António Torrado (A Menina e o Burro)

Ilustração: Cristina Malaquias

Da Seleção Pavilhão de Contos Infantis

Era uma vez uma menina que conhecia o campo, mas de longe. Vira-o, uma vez, de passagem, da janela de um automóvel. Vira-o, mais vezes, de corrida, nos ecrãs da televisão. E vira-o, outras vezes, disfarçado de paisagem, nas folhas das revistas e nas tampas das caixas de chocolate. Esta menina, afinal, não conhecia o campo a sério.
Por isso, da primeira vez que foi ao campo, da primeira vez que pisou o chão rugoso do campo e respirou o ar vivo do campo e os cheiros todos do campo, a menina ficou, há que confessar, a menina ficou um tanto atordoada. 
Tropeçou numa pedra, comichou-lhe o nariz e picou-se nas urtigas. Mas, apesar destes contratempos, a menina, verdade se diga, não desgostou da experiência.
É que havia muita coisa para ver. Havia folhas que estalavam, quando ela as pisava. Havia carreiros de formigas, flores sem nome, canaviais bulindo, árvores ramalhando e, não muito além do caminho por onde a menina seguia, um burrito de orelhas espantadas. Tinha o pêlo cinzento e não era de peluche.
A menina, que já ouvira histórias de príncipes encantados por fadas más, pensou: “E se é um príncipe transformado em burro?”
Podia ser. Tinha os olhos pestanudos e olhava para a menina cheio de curiosidade.
“Eu dou-lhe um beijinho, desfaz-se o encanto e ele transforma-se em príncipe”, pensou a menina. “Até pode ser que, mais tarde, queira casar-se comigo.”
A menina, que já se via princesa, aproximou-se do burro, para concretizar o que tinha pensado. Mas o burro é que não estava pelos ajustes. Quando viu a menina mais perto, fugiu a galope.
A menina correu atrás dele:
– Não te faço mal. É só um beijinho – prometia ela.
Mas o burro não queria saber. Era um burro novo, sem nenhuma prática social, e aquela criaturinha enervava-o.
Naturalmente, não era um príncipe encantado. Devia ser só um burro.
Também nos parece que sim.
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