Artur Azevedo (À Porta da Botica)

Esta é a segunda peça de Artur Azevedo, escrita aos 16 anos. 

PERSONAGENS

ANICETO – tipo da atualidade
DIOGO
OLIVEIRA
Um rapaz de 12 anos
PASSANTES

CENA ÚNICA
Vista de rua escura. À direita uma botica, à porta da qual vêem-se algumas cadeiras.

ANICETO, depois TODOS (por seu turno.)

ANICETO
(Velho jarreta, entra fumando e observando as cadeiras.)

— E esta! ainda ninguém!

(Vê o relógio.)
Pois já lá vão sete e meia!
E os meus colegas não vêm
Pra falar da vida alheia!
Já as cadeiras estão
No seu lugar competente…

(Senta-se.)
Como corre a viração
Às portas de uma botica!
Se o juízo não me mente,
Quem está doente, bom fica,
Fica bom quem ‘stá doente…
Temos bem que dar à língua
Aujord’hui, meus colegas,
Esta gentinha anda à míngua
De meia dúzia d’sfregas…
Isto de andar a falar
Da vida do semelhante
É gosto bem singular,
Mas não será doravante:
É uma necessidade
Pra dar que falar ao povo,
Mentira seja ou verdade,
Só se quer – assunto novo! –

(Levanta-se.)
Os senhores já adivinham
O que lhes conto? por Cristo?
Ora, senhores, não tinham
mais do que olhar:

(Indica.)
Esta casa é uma botica
Que vende sempre a quem passa:
Pastilhas de mel d’angica
Cataplasmas de linhaça…
O lugar é solitário.
Nem mesmo tem lampião…

(Confidencialmente.)
— Cuidado com o boticário
Que não passa dum… boticário,
E o seu caixeiro, o Senhor Mário,
Maluco como o patrão
Eu não falo da vida alheia.
Isto é só fazer idéia…

(Mostra as cadeiras.)
Nas cadeiras que aqui ‘stão
Com muita constância tem,
As noites, uma reunião,
Um dia sim, outro também…
Aqui se fala de tudo.
Tudo por aqui contado é:
Sofrendo o pai do cascudo,
Sofre o avô do jacaré…
Se um sujeitinho lá bifa
Ao patrão certa quantia,
Se aquele faz uma rifa,
Se um outro não anda em dia,
Se um quebra, foge aos credores,
Se outro ajunta depressa,
Se aquele já tem amores,
Mal o avô-torto começa
Há que ser analisado
Na porta do boticário:
O pobre, o remediado,
O econômico perdulário!
Eu não falo da vida alheia,
Isto é só fazer idéia!
Falamos todas as noites
No que é no que fora,
Todos aqui chucham açoites,
Em todos os meto a tesoura!
E no que me der o cavaco,
Nele mais se mete a faca,
Hei de levar pro tabaco,
Hei de cortar na casaca!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Entra Diogo.)

DIOGO (Com um charuto apagado.)

— Seu Aniceto, dá-me o seu fogo?

ANICETO

— Por que não, Senhor Diogo?…

(Diogo, depois de acender o charuto, restitui o de Aniceto sem agradecer-lhe. Sai.)

ANICETO (Só)

— É impolítico o Senhor Diogo!
Impolítico… malcriado!
Eu servi-lhe com meu fogo,
E não me disse obrigado!…
Este sujeito é um tratante,
Cautela, muita cautela,
Fala dos outros bastante,
E furta sem mais aquela!
Ainda há três dias
Queixou-se um negociante
Que vendeu mercadorias
A ele, qu’é um bom tratante!
Ouvi dizer numa venda
Que pediu a uma loureira
O anel – Deus me defenda –
Pra pagar a lavadeira:
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Passa pelo fundo um passante.)
Viram aquele sujeito?
Cuidado, muito cuidado,
Diz que pra cousa tem jeito,
É um tratante refinado,
Ou refinado tratante,
Eu cá não faço questão
De vogal ou consoante,
De ser cachorro ou ser cão,
De ser tratante ou ladrão!
Me disseram qu’outro dia
A firma imitou do Sousa
Com uma tal maestria,
Que ninguém deu pela cousa!
E qu’anda co’uma donzela
E um constante derriço,
Subindo pela janela
Sem que ninguém dê por isso!
Enfim ‘stou capacitado
Qu’é um tratante de mão cheia;
Mas olhem: este seu criado
Não fala da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Passa outro tipo.)
Aquele é o tio do homem
Que há pouco pediu-m’o fogo,
Dizem que os cobres lhe somem
Sempre na banca do jogo;
Mulher e filhos não comem:
A panela está no fogo,
Ou – está no fogo a panela,
Sem nada ter dentro dela!
A filha já tem morgados
E o pai inda a tem por casta:
– O velho é maluco e basta!…
(Entre parêntesis – não gosto
Da história do tal tijolo,
Por causa dele eu aposto:
Se perde muito o miolo! –
Mas pensem agora os senhores,
Que apesar da circunstância,
Não tenho também amores
Com a Senhora Dona Amância! -)
Mas voltemos à questão,
Ia dar uma opinião:
Enquanto o velho se abrasa,
No voltarete se pega,
A menina fica em casa,
Pra jogar a cabra-cega!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Passa o rapaz de 12 anos largando gordas fumaças de um charuto.)
Olhem pr’aquele fedelho
Como gosta da fumaça!
Decerto toma em conselho
Como aí qualquer chalaça!
Parece filho do Neves,
Nada há que mais pareça…
O Neves Ramos? que deve
Os cabelos da cabeça?

(Aponta para um sobrado.)
Olhem: nesta casa moram
Três ou quatro sujeitinhos:
O primeiro sei que namora
Uma viúva e já agora…
Etcoetera e tal… pontinhos…
Mas como tem bons cobrinhos,
Como essa viúva é rica,
Não se importa cos vizinhos.
Nem com a porta da botica!
O segundo é um soldado:
O terceiro é um agiota,
Que apesar d’haver quebrado,
Não deixa d’andar janota!
O quarto não sei quem é:
Mas eu hei de me informar.
(Isso é mais velho que a Sé.)
Pra vir dele aqui falar!
Sei que se chama Fernando,
E trabalha, … vadiando;
Se lhe pergunto a razão
Por que sempr’anda na pândega,
Responde: Que admiração!
Sou empregado na Alfândega!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…
Mora naquele sobrado
Uma moça que fabrica
Tijolo com o namorado;
E o pai não se certifica,
Nem pergunta a Dona Anica
O que aquilo significa,
Quem é aquele rapaz,
Não teme a língua dos dois,
Nem a… porta da botica!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…
Na outra – pegado – mora
Um médico muito excelente,
Da carreira inda na aurora,
Já tem morto muita gente!
Dizem que a cura prolonga
Co’algumas drogas fatais,
Para a moléstia ser longa,
E os cobres renderem mais!
Tem no convento um irmão
De aventuras muito farto,
Roubou a filha ao patrão
Abandonou-a num quarto

(Comovido.)

Coitada! morreu de parto!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Aparece Oliveira vestido para o baile. Ao passar pelo fundo, cai-lhe alguma coisa e abaixa-se para apanhá-la.)

Quem é aquele sujeito
Que abaixou-se na rua?…
Inda não o vi bem de jeito,
E agora… escondeu-se a Lua!
(Vai para junto de Oliveira e, sem que ele dê por isso, corta-lhe a aba da casaca com uma tesoura.)

OLIVEIRA (Consigo.)

— E esta! perdi um botão…
Quem achar seja feliz…
Escapuliu-me da mão…

ANICETO (À parte.)

— Eu não ouço o que ele diz.

OLIVEIRA (À parte.)

— Também o que pode valer?
Custa só meia pataca
O que acabo de perder!

(Sai)

ANICETO (À parte.)

— Já lhe cortei a casaca

(Desce à cena com a aba na mão.)

Este sujeito é o Oliveira
Ignoro o comportamento…
Vejamos se na algibeira
Tomo algum apontamento!

(Tira um lenço da algibeira da aba.)

Um lenço fino de Irlanda;
Não ‘stá inda pago. Uma aposta.
A marca está doutra banda…
Vejamos: José da Costa!
Um lenço do Zé da Costa
Na algibeira d’Oliveira!
Ah! já vejo que ele gosta
Como eu da ladroeira!
Oh! descaramento imenso!
Que ação negra e medonha!
Roubar… roubar um lenço!
É muito pouca vergonha!
Conto hoje na botica
O miserável atentado,
Amanhã o povo fica
Ciente…

(Tirando dez tostões da algibeira da aba.)

Muito obrigado.
(Remexendo)

Ah! inda um papel se pilha!
Vejamos o que ele diz!
(Vendo.)

Subscritado a minha filha
(Lendo.)

“Joana, sou mui infeliz
Como o nosso amor puro e santo;
Te espero amanhã no canto,
Daremos uma fugida;
Joaninha, minha vida,
Meu querubim, meu amor,
Nem mais aqui voltaremos,
Teu pai esquecer devemos,
Não passa de um falador!
Manda dizer por escrito,
Se o pequeno, que nasceu,
Está feio ou ‘tá bonito
Está vivo ou já morreu!”

(Desespera.)
Minha filha ter um filho!
Minha filha desonrada!
Ai, meus amigos, se os pilho…
Não me faltava mais nada!
Em vez de estar a vigiá-la,
Pois não tem nada de feia,
Eu vinha cá pra senzala
Falar da vida alheia!
Vou abandoná-la! um capricho:
Estas cousas não consomem…
Porque um gato é um bicho,
E um homem foi sempr’um homem!

(Saindo arrebatadamente.)
Vou casá-los, vou casá-los…

[Cai o pano]
Fonte:
AZEVEDO, Artur. Teatro de Artur Azevedo. [Rio de Janeiro] : Instituto Nacional de Artes Cênicas – INACEN, [198?]. v. 1. (Coleção clássicos do teatro brasileiro, v.7).
Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo. Texto-base digitalizado por Sérgio Simonato – Campinas/SP

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