular de eleito
subo à procura do alto da montanha,
onde o ar é mais puro e o céu perfeito!

– Que as montanhas, as eras não consomem,
e nessa ânsia em que avanço, sinto a estranha
vocação de ser deus dentro de um homem !

CANTO PERDULÁRIO

Hei de gastar minha alma – a alma dos poetas
é como a luz do Sol ou como o luar,
deve espalhar-se, para embelezar
e iluminar as sombras mais discretas…

Como as águas que cantam, irrequietas,
deve o silêncio, um pouco, musicar,
ou como a onda que se ergue, – a alma dos poetas
deve de espumas enfeitar o mar!

Cumpro assim o meu destino, e neste bando
de versos, perdulário a vou gastando,
e quanto tenho de alma já nem sei…

E hei de esbanjá-la mais, de instante a instante,
e morto – hão ede encontrá-la ainda estuante
nos versos onde a vida a desperdicei !

CANTO PURO

Como se fosse uma árvore me sinto
a bracejar a luz desta manhã:
do azul dos céus, azul puro e retinto,
embebedo a minha alma livre e sã.

Há uma alegria esplêndida e pagã!
Cheiro de terra a provocar o instinto!
O dia, é um bago rubro de romã
e o Sol renasce de um incêndio extinto

Que gosto bom esse de andar no chão
de pés descalços, tal como as raízes,
a ouvir cantar no peito o coração

Como as aves nas ramas enfloradas
ou como as águas claras e felizes
que cantam pelo chão, despreocupadas…

Fonte:
http://www.jgaraujo.com.br/biblioteca/biblioteca.htm

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