Clarice Braatz Schmidt (Tempo e Memória na Lírica de Adélia Maria Woellner)


A poeta curitibana Adélia Maria Woellner inicia sua produção poética no ano de 1963, com a obra Balada do amor que se foi, sendo que mantém uma produção constante. Sua ultima obra, Luzes no espelho, publicada em 2002, é uma mescla de autobiografia e poesia. Adélia Maria faz parte de entidades lítero-culturais do Brasil e do exterior, como, por exemplo, a Academia Paranaense de Letras e a “The International Academy of Letters of England (Grafton Road, London, England) e ao Centro Cultural, Literário e Artístico da Gazeta de Felgueiras (Felgueiras, Portugal). Além das publicações em português, a poeta tem algumas de suas obras publicadas também em alemão, espanhol, francês e italiano. Neste artigo, objetivamos investigar o tema da memória e do tempo na lírica da Adélia Maria Woellner. A opção pelas obras dessa escritora paranaense justifica-se pela importância da mesma no quadro mais amplo da literatura do Estado, sendo que, no entanto, a obra da poeta é praticamente desconhecida os meios acadêmicos. A obra de Adélia Maria apresenta linguagem elaborada e alto grau de concentração verbal, sendo que sua lírica revela um fazer poético voltado para a natureza, para as questões metafísicas, sendo que é marcado pelo olhar atento do poeta para o tempo e para as manifestações vitais. O fazer poético de Woellner é caracterizado, ainda, pela busca da síntese poética, sendo freqüente a utilização de formas como tercetos e quartetos na elaboração dos poemas. O estudo sobre tempo e memória ocorre com o propósito de desenvolver um trabalho tendo em vista resgatar, analisar e apresentar a obra de Adélia Maria Woellner.

Um dos aspectos que podem ser observados na poesia da curitibana Adélia Maria Woellner é a constante reflexão acerca do eu interior. Woellner contempla o ser humano de forma muito realista, sendo que muitas vezes, na busca de explicações, transcende os limites terrenos e temporais. Uma das formas que Woellner utiliza para compreender-se e buscar a si mesma é mediante a recordação do passado.

Rosana Rodrigues da Silva, ao analisar a obra Viagem, de Cecília Meireles, afirma que a recordação de tempos passados, além de ser uma das formas utilizadas pelo poeta para compreender-se a si próprio, é uma forma que possibilita a compreensão do momento presente. No dizer da autora, “o sujeito busca na memória a integração de suas outras formas de vidas para alcançar a unidade desejada” (1997, p. 160), ou seja, por meio da recordação o indivíduo conseguiria manter um equilíbrio entre o que foi e o que é. Salienta, ainda, que, “o olhar do poeta sente e capta a carência de um instante, apresentando o poema como lugar onde se pode compensá-la” (1997, p. 80).

Para Giacomo Leopardi (apud Bosi, 1977), o poeta teria o poder de absorver imagens e recorrências do mundo de hoje, tirando, ainda, do passado e da memória o direito à existência. Já no dizer de Alfredo Bosi, “o agora refaz o passado e convive com ele” (1977, p. 13).

No poema “Modificação”, de Adélia Maria Woellner, constata-se:

O ontem passou,
mas o eco do ontem
ressoa fundo,
lâmina afiada
rasgando carnes,
com dores de parto.
O hoje está aqui,
arranhado pelo eco,
que ainda machuca,
fere,
maltrata.
O amanhã ainda será.
Que o eco se apague
no peito já tão dilacerado.
Que, nos ferimento,
nos espaços das ruturas,
se aninhem
outros sons.

(Avesso meu, 1990, p. 51)

Neste poema nota-se uma visão de que o passado sempre ecoará no presente. O eu lírico sente-se inconformado com esta necessidade de conviver com o passado. Este deseja que no lugar dos sons do passado “se aninhem/ outros sons”, ou seja, o eu lírico rejeita a influência do passado no seu presente. No entanto, apesar desta rejeição, o passado surge como motivo do poema.

No poema “Aceitação”, observam-se as reflexões do sujeito lírico acerca do tempo:

Cansei de usar
força
e recursos,
na tentativa inútil
de alterar
as coisas,
fora de seu tempo.
Manipulei minha ansiedade
e fui buscar
consolo
no regaço do tempo.

(1990, p. 09)

Nos primeiros versos, o eu lírico afirma que, cansado de lutar contra o tempo, buscou consolo no “colo” do próprio tempo. Ao invés de rejeitar o tempo, o eu lírico refugia-se nele. Assim, não podendo detê-lo, nem apagá-lo, o eu lírico alia-se ao tempo.

No poema “Indagação”, por sua vez, o eu lírico declara:

Vida:
jogo de xadrez.

Deverei aceitar,
resignada,
o limitado espaço
que me foi reservado
nesse tabuleiro?

(1990, p. 43)

O questionamento do eu lírico acerca de sua condição diante do tempo novamente fica evidente. Enquanto no poema “Aceitação” o eu lírico sente-se impotente diante do tempo, neste poema ele pergunta se realmente deve aceitar resignadamente o que a vida lhe tem proposto e esperar pelas jogadas que o tempo determinará. A vida é metaforicamente representada por um tabuleiro de xadrez, o que podemos verificar nos dois primeiros versos do poema. No jogo de xadrez as peças não movimentam-se por vontade própria, mas apenas por vontade alheia e com regras preestabelecida. A duração da partida de xadrez pode, por analogia, ser comparada ao tempo que se escoa. Cada peça movimentada irá refletir no restante do jogo que está por vir, da mesma forma que cada ato passado se refletirá na vida futura. Logo, a grande indagação a que se refere o titulo do poema, é justamente se o indivíduo deve ou não agir resignadamente diante do fato de que o passado traça o futuro.

O poema “Conquista” pode ser considerado como uma resposta ao poema “Indagação”:

Joguei o laço,
ajustei o nó;
apertei o espaço
e segurei o tempo.

Onde e quando
agora não existem.

Basto-me eu só,
na insistência
em viver…

(Infinito em mim, 1997, p. 27)

Neste poema, o eu lírico não contenta-se com o pequeno espaço que lhe reservaram no tabuleiro de xadrez que é a vida. Não resigna-se diante do tempo. Não permite que este subjugue-o. Antes, joga-lhe um laço, aperta o nó deste laço e prende o tempo. Esta ação anula tanto passado quanto presente, dando liberdade ao eu lírico, o qual basta-se a si próprio. Os três últimos versos deixam claro que, o ponto fundamental para esta anulação do tempo é a vontade, a ânsia que o eu lírico tem de viver.

Em “Retorno II”, percebe-se uma oposição ao poema “Modificação”:

Caminho no tempo
e repercorro meus próprios passos.
Percebo que fiz
e desfiz
tantos laços,
em meio a lágrimas
e abraços.
Revivo alegrias,
dores e cansaços…

Não importa;
é a caminhada inevitável
para o próprio encontro.
É a andança
no rumo da certeza
de abrir porões
e redescobrir,
em cada renovada manhã,
o conhecido sabor primitivo
de pitangas, guabirobas e romãs…

(1997, p. 88)

No poema “Retorno II”, é percorrendo o tempo, o passado que o eu lírico pode reencontrar-se. Em meio a alegrias e tristezas foi possível, graças à inevitável caminhada, desfazer laços, abrir porões e reviver alegrias e assim redescobrir o melhor da vida. Desta forma, o tempo e as lembranças, mesmo que dolorosas, deixam de ser adversárias do eu lírico para tornarem-se suas aliadas. Enquanto no poema “Modificação” o eu lírico apresenta uma angústia muito grande em relação às lembranças, neste poema, apresenta-se uma sensação de conforto frente a rememoração do passado. Esta rememoração traz ao eu lírico a redescoberta de sua essência mais primitiva. O eu lírico considera esta experiência de rememoração fundamental para sua própria redescoberta, conforme ocorre nos três primeiros versos da segunda estrofe do poema.

Também no poema “Revelação II”, o tempo pode ser visto como aliado:

Atenta aos encantos
do jardim das magias,
abandonei-me no tempo,
diluí-me no espaço.
Fiz-me roseira,
só para compreender
que os espinhos no caule
são escada
para alcançar a flor.

(1997, p. 90)

Da mesma forma que no poema “Retorno II” a dor era vista como uma forma de auto-descoberta, também no presente texto os momentos dolorosos são encarados como uma forma de se atingir o auto-conhecimento, bem como o crescimento e amadurecimento. O eu lírico, ao abandonar-se no tempo, descobre que os momentos difíceis nada mais foram que uma escada para sua realização. Assim, fica evidente a visão de que o passado influência no presente e futuro.

Para Giambattista Vico, as formas das coisas, que a fantasia muda, separa e compõe estariam vinculados à experiência social e o seu órgão originador seria a memória. No princípio o pensamento fantástico fingiu os mitos, os quais estão intimamente ligados à imagem. Vico observa que a força que modela as imagens é “tanto uma fantasia que produz mitos […] quanto a prática do poeta […]. E uma e outra lidam com experiências retidas pela memória, que aparece como a faculdade poética de base” (apud BOSI, 1977, p. 200).

Já na visão de Maurice Halbwachs, o presente não só é influenciado pelo passado do próprio indivíduo, como também pelo passado de todo o grupo social de que faz parte, bem como pelo passado dos antepassados deste indivíduo. Halbwachs afirma que, “acontece freqüentemente que a dosagem de nossas opiniões, a complexidade de nossos sentimentos e de nossas preferências não são mais que a expressão dos acasos que nos colocaram em relação com grupos diversos ou opostos, e que a parte que representamos em cada modo de ver está determinada pela intensidade desigual das influências que estes têm, separadamente, exercido sobre nós” (1990, p. 47).

Por sua vez, Ecléa Bosi, em Memória e sociedade, chama a atenção para o fato de que nossa memória é composta tanto por fatos que vivenciamos, quanto por fatos que aconteceram muito antes de nascermos. O interessante é que nossos antecessores passam, por assim dizer, uma certa bagagem de memória para nós. Todos estes fatos, sejam vivenciados ou não pelo indivíduo, ajudarão a escrever sua história de vida. Conforme observa Ecléa Bosi, “a criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória” (1994, p. 73).

Mais distante que esta memória passada ao indivíduo por seus antecessores mais próximos, como pais e avos, podemos observar ainda uma memória inscrita em um período ainda mais longínquo da existência humana. É a memória atávica. Esta memória constitui-se de elementos que fazem parte da essência do ser humano, mas que, no entanto, não conseguimos precisar quando inseriu-se no modo de ser do homem. Adélia Maria Woellner consegue expressar com perfeição o que representa esta memória atávica em seu poema “Memória atávica”:

Em algum lugar
deste infinito mistério
– que é meu ser -,
a emoção primitiva
brilha
e reflete
a memória de todas as eras.

(1997, p. 63)

No texto, a poeta descreve o que vem a ser a memória atávica. Esta é a “memória de todas as eras”, ou seja, os resquícios do que existe de mais primitivo na humanidade, e que esconde-se “Em algum lugar/ deste infinito mistério” que é cada ser humano.

A poesia Woellneriana apresenta indagações acerca da essência do homem, bem como dá mostras da busca insistente do ser humano em se auto-conhecer. Da mesma forma, Adélia Maria trava uma busca incessante em descobrir a essência das mais variadas coisas. Os poemas acima apresentados são provas desta observação atenta da poeta no que se refere a temas diversos, como tempo e memória, por exemplo.

No dizer de Rosana Rodrigues da Silva, “a poesia, enquanto fenômeno do imaginário, deve ser compreendida, em seu dinamismo, como uma linguagem reveladora, expressão de um mundo psíquico, na contemplação de outro universo” ( 1997, p. 14). Esta “contemplação de outro universo” está sempre clara na obra Woellneriana, quer seja este universo transcendental, quer seja apenas a instigante essência humana, bem como simples imagens cotidianas. Conforme Bosi, “a poesia recompõe cada vez mais arduamente o universo mágico que os novos tempos renegam” (1977, p. 150). Adélia Maria consegue apresentar de forma encantadora, em cada um de seus poemas, suas descobertas acerca de seus mais variados objetos de observação.

REFERÊNCIA:
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das letras, 1994.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1990.
SILVA, Rosana Rodrigues da. A contemplação em “Viagem”: o estudo do olhar na poesia de Cecília Meireles. 1997. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1997.
WOELLNER, Adélia Maria. Avesso meu. Joinville, SC: Ipê, 1990.
WOELLNER, Adélia Maria. Infinito em mim. Curitiba: Ed. da autora, 1997.

Fonte:
II Jornada Científica da Unioeste. Campus de Toledo/PR. Junho de 2003. CD Rom.

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Poesia, Poemas, Sopa de Letras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s