Júlio Salusse (Os Cisnes: A História Belíssima de um Soneto)

Nilo Bruzzi, amigo e biógrafo de Júlio Salusse, escreve:
“Júlio Salusse adquire um terreno na avenida Friburgo, à margem do Bengalas, desenha uma planta de casa, contrata um pedreiro e faz construir um simpático “chalet” em centro de formoso jardim. É hoje (1950) a casa nº 158 da Avenida Comte. de Bittencourt, residência do Doutro Hugo Antunes. Ali instala-se sozinho. É o Promotor Público de Nova Friburgo. A cidade regurgitava de famílias elegantes do Rio que para lá iam passar o verão.  Os condes de Nova Friburgo tinham regressado da Europa e habitavam o suntuoso Castelo do Barracão. 
“Baile no Cassino. O que há de mais distinto na sociedade de Nova Friburgo ali está. Júlio Salusse, cabelos dourados, olhos profundamente azuis, buço louro, tez muito clara e rosada, elegante, alto, lenço de cambraia evolando perfume inebriante, gravata de seda fina e colorida, também ali está. Duas moças formosíssimas polarizam a atenção de todos os rapazes. Vera van Erven, loura, clara, olhos azuis, elegantíssima, inteligente, risonha, dançando muito bem, intelectual, dizendo versos de cor, conversando com todos e por todos admirada. Laura de Nova Friburgo, a castelã do Barracão, lindíssima, de um moreno delicioso, olhos brilhantes e escuros, recém-chegada da Europa, onde fora se instruir. […]
“Júlio Salusse naquela noite conheceu ambas e com ambas dançou. […]
“Dias depois, nova festa em casa do Dr. Ernesto Brasil de Araújo.
“Baile animado. Laura está mais linda, com seu fofo vestido de rendas, seus maravilhosos cabelos, olhos provocadores, aquele moreno inesquecível.
“Em seguida, vieram dias de chuvas copiosas. Júlio Salusse fica preso em casa, naquele simpático “chalet” à margem do rio, cercado de flores. Uma noite, o sonho embala o seu pensamento. Passa-lhe pela lembrança a formosa moça do Castelo do Barracão…
“Está só. A chuva lá fora cai ininterrupta. As águas do rio crescem. E o poeta começa a compor o soneto – Cisnes – que lhe vai abrir as portas da glória imorredoura. Quando, no terceiro dia, cessa a chuva, Júlio Salusse tem pronto os versos imperecíveis. […]
“Um novo baile, agora no Castelo do Barracão, proporciona novo encontro de Júlio Salusse com Laura de Nova Friburgo. Dançam, conversam. Mas o poeta, que é arrojado no pensamento, tem, entretanto, a palavra contida pela timidez, oriunda da falta de confiança em si mesmo. […]
“E o que poderia ter sido um delicioso enredo sentimental ficou sendo um êxtase ungido da filosofia de Platão, silencioso, como daquele outro Petrarca que, em 1327, à porta da Igreja de Santa Clara, em Avignon, viu pela primeira vez aquela outra Laura de Novaes, esposa de Ugo de Sade, e nunca mais a esqueceu nos seus versos imortais”.

JÚLIO SALUSSE

Os Cisnes

A vida, manso lago azul algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós constantemente
um lago azul, sem ondas, sem espumas.

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vagamos indolentemente
como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo.
Quando chegar esse momento incerto,
no lago, onde, talvez, a água se tisne,

que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne.

Fonte:
Colaboração de Nei Garcez

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