António Torrado (A Parede com Ouvidos)

Ilustração: Cristina Malaquias
(Da Seleção de Contos Infantis)
Era uma vez uma parede que tinha ouvidos.
Nada de estranhar. Ele há gente que se pela por contar segredos, próprios ou alheios, sem ligar ao aviso dos mais prudentes: “Cuidado que as paredes têm ouvidos”. Alguma vez acabaria por ser verdade.
Esta tinha ouvidos e até olhos, calculem. Só lhe faltava a boca e, já agora, o nariz.
Espessa e toda fechada, sem portas nem janelas, acumulava o que via e ouvia no cerrado dela mesma, no mais dentro das pedras e do cimento de que era feita.
– É uma parede fixe – diziam as pessoas, espalmando as mãos na parede que, já se vê, não dava de si.
Até que um dia, houve uma festa na aldeia, festa a valer, com foguetório, música na praça, artistas vindos de fora e bailarico até altas horas.
Um dos altifalantes da instalação sonora foi aplicado à parede que tinha ouvidos.
A meio da musicata, ouviu-se uma voz dizer em segredo, mas de modo que todos ouvissem:
– A Tia Hermínia só toma banho na Páscoa.
O pessoal riu-se. Aquilo seria brincadeira de garotos… Logo a seguir, outra revelação:
– O Armindo e a Arminda andam a namorar às escondidas.
Embora a maioria da aldeia já soubesse, alguns estranharam o despropósito da notícia, a interromper a música.
– O Porfírio faz de pobretana, mas tem quilos de notas a forrar o colchão.
Aqui a surpresa foi maior, sobretudo para o Porfírio, mendigo de mão estendida à porta da igreja.
Mas donde viriam as falas? Da cabine de som não era. Do cantor, que no palco esbracejava a sua irritação, também não era.
– A Dona Camila já não paga aos criados há três meses, mas não quer que se saiba.
Aquilo já soava a escândalo. Foi a própria Dona Camila que apontou para o altifalante, pendurado na parede, a tal que tinha ouvidos:
– A voz vem dali.
Pois vinha. Arrancaram os fios ao altifalante e a voz calou-se. Acabaram-se as novidades, as inconfidências.
E, à cautela, quando voltou a haver festa na terra, nenhum altifalante coube à parede que sabia demais.
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