Carmen Cardin (Poemas Avulsos)

CANTO DO CORAÇÃO

Confesso que adoro um Serafim, O Amado!
Versos serão eficazes ao tentar descrevê-lo?
Suplício do meu ser, arroubo extremado…
Martírio: A Paixão e o seu pesadelo.

Que mescla fanática é esta que fazem
os deuses lascivos às leis da Fantasia
que só desejos aos espíritos trazem
castigando-os com o Amor, covardia!

Revelai-me que fórmula misteriosa e secreta
ingrata, invencível, é esta, oh Imortais!?
Como amortecer, do furor do Amor, a seta?
Como livre viver sem sofrê-lo mais?

O veneno condenou a alma da minh’alma
Que antídoto livrar-me-ia de tal ferida ?
Se é o Amor que me aflige, mas me acalma;
Se é este Amor, o grande amor, da minha vida?

EM PRETO E BRANCO

Eu aposto nas emoções praticadas
Da Ternura, ela atravessa fronteiras!
Amo o sabor das coisas delicadas,
Amo o valor das coisas verdadeiras.

Em cada muito, do pouco que faço,
Em cada tudo, do nada que sinto,
A surpresa do viver trái o meu traço:
Dizendo a verdade, eu minto!

No rubor da minha face me afugento
(Às vezes tem-se o nada e este é tanto!)
O carmim dos meus lábios é sedento
A maquiagem dos meus olhos é o pranto.

Não faço planos, desconheço o que é promessa.
Nada tenho. Nada sou. Nada sei.
Nada peço, tudo quero, tenho pressa!
O artifício do amor é a minha lei!

“ LOUCURA “

Acariciei, suavemente, os teus cabelos
Beijei os teus pés, oh criatura!
Teus gemidos? Passei a tê-los
Iludi-me com a tua jura!

Da tua imagem tão amada
Fiz uma obra, uma escultura.
De ouro, de brilhantes, dourada
A arte heróica da minha bravura.

Para satisfazer os desejos teus
Percorri toda senda escura:
Fui ao céu falar com Deus:
Fui ao inferno, quanta loucura!

Eu te desejei de toda a minh’alma
Eu te amei com a maior ternura!
Teu ser até perturbou-me a calma
Eu que tinha a mente segura!

Mas agora (maldição!) tudo se acabou
Foi tempestade forte, que não dura
A doença do amor que me vitimou
Será, no mundo, minha única cura!

” FRUTO VERDE”

Desejável é o fruto, adorável é o sabor
(Romance esse eu queria ter vivido!)
Mais vale não se manifestar o amor
Que ser ele um desejo proibido.

Como um anelo filosófico, profundo
Tal uma ânsia pungente e vital
Assim é o querer, sentimento oriundo
Do Bem, o fôlego da vida, do mal!

Eu seria a primorosa companheira,
Tu serias a inspiração altaneira,
Se o nosso utópico sonho fosse verdade…

Entretanto, a realidade é diferente:
Ainda em nosso mundo não se fez presente
O esplendoroso alvorecer da Felicidade!

“TESE”

Não ouse pensar que O Poeta
É um bêbado, andarilho sem rumo
Ele é, do vernáculo, o atleta
A fantasia de uso e consumo.

O Poeta tem o compromisso sério
De profetizar em tom etéreo
De filosofar além do erudito.
O Poeta é a chave do cofre. O servo
À mercê da paixão. O indecifrável verbo,
Que encarnou-se e está escrito.

O Cavalheiro que conduz, extraordinário,
As rédeas do Sonho, o lendário,
Adorado e odiado ser trovador.
O Poeta é aquele que, alheio a tudo,
Grita com o coração n’um canto mudo,
Sofre com a emoção do mundo, a dor!

Não ouse pensar que O Poeta
Imagina, pretensioso, ser Deus…
Ele é, apenas, a certeira seta
Que atinge o alvo dos sonhos seus!

INSPIRAÇÃO

Não troco esse momento
Por nada deste mundo,
Um planeta meu e profundo,
O asteróide do sentimento.

Eu me rendo e me faço
Prisioneira desse instante
Alucinada e delirante
Suor, coração e bagaço.

É minha droga, é meu vício,
Essa essência que inspiro,
Entre um e outro suspiro,
Entre o prazer e o suplício!

É minha deusa, a poderosa,
Que me concede e me inventa,
Nos braços do sonho me sustenta,
Sou tua, Inspiração Preciosa!

TRUNFO

Se fervilha o sangue de um escritor,
Se, de um escritor, o sangue fervilha
Este transforma os rochedos da ilha
Em rosas púrpuras de um doce amor.

Se, frenéticos deslizam os seus dedos,
Se os seus dedos, frenéticos deslizam,
Em papéis, letras áureas magnetizam,
Hipnotizando os assombrosos medos.

Mas, até mesmo esse padecer horrível,
É artística invenção, que ser incrível!
Imagina e destrói seus próprios fatos.

O escritor embriaga-se do seu vinho
Mas não faz nada liberto ou sozinho:
A Inspiração ilumina os retratos!

INSTINTO

Poderá o tempo
Apagar a chama
E o desejo sucumbir
Em tão longa espera?
Por que o meu corpo te ama
E o meu espírito te venera!

Não conheço eu
Tão sofrida trama…
A saudade é cruel
A medonha fera.
Por que o meu corpo te ama
E o meu espírito te venera!

À noite não tenho
Sossego na cama…
Meu coração travando
Angustiante guerra
Por que o meu corpo
Faminto… te ama!
E o meu espírito
Sedento… te venera!

TEMPO DO NADA

Recordar, para que, os momentos felizes,
Se momentos são, lembranças e mais nada?
Como falsa tatuagem, pelo tempo apagada,
Deixam rastros somente e não cicatrizes.

Esquecer. Esquecer. Esquecer, isso é tudo!
Sepultar os destroços, dar a volta por cima,
Espantar os fantasmas da saudade, contudo,
A saudade é como a dor: a dor nos ensina!

Curioso como o tempo lança seus espinhos
Farpas do passado que insiste em assombrar
Alma penada, renegada, insepulta e sombria.

Por mais que o tempo passe, certas coisas não modifica
Resta a fantasia do desejo, o sabor do amor também fica
E o gosto do que não se viverá mais, enganosa alegria!

Fontes:
1 – http://antologiamomentoliterocultural.blogspot.com.br/2012/02/carmen-cardin-entrevista-n-387.html
2- http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2012/02/carmen-cardin-poeta-e-professora.html

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Arquivado em poemas avulsos, Rio de Janeiro

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