Arquivo do mês: dezembro 2012

Mensagem de Fim de Ano

Hoje encerramos as postagens do ano. Retorno dia 2 de janeiro de 2013.
Quero deixar aqui a todos que por aqui navegam singrando horizontes, que aproveitando que o mundo não acabou, mas que precisa muito melhorar, que o façamos com consciência, com respeito a si, aos outros, aos animais e à natureza. Que 2013 seja uma Era de Ouro, onde reinará finalmente a paz, a harmonia, a felicidade dentro e fora de nossas casas.
Que os sonhos deixem de ser apenas sonhos, e se tornem realidade.
Enfim, nas palavras de Jacqueline Aisenman (de Genebra, editora-chefe do Varal do Brasil):
Que venham novos tempos, onde os verdadeiros valores da literatura se sobressaíam e possam alçar voos pelos céus da cultura!

Espalhemos nossa bela língua por onde possamos, por onde passemos, por onde pudermos ir! 

Sejamos poesia, nos transformemos em crônicas e contos, bailemos em trovas e haicais.

Que a literatura ganhe vida através de nossas mãos e coração!

Feliz passagem de ano para todos!!!

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Baú de Trovas V

Inspirado na bonança,
de pensamentos diversos,
o poeta é uma criança
brincando de fazer versos.
Adolfo Macedo

Que exemplo o do vaga-lume
que vive na noite escura;
quanto maior é o negrume,
mais ele voa e fulgura!
Albertina Moreira Pedro

Quem vive ofensas perdoando
e por amor tudo faz,
vai sempre em punho levando
uma bandeira de paz!
Analice Feitosa de Lima

Qual fantasia perdida
que se desfaz na amplidão,
tudo é efêmero na vida,
feito bolha de sabão!
Antônio Coutinho

Ralha o chefe, quando chego
atrasado e irritadiço…
Eu até gosto do emprego;
só não gosto é de serviço!
Antonio V. Rufatto

Sede balança amiúde
ao pesar os vossos feitos;
vereis gramas de virtude,
toneladas de defeitos.
Aristóteles Lacerda Júnior

Garimpeiro, pelos vãos
dos teus dedos que envelhecem,
muda as riquezas de mãos
para mãos que não merecem!…
Arlindo Tadeu Hagen

Destino é força que esmaga…
– Credor austero, tremendo,
manda a conta e a gente paga
sem saber que está devendo.
Barreto Coutinho

Traça os rumos com carinho,
pondo firmeza nos traços,
que a retidão do caminho
dá segurança aos teus passos.
Carolina Ramos

Veleiro de vela panda,
perdeste o rumo e, a bailar,
vais brincando de ciranda
nas águas verdes do mar!
Célio Grunewald

Já com cabelos grisalhos,
mas inda pensando em ti,
vejo a saudade em retalhos
nas cartas que recebi.
Cidoca da Silva Velho

Range a carroça, à distância,
e o boi num passo indolente
me traz lembranças da infância,
faz do passado… presente.
Cincinato Palmas Azevedo

Um abajur sobre a mesa,
na velha jarra uma flor;
um “Tango para Teresa”,
saudades de um velho amor.
Dalmir Pena

Tenho, sim, muito mais ouro
e fortuna que um ricaço:
não há no mundo tesouro
que pague as trovas que eu faço!
Darly Angélica O. Barros

Num reino que tanto mata,
onde a ambição desatina,
mesmo sem ouro e sem prata,
o rei… é quem se domina!
Diche Galvão Campos

A união se faz maior
em noite fria que tenha
uma família ao redor
de um velho fogão de lenha!
Eduardo A. O. Toledo

Assim é este mundo,
todo cheinho de loucos…
E mais este vagabundo
que te quer bem como poucos!
Francisco C. Rocha

Nem sempre a briga é conflito
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!
Haroldo Rodrigues de Castro

Eu prefiro a arte caduca,
pois receio a evolução.
Quanto mais ela se educa,
mais aumenta a confusão.
Humberto Del Maestro

Virtude é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não faz por merecê-lo.
Izo Goldman

Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– Por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
Jaime Pina da Silveira

Sacudiram minha vida,
duas coisas, te confesso:
a tua triste partida
e o teu alegre regresso.
João Batista Serra

Se alguém brigou por amor,
ou é ciúme, ou intriga…
– Quem ama não tem rancor,
e por amor ninguém briga!
José Vitor de Paiva

Se aos outros deres bom trato,
respeito, a qualquer momento,
receberás – de imediato,
o mesmo e igual tratamento.
Josias Paiva Pinheiro

Ai, meu Brasil, quem me dera
eu partir de Portugal
numa linda caravela
bem ao lado de Cabral!…
Manoel Fernandes Menendez

Respeita o empenho constante,
o eterno recomeçar
de quem erra e segue avante,
na esperança de acertar.
Maria H. C. M. Duarte

De um cantinho da Bahia,
chamado Porto Seguro,
parte o Brasil – sob a guia
de Iemanjá – rumo ao futuro.
Maria Madalena Ferreira

Numa alegria sem fim,
o meu coração criança
faz da ilusão trampolim
e mergulha na esperança…
Marta Maria P. Barros

Na epopéia de Cabral
eu bendigo a calmaria,
que, do imenso Litoral,
fê-lo aportar na Bahia.
Newton Meyer Azevedo

Sobre mulher não discutam;
seus impulsos não se medem,
as mais fracas também lutam,
as mais fortes também cedem.
Nydia Iaggi Martins

Duas lindas borboletas
persigo, em nossos idílios:
as tuas pupilas pretas,
batendo as asas dos cílios.
Orlando Brito

Saudade – espelho encantado
que mostra, aos olhos da gente,
toda a imagem do passado
revivendo no presente…
P. de Petrus

Num tormento incontrolado,
meu ciúme amaldiçoa
o teu retrato falado
nos lábios de outra pessoa.
Paulo César Ouverney

Pelas veredas singelas
da Trova e da Poesia,
se difundem as mais belas
lições de filosofia.
Roberto R. Vilela

Cansado de fazer trovas
sem que me ouvisses jamais
tentei usar armas novas
quem sabe atenda haicais.
Sérgio Serra

Pranto da noite chorosa,
orvalho feito diamante,
natureza caprichosa,
cristalizou num instante.
Silvia Reis

Nós precisamos sorrir,
mesmo sendo vergastados,
pois ninguém leva, ao partir,
os patrimônios roubados.
Swami Vivekananda

Se a família é rica ou pobre
e se o lar é acolhedor,
a gente sempre descobre
pela grandeza do amor! Therezinha D Brisolla


Fontes:
Manoel Fernandes Menendes:
Seleções em Folha. Ano 4. N.1 – janeiro 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.2 – fevereiro 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.3 – março 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.4 – abril 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.5 – maio 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.6 – junho 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.7 – julho 2000. São Paulo/SP

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Wagner Rodrigues (Sonetos Escolhidos)

Sem Cais

Neste dia em que meu coração
Aflito, pulsa a dor duma saudade
Rasga no meu peito triste uma vontade
De escrever mil sonetos de paixão!

Quem me dera tamanha inspiração
Capaz de atenuar minha soledade
Esse vazio da fatalidade
Que é te ter como minha adoração!

Mas não consigo nem um só soneto!
Apenas um composto sem quarteto
Feito somente com as iniciais

De DOIS portos que num oceano agitado
Deixaram o barco do Amor naufragado
A poucos metros de UM porto sem cais!

O Vírus do Amor

Disse um dia alguém que o vírus do Amor
– Este, que reside em tese no Beijo –
É a mutação sublime do Desejo
Que antes de ser Desejo foi Calor…

Disse um dia alguém que o vírus do Amor
– Este, que se propaga no cortejo –
No início ele era apenas um Ensejo…
Mas hoje faz deste homem um trovador!

Venha menina, e beije-me em ternura
Faz-me contaminado com esta cura
Faz-me acamado de tanta alegria!

Venha menina que em meu quarto assoma
Quero desfrutar de cada sintoma
Desse vírus que alguém me falou um dia!

Menina dos Olhos

Mas quem és tu!? Como ousas me perscrutar
desta forma? Não é possível crer!
Eu estou assombrado com este poder
Que consegue tão fácil me decifrar!

Incrível quando falas sem titubear
Daquilo que ninguém te fez conhecer…
Sinceramente não posso compreender
Tão singela maneira de sondar!

Como podes ler o meu coração?
Hei de descobrir o seu grande arcano…
– Eu também quero ler teu coração!

Lance de novo o teu olhar, menina
Inda quero usar deste teu plano
Que tão incrivelmente me fascina!

Soneto

O Tempo… Quão refém dele me sinto
Quando vejo que chances preciosas
Passaram e murcharam como rosas…
Flores jogadas num jardim extinto!

Devorou-me este Tempo tão faminto!
Tragou as minhas árvores frondosas
Deixou-me só lembranças vaporosas…
O Tempo… Quão refém dele me sinto!

Triste e impassível com o passar dos anos
Vejo a morte de todos os meus planos
Que agonizaram nas rugas da face…

Em cada movimento do relógio
Eu leio com terror o necrológio
De um Sonho que morreu e não renasce!

Tesouro

Eu levava comigo, bem guardada
A jóia mais bonita deste mundo
Que perdida no mar, bem lá no fundo
Estava pelas rochas ofuscada…

E para ter a jóia cobiçada
Impelido por um querer profundo
Eu mergulhei no mar de um estranho mundo
E enfrentei a torrente mais gelada…

E na fúria de um cristão contra um mouro
Bravamente fiz o que foi preciso
Para conquistar meu grande tesouro…

Mas a Vida atacou-me sem aviso
E fez-me pobre ao levar o meu ouro
E fez-me triste ao levar teu sorriso!

Ode a Tristeza

Tão triste! Mas se no mundo a Tristeza,
tivesse formas assim tão divinas,
glorificar a Dor seria a sina
de todo homem que se curva à Beleza!

Se a Dor é assim, a Dor é a Princesa,
que ao se mostrar num pranto de menina,
faz ver que não há nada que defina
com exatidão tamanha realeza!

Teu olhar, umedecido pelo orvalho
(de um coração aflito e em retalho)
é a coisa mais singela que eu já vi!

E se a Tristeza fosse algo de valor,
esta jóia que escorre em ti, meu amor,
é mais valiosa que a prata, o ouro, e o rubi!

Despedida

Tu, que pensas mais em ti do que em mim
(E tenta convencer-me do contrário)
Não te importas com a dor do meu calvário
Só se importas se pra ti eu digo “sim”.

Veja! Por muito tempo eu rastejo assim
Ajoelhado em teu próprio santuário
Como se eu fosse um fiel sectário
Da seita que crias-te só pra mim.

E assim, fraco, carente de mim mesmo
Fico a andar pela minha vida a esmo
Enquanto vou na estrada da sua vida

Mas agora, temendo a derrocada
Eu vou precisar sair da sua estrada…
Fica em versos a minha despedida!

Na Estrada…

Na estrada que serpenteia o deserto
Que simboliza o coração humano
Lá vai o solitário com o arcano
Que o faz viajar para um rumo incerto!

Ele vai sozinho, sem ninguém por perto
Andando sem rumo, destino, ou plano
Levando o segredo que o torna insano
E buscando AQUILO que está encoberto!

E ele segue… Tal qual Dean, tal qual Sal
Ora sendo bom, ora sendo mau
Num misto de fantasia e loucura…

E arfando nesta estrada de ilusão
Ele oscila entre a orgia e a solidão
Na ávida sede de achar a cura!

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=70&x=18&y=5

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Eça de Queirós (O Mandarim) Parte I

Análise da obra
http://singrandohorizontes.blogspot.com.br/2012/04/eca-de-queiros-o-mandarim.html

—————————–
PRÓLOGO

1º AMIGO (bebendo conhaque e soda, debaixo de árvores, num terraço, à beira-d’água)

Camarada, por estes calores do Estio que embotam a ponta da sagacidade, repousemos do áspero estudo da Realidade humana… Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ruínas do Idealismo… Façamos fantasia!…

2º AMIGO

Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…
(COMÉDIA INÉDITA)

I

Eu chamo-me Teodoro – e fui amanuense do Ministério do Reino.

Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta, a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração do Bairro Central, esguio e amarelo como uma tocha de enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola francesa.

A minha existência era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas de lustrina à carteira da minha repartição, ia lançando, numa formosa letra cursiva, sobre o papel «Tojal» do Estado, estas frases fáceis: «Il.mo e Ex.mo Sr. – Tenho a honra de comunicar a V. Ex.a… Tenho a honra de passar às mãos de V. Ex.a, Il.mo e Ex.mo Sr…»

Aos domingos repousava: instalava-me então no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora, sobretudo no Verão, era deliciosa: pelas janelas meio cerradas penetrava o bafa da soalheira, algum repique distante dos sinos da Conceição Nova e o arrulhar das rolas na varanda; a monótona sussurração das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véu nupcial da Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicais; pouco a pouco o tenente, envolvido, num lençol como um ídolo no seu manto, ia adormecendo, sob a fricção mole das carinhosas mãos da D. Augusta; e ela, arrebitando o dedo mínimo branquinho e papudo, sulcava-lhe as repas lustrosas com o pentezinho dos bichos… Eu então, enternecido, dizia à deleitosa senhora:

– Ai D. Augusta, que anjo que é!

Ela ria; chamava-me enguiço! Eu sorria, sem me escandalizar. «Enguiço» era com efeito o nome que me davam na casa – por eu ser magro, entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter à cabeceira da cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores que pertencera à mamã, e corcovar. Infelizmente corcovo – do muito que verguei n espinhaço, na Universidade, recuando como uma pega assustada diante dos senhores lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó perante os meus directores-gerais. Esta atitude de resto convém ao bacharel; ela mantém a disciplina num Estado bem organizado; e a mim garantia-me a tranquilidade dos domingos, o uso de alguma roupa branca, e vinte mil réis mensais.

Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso – como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido Couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; – mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus. Oh! moços que vos dirigíeis vivamente a S. Carlos, atabafados em paletós caros onde alvejava a gravata de soirée! Oh! tipóias, apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros – quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil réis por mês e o meu jeito encolhido de enguiço, me excluíam para sempre dessas alegrias sociais, vinha-me então ferir o peito – como uma frecha que se crava num tronco, e fica muito tempo vibrando!

Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida humilde tem doçuras: é grato, numa manhã de sol alegre, com o guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o «Diário de Notícias»; pelas tardes de Verão, nos bancos gratuitos do Passeio, gozam-se suavidades de idílio; é saboroso à noite no Martinho, sorvendo aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a pátria… Depois, nunca fui excessivamente infeliz – porque não tenho imaginação: não me consumia, rondando e almejando em torno de paraísos fictícios, nascidos da minha própria alma desejosa como nuvens da evaporação de um lago; não suspirava, olhando as lúcidas estrelas, por um amor à Romeu ou por uma glória social à Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao tangível, ao que já fora alcançado por outros no meu bairro, ao que é acessível ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma table d’hôte mastiga a bucha de pão seco à espera que lhe chegue o prato rico da charlotte russe. As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional: – pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria.

No entanto procurava distrair-me. E como as circunvoluções do meu cérebro me não habilitavam a compor odes, à maneira de tantos outros ao meu lado que se desforravam assim do tédio da profissão; como o meu ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permitia um vício – tinha tomado o hábito discreto de comprar na Feira da Ladra antigos volumes desirmanados, e à noite, no meu quarto, repastava-me dessas leituras curiosas. Eram sempre obras de títulos ponderosos: «Galera da Inocência», «Espelho Milagroso», «Tristeza dos Mal-Deserdados»… O tipo venerando, o papel amarelado com picadas de traça, a grave encadernação freirática, a fitinha verde marcando a página – encantavam-me! Depois, aqueles dizeres ingénuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu ser, sensação comparável à paz penetrante de uma velha cerca de mosteiro, na quebrada de um vale, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr da água triste…

Uma noite, há anos, eu começara a ler, num desses in-fólios vetustos, um capítulo intitulado «Brecha das Almas»; e ia caindo numa sonolência grata, quando este período singular se me destacou do tom neutro e apagado da página, com o relevo de uma medalha de ouro nova brilhando sobre um tapete escuro: copio textualmente:

«No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

Estaquei, assombrado, diante da página aberta: aquela interrogação «homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me faceta, picaresca, e todavia perturbava-me prodigiosamente. Quis ler mais; mas as linhas fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, de uma lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpelação estranha – «tocarás tu a campainha?»

Se o volume fosse de uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarela, eu, que por fim não me achava perdido numa floresta de balada alemã, e podia da minha sacada ver branquejar à luz do gás o correame da patrulha – teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a alucinação nervosa. Mas aquele sombrio in-fólio parecia exalar magia; cada letra afectava a inquietadora configuração desses sinais da velha cabala, que encerram um atributo fatídico; as vírgulas tinham o retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos numa alvura de luar; no ponto de interrogação final eu via o pavoroso gancho com que o Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na inviolável cidadela da Oração!… Uma influência sobrenatural apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fora da realidade, do raciocínio: e no meu espírito foram-se formando duas visões – de um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, num quiosque chinês, a um ti-li-tim de campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando aos meus pés! Isto era tão nítido, que eu via os olhos oblíquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos de uma ténue camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E imóvel, arrepiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um dicionário francês – a campainha prevista, citada no mirífico in-fólio…

Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metálica me disse, no silêncio:

– Vamos, Teodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um forte!

O abat-jour verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe média como se viesse da minha repartição…

Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e duras; o nariz brusco, de um aquilino formidável, apresentava a expressão rapace e atacante de um bico de águia; o corte dos lábios, muito firme, fazia-lhe como uma boca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam dois clarões de tiro, partindo subitamente de entre as sarças tenebrosas das sobrancelhas unidas; era lívido – mas, aqui e além na pele, corriam-lhe raiações sanguíneas como num velho mármore fenício.

Veio-me à ideia de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo o meu raciocínio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu nunca acreditei no Diabo – como nunca acreditei em Deus. Jamais o disse alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes públicos, encarregados de manter o respeito por tais entidades: mas que existam estes dois personagens, velhos como a Substância, rivais bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amáveis, – um de barbas nevadas e túnica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos luminosos, entre uma corte mais complicada que a de Luís XIV; e o outro enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chamas inferiores, numa imitação burguesa do pitoresco Plutão – não acredito. Não, não acredito! Céu e Inferno são concepções sociais para uso da plebe – e eu pertenço à classe média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das Dores: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil réis, implorei a benevolência do senhor deputado; igualmente para me subtrair à tísica, à angina, à navalha de ponta, à febre que vem da sarjeta, à casca da laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males públicos, necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapapé ou pelo incensador, o homem prudente deve ir fazendo assim uma série de sábias adulações, desde a Arcada até ao Paraíso. Com um compadre no bairro, e uma comadre mística nas alturas – o destino do bacharel está seguro.

Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao indivíduo vestido de negro:

– Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

Ele ergueu um pouco o chapéu, descobrindo a fronte estreita, enfeitada de uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e respondeu, palavra a palavra: – Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: há vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin, de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar seu pai… Fabricam-se em Paris e em Londres carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferível percorrer nelas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses, pelos céus, sobre os fofos coxins das nuvens… Não farei à sua instrução a ofensa de o informar que se mobilam hoje casas, de um estilo e de um conforto, que são elas que realizam superiormente esse regalo fictício, chamado outrora a «bem-aventurança». Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais… Só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres – diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje, Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos… Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para os cinco dedos de um cristão, em percorrer, palpar estas maravilhas macias; – mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins… Mas elas possuem melhor, Teodoro: são os cabelos cor do ouro ou cor da treva, tendo assim nas suas tranças a aparência emblemática das duas grandes tentações humanas – a fome do metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda têm mais: são os braços cor de mármore, de uma frescura de lírio orvalhado; são os seios, sobre os quais o grande Praxíteles modelou a sua Taça, que é a linha mais pura e mais ideal da Antiguidade… Os seios, outrora (na ideia desse ingénuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram destinados à nutrição augusta da humanidade; sossegue porém, Teodoro; hoje nenhuma mamã racional os expõe a essa função deterioradora e severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gás das soirées, – e para outros usos secretos. As conveniências impedem-me de prosseguir nesta exposição radiosa das belezas que constituem o fatal feminino… De resto as suas pupilas já rebrilham… Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês… Confesse, ao menos, que estas palavras têm o venerável selo da verdade!…
————

continua…

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Clevane Pessoa (Mensagem)

Fonte:

A Autora

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Manoel Santos Neto (Universo Poético da Cidade de São Luís do Maranhão IV)

Numa terra de ruas estreitas e becos sinuosos, duas praças de São Luís – a João Lisboa (velho Largo do Carmo) e a Deodoro (antigo Largo do Quartel) – mais que quaisquer outros espaços públicos da cidade ganharam uma extraordinária importância histórica.

Por uma série de fatores, cresceu e se desenvolveu em torno delas a atividade artística da capital, do século XIX até os dias de hoje. As duas viraram pontos de referência para a compreensão do espírito de São Luís. A João Lisboa é tida como o coração da cidade, que se celebrizou com um notável lastro de história, desde remotos relatos como os de Claude d‘Abbeville e Ribeiro do Amaral. Esta praça também ficou famosa por ter sido, durante muito tempo, o largo antigo onde grupos de pessoas se reuniam todas as tardes para comentar a vida da cidade. Era lá também que os intelectuais costumavam se encontrar à noite para discutir arte, literatura e política.

O escritor Domingos Vieira Filho (1924-1981) recorda com nostalgia, no livro Breve História das Ruas de São Luís, que a Praça João Lisboa, “povoada de sombra espessa, dadivosa, fresca, aprazível, com bancos terminando os encostos laterais em cabeças de carneiros modeladas em cimento e gesso, era o coração, a alma, o centro nervoso da cidade, onde funcionava um poderoso mecanismo de censura social, cadinho maravilhoso e infalível.”

A História conta que foi no Largo do Carmo que se travou, em 1643, o memorável combate entre os holandeses invasores comandados por Anderson e a tropa do português Antônio Teixeira de Melo. O Convento do Carmo, que pertencia à Ordem dos Carmelitas e depois passou para o controle da Ordem dos Capuchinhos, serviu de abrigo para portugueses durante a expulsão dos holandeses.

Com escadaria em pedra de cantaria, o Convento do Carmo data de 1627 e foi construído graças à doação de terras feita por Alexandre de Moura aos frades carmelitas, que chegaram em São Luís em 1615.

No pavimento térreo do Convento do Carmo, funcionou o Liceu Maranhense, criado em 1838, no governo do presidente Vicente Tomás Pires de Figueiredo Camargo, cujo primeiro diretor foi Francisco Sotero dos Reis (1800-1871). Juntamente com a Igreja do Carmo, o Convento é considerado um dos mais perfeitos conjuntos arquitetônicos da época colonial em São Luís. Administrado desde 1894 pelos padres capuchinhos e – vale lembrar – este Convento também foi a primeira sede da Biblioteca Pública Benedito Leite, inaugurada no início de maio de 1831.

No interior do Convento, encontram-se sepultados vários bispos e padres que ali serviram e atualmente avulta, em frente à Igreja do Carmo, o busto do Frei Carlos Roveda de S. Martino Olearo (1852-1931), fundador da Missão Capuchinha no Norte e Nordeste do Brasil.

O Largo do Carmo dá acesso ao Beco da Pacotilha – ou Beco do Quebra-Bunda – por ter sido instalado lá, por algum tempo, o grande jornal A Pacotilha, de Vitor Lobato, em um prédio de azulejos verdes que ainda existe até hoje e era propriedade do Barão de Coroatá. Além do prédio da velha Pacotilha, lá havia uma coluna de mármore que dominava a praça, quase em frente ao Convento do Carmo: era alta, elegante, de base retangular, subindo para o capitel em feixes espiralados. Esta coluna de mármore era o Pelourinho de São Luís, erguido para o castigo público dos negros cativos.

Segundo César Marques (1826-1900), o famoso dicionarista da História do Maranhão, este pelourinho – célebre instrumento utilizado pelos feitores para castigar pretos que se rebelavam – foi inaugurado no dia 30 de setembro de 1815, quando dois escravos foram surrados, mesmo depois de já terem sido vergalhados na cela da Cadeia Pública, porque ainda traziam no dorso e nos braços as marcas de lapadas recentes.

De acordo com César Marques, os escravos eram amarrados à coluna, de bunda de fora, para serem açoitados, (daí o nome Beco do Quebra-Bunda), configurando uma cena pungente em pleno Largo do Carmo, defronte da Rua da Paz, no Centro Histórico de São Luís. Lá avultava a espiral de mármore do pelourinho, que fora destruído vandalicamente pelo povo, por ocasião da Proclamação da República, em novembro de 1889.

O escritor Dunshee de Abranches (1867-1941), cronista da velha cidade, com as ruas em ladeira, os mirantes de azulejos, os telhados escuros, as grades de ferro das sacadas, os lampiões nas esquinas, recorda, no seu prestimoso livro de memórias, de imagens marcantes como a de negros presos ao pelourinho, de mãos e pés atados.

No livro Panteon Maranhense, Antônio Henriques Leal (1828-1885) revela que Odorico Mendes (1799-1864), ao escrever o seu primeiro soneto, inspirou-se no supliciamento de um negro no pelourinho do Largo do Carmo. A sensibilidade do menino de 13 anos foi profundamente ferida pelo espetáculo deprimente e seu estro vibrou num soneto que Leal considera formidável:
Despido em praça pública, amarrado,
Jaz o mísero escravo delinqüente:
Negro gigante de ânimo inclemente
Na mão tem o azorrague levantado.

A rir em torno, um bando encarniçado
Ao verdugo promete um bom presente,
Se com braço mais duro ao padecente
Rasgando for o corpo ensangüentado.

Homens, não vos assiste a menor pena
Dos sentidos seus ais, d´angústia sua?
Rides, perversos, desta horrível cena! …

A sua obrigação, oh gente crua,
Faz o reto juiz quando condena;
Tu, deplorando o réu, cumpres a tua.

Foi através da Resolução nº 14, de 28 de julho de 1901, que o histórico Largo do Carmo passou a ser denominado Praça João Lisboa, em homenagem à memória do grande mestre do jornalismo do Maranhão. O escritor Domingos Vieira Filho conta que, no antigo largo, João Francisco Lisboa (1812-1863) residiu por muitos anos. “Da janela de seu sobrado viu desfilar muitas vezes a vida da cidade. Há de se ter inspirado no velho logradouro para recompor com ânimo isento e exatidão documental lances heróicos da história maranhense aí vividos em mais de uma ocasião.”

O escritor Viriato Correia (1884-1967) foi quem fez, como deputado estadual, o projeto de lei mandando erigir uma estátua ao ilustre maranhense que, além de jornalista, foi crítico, historiador, orador e político. A Lei estadual nº 582, de 24 de abril de 1911, autorizou o governo a abrir os créditos necessários ao levantamento da estátua, inaugurada solenemente no dia 1º de janeiro de 1918, com discursos proferidos pelo professor Ribeiro do Amaral, pelo intendente Clodomir Cardoso, pelos acadêmicos Alfredo de Assis e Domingos Barbosa e pelo cônsul Fran Paxeco.

João Lisboa, maranhense nascido em Pirapemas, no dia 22 de março de 1812, é o patrono da Cadeira nº 18 da Academia Brasileira de Letras. Autodidata, foi caixeiro, jornalista, deputado provincial (1848) e historiador. Representa, ao lado de Varnhagen e de Joaquim Caetano da Silva, o tripé da reforma da historiografia brasileira.

Todos os estudos biográficos sobre João Lisboa, cognominado o Timon Maranhense, se baseiam nos dados publicados por seu contemporâneo e amigo íntimo Antônio Henriques Leal na Notícia acerca da vida e obras de João Francisco Lisboa, que precede as suas Obras (quatro volumes) impressas no Maranhão em 1864-1865. A biografia de João Lisboa, ampliada, foi reproduzida no tomo 4º do Pantheon Maranhense, editado em 1857 pela Imprensa Nacional de Lisboa.

Em 1977 saiu o livro João Francisco Lisboa Jornalista e historiador, de Maria de Lourdes Menaço Janotti, e em 1986 o primeiro volume da nova fase da Coleção Afrânio Peixoto, da Academia Brasileira de Letras, João Francisco Lisboa O Timon Maranhense, de Arnaldo Niskier, duas obras de pesquisa em torno da figura e dos escritos do publicista maranhense, que faleceu em Lisboa, Portugal, aos 51 anos de idade, no dia 26 de abril de 1863.

Um ano depois de sua morte, seu amigo Antônio Henriques Leal editou suas Obras Completas (São Luís, 1864-1865, 4 volumes) nelas incluindo a Vida do Padre Antônio Vieira, obra póstuma. Como escreveu Capistrano de Abreu, João Francisco Lisboa foi um dos mais vigorosos espíritos do Brasil e com razão o Maranhão se orgulha de ser sua pátria.
–––––––––-
Continua…

Fonte:
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Edição 118. 20 de janeiro de 2006

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Simões Lopes Neto (A Casa de Mbororé)

Dentro do mato grosso, mato velho e crescido, sem plantas pequenas dentro, aí, só há uma luz pouca, tirante a verde e a cinzento; e nenhuma árvore faz sombra, porque a ramaria de todas faz peneira por onde passa o sol, que nunca enxerga o chão…

Dentro desse mato, no mais tupido dele, há uma lombada redonda, como uma casca de
carumbé; aí, em cima dela, há uma casa de pedra branca, branca como se encaliçada, e sem porta em nenhum lado nem janela em nenhuma altura.

Dentro da casa branca as salas são lastradas de barras de ouro e barras de prata, do peso que é preciso dois homens para mover cada uma; e todas as juntas das pilhas estão tomadas de pedras finas…

Por cima de tudo estão, em montes, tocheiros de ouro maciço e cálices e resplendores de
santos; e salvas de prata e turíbulos e cajados.

Nos corredores, como prontos para içar para as cangalhas das mulas de carga, prontos,
com as suas alças, estão lotes de surrões, socados de moedas de ouro, separadas em porções, metidas em bexigas de rês…

O rondador da casa branca dia e noite anda em redor dela; é um índio velho, cacique que
foi, Mbororé, de nome, amigo dos santos padras das Sete Missões da serra que dá vertente para o Uruguai.

Os padres foram tocados para longe, levando só a roupa do corpo… mas a casa branca já
estava feita, sem portas nem janelas… e Mbororé, que sabia tudo e era cacique, de noite, e precatado, com os seus guerreiros, carregou de todos os lugares para aquele as arrobas amarelas e as arrobas brancas, que não valiam a caça e a fruta do mato e a água fresca, e pelas quais os brancos de longe matavam os nascidos aqui, e matavam-se uns aos outros.

Mbororé desprezava essas arrobas; mas como era amigo dos santos padres das Sete Missões, guardou tudo e espera por eles, rondando a casa branca, sem portas nem janelas.

Ronda e espera…

Fonte:
Simões Lopes Neto, Contos Gauchescos & Lerndas do Sul. Porto Alegre/RS: L&PM Pocket, 2012.

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