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Cecília Meireles (Serenata)

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30 de agosto de 2012 · 23:16

José Bonifácio (Poemas)

SAUDADE

I
Eu já tive em belos tempos
Alguns sonhos de criança;
Já pendurei nas estrelas
A minha verde esperança;
Já recolhi pelo mundo
Muita suave lembrança.

Sonhava então – e que sonhos
Minha mente acalentaram?!
Que visões tão feiticeiras
Minhas noites embalaram?!
Como eram puros os raios
De meus dias que passaram?!

Tinha um anjo de olhos negros,
Um anjo puro e inocente,
Um anjo que me matava
Só c’um olhar – de repente,
– Olhar que batia na alma,
Raio de luz transparente!

Quando ela ria, e que riso?!
Quando chorava – que pranto?!
Quando rezava, que prece!
E nessa prece que encanto?!
Quando soltava os cabelos,
Como esparzia quebranto!

Por entre o chorão das campas
Minhas visões se ocultaram;
Meus pobres versos perdidos
Todos, todos acabaram;
De tantas rosas brilhantes
Só folhas secas ficaram!

II

Oh! que já fui feliz! – ardente, ansioso
Esta vida boiou-me em mar de encantos!
Os meus sonhos de amor eram mil flores
Aos sorrisos de aurora, abrindo a medo
Nos orvalhados campos!

Ela no agreste monte; ela nos prados;
Ela na luz do dia; ela nas sombras
Pardacentas do vale; ela no monte,
No céu, no firmamento – ela sorrindo!
Então o sol surgindo feiticeiro,
Entre nuvens de cores recamadas,
Segredava mistérios!

Como era verde o florejar das veigas,
Brandinha a viração, múrmura a fonte,
Meigo o clarão da lua, a estrela amiga
Na solidão do Céu!

Que sedes de querer, que amor tão santo,
Que crença pura, que inefáveis gozos,
Que venturas sem fim, calcando ousado
Humanas impurezas!
Deus sabe se por ela, em sonho estranho
A divagar sem tino em loucos êxtases,
Sonhei, penei, vivi, morri de amores!
Se um quebro fugitivo de seus olhos
Era mais do que a vida em plaga edênica,
Mais do que a luz ao cego, o orvalho às flores,
A liberdade ao triste prisioneiro,
E a terra da pátria ao foragido!!!
Mas, ai! – tudo morreu!…

Secou-se a relva, a viração calou-se,
Os queixumes da fonte emudeceram,
Mórbida a lua só prateia lousa,
A estrela amorteceu e o sol amigo
No verde-negro seio do oceano
Chorando a face esconde!

Meus amores talvez morreram todos
Da lua no clarão que eu entendia,
Nessa réstia do sol que me falava,
Que tantas vezes me aqueceu a fronte!

III

Além, além, meu pensamento, avante!
Que idéia agora a mente me assalteia?!
Lá surge afortunada,
Da minha infância a imagem feiticeira!
Quadra risonha de inocência angélica,
Minha estação no Céu, por que fugiste?
E que vens tu fazer – agora à tarde
Quando o sol já desceu os horizontes,
E a noite do saber já vem chegando
E os lúgubres lamentos?
 

Minha aurora gentil – tu bem sabias
Como eu falava às brisas que passavam,
Às estrelas do Céu, à lua argêntea,
sobre nuvem purpúrea ao Sol já frouxo!
Ante mim se erguia então o venerando
O vulto de meu Pai – perto, ao meu lado
Minha irmãs brincavam inocentes,
Puras, ingênuas, como a flor que nasce
Em recatado ermo! – Ai! minha infância
Não voltarás… oh! nunca!… entre ciprestes
Dormes daqueles sonhos esquecida!
 
Na solidão da morte – ali repoisam
Ossos de Pai, de Irmãos!… embalde choras
Coração sem ventura… a lousa é muda,
E a voz dos mortos só a campa a entende.
Tive um canteiro de estrelas,
De nuvens tive um rosal;
Roubei às tranças da aurora
De pérolas um ramal.

De aurinoturno véu
Fez-me presente uma fada;
Pedi à lua os feitiços,
A cor da face rosada.

Contente à sombra da noite
Rezava a Virgem Maria!
De noite tinha esquecido
Os pensamentos do dia.
Sabia tantas histórias
Que não me lembra nenhuma;
Ao meus prantos apagaram
Todas, todas – uma a uma!

IV

Ambições, que eu já tive, que é delas?
Minhas glórias, meu Deus, onde estão?
A ventura – onde vivi na terra?
Minha rosas – que fazem no chão?

Sonhei tanto!… Nos astros perdidos
Noites… noites inteiras dormi;
Veio o dia, meu sono acabou-se,
Não sei como no mundo me vi!

Esse mundo que outrora habitava
Era Céu… paraíso… eu não sei!
Veio um anjo de formas aéreas,
Deu-me um beijo, depois acordei!

Vi maldito esse beijo mentido,
Esse beijo do meu coração!
Ambições, que eu já tive, que é delas?
Minhas glórias, meu Deus, onde estão?

A cegueira vendou-me estes olhos,
Atirei-me num pego profundo;
Quis coroas de glória… fugiram,
Um deserto ficou-me este mundo!

As grinaldas de louro murcharam,
Nem grinaldas – somente a loucura!
Vi no trono da glória um cipreste,
Junto dele uma vil sepultura!

Negros ódios, infames traições,
E mais tarde… um sudário rasgado!
O futuro?… Uma sombra que passa,
E depois… e depois… o passado!

Ai! maldito esse beijo sentido
Esse beijo do meu coração!
A ventura – onde vive na terra?
Minhas rosas – que fazem no chão?

Por entre o chorão das campas
Minhas visões se ocultaram;
Meus pobres versos perdidos
Todos, todos acabaram;
De tantas rosas brilhantes
Só folhas secas ficaram….

ENLEVO

Se invejo as coroas, os cantos perdidos
Dos bardos sentidos, que altivos ouvi,
Bem sabes, donzela, que os loucos desejos,
Que os vagos almejos, são todos por ti.

Bem sabes que, às vezes, teu pé sobre o chão,
No meu coração faz eco, passando;
Que sinto e respiro teu hálito amado;
E, mesmo acordado, só vivo sonhando!

Bem sabes, donzela, na dor ou na calma,
Que é tua a minha alma, que é meu o teu ser,
Que vivo em teus olhos; que sigo teus passos;
Que quero em teus braços viver e morrer.

A luz do teu rosto – meu sol de ventura,
Saudade, amargura, não sei o que mais –
Traduz meu destino, num simples sorriso,
Que é meu paraíso, num gesto de paz.

Se triste desmaias, se a cor te falece,
A mim me parece que foges pro céu,
E eu louco murmuro, nos amplos espaços,
Voando a teus braços: – És minhas!… Sou teu!…

Da tarde no sopro suspira baixinho,
No sopro mansinho suspira… Quem és?
Suspira… Hás de ver-me de fronte abatida,
Sem força, sem vida, curvado a teus pés.

IMPROVISADO

DERMINDA, esses teus olhos soberanos
Têm cativado a minha liberdade;
Mas tu cheia, cruel, de impiedade
Não deixas os teus modos desumanos.

Por que gostas causar dores e danos?
Basta o que eu sofro: tem de mim piedade!
Faze a minha total felicidade,
Volvendo-me esses olhos mais humanos.

Já tenho feito a última fineza
Para ameigar-te a rija condição;
És mais que tigre, foi baldada empresa.

Podem meus ais mover a compaixão
Das pedras e dos troncos a dureza,
E não podem abrandar um coração?

Fonte:
Portal São Francisco

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Monteiro Lobato (Dona Expedita)

– …

– Minha idade? Trinta e seis…

– Então, venha.

Sempre que dona Expedita se anunciava no jornal, dando um número de telefone, aquele diálogo se repetia. Seduzidas pelos termos do anúncio, as donas de casa telefonavam-lhe para “tratar” – e vinha inevitavelmente a pergunta sobre a idade, com a também inevitável resposta dos 36 anos. Isso desde antes da grande guerra. Veio o 1914 – ela continuou nos 36. Veio a batalha do Marne; veio o armistício – ela firme nos 36. Tratado de Versalhes – 36. Começos de Hitler e Mussolini – 36. Convenção de Munich – 36…

A futura guerra a reencontrará nos 36. O mais teimoso dos empaques! Dona Expedita já está “pendurada”, escorada de todos os lados, mas não tem ânimo de abandonar a casa dos 36 anos – tão simpática!

E como se tem 36 anos, veste-se à moda dessa idade um pouco mais vistosamente do que a justa medida aconselha. Erro grande! Se à força de cores, rugas e batons, não mantivesse aos olhos do mundo os seus famosos 36, era provável que desse a idéia duma bem aceitável matrona de 60…

Dona Expedita é “tia”. Amor só teve um, lá pela juventude, do qual às vezes, nos “momentos de primavera”, ainda fala. Ah, que lindo moço! Um príncipe. Passou um dia de cavalo pela janela. Passou na tarde seguinte e ousou um cumprimento. Passou e repassou durante duas semanas – e foram duas semanas de cumprimentos e olhares de fogo. E só. Não passou mais – desapareceu da cidade para sempre.

O coração da gentil Expedita pulsou intensamente naqueles maravilhosos quinze dias – e nunca mais. Nunca mais namorou ou amou alguém – por causa da casmurrice do pai.

Seu pai era caturra de barbas à Von Tirpitz, português irredutível, desses que fogem de certos romances de Camilo e reentram na vida. Feroz contra o sentimentalismo. Não admitia namoros em casa, e nem que se pronunciasse a palavra casamento. Como vivesse setenta anos, forçou as duas únicas filhas a se estiolarem ao pé de sua catarreira crônica. “filhas são para cuidar da casa e da gente”.

Morreu, afinal, e arruinado. As duas “tias” venderam a casa para pagamento das contas e tiveram de empregar-se. Sem educação técnica, os únicos empregos antolhados foram os de criada grave, dama de companhia ou “tomadeira de conta” – graus levemente superiores à crua profissão normal de criada comum. O fato de serem de “boa família” autorizava-as ao estacionamento nesse degrau um pouco acima do último.

Um dia a mais velha morreu. Dona Expedita ficou só no mundo. Quer fazer, senão viver? Foi vivendo e especializando-se em lidar com patroas. Por fim, distraía-se com isso. Mudar de empregos era mudar de ambiente – ver caras novas, coisas novas, tipos novos. Um cinema – o seu cinema! O ordenado, sempre mesquinho. O maior de que se lembrava fora de 150 mil réis. Caiu depois para 120; depois para 100; depois 80. Inexplicavelmente as patroas iam-lhe diminuindo a paga a despeito da sua permanência na linda idade dos 36 anos…

Dona Expedita colecionava patroas. Teve-se de todos os tipos e naipes – das que obrigam as criadas a comprar o açúcar com que adoçam o café, às que voltam para casa de manhã e nunca lançam os olhos sobre o caderno de compras. Se fosse escritora teria deixado o mais pitoresco dos livros. Bastava que fixasse metade do que viu e “padeceu”. O capítulo das pequeninas decepções seria dos melhores – como aquele caso dos 400 mil réis…

Foi vez que, saída de emprego, andava em procura de outro. Nessas ocasiões costumava encostar-se à casa de uma família que se dera com a sua, e lá ficava um mês ou dois até conseguir nova colocação. Pegava a hospedagem fazendo doces, no que era perita, sobretudo um certo bolo inglês que mudou de nome, passando a chamar-se o “bolo de cona Expedita”. Nesses interregnos comprava todos os dias um jornal especializado em anúncios domésticos, no qual lia atentamente a seção do “procura-se”. Com a velha experiência adquirida, adivinhava pela redação as condições reais do emprego.

– Porque “elas” publicam aqui uma coisa e querem outra – comentava filosoficamente, batendo no jornal. – para esconder o leite, não há como as patroas!

E ia lendo, de óculos na ponta do nariz: “precisa-se de uma senhora de meia idade para servicinhos leves”.

– Hum! Quem lê isto pensa que é assim mesmo – mas não é. O tal servicinho leve não passa de isca – é a minhoca do anzol. A mim é que não me enganam, as biscas…

Lia todos os “procura-se”, com um comentário para cada um, até que se detinha no que lhe cheirava melhor. “Precisa-se duma senhora de meia-idade para serciços leves em casa de fino tratamento”.

– Este, quem sabe? Se é casa de fino tratamento, pelo menos fartura há de aver. Vou telefonar.

E vinha a telefonada de costume com a eterna declaração dos 36 anos.

O hábito de lidar com patroas manhosas levou-a a lançar mão de vários recursos estratégicos; um deles: só “tratar” pelo telefone e não dar-se como ela mesma.

“Estou falando em nome duma amiga que procura emprego.” Desse modo tinha mais liberdade e jeito de sondar a “bisca.”

– Essa amiga é uma excelente criatura – e vinham bem dosados elogios. – Só que não gosta de serviços pesados.

– Que idade?

– Trinta e seis anos. Senhora de muito boa família – mais por menos de 150 mol réis nunca se empregou.

– É muito. Aqui o mais que pagamos é 110 – Sendo boa.

– Não sei se ela aceitará. Hei de ver. Mas qual é o serviço?

– Leve. Cuidar da casa, fiscalizar a cozinha, espanar – arrumar…

– Arrumar? Então é arrumadeira que a senhora quer?

E dona Expedita pendurava o fone, arrufada, murmurando: “Outro ofício!”

O caso dos 400 mil réis foi o seguinte. Ela andava sem emprego e a procurá-lo na seção do “precisa-se”. O súbito, esbarrou com esta maravilha: “Precisa-se duma senhora de meia-idade para fazer companhia a uma enferma; ordenado, 400 mil réis”.

Dona Expedita esfregou os olhos. Leu outra vez. Não acreditou. Foi em busca duns óculos novos adquiridos na véspera. Sim. Lá estava escrito 400 mil réis!…

A possibilidade de apanhar um emprego único no mundo fê-la pular. Correu a vestir-se, a pôr o chapeuzinho, a avivar as cores do rosto e voou pelas ruas afora.

Foi dar com os costados numa rua humilde; nem rua era – numa “avenida”. Defronte à casa indicada – casinha de porta e duas janelas – havia uma dúzia de pretendentes.

– Será possível? O jornal saiu agorinha e já tanta gente por aqui?

Notou que entre as postulantes predominavam senhoras bem-vestidas, como o aspecto de “damas envergonhadas”. Natural que assim fosse porque um emprego de 400 mil réis. Era positivamente um fenômeno. Nos seus… 36 anos de vida terrena jamais tivera notícia de nenhum. Quatrocentos por mês! Que mina! Mas com um emprego assim em casa tão modesta? “Já sei. O emprego não é aqui. Aqui é onde se trata – casa do jardineiro, com certeza…”

Dona Expedita observou que as postulantes entravam de cara risonha e saíam de cabeça baixa. Evidentemente a decepção da recusa. E o seu coração batia de gosto ao ver que todas iam sendo recusadas. Quem sabe? Quem sabe se o destino marcara justamente a ela como a eleita?

Chegou, por fim, a sua vez. Entrou. Foi recebida por uma velha na cama. Dona Expedita nem precisou falar. A velha foi logo dizendo:

“Houve erro no jornal. Mandei por 40 mil réis e puseram 400… Tinha graça eu pagar 400 a uma criada, eu que vivo à custa do meu filho, sargento da polícia, que nem isso ganha por mês…”

Dona Expedita retirou-se com cara exatamente igual à das outras.

O pior da luta entre criados e patroas é que estas são compelidas a exigir o máximo, e as criadas, por natural defesa, querem o mínimo, e as criadas, por natural defesa, querem o mínimo. Nunca jamais haverá acordo, por que é choque de totalitarismo com democracia.

Um dia, entretanto, dona Expedita teve a maior das surpresas: encontrou uma patroa absolutamente identificada com suas idéias quanto ao “mínimo ideal”- e, mais que isso, entusiasmada com esse minimalismo – a ajudá-la a minimizar o minimalismo!

Foi assim. Dona Expedita estava pela vigésima vez na tal família amiga, à espera de nova colocação. Lembrou-se de recorrer a uma agência, para a qual telefonou. “Quero uma colocação assim, de 200 mil réis, em casa de gente arranjada, fina e, se for possível, em fazenda. Serviços leves, bom quarto, banho. Aparecendo qualquer coisa deste gênero, peço que me telefone” – e deu o número do aparelho e de casa.

Horas depois retinia a campainha do portão.

– É aqui que mora madame Expedita? – perguntou, em língua atrapalhada, uma senhora alemã, cheia de corpo, e de bom aspecto.

A criadinha que atendeu disse que sim, fê-la entrar para o hall de espera e foi correndo avisar a dona Expedita. “Uma estrangeira gorda querendo falar c madame!”

– Que pressa meu Deus! – murmurou a solicitada, correndo ao espelho para os retoques.

– Nem três horas que telefonei. Agência boa, sim…

Dona Expedita apareceu no hall com um excessozinho de ruge nos beiços de múmia. Apareceu e conversou – e maravilhou-se, porque, pela primeira vez na vida, encontrava a patroa ideal. A mais sui-generis das patroas, de tão integrada no ponto de vista das “senhoras de meia-idade que procuram serviços leves”.

O diálogo travou-se num crescendo de animação.

– Muito boa tarde! – disse a alemã, com a maior cortesia. – Então foi madame quem telefonou para a agência?

0 “madame” causou espécie a dona Expedita.

– É verdade. Telefonei e dei as condições. A senhora gostou?

– Muito, mas muito mesmo! Era exatamente o que eu queria. Perfeito. Mas vim ver pessoalmente, porque o costume é anunciarem uma coisa e a realidade ser outra.

A observação encantou dona Expedita, cujos olhos brilharam.

– A senhora parece que está pensando com a minha cabeça. É justamente isso o que se dá, vivo eu dizendo. As patroas escondem o leite. Anunciam uma coisa e querem outra. Anunciam serviços leves e botam em cima das pobres criadas a maior trabalheira que podem. Eu falei, insisti com a agência: servicinhos leves…

– Isso mesmo! – concordou a alemã, cada vez mais encantada. – Serviços leves, porque afinal de contas uma criada é gente – não é burro de carroça.

– Claro! Mulheres de certa idade não podem fazer serviços de mocinhas, como arrumar, lavar, cozinhar quando a cozinheira não vem. Ótimo! Quanto à acomodação, falei à agência em “bom quarto”…

– Exatamente! – concordou a alemã. – Bom quarto – com janelas. Nunca pude conformar-me com isso das patroas meterem as criadas em desvão escuros, sem ar, como se fossem malas. E sem banheiro em que tomem banho.

Dona Expedita era toda risos e sorrisos. A coisa lhe estava saindo maravilhosa.

– E banho quente! – acrescentou com entusiasmo.

– Quentíssimo! – berrou a alemã, batendo palmas. – Isso para mim é ponto capital.

Como pode haver asseio numa casa onde nem banheiro há para criadas?

– Há, minha senhora, se todas as patroas pensassem assim! – exclamou dona Expedita, erguendo os olhos para o céu. – Que felicidade não seria o mundo! Mas no geral as patroas são más – e iludem as pobres criadas, para agarrálas e explorá-las.

– Isso mesmo! – apoiou a alemã. A senhora está falando como um livro de sabedoria. Para cem patroas haverá cinco ou seis que tenham coração – que compreendam as coisas…

– Se houver! – duvido dona Expedita.

O entendimento das duas era perfeito: uma parecia o Double da outra. Debateram o ponto dos “serviços leves” com tal mútua compreensão que os serviços foram levíssimos, quase-nulos – e dona Expedita viu erguer-se diante de si o grande sonho de sua vida: um emprego em que não fizesse nada, absolutamente nada…

– Quanto ao ordenado, disse ela (que sempre pedia 200 para deixar por 80), fixei-o em 200…

Avançou medrosamente e ficou à espera da inevitável repulsa. Mas a repulsa do costume pela primeira vez não veio. Bem ao contrário disso, a alemã concordou com entusiasmo.

– Perfeitamente! Duzentos por mês – e pagos no último dia de cada mês.

– Isso! – berrou dona Expedita, levantando-se da cadeira. – Ou no comecinho. Essa história de pagamento em dia incerto nunca foi comigo. Dinheiro de ordenado é sagrado.

– Sacratíssimo! – urrou a alemã, levantando-se também.

– Ótimo – exclamou dona Expedita. – Está tudo como eu queria.

– Sim, ótimo- repetiu a alemã. – Mas a senhora também falou em fazenda…

– Ah, sim fazenda. Uma fazenda bonita, toda frutas, leite e ovos, extasiou a alemã. Que maravilha…

Dona Expedita continuou:

– Gosto muito de lidar com pintinhos.

– Pintos! Ah, é o maior dos encantos! Adoro os pintos – as ninhadas… o nosso entendimento vai ser absoluto, madame…

O êxtase da ambas sobre a vida de fazenda foi subindo numa vertigem. Tudo quanto havia de sonhos incubados naquelas almas refloriu viçoso. Infelizmente, a alemã teve a idéia de perguntar:

– E onde fica a sua fazenda, madame?

– A minha fazenda? – repetiu dona Expedita, refranzindo a testa.

– Sim, a sua fazenda – fazenda para onde madame quer que eu vá…

– Fazenda para onde eu quero que a senhora vá? – tornou a repetir dona Expedita, sem entender coisa nenhuma. – Fazenda, eu? Pois se eu tivesse fazenda lá andava a procurar emprego?

Foi a vez da alemã arregalar os olhos, atrapalhadíssima. Também não estava entendendo coisa nenhuma. Ficou uns instantes no ar. Por fim:

– Pois madame não telefonou para a agência dizendo que tinha um emprego, assim, na sua fazenda?

– Minha fazenda uma ova! Nunca tive fazenda. Telefonei procurando emprego, se possível numa fazenda. Isso sim…

– Então, então, então… – e a lema enrusbeceu como uma papoula.

– Pois é – respondeu dona Expedita percebendo afinal o qüiproquó. – Estamos aqui feito duas idiotas, cada qual querendo emprego e pensando que a outra é a patroa…

O cômico da situação fê-las rirem-se – e gostosamente, já retornadas à posição de “senhoras de meia-idade que procuram serviços leves”.

– Esta foi muito boa! – murmurou a alemã, levantando-se para sair. – Nunca me aconteceu coisa assim. Que agência, hein?
Dona Expedita filosofou.

– Eu bem que estava desconfiada. A esmola era demais. A senhora ia concordando com tudo que eu dizia – até com os banhos quentes! Ora, isso nunca foi linguagem de patroa – dessas biscas. A agência errou, talves por causa do telefone, que estava danado hoje – além do que sou meia dura de ouvidos…

Nada mais havia a dizer. Despediram-se. Depois que a alemã bateu o portão, dona

Expedita fechou a porta, com um suspiro arrancado do fundo das tripas.

– Que pena, meu Deus! Que pena não existirem no mundo patroas que pensem como as criadas…

Fonte:
Monteiro Lobato. Negrinha (contos). Ed. Brasiliense.

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 653)

Uma Trova de Ademar 

No momento em que eu nascia,
Deus, usando o seu poder,
pôs o vírus da poesia
nas entranhas do meu ser.
–Ademar Macedo/RN–

Uma Trova Nacional 


Com direção perigosa,
é bom que agente perceba
que a bebida é prazerosa,
mas, se dirigir não beba!
–Júnior Adelino/PB–

Uma Trova Potiguar 


Um dia vem, outro vai,
veja o que aconteceu;
ontem, velho era papai,
agora o velho sou eu.
–Prof. Maia/RN–

Uma Trova Premiada 


2009  –  Nova Friburgo/RJ
Tema  –  SAUDADE  –  4º Lugar

Saudade é um velho barquinho
que vence o tempo e a distância
e recolhe, no caminho,
os pedacinhos da infância …
–Ercy Mª Marques de Faria/SP–

…E Suas Trovas Ficaram 


Eu comparo o arrependido
que o perdão vê numa cruz,
ao viajante perdido
que avista ao longe uma luz.
–Lilinha Fernandes/RJ–

Uma  Poesia 


MOTE:
Maria Conceição Fagundes/PR


Se caem do céu as águas,
com tanta beleza e encanto,
por que desencanto e mágoas
há nas águas do meu pranto?

GLOSA:
Ademar Macedo/RN


Se caem do céu as águas,
é para molhar o chão,
e afogar um pouco as mágoas
do povo do meu sertão.

Vejo o sertão florescer
com tanta beleza e encanto,
que a gente já pode ver
uma flor em cada canto.

O sertão tem suas fráguas
e é do clima a diretriz;
por que desencanto e mágoas
se o sertanejo é feliz?

No sertão desde criança,
eu choro, mas no entanto;
muitas gotas de esperança
há nas águas do meu pranto!

Soneto do Dia 

DESEJO PÓSTUMO.
–Reginaldo Albuquerque/MS–


Nunca esqueci a pá contra o tijolo
sobre o esquife no qual nos separamos,
quando fugia o sol murchando os ramos
e triste ave soltava um mesto arrolo.

Entre as preces que fiz, em desconsolo,
plantei dúzias da flor que mais amamos,
fiando que à estação, que então sonhamos
virás, e este amor hás de recompô-lo…

Quisera ter poderes, dons enormes,
e crer que, tal qual Lázaro, querida,
não estás morta, em paz, apenas dormes,

e, extático, abraçar-te com ternura,
como te bem fizera outrora em vida,
depois de te livrar da sepultura!

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Ineifran Varão (Bem-Te-Vi Amigo)

Bem-te-vi voou
Pra cima da casa
Galho não quebrou
Nem batendo a asa

Lá embaixo alguém
Gritou sem demora
Nem tu nem ninguém
Quebra minha flora

Ele esbravejou
To de bico seco
Você nem olhou
Quem vem lá no beco

Lá embaixo de novo
A voz deu um grito
És casca de ovo
Quebras nem palito

Bem-te-vi bicou
Bico malcriado
Galho não quebrou
Mas quebrou o telhado

Sirva de lição
Pra dona da casa
Pois grito brigão
Não apaga brasa

Bem-te-vi pra ela
Fez canto de amor
Voou pra janela
Com uma linda flor

Hoje a convivência
É uma beleza
Viva a consciência!
Viva a natureza!

Fonte:
http://ineifran.blogspot.com.br/2012/08/bem-te-vi-amigo.html

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Lino Sapo (A Televisão de Dona Tel)

Vou falar de uma pessoa
Que os céus dizem amém
Uma pessoa maravilhosa
Que nunca fez mal a ninguém
Simples e trabalhadora
E igual a ela não tem

Seus cabelos tá branquiados
O sorriso de antes já enrugou
Mas a gentileza é a mesma
Isso ela nunca renegou
Seu caminhar é compassado
Marca de que já trabalhou

Tem no espirito a bondade
E nas ações seu valor
De dignidade é uma fonte
Em sua vida sobra amor
As feridas que a vida fez
Ela soube vencer a dor

Dona Tel é esse anjo
Que Deus nos presenteou
Casada com seu Joatão
O homem que tanto amou
Quatorze filhos fizeram
E nenhum abandonou

De sua infinita sabedoria
A paz sempre buscou
E a ajudar ao próximo
Respeito conquistou
E um grande trabalho
A comunidade prestou

Hoje mim dar saudade
E recordo com satisfação
De sua ilustre humildade
E te tanta compreensão
Por deixar a todos nós
Assistir em sua televisão

Sem fazer diferença
Todos eram telespectador
Branco, preto ou índio.
De Vagabundo a trabalhador
Mulher, homem, menino.
De analfabeto a doutor.

Quase vinte e quatro horas
A TV não desligava
Pequenina mais potente
A galera telespectava
Preto e branco a imagem
E a população apreciava

Filmes, jornais e novelas.
Tinha seu público especial
Desenhos, shows e humor.
A meninada achava legal
Futebol, reportagem, culinária.
Era coisa sensacional

Mininos buchudos e fedorentos
Esparramado pelo chão
Os adultos no tamborete
Uma cadeira pra joatão
TEL sentada na sua poltrona
Todos diante da televisão

Gargalhadas e cochicho
E o psiu logo se ouvia
Sustos e muitos gritos
Isso sempre acontecia
Olhos bem lagrimosos
Com as cenas que se via

A novela era na sala
Uma sueca na cozinha
Os suequeiros não resistiram
A sala bem completinha
Aderiram às novelas
Abandonando as cartinhas.

Cabra errado e bigodudo
Ria-se que a chapa caia
Comentavam as cenas
E vinham no outro dia
Menino pegava no sono
Acordava dizendo arizia

O sucesso da televisão
Nunca pode se medir
Nem a entrada ao povo
TEL nunca quis impedir
Assistia todo mundo
Podiam se divertir.

As portas nunca fecharam
Era aberta até madrugada
Às vezes o dia nascia
E a negrada pegada
Nem respeitava o sono
De quem a TV doava

Durante muitos anos
A TV foi à atração
Da humilde cachoeira do sapo
Que não tinha animação
De segunda a segunda
De primavera a verão.

Na calçada os jovenzinhos
Procuravam se agradar
Era o lugar predileto
Pra começar a namorar
Banhados e perfumados
Tentavam impressionar

Foi também palco de brigas
Para na porta se escorar
Pois a sala estava cheia
Não dava mais para entrar
Imprensavam-se, e se apertavam.
Para a TV apreciar

Os filhos de dona Tel
Nunca inteferiram no divertir
Raquel, Chico, Daniele
Lú, Basto, Neide ou Joacir.
Ciço, Júlia, Zefa ou Galega
Vieram a contribuir

Janaina, Ivone, Aparecida.
Também como Mariquinha
Presenciaram muito a cena
Quando a cachoeira vinha
Sua casa sempre lotada
Do forasteiro a vizinha

O tempo se passou
As coisas melhoraram
O povo comprou sua TV
Da casa de TEL se afastaram
Esqueceram tanto favor
Que da mesma contemplaram

Dona tel ainda assisti
Só que agora TV a cores
Seu Joatão tá acamado
Não lembra mais dos amores
A casa ainda é a mesma
Aconchegante e sem odores

Eu ali muito assistir
Dona TEL muito obrigado
Jamais vou me esquecer
De seus favores abençoados
Hoje eu rezo a Deus
Para TELs ter multiplicado.

Fonte:
Lino Sapo: Vida e Obras

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Cristovão Tezza (Uma Noite em Curitiba)

Análise por Lívio Leonni Silva de Carvalho

Uma noite em Curitiba” é uma obra de vários conceitos, embora seja fictícia, pode apresentar várias interpretações. Analisando o autor juntamente com a obra, “Uma noite em Curitiba” deixa de ser ficção e desta visão, não é uma mera coincidência com a vida, história e personagem. Para alguns leitores, fica claro que Cristovão Tezza se projeta no livro, sendo o personagem principal um professor universitário tal qual o mesmo. O desencadear dos fatos, os acontecimentos podem ser os mesmos conflitos do autor-professor.

São 131 páginas de pura história. O começo maçante nos faz querer desistir da leitura, mas por algum motivo, cria-se a necessidade de continuar lendo-o, talvez por súbita curiosidade ou apenas para saber qual o desfecho que toma um pai – professor – frustrado perfeitamente mascarado, uma mãe – submissa, um filho – rebelde e uma filha – ausente, formando a total idéia da falsa – família. Do meio em diante, é um livro que prende atenção, até porque, muitos se deparam com a mesma situação, e aliás, esse talvez seja o segundo motivo para que se recomende tal leitura (identificação pessoal). O primeiro, é claro, na utilização no vestibular da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Fora isso, não nos apetece muito ler sobre uma história “água com açucar” de final trágico quase previsível.

Mas até que ponto essa história que se assemelha tanto com a realidade, é assim tão “água com açucar”? Aí, uma maresia turbulenta? De professor para professor, uma frustação aparece quando não se ensina, a vida é um aprendizado, então só podemos ser todos alunos. E quem sabe pais, filhos, escritores… alunos.

“Uma noite em Curitiba”

Resumo:

O livro conta a estória do professor Frederico Rennan e a paixão deste por uma atriz de cinema.

A trajetória da estória, narrada pelo seu filho, revela surpreendente vida obscura de um homem respeitadíssimo em seu meio profissional.
O filho, ex-drogado, desprestigiado pelo pai, pré-vestibulando, passa a ser um oculto observador das mudanças comportamentais do professor Rennan.

Frederico Rennan é catedrático de História na Universidade do Paraná. Vive com sua mulher Margarida, seu filho, num razoável apartamento em Curitiba. Dos conflitos familiares, há a filha Lucila, espécie de “ovelha negra” que havia fugido de casa, voltara com um filho e pouco tempo depois retomou a estrada, sem notícias, avisos ou similares. Desapareceu. O filho, com alguma dependência de drogas, tinha ainda contra si, um acidente automobilístico, que o levara ao hospital e lhe deixara, como recordação, uma placa de metal no cérebro.
Mas, para o professor, estes “acidentes” nunca o afetaram. Sua vida estava acima dos dissabores. O livro começa revelando as cartas do professor para a atriz Sara Denovan, convidando-a para um ciclo de palestras sobre literatura brasileira.

Sara foi a estrela dos filmes “Senhora” e “Minas de Prata”. O professor, respeitosamente, deseja, para o brilho do ciclo, a presença ilustre da atriz.
Aos poucos, as cartas de confirmação, reserva, etc., são freqüentes e permutadas com telefonemas a cobrar, feitos à noite, para a residência do professor.

As cartas são expostas na obra, uma a uma, num total de vinte.
As cartas vão revelando uma outra ligação do professor com a Sara.

Chega o ciclo e explode a paixão de Rennan por Sara. Os dias do ciclo curitibano, são de paixões, descontroles, noites de insônia e juvenis rejuvenecimentos.
Acresce a isso, o resgate de uma ligação de mais de vinte entre o professor e Sara.
Haviam convivido, na época da ditadura militar, ela como Maria, ele como ativista de um aparelho revolucionário. Em cima disso, uma verdade mais sinistra, computa-se um assassinato praticado pelo Professor e Sara, numa passeata, matando um fotógrafo.
 
As revelações e as paixões se sucederão pelas cartas e se encaminham para o epílogo. O Professor requer a aposentadoria e desaparece. Nenhuma notícia. Margarida e o filho não tem explicações, exceto pelo conhecimento que este tinha das relações do pai.
Seu desaparecimento e sua posterior localização numa publicação com foto, ao lado de Sara, em São Paulo.

Desapareceu e foi viver com Sara.

Margarida resiste, busca soluções e a filha Lucila retorna, para, pouco depois, ir embora.

Algum tempo depois a notícia do suicídio do professor, atirando-se de um edifício em São Paulo. A companheira seguira para a Europa, após, breve ligação com o historiador.

O filho e a namorada Fernanda, resolvem publicar as cartas e a história.

O principal motivo foi o financeiro.

A obra poderia custear parte da vida deles.

O livro, assim colocado, mostra o lado obscuro e fascinante do personagem.

IV- Personagens

Professor Frederico RennanProfessor de história, com vários trabalhos publicados, membro da Universidade do Paraná. Casado com Margarida, arquiteta sem atividade fora do lar. Dois filhos: o narrador da estória e Lucila, que abandonara a casa.

Sara Denovan
Atriz de teatro e cinema. Cinqüentona, charmosa, com razoável prestígio na mídia. Na sua biografia, o nome correto é Maria. Foi militante política e manteve uma secreta e breve relação com o professor num “aparelho clandestino”. Os dois, numa história confusa e indefinida, envolveram-se num assassinato durante a época da repressão. Manterá uma relação com o Professor e, depois, irá descarta-lo.

O filho
Narrador da estória. Acompanhou todo o percurso do pai e seu ciclo de palestras que trouxeram a tona a atriz. Testemunha da paixão do professor, cúmplice indireto, desprezado pelo pai que o considerava um idiota. Ex-drogado, poeta eventual, conflituado, para que a mãe, não sofresse com o desenrolar dos fatos.

Dona Margarida
Esposa. Vida metódica, comum, rala, de dona de casa. Abdicara a carreira pelo lar. Permanentemente sofria de dores nas costas e cabeça. Dida, como depois é chamada, reage as mudanças do marido, com pequenas sua frente, reage sem nenhuma mudança mais substancial.

Lucila
Filha que abandonou a casa, fugindo com o namorado. Tempo depois, retornou com um filho e sem o namorado. Desaparece de novo e volta provisoriamente com a criança. Depois, segue seu rumo.

Fernanda
Companheira do narrador. Conheceram-se no curso de história. É prática e objetiva, sugere a venda da estória, para obterem dinheiro.

Paulo
Personagem indireto. Seria o sétimo amante-marido de Sara.
 

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