António Torrado (Os Entusiasmos do Evaristo)

Ilustração: Cristina Malaquias

(Da Seleção de Contos Infantis)
O meu amigo Evaristo é um entusiasta. No outro dia, íamos nós a passar por perto de uma feira dessas de altifalantes, tirinhos e carrosséis de cavalinhos – é mais uma corrida! é mais uma viagem! – quando ele me travou por um braço e perguntou, de olhos a brilhar de entusiasmo:
– Já te contei do meu projecto do carrossel gigante?
Desse não me lembrava. O Evaristo tem sempre tantos projectos no ar…
– Estou na fase dos cálculos e dos desenhos, mas não tarda que passe à prática. Vai ser um carrossel fantástico.
– Imagino – disse-lhe eu, só para dizer qualquer coisa.
– Tu conheces aqueles carrosséis maiores, que dão uma volta em oito? – perguntou-me o Evaristo.
Respondi-lhe que tinha uma ideia. Faz tantos anos que não ando de carrossel…
– Pois o meu carrossel vai ser qualquer do género. Oito vezes oito…
– Sessenta e quatro – respondi-lhe, como se estivesse na escola.
– Mais, muito mais! Oito vezes oito, vezes oito, vezes oito…
– Tantas contas de cabeça não consigo acompanhar – queixei-me eu.
– Quero eu dizer que vai ser um carrossel imenso, coisa nunca vista – disse o Evaristo. – Mas primeiro tenho de comprar um sobretudo.
Um sobretudo? Que relação teria o sobretudo com o carrossel gigante? O meu amigo Evaristo imagina a uma tal velocidade, que me deixa sempre pelo caminho.
– Um sobretudo forrado e um gorro de pele – acrescentou ele. – Para ir ao Pólo Norte. Ou ao Pólo Sul. Tanto faz.
Fiquei abismado. Aquele carrossel estava a dar-lhe a volta à cabeça.
– Percebeste onde quero chegar? Ao eixo da Terra. Fixo o meu carrossel ao eixo da Terra, à roda do qual gira o nosso planeta, e nem preciso de imprimir-lhe velocidade. A Terra roda, o carrossel mantém-se parado, mas esta é que é a parte mais importante da minha invenção: os passageiros do meu carrossel têm a ilusão de que são eles que estão a andar. Percebeste?
Eu estava a perceber. Lindamente.
– É, além do mais, uma ideia muito económica, porque se poupa na electricidade, que faz andar os restantes carrosséis. O meu carrossel, preso ao eixo da Terra, suspenso lá em cima, vê a Terra rodar por baixo. O que é que achas?
Eu achava bem. O projecto tinha lógica. E parecia simples…
– Ponho as pessoas a dar a volta ao mundo de carrossel. Vai ser maravilhoso.
Eu não duvidava. E do que valeria a pena duvidar de uma ideia do Evaristo?
Voltei a encontrá-lo, ontem. Claro que lhe perguntei logo pelo carrossel, se já estava mais avançado o projecto, se já tinha comprado o sobretudo…
– Troquei a ideia do carrossel por outra melhor – disse– -me o Evaristo, muito entusiasmado. – É uma roda gigante.
– Como aquela, com barquinhas penduradas, que há na Feira Popular? – quis eu saber.
– Essa é uma miniatura comparada com a minha roda, que estou a calcular, aqui entre nós… – e o Evaristo puxou– -me pelo braço e falou-me ao ouvido, com ar de história secreta.
Tomei muita atenção ao segredo dele:
– Estou a calcular que consiga tocar a Lua com a minha roda gigante. Estás a ver: embarca-se na Terra e, meia volta depois, está-se na Lua. Sem despesa de foguetões nem nada. Uma limpeza!
Outra ideia feliz. Mas, sem querer parecer desmancha–-prazeres, indaguei:
– E, desta vez, onde colocas tu o eixo da roda? Em que ponto do espaço, que fique a meio caminho entre a Terra e a Lua?
– Falta só resolver esse pormenor, para avançar – tranquilizou-me o Evaristo. – Mas, no resto, acho que já adiantei muito.
E lá seguiu, muito entusiasmado com o seu projecto.
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