Arquivo do mês: dezembro 2012

Mensagem de Fim de Ano

Hoje encerramos as postagens do ano. Retorno dia 2 de janeiro de 2013.
Quero deixar aqui a todos que por aqui navegam singrando horizontes, que aproveitando que o mundo não acabou, mas que precisa muito melhorar, que o façamos com consciência, com respeito a si, aos outros, aos animais e à natureza. Que 2013 seja uma Era de Ouro, onde reinará finalmente a paz, a harmonia, a felicidade dentro e fora de nossas casas.
Que os sonhos deixem de ser apenas sonhos, e se tornem realidade.
Enfim, nas palavras de Jacqueline Aisenman (de Genebra, editora-chefe do Varal do Brasil):
Que venham novos tempos, onde os verdadeiros valores da literatura se sobressaíam e possam alçar voos pelos céus da cultura!

Espalhemos nossa bela língua por onde possamos, por onde passemos, por onde pudermos ir! 

Sejamos poesia, nos transformemos em crônicas e contos, bailemos em trovas e haicais.

Que a literatura ganhe vida através de nossas mãos e coração!

Feliz passagem de ano para todos!!!

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Baú de Trovas V

Inspirado na bonança,
de pensamentos diversos,
o poeta é uma criança
brincando de fazer versos.
Adolfo Macedo

Que exemplo o do vaga-lume
que vive na noite escura;
quanto maior é o negrume,
mais ele voa e fulgura!
Albertina Moreira Pedro

Quem vive ofensas perdoando
e por amor tudo faz,
vai sempre em punho levando
uma bandeira de paz!
Analice Feitosa de Lima

Qual fantasia perdida
que se desfaz na amplidão,
tudo é efêmero na vida,
feito bolha de sabão!
Antônio Coutinho

Ralha o chefe, quando chego
atrasado e irritadiço…
Eu até gosto do emprego;
só não gosto é de serviço!
Antonio V. Rufatto

Sede balança amiúde
ao pesar os vossos feitos;
vereis gramas de virtude,
toneladas de defeitos.
Aristóteles Lacerda Júnior

Garimpeiro, pelos vãos
dos teus dedos que envelhecem,
muda as riquezas de mãos
para mãos que não merecem!…
Arlindo Tadeu Hagen

Destino é força que esmaga…
– Credor austero, tremendo,
manda a conta e a gente paga
sem saber que está devendo.
Barreto Coutinho

Traça os rumos com carinho,
pondo firmeza nos traços,
que a retidão do caminho
dá segurança aos teus passos.
Carolina Ramos

Veleiro de vela panda,
perdeste o rumo e, a bailar,
vais brincando de ciranda
nas águas verdes do mar!
Célio Grunewald

Já com cabelos grisalhos,
mas inda pensando em ti,
vejo a saudade em retalhos
nas cartas que recebi.
Cidoca da Silva Velho

Range a carroça, à distância,
e o boi num passo indolente
me traz lembranças da infância,
faz do passado… presente.
Cincinato Palmas Azevedo

Um abajur sobre a mesa,
na velha jarra uma flor;
um “Tango para Teresa”,
saudades de um velho amor.
Dalmir Pena

Tenho, sim, muito mais ouro
e fortuna que um ricaço:
não há no mundo tesouro
que pague as trovas que eu faço!
Darly Angélica O. Barros

Num reino que tanto mata,
onde a ambição desatina,
mesmo sem ouro e sem prata,
o rei… é quem se domina!
Diche Galvão Campos

A união se faz maior
em noite fria que tenha
uma família ao redor
de um velho fogão de lenha!
Eduardo A. O. Toledo

Assim é este mundo,
todo cheinho de loucos…
E mais este vagabundo
que te quer bem como poucos!
Francisco C. Rocha

Nem sempre a briga é conflito
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!
Haroldo Rodrigues de Castro

Eu prefiro a arte caduca,
pois receio a evolução.
Quanto mais ela se educa,
mais aumenta a confusão.
Humberto Del Maestro

Virtude é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não faz por merecê-lo.
Izo Goldman

Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– Por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
Jaime Pina da Silveira

Sacudiram minha vida,
duas coisas, te confesso:
a tua triste partida
e o teu alegre regresso.
João Batista Serra

Se alguém brigou por amor,
ou é ciúme, ou intriga…
– Quem ama não tem rancor,
e por amor ninguém briga!
José Vitor de Paiva

Se aos outros deres bom trato,
respeito, a qualquer momento,
receberás – de imediato,
o mesmo e igual tratamento.
Josias Paiva Pinheiro

Ai, meu Brasil, quem me dera
eu partir de Portugal
numa linda caravela
bem ao lado de Cabral!…
Manoel Fernandes Menendez

Respeita o empenho constante,
o eterno recomeçar
de quem erra e segue avante,
na esperança de acertar.
Maria H. C. M. Duarte

De um cantinho da Bahia,
chamado Porto Seguro,
parte o Brasil – sob a guia
de Iemanjá – rumo ao futuro.
Maria Madalena Ferreira

Numa alegria sem fim,
o meu coração criança
faz da ilusão trampolim
e mergulha na esperança…
Marta Maria P. Barros

Na epopéia de Cabral
eu bendigo a calmaria,
que, do imenso Litoral,
fê-lo aportar na Bahia.
Newton Meyer Azevedo

Sobre mulher não discutam;
seus impulsos não se medem,
as mais fracas também lutam,
as mais fortes também cedem.
Nydia Iaggi Martins

Duas lindas borboletas
persigo, em nossos idílios:
as tuas pupilas pretas,
batendo as asas dos cílios.
Orlando Brito

Saudade – espelho encantado
que mostra, aos olhos da gente,
toda a imagem do passado
revivendo no presente…
P. de Petrus

Num tormento incontrolado,
meu ciúme amaldiçoa
o teu retrato falado
nos lábios de outra pessoa.
Paulo César Ouverney

Pelas veredas singelas
da Trova e da Poesia,
se difundem as mais belas
lições de filosofia.
Roberto R. Vilela

Cansado de fazer trovas
sem que me ouvisses jamais
tentei usar armas novas
quem sabe atenda haicais.
Sérgio Serra

Pranto da noite chorosa,
orvalho feito diamante,
natureza caprichosa,
cristalizou num instante.
Silvia Reis

Nós precisamos sorrir,
mesmo sendo vergastados,
pois ninguém leva, ao partir,
os patrimônios roubados.
Swami Vivekananda

Se a família é rica ou pobre
e se o lar é acolhedor,
a gente sempre descobre
pela grandeza do amor! Therezinha D Brisolla


Fontes:
Manoel Fernandes Menendes:
Seleções em Folha. Ano 4. N.1 – janeiro 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.2 – fevereiro 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.3 – março 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.4 – abril 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.5 – maio 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.6 – junho 2000. São Paulo/SP
Seleções em Folha. Ano 4. N.7 – julho 2000. São Paulo/SP

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Wagner Rodrigues (Sonetos Escolhidos)

Sem Cais

Neste dia em que meu coração
Aflito, pulsa a dor duma saudade
Rasga no meu peito triste uma vontade
De escrever mil sonetos de paixão!

Quem me dera tamanha inspiração
Capaz de atenuar minha soledade
Esse vazio da fatalidade
Que é te ter como minha adoração!

Mas não consigo nem um só soneto!
Apenas um composto sem quarteto
Feito somente com as iniciais

De DOIS portos que num oceano agitado
Deixaram o barco do Amor naufragado
A poucos metros de UM porto sem cais!

O Vírus do Amor

Disse um dia alguém que o vírus do Amor
– Este, que reside em tese no Beijo –
É a mutação sublime do Desejo
Que antes de ser Desejo foi Calor…

Disse um dia alguém que o vírus do Amor
– Este, que se propaga no cortejo –
No início ele era apenas um Ensejo…
Mas hoje faz deste homem um trovador!

Venha menina, e beije-me em ternura
Faz-me contaminado com esta cura
Faz-me acamado de tanta alegria!

Venha menina que em meu quarto assoma
Quero desfrutar de cada sintoma
Desse vírus que alguém me falou um dia!

Menina dos Olhos

Mas quem és tu!? Como ousas me perscrutar
desta forma? Não é possível crer!
Eu estou assombrado com este poder
Que consegue tão fácil me decifrar!

Incrível quando falas sem titubear
Daquilo que ninguém te fez conhecer…
Sinceramente não posso compreender
Tão singela maneira de sondar!

Como podes ler o meu coração?
Hei de descobrir o seu grande arcano…
– Eu também quero ler teu coração!

Lance de novo o teu olhar, menina
Inda quero usar deste teu plano
Que tão incrivelmente me fascina!

Soneto

O Tempo… Quão refém dele me sinto
Quando vejo que chances preciosas
Passaram e murcharam como rosas…
Flores jogadas num jardim extinto!

Devorou-me este Tempo tão faminto!
Tragou as minhas árvores frondosas
Deixou-me só lembranças vaporosas…
O Tempo… Quão refém dele me sinto!

Triste e impassível com o passar dos anos
Vejo a morte de todos os meus planos
Que agonizaram nas rugas da face…

Em cada movimento do relógio
Eu leio com terror o necrológio
De um Sonho que morreu e não renasce!

Tesouro

Eu levava comigo, bem guardada
A jóia mais bonita deste mundo
Que perdida no mar, bem lá no fundo
Estava pelas rochas ofuscada…

E para ter a jóia cobiçada
Impelido por um querer profundo
Eu mergulhei no mar de um estranho mundo
E enfrentei a torrente mais gelada…

E na fúria de um cristão contra um mouro
Bravamente fiz o que foi preciso
Para conquistar meu grande tesouro…

Mas a Vida atacou-me sem aviso
E fez-me pobre ao levar o meu ouro
E fez-me triste ao levar teu sorriso!

Ode a Tristeza

Tão triste! Mas se no mundo a Tristeza,
tivesse formas assim tão divinas,
glorificar a Dor seria a sina
de todo homem que se curva à Beleza!

Se a Dor é assim, a Dor é a Princesa,
que ao se mostrar num pranto de menina,
faz ver que não há nada que defina
com exatidão tamanha realeza!

Teu olhar, umedecido pelo orvalho
(de um coração aflito e em retalho)
é a coisa mais singela que eu já vi!

E se a Tristeza fosse algo de valor,
esta jóia que escorre em ti, meu amor,
é mais valiosa que a prata, o ouro, e o rubi!

Despedida

Tu, que pensas mais em ti do que em mim
(E tenta convencer-me do contrário)
Não te importas com a dor do meu calvário
Só se importas se pra ti eu digo “sim”.

Veja! Por muito tempo eu rastejo assim
Ajoelhado em teu próprio santuário
Como se eu fosse um fiel sectário
Da seita que crias-te só pra mim.

E assim, fraco, carente de mim mesmo
Fico a andar pela minha vida a esmo
Enquanto vou na estrada da sua vida

Mas agora, temendo a derrocada
Eu vou precisar sair da sua estrada…
Fica em versos a minha despedida!

Na Estrada…

Na estrada que serpenteia o deserto
Que simboliza o coração humano
Lá vai o solitário com o arcano
Que o faz viajar para um rumo incerto!

Ele vai sozinho, sem ninguém por perto
Andando sem rumo, destino, ou plano
Levando o segredo que o torna insano
E buscando AQUILO que está encoberto!

E ele segue… Tal qual Dean, tal qual Sal
Ora sendo bom, ora sendo mau
Num misto de fantasia e loucura…

E arfando nesta estrada de ilusão
Ele oscila entre a orgia e a solidão
Na ávida sede de achar a cura!

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=70&x=18&y=5

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Eça de Queirós (O Mandarim) Parte I

Análise da obra
http://singrandohorizontes.blogspot.com.br/2012/04/eca-de-queiros-o-mandarim.html

—————————–
PRÓLOGO

1º AMIGO (bebendo conhaque e soda, debaixo de árvores, num terraço, à beira-d’água)

Camarada, por estes calores do Estio que embotam a ponta da sagacidade, repousemos do áspero estudo da Realidade humana… Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ruínas do Idealismo… Façamos fantasia!…

2º AMIGO

Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…
(COMÉDIA INÉDITA)

I

Eu chamo-me Teodoro – e fui amanuense do Ministério do Reino.

Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta, a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração do Bairro Central, esguio e amarelo como uma tocha de enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola francesa.

A minha existência era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas de lustrina à carteira da minha repartição, ia lançando, numa formosa letra cursiva, sobre o papel «Tojal» do Estado, estas frases fáceis: «Il.mo e Ex.mo Sr. – Tenho a honra de comunicar a V. Ex.a… Tenho a honra de passar às mãos de V. Ex.a, Il.mo e Ex.mo Sr…»

Aos domingos repousava: instalava-me então no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora, sobretudo no Verão, era deliciosa: pelas janelas meio cerradas penetrava o bafa da soalheira, algum repique distante dos sinos da Conceição Nova e o arrulhar das rolas na varanda; a monótona sussurração das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véu nupcial da Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicais; pouco a pouco o tenente, envolvido, num lençol como um ídolo no seu manto, ia adormecendo, sob a fricção mole das carinhosas mãos da D. Augusta; e ela, arrebitando o dedo mínimo branquinho e papudo, sulcava-lhe as repas lustrosas com o pentezinho dos bichos… Eu então, enternecido, dizia à deleitosa senhora:

– Ai D. Augusta, que anjo que é!

Ela ria; chamava-me enguiço! Eu sorria, sem me escandalizar. «Enguiço» era com efeito o nome que me davam na casa – por eu ser magro, entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter à cabeceira da cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores que pertencera à mamã, e corcovar. Infelizmente corcovo – do muito que verguei n espinhaço, na Universidade, recuando como uma pega assustada diante dos senhores lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó perante os meus directores-gerais. Esta atitude de resto convém ao bacharel; ela mantém a disciplina num Estado bem organizado; e a mim garantia-me a tranquilidade dos domingos, o uso de alguma roupa branca, e vinte mil réis mensais.

Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso – como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido Couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; – mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus. Oh! moços que vos dirigíeis vivamente a S. Carlos, atabafados em paletós caros onde alvejava a gravata de soirée! Oh! tipóias, apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros – quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil réis por mês e o meu jeito encolhido de enguiço, me excluíam para sempre dessas alegrias sociais, vinha-me então ferir o peito – como uma frecha que se crava num tronco, e fica muito tempo vibrando!

Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida humilde tem doçuras: é grato, numa manhã de sol alegre, com o guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o «Diário de Notícias»; pelas tardes de Verão, nos bancos gratuitos do Passeio, gozam-se suavidades de idílio; é saboroso à noite no Martinho, sorvendo aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a pátria… Depois, nunca fui excessivamente infeliz – porque não tenho imaginação: não me consumia, rondando e almejando em torno de paraísos fictícios, nascidos da minha própria alma desejosa como nuvens da evaporação de um lago; não suspirava, olhando as lúcidas estrelas, por um amor à Romeu ou por uma glória social à Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao tangível, ao que já fora alcançado por outros no meu bairro, ao que é acessível ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma table d’hôte mastiga a bucha de pão seco à espera que lhe chegue o prato rico da charlotte russe. As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional: – pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria.

No entanto procurava distrair-me. E como as circunvoluções do meu cérebro me não habilitavam a compor odes, à maneira de tantos outros ao meu lado que se desforravam assim do tédio da profissão; como o meu ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permitia um vício – tinha tomado o hábito discreto de comprar na Feira da Ladra antigos volumes desirmanados, e à noite, no meu quarto, repastava-me dessas leituras curiosas. Eram sempre obras de títulos ponderosos: «Galera da Inocência», «Espelho Milagroso», «Tristeza dos Mal-Deserdados»… O tipo venerando, o papel amarelado com picadas de traça, a grave encadernação freirática, a fitinha verde marcando a página – encantavam-me! Depois, aqueles dizeres ingénuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu ser, sensação comparável à paz penetrante de uma velha cerca de mosteiro, na quebrada de um vale, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr da água triste…

Uma noite, há anos, eu começara a ler, num desses in-fólios vetustos, um capítulo intitulado «Brecha das Almas»; e ia caindo numa sonolência grata, quando este período singular se me destacou do tom neutro e apagado da página, com o relevo de uma medalha de ouro nova brilhando sobre um tapete escuro: copio textualmente:

«No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

Estaquei, assombrado, diante da página aberta: aquela interrogação «homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me faceta, picaresca, e todavia perturbava-me prodigiosamente. Quis ler mais; mas as linhas fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, de uma lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpelação estranha – «tocarás tu a campainha?»

Se o volume fosse de uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarela, eu, que por fim não me achava perdido numa floresta de balada alemã, e podia da minha sacada ver branquejar à luz do gás o correame da patrulha – teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a alucinação nervosa. Mas aquele sombrio in-fólio parecia exalar magia; cada letra afectava a inquietadora configuração desses sinais da velha cabala, que encerram um atributo fatídico; as vírgulas tinham o retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos numa alvura de luar; no ponto de interrogação final eu via o pavoroso gancho com que o Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na inviolável cidadela da Oração!… Uma influência sobrenatural apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fora da realidade, do raciocínio: e no meu espírito foram-se formando duas visões – de um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, num quiosque chinês, a um ti-li-tim de campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando aos meus pés! Isto era tão nítido, que eu via os olhos oblíquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos de uma ténue camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E imóvel, arrepiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um dicionário francês – a campainha prevista, citada no mirífico in-fólio…

Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metálica me disse, no silêncio:

– Vamos, Teodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um forte!

O abat-jour verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe média como se viesse da minha repartição…

Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e duras; o nariz brusco, de um aquilino formidável, apresentava a expressão rapace e atacante de um bico de águia; o corte dos lábios, muito firme, fazia-lhe como uma boca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam dois clarões de tiro, partindo subitamente de entre as sarças tenebrosas das sobrancelhas unidas; era lívido – mas, aqui e além na pele, corriam-lhe raiações sanguíneas como num velho mármore fenício.

Veio-me à ideia de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo o meu raciocínio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu nunca acreditei no Diabo – como nunca acreditei em Deus. Jamais o disse alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes públicos, encarregados de manter o respeito por tais entidades: mas que existam estes dois personagens, velhos como a Substância, rivais bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amáveis, – um de barbas nevadas e túnica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos luminosos, entre uma corte mais complicada que a de Luís XIV; e o outro enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chamas inferiores, numa imitação burguesa do pitoresco Plutão – não acredito. Não, não acredito! Céu e Inferno são concepções sociais para uso da plebe – e eu pertenço à classe média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das Dores: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil réis, implorei a benevolência do senhor deputado; igualmente para me subtrair à tísica, à angina, à navalha de ponta, à febre que vem da sarjeta, à casca da laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males públicos, necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapapé ou pelo incensador, o homem prudente deve ir fazendo assim uma série de sábias adulações, desde a Arcada até ao Paraíso. Com um compadre no bairro, e uma comadre mística nas alturas – o destino do bacharel está seguro.

Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao indivíduo vestido de negro:

– Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

Ele ergueu um pouco o chapéu, descobrindo a fronte estreita, enfeitada de uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e respondeu, palavra a palavra: – Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: há vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin, de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar seu pai… Fabricam-se em Paris e em Londres carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferível percorrer nelas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses, pelos céus, sobre os fofos coxins das nuvens… Não farei à sua instrução a ofensa de o informar que se mobilam hoje casas, de um estilo e de um conforto, que são elas que realizam superiormente esse regalo fictício, chamado outrora a «bem-aventurança». Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais… Só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres – diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje, Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos… Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para os cinco dedos de um cristão, em percorrer, palpar estas maravilhas macias; – mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins… Mas elas possuem melhor, Teodoro: são os cabelos cor do ouro ou cor da treva, tendo assim nas suas tranças a aparência emblemática das duas grandes tentações humanas – a fome do metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda têm mais: são os braços cor de mármore, de uma frescura de lírio orvalhado; são os seios, sobre os quais o grande Praxíteles modelou a sua Taça, que é a linha mais pura e mais ideal da Antiguidade… Os seios, outrora (na ideia desse ingénuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram destinados à nutrição augusta da humanidade; sossegue porém, Teodoro; hoje nenhuma mamã racional os expõe a essa função deterioradora e severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gás das soirées, – e para outros usos secretos. As conveniências impedem-me de prosseguir nesta exposição radiosa das belezas que constituem o fatal feminino… De resto as suas pupilas já rebrilham… Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês… Confesse, ao menos, que estas palavras têm o venerável selo da verdade!…
————

continua…

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Clevane Pessoa (Mensagem)

Fonte:

A Autora

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Manoel Santos Neto (Universo Poético da Cidade de São Luís do Maranhão IV)

Numa terra de ruas estreitas e becos sinuosos, duas praças de São Luís – a João Lisboa (velho Largo do Carmo) e a Deodoro (antigo Largo do Quartel) – mais que quaisquer outros espaços públicos da cidade ganharam uma extraordinária importância histórica.

Por uma série de fatores, cresceu e se desenvolveu em torno delas a atividade artística da capital, do século XIX até os dias de hoje. As duas viraram pontos de referência para a compreensão do espírito de São Luís. A João Lisboa é tida como o coração da cidade, que se celebrizou com um notável lastro de história, desde remotos relatos como os de Claude d‘Abbeville e Ribeiro do Amaral. Esta praça também ficou famosa por ter sido, durante muito tempo, o largo antigo onde grupos de pessoas se reuniam todas as tardes para comentar a vida da cidade. Era lá também que os intelectuais costumavam se encontrar à noite para discutir arte, literatura e política.

O escritor Domingos Vieira Filho (1924-1981) recorda com nostalgia, no livro Breve História das Ruas de São Luís, que a Praça João Lisboa, “povoada de sombra espessa, dadivosa, fresca, aprazível, com bancos terminando os encostos laterais em cabeças de carneiros modeladas em cimento e gesso, era o coração, a alma, o centro nervoso da cidade, onde funcionava um poderoso mecanismo de censura social, cadinho maravilhoso e infalível.”

A História conta que foi no Largo do Carmo que se travou, em 1643, o memorável combate entre os holandeses invasores comandados por Anderson e a tropa do português Antônio Teixeira de Melo. O Convento do Carmo, que pertencia à Ordem dos Carmelitas e depois passou para o controle da Ordem dos Capuchinhos, serviu de abrigo para portugueses durante a expulsão dos holandeses.

Com escadaria em pedra de cantaria, o Convento do Carmo data de 1627 e foi construído graças à doação de terras feita por Alexandre de Moura aos frades carmelitas, que chegaram em São Luís em 1615.

No pavimento térreo do Convento do Carmo, funcionou o Liceu Maranhense, criado em 1838, no governo do presidente Vicente Tomás Pires de Figueiredo Camargo, cujo primeiro diretor foi Francisco Sotero dos Reis (1800-1871). Juntamente com a Igreja do Carmo, o Convento é considerado um dos mais perfeitos conjuntos arquitetônicos da época colonial em São Luís. Administrado desde 1894 pelos padres capuchinhos e – vale lembrar – este Convento também foi a primeira sede da Biblioteca Pública Benedito Leite, inaugurada no início de maio de 1831.

No interior do Convento, encontram-se sepultados vários bispos e padres que ali serviram e atualmente avulta, em frente à Igreja do Carmo, o busto do Frei Carlos Roveda de S. Martino Olearo (1852-1931), fundador da Missão Capuchinha no Norte e Nordeste do Brasil.

O Largo do Carmo dá acesso ao Beco da Pacotilha – ou Beco do Quebra-Bunda – por ter sido instalado lá, por algum tempo, o grande jornal A Pacotilha, de Vitor Lobato, em um prédio de azulejos verdes que ainda existe até hoje e era propriedade do Barão de Coroatá. Além do prédio da velha Pacotilha, lá havia uma coluna de mármore que dominava a praça, quase em frente ao Convento do Carmo: era alta, elegante, de base retangular, subindo para o capitel em feixes espiralados. Esta coluna de mármore era o Pelourinho de São Luís, erguido para o castigo público dos negros cativos.

Segundo César Marques (1826-1900), o famoso dicionarista da História do Maranhão, este pelourinho – célebre instrumento utilizado pelos feitores para castigar pretos que se rebelavam – foi inaugurado no dia 30 de setembro de 1815, quando dois escravos foram surrados, mesmo depois de já terem sido vergalhados na cela da Cadeia Pública, porque ainda traziam no dorso e nos braços as marcas de lapadas recentes.

De acordo com César Marques, os escravos eram amarrados à coluna, de bunda de fora, para serem açoitados, (daí o nome Beco do Quebra-Bunda), configurando uma cena pungente em pleno Largo do Carmo, defronte da Rua da Paz, no Centro Histórico de São Luís. Lá avultava a espiral de mármore do pelourinho, que fora destruído vandalicamente pelo povo, por ocasião da Proclamação da República, em novembro de 1889.

O escritor Dunshee de Abranches (1867-1941), cronista da velha cidade, com as ruas em ladeira, os mirantes de azulejos, os telhados escuros, as grades de ferro das sacadas, os lampiões nas esquinas, recorda, no seu prestimoso livro de memórias, de imagens marcantes como a de negros presos ao pelourinho, de mãos e pés atados.

No livro Panteon Maranhense, Antônio Henriques Leal (1828-1885) revela que Odorico Mendes (1799-1864), ao escrever o seu primeiro soneto, inspirou-se no supliciamento de um negro no pelourinho do Largo do Carmo. A sensibilidade do menino de 13 anos foi profundamente ferida pelo espetáculo deprimente e seu estro vibrou num soneto que Leal considera formidável:
Despido em praça pública, amarrado,
Jaz o mísero escravo delinqüente:
Negro gigante de ânimo inclemente
Na mão tem o azorrague levantado.

A rir em torno, um bando encarniçado
Ao verdugo promete um bom presente,
Se com braço mais duro ao padecente
Rasgando for o corpo ensangüentado.

Homens, não vos assiste a menor pena
Dos sentidos seus ais, d´angústia sua?
Rides, perversos, desta horrível cena! …

A sua obrigação, oh gente crua,
Faz o reto juiz quando condena;
Tu, deplorando o réu, cumpres a tua.

Foi através da Resolução nº 14, de 28 de julho de 1901, que o histórico Largo do Carmo passou a ser denominado Praça João Lisboa, em homenagem à memória do grande mestre do jornalismo do Maranhão. O escritor Domingos Vieira Filho conta que, no antigo largo, João Francisco Lisboa (1812-1863) residiu por muitos anos. “Da janela de seu sobrado viu desfilar muitas vezes a vida da cidade. Há de se ter inspirado no velho logradouro para recompor com ânimo isento e exatidão documental lances heróicos da história maranhense aí vividos em mais de uma ocasião.”

O escritor Viriato Correia (1884-1967) foi quem fez, como deputado estadual, o projeto de lei mandando erigir uma estátua ao ilustre maranhense que, além de jornalista, foi crítico, historiador, orador e político. A Lei estadual nº 582, de 24 de abril de 1911, autorizou o governo a abrir os créditos necessários ao levantamento da estátua, inaugurada solenemente no dia 1º de janeiro de 1918, com discursos proferidos pelo professor Ribeiro do Amaral, pelo intendente Clodomir Cardoso, pelos acadêmicos Alfredo de Assis e Domingos Barbosa e pelo cônsul Fran Paxeco.

João Lisboa, maranhense nascido em Pirapemas, no dia 22 de março de 1812, é o patrono da Cadeira nº 18 da Academia Brasileira de Letras. Autodidata, foi caixeiro, jornalista, deputado provincial (1848) e historiador. Representa, ao lado de Varnhagen e de Joaquim Caetano da Silva, o tripé da reforma da historiografia brasileira.

Todos os estudos biográficos sobre João Lisboa, cognominado o Timon Maranhense, se baseiam nos dados publicados por seu contemporâneo e amigo íntimo Antônio Henriques Leal na Notícia acerca da vida e obras de João Francisco Lisboa, que precede as suas Obras (quatro volumes) impressas no Maranhão em 1864-1865. A biografia de João Lisboa, ampliada, foi reproduzida no tomo 4º do Pantheon Maranhense, editado em 1857 pela Imprensa Nacional de Lisboa.

Em 1977 saiu o livro João Francisco Lisboa Jornalista e historiador, de Maria de Lourdes Menaço Janotti, e em 1986 o primeiro volume da nova fase da Coleção Afrânio Peixoto, da Academia Brasileira de Letras, João Francisco Lisboa O Timon Maranhense, de Arnaldo Niskier, duas obras de pesquisa em torno da figura e dos escritos do publicista maranhense, que faleceu em Lisboa, Portugal, aos 51 anos de idade, no dia 26 de abril de 1863.

Um ano depois de sua morte, seu amigo Antônio Henriques Leal editou suas Obras Completas (São Luís, 1864-1865, 4 volumes) nelas incluindo a Vida do Padre Antônio Vieira, obra póstuma. Como escreveu Capistrano de Abreu, João Francisco Lisboa foi um dos mais vigorosos espíritos do Brasil e com razão o Maranhão se orgulha de ser sua pátria.
–––––––––-
Continua…

Fonte:
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Edição 118. 20 de janeiro de 2006

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Simões Lopes Neto (A Casa de Mbororé)

Dentro do mato grosso, mato velho e crescido, sem plantas pequenas dentro, aí, só há uma luz pouca, tirante a verde e a cinzento; e nenhuma árvore faz sombra, porque a ramaria de todas faz peneira por onde passa o sol, que nunca enxerga o chão…

Dentro desse mato, no mais tupido dele, há uma lombada redonda, como uma casca de
carumbé; aí, em cima dela, há uma casa de pedra branca, branca como se encaliçada, e sem porta em nenhum lado nem janela em nenhuma altura.

Dentro da casa branca as salas são lastradas de barras de ouro e barras de prata, do peso que é preciso dois homens para mover cada uma; e todas as juntas das pilhas estão tomadas de pedras finas…

Por cima de tudo estão, em montes, tocheiros de ouro maciço e cálices e resplendores de
santos; e salvas de prata e turíbulos e cajados.

Nos corredores, como prontos para içar para as cangalhas das mulas de carga, prontos,
com as suas alças, estão lotes de surrões, socados de moedas de ouro, separadas em porções, metidas em bexigas de rês…

O rondador da casa branca dia e noite anda em redor dela; é um índio velho, cacique que
foi, Mbororé, de nome, amigo dos santos padras das Sete Missões da serra que dá vertente para o Uruguai.

Os padres foram tocados para longe, levando só a roupa do corpo… mas a casa branca já
estava feita, sem portas nem janelas… e Mbororé, que sabia tudo e era cacique, de noite, e precatado, com os seus guerreiros, carregou de todos os lugares para aquele as arrobas amarelas e as arrobas brancas, que não valiam a caça e a fruta do mato e a água fresca, e pelas quais os brancos de longe matavam os nascidos aqui, e matavam-se uns aos outros.

Mbororé desprezava essas arrobas; mas como era amigo dos santos padres das Sete Missões, guardou tudo e espera por eles, rondando a casa branca, sem portas nem janelas.

Ronda e espera…

Fonte:
Simões Lopes Neto, Contos Gauchescos & Lerndas do Sul. Porto Alegre/RS: L&PM Pocket, 2012.

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Simões Lopes Neto (Lendas do Sul)

Lendas do Sul, é o terceiro livro do autor regionalista João Simões Lopes Neto, e foi publicado em 1913. Reúne 17 lendas recolhidas por Simões Lopes Neto, que, não se contentando com o registro puro e simples, deu-lhes forma de verdadeiras obras-primas do conto gaúcho, principalmente pensando no “Lunar do Sepé” (1902), “O negrinho do pastoreio” (1906), “Mboitatá” (1909) e “Salamanca do Jarau” (1913).

Estas são apenas algumas das lendas do Rio Grande do Sul que o livro narra. Lendas que outrora foram passadas de boca a boca, principalmente na região interiorana. Um dos contos apresentados, “A Salamanca do Jarau” inspirou Érico Veríssimo a escrever algumas partes de sua grande obra, O Tempo e o Vento.

A compilação de lendas efetuada pelo escritor foi de grande inspiração para os futuros escritores brasileiros do modernismo, mais especificamente do romance de 30, por se tratar da mais pura representação do homem brasileiro. Nas histórias, nada do homem é ignorado: sua linguagem seus hábitos e até reflexos do ambiente que o rodeia são descritos com uma linguagem despojada, porém de difícil compreensão para aqueles que não estão habituados ao vocabulário gaúcho. Por se encontrar em uma linha limite entre o realismo e o modernismo propriamente dito, as obras de João Simões Lopes Neto são agrupadas no perfil literário do pré-modernismo.

A obra Lendas do Sul apresenta, entre outras, e já citado, três das principais lendas de nossa cultura: “A Mboitatá”, “O Negrinho do Pastoreio” e “A Salamanca do Jarau”. Nas duas primeiras, temos o personagem Blau Nunes, típico crioulo, como narrador; já na terceira, temos o mesmo personagem como protagonista da história.

A lenda “O lunar de Sepé”, ouvida pelo autor através de “uma velhíssima mestiça – Maria Genória Alves – moradora na picada que atravessa o rio Camaquã, entre os municípios de Canguçu e Encruzilhada”, narra em versos as contendas guaraníticas das reduções das Missões, causadas pela assinatura do Tratado de Madri, em 1750, em que Portugal recebeu de Espanha essas possessões em troca da devolução da Colônia do Sacramento.

É sabido o quanto foi significativa a organização dos Sete Povos das Missões (São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Francisco Borja, São Luís Gonzaga, São João Batista, São Lourenço Martir e Santo Ângelo Custódio), comunidades com organização democrática socializante, em que todos produziam para o grupo, no qual a participação nas decisões era completamente ativa, sistema em que se desenvolveu um clima favorável à intensa produção cultural, principalmente na Arquitetura e na Música. Não foi de se estranhar que os índios e missionários lutassem para preservar as reduções. Sepé Tiaraju, corruptela de José, sábio para os charruas, ou chefe, da mesma etimologia de eçapé, que significa ‘ver caminho’, ‘alumiar’, era realmente um iluminado, marcado por um lunar na testa, insígnia de sua coragem para defender seu povo e suas conquistas.

Observem-se alguns versos da composição:

Do sangue dum grão-Cacique
Nasceu um dia um menino,
Trazendo um lunar na testa,
Que era bem pequenino:
Mas era um-cruzeiro-feito
Como um emblema divino
[…]
Diferente em noite escura
Pelo lunar do seu rosto,
Que se tornava visível
apenas o sol era posto;
assim era-Tiaraiú-,

Chamado -Sepé,-por gosto. (LS, p. 103)

Na relação dos povos guaraníticos com a coroa de Castela e Portugal ficou alegorizada a exploração e opressão dos desvalidos que não podiam compreender o que não fazia parte de seu código ético de valores e talvez ainda a violência que representaram para os povos mais primitivos, os interesses dos civilizados. Observe:

E, de Castela, tampouco
Esperava tal furor;
Pois sendo seu soberano,
respeitava seu senhor;
Já lhe dera ouro e sangue,
E primazia e honor!

E Sepé Tiarajú foi vencido pelos poderosos e com ele todo o povo das Missões. Note:

Mas, o lunar de Sepé
era o rastro procurado
Pelos vassalos dos reis,
Que o haviam condenado…
ficando o povo, vencido…..
E seu haver…conquistado!
(LS, p.106)

Outra lenda, “O negrinho do pastoreio”, é considerada a mais genuinamente sul-riograndense, pois pontua o linguajar e ambiente típicos do gaúcho do interior do Rio Grande do Sul. Muito lida e contada, esta lenda reconstrói a trajetória do Negrinho a quem “não deram padrinho nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não tem.” Talvez a lenda tenha sua popularidade embasada no quanto chocante é uma alegoria dos maus tratos aos escravos num Estado onde a escravidão não foi enfática nem agressiva. Fala de um tempo em que as estâncias, como símbolo da propriedade privada, começavam a surgir, e do fazendeiro como um mau caráter, contraponto da heroicidade mitificadora com que o campeiro gaúcho era sempre configurado, na qual a generosidade e hospitalidade eram fundamentais. Observe-se um fragmento do texto:

Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era seu próprio couro que ele estava lonqueando […] (LS, p.79)

Um negrinho sem nome era empregado desse estancieiro que, irritado por perder uma carreira de cavalos em que esse era o ginete do baio, maltratou-o seguidas vezes obrigando-o a cuidar de tropilhas de animais que fogiam, ou porque ele se distraia dormindo, ou porque o filho do patrão, tão maleva como o pai, soltava os animais deixando-os fugir. O estigma de perder o gado passou a acompanhar o negrinho que de tantos maus tratos do estancieiro acabou morrendo jogado num formigueiro. E, como narra a lenda “nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno [..].” (LS, p.85), enfatizando-se o pouco valor dos bens materiais tão estimados pelo fazendeiro.

Ao final da narrativa, o negrinho ressucita, salvo por Nossa Senhora, sua madrinha, e passou a ser considerado como aquele que tem o poder de achar perdidos. Veja: “daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela , cuja luz ele levava para pagar a do altar …da Virgem, …que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém vêr”. (LS, p.86). Então, “quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo – Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi!… Se ele não achar… ninguém mais”. (LS, p.87)

Ainda uma outra lenda, “Mboitatá” é uma lenda guarani que, para explicar as fantasias criadas pela aparição dos fogos-fátuos no campo, produzidos pela fosforescência de restos de ossadas, conta a história de uma interminável noite em que houve uma enchente tão grande que alagando a cova da cobra boiguaçu fê-la sair para fora e comer todos os olhos dos animais e homens mortos transformando-se numa serpente luminosa. Observe:

E vai,
como a boiguaçu não tinha pelos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta, vai, o seu corpo foi ficando transparente, transparente, clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçu toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos.
(LS, p.28)

E é interessante que os olhos comidos são metonímicas representações da essência de cada ser. Daí, sua potencialidade virtual de alimentar a cobra. Veja:

Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.
A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dão nos olhos a cor dos seus arrancos. O homem de olhos limpos é guapo e mão- aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado com os amarelos; e, toma tenência doble com os raiados baços!
[…] (LS, p. 227)

E o narrador explica porque a cobra, assim mesmo, cheia de olhos, morreu ao cabo de um tempo: “[…] a boitatá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos [...]” (LS, p.29)

É procedimento habitual em Simões Lopes Neto a universalização de um tema regional dando-lhe caráter de alegoria filosófica. Nota-se que, nessa lenda, se discute a essência do ser e sua impossibilidade de transferência e apropriação.

Isso se repete, na mais significativa lenda desse grupo, “A salamanca do Jarau,” introduzida pelas palavras que explicitam sua origem: “Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrua contava à minha mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros, que esses viram![…]“ (LS, p.29)

Aqui, se conta um fato ocorrido com Blau Nunes, o gaúcho campeiro contador de causos, antigo furriel da Revolução farroupilha, que é o narrador revivido de Contos gauchecos, outra obra de Simões Lopes Neto. O personagem vive um momento de crise e sem sorte, pois, sendo pobre, ainda perdeu a força, a coragem e o poder de cultivar. Chamado à aventura, saiu à procura do boi barroso, elemento mágico capaz de lhe trazer felicidade. Essa busca tem as características de uma viagem mítica que alegorizou também as inquirições do homem sobre o sentido de sua existência. Observe a lenda:

Era um dia…
um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.
E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas, para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as carquejas-a carqueja é sinal de campo bom-, por isso o campeiro às vezes alçava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a vista em torno; mas o boi barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia campeando, campeando
[…] (LS, p.35)

Blau Nunes, campeiro de cepa, vivia um momento de crise, pois gaúcho valente que era dantes, ainda era valente, agora; mas quando cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrário o lanhava…

Domador destorcido e parador, que só por pabulagem gostava de paletear, ainda era domador, agora; mas quando gineteava mais folheiro, às vezes, num redepente, era volteado…

De mão feliz para plantar, que não lhe chochava semente nem muda de raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava a praga em toda, tanta, que benzedura não vencia…; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e azeda…

E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau de nome, ia ao tranquito, campeando, sem topar coo boi barroso. (LS, p.37)

Na sua viagem de busca, encontrou a Caverna do Jarau, daí, o título da lenda, onde ficou sabendo da história de um sacristão encantado e perdido por uma salamanca, lagartixa mágica, a Teiniaguá, que o seduziu metamorfoseada numa princesa lindíssima e o prendeu para sempre. Entrou, então, nesse espaço mágico, onde passou por sete provas que enfrentou: as espadas, os jaguanés e pumas, ossamentas de criaturas, as línguas de fogo, a boicininga, as lindas mulheres, os anões cabeçudos. Chegou então à presença da encantada que lhe falou oferecendo prêmios, representados pela sorte, poder de sedução, sabedoria, coragem, autoridade, riqueza e sensibilidade artística, mas o campeiro se deu conta que ele queria muito mais. Disse o narrador:

Blau nem se moveu; e, carpindo dentro de si a própria rudeza, pensou no que queria dizer e não podia e que era assim:
– Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo! …És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim…Eu te queria a ti, teiniaguá encantada! […] (LS, p.63)

Observa-se que, mais uma vez, o reaproveitamento da lenda assumiu dimensões alegóricas de reflexão sobre o sentido da existência e a miséria humana diante da inexorabilidade de alcance do absoluto.

Continuando a narrativa, Blau resolveu então voltar ao mundo real levando uma moeda mágica que quanto mais pagava suas compras mais se multiplicava. No entanto, quem era pago por ele perdia em seguida a mesma quantia em algum novo negócio. E assim, todos começaram a olhar desconfiados para ele que foi, pouco a pouco, enriquecendo mas perdendo os amigos e ficando muito rico, mas infeliz.

Desatinado, Blau voltou para a caverna, devolveu a moeda e retornou para casa de posse de uma grande descoberta: a importância da amizade e da paz de viver. Veja-se as últimas palavras que dão fechamento à lenda: “E agora estava certo de que era pobre como dantes, porém que comeria em paz o seu churrasco…; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida! “ (LS, p.63)

Simões Lopes Neto não imaginaria o quanto sua mão poderia abrir perspectivas de interpretação amplas para o leitor que, a partir de um universo configurado regionalmente, pode alçar-se ao universal.

Fonte:
Lisana Bertussi, Professora do Departamento de Letras e do Mestrado em Letras e Cultura Regional da Universidade de Caxias do Sul, Doutora e Pós-Doutorada em Letras.
Disponível em http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/l/lendas_do_sul

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J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou") Parte 11

Barreto Filho (“Barretinho”)
José Barreto Filho
Aracaju/SE, 27 janeiro 1908 – 17 dezembro 1983)
sobrinho do poeta Tobias Barreto.

” SONETO “

Ama na vida tudo o que puderes:
a garça, o mar, o cisne de alva pluma…
Vive do amor de todas as mulheres
que hás de morrer do fero amor de alguma.

Perdoa sempre… Esfolha de uma em uma
as pétalas fatais dos malmequeres,
deixando, assim, que a vida se resuma
no brilho do destino que tiveres.

A vida é um galho cujos dons se almejam,
árvore boa que eu, cantando, exalto,
coroada de frutos e de ninhos.

Recolhe os frutos que mais perto estejam.
Para alcançares o que vês mais alto,
hás de ferir a mão pelos espinhos.
==================
Bastos Portela
[Gentil Bastos Portela]
(Recife/PE, 1894 – ?)

” JÓIA FALSA “

Amor…Mas, ora o amor! O amor, na vida,
não é, de certo, esta perfídia…Não!
– Primeiro, uma palavra enternecida;
depois, um beijo: após, uma traição…

…Não te digas, porém, arrependida,
nem me prometas mais o teu perdão!
Pois se foste, por vezes, iludida,
também me envenenaste o coração…

Não houve afeto entre nós dois… Havia
um doce enlevo, uma ilusão de amor,
– e um pouco de maldade e de ironia…

Enganei-me. Inda bem que o reconheço…
– És uma simples jóia sem valor,
e eu te comprei pelo mais alto preço!
===============
Bastos Tigre
[Manuel Bastos Tigre]
(Recife/PE, 12 março 1882 – Rio de Janeiro, 2 agosto 1957)

” IMUTÁBILIS AMOR “

Amor é sempre amor por mais que viva.
Será maior, menor, mas sempre amor;
não muda a sua essência primitiva,
embora mude a forma ou mude a côr.

Se nas reações da química afetiva
pode haver mais calor, menos calor,
de nada nem se acresce nem se priva
a incorpórea molécula do amor.

Não muda o que era amor para amizade;
– porque apresente a prata áureo fulgor
vai que, de ouro, ela seja variedade ?

Fanada a flor, é sempre a mesma flor,
murche de velho, em lama se degrade,
se avilte em sangue… amor é sempre amor!

” DEFINIÇÃO “

Amor é mal, é mal que não tem cura;
mas, sendo mal, sofre-lo nos faz bem . . .
Chora o amante, se o amor lhe dá ventura,
e ri da dor, se dele a dor lhe vem.

O amor é vida e leva a sepultura;
é doce filtro, o amor, e fel contém.
É luz, mas, entretanto, em noite escura
vive, às cegas, o alguém que ama outro alguém.

O amor é cego, e vê todo o invisível;
sendo imutável, quase sempre é vário,
é deus, e faz de um Santo um pecador !

Fraco a indefeso, é força irresistível;
sendo, pois, a si próprio tão contrário,
quem é que pode definir o amor?
=============
Beatrix dos Reis Carvalho
(Rio de Janeiro/GB)
sem dados biográficos.

” CONTRIÇÃO “

Meu Deus, eu sei. Eu sei, não merecia
esse bem que me das em profusão.
Sofrer é justo como a luz do dia,
mas ser feliz é prêmio, é galardão!

Quase me acostumara à tirania
da vida que castiga sem razão.
E, para mim, o amor como eu queria
era uma estrela, longe, na amplidão;

nao devia existir e, se existisse,
querê-la era loucura, era tolice,
que as estrelas não vem a nossa mão. . .

Meu Deus! Puseste a estrela em meu caminho!
Por esse amor que é todo o meu carinho,
perdão se duvidei, perdão, perdão!
===============
Belmiro Braga
[Belmiro Belarmino de Barros Braga]
(Vargem Grande/MG, 7 janeiro 1872 – Juiz de Fora/MG, 31 março 1937)

” DESPEDIDA “

E partes amanhã! . . . E, triste, eu penso
no que há de ser de mim, meu doce encanto . . .
E sinto os olhos úmidos de pranto
e na alma a angústia de um pesar imenso . . .

Eu tenho agora o coração suspenso,
nos lábios a mudez, no olhar o espanto:
– feiticeira, puseste-me quebranto,
tu és dona de mim, eu te pertenço. . .

E partes amanhã, meu bem querido,
sem que eu possa, ditoso e comovido,
beijar a tua fronte e os olhos teus. . .

Sem que eu possa, feliz, numa ânsia louca,
com meus lábios gravar na tua boca
as cinco letras da palavra – Adeus! . . .

” DE DUAS, UMA ! “

Eu por uma mulher pensando vivo,
por mim outra mulher vive pensando;
aquela de mim sempre se esquivando,
esta sempre a buscar-me, e eu sempre esquivo…

E o amor, contraditório e miserando,
de eu morrer e matar, sendo o motivo,
nem desta pelo amor me faz cativo,
nem daquela me torna o amor mais brando.

Se devo por fim ao meu desgosto,
que me importa que o mundo ande composto
de bem-me-queres e de mal-me-queres? . . .

É necessário, pois, que o Amor me acuda:
– de duas, uma! O coração me muda,
ou muda os corações dessas mulheres!
Fonte:
– J.G . de Araujo Jorge . “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”. 1a ed. 1963

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Mitos e Lendas (O Macaco e a Cutia)

Contam que uma vez, a cutia deu uma festa em sua casa e convidou todos os animais seus amigos. O macaco também foi. Quando chegou lá a cutia, de sabida, deu-lhe uma viola e disse-lhe que tocasse. E o macaco foi tocando enquanto os outros dançavam.

A cutia entrou na dança, muito assanhada e, quando girava com muita força, bateu com o rabo na parede e partiu-o. Então todos os animais que tinham rabo ficaram com medo e pararam de dançar.

Foi então que o preá disse:

— Ora! Vocês estão com medo de dançar! Toque aí, macaco! Vão ver como é que se dança.

O macaco meio desconfiado, trepou num tamborete e continuou a tocar para o preá dançar. Este, muito animado deu umas voltas pela sala e depois, foi dar uma umbigada no mestre macaco, que não teve jeito senão entrar na dança das cutias e dos outros bichos. Aí é que foi. Todos lhe pisavam o rabo até que meio zangado, o macaco parou de dançar e gritou:

— Não danço mais! Isso é um desaforo! O compadre preá, o compadre sapo e outros compadres, só porque não têm rabo, pensam que podem pisar no rabo dos outros! Chega!

E pulou para cima da janela, onde continuou tocando sem ser mais incomodado.
Fonte:
Colhido por Jerônimo B. Monteiro e publicado em sua coluna Lendas, mitos e crendices
Jangada Brasil. Setembro 2010 – Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário

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Clássicos do Cancioneiro Popular (O Boi Surubim)

Estátua do Boi Surubim na cidade de Surubim
O boi Surubim
Nasceu um bezerro macho
No curral da Independência,
Filho de uma vaca mansa
Por nome de Paciência.
Quando Surubim nasceu
Daí a um mês se ferrou
Na porteira do curral
Cinco touros enxotou.

Na porteira do curral
Onde Surubim cavou
Ficou um barreiro tal
Que nunca mais se aterrou.

Na praça da cacimba
Onde o Surubim pisou
Ficou a terra acanhada,
Nunca mais capim criou.

Um relho de duas braças,
Que o Surubim amarrou,
Botou-se numa balança,
Duas arrobas pesou.

Fui passando num sobrado,
Uma moça me chamou:
— Quer vender o Surubim?
Um conto de réis eu dou.

“Guarde seu dinheiro, dona,
O Surubim não vendo não.
— Dou um barco de fazenda,
De chita e madapolão.

“Este é o meu boi Surubim
É um corredor de fama,
Tanto ele corre no duro,
Como nas vargens da lama.

Corre dentro, corre fora,
Corre dentro da caatinga;
Corre quatro, cincos léguas
Com o suor nunca pinga.

Quando Surubim morreu,
Silveira pôs-se a chorar:
Boi bonito como este
No sertão não nascerá:
Eu chamava ele vinha:
— O-lé, o-lô, olá…

Fonte:
Jangada Brasil
Setembro 2010 – Ano XII – nº 140
Edição Especial de Aniversário

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Izabel Santa Cruz Fontes (Perdão)

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo à minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.

Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África… você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.

Ao perceber que ainda somos nós — você, puro orgulho, eu, pura implicância — dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.

Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.
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Izabel Santa Cruz Fontes (1987) é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Diz fazer da escrita uma forma de “existir um pouco mais no mundo.”

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Soares de Passos (Infância e Morte)

«Ó mãe, o que fazes? em cama tão fria

«Não durmas a noite… saiamos daqui…
«Acorda! não ouves a pobre Maria,
«Pequena, sozinha, chorando por ti?

«Porque é que fugiste da nossa morada,
«Que alveja saudosa no monte dalém?
«Depois que tu dormes na terra gelada,
«Quão só ficou tudo, mal sabes, ó mãe.

«A nossa janela não mais foi aberta,
«O fogo apagou-se na cinza do lar,
«As pombas são tristes, a casa deserta,
«E as flores da Virgem se vão a murchar.

«Oh! vamos, não tardes… mas tu não respondes…
«Em vão todo o dia meu pranto correu;
«No fundo da cova teu rosto me escondes,
«Não ouves, não falas… que mal te fiz eu?

«Escuta! na torre de frestas sombrias
«O sino da ermida começa a tocar…
«Acorda! que o toque das Avé-Marias
«À imagem da Virgem nos manda rezar.

«A lâmpada exausta de Nossa Senhora
«Ficou apagada, precisa de luz:
«Oh! vem acendê-la, e à Mãe que se adora
«Ali rezaremos, e ao Filho na cruz.

«Depois à costura, sentada a meu lado,
«Tu hás-de contar-me, bem junto de mim,
«Aquelas histórias dum rei encantado,
«De fadas e mouras, dalgum querubim.

«A d’ontem foi triste, pois triste falavas
«De vida e de morte, dum mundo melhor;
«E o rosto cobrias, e muda choravas,
«Lançando teus braços de mim ao redor.

«Depois em silêncio teus olhos fechaste,
«Tão pálida e fria qual nunca te vi;
«Chamei-te era dia, mas não acordaste,
«E enquanto dormias trouxeram-te aqui.

«Oh! vamos, não tardes, que as noites sombrias.
«Sem ti a meu lado, me causam pavor!
«Acorda! que o toque das Avé-Marias
«Nos diz que rezemos à Mãe do Senhor.»

Tais eram as queixas da pobre Maria…
O sino da ermida cessou de tocar…
E a mãe entretanto dormia, dormia;
Do sono da morte não pôde acordar.

Três dias, três noites a filha sozinha
No adro da igreja por ela chamou…
Ao fim do terceiro já forças não tinha;
Da mãe sobre a campa, gemendo, expirou.

Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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João Anzanello Carrascoza (Uma Lição Inesperada)

No último dia de férias, Lilico nem dormiu direito. Não via a hora de voltar à escola e rever os amigos. Acordou feliz da vida, tomou o café da manhã às pressas, pegou sua mochila e foi ao encontro deles. Abraçou-os à entrada da escola, mostrou o relógio que ganhara de Natal, contou sobre sua viagem ao litoral. Depois ouviu as histórias dos amigos e divertiu-se com eles, o coração latejando de alegria. Aos poucos, foi matando a saudade das descobertas que fazia ali, das meninas ruidosas, do azul e branco dos uniformes, daquele burburinho à beira do portão.

Sentia-se como um peixe de volta ao mar. Mas, quando o sino anunciou o início das aulas, Lilico descobriu que caíra numa classe onde não havia nenhum de seus amigos. Encontrou lá só gente estranha, que o observava dos pés à cabeça, em silêncio. Viu-se perdido e o sorriso que iluminava seu rosto se apagou. Antes de começar, a professora pediu que cada aluno se apresentasse.

Aborrecido, Lilico estudava seus novos companheiros. Tinha um japonês de cabelos espetados com jeito de nerd. Uma garota de olhos azuis, vinda do Sul, pareceu-lhe fria e arrogante. Um menino alto, que quase bateu no teto quando se ergueu, dava toda a pinta de ser um bobo. E a menina que morava no sítio? A coitada comia palavras, olhava-os assustada, igual um bicho do mato. O mulato, filho de pescador, falava arrastado, estalando a língua, com sotaque de malandro. E havia uns garotos com tatuagens, umas meninas usando óculos de lentes grossas, todos esquisitos aos olhos de Lilico. A professora? Tão diferente das que ele conhecera…

Logo que soou o sinal para o recreio, Lilico saiu a mil por hora, à procura de seus antigos colegas. Surpreendeu-se ao vê-los em roda, animados, junto aos estudantes que haviam conhecido horas antes. De volta à sala de aula, a professora passou uma tarefa em grupo. Lilico caiu com o japonês, a menina gaúcha, o mulato e o grandalhão.

Começaram a conversar cheios de cautela, mas paulatinamente foram se soltando, a ponto de, ao fim do exercício, parecer que se conheciam há anos. Lilico descobriu que o japonês não era nerd, não: era ótimo em Matemática, mas tinha dificuldade em Português. A gaúcha, que lhe parecera tão metida, era gentil e o mirava ternamente com seus lindos olhos azuis. O mulato era um caiçara responsável, ajudava o pai desde criança e prometeu ensinar a todos os segredos de uma boa pescaria. O grandalhão não tinha nada de bobo. Raciocinava rapidamente e, com aquele tamanho, seria legal jogar basquete no time dele.

Lilico descobriu mais. Inclusive que o haviam achado mal humorado quando ele se apresentara, mas já não pensavam assim. Então, mirou a menina do sítio e pensou no quanto seria bom conhecê-la. Devia saber tudo de passarinhos. Sim, justamente porque eram diferentes havia encanto nas pessoas.

Se ele descobrira aquilo no primeiro dia de aula, quantas descobertas não haveria de fazer no ano inteiro?

E, como um lápis deslizando numa folha de papel, um sorriso se desenhou novamente no rosto de Lilico.

Fonte:
Revista Nova Escola

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Machado de Assis (Magalhães de Azeredo: Horas Sagradas e Versos)

COM O TÍTULO Horas Sagradas, acaba de publicar Magalhães de Azeredo um livro de versos, que não só não desmentem dos versos anteriores, mais ainda se pode dizer que os vencem e mostram no talento do poeta um grau de perfeição crescente. Folgamos de o noticiar, ao mesmo tempo que outro livro, de Mário de Alencar, seu amigo, seu irmão de espírito e de tendência, de cultura e de ideal. Chama-se este outro simplesmente Versos. Quiséramos fazer de ambos um demorado estudo. Não o podendo agora, lembramos só o que os nossos leitores sabem, isto é, que Magalhães de Azeredo, mais copioso e vasto, tem um nome feito, enquanto que Mário de Alencar, para honrar o de seu ilustre pai, começa a escrever o seu no livro das letras brasileiras, não às pressas, mas vagaroso, com a mão firme e pensativo, para não errar nem confundir.

Um ponto, além de outras afinidades, mostra o parentesco dos dois espíritos. Não é o amor da glória, que o primeiro canta, confessa e define, por tantas faces e origens, na última composição do livro, e o segundo não ousa dizer nem definir. Mas aí mesmo se unem.. Porquanto, se Mário de Alencar confessa: “o autor é um incontentado do que faz” e, aliás, já Voltaire dissera a mesma coisa de si: “Je ne suis jamais content de mes vers”, Magalhães de Azeredo nas várias definições da glória, chega indiretamente a igual confissão, quando põe na perfeição a glória mais augusta, e cita os anônimos da Vênus de Milo e da Imitação, até exclamar como Fausto:
E exclamar como Fausto em êxtase exclamara:
Átomo fugitivo, és belo, és belo, pára!

Isto, que está no fim do livro de Magalhães de Azeredo, está também no princípio, quando ele abre mão das Horas Sagradas. Confessa que as guardou por largo tempo:
Por largo tempo, neste ermo oculto
Guardei-vos. Ide para o tumulto
Das gentes. Quer-vos a sorte ali.
Colhereis louros? Mas ah! que louros
Os vossos gozos, que eu conheci?

E cá vieram as Horas Sagradas, título que tão bem assenta no livro. Elas são sagradas pelo sentimento e pela inspiração, pelo amor, pela arte, pela comemoração dos grandes mortos, pela nobreza do cidadão, da virtude e da história. A religião tem aqui também o seu lugar, como no coração do poeta. Tudo é puro. No “Rosal de Amor”, primeira parte do livro, não há flores apanhadas na rua ou abafadas na sala. Todas respiram o ar livre e limpo, e por vezes agreste. Um soneto, Ad Purissimam, mostra a castidade da musa, uma das musas, devemos dizer, porque aqui está, nas estrofes “Mamãe”, a outra das suas musas domésticas. É um basto rosal este a que não faltará porventura alguma flor triste, mas tão rara e tão graciosa ainda na tristeza, que mal nos dá essa sensação. A música dos versos faz esquecer a melancolia do sentido.

“Matinal”, “Ao Sol”, “Crepuscular” dão o tom da vida universal e do amor, a terra fresca e o céu aberto. Os Bronzes Florentinos é uma bela coleção de grandes nomes de e do mundo, páginas que (não importa a distância nem o desconhecimento da cidade para os que lá não foram), produzem na alma do leitor cá de longe uma vibração de arte nova e antiga a um tempo, ao lado do poeta, a acompanhá-lo:
Através do Gentil e do Sublime.

Não quiséramos citar mais nada; seria preciso citar muito, transportar para fora do livro estrofes que desejam lá ficar, entre as que o poeta ligou na mesma e linda medalha. Mas como deixar de repetir este fecho de bronze de Dante:
Quem, depois de sofrer o ódio profundo
Da pátria, viu o inferno, e chorou tanto,
Já não é criatura deste mundo.

E muitos outros deliciosos sonetos, fazendo passar ante os olhos Petrarca, Giotto, Leonardo da Vinci, Miguel Angelo, Boccacio, Donatello, Frei Angélico, e tantos cujos nomes lá estão na igreja de Santa Cruz, onde o poeta entrou em dias caros às musas brasileiras. Cada figura traz a sua expressão nativa e histórica; aqui está Leão X, acabando na risada pontifícia; aqui Cellini, cinzelando o punhal com que é capaz de ferir; aqui Savonarola, a morrer queimado e sem gemer por esta razão de apóstolo:

Ardia mais que as chamas a tua alma!

Não poderia transcrever uns sem outros, mas o último bronze dará conta dos primeiros: é Galileu Galilei:
Lá na Torre do Galo, esguia e muda,
Entre árvores vetustas escondida,
No entardecer da trabalhada vida
O potente ancião medita e estuda.
Já nos olhos extinta é a luz aguda,
Que os céus sondava em incessante lida:
Mas inda a fronte curva e encanecida
Pensamentos intrépidos escuda.
Sorrindo agora das neqüícias feras,
Que, por amor do ideal sofrido tinha,
Ele a sentença das vindouras eras
Invoca, e os seus triunfos adivinha,
Ouvindo, entre a harmonia das esferas
O compasso da Terra, que caminha.

Nem só Florença ocupa o nosso poeta, amigo de sua pátria. As “Odes Cívicas” dizem de nós ou da nossa língua.

Magalhães de Azeredo é o primeiro que no-lo recorda, nos versos “Ao Brasil”, por ocasião do centenário da descoberta. O centenário das Índias achou nele um cantor animado e alto. A ode “A Garrett exprime uma dessas adorações que a figura nobre e elegante do grande homem inspira a quem o leu e releu, por anos. Enfim, com o título “Alma Errante” vem a última parte do livro. Aqui variam os assuntos, desde a ode “As Águias “, em que tudo é movimento e grandeza, até quadros e pensamentos menores, outros tristes, uma saudade, um infortúnio social, um sonho, ou este delicioso soneto “Sobre um Quadro Antigo”;
Os séculos em bruma lenta e escura
Te ocultam, vaga imagem feminina:
E cada ano, ao passar, tredo elimina
Mais uni resto de tua formosura.
Apenas, no esbatido da pintura,
Algum tom claro, alguma linha fina,
Revelando-te a graça feminina,
Dizem que foste, ó frágil criatura …
Ah! como és! – és mais bela do que outrora.
Seduz-me esse ar distante, esse indeciso
Crepúsculo em que vives, me enamora.
O tempo um gozo intensamente doce
Pôs-te no exangue, pálido sorriso;
E o teu humano olhar divinizou-se …

Em resumo escasso, apenas indicações de passagens, tal é o livro de Magalhães de Azeredo, um dos primeiros escritores da nova -geração. A perfeição e a inspiração crescem agora mais, repetimos. Ele, como os seus pares conjugam dois séculos, um que lá vai tão cheio e tão forte, outro que ora chega tão nutrido de esperanças, por mais que os problemas sé agravem nele; mas, se não somos dos que crêem no fim do mal, não descremos da nobreza do esforço, e sobretudo das consolações da arte. Aqui está um espírito forte e hábil para no-las dar na nossa língua.

Faça o mesmo o seu amigo e irmão, Mário de Alencar, cujo livro, pequeno e leve, contém o que deixamos dito no princípio desta notícia. É outro que figurará entre os da geração que começou no último decênio. Particularmente, entre Mário de Alencar e Magalhães de Azeredo, além das afinidades indicadas, há o encontro de duas musas que os consolam e animam. O acerto da inspiração e a gemeidade da tendência levou-os a cantar a Grécia como se fazia nos tempos de Byron e de Hugo. A sobriedade é também um dos talentos de Mário de Alencar. Quando não há idéia, a sobriedade é apenas -a falta de um recurso, e assim dois males juntos, porque a abundância e alguma vez o excesso suprem o resto. Mas não são idéias que lhe Faltam; nem idéias, nem sensações, nem visões, como aquela “Marinha”, que assim começa:
Sopra o terral. A noite é calma. Faz luar
Intercadente
Soa na praia molemente
A voz do mar.
As coisas dormem; dorme a terra, e no ar sereno
Nenhum ruído
Perturba o encanto recolhido
Do luar pleno.
Ampla mudez. A lua grande pelo céu
Sem nuvens vaga
E cobre o mar, vaga por vaga,
De um branco véu.
Longe, à mercê da branda aragem, vai passando’
Parda falua.
Nas pandas velas bate a lua
De quando em quando…

Lede o resto no livro, onde achareis outras páginas a que voltareis, e vos farão esperar melhores, pedimos que em breve. Que ele sacuda de si esse entorpecimento, salvo se é apenas respeito ao seu grande nome; mas ainda assim o melhor respeito é a imitação. Tenha a confiança que deve em si mesmo. Sabe cantar os sentimentos doces sem banalidade, e os grandes motivos não o deixam frio nem resistente. Ainda ontem tivemos de ler o que Magalhães de Azeredo disse de Mário de Alencar, e dias antes dissera deste J. Veríssimo, nós assinamos as opiniões de um e de outro.

Fonte:
Machado de Assis. Crítica Literária. Pará de Minas/ MG: Virtualbooks, 2003.

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 770)


Uma Trova de Ademar

O grande desmatamento,
por ganância ou esperteza,
põe rugas de sofrimento
no rosto da natureza!–Ademar Macedo/RN–

Uma Trova Nacional

Jamais chores o abandono
da primavera que finda…
pode haver frutos no outono
que tu não provaste ainda! –Carolina Ramos/SP–

Uma Trova Potiguar

Velhice é só desenganos,
mas é tão limpa, tão clara,
que se a gente esconde os anos
eles refletem na cara!… –Zé de Sousa/RN–

Uma Trova Premiada
1999 – Rio de Janeiro/RJ
Tema – TREM – 2º Lugar

Nos trilhos do itinerário
que a vida a mim destinou,
eu sou vagão solitário
de um trem que descarrilou. –Jacy Bittencourt/RJ–

…E Suas Trovas Ficaram

A saudade não permite
nem que eu sonhe um novo amor:
– tua lembrança é um limite
que eu não consigo transpor… –João Freire Filho/RJ–

U m a P o e s i a


O famoso Patativa
poeta do pé da serra,
vive de mãos calejadas
colhendo os frutos da terra,
da enxada pra caneta
com tinta vermelha ou preta
pinta seus versos com fé;
num quadro expansivo e novo
simples poeta do povo:
Patativa do Assaré.
–Otacílio Batista/PE–

Soneto do Dia

AS MÃOS DE VITALINO.
–Rafael dos Santos Barros/PE–

Vitalino com mãos sujas e santas
modelava em barro os nordestinos
e transportava a dor e os desatinos
para os bonecos tantas vezes, tantas.

Bonecos mudos, quantas vezes quantas,
Minha alma cega por meus olhos viu?
A tua dor meu coração sentiu
no canto triste que ainda hoje cantas.

Soprou a vida num boneco mudo
que sem falar, assim, dizia tudo
dos nordestinos, dos desatinos seus,

advertência dos que nascem pobres
pelas mãos rudes que ficaram nobres,
abençoadas pelas mãos de Deus.

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Teatro de Ontem e de Hoje (Gota d’Água)

Peça de Paulo Pontes e Chico Buarque, inspirada numa adaptação de Medéia, de Eurípides, realizada por Oduvaldo Vianna Filho para a TV. Associada ao teatro de resistência, a montagem tem dois objetivos principais: retratar a realidade brasileira de modo contundente, apelando para uma fábula grega universalmente conhecida e criar um grande espetáculo musicado.

Ambientado numa favela – que está sendo reurbanizada através da construção de um conjunto habitacional – o enredo ressalta a dramática convivência de Joana e Jasão, o sambista que, depois de dez anos de vida em comum com ela, decide abandoná-la e aos dois filhos para se casar com a jovem Alma, a filha do empreiteiro Creonte, a quem pertencem as casas da Vila do Meio-Dia. O fundo social, uma dura crítica ao milagre econômico então em curso, surge através da mobilização da população do morro contra os preços extorsivos das unidades postas à venda. Incapaz de aceitar a traição, Joana acaba por envenenar as duas crianças, no dia da festa de casamento de Jasão. A música de Chico Buarque atribui algumas características de musical a este drama social denso, e diversas das canções da peça tornaram-se grandes sucessos na voz de vários intérpretes.

Destacam-se a direção de Gianni Ratto e a interpretação de Bibi Ferreira como a protagonista, destacam-se e valorizam a montagem, tendo sido registrados em disco seus momentos culminantes. O crítico Alberto Guzik, comentando a encenação, destaca os intérpretes, aos quais credita os melhores resultados do trabalho: “Todos eles (atores) transfigurados, reiluminados por essa grande e sensível intérprete que é Bibi Ferreira. Tão fantástico é o seu dom para o teatro que consegue superar seus próprios limites físicos para viver Joana, a Medéia brasileira, com uma garra de leoa, um ímpeto, uma honestidade que ultrapassam barreiras de tempo e de estilo, de escola e de forma. Bibi mostra o que é o ator quando entra em cena banhado dessa emoção sagrada que é energia teatral transformada em personagem vivida às últimas consequências”.1

Desde Um Edifício Chamado 200, em 1971, Check-Up, e Dr. Fausto da Silva, em 1973, Paulo Pontes explora temas ligados à contraposição da pobreza ao poderio econômico (em 1972 traduz O Homem de la Mancha, musical de Dale Waserman sobre a história de D. Quixote, no qual o tema está igualmente presente). São criações que afirmam a crença no poder de um teatro da palavra, colocado como contraponto de racionalidade às experiências vanguardistas e contraculturais que impregnam o período. Gota d’Água, neste sentido, coroa este itinerário.
Notas

1. GUZIK, Alberto. As gotas da emoção. Última Hora, 21-22 maio 1977. p. 11.

Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural

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José de Alencar (Ao Correr da Pena) Rio, 8 de julho: As Ações de Companhias

Se não quereis ficar doido, abandonai a cidade, fugi para Petrópolis, ou fechai-vos em casa.

Sobretudo não vos animeis a deitar a cabeça à janela ou a sair à rua, ainda mesmo de noite.

Apenas deres os primeiros passos, encontrareis um homem grave, que vos apertará a mão como antigo conhecido.

Pensais que vai perguntar pela vossa saúde, ou falar-vos de algum negócio particular? Enganai-vos completamente.

Desde terça-feira que não há nesta grande cidade senão um negócio. A forma vulgar da saudação, o clássico bons dias, foi substituído por um cumprimento mais cheio de interesse e solicitude:

– Então, quantas teve?

– Vinte.

– Ah! dou-lhe os parabéns.

E o sujeito deixa-vos com um pequeno sorriso de despeito ou de vaidade satisfeita.

Daí a dois passos encontrais um outro conhecido de mãos nos bolsos e chapéu à banda.

– Meu amigo, quer vender?

– O que, senhor?

– As suas ações.

– Ah! as minhas ações! Não se vendem.

– Pois, se quiser, fico com todas as dez.

Este especulador, que tomais por um comprador de ações, está desesperado por vender as suas antes do dia onze.

Mais adiante tomam-vos o braço de repente, e vos arrastam para a porta de uma loja ou para alguma esquina deserta.

– Quero pedir-lhe um favor.

– Pois não, senhor.

– Em quem vota?

– Em… Não sei ainda.

– Pois então peço-lhe o seu voto para o meu candidato.

– É membro da comissão?

– Não.

– Pois então está servido.

– Fico-lhe muito agradecido.

E continuais o vosso caminho, já um pouco azoado.

– Psiu!…psiu!

É um amigo que vem a correr, naturalmente para participar-vos alguma novidade importante.

– Sabe alguma coisa de novo?

– A respeito…

– Ora, a respeito das ações.

– Não; não tenho ouvido dizer nada.

– Fala-se numa segunda errata.

– Qual! não tinha jeito nenhum.

– Como! O regimento de custas era obra de jurisconsultos, e teve duas erratas.

– Tem razão!

– Adeus.

Quando pensais que vos desvencilhais do homem das erratas, caís nas mãos de um esquecido, que trata de comentar a grande lista dos agraciados, de princípio a fim.

Começa a calcular pelas famílias, depois passa a analisar os indivíduos, examinar a sua profissão, e por fim entra no vasto campo dos paralelos e das comparações.

O homem tem na memória uma certidão de batismo de cada um dos agraciados, e um registro dos bens, da morada e do gênero de vida de todos os agraciados na grande loteria do caminho de ferro.

Se o deixarem falar, disserta cinco horas a fio, sem copo d’água, sem mesmo temperar a garganta, sem fazer uma pausa, nem titubear numa vírgula.

Afinal vos larga para ir continuar além a sua propaganda, para ir pregar a nova cruzada contra os homens da comissão.

Assim enfastiado, aborrecido de todas estas coisas, tendo gasto inutilmente o vosso tempo, entrais no Wallerstein para conversar com algum amigo que não esteja contaminado.

Achai-vos no círculo de flâneurs, que passam o tempo alegremente a divertir-se a semear algumas flores neste vale de lágrimas.

Conversa-se sobre as novidades do dia, sobre a probabilidade da vinda de Thalberg e a notícia do contrato da Stoltz, sobre a próxima representação lírica em favor da Beneficência Francesa.

Se falais de uma moça elegante, de um lindo toilette preta que brilhava um desses dias nos salões, de uns bonitos olhos e de uns requebros graciosos, vos interrompem de repente:

– O pai não teve ações!

Se vos lembrais da Charton na Filha do Regimento, e se despertais todas as vossas belas recordações para sacia-las segunda-feira, ouvindo aqueles gorjeios maviosos de envolta com as facécias do Ferranti, não vos deixam acabar.

– É verdade, diz um, a propósito de Ferranti, deram-lhe dez ações!

E saís desesperado, correndo para a casa antes que vos venham atordoar novamente os ouvidos com a maldita palavra que está na ordem do dia.

Quanto mais se soubesseis o que é realmente para toda a sociedade a lista que publicaram na terça-feira os jornais diários da corte.

É uma espécie de cadastro, de registro, de livro negro da polícia, no qual se acham escritas as ações de cada um, por conseguinte o seu talento, a sua virtude, a sua consideração na sociedade.

As moças lá vão procurar os nomes dos noivos; os negociantes indagar se os seus devedores merecem a continuação do crédito; os amigos saber o grau de amizade que devem despender mutuamente.

Os curiosos divertem-se com as comparações, e os parasitas estudam os nomes daqueles a quem devem tirar o chapéu ou fazer simplesmente um cumprimento de proteção.

E assim são as coisas deste mundo.

Dante os homens tinham as suas ações na alma e no coração; agora tem-nas no bolso ou na carteira. Por isso naquele tempo se premiavam, ao passo que atualmente se compram.

Outrora eram escritas em feitos brilhantes nas páginas da história, ou da crônica gloriosa de um país; hoje são escritas num pedaço de papel dado por uma comissão de cinco membros.

Aquelas ações do tempo antigo eram avaliadas pela consciência, espécie de cadinho que já caiu em desuso; as de hoje são cotadas na praça e apreciadas conforme o juro e interesses que prometem.
…………….

Mas temos muita coisa agradável sobre que conversar, e não vale a pena estarmos a gastar o nosso tempo com esta questão de jornais.

Enquanto senadores, deputados, empregados públicos, desembargadores, negociantes e capitalistas correm à praça para saber a cotação das ações, vamos nós para o teatro ver o benefício do Gentile.

O público deu-lhe todas as demonstrações de apreço e simpatia; os ramos de flores e os versos choveram dos camarotes, e a Charton cantou melhor do que ela mesma costuma cantar.

É um pouco difícil, mas é verdade. Há certas noites em que se conhece que não é a obrigação que a faz cantar, mas a inspiração, um movimento espontâneo, uma necessidade de expansão.

Nestas noites canta como o poeta que escreve versos inspirados, como o pintor que esboça o quadro que a sua imaginação ilumina, como a alma triste que dirige a sua prece a Deus, como a moça que sorri, como a flor que se expande, como o perfume que se exala.

Os lábios vertem os eflúvios d’alma, as melodias que um gênio invisível lhe murmura aos ouvidos, os segredos divinos que alta noite, a horas mortas, lhe contaram as estrelas, as sombras, as brisas que passavam sussurrando docemente.

Mas isto são coisas que se sentem, que se compreendem, e que não se explicam. Ouvi um artista cantar num dos seus bons dias, e percebereis essa nuança inexprimível que vai de bem representar o bem sentir.

Ia-me esquecendo dar-vos notícia do vosso pequeno teatro, do vosso protegido, minhas belas leitoras.

Se soubesseis como vos agradece a bondade que tendes tido em anima-lo, como se desvanece pelo interesse que vos inspira!

Agora já não é somente um pequeno círculo de homens de bom gosto que aí vai encorajar o seu adiantamento e aplaudir aos seus pequenos triunfos.

Na balaustrada dos seus camarotes se debruçam as senhoras mais elegantes, as moças as mais gentis dos nossos aristocráticos salões.

O lindo rosto expandindo-se de prazer, o sorriso da alegria nos lábios, elas esquecem tudo para interessar-se pelo enredo de uma graciosa comédia.

E depois a sua boquinha feiticeira vai repetir no baile, ou na partida, uma frase espirituosa, um dito chistoso, que requinta de graça, conforme os lábios são mais ou menos bonitos.

No Teatro Lírico podeis ver um semblante triste, uns olhos vendados pelos longos cílios de seda, uma fronte pensativa e melancólica.

Mas no Ginásio o prazer roça as suas asas d’ouro por todos esses rostos encantadores; e bafeja com o seu hálito celeste todos os pensamentos tristes, todas as recordações amargas.

Tudo sorri; os olhos cintilam, as faces enrubescem, a fronte brilha, o gesto se anima, e a alma brinca e se embala nas emoções doces, calmas e serenas.

A dor, a tristeza, a velhice e o pensamento, nada há que resista a esta franca jovialidade, que como um menino travesso não respeita nem as cãs, nem as lucubrações sérias, nem a gravidade e a sisudez.

E quando por volta da meia-noite vos retirais, ides satisfeito, julgando o mundo melhor do que ele realmente é.

E tudo isto é obra vossa, minhas amáveis leitoras: podeis ter este orgulho. Fostes vós que criastes este teatro; que o animastes com um sorriso, que o protegeis com a vossa graça, e que hoje o tratais como vosso protegido.

Entretanto peço-vos que, quando tiverdes ocasião, não lhe deixeis de dar umas dessas doces repreensões, uma dessas ligeiras advertências, como só sabem dar os lábios de mulher.

Dizei-lhe que faça com que seus artistas decorem melhor os papéis, e aprendam a pronunciar com perfeição os nomes estrangeiros.

Esqueci-me de pedir-vos isto naquela brilhante reunião em que vos encontrei seta-feira, tão bonitas, tão satisfeitas, tão risonhas, que bem se via que esta noite tem de ficar gravada na vossa memória, até que outra a venha fazer esquecer.

E agora atirai o jornal de lado, ou antes passai-o ao vosso marido, ao vosso pai ou ao vosso titio, para que ele leia o resto.

Bem entendido, no caso de que não esteja pensando em ações, porque então é escusado; não me dará a atenção de que eu preciso para falar a respeito da discussão que tem havido ultimamente na câmara.

O Sr. Sayão Lobato fazendo a exumação dos partidos políticos, procurou demonstrar que as idéias liberais tinham sido sempre estéreis para o país.

Em resposta duas vozes se ergueram; a do Sr. Melo Franco que defendia seus aliados, ea a do Sr. F. Otaviano que tomou a si a causa nobre do fraco e do proscrito.

Perdoe-nos o ilustre orador, que com tanto afã defende o passado de seu partido e que, apesar de magistrado imparcial se mostra parcialíssimo político nos seus retrospectos históricos.

Se o partido liberal não escreveu leis de 3 de dezembro, e não fez grande cópia de regulamentos, nem por isso deixou de fecundar as instituições do país com o germe civilizador de sua idéia, de suas crenças, de sua constância em pugnar pelas reformas úteis e necessárias.

A sua história é a história de muito pensamento generoso e nobre no nosso país, desde a sua independência até a calma e tranqüilidade de que atualmente gozamos.

Foi ele que nos deu, e que tem defendido ardentemente o júri e a imprensa; foi ele que primeiro proclamou o princípio das incompatibilidades, das eleições diretas, da independência do poder judiciário, que iniciou todas estas reformas que hoje se trata de realizar.

Não podemos estender-nos mais; porém em qualquer tempo aceitaremos com o maior prazer esta discussão; pela nossa vez também, revolveremos as cinzas dos túmulos, mas para honrá-las, esquecendo os erros dos mortos, e não para profana-las excitando o desprezo dos vivos.

Os partidos desapareceram da cena política; pertencem ao domínio da história. Simples investigadores, podemos apreciar os fatos com a calma necessária, sem sermos influenciados por interesses pessoais.

***

E agora, vem minha boa pena de folhetinista, minha amiga de tantos dias, companheira inseparável dos meus prazeres, confidente de meus segredos, de minhas mágoas, dos meus prazeres.

Vem! Quero dizer-te adeus! Vamos separarmo-nos, e talvez para sempre!

Tenho saudade desses dias em que brincava comigo sorrindo-me, coqueteando, desfolhando as flores da imaginação, e levando-me por estes espaços infindos da fantasia.

Oh! tenho muita saudade! Sempre me lembrarei dessas nossas conversas íntimas ao canto de uma mesa, com os olhos nos ponteiros do relógio, aproveitando as últimas claridades do crepúsculo para recordar ainda algum fato esquecido.

Mas é necessário. Faço-te este sacrifício, bem que me pese, bem que o levem a mal os meus melhores amigos.

Os outros te esquecerão, mas eu me lembrarei sempre de ti: basta isto para consolar-te.

Fonte:
José de Alencar. Ao Correr da Pena. SP: Martins Fontes, 2004.

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Raquel Ordones (Poemas em Gotas)


NOVO ANO

Momentos não esperam por mim, nem por ninguém
A carga perante a vida é individual, é intransferível
Você é capacitado para escrever sua história, além
Respeitando os demais, sem julgar,e sendo flexível.

Ame sempre, sem esperar que o dígito do ano mude
A vida é processo contínuo, não faz pausa nesse dia
Olhe a sua volta sempre,em caso de precisão, ajude
Não tenha esperança que o “ano novo” traga alegria

As perspectivas do novo ano podem começar agora
A esperança é sua,está dentro de você não nos dias
Se obrigue a ser feliz,buscando esse feito toda hora.

“Ano novo” é fábula, afinal os algarismos só sobem
É só um “novo ano” que vem para dividir os tempos
Os dígitos dizem: Serão menos os seus momentos!

QUERO FUGIR COM AS FLORES

Ao passar pelo jardim, que as flores me acompanhasse
Que todas elas sorrissem e que juntas fugissem comigo
Fizessem em volta de mim uma roda, que eu a olhasse
No fundo da pétala onde o perfume se deita em abrigo!

Que todas as flores dançassem ao vento ao meu redor
Que exalassem por toda minha alma a sua fragrância
Fizessem com que eu degustasse um toque de amor
E deliciar-me nesse momento de abissal importância!

Que as flores fujam comigo, quero fugir com as flores
E as borboletas não ficam fora da minha imaginação
E essa imagem está tatuada em cores no meu coração.

Quero flores; do jardim do lado e do jardim da frente
Quero as flores da alma dos seres em nuança de amor
Quero fugir com as flores no outono, inverno e calor!

ABISMAL

Há fundura insondável na solidão
Ruína que assola o corpo e a alma
É um habitar sem fim na escuridão
Oceano de aflição que não acalma.

O coração se descobre em alcantil
Há caos, despenhadeiro de tristeza.
Um matiz preto toma conta do anil
Toda fé é trucidada pela incerteza.

Noites contínuas do ser, falta de luz
Estrelas de emoções boas se apagam
É pregar-se transitoriamente na cruz.

Buraco bolado pela fraqueza interior
Há uma precisão de se jogar a pá fora
Agarrar pelas cordas firmes do amor!

O PODER DA PALAVRA

Feita em poesia a palavra se modifica
Inventa, relata, surpreende, faz sorrir.
Vem e traz agrado que no coração fica.
Verse o verbo na boa palavra a proferir!

O domínio da palavra descreve a carícia
Ouvida ou lida na hora correta traz paz
Pela veia se mistura ao ser; uma delícia.
Pelas profundezas, de tocar ela é capaz.

A palavra cantada aformoseia, até cura
Lida com a alma é parte do nosso mundo
Dita com o cerne para sempre se perdura.

Palavras acariciam, sustentam seu poder
Mas pode ser artilharia que abre a ferida
Algo que dá vida ou algo faz vida fenecer!

SEJA NATAL

Enfeite a árvore do seu viver
Mostre que o seu brilho reluz
Deixe o coração transparecer
Acenda seu pisca-pisca Jesus.

Decore o seu olhar com fulgor
Laço branco de paz na alma
Revele na expressão toda cor
Estenda sua mão que acalma.

E desembrulhe o seu coração
Doe presentes a todo mundo
Carinho, bondade e o perdão!

Dê amor, cace a reconciliação.
Use os estoques por toda vida
Vibre em guirlandas de oração!

…E A PRIMAVERA PARTE

A primavera se despede e o céu dança
Algumas pétalas continuarão a colorir
É eterna essa estação, jamais se cansa
Os raios de sol permanecerão a sorrir!

O cheiro se exalará por todos os ares
Odorante o verão que agora se inicia
Escrita na alma irá a todos os lugares
Primavera é perene musa da poesia!

Flores nascem e moram nos corações
Era que entra e sai leva e deixa pétala
Graça que é essência, exala emoções.

Nuanças e entretons; ornam ocasiões
Presente que nos toca a profundeza
No imo; viagem. Gosto de inspirações.

APENAS DESCULPAS

Sentada a porta: espero
Com o olhar a distância
Emoção pura, sem mero
Sentindo tua fragrância.

Sentada a porta: sonho
Com a tua volta, enfim
Cerne quase fica risonho
Vendo-te vir para mim.

Parada à porta da vida
Vejo escusa, nada mais
Desculpas são os sinais

O amor é sem desculpas
Quem ama somente ama
Justificação só engana!

VIOLETAS NA JANELA

Tons lilases eu vejo através da janela
Com um verde se mistura a paisagem
Combinam-se em matizes da aquarela
Vejo borboletas voando nessa imagem.

O ar toca a tez da pétala, voa cortina.
Um sopro de vento que adentra e beija
Encanta e causa o sorriso da menina
Uma delicada fragrância por ali adeja

Violeta em tons violeta me dá bom dia
Enfeita a janela e atinge minh’alma
Vejos-as; delas vêm algo que acalma.

Violetas fazem do meu imo um jardim
Expostas à janela são olhos da casa
Uma admiração que invade e dá asa!

SOU BARDA

Talvez isso já venha da concepção
Eu não me rememoro muito bem
Sinto que desde lá tive inspiração
E ela desde sempre comigo vem.

Quem sabe deixei alguma prova
Nas paredes do útero rabisquei
Uma palavra, um verso ou trova
Na alma um coração eu gravei?

Sou barda, sou poesia inacabada
Sou a escrevedora da minha vida.
No ato do verbo amar, concebida.

De Deus eu sou fruto exclusivo
Uma pluralidade única… Afinal
Escrevo: em mim é incondicional.

SER FORTE

Ser forte é chorar e a sua lágrima assumir
É manter-se de pé com imo em ventania
É sentir consternação e ainda assim sorrir
É enfrentar um combate e faz dele poesia.

Ser forte é abrir para qualquer um a mão
É dividir com saber aquilo de que possui
Ouvir em silêncio o que vem do coração
É renovar-se e acompanhar o que evolui.

Ser forte é deitar-se a espera do amanhã
No fim da tarde trazer o dever cumprido
Respeitar de cada um o espaço deferido.

Vestir-se de Deus e expor o amor de fato.
Usar menos físico e mais finura é ser forte
Viver feliz ciente do encontro com a morte!

SEMEAR-TE-EI AMOR

Em meu coração há uma semente
Que semeada em ti nasce uma flor
É simples, satisfaz-te ter em mente
Que adubes tua terra para o amor!

Arranque do cerne o que te faz mal
Comece a sorrir, sinal de solo bom
Abrace todo carinho incondicional
Apoie em quem avaliares ter dom!

Teu coração tornar-te-á um jardim
Perfumará a essência de tua alma
E tua beleza far-te-á ser de calma!

Em meio às pétalas e a fragrância
Saberá desvencilhar-te de espinhos
E serenará a dor dos teus caminhos!

CONVERTENDO-ME

O momento é esse; esse é o tempo certo.
De fazer um novo arranjo em minha vida
Tirar poeiras da minh’alma de imo aberto
Abraçar-me, me tornar mais esclarecida.

Rever conceitos sem perder a identidade
Acomodar os meus princípios ao mundo
Com respeito e acima de tudo a verdade
Não permitindo que me invada o imundo

Limpar os armários e gavetas do meu ser
Coloca-los em disposição mais confortante
O momento é esse, é esse o exato instante.

Deixar em minha bagagem o que preciso
Introduzir o hoje sem jogar o ontem fora
Arrumar-me ao novo no sempre do agora.

AMOR… ACESSO LIVRE!

Comecei a escrever um poema
Imaginei que já o havia escrito
Enleei-me; vi-me num dilema
Até que o contexto era bonito.

O poema falava do livre acesso
Do amor, inda resistido instala
Não acata nem aceita processo
Sem regra, grita e também cala.

É força além de nós; é soberano
Tem fragrância, rima com tudo
Tem sorriso largo feito oceano.

Capaz de fazer a tez suar paixão
É capaz de guilhotinar a guerra
Capaz de dividir meado do pão.

QUE SAUDADE DA FAZENDA!

A estrada, a poeira
Os empreiteiros na roça
O burro e a carroça
Sabiá na laranjeira
Na cerca uma parreira
Que saudade da fazenda
A mamãe tecia renda
Os porcos lá no chiqueiro
As galinhas no poleiro
Fim de semana na venda!

De manhã lá no curral
Leite direto na caneca
De sabugo a boneca
Uniformes no varal
Pendurado o avental
Que saudade da fazenda
A mamãe tecia renda
Papai plantava feijão
Dedilhava violão
Fim de semana na venda!

Bem acima um açude
As vacas fazem aguada
O chapéu, a cavalgada
Azul bolinha de gude
Aquele mascate rude
Que saudade da fazenda
A mamãe tecia renda
Cavalo e ferradura
Garapa e rapadura
Fim de semana na venda!

Pela manhã à escola
Ovo cozido e pão
Já feita toda a lição
Cadernos e a sacola
Recreio: jogo de bola
Que saudade da fazenda
A mamãe tecia renda
Fogão de lenha, o rango!
Quiabo, molho de frango
Fim de semana na venda!

Sol descia no horizonte
Luzinhas de vagalumes
As flores e os perfumes
Papai vindo lá na ponte
Trazendo água da fonte
Que saudade da fazenda
A mamãe tecia renda
A lua linda lá no céu
Brincava passando anel
Fim de semana na venda!

Tínhamos todo espaço
O boizinho de abacate
Cachorro que sempre late
Manga corria no braço
No cabelo aquele laço
Que saudade da fazenda
A mamãe tecia renda
Ao deitar a oração
Família é religião
Fim de semana na venda!

VIVER EM POESIA

Posso tentar explicar: viver em poesia é assim
Ter uma vida normal similar à de todo mundo
Estar ciente dos espinhos e apreciar o jasmim
Deixar fluir pela caneta sentimento profundo.

Viver em poesia é fazer de um verbo um verso
Converter esse verso em uma história sem fim
É percorrer com a imaginação todo o universo
Trafegar muito além dos limites visíveis, enfim.

Viver em poesia é mirar com olhos do coração
Mesmo sabendo que existe o mau e ele judia
É possuir alma inquieta em constante euforia.

Viver em poesia é gritar na grafia os segredos
É sentir sua verdade sendo tomada pelo leitor.
É se declarar. É pôr nas palavras todo o calor!

SOSSEGO

Não me importa que os raios do sol nasçam um por um
Que as manhãs cheguem taciturnas, bem de mansinho.
Não me implico com o silêncio matinal de jeito nenhum
Não me importa que antes das flores nasça um raminho!

Não me amola o tempo com o andamento que ele tem
Não me apoquenta a sequência tradicional das estações
O vento em seu ritmo manso aborda-me, só me faz bem.
Gosto da assiduidade com que me chegam às emoções!

Nada me influi que a manhã troque de turno com a tarde
Que os anoiteceres declinam singulares logo em seguida
Existe nisso tudo um encantamento, uma razão de vida!

Existe uma quietude que se perdeu no ambiente externo
Que tenta danificar nossa alma por mais que gritemos não
Não há sossego maior do que aquele que jaz no coração!

SER POETA

Ser poeta é permanecer em conexão
De todos os sentimentos e imaginação
De todas as senhas e suas revelações
De todos os arquivos e suas extensões

Ser poeta é tirar o sonho do anonimato
Não se importando com o seu formato
É digitar os versos, as estrofes e fatos
Em desenhos de rima e enviar relatos.

Ser poeta é ser real virtual, encantado
É digitar, e da mente não ser deletado.
É entusiasmo criador na vida anexado

Ser poeta é hakear o backup do coração
Em um clique, copiar e colar a expressão
Fazer da palavra aos olhos, uma emoção!

Fontes:
– Formatação sobre imagem obtida em Orkugif.

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Isabel Furini (O Poder do Livro)

O relógio de pêndulo deu oito badaladas. Um som metálico vibrou no ar. Roberto entrou na sala, colocou o paletó escuro e desbotado no espaldar da cadeira e sentou-se. Vestia uma camisa branca, com o colarinho gasto e um pulôver já fora de moda. Olhou o relógio. Um relógio enorme, antigo, de madeira escura e lustrosa, herdada do avô. Depois consultou seu relógio de pulso. Tinha a sensação de que um dos relógios estava defasado alguns segundos.

Dona Irineia saiu do elevador apressada e avançou rapidamente pelo corredor. Abriu a porta. Na parede, um cartaz que dizia: “ PROIBIDA A ENTRADA A AUTORES” em letras grandes e, em letras pequenas: “Deixe seus originais na portaria”. Entrou na recepção, ligou o computador e disse “bom dia” para o senhor Roberto.

– Dona Irineia… pode vir… – pediu ele.

Dona Irineia entrou, abriu as cortinas. Um raio de sol entrou pela janela de vidro, atravessou a metade da sala e caiu como uma torrente de luz sobre a escrivaninha de ébano escuro, cheia de papéis, livros, canetas, contratos. Roberto estava sentado diante da escrivaninha, na cadeira alta com espaldar de veludo vermelho. Às suas costas, o retrato antigo de seu avô, Florêncio, fundador da Editora RT.1.

Nos cantos da sala, caixas enormes, abertas, onde Irineia, todos os dias jogava, com indiferença, os originais que vinham pelo correio. Jogava os sonhos, as esperanças, as fantasias, as suposições, as ambições dos autores nas caixas de papelão. Cérebros, corações, fígados com vesículas apodrecidas de tanta ansiedade na busca da fama ou do reconhecimento. Ela jogava tudo nas caixas de papelão.

Irineia pegou uma faca grande, com o cabo forrado em couro marrom e começou a abrir os pacotes do correio. Chegavam originais de todos os tipos e de todos os cantos deste enorme país. Romances, novelas, contos, crônicas, monografias, teses, livros técnicos e poesias. Chegavam obras dos lugares mais recônditos, das grandes cidades, do campo e dos povoados. Povoados que Irineia mal conseguia localizar no mapa e nem sabia que existiam.

Roberto pegou alguns originais para análise. Sua forma de escolher os livros que seriam publicados no semestre era, no mínimo, peculiar, para não dizer que era uma maneira estranha, extravagante, ou simplesmente, insana. O editor comum obedece a padrões de modernidade, originalidade, gosto popular ou elementos como mudança de perspectiva, quebra de tempo, jogo de palavras, ironia, tipos de discursos e outros.

Roberto era diferente. Como um alquimista em busca da pedra filosofal, Roberto colocou pó de enxofre nos dedos das mãos e manuseou as páginas de um romance, abrindo-o ao acaso. Leu um parágrafo. Tantos anos na Editora deram-lhe uma firmeza inigualável.

– Dona Irineia…. – chamou o patrão.

– Sim, senhor – respondeu ela, enquanto se levantava, empurrando a cadeira.

Ele respirou profundamente e disse com raiva:

– Essa febre de escrever tomou conta da população! Todo mundo quer escrever, é irritante!

Roberto acomodou os óculos grossos sobre o nariz proeminente e alisou seus cabelos grisalhos, longos e oleosos.

– Por favor – pediu Roberto, acendendo um cigarro – Isto é ridículo! Este cara já enviou mais de dez livros… Soltou a fumaça do cigarro no ar. – Ele ainda não entendeu que nunca vou publicar suas obras? Quando vir este nome no envelope nem abra. Jogue fora!

Irineia disse que enviaria a carta padrão. Carta padrão consistia num modelo, onde a obra do escritor era elogiada e a Editora pedia desculpas por não poder incluí-la, falta de espaço na programação. Isso evitava processos e discussões intermináveis com autores inconformados.

Leu uma página e ficou irritado, “vejo um escritor de pulso vacilante, tentando contar uma história, mas sem técnica suficiente. Um trabalho superior a suas forças, megalomaníaco” pensou. – Não é suficiente ter uma história interessante, deve ser bem contada. Deve ser: “Alento de fogo.” Dona Irineia colocou novos livros sobre a escrivaninha: “Sonhos”, “Heróis do presente”, “A Morte de Joana” “Chuva no telhado” e “Mundo em guerra”. Roberto empurrou os óculos grossos de armação preta e enfiou o nariz nos originais de “Heróis do Presente”. Gás Bucal, murmurou.

Fechou o livro e voltou a abri-lo. Leu um parágrafo. Fechou e tornou a abri-lo pela terceira vez.
Não, eu estava certo na primeira classificação: Gás Bucal. Anote,dona Irinéia, Heróis do Presente, é Gás Bucal.

Sempre falava para a secretária qual tinha sido sua avaliação. Fazia anos que ela trabalhava para ele e já não sabia viver sem sua presença calada e submissa. Só uma vez Irineia levantara a voz, dois anos atrás, para defender um livro de amor e traição. Nunca antes, nunca depois.

Pegou o livro “Chuva no Telhado” – Roberto deixou fluir os originais encadernados em cor cinza pelas mãos sensíveis. Passou os dedos pelas bordas e o abriu. Leu uma página, este é pior.

Nos últimos três meses, só os originais de “Lago em Sombra” tinham sido aceitos para edição. Roberto tinha, à semelhança dos alquimistas, a busca incansável. Ainda lembrava seu avô dizendo: Existem dois tipos de editores, os editores alquimistas que procuram a pedra filosofal das palavras e os editores alquimistas que procuram simplesmente o ouro filosofal. Ele era do tipo um.

Seu avô tinha ideado um método infalível de classificar os originais. Tinha relação com o elemento ar. Talvez porque o avô Florêncio fosse de um signo de ar, Gêmeos. E toda sua vida tinha acreditado no destino e nas estrelas.

O método era o seguinte: Ruim, D – Gás estomacal. Bom – C: Gás bucal – Provinha da boca. Muito bom: B – Corrente de vento chega à garganta. Excelente: A – Gás Pulmonar . Obras de grande qualidade chegavam poucas. Extraordinário: AAA- ALENTO DE FOGO – O fogo do corpo e da alma.

Poucas obras “Alento de Fogo” havia recebido na vida. Na realidade, só recebera duas. Há trinta anos, seu avô ainda era vivo, quando receberam uma obra Alento de Fogo. O avô Florêncio estava doente, mas ao ler o texto recuperou-se totalmente e viveu mais cinco anos, com muita energia e vitalidade..

– Só o Alento de Fogo pode dar a vida… ou a morte… – disse o velho.

Dez anos atrás tinha reconhecido, ele sozinho, outra obra Alento de Fogo. Foi fascinante. A cada página que lia recuperava a vitalidade. Fez uma viagem ao redor do mundo. Nada de hotéis caros, de shoppings nem de restaurantes chiques. Caminhou pelas areias do deserto. Escalou as pirâmides, dançou na Ilha de Páscoa diante dos vigias.

Foi feliz durante dois anos. Mas a energia do alento também se esgota. Desde então, só procura o Alento. Há anos que traz os óculos grossos que escondem o desespero de sua alma na procura de um livro especial. Um livro que o tire da monotonia, da mesmice, das preocupações, do vazio da vida. Um livro revelador de um mundo paralelo que fale de suas expectativas, de seus sonhos, acertos e fracassos.

Roberto procurava na literatura, na palavra, a antiga arte da transmutação da mente. Arte anterior às técnicas da mente positiva ou da neurolinguística e outras ervas, que no seu entender, vendiam fantasias… das boas e das ruins, e algumas dessas fantasias eram terrivelmente nocivas à alma.

Roberto procurava na literatura a arte de entender o mundo. E a vitalidade para continuar a viver. A vitalidade que tinha perdido nos longos dias de leitura, na luta constante para analisar os textos com justiça. A análise e a luta com os textos sugaram sua energia. No fragor da contenda ficou míope e não conseguia enxergar a beleza da vida.

Roberto também escrevia. Ler e escrever. Escrever e ler. Sua vida tinha-se debruçado sobre os livros. Sua vida tinha-se esgotado entre letras impressas e folhas de papel. Os livros inéditos se pareciam. Eram como almas sem corpo. Todos pareciam iguais: papel branco oficio ou A4, letra New Roman ou Arial, corpo doze, duplo espaço.

Originais ruins que chegavam a suas mãos eram jogados no lixo. Não lia. Só abria três vezes o livro. Abria o livro, lia uma página e anotava a classificação. Abria de novo e lia dois parágrafos. Abria-o, pela terceira vez e só lia um parágrafo. Ele dava três chances. Só três, para cada candidato.

Originais ruins eram jogados no lixo. Não lia. E não era por falta de tempo. Nem por preguiça. Não lia porque lhe fazia mal, como a carne gordurosa o intoxicava. Intoxicava sua alma, embotava seus sentidos. Em síntese, diminuíam o ciclo de vida de Roberto.

Para Roberto, não ler lixo não era modismo, capricho, nem uma forma de esnobar a literatura. Era sobrevivência. Teve terríveis experiências, um livro mal escrito aumentava sua úlcera, desregulava os movimentos de diástole e sístole de seu músculo cardíaco.

Poucos sabiam que o alimento de Roberto era a literatura. Não só o alimento de sua alma, mas até certo ponto, a literatura era também o alimento de seu corpo. Até suas vísceras precisavam de leitura. Uma página ruim que lia, e seu corpo parecia desmembrar-se.

– Hoje não estou com sorte – pensou, enquanto terminava de ler o parágrafo. Só achou um livro
C. Classificação A e B, lia do princípio até o final. Os outros não, questão de saúde.

Ao final da tarde, recebeu a visita de seu primo José, dono de uma grande editora

– Importa-se demais com qualidade, Roberto – recriminou-o – Marketing. Agora tudo é marketing. Eu dou para o departamento de marketing ver as possibilidades de venda, a gente nunca sabe quando tem um best-seller nas mãos…

– Lembra de nosso avô Florêncio?

– Você sempre foi o neto preferido dele.

– Vô Florencio sempre dizia que um livro é como uma panela de pressão. Tem ar quente… entende, José? Todo livro tem um ar… um alento… o livro ruim é como uma panela de pressão com ar gelado, esfria o sangue nas veias, pois não foi purificado pela arte. Panela de pressão apitando, enfumaçando, é sinal do fogo do artista. Esse fogo fica impregnado em cada página, em cada parágrafo, em cada frase, em cada canto do livro.

– Panela de pressão! – exclamou José e soltou uma forte gargalhada que atravessou
o ar e bateu no relógio. O relógio deu algumas badaladas, longas, sem compasso, arrítmicas.

No dia seguinte, o céu nublou-se, a chuva bateu sobre os vidros da janela. Roberto continuara lendo. Três dias depois, voltou a sair o sol.

Nesta quinta-feira, Roberto chegou à Editora às 8 da manhã, como era habitual.

A luz estava acesa. Entrou. Dona Irineia estava de pé, falando com uma senhora baixinha e muito magra, de cabelos brancos unidos no alto da cabeça por um coque, ao estilo das avós antigas. Vestia com elegância uma blusa azul, com pequenos desenhos vermelhos e uma calça azul marinho.

– A senhora é autora – disse Irineia, sem jeito.

– Bom dia, Senhor . – disse a velhinha, fitando-o com seus olhos azuis, intensos.

– Meu nome é Maysa – apresentou-se e estendeu-lhe a mão direita para cumprimentá-lo, enquanto com a esquerda apertava os originais.

– A senhora não sabe ler? – perguntou Roberto, de forma ríspida, cruzando os braços.

– Sei, claro que sei ler – disse ela recolhendo o braço e pegando o livro com ambas as mãos.

– Pois veja, então, minha senhora! – gritou Roberto, abrindo a porta e assinalando o cartaz – Autores: Proibida a entrada.

– Senhor Roberto – disse Irineia, tentando ajudar a velha senhora – eu a deixei entrar, ela só quer falar sobre o livro. Ficou anos escrevendo e…

Roberto interrompeu sua fala. Pode deixá-lo…

Abriu a porta, entrou e sentou-se em seu lugar. Pela porta entreaberta, viu que a velha continuava em pé, imóvel.

– Fora daqui – disse entre dentes – fora, velhinha, fora. Eu não edito biografias de mortos ilustres, não edito livros de tricô, nem receitas culinárias. Escutou a velha despedir-se e o ruído da porta fechando-se. Roberto colocou enxofre nas pontas dos dedos e abriu um livro. Buscava a cada dia a áurica dos alquimistas, o mercúrio.

– Posso entrar? – perguntou dona Irineia.

Roberto ficou impressionado. Raramente ela entrava sem ser chamada.

– Peço que o senhor avalie este livro, por favor, senhor Roberto. Não tomará muito de seu tempo. Faça esse favor para mim – e colocou o livro sobre a escrivaninha.

– Está bem – disse ele, num gesto resignado, como um capitão depondo as armas.

Roberto abriu o livro. Começou a ler a página, o primeiro parágrafo e nas solas de seus pés sentiu um comichão. Segundo parágrafo e um calor começou a subir de seus tornozelos. Apertou o estômago, o batimento cardíaco chegou à garganta e transformou-se em admiração e em silêncio. Antes de terminar a página, viu um espírito, um dragão vermelho e preto. Um dragão enorme, que devorava as florestas da dúvida, derrubava as montanhas da presunção e arrasava os vales da mediocridade.

– Uma obra prima! – tentou gritar, mas não conseguiu. Sentiu um estouro na garganta… ou foi no peito? Eram cinco horas e o relógio de pêndulo começou a dar a primeira badalada.

Roberto sentiu que seu peito doía. Era uma dor dilacerante. Levou as mãos ao coração . Oh, Deus, pensou, e sentindo a morte chegar, não lamentou sua busca. Não os anos perdidos diante da escrivaninha, nem a janela fechada onde nunca entrava o vento. Não lamentou ter ficado sem amigos, em ter sido abandonado pela esposa. Não lamentou ser considerado estranho ou louco. A única coisa que lamentava era ter que partir da terra sem poder terminar de ler originais com

“Alento de Fogo”. Alento de fogo, alento de fogo, repetia. Abriu novamente o livro e tentou ler…

– Alento de Fogo! – gritou. Abriu os olhos e a boca e o espírito do livro, o dragão invisível, transformou-se numa bola de fogo incandescente, foi arremessado de seu corpo e jogou-se sobre os originais do livro. Seu rosto caía pesadamente sobre a escrivaninha, enquanto seu espírito livre revoava sobre a mesa, nas asas do dragão. A asa esquerda do dragão bateu na janela, quebrando o vidro. Entrou uma lufada de ar. Respirou profundamente. Esse ar que entrava pelo vidro quebrado lhe fazia bem, muito bem, devolvia-lhe a vitalidade.

Abriu os olhos. – Vou chamar um médico – disse Irineia.

– Não, não… estou bem. Só preciso ler.

Irineia olhou-o com assombro. Roberto abriu o livro e leu a primeira página. Sorriu.

Irineia… Irineia…. – disse com voz quase carinhosa. Irineia, estou lendo e pensando… já somos quase velhos, Irineia, passamos tantos anos trabalhando juntos… tantos anos. Olharam-se em silêncio.

– Quero dar a volta ao mundo. Quer viajar comigo, Irineia?

– Como sua secretária?

– Sim…Não! Não! Viajar comigo…. você sabe… você sabe, Irineia… Nós nos damos bem… nós gostamos dos mesmos livros…. vamos envelhecer sozinhos…. e envelhecer sozinho, é tolice, não acha? Vamos compartilhar nossos últimos anos? O que diz, Irineia?

Irineia chorava como uma criança que, no Natal, ganha um presente inesperado de Papai Noel. Só conseguiu enxugar as lágrimas. E sorrir.
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Conto de Isabel Furini, recebeu Menção Honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski, de Toledo.
Fonte:
Contos e Cronicas de Isabel Furini

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Manoel Santos Neto (Universo Poético da Cidade de São Luís do Maranhão III)

O jornalista e escritor Erasmo Dias (1916-1981) foi um intelectual maranhense que se notabilizou não apenas por escrever textos que tratam do sentido da vida, da solidariedade, do amor, da amizade, da devoção à pátria, das angústias, das grandezas e heroísmos da natureza humana. Ele publicou obras hoje pouco conhecidas, nas quais refletiu a claridade de sua cultura e de seu talento literário. São textos que, na sua quase totalidade, espelham meio século de vida maranhense, e constituem, por isso mesmo, um testemunho e um documento. Erasmo Dias, esse autor que somente agora começa a ser resgatado por uma nova – embora ainda tímida – leva de estudos e pesquisas, é dono de uma formidável produção literária, na qual ele procura retratar a gente, a cultura, as ruas, os mistérios e as mazelas de São Luís.

Com a força de sua expressão poética, o escritor Nauro Machado, ajustado à fonte inspiradora de tantos outros amantes da cidade, compõe também uma homenagem especial a São Luís com os versos do poema Pão Maligno com Miolo de Rosas, publicada em livro homônimo. Esta não é a primeira vez que o poeta publica uma ode a São Luís, sendo que a diferença é ser uma única peça poética em 95 páginas. Antes, ele editou Lamparina da Aurora, que reúne cerca de 100 poemas sobre a cidade. Escrito em redondilha maior, Pão Maligno com Miolo de Rosas tem um significado marcante para Nauro que, na hora de expressar o amor pela terra natal, vai além do aspecto físico da cidade. “Tento mostrar São Luís não só em sua esfera arquitetônica, mas em sua atmosfera moral, a sua decadência”, afirma. Daí o título do livro, Pão Maligno com Miolo de Rosas, que resume a idéia de mostrar em versos as belezas e as mazelas da cidade. O poema, inicialmente, integrava outro livro, Trindade Dantesca, que traria três trabalhos do poeta. O desmembramento da obra começou com a publicação de A Rocha e a Rosca. Nas 95 páginas, o poeta recria em versos viscerais os caminhos da cidade que aprendeu a amar, apesar dos problemas vivenciados em seu cotidiano. O título resume o objetivo do livro: falar da magia e dos desencantos da Ilha.

“São Luís, meu universo,
como uma noturna faixa,
apregoando verme e verso
para a dor que em mim se racha,”


Diz em uma das estrofes do poema dedicado, à cidade e às netas Luísa e Júlia. A cada rima, o poeta reconstrói São Luís, com sua gente, cultura, ruas, belezas e tragédias.

“No Mercado, que é Central,
meu canto palafitou-se,
ó Gavião de pedra e cal,
cemitério que é tão doce” (…)

“Nas ruas de São Luís,
nas ruas do Precipício,
da Palma e também do Giz,
da virtude igual ao vício,”
.

Tanto quanto Erasmo Dias e Nauro Machado, outros maranhenses ilustres, e de produção recente, merecem ser objeto de releituras, como Bernardo Coelho de Almeida (1927-1996) e Lago Burnett (1929-1995). Aliás, Burnett, numa de suas crônicas antológicas, publicada no Sul do País, faz um formidável louvor a São Luís, lembrando que o tema da cidade e seus signos é um velho fascínio que transcende o universo da ficção literária para encontrar sólidas raízes na filosofia, nas artes plásticas e, obviamente, na arquitetura. Desde as cidades ideais de Platão à decantada Paris do século XIX, repensada por Walter Benjamin (1892-1940), através da obra de Charles Baudelaire (1821-1867), da Alexandria prostituída e cheia de odores de Lawrence Durrell (1912-1990) às labirínticas arquiteturas de Jorge Luís Borges (1899-1986), é possível reconstituir o inventário dos lugares por onde andaram o pensamento e a imaginação humanas, ao redimensionar, em grau maior ou menor de realidade, a sua organização espacial.

A Última Canção da Ilha
Lago Burnett

Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial

Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)

A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre – agora – mágoas

Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo

Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte

Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas

Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo

Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís

Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho

Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias

A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato

Outros poucos casos
como águas insípidas
nos olhos rasos
saudades líquidas


(Os Elementos do Mito / l953)

–––––––––-
Continua…Fonte:
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Edição 116. 20 de janeiro de 2006

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Raul Pompéia (A Mona do Sapateiro)

I

Ela servia bem…

Era redondinha, rosada, bonita. Sobretudo era nova, novíssima mesmo…

Uns dezesseis anos se tanto.

Fernando e Emílio espiavam-na. Viam-na à porta da lojinha do pai, o sapateiro Cândido, um Cândido preguiçoso, ébrio e pobre. Achavam tentadora, ó diabo! a melancolia da menina, com o rosto colado ao portal da loja, observando quem passava e seguindo com um olhar expressivo as mocinhas de sua idade que transitavam de carro, ou vinham pelo passeio, a pé, apanhando garbosamente a seda farfalhante das saias para não roçarem pelo vestidinho enxovalhado e sujo, que lhe caía dos quadris.

Não trabalhava quase a filha do sapateiro. A ociosidade do pai a escusava ante a própria consciência e a opinião pública, isto é, o veredict da vizinhança.

Demais, a Joaninha vivia desgostosa. O pai, quando se embebedava, (e isto era freqüente) maltratava-a muito, injuriava-a desabridamente; chamava-a descarada, cadela… Mortificava aquilo. E ela não tinha gosto pelo trabalho. Levava as horas num farniente lânguido, aborrecida, dissolvendo-se cm mórbida tristeza, ou erguendo castelos de ouro, sobre as suas ilusões de menina ambiciosa…

Fechava-se, por exemplo, num biombo escuro existente nos fundos da loja, seu quarto de dormir; despia-se de alguns dos panos mal asseados que a cobriam, e punha-se a olhar para o corpo. Um sorriso estranho ressaltava-lhe, palpitante e ardentes, as maçãs do rosto. Joaninha deitava timidamente olhares em roda de si, como a gazela, antes de mergulhar o focinho na fonte para saciar-se; depois, cheia de feminino orgulho, passava os dedos pela epiderme velutínea dos braços e do seio. Entretanto, segredava de si para si que não ficaria mal naquele corpo uma camisinha fresca, mole, transparente, toda enfeitada de rendas… Cingia o pulso com o polegar e o dedo médio, em forma de pulseira, e imaginava o efeito de uma argola de ouro luzente, cavando-lhe ali uma cintura na carne…

E nada tinha para si, além dos maus tratos do pai e dos galanteios de alguns vagabundos atrevidos!

Os castelos perdiam-na numa ficção azul, donde a realidade a tirava com uma violência semelhante à do menino que deixa voar a avezinha atada pelo pé, e puxa então o cordel para fazê-la bater no chão e atordoar-se.

Por mais cruel entretanto, que fosse a realidade, jamais se dissipava do cérebro da moça o pensamento de melhorar de condição no mundo, subir…

Tinha ouvido dizer uma vez que a mulher tudo alcança pela formosura. Ela não era feia. Consultara o seu pequeno espelho a esse respeito e vira lá dentro uma carinha a rir de satisfeita. Era chic, bem chic. Então de corpo!… Quem seria mais elegante do que ela? Que braços mais lindos do que os seus; que cintura mais bem talhada?…

Não era sem motivo que certo moço da vizinhança lhe dava tanta atenção. Este moço não passava pela porta da loja, quando ela aí estava, que não lhe deitasse um olhar significativo – não chegava à janela da sua casa, pouco distante da loja, sem verificar se havia certa pessoa à porta daquela sapataria…

Ela era querida. Ser querida, eis a questão. Joaninha sentia-se no princípio da carreira…

Quase sempre as suas meditações eram interrompidas pelo pai.

Ou ele entrava da rua com a cabeça aquecida e a língua ardente pela ação do álcool e gritava:

Oh, Joaninha!… Onde se meteu esta peste?!… Oh, endemoninhada!…

Ou, sem estar embriagado, sentia acessos de amor paternal e chamava Joaninha, para acariciá-la, e dar-lhe conselhos. e, se estava trabalhando, deixava tudo, ia em busca da moça, bater à porta do biombo.

A Joaninha não fora possível dizer quando lhe era mais desagradável o chamado, se para a repreensão, se para o afago. Tinha contudo a necessária paciência para suportar uma cousa e outra.

Sofria tudo, confiando no futuro e adorando no fundo do peito ao jovem vizinho, como o alicerce das suas esperanças.

II

O sapateiro Cândido gostava muito de palestra. Era o seu natural… que fazer?…

Aos domingos, quando não se achava toldado pelo vinho, sentava-se à entrada da oficina, no seu banquinho de pano listrado e pernas em X, e esperava o primeiro conhecido para a prosa.

Os conhecidos vulgares não eram os mais apreciados pelo sapateiro. Ele preferia conversar com gente de gravata lavada, como um militar, uma autoridadezinha de polícia, um estudante, etc. Gente que percebesse as considerações mais ou menos digeridas que ele desenvolvia a propósito disto, ou daquilo, ou mesmo sem propósito nenhum.

Esta preferência revelava a face principal do caráter de Cândido. Não era homem de afazer-se à sua posição social. Dizia-se degradado pela necessidade. Não nascera para aquilo que era. Por isso estimava as palestras com gente boa. Tinha até predileção pelos homens ilustrados. Sim, porque ele não era qualquer ignorantão. Em pequeno, chegara a aprender geografia; e os quarenta anos que lhe pesavam nos ombros o tinham feito um tanto entendido na ciência…

Daí a amizade que ele travou com dois moços estudantes que moravam nas imediações da sapataria.

Um desses jovens era alto, magro, amorenado, cabelos negros, olhos negros, bigode vasto e queixo rapado; o outro de estatura vulgar, cheio de corpo, sangüíneo, bigode recurvado para cima, pupilas ameigadas, maneiras de conquistador; quanto ao mais trajavam ambos rigorosamente e gozavam da fama de ricos…

O moreno chamava-se Emílio; o alvo era seu companheiro de casa e colega; chamava-se Fernando.

Temos falado de ambos ao leitor.

Insinuante mancebo que era Emílio! Modos afidalgados, mas corteses, sorriso bom sempre a correr nos lábios. Fernando era insinuante como o outro, porém de gênero diverso. Derramava em torno de si uma chuva de olhares qual mais eloqüente e dizendo tanta cousa que uma mulher honesta e casta não podia afrontá-los. Punha de alcatéia os pacatos burgueses; e, mais de uma vez, o simples fato de sua passagem por junto de uma mocinha fizera agitar-se o pretropolis de honrado papai.

Fernando simpatizava com a Joaninha. Dize-lo basta para fazer evidente a atração que ligava o sapateiro e o estudante.

Travaram, pois, conhecimento Cândido e Fernando; Emílio por intermédio do amigo, entrou também na roda…

Era uma satisfação para o primeiro ter à sua porta os estudantes… Sentia-se menos sapateiro, lidando com os doutores. Pobre homem!

III

Certa ocasião, num dia santo (dia de… S. Sebastião, por sinal) os dois moços pararam à porta da sapataria; perguntaram a Cândido como ia da saúde, etc. O pai de Joaninha convidou-os a entrar. Sabia que eles eram democratas, não coravam de transpor o limiar de uma humilde oficina… Os democratas acederam ao convite. Era fim da tarde e já os lampiões da iluminação pública salpicavam a meia sombra crepuscular com as chamas esbranquiçadas do gás. A rua toda parecia respirar na sonolência inexprimível dos dias desocupados. Pouco movimento, nenhum rumor notável. No céu, nevoeiros empastados, prenhes de chuva, anunciavam uma próxima mudança de tempo. Pelo ar, espalhava-se alguma eletricidade, que impressionava os nervos, predizendo trovoada.

Os estudantes e o sapateiro conversavam. Davam à taramela a respeito de tudo, primeiro a respeito da atmosfera; depois, de S. Sebastião; em seguida, das festas de Igreja; por tocarem nisso, meteu Cândido as botas nos padres, especialmente no vigário da paróquia, um patife tão baixo para com os ricos, quanto arrogante para com os pobres, um bandalho, etc…

Entretanto, passou o caixeiro da venda do Manoel corcunda.

Escurecera completamente, mas o sapateiro tinha acendido o lampião de querosene, a cuja luz trabalhavam os seus empregados em dias de serviço. Conquanto amortecida, essa claridade enchia a oficina, desenrolando uma toalha avermelhada até ao meio da rua…

O caixeiro espiou, sorrindo de ver na oficina o Dr. Fernando R. e o Dr. Emílio ….

– Querem alguma cousa? perguntou.

Os estudantes cruzaram um olhar…

– Queremos, disse Fernando. Traga cerveja e…

– A branca!… completou Cândido.

E Fernando atirou ao caixeiro uma nota de cinco mil-réis…

O caixeiro abriu a boca, mostrando os dentes sujos, num riso malicioso, e foi-se…

Minutos depois, estava tudo aí: troco dos cinco, cerveja, a branca, bebedeira.

Os moços deram o exemplo. Dois copos e uma caneca fizeram de cristais. Começou a orgia. Saltavam as rolhas e a cerveja surgia espumosa como a saliva de um gotoso à beca das garrafas…

… As negrinhas estão babando! gritava Cândido, e estendendo o copo para colher aquela espumarada atraente…

– Vamos bebendo! diziam os estudantes.

Note-se que Fernando bebia moderadamente.

O sapateiro entusiasmou-se. Descompôs a sociedade que o maltratava, e o destino, que o perseguia; maldisse de tudo, em altas vozes, revelando raros dotes de uma oratória inchada e de má gramática.

Os moços discutiam com ele, e o faziam beber cada vez

Principiou então a perder o fio das idéias. Dissertando sobre a conveniência da instrução, apostrofava subitamente os seus empregados que lhe comiam o dinheiro sem trabalhar.

– Corja de bêbados! urrava…

Iam-lhe as palavras tornando pegajosas de mais a mais, a língua pesava-lhe sobre os dentes inferiores, e os estudantes a ministrarem-lhe copos sobre copos…

O bêbado afastava os cantos da boca num sorriso bestial, as pálpebras caíam-lhe como bambinelas e, nos olhos semicerrados, moviam-se languorosamente as pupilas, como se estivessem também embriagadas.

Emílio e Fernando riam gostosamente, oferecendo ao sapateiro mais cerveja e mais aguardente. O infeliz, encantado pela transparência brilhante dos copos, deixava-se atordoar e ia bebendo… bebendo.

Numa porta que se rasgava como um paralelogramo negro ao fundo da loja, assomou um vulto. Parecia uma coluna de fumo alvacento a flutuar nas trevas. Os moços sentiram-no. Emílio voltou a cabeça; Fernando voltou a cabeça. Era a menina!…

Joaninha percebera os rumores da orgia. O que seria? Convinha ver…

Estivera espreitando.

O estado do pai confrangia-lhe o coração, à força de causar-lhe nojo. Aquilo já não era beber! Porque nascera ela daquele homem? Deus não podia ter-lhe dado um pai menos borracho? E tinha de amá-lo!… E ela o amava, mesmo; sentia-o às vezes… Que miseráveis eram aqueles que ali estavam a escarnecer do pobre homem?

Devia verificá-lo e censurar os malvados. Quis entrar na loja…

Os homens, porém, tinham voltado o rosto e ela que já os suspeitava viu que eram os dois vizinhos, aquele que lhe dava muita atenção, e o companheiro…

A figura do pai, com a cabeça pendida, balanceando à toa como a de um morto; as pernas distendidas e os braços caídos como pedaços de chumbo, desfez-se-lhe, com o deslumbramento que lhe causou o olhar de um dos moços, de Fernando.

Fernando era o seu namorado, isto é, o moço que podia servir-lhe. Um belo rapaz; tanto melhor. O que a dispusera para amá-lo, para notar-lhe as feições, fora o ser Fernando um moço de fortuna como revelava pelo rigor do traje e pelo seu modo de vida. Demais o estudante gostava dela, não havia que duvidar. Disso possuía mil provazinhas galantes que o moço lhe dava e que ela compreendia sem custo. Com Fernando se casaria.

Por que não?

Ela pobre, mas bonita; ele namorado e rico…

IV

Adiantara-se muito a noite. A rua ficara sem viva alma. Alguns trovões pouco intensos abalavam de longe em longe o ar. Na loja do sapateiro Cândido são havia como lá fora pessoa alguma, a não ser o indivíduo que dormia sobre um assento, encostado à parede. Era o bêbado. Os estudantes tinham desaparecido.

Emílio propositalmente deixara Fernando só e fora-se para a casa. O namorado de Joaninha, tendo recostado como melhor pôde o sapateiro, adormecido na mais absoluta embriaguez, encaminhara-se para a porta onde vira a Joaninha mostrar-se.

A mocinha não estava mais aí. Fernando olhou para trás, como temendo que o pai da sua querida despertasse e adiantou-se para o interior. Sabia que Joaninha era órfã de mãe, e, naquela casa, residia com o pai unicamente. Não eram, pois, de recear encontros.

Barafustou por vários aposentos, onde não se distinguia um só objeto, na massa compacta de negruras que havia neles. O coração palpitava-lhe violento como se não estivesse a gosto no tórax. O cheiro de couros e graxas que corrompia o ambiente incomodava-lhe o olfato…

Sem saber como, viu-se o moço em uma saleta mais clara (menos escura, fora melhor). Uma janela envidraçada apresentava um pedaço de céu sombrio, um pouco menos, contudo, que as paredes da saleta. Relâmpagos brancos, demorados, iluminavam os caixilhos da vidraça como clarões brincando num painel fantástico. Estes clarões faziam uma rápida solução de continuidade em a noite. Um dia veloz penetrava na saleta e fugia num instante, mal permitindo que se visse no centro da sala uma mesinha coberta de objetos insignificantes e um velho sofá vizinho da janela.

Neste sofá estava sentada Joaninha. Quando um relâmpago mostrou-lhe o namorado a entrar, ela sorriu e baixou o rosto acanhadamente.

– Até que enfim meu anjo! disse Fernando, com voz um tanto comovida.

O moço estava habituado às entrevistas; mas aquela era de ordem excepcional. Fora tão longamente preparada, que, quando a grande hora chegou, o herói sentiu-se abalado. A filha de Cândido gozava um sobressalto delicioso. Havia se retirado da loja, para ser seguida pelo dileto do seu coração. Ali estava ele.

A um segundo relâmpago, a mocinha viu junto de si o mancebo e, apenas voltou a escuridão, sentiu um braço musculoso enlaçando-lhe a cintura, apertando-a com arrebatamento contra um peito largo, onde havia palpitações que eram marteladas.

Joaninha pendeu a cabeça para o ombro daquele homem.

Caiu numa dormência povoada de visões. A noite pareceu-lhe sulcada por mágicas irradiações de esquisito fulgor, a cruzarem-se no espaço, como para circundar uma figurinha de criança que lhe sorria de longe, agitando as mãos…

Quando terceiro relâmpago clareou a saleta, os dois namorados cingiam-se num abraço de despedida.

– Meu noivo!… dizia a moça com os lábios sobre a face de Fernando.

– Minha noiva! ciciava este ao ouvido dela…

E lá fora o trovão rufava com força, fazendo estremecer a vidraça.

V

Em seguida Joaninha conduzia seu noivo até à porta da rua.

Na oficina jazia o sapateiro estendido no chão, a dormir como um porco. Escorregara do assento, em que o tinha deixado Fernando.

Chovia bastante, àquela hora, e a água, entrando pelo vão da porta da loja, inundava o chão. Cândido parecia boiar num lago.

Os noivos não lhe deram atenção… Apertaram-se as mãos e Joaninha perguntou graciosamente:

– Como se chama, mesmo, você?…

– Felizardo… flor…

– Bem… Agora, Felizardo, até…

– Logo, Joaninha…

Dando esta resposta, Fernando abriu o guarda-chuva que trouxera.

– Adeus! atirou-lhe a filha do sapateiro.

– Adeus! disse ele, sorrindo.

E partiu.
……………………………………………….

Pouco depois, Fernando e Emílio conversavam em sua casa.

– Com que, graceja Emílio, conseguiste, meu felizardo, plantar uma lança em África!…

– Sabes que sou decidido, observou Fernando, pavoneando-se… Mas o principal é que temos de nos mudar desta casa, já e já… não quero que a pequena me torne a ver…

– Fazemos a mudança amanhã mesmo; olha, o Z mudou-se há dois dias; temos a casa dele…

– O diabo é esta chuva… parece que o céu está chorando…

Todo estudante é mais ou menos poeta. A frase de Emílio inspirou-lhe uma idéia.

– Deixa estar, Fernando, que hei de dedicar-te um soneto com este título: a queda de um querubim, onde farei o céu deplorando uma virgem…

– E eu, replicou o companheiro distraidamente e rindo, hei de dedicar-te um com este outro titulo: a mona do sapateiro.

Fonte:
http://leituradiaria.com

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Soares de Passos (Últimos Momentos de Albuquerque)

Ao meu amigo A. Aires de Gouveia.

Companheiros, sinto a morte
Pairando já sobre mim;
Cessaram vaivéns da sorte,
Desço à terra donde vim…
Do cálice da desventura
Eis esgotada a amargura;
No leito da sepultura
Terei descanso por fim.

Terei: a campa é um asilo
Que ao ímpio deve aterrar,
Mas eu dormirei tranquilo
Sob a lájea tumular.
Eu… desgraçado, que digo!
Nem lá espero um abrigo,
Que os meus restos no jazigo
Irão talvez insultar.

Murmurando: «aqui repousa
Um desleal português»,
Irão partir minha lousa,
Meu nome calcar aos pés;
E o guerreiro que descansa
Não poderá, por vingança,
Brandir na dextra uma lança,
Cingir ao peito um arnês…

Quais foram, rei, os meus crimes
Para haver tal galardão?
Porque a fronte assim me oprimes
Com a tua ingratidão?
De vis intrigas cercado
Ouviste seu ímpio brado,
E sobre as cãs do soldado
Lançaste negro baldão.

Não merecia tal prémio
Quem debaixo deste céu,
Da roxa aurora no grémio
Um novo império te deu;
Quem à custa duma vida
Nas batalhas consumida,
Ante as quinas abatida
A Índia inteira rendeu.

Por dar-te a c’roa brilhante
Que em tua fronte reluz,
Fiz a meus pés arquejante
Cair a opulenta Ormuz:
Malaca sentiu meu raio,
E em Goa, roto o Sabaio,
Entre o sangue, entre o desmaio,
Alcei o pendão da cruz.

Então desde o Nilo ao Ganges
Cem povos armados vi,
Erguendo torvas falanges
Contra mim e contra ti;
Vi os filhos do deserto
Em ondas rugindo perto;
Mas com ferro em campo aberto
Às suas iras sorri.

Contra as lanças portuguesas
A Índia lutou em vão,
Que em troca d’ouro e riquezas
Veio comprar seu grilhão.
Aos golpes dos meus soldados
Vi seus tronos abalados,
Vi ante mim ajoelhados
Reis d’Onor e de Sião.

Mas d’Ásia não pôde o ouro
Cegar-me com seu fulgor,
Porque a honra ó o tesouro
Dos meus passados, senhor.
Eu quis adornar-te a frente
Cum diadema refulgente:
Ganhei o ceptro do Oriente,
E a teus pés o fui depor.

Nesses campos de batalha,
Onde audaz o conquistei,
Das armas sob a mortalha
Porque exangue não findei?
Entre os louros da vitória
Morrera ao menos com glória;
Do teu soldado a memória
Não a mancharas ó rei.

Eu desleal?! se meus brados
Podem chegar até vós,
Erguei-vos, restos sagrados
De meus extintos avós!
Erguei-vos da campa fria,
E com sangue, à luz do dia,
Lavai a nódoa sombria
Que arrojaram sobre nós!

Eu desleal?! mas ao mundo
Que vale queixas mandar?
As vozes dum moribundo
Não vão na terra ecoar…
Surge, ó morte!… e vós, amigos,
Sócios de tantos perigos,
Vinde… nem só inimigos
Me restam ao expirar.

No reino vos deixo um filho –
N ossos feitos lhe ensinai;
Dizei-lhe qual foi o trilho
Que em vida seguiu seu pai…
Dizei-lhe qual foi meu norte;
Mas, enquanto à minha sorte,
Oh! não lhe aponteis a morre,
A vida só lhe apontai…

E se falardes um dia
A dom Manuel, o feliz,
Dizei-lhe que na agonia
Albuquerque o não maldiz;
Que à beira da sepultura,
Para um filho sem ventura,
Invoco sua ternura,
Se alguns serviços lhe fiz.

E vós… e vós, portugueses,
Nossa pátria defendei;
Dai-lhe os peitos por arneses,
Seja a pátria vossa lei.
Num trono que ela não tinha
Eu vo-la deixo rainha,
Mas não sei o que adivinha
Meu pensamento… não sei…

Entre as sombras do futuro,
Meu Deus! a pátria em grilhões!…
Pelo mar em vão procuro
Seus orgulhosos pendões…
Coberta d’amargo pranto,
Lá se envolve em negro manto…
Lá roja a face em quebranto…
Ela, a grande entre as nações!…

Oh! se este braço pudera
A fria lousa quebrar,
Este braço inda se erguera
Da tumba, para a salvar;
Apontando-lhe a vingança;
Inda lhe dera esperança,
E empunhando a antiga lança,
À morte a fora arrancar.

Mas eis marcado o momento
No livro d’além dos céus…
Eis a morte… o passamento…
São findos os dias meus…
Companheiros da vitória,
De tantos dias de glória,
Guardai… guardai na memória,
D’Albuquerque o extremo adeus…

A morte… a morte… que anseio!
Sinto um gelo sepulcral…
Abre-me, ó terra, o teu seio,
Quero o repouso final.
Desce, guerreiro cansado,
Desce ao túmulo gelado…
Mas a afronta… desonrado…
Índia… filho… Portugal!…
Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Mitos e Lendas (O Carneiro Encantado)

No lugar Passagem de Santo Antonio, Maranhão, fronteira com o Piauí, margem do rio Parnaiba, os viajantes vêem um carneiro gigantesco com uma estrela resplandescente na testa… Às vezes o brilho da estrela parece extinguir-se, mas bruscamente se aviva com luminosidade deslumbrante.

Dizem que há muito tempo, os ladrões assassinaram um monge missionário que voltava ao convento carregado de esmolas.

Mataram e roubaram o frade.

Terminando o crime, tocados pelo remorso, resolveram sepultar o cadáver enterrando também as esmolas junto com o corpo.

De vez em quando o monge aparece durante a noite, transformado no grande carneiro branco e tendo na testa estrela deslumbrante símbolo da pureza enterrada.
Fonte:
Colhido por Jerônimo B. Monteiro e publicado em sua coluna Lendas, mitos e crendices
Jangada Brasil. Setembro 2010 – Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário

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Clássicos do Cancioneiro Popular (O Boi Barroso)

Meu bonito boi barroso
Que eu já contava perdido
Deixando o rastro na areia
 Foi logo reconhecido

Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora
E grite: aperta, gente
Que o meu boi se vai embora!

No cruzar de uma picada
Meu cavalo relinchou
Dei de rédea para a esquerda
E o meu boi me atropelou

Ajudai-me, companheiros
Não me deixem morrer só
Ali vem o boi barroso
Estralando o mocotó!

Nos tentos levava um laço
Com vinte e cinco rodilhas
Pra laçar meu boi barroso
Lá no alto das coxilhas

Mas no mato carrasquento
Onde o boi ‘stava embretado
Não quis usar o meu laço
Pra não vê-lo retalhado

E mandei fazer um laço
Da casca do jacaré
Pra laçar meu boi barroso
Num redomão pangaré

E mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga
Pra laçar meu boi barroso
Lá no passo da restinga

E mandei fazer um laço
Do couro da capivara
Pra laçar meu boi barroso
Nem que fosse a meia-cara

Estribilho
Meu boi barroso
Meu boi pitanga
O teu lugar
É lá na canga

Fonte:
Jangada Brasil
Setembro 2010 – Ano XII – nº 140
Edição Especial de Aniversário

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Adriana Abujamra Aith (Sozinha)

Sozinha, coitada.
Nunca estava acompanhada.
Pega-pega, sozinha não tinha.
Queimada, sozinha não dava.
Então, ela sentava a pensar.
Mas estava tão sozinha que nem pensamento vinha.
Se Sozinha assim estava,
mais sozinha ia ficar,
Porque o S da Sozinha resolveu se mandar.
Mal Ozinha se deu conta, o O aproveitou o embalo e saiu rolando.
Desolada, sentia-se uma zinha qualquer.
“Ô, Zinha”, disse o Z.
E zapt, fugiu ligeiro, deixando Inha para trás.
“Inha, Inha, inhaaaá!”
Desandava a chorar.
Chorava, chorava até a lágrima secar.
E agora, o que fazer?
Olhou para um lado.
Olhou para o outro.
Para lá, para cá.
Até que seu pé se animou. Levantou a Inha e se pôs a sambar.
Ali de cima, os olhos de Inha observavam o seu pé,
que sacudia e sacudia.
E sacudindo contagiou o joelho,
que remexeu a coxa e fez o bumbum rebolar.
Do bumbum para a barriga foi um estalo.
Os ombros, que não são bobos, entraram logo no embalo.
Quando Inha percebeu, do pescoço para baixo estava um grande alvoroço.
Só faltava a cabeça. Então a boca disse: “Entre na dança.” Êba! Vamos lá!
A alegria era tanta que atraiu muita gente. E todos os pés ali presentes convenceram seus donos a participar.
Inha estava contente, mas tão contente, que nem se lembrava mais do tempo em que tinha um S, um h e um Z,
que a deixavam Sozinha.
Deles queria distância. Mas não entendam mal. O S para um samba,
o O num oi e o Z para um ziriguidum seriam sempre bem-vindos.

Fonte:
Revista Nova Escola

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Adelto Gonçalves (O Feminismo Negro de Paulina Chiziane)

Publicado no livro Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41. 
–––––––––––

Para João Craveirinha, pela amizade e pelos subsídios fornecidos para este ensaio.

I

Se a literatura escrita por mulheres já é um mundo diferente, abordado por ângulos que romancistas e contistas homens dificilmente veem, imaginemos, então, o que pode ser o mundo visto por uma mulher africana, moçambicana, ainda mais se é governado por costumes e tradições que nos soam estranhos. Esse estranho e mágico mundo é o que oferece em seus livros Paulina Chiziane (1955), a primeira romancista negra de Moçambique.

Diz-se aqui primeira romancista negra porque não seria correto chamá-la de primeira escritora moçambicana, pois Lília Momplê (1935), nascida na Ilha de Moçambique, autora de livros de contos e de uma biografia, professora, funcionária da Unesco e ex-secretária-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, apareceu antes dela, já à época pós-Independência. E é provável que haja outras moçambicanas autoras de livros. Acontece que Lília Momplê, descendente de macua, é mestiça, carregando sangue europeu nas veias. E, se o critério for o de uma suposta africanidade, Paulina seria a primeira negra escritora de Moçambique, mas definitivamente não é a primeira moçambicana escritora.

É claro que estes “divisionismos cromáticos” não levam a nada, até porque ninguém seria mais ou menos moçambicano por causa da cor da pele. Seja como for, o que se sabe é que na sociedade moçambicana destes dias há duas versões para esta questão: uma para consumo interno (que nem todos são tão escuros) e outra para consumo externo (mais abrangente). Isto sem contar certos “paternalismos colonialistas” que levam escritores de Moçambique e Angola, com raízes mais européias do que afrobanto, a encontrar melhor recepção na indústria editorial, além de maior divulgação pelos meios de comunicação da antiga metrópole e do Brasil. Ou será que é só por falta de informação ou coincidência que na universidade brasileira, durante encontros sobre literatura africana de expressão portuguesa, só se fala em Mia Couto (1955), José Eduardo Agualusa (1960) e Pepetela (1941)?

Afinal, não se pode dizer que Paulina Chiziane seria desconhecida no Brasil. De Paulina, a Companhia das Letras, de São Paulo, em 2004, lançou o romance Niketche. Uma história de poligamia, que a Editorial Caminho, de Lisboa, publicou em 2002, enquanto seus outros livros ainda aguardam a boa vontade de algum editor brasileiro.

Nascida em Manjacaze, na província de Gaza, ao Sul de Moçambique, Paulina viveu no campo até os sete anos, quando se mudou para os subúrbios da cidade de Maputo, onde freqüentou estudos superiores de Lingüística na Universidade Eduardo Mondlane, sem concluí-los. Nasceu numa família protestante onde se falavam as línguas chope e ronga.

No campo falava a sua língua materna, o chope, e, quando se mudou para a cidade, teve de aprender o português na escola, enquanto era obrigada nas ruas a falar o ronga, a língua nativa de Maputo. “Sou chope, o meu pai era alfaiate de esquina, só depois arranjou uma barraca. A minha mãe sempre foi camponesa, às vezes ficava uma semana sem vir à casa, a tratar da machamba (plantação de mandioca)”. A voz da escritora moçambicana Paulina Chiziane é serena, mas o orgulho das origens é indisfarçável.

Aprendeu a língua portuguesa na escola da missão católica. Aos 20 anos, cantou o hino da independência moçambicana, gritou contra o imperialismo e o colonialismo e, depois, com a guerra civil (1975-1992) que arrasou o país, desencantou-se. Por isso, os seus livros nem sempre falam diretamente da guerra, mas de um país destruído, da miséria de seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte.

Participou ativamente da vida política de Moçambique como membro da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), na qual militou durante a juventude, tendo sido eleita nas primeiras eleições multipartidárias em 1994. Mas trocou a vida partidária para se dedicar à escrita, ao trabalho na Cruz Vermelha e à publicação das suas obras, provavelmente, desiludida com o machismo que ainda marca as relações políticas no país.

II

Em seu último livro, O alegre canto da perdiz (2008), além dessas questões que marcam a secular submissão da mulher ao universo do homem em certas sociedades africanas, Paulina leva o leitor a confrontar-se também com a questão do reducionismo praticado por quem olha a África de fora e procura apresentar a sua História e sua Literatura como se o continente africano se tratasse de um só país, tal como denunciou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (1977) em seu discurso contra o perigo de se ouvir e repetir uma história única, a dos vencedores. (ADICHIE, 2009).

Como muito bem observa Nataniel Ngomane, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Eduardo Mondlane, no posfácio que escreveu para este livro, Paulina, se não é a primeira, com certeza, é a voz que mais alto se eleva hoje para recuperar temas “esquecidos” por aqueles autores africanos de expressão portuguesa cujas raízes remontam ao colonialismo – ainda que sejam críticos ou tenham lutado contra o colonialismo –, ao aflorar temas como o racismo, a assimilação, a subjugação de valores africanos aos valores europeus, a poligamia, as relações de subserviência não só no lar, mas entre nações e grupos étnicos.

Como o fizera em Balada de amor ao vento (1990), seu livro de estréia, com Sarnau, em Ventos do apocalipse (1999), com Minosse e Wusheni, em O sétimo juramento (2000), com Vera, e em Niketche (2002), com Rami, mulheres que vão à luta, em O alegre canto da perdiz, Paulina apresenta Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta, uma geração de avó, filha e netas, personagens metonímicas que se desdobram e mostram os conflitos da sociedade na Zambézia, província moçambicana do Centro-Norte, onde a autora vive há largos anos.

A metáfora unificadora deste livro está em que a Zambézia seria o centro do cosmos, com os Montes Namuli como o ventre do mundo ou o berço da Humanidade. E isso vem oportunamente ao encontro de uma investigação genética mundial hoje em curso denominada “The Genographic Project”, da revista National Geographic, em parceria com a IBM, que aponta que a espécie humana saiu de um tronco comum africano e que o que existe hoje no mundo – e que, no passado, chamávamos de “raças” – são variantes de uma marca genética comum.

Dessa forma, os atuais moçambicanos, independentemente de que nação sejam, segundo essas pesquisas, seriam do haplogrupo L0 do tipo mtDNA ( mt de linhagem mitocondrial), que teria surgido há cerca de 100 mil anos na África Oriental, expandindo-se para o Oeste e o Sul e mesmo para fora de África. Surpreendente é o fato detectado de que partilhamos uma linhagem comum, ou seja, não seriam necessários mais que 20 mil anos para que africanos mais escuros e de olhos pretos se tornassem europeus nórdicos muito mais claros e de olhos azuis e vice-versa. “Toda a raça humana é mestiça de cruzamentos híbridos muito antigos”. (CRAVEIRINHA, 2005, pp.103-104).

A partir da reconstrução desse mito – que, agora, começa a ganhar bases científicas –, Paulina reconstitui também o mito da origem matricial do mundo. E por que a Zambézia? É que essa é a região africana em que se deu com maior intensidade a miscigenação, a ponto de ser conhecida como o Brasil da África.

Ao revisitar os mitos da origem matricial, Paulina repete o que o antropólogo cubano Fernando Ortiz (1881-1969), com base nas idéias do antropólogo polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942), batizou de transculturação, vocábulo que mais bem expressa as diferentes fases do processo transitório de uma cultura para outra, pois esta não consiste em apenas adquirir uma distinta cultura, que a rigor é o que o termo anglo-americano acculturation significa com toda a soberba de quem o cunhou, mas o processo implica necessariamente a perda de uma cultura precedente, ou seja, uma parcial desculturação, e significa a criação de novos fenômenos culturais (ORTIZ, 1973, pp.134-135).

Em outras palavras: não há aculturados, no sentido da perda de uma cultura própria substituída pela do colonizador (e no sentido africano o colonizador aqui não é só europeu, mas refere-se também a povos africanos e outros que colonizaram e subjugaram povos africanos, vendendo-os aos traficantes europeus). É o que se pode compreender melhor nas palavras do escritor peruano José María Arguedas (1911-1969), igualmente antropólogo: “Não sou um aculturado: sou um peruano que orgulhosamente, como um demônio feliz, fala em cristão e em índio, em espanhol e em quechua”. (ARGUEDAS, 1975, p.282).

O drama da África passa exatamente pelo que outros povos fizeram dela, o que não significa que se o continente tivesse continuado isolado, teria tido um futuro melhor. Um drama que Paulina soube como ninguém resumir nestas linhas de O alegre canto da perdiz: “As mães gostam de dar aos filhos nomes de fantasia. Nomes de passageiros, de vagabundos. Os negros converteram-se. E começaram a chamar-se Sofia, Zainabo, Zulfa, Amade, Mussá. E tornaram-se escravos. Vieram os marinheiros da cruz e da espada. Outros negros converteram-se. Começaram a chamar-se José, Francisco, António, Moisés. Todas as mulheres se chamaram Marias. E continuaram escravos. Os negros que foram vendidos ficaram a chamar-se Charles, Mary, Georges, Christian, Joseph, Charlotte, Johnson. Baptizaram-se. E continuaram escravos. Um dia virão outros profetas com as bandeiras vermelhas e doutrinas messiânicas. Deificarão o comunismo, Marx, marxismo, Lénine, leninismo. Diabolizarão o capitalismo e o Ocidente. Os negros começarão a chamar-se Iva, Ivanova, Ivanda, Tania, Kasparov, Tereskova, Nadia, Nadioska. E continuarão escravos. Depois virão pessoas de todo o mundo com dinheiro no bolso para doar aos pobres em nome do desenvolvimento. E os negros chamar-se-ão Sofia, Karen, Tânia, Tatiana, Sheila. Receberão dinheiro deles e continuarão escravos”. (CHIZIANE, 2008, pp.156-157).

III

Paulina recusa o rótulo de romancista, definindo-se apenas como contadora de histórias, inspirada naquilo que ouviu, quando criança e adolescente, da boca dos mais velhos à volta da fogueira. É o que faz em seu romance Niketche, nome que define uma dança de iniciação sexual feminina da Zambézia e de Nampula, no Norte do país, região predominantemente macua, onde está a Ilha de Moçambique, primeira capital das possessões portuguesas da África Oriental e local de desterro do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), por onde passaram também em épocas diversas os poetas Luís de Camões (c.1524-1580) e Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).

É de lembrar ainda que na Zambézia, de que fala Chiziane, nas décadas de 30 a 50, ainda praticava-se o muhito que era uma cerimônia da puberdade feminina da região dos lomués (alguns deles, entre 1800 a 1840, foram levados para Santa Catarina e São Paulo como escravos), que etnolinguisticamente pertencem ao grupo dos macuas que também foram levados para o Brasil e espalhados da Bahia a Montevidéu, ao final do século XVIII, ápice do comércio negreiro na Ilha de Moçambique em direção ao Sul da América. Essa cerimônia antiga, o muhito, consistia em preparar a jovem mulher para servir o homem (macho alfa) em plenitude quer no prazer sexual quer na alimentação.

O romance conta a história de amor entre Rami, mulher do Sul e de nível social superior à da imensa maioria das mulheres do país, e Tony, alto funcionário da polícia em Maputo. Casada há vinte anos de papel passado e aliança no dedo e mãe de muitos filhos, Rami, desprezada pelo marido, desconfia de aventuras extraconjugais de Tony. Então, descobre que o marido tem mais quatro mulheres e muitos filhos. Vai à casa de cada uma das rivais, às vezes sai no braço com elas, mas, no final das contas, trava amizade com todas a ponto de, em certo dia, reuni-las em sua casa para fazer uma festa-surpresa ao marido.

A iniciativa, porém, desperta a ira da sogra de Rami, para quem a monogamia é um sistema desumano que marginaliza uma parte das mulheres, privilegiando outras, “que dá teto, amor e pertença a umas crianças, rejeitando outras, que pululam pelas ruas”. Diz a sogra: “O meu Tony, ao lobolar cinco mulheres, subiu ao cimo do monte. Ele é a estrela que brilha no alto e como tal deve ser tratado. E tu, Rami, és a primeira. És o pilar desta família. Todas estas mulheres giram à tua volta e te devem obediência. Ordena-as”. (CHIZIANE, 2002, p. 125).

Lobolo é o dote que o homem dá à mulher ao casar, mas lobolar aqui serve também para definir o ato de quem sustenta um lar. Ao conhecer suas rivais, Rami vai entrar em contato com séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e também com a diversidade de mundos e culturas que convivem em Moçambique.

É difícil entender estes pensamentos sem conhecer a dimensão da tragédia africana. Em país de poucos homens – milhares morreram na guerra, muitos ficaram mutilados, outros tantos emigraram –, as mulheres, aparentemente, aceitam dividir seus maridos umas com as outras, embora a poligamia venha de tempos já perdidos, quando os cultores do Islã desceram a África e disseminaram suas crenças e costumes.

Em alguns lugares de Moçambique, como na província sulista de Gaza, é comum que a mulher atenda ao chamado do marido de imediato, largando tudo o que está fazendo. Mais: quando o marido chama, ela não pode responder de pé. (CHIZIANE, 2002, p. 128). Também é difícil entender esta conversa sobre violência na família em que o imaturo Tony, fruto típico de uma sociedade patriarcal (CORREA, 2004), justifica a sua condição de polígamo: “Nunca maltratei a Lu, bati nelas algumas vezes, apenas para manifestar o meu carinho. Também te bati algumas vezes, mas tu estás aí, não me abandonaste para lugar nenhum. A minha mãe sempre foi espancada pelo meu pai, mas nunca abandonou o lar. As mulheres antigas são melhores que as de hoje, que se espantam com um simples açoite (…)”. (CHIZIANE, 2002, pp.282-283).

Ou entender o conformismo de Rami: “(…) Transmito às mulheres a cultura da resignação e do silêncio, tal como aprendi da minha mãe. E a minha mãe aprendeu de sua mãe. Foi sempre assim desde tempos sem memória (…). (CHIZIANE, 2002, p. 254).

IV

Para as seguidoras de Simone de Beauvoir (1908-1986) e Flora Tristán (1803-1844), tudo isto, certamente, parece estranho, mas é a forma que Paulina encontrou de denunciar o sofrimento das mulheres africanas, subvertendo os valores tradicionais. Isso não significa que partilhe integralmente dos valores das feministas brancas. A dita civilização branca já levou tanto sofrimento à África que qualquer idéia, mesmo emoldurada por valores humanitários, sempre é recebida com desconfiança. E não poderia ser diferente.

O trágico é que o grito de Paulina, dificilmente, será ouvido ou compartilhado pelas mulheres de Moçambique, pois os escritores africanos escrevem para o leitor branco de fora de seus países que pode comprar seus livros, já que, em razão dos altos índices de analfabetismo e dos baixos níveis socioeconômicos, as tiragens nos países africanos de língua portuguesa são ínfimas, o que não significa que em Portugal e no Brasil sejam muito superiores.

Em Balada de amor ao vento (1990), seu primeiro romance, Paulina recupera as histórias dos rongas e dos chopes, que ouviu em sua infância, quando ficava a escutar a avó contar casos ao pé da fogueira. Os rongas, o povo do Sol Nascente, chegaram à região de Maputo há mais de 700 anos, procedentes dos Grandes Lagos. O povo chope veio da província de Gaza e da província de Inhambane, falando línguas bantu, da família Niger-Congo. Essas populações já estavam à beira da baía de Maputo quando os portugueses chegaram em 1502 à Terra dos Mpfumos (Grande Maputo), com o navegador Luís Fernandes à frente, numa caravela perdida de um comboio que seguia rumo à Índia (CRAVEIRINHA, 2002, p. 20).

As duas línguas que compõem este grupo são o XiChope, falado principalmente nos distritos de Inharrime e Zavala e no posto administrativo de Chidenguele, e o biTonga, falado na cidade de Inhambane e nos distritos de Maxixe e Jangamo. Estas são as origens de Paulina. Uma das histórias de sua gente é a de Sarnau, a jovem que descobriu que amava Mwando, um rapaz que estava encaminhado para ser padre. Como o namoro não prosperava, cada um vai para um lado e Sarnau acaba virando uma das mulheres do rei das terras de Mambone.

Paulina conta a história desse relacionamento, da juventude à idade madura, suas alegrias e sofrimentos, até a separação dolorosa e o reencontro. Mas, antes de tudo, trata do conflito vivido por uma moçambicana entre o mundo moderno e o mundo tradicional, a África arcaica, seus valores eminentemente machistas em que a mulher só existe para servir ao homem e constituir seu objeto de desejo.

Depois de casada e bem casada, Sarnau vê Mwando reaparecer e vive outro romance. Perseguidos, acabam de novo separando-se. Mwando, depois de se envolver com a mulher de um sipaio (soldado), foi deportado para Angola, onde passou quinze anos a plantar cana e café. Um filho de Sarnau, gerado por Mwando enquanto ela era rainha, acaba coroado rei, depois da morte do presumível pai, enquanto a mãe é obrigada a cumprir um destino de prostituição para sobreviver.

Este é um livro feminista, mas feminista à maneira africana: não é uma obra que desafie o estatuto da mulher africana ou moçambicana. Aliás, usar termos como africana e moçambicana é correr o risco das generalizações. No próprio Moçambique, há flagrantes diferenças: o Norte é uma região matriarcal, onde as mulheres têm mais liberdade, enquanto o Sul e o Centro são regiões patriarcais, extremamente machistas. E a narrativa de Balada de amor ao vento ocorre em Gaza, a mais machista de Moçambique, onde a mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos.

V

Portanto, este livro traz o olhar do feminismo negro, que é diferente do feminismo branco, porque muito mais trágico. Ou alguém duvida que a mulher negra sempre foi muito mais oprimida e massacrada que a branca, que vive do suor de seu próprio rosto há muito mais tempo, que responde por sua própria família desde épocas imemoriais, embora fuja à luz da razão discutir gradações de violência?

Basta ler Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII, de Luciano Figueiredo, para se perceber que o papel da mulher – e, mais ainda, da mulher negra – sempre foi esquecido nos livros de História do Brasil, como se a colonização e a ocupação do território tivessem resultado apenas da ação do homem (FIGUEIREDO, 1997, p.16). E que teriam sido raras as mulheres européias que migraram para o Brasil e para a América hispânica, até porque nos séculos XVI, XVII e ainda XVIII havia muitas restrições à presença feminina a bordo de embarcações.

E, portanto, foram indígenas as mulheres que acolheram o afeto não só dos primeiros colonizadores como de tantos outros que continuaram a chegar ao Novo Mundo, bem como o fizeram as africanas e as miscigenadas, anos mais tarde, constituindo uniões consensuais e o concubinato, práticas contra as quais de pouco valia o pífio combate moralizante empreendido pela Igreja. Foi dessa população mestiça que nasceu, inclusive, a elite econômica brasileira que nunca foi branca, embora sempre tenha procurado se passar por tal.

Por isso, as poucas mulheres idealizadas por nossa poesia arcádica oitocentista, como Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e Bárbara Eliodora, de Alvarenga Peixoto (1744-1793), só foram incensadas pelo Romantismo do século XIX porque eram brancas, enquanto a negra Francisca Arcângela Cardoso, que deu quatro filhos ao mavioso Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e lhe inspirou vários poemas, está esquecida até hoje.

Tal como na África a mulher negra na América também buscou suas próprias estratégias de sobrevivência, desempenhou papéis econômicos, criou os filhos e protagonizou muitas histórias – que, com certeza, estão à espera do talento de uma Paulina Chiziane brasileira para contá-las como se conta histórias à beira da fogueira e seguir uma tradição iniciada pela maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), a primeira romancista negra do Brasil.

Referências bibliográficas

ARGUEDAS, José María. El zorro de arriba y el zorro de abajo. Buenos Aires: Losada, 1975.
CABAÇO, José Luís. Moçambique: identidades, colonialismo e libertação. São Paulo: Unesp São Paulo, 2009.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. Lisboa: Caminho, 2003.
________________. Niketche. Uma história de poligamia. Lisboa: Caminho, 2002.
________________. O alegre canto da perdiz. Lisboa: Caminho, 2008.
________________. O sétimo juramento. Lisboa: Caminho, 2000.
________________. Ventos do apocalipse. Lisboa: Caminho, 1999.
CRAVEIRINHA, João. Jezebela: o charme indiscreto dos quarenta. Crónica de uma mulher. Lisboa: Universitária Editora, 2005.
________________. Moçambique: feitiços, cobras e lagartos. Lisboa: Texto Editora, 2002.
FIGUEIREDO, Luciano. Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Editora Hucitec, 1997.
OESTERS, Christoph. Figuras do Outro: identidades pós-coloniais no romance moçambicano contemporâneo. Tese de doutorado. Universidade Utrecht, Holanda, 2005.
ORTIZ, Fernando. Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar. Barcelona: Editorial Ariel, 1973.
RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Cidade do México: Siglo Veintiuno Editores, 1985.
Meios eletrônicos:
ADICHIE, Chimamanda, 2009. The danger of a single story. Discurso na Universidade de Oxford, Inglaterra, em julho de 2009. .
CORREA, Eloisa Porto, 2004. “A trajetória descendente do amante viciado, tirano, sádico e manipulador em Niketche de Paulina Chiziane”. Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. Acesso em: 17abr2010.
___________________
SOBRE ADELTO
Adelto Gonçalves (1951) é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
Fonte:
Literatura Sem Fronteiras

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Machado de Assis (Enéias Galvão: Miragens)

MEU CARO POETA, — este seu livro, com as lacunas próprias de um livro de estréia, tem as qualidades correspondentes, aquelas que são, a certo respeito, as melhores de toda a obra de um escritor. Com os anos adquire-se a firmeza, domina-se a arte, multiplicam-se os recursos, busca-se a perfeição que é a ambição e o dever de todos os que tomam da pena para traduzir no papel as suas idéias e sensações. Mas há um aroma primitivo que se perde; há uma expansão ingênua, quase infantil, que o tempo limita e retrai. Compreendê-lo-á mais tarde, meu caro poeta, quando essa hora bendita houver passado, e com ela uma multidão de coisas que não voltam, posto desse lugar a outras que as compensam.

Por enquanto fiquemos na hora presente. É a das confidências pessoais, dos quadros íntimos, é a deste livro. Aos que lho argüirem, pode responder que sempre haverá tempo de alargar a vista a outros horizontes. Pode também advertir que é um pequeno livro, escolhido que não cansa, e eu acrescentarei, por minha conta, que se pode ler com prazer, e fechar com louvor.

Que há nele alguns leves descuidos, uma ou outra impropriedade, é certo; contudo vê-se que a composição do verso acha da sua parte a atenção que é hoje
indispensável na poesia, e uma vez que enriqueça o vocabulário, ele lhe sairá perfeito. Vê-se também que é sincero, que exprime os sentimentos próprios, que estes são bons, que há no poeta um homem, e no homem um coração. Ou eu me engano, ou tem aí com que tentar outros livros. 

Não restrinja então a matéria, lance os olhos além de si mesmo, sem prejuízo, contudo, do talento. Constrangê-lo é o maior pecado em arte. Anacreonte, se quisesse trocar a flauta pela tuba, ficaria sem tuba nem flauta; assim também Homero, se tentasse fazer de Anacreonte, não chegaria a dar-nos, a troco das suas imortais batalhas, uma das cantigas do poeta de Teos.

Desculpe a vulgaridade do conceito; ele é indispensável nos que começam. Outro que também me parece cabido é que, no esmero do verso não vá ao ponto de cercear a inspiração. Esta é a alma da poesia, e como toda a alma precisa de um corpo, força é dar-lho, e quanto mais belo, melhor; mas nem tudo deve ser corpo. A perfeição, neste caso, é a harmonia das partes.

Adeus, meu caro Poeta. Crer nas musas é ainda uma das coisas melhores da vida. Creia nelas e ame-as.

Fonte:
Machado de Assis. Crítica Literária. Pará de  Minas/ MG: Virtualbooks, 2003.

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Teatro de Ontem e de Hoje (Estrada do Tabaco)

Segundo espetáculo do Teatro Popular de Arte, marca a estréia do diretor italiano Ruggero Jacobbi, no Brasil e é considerado por alguns críticos o primeiro espetáculo naturalista do teatro brasileiro.

Estrada do Tabaco, estreada com nome de Tobacco Road, de Erskine Caldwell e Jack Kirkland, é escolhida pelo empresário Sandro Polloni em virtude do sucesso da montagem na Broadway, onde atinge mais de 3 mil récitas. Depois de realizar Anjo Negro, enfrentando a baixa popularidade de Nelson Rodrigues, na época, o Teatro Popular de Arte – TPA convida para assumir o trabalho de direção Ruggero Jacobbi. No entanto, em depoimento à pesquisadora Tania Brandão, Sandro Polloni afirma, 30 anos depois, que quem dirigiu os atores foi Itália Fausta e que Ruggero Jacobbi “colaborou, porque trouxe idéias novas”,1 o que explica a falta do crédito relativo à categoria direção no programa do espetáculo.

O texto mistura doses de hiper-realismo a um humor corrosivo. A história se passa no universo de uma família de famintos cuja única fonte de renda é a venda da madeira de um carvalho. As terras pertenciam ao avô, plantador de tabaco, até que a propriedade e a lavoura foram sendo gradativamente degradadas pelos herdeiros. Na primeira parte da peça, a ação apresenta os pequenos conflitos e as atividades rotineiras dos miseráveis. Subitamente, recebem o anúncio da visita do dono das terras e passam a acreditar que a vinda dele possa melhorar a vida do grupo.

O cenário de Laszlo Meitner procura unir realismo e síntese: o palco coberto de terra, barris com água e destroços reais de um velho automóvel. A direção, sem fugir do risco da monotonia, investe na lentidão do tempo naturalista, valorizando as pequenas ações e a ambientação. O crítico Henrique Oscar, ao comentar o espetáculo, faz referência ao pioneiro do naturalismo, André Antoine, e à sua companhia, o Théâtre Libre. A interpretação dos atores, no entanto, destoa da proposta geral, que se evidencia com precisão nos elementos visuais.

As apreciações críticas divergem quanto ao resultado final. Décio de Almeida Prado faz ressalvas à encenação que, segundo ele, transforma o realismo em caricatura e empobrece o texto. A interpretação cômica de Ziembinski para o velho Lester e o tom melodramático de Itália Fausta na cena final merecem reprovações, embora a atriz receba na maioria das críticas elogios à segurança e maestria de sua interpretação. Sergio Britto escreve, no Diário de Notícias, que o espetáculo resulta paradoxal: “é uma tragédia que se assiste rindo”.2

Notas 

1. POLONNI, Sandro. Depoimento. In: SILVA, Tania Brandão da. Peripécias modernas: companhia Maria Della Costa. 1998. 398 p. Tese (Doutorado em História da Arte)-Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998. p. 174.

2. BRITTO, Sergio. Citado em In: SILVA, Tania Brandão da. Peripécias modernas: companhia Maria Della Costa. 1998. 398 p. Tese (Doutorado em História da Arte)-Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998. p. 177.

Fonte:

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 769)


Uma Trova de Ademar  

A minha sogra, assanhada, 
no barracão da mangueira, 
foi muito mais apalpada 
do que laranja na feira!… 
–Ademar Macedo/RN– 

Uma Trova Nacional  

É sovina a minha amiga:
se vai à feira gastar
não compra nem uma briga
sem primeiro pechinchar!
–Arlindo Tadeu Hagen/MG– 

Uma Trova Potiguar  

Tudo sobe!… A carestia
na feira já me derruba.
Só não sobe todo dia
o que eu preciso que suba!
–Clarindo Batista /RN– 

Uma Trova Premiada  

2008   –   Nova Friburgo/RJ 
Tema   –   FEIRA   –   1º Lugar 

Na feira, o “seu” Manuel:
– Não vendo nada… Pois, pois!
Mas se esgoela: – Olha o pastel,
pague três e leve dois!
–Lizete Johnson/RS– 

…E Suas Trovas Ficaram  

A minha sogra endiabrada, 
– onça que o diabo me deu, 
devia estar “empalhada” 
na vitrine de um museu! 
–P. de Petrus/RJ– 

U m a P o e s i a  

Minha mulher tem ciúme, 
roga praga e se maldiz; 
desconfia da vizinha, 
tem raiva da meretriz, 
mas, quando eu tiro o pijama, 
esquece tudo o que eu fiz! 
–Domingos Tomás/RN– 

Soneto do Dia  

REFORMA DO ENSINO. 
–Bastos Tigre/PE– 

Mal o Congresso arranja uma reforma 
da Instrução malsinada e miseranda, 
outra já se prepara; e desta forma 
ela de Herodes a Pilatos anda. 

Da mania reinante segue a norma 
(pois que da glória os píncaros demanda) 
e de um grande projeto o esboço forma 
o fecundo doutor Passos Miranda. 

A nova lei ordena que os pequenos 
trilhem com aplicação e com cuidado 
seis anos de científicos terrenos. 

Um parágrafo seja acrescentado: 
— O saber ler é obrigatório; a menos 
que o rapaz se destine a deputado…

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Hildeberto Barbosa Filho (Escritor Paraibano Constrói Panorama do Nordeste Literário)

Publicado em 5 de janeiro de 2006

Às voltas com a materialização simultânea de diversos projetos, o escritor paraibano Hildeberto Barbosa Filho fez uma rápida pausa na preparação de seus dois novos livros, para cumprir, na capital maranhense, mais uma etapa de sua peregrinação pelo Brasil. Ele esteve durante três dias em São Luís, no final do mês de maio passado, para vir apresentar, de corpo presente, a obra do poeta maranhense Nauro Machado. Além de autografar o livro Literatura na Ilha (poetas e prosadores maranhenses), Barbosa Filho acompanhou o lançamento do novo tomo da coleção Melhores Poemas, da Global Editora, dedicado à obra de Nauro Machado.

Aos 51 anos, Hildeberto Barbosa Filho vem saboreando uma experiência com a qual sonhava há muito tempo: compor um panorama da produção literária dos Estados do Nordeste brasileiro. Este mapeamento já resultou em vários títulos, entre os quais Letras Cearenses; Os Labirintos do Discurso, painel da literatura paraibana; e O galo da torre, sobre as expressões literárias do Rio Grande do Norte. O autor acaba de concluir Pelo Rio das Imagens, livro sobre a literatura pernambucana, a ser publicado no próximo mês de outubro, por ocasião da Bienal do Livro, em Recife. Estes livros são fruto de uma intensa atividade de crítica militante do autor, sobretudo em jornais e revistas, num período que já compreende mais de 20 anos. Com a seleção e a triagem dos artigos que considera mais sólidos, dentre os publicados na imprensa, Barbosa Filho vem reunindo em livros tudo o que já conseguiu garimpar com seus ensaios e suas pesquisas. Ele explica que sua pretensão é a de dar uma visibilidade à produção literária nordestina, não só entre os próprios nordestinos. 

Curiosamente, do ponto de vista sociológico, nós, nordestinos, nos desconhecemos muito, apesar de morarmos em Estados relativamente próximos, como Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. Da mesma forma, no Maranhão, no Piauí e no Pará existe um desconhecimento mútuo do que se faz nestas regiões. Então a minha preocupação é no sentido de tornar visível, para nós mesmos, o que fazemos, na medida em que lançamos estes livros nos diversos Estados, com isso criando uma espécie de intercâmbio, afirma Hildeberto Barbosa Filho.

Perseverante e abnegado, o escritor vem percorrendo o Brasil com esse propósito de dar visibilidade ao Nordeste literário também no eixo Rio-São Paulo. Tenho feito incursões nas regiões economicamente mais desenvolvidas do país, porque existe uma atitude preconcebida por parte da indústria editorial, com relação às regiões periféricas: o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste. É uma forma também de se dar a conhecer o que se faz aqui dentro desse plano mais amplo da nacionalidade. É uma forma de dizer que a literatura nordestina existe, é muito rica, muito sugestiva e não deve se envergonhar em relação ao que se faz no eixo Rio-São Paulo. Ao lançar em São Luís o livro A Literatura na Ilha (poetas e prosadores maranhenses), o autor explicou que a obra faz parte de uma arrojada iniciativa. É um projeto meu, particular, que visa mapear a produção literária nordestina mais contemporânea, dos anos 50 para cá. 

Literatura na Ilha enfoca alguns dos autores mais representativos da literatura maranhense contemporânea. Como venho realizando um trabalho de crítica de literatura no Nordeste, esse livro acabou nascendo. Ele não foi planejado. Reuni alguns ensaios, contemplando poema e prosa e isso acabou gerando o livro, assim como aconteceu nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, informou o professor. Os escolhidos, além de Nauro Machado, são Luís Augusto Cassas, José Chagas, Salgado Maranhão, Ferreira Gullar, Lago Burnett, Laura Amélia Damous, Sebastião Moreira Duarte, Weliton Carvalho, Arlete Nogueira da Cruz e Lino Raposo Moreira. A intenção do livro é também dar visibilidade à literatura produzida hoje no Nordeste. Quero mostrar também os trabalhos feitos fora do eixo Rio-São Paulo, onde há um monopólio editorial, voltado exclusivamente para o lucro econômico. Quero mostrar esses trabalhos realizados no Nordeste e que são menos conhecidos, destacou.

A SAGA DE DOIS BRASIS

Autor de 32 obras, entre coletânea de poemas e livros de crítica e ensaios teóricos, o escritor paraibano constata que a literatura nordestina, em certos aspectos, chega a apresentar uma qualidade até mesmo mais robusta. Mas os críticos e os colunistas dos grandes jornais e das grandes revistas fazem questão, por um complexo de superioridade, que é tão grave quanto o complexo de inferioridade, de se manterem indiferentes e com isso quem perde na verdade são eles. Porque nós, como temos o complexo de inferioridade, também negativo, mas que termina sendo bom, nos obrigamos a conhecer tudo o que eles fazem. E acaba acontecendo muito o seguinte: nós conhecemos o que fazemos e o que eles fazem. Eles só conhecem o que fazem; não conhecem o que fazemos. Então eles perdem no debate. O escritor confessa que já teve a oportunidade de demonstrar várias vezes, em palestras e seminários e, recentemente, por ocasião do Prêmio Portugal Telecom, do qual integrou o júri nacional, que há uma ignorância nababesca em relação ao Nordeste literário. Eu pude perceber, nas discussões dos colegas do Sul, que são muito capazes e competentes, que eles desconhecem, de forma principesca, a nossa realidade literária, cultural e, às vezes, até a realidade política e econômica. Isto, a meu ver, é uma coisa secular, é uma reprodução do colonialismo por que passou o país ao longo da nossa História. 

Paraibano de Aroeiras, Hildeberto Barbosa Filho mora há mais de 30 anos em João Pessoa. Ele bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal da Paraíba; tem curso de Licenciatura em Letras Clássicas e Vernáculas (UFPB); Especialização em Direito Penal, pela USP e Mestrado em Literatura Brasileira, pela UFPB, com dissertação intitulada Sanhauá: poesia e modernidade. Logo cedo, iniciou sua vida de professor, lecionando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em colégios públicos e particulares. Ingressou no ensino superior, através de concurso público, sendo, atualmente, professor da Universidade Federal da Paraíba (Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa), no Curso de Letras, ministrando aulas, também, no Curso de Comunicação Social, e ao mesmo tempo prepara-se para concluir o curso de doutorado em Literatura Paraibana. 

Algumas das publicações de Barbosa Filho marcaram época como A Caligrafia das Léguas, O Ofertório dos bens naturais, A Ira de Viver, A geometria da paixão; O livro da agonia e outros poemas; São teus estes boleros; O exílio dos dias; Desolado lobo; A comarca das pedras;. Crítica literária e ensaios: Aspectos de Augusto dos Anjos; A convivência crítica: ensaios sobre a produção literária da Paraíba; Ascendino Leite: a paixão de ver e sentir; Osias Gomes: a plenitude humana e literária; Sanhauá: uma ponte para a modernidade; A impressão da palavra: literatura e jornalismo cultural; Os desenredos da criação: livros e autores paraibanos; e Namoro com a doce banalidade.

Além de professor universitário, Barbosa Filho é crítico literário, escritor, poeta e jornalista. Mantém uma coluna no jornal O Norte, escrevendo sobre literatura. Colabora nos jornais A União, Correio da Paraíba, O Momento, Correio das Artes; Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco (PE); O Galo (RN), O Pão (CE); D.O. Leitura (SP); Suplemento Literário de Minas Gerais (MG) e a Revista Cultura Vozes (RJ). Coordenou o Projeto LER e editou a revista Ler. Constantemente, é convidado para participar de simpósios, congressos e seminários como palestrante e conferencista. Assumiu a Cadeira nº 6 da Academia Paraibana de Letras, em 10 de setembro de 1999, recepcionado pelo acadêmico José Octávio de Arruda Mello.

Fonte:
Edição 108. 5 de janeiro de 2006

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José de Alencar (Ao Correr da Pena)Rio, 24 de junho: A Botafogo

A Botafogo!…


Acompanhemos essa linha de carros que desfila pela Glória e pelo Catete; sigamos esse numeroso concurso que vai pouco a  pouco se estendendo pela praia, ao longo do parapeito.

O sol já descambou além dos montes; e as últimas claridades de um dia turvo e anuviado, foram se extinguindo entre as sombras do crepúsculo.

Daí a pouco fechou-se a noite; e no meio da escuridão e das trevas sobressaía uma multidão de luzes, refletindo-se sobre as águas do mar.

Ranchos de moças a passearem, bandas de música tocando nos coretos, senhoras elegantes debruçadas nas janelas iluminadas, muita concorrência, muita alegria e muita animação; tudo isto tornava a festa encantadora.

Quanto ao fogo, queimou-se às oito horas; dele só restam as cinzas no fundo do mar. Não estranhem, portanto, que o respeite como manda a máxima cristã. Parcis sepultis.

Às dez horas, pouco mais ou menos, tudo estava acabado. A praia ficara deserta; e nas águas tranqüilas da baía, apenas as nereidas murmuravam, conversando baixinho sobre o acontecimento extraordinário que viera perturbar os seus calmos domínios.

Não é preciso dizer-vos que isto se passava domingo, no começo de uma semana que prometia tantas coisas bonitas, e que afinal logrou-nos em grande parte.

Tivemos algumas boas noites de teatro italiano, e ouvimos o Trovador e o Barbeiro de Sevilha, com uma linda ária do Dominó noir, que foi muito aplaudida.

Se é verdade o que nos contaram, brevemente teremos o prazer de ouvir toda essa graciosa ópera, em benefício da Sociedade de Beneficência Francesa. A lembrança é feliz, e pode realizar-se perfeitamente com o concurso dos artistas franceses que possui atualmente o nosso Teatro Lírico.

A diretoria decerto não se oporá a uma representação, que, além do auxílio poderoso que deve dar a um estabelecimento de beneficência, não pode deixar de fazer bem aos seus artistas, fazendo-os conhecer num gênero de música diverso, e no qual é muito natural que se excedam.

Quem sabe mesmo se, depois deste primeiro ensaio, a empresa não julgará conveniente, para a variedade dos espetáculos e para excitar a concorrência, dar de vez em quando uma pequena representação francesa?

Sei que a música italiana é a mais apreciada no nosso país; porém lembro-me ainda do entusiasmo e do prazer com que foram sempre ouvidas em nossas cenas a Nongaret, a Duval e mesmo a Preti.

Já que não podemos ter ao mesmo  tempo uma companhia italiana e uma francesa, não vejo porque não se hão de aproveitar os atores que atualmente possuímos, e, contratando mais um ou dois, deram-nos algumas óperas francesas, que estou certo haviam ser mui bem aceitas.

Se não há algum obstáculo, que ignoramos, é de crer que  a diretoria pense em fazer valer este meio de tornar o Teatro Lírico mais interessante e mais variado.

As óperas francesas têm grande vantagem de não fatigarem tanto os atores como a música italiana; e por conseguinte se faria um benefício aos artistas, reservando os meses da força do verão para esse gênero de cantoria.

Assim, podiam-se das as representações italianas com maior intervalo, e não se sacrificaria a voz de alguns cantores, obrigando-os a executar música de Verdi duas ou três vezes por semana.

Fui-me deixando levar pelo gosto de advogar os vossos interesses, minhas belas leitoras, e esquecia-me contar-vos uma cena terna que teve lugar sexta-feira no teatro, quando se representava o segundo ato do Trovador.

Uns bravos e umas palmas fora de propósito acolheram a entrada em cena da Casaloni, e continuaram enquanto ela cantava e seu romance da Cigana.

A princípio a artista procurou resistir à emoção que de certo lhe causava essa zombaria imerecida; mas afinal o soluço cortou-lhe a voz e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Lágrimas de mulher… Quem pode resistir a elas?

Depois de alguns momentos de confusão, em que a cena ficou deserta e a música em silêncio, a Casaloni entrou novamente em cena com os olhos rasos de pranto e a voz trêmula.

Neste momento é que eu reconheci bem o nosso público, e senti o coração generoso que animava todo esse concurso de espectadores que enchia o salão.

Ninguém disse uma palavra; mas uma salva continuada de aplausos percorreu todos os bancos de ponta à ponta: tudo que tinha um pouco de generosidade no coração e um pouco de sentimento no fundo d’alma protestava contra aquela amarga zombaria, contra aquela ofensa sem causa.

A mulher ofendida que chora é uma coisa sagrada e que se deve respeitar. Dizem que a lágrima é o símbolo da fraqueza; entretanto quantas armas, quantos braços fortes não se têm curvado ao peso dessa gota de linfa que não umedeceria sequer uma folha de rosa?

Deixemos aqui este episódio da semana, que não tem outro interesse senão o de mostrar o efeito de uma imprudência, e de provar a delicadeza do público que sabe preferir uma cantora, sem por isso ofender e maltratar a outras.

O Ginásio Dramático também teve esta semana uma noite feliz, honrada com a presença de SS. MM., que se dignaram estender sobre ele sua benéfica e augusta proteção.

Representavam-se nessa noite duas comédias, cujos papéis foram muito bem desempenhados pelo artista da pequena companhia, que parece se esmerou em dar provas dos progressos sensíveis que tem feito.

O Episódio do Reinado de Jaques I é uma comédia histórica e de muito espírito; tem algumas cenas de uma singeleza e de uma naturalidade encantadoras.

É um idílio de amor aos quinze anos, começado nos muros de uma prisão, à leitura da Bíblia, e entre as flores de clematites, – que de repente se vê oprimido nos salões de um palácio suntuoso, no meio das etiquetas da Corte.

O idílio esteve quase a transformar-se em drama ou tragédia; mas felizmente achou refúgio num coração de rei, coração cheio de bondade e de virtude, e aí continuou a sorrir em segredo até que…

Até que caiu o pano.

Todos os personagens estavam bem caracterizados e vestidos com bastante luxo e riqueza para os recursos da pequena empresa, que não se poupa a sacrifícios sempre que se trata de promover um melhoramento.

Suas Majestades prometeram voltar ao Ginásio esta semana. Neste fato devem os meus leitores ver a prova a mais evidente dos serviços que este teatro vai prestando à arte dramática do nosso país.

Animado por tão alta proteção, acolhido pela boa sociedade desta corte, o Ginásio poderá brevemente estabelecer-se em um salão mais espaçoso e mais elegante, e aí abrir-nos as portas ao prazer, à alegria, a um inocente e agradável passatempo.

No resto das noites, em que os teatros estiverem fechados, muita moça e muita família passeou pela Rua do Ouvidor para ver o modelo de casamento da Imperatriz Eugênia, que se achava exposto na vidraça do Beaumely.

As moças admiravam mais o vestido de cetim branco e o penteado, que dizem ser de um gosto chic; os homens, porém, admiravam mais as moças que o vestido, de quem tinham ciúme, porque lhes roubavam os olhares, a que supunham talvez ter direitos.

É incompreensível este costume que têm certos homens que gostam de uma mulher de se julgarem com direito exclusivo aos seus olhares, sem que ela lhes tenha feito a menor promessa.

Parece que o olhar de uma mulher bonita é como uma vaga de senador. Ninguém tem direito a ela, o que quer dizer que todos o têm.

Assim um fashionable apaixona-se por uma bonita mulher, e, sem que ela lhe tenha dito uma palavra, sem mesmo consulta-la, atravessa-se diante dos seus olhares, segue-a por toda parte como a sombra do seu corpo, julga-se enfim com direito a ser amada por ela. Se a moça de todo não lhe presta atenção e não se importa com a perseguição sistemática, o apaixonado toma uma grande resolução, e despreza a mulher bonita de que ele realmente não faz caso.

O mesmo sucede com a vaga de senador.

Um homem qualquer que tem quarenta anos, seja ou não filho de uma província, tenha ou não a afeição dos povos de certas localidades, sem consultar os votantes, apresenta-se candidato, enche o correio de cartas.

Se a província mostra não se importar com a sua candidatura, o homem de quarenta anos toma igualmente uma resolução, renuncia à eleição a que tinha direito.

Ora, eu não sei como se chama o homem de quarenta anos que renuncia à vaga de senador; mas o apaixonado que despreza a mulher bonita é conhecido entre certa roda pelo título de comendador da Ordem dos Verdes.

Esta ordem é a mais antiga do mundo; é anterior mesmo à época da cavalaria e da mesa redonda. Data dos tempos em que os animais falavam, e deve a sua origem a uma raposa espirituosa, que numa circunstância memorável soltou esta palavra célebre: Estão verdes.

Muito tempo depois Eduardo III, apanhando a liga da Condessa de Salisbury, disse também uma palavra, que é pouco mais ou menos a tradução daquela: Honny soit qui mal y pense.

Assim como desta palavra se criou a jarreteira, estabeleceu-se muito antes a Ordem dos Verdes, na qual são comendadores do número os namorados que desprezam as mulheres bonitas, os ministros que recusam pastas, os patriotas que renunciam a candidatura, os empregados que pedem demissão, e muitos outros que seria longo enumerar.

A insígnia da ordem é uma folha de parreira, que outrora foi o símbolo da modéstia e do pudor.

A cor é o verde, como emblema da esperança; porque o estatuto da ordem embora imponha a abnegação e o sacrifício de uma honra ou de um bem, não inibe que se trabalhe por alcançar coisa melhor.

Os membros desta ordem gozam de grandes honras, privilégios e isenções, e especialmente da graça de obterem tudo quanto desejarem. Para isso são obrigados apenas a uma insignificante formalidade, que é não desejarem senão o que puderem obter.

Concluiria aqui esta revista, se não tivesse dois deveres a cumprir.

O primeiro é a respeito de uma questão que tem ocupado a imprensa desta corte, e que atualmente se acha entregue aos tribunais do país.

Falo de abalroação da Indiana, simples fato comercial, a que a imprensa tem querido dar o caráter de uma questão de classe e de brios nacionais.

Um estrangeiro que perde o seu navio não poderá defender os interesses do seu proprietário e dos carregadores, somente porque semelhante defesa vai ofender a tripulação de um vapor brasileiro?

Ninguém mais do que eu sabe respeitar o espírito de classe, e apreciar a generosa fraternidade que prende os homens de uma mesma profissão; porém confesso que essa maneira de identificar o homem com a classe, de julgar do fato pelo mérito pessoal, não é a mais acertada para a questão.

O comandante do vapor Tocantins pode ser um excelente oficial, a sua  tripulação pode ser a melhor, e entretanto ter-se dado um descuido que ocasionasse o sinistro.

Felizmente hoje a questão vai ser perfeitamente esclarecida por testemunhas imparciais e dignas de todo o sinistro.

O Tocantins foi encontrado na mesma noite de 11, meia hora antes do sinistro, por um navio cujo capitão já atestou que o vapor trazia apenas uma luz ordinária, e não tinha sobre as rodas os faróis verde e encarnado.

Como este, existem muitos outros depoimentos importantes que aparecerão em tempo competente, e que mostrarão de que parte está a verdade e o direito.

O segundo ponto sobre que tenho de falar é a respeito dos espetáculos líricos no Teatro de S. Pedro de Alcântara, dos quais tratei na revista passada.

Um correspondente do Jornal do Comércio contesta a possibilidade desses espetáculos em virtude de um privilégio dado à atual empresa lírica. 

Entretanto semelhante privilégio não pode existir; se o governo o concedeu, praticou um ato que não estava nas suas atribuições, um ato nulo, porque é inconstitucional.

Não é monopolizando uma indústria já conhecida no país, não é destruindo a concorrência que se promove a utilidade pública.

A própria diretoria do Teatro Lírico deverá desejar esta concorrência; porque se, como ela supõe a nova empresa não levar avante, dando-lhe nova força e novo prestígio.

Ainda voltarei a esta questão, que na minha opinião interessa muito ao futuro da arte nesta corte.

Por hoje faço-vos as minhas despedidas.

Vamos ver as fogueiras de São João, brincar ao relento, e recordar as poéticas e encantadoras tradições de nossos pais.

P.S. – À última hora recebo a minha carta prometida para quinta-feira; desta vez reservo para mim a carta, e dou-vos unicamente os versos.

O pronome (em falta do nome) persiste em ser lido em francês, e não em português; porém agora afianço-vos que estou convencido do contrário.

Podeis crer-me. 

Rio de Janeiro, 1855.

Fonte:
José de Alencar. Ao Correr da Pena. SP: Martins Fontes, 2004.

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Fernando Pessoa (Autopsicografia)

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28 de dezembro de 2012 · 19:21

Manoel Santos Neto (Universo Poético da Cidade de São Luís do Maranhão II)

A velha São Luís – antes cantada em verso e prosa por seus largos, espaçosos, e por suas ruas, estreitas e íngremes – não ostenta mais apenas aquele verde luxuriante do capim e das ervas daninhas que se encontram no relato de cronistas do século XIX. Hoje a cidade, em pleno século XXI, tem uma vida complexa – como um prisma de mil faces, refletindo e coruscando todas as cores, simultaneamente, misturadas, mas não tão bem arrumadinhas, uma por vez, como no arco-íris. Essa maneira cromática e dinâmica de ver e sentir São Luís talvez seja a mais abrangente, a que melhor ilustre a percepção que a São Luís quase quatrocentona inspira a quem aqui chega ou aos que refletem sobre sua cidade. Bernardo Coelho de Almeida (1927-1996) foi quem, através de suas crônicas, mostrou muitas dessas cores e seus contrastes: o cinza-chumbo do desânimo causado nos são-luisenses, principalmente em função da miséria e do desemprego; o marrom do medo da violência, predominante entre os mais pobres; o púrpura da irritação com os engarrafamentos no trânsito; o verde-escuro do temor das doenças causadas pela sujeira e pelo risco de a Ilha vir a ser tomada pela poluição de grandes empreendimentos industriais.

As crônicas de Bernardo Coelho de Almeida, reunidas no livro Éramos felizes e não sabíamos, são autênticas memórias do passado de São Luís, cidade muito amada, onde o autor viveu, durante 69 anos, como estudante, boêmio, poeta, romancista, radialista, jornalista e homem público.

Éramos felizes e não sabíamos é um livro interessante, rico em reminiscências, capaz de registrar momentos memoráveis do passado de um homem sensível e preso aos encantos de uma cidade que, ainda hoje, não quer perder a fama de Atenas Brasileira. No livro são relembrados os bares, os cabarés, os folguedos populares, os acontecimentos políticos, a vida intelectual, as velhas amizades, os tipos inesquecíveis, enfim, os flagrantes de um tempo feliz, e aqueles que foram protagonistas do romance desse tempo, na parceria de nossos destinos. Destinos que foram traçados nas ruas, nas praças e nos logradouros minuciosamente catalogados pelo escritor Domingos Vieira Filho (1924-1981), no livro Breve História das Ruas de São Luís, publicado no ano de 1962. Nesta obra, construída com impressionante paciência e obstinação, o autor, que foi, entre outras funções, diretor da Biblioteca Pública Benedito Leite e presidente da antiga Fundação Cultural do Maranhão, aponta, como caminhos iniciais da cidade, a Rua Formosa, a Rua do Egito e a Rua dos Remédios, “mandada abrir por Joaquim de Melo e Póvoas no meio dos matos e que conduzia à ermida dessa invocação construída na ribanceira que deita para o Jenipapeiro”. 

Domingos Vieira Filho faz referência a caminhos grandes, como a própria Rua Grande, a Rua da Paz e a Rua das Violas (ou Rua dos Afogados). 

Ele recorda que, na São Luís daqueles velhos tempos, as ruas eram antes simples linhas de comunicação do que vias de transportes. Por isso podiam ser estreitas, uma vez que por elas não transitavam carros. Imperavam a cadeirinha, a rede, acolhedora, sensual, leito de prazer ou de dor, carro e esquife, a serpentina, o palanque, aparelhos esses que dispensavam rodas e eram conduzidos nos ombros de robustos escravos.

No mesmo patamar que Domingos Vieira Filho e Bernardo Coelho de Almeida, um outro escritor renomado, Erasmo Dias, cantou São Luís em prosa, de forma magistral. Em seu mais novo livro – São Luís em PreAmar: ainda assim, há um Azul! –, o jornalista e poeta Herbert de Jesus Santos também abre uma janela lúcida e criativa sobre São Luís, retratando-a nos nossos dias. 

Com cinco livros publicados, Herbert de Jesus Santos produz uma obra cada vez mais amadurecida, convencido de que São Luís está no detalhe e por isso mesmo ainda se mostra inesgotável como veio poético. Nas páginas deste seu recém-lançado livro de poesia São Luís em PreAmar: ainda assim, há um Azul!, o escritor Herbert de Jesus Santos, que também é cronista, contista e novelista, faz uma contundente declaração de amor a São Luís, pois voltou para ela todos os poemas, com características lírica e social, sem esconder as feridas da cidade, seus maiores valores, entre riqueza de espírito, tipos populares, humanistas, poetas e prosadores beneméritos, o ser e o estar maranhense, a decadência em todos os campos, mas a esperança de um amanhecer com melhor horizonte para o Maranhão, por abrangência, e sua gente. 

O texto apreciativo ficou a cargo do jornalista e poeta Cunha Santos Filho. Na obra ousou ter como prefácio um poema de Luís Augusto Cassas, como apresentação, um poema de Nauro Machado, posfácio de Erasmo Dias (trecho de uma crônica), e epígrafes com soneto de Alex Brasil, poema de Bandeira Tribuzi e fragmentos de poemas de José Maria Nascimento e de Luís Alfredo Neto Guterres, todos relativos a São Luís.

Erasmo Dias ressurge na página final do novo livro de Herbert Santos, com uma de suas crônicas sobre o espírito da terra natal. Enfocando a alma romântica da Cidade dos Bardos e dos Rapsodos, assim escreve Erasmo Dias: 

“As cidades não valem simplesmente pelo seu aspecto material. Como os homens, elas, também, possuem uma alma. A alma das cidades é a soma de todas as vibrações dos seus habitantes, que se misturam e confundem, numa grande e única vibração. 

Quando se pretende retratar com palavras uma cidade, mister se faz que, antes da descrição das suas ruas e das suas praças, se compreenda a sua alma. 

São Luís tem a sua alma: alma de Cidade Romântica, onde dezenas de grandes poetas cantaram, nos ritmos claros da poesia excelsa, todo o esplendor da natureza tropical. 

São Luís é a Cidade da Inteligência e sobre os seus destinos vela impávida, serena e eterna, Atenas Palas Minerva. Gerações e gerações de gigantes do pensamento aqui se formaram, forma e formarão, sempre, escutando os cantares rústicos que se escapam dos bairros pobres, onde Xangô e Afefé recebem o seu culto, ou a prosa castiça e erudita das rodas intelectuais, que se sucedem, gloriosas, numa ciranda abençoada, pelos anos afora”.

No canto destes grandes poetas de que fala Erasmo Dias, ganha realce – entre inúmeros autores – a figura do poeta Ferreira Gullar, que celebra São Luís em muitos de seus poemas, inclusive em Poema Sujo que é, sem dúvida nenhuma, uma das obras mais importantes surgidas no panorama poético brasileiro do século XX. Opinião que é corroborada por intelectuais do porte de Nelson Werneck Sodré, Antonio Callado e Otto Maria Carpeaux, entre outros. E é fácil concordar com isso ao se ler o poema, que é tão forte, comovente e evocativo, que chega mesmo a incomodar, a excitar, a aguçar a sensibilidade. Trata-se de obra que exprime autenticamente a verdade típica da poesia, ou seja, “a verdade que comove”, para usar um conceito do próprio poeta. 

Poema Sujo fala de São Luís, retrata, com a particularidade do reflexo estético, a experiência de vida do poeta nesta cidade, até os 21 anos de idade. Mas, na verdade, o poema é muito mais do que isso: é um retrato de corpo (e alma) inteiro de Gullar, que abarca sua vida, suas idéias políticas e filosóficas, sua saudade de exilado e suas perplexidades. 

Ao falar de São Luis, Gullar fala do Brasil. E falando do Brasil, fala da condição humana. Ele parte do homem mesmo, deste “ser que responde” a situações historicamente dadas, parte de suas experiências vitais, das contradições sociais que o determinam e são por ele determinadas. E isto é o que ele trata de esteticamente (poeticamente) refletir. O homem maranhense, o próprio Gullar: este o ponto de partida, a fonte do Poema Sujo: este, também o elemento que faz a poesia chegar ao universal, o “alimento” do artista. Gullar com ele opera como só os grandes poetas sabem e podem fazer, transformando o real em algo mais real, o mais simples no mais belo e significativo, reconstruindo o mundo, nas ruas e becos de sua infância:

Me extravio
na Rua da Estrela, escorrego
no Beco do Precipício.
Me lavo no Ribeirão.
Mijo na Fonte do Bispo.
Na Rua do Sol me cego,
na Rua da Paz me revolto
na do Comércio me nego
mas na das Hortas floresço;
na dos Prazeres soluço
na da Palma me conheço
na do Alecrim me perfumo
na da Saúde adoeço
na do Desterro me encontro
na da Alegria me perco
na Rua do Carmo berro
na Rua da Direita erro
e na Aurora adormeço.
–––––––––-
Continua…

Fonte:
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
http://www.guesaerrante.com.br/2006/1/20/Pagina653.htm. Edição 115. 20 de janeiro de 2006

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Gaveta de Haicais 4

Crianças espalham 
alpiste pelo quintal 
chamando o azulão. 
Alba Christina 

De repente um pio, mais 
um balanço nas folhas, 
e surge o azulão. 
Alba Christina 

Nas trevas da noite 
surge uma alvura de flores. 
É o mandacaru. 
Alda Corrêa M. Moreira 

Canta o azulão, 
entre as flores do jardim, 
despertando as rosas. 
Ailson Cardoso de Oliveira 

Na sálvia verdinha, 
passarinho faz a festa. 
Canteiro desfeito. 
Cecy Tupinambá Ulhôa 

Samambaia de metro 
sobre a menina. 
Longos cabelos. 
Carlos Roque B. de Jesus 

Entre verdes ramas a sálvia 
exibe os seus cachos 
vermelhos, exóticos… 
Darly O. Barros 

Mais além, a mata 
e um azulão na gaiola, 
cabisbaixo, mudo… 
Darly O. Barros 

Desabrocha a rosa 
uma formiga, castiga 
a flor melindrosa. 
Dercy de Freitas 

O menino chora… 
O azulão saiu voando 
perdido no azul! 
Ercy M. M. de Faria 

Canteiro aromado, 
florada rubra de sálvias, 
passante encantado. 
Fernando L. A. Soares 

Beleza e perfume. 
Deus desabrocha no galho 
da rosa vermelha. 
Fernando Vasconcelos 

Na borda do vaso 
joaninha agita as asas 
sacudindo o orvalho… 
Guim Ga 

Árvores caídas, 
riachos e rios transbordando. 
Chuva de verão. 
Helvécio Durso 

Na mata, em silêncio, 
pousa um bando de azulões… 
Pedaços do céu! 
Hermoclydes S. Franco 

Rumo à liberdade…
Abro a gaiola e se vai, 
em paz, o azulão!… 
Hermoclydes S. Franco 

Azulão gorjeia 
na gaiola do terreiro… 
– Matagal calado. 
Humberto Del Maestro 

Desaba um toró. 
As águas procuram rios 
e os rios, o mar. 
João Batista Serra 

Enfim, uma bússola. 
No emaranhado das trilhas 
surge um girassol. 
José N. Reis 

Pernilongo – incrível! – 
caiu na sopa do avô! 
A mais ninguém morde… 
Leonilda H. Justus 

Aranha descendo 
bem diante do meu nariz. 
– Mais respeito, heim? 
Manoel F. Menendez 

As sálvias vermelhas 
na floreira, junto à porta, 
convidam a entrar. 
Maria R. Labruciano 

Tarde ensolarada. 
Azulão pousa, enfeitando… 
velho galho seco. 
Maria R. Labruciano 

Gaiola vazia… Um 
canto a mais na floresta… 
– Azulão fugiu. 
Maria Madalena Ferreira 

Com muito apetite 
a traça comeu da manga 
do meu paletó… 
M. U. Moncam 

As formigas correm por 
entre os galhos das árvores 
folhas pelo chão. 
Nilton Manoel A. Teixeira 

Voa o beija-flor. 
Entre outras flores, a sálvia 
mostra seu rubor. 
Olga Amorim 

Dentro da gaiola, 
azulão olha tristonho, 
pássaros voando. 
Olga dos Santos Bussade 

Azulão pousado 
no pessegueiro florido, 
enfeita o pomar. 
Regina Célia de Andrade 

O céu cor de anil 
ficando mais belo ainda: 
azulão voando. 
Regina Célia de Andrade 

Trinta de setembro: 
junto às contas a pagar, 
caixa de bombons. 
Renata Paccola 

A brisa transporta, 
por toda parte, um perfume 
discreto… – É a sálvia! 
Roberto Resende Vilela 

Ouvidos atentos… 
Ciranda de pernilongos. 
Tortura noturna. 
Sergio de Jesus Luizato 

Por um fino fio, 
desliza suavemente 
a pequena aranha. 
Sueli Teixeira 

Mamão no terraço. 
Espreitando o sabiá 
– o guri e o gato… 
Teruko Oda 

Os fios trançando, 
a velha rendeira tece. 
Caprichosa aranha! 
Thereza Costa Val 

Bigornas brancas, 
leves, flutuam no azul – 
forja de relâmpagos. 
Yara Shimada Brotto 

Fonte:
Manoel Fernandes Menendes. Seleções em Folha. Ano 4. N.1 – janeiro 2000. São Paulo/SP

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Sávio Soares de Sousa (Trova: Tempo & Espaço)

em XXIX Jogos Florais de Niterói, 1999 
É fato sabido e consabido que os tempos mudam e, com os tempos, mudamos nós. Isto ensinava um ditado medieval citado na Description of England, de Harrison (1517) e no Euphues de John Lyly (1579). Tempora mutantur… 

Mudam os hábitos, mudam os gostos, as manias mudam, mudam as filosofias, alternam-se os regimes políticos e econômicos. Também a linguagem humana evolui. Há palavras que se arcaízam, envelhecem, morrem. Outras ressuscitam, animadas por significados novos, ao sopro de novas realidades. Com o surgimento do Trovismo ou Trovadorismo Brasileiro, há cerca de quarenta anos, as palavras “Trova” e “Trovador”, por exemplo, experimentaram vida nova e acepção específica. Digam o que disserem, a tese é perfeitamente explicável. 

Antigamente, considerava-se trova qualquer composição lírica ligeira e de caráter mais ou menos popular, não importando qual fosse a estrutura das estrofes, ou o número de seus versos, ou a disposição das rimas. É o que se lê nos dicionários tradicionais. 

Depois, o termo passou a designar, de modo menos genérico, algumas cantigas ou canções de estrutura regular, também do gosto do povo, dada a sua simplicidade. E, enfim, começou a caracterizar a quadra ou a quadrinha popular, quase sempre destinada a ser cantada, com ou sem estribilho. 

Em sua conceituação atual, que corre entre nós, a trova é um poema de forma fixa, regular, com quatro versos (ou linhas) de sete sílabas (redondilha maior), de rimas cruzadas, isto é: o primeiro verso rimando com o terceiro, e o segundo rimando com o quarto. 

Quanto ao assunto ou tema (questão de fundo ou conteúdo), assim se podem classificar as trovas: lírica (sentimental, amorosa, romântica, intimista); filosófica (conceituosa, reflexiva, sintetizando um pensamento moral ou religioso ou estético); humorística (jocosa, brincalhona, maliciosa); didática (instrutiva, pedagógica, doutrinária, biográfica); descritiva (aquarela em miniatura, retrato sintético, instantâneo fotográfico), etc. Conviria exemplificar. 

TROVAS LÍRICAS 

À distância, se ela passa 
é maior o meu tormento: 
para a saudade, a vidraça 
é sempre um vidro de aumento. 
Cícero Rocha 

Nossa casa é pequenina, 
mas tem a graça de Deus: 
de dia o sol a ilumina, 
e de noite – os olhos teus. 
Augusto Rubião 

TROVAS FILOSÓFICAS 

O filho do Carpinteiro 
foi um artista profundo: 
com três cravos e um madeiro, 
fez a reforma do mundo. 
Raul Pederneiras 

A gente paga o que deve, 
sem recurso ou petição: 
sentença que Deus escreve 
não tem mais apelação! 
Paulo Nunes Batista 

TROVAS HUMORÍSTICAS 

Papai manda, se é solteira… 
Marido, quando casada… 
Manda a vizinhança inteira 
se é viúva ou desquitada… 
Eny do Couto 

Quando a mulher quer, eu acho 
que nem Deus a desanima: 
– é água de morro abaixo 
ou fogo de morro acima!… 
Belmiro Braga 

TROVAS DESCRITIVAS 

A flor do sol, no horizonte, 
fecha as pétalas vermelhas… 
Pelo pescoço do monte 
se deita um colar de ovelhas! 
Félix Aires 

Pelas planuras desertas, 
nas frondes verdes, as comas 
mostram corolas abertas 
num desperdício de aromas. 
Eliézer Benevides 
Como poema autônomo, forçoso é que o sentido da trova fique completo dentro dessas quatro linhas – requisito indispensável. 

E que é um Trovador? 

Trovador era o nome dado, geralmente, na Idade Média, ao poeta lírico, em verdade um compositor musical, que fazia versos e os cantava, ao som da viola, do alaúde, da flauta e do pandeiro. Compunha e instrumentava as próprias canções – escrevia a letra e a música. E, quando não se sentia em condições de, ele mesmo, cantá-las, incumbia de fazê-lo um cantor profissional, que era o jogral ou menestrel. 

Na prática, nem sempre era fácil distinguir o trovador do jogral, e isto criava situações até ridículas. Houve o caso do trovador Guiraut Riquier, que ficou agastado quando o confundiram com um jogral. E protestou, alegando que a confusão era humilhante para os trovadores, que tinham formação intelectual e artística, enquanto os jograis ou menestréis, de nível social inferior, não gozavam de boa reputação, inclusive por serem freqüentadores de tavernas e prostíbulos… 

Historicamente, Guilherme de Poitiers, na França, é o mais antigo trovador conhecido. 

A Literatura Portuguesa começa, a bem dizer, no século XII, com uma cantiga de amor-e-escárnio dedicada pelo trovador Paio Soares de Taveiros, a uma dama chamada A Ribeirinha, que outra não era senão Maria Pais Ribeiro, favorita do rei Dom Sancho I, de Portugal. Aliás, Portugal, celeiro de notáveis trovadores, ostenta, em sua galeria de reis ilustres, a fidalga e luminosa efígie de Dom Dinis (1261/1325), protetor dos poetas, fundador da Universidade de Lisboa e – título que nos fraterniza com Sua Majestade – exímio trovador, cujas cantigas estão registradas nos Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional, obras-primas do gênero. 

Hoje, a meu ver, o termo trovador deve restringir-se àqueles poetas que fazem trova, isto é, quadras setissilábicas-cas rimadas, porque o uso – neste século da especialização – assim o consagrou, pelo menos nos países de fala portuguesa. 

Os trovadores de Aquém e de Além-Mar contam-se, em nossos tempos pela casa dos milhares. E a trova é cultivada, com êxito, por pessoas das mais diversas classes sociais e ofícios, conforme se apura dos resultados dos Jogos Florais promovidos, em todo o País, pela União Brasileira de Trovadores, a nossa UBT. Poetas há muitos. Mas nem todo poeta é trovador. E não se pode entender trovador que não seja poeta – isto é: talento criador, servido por especial sensibilidade e senhor da técnica da feitura do verso. 

O Trovismo ou Trovadorismo Brasileiro tem suas raízes na tradição popular ibérica, na própria alma ingênua do povo. Mas, como movimento literário, de características bem delineadas, principiou na década de 50, quando o poeta Luiz Otávio (pseudônimo do Dr. Gilson de Castro) começou a reunir, aos sábados, na intimidade de sua residência, no bairro carioca de Vila Isabel, um pequeno grupo de cultores da trova, para tertúlias literárias, informais, entremeadas de “salgadinhos, biscoitos e refrigerantes”, segundo conta Aparício Fernandes, que nelas passou a tomar parte em 1958. Na opinião de Aparício, o Movimento Trovadoresco tem como ponto de partida a publicação, em 1956, por iniciativa de Luiz Otávio, da coletânea “Meus irmãos, os Trovadores” (“A Trova no Brasil”, 1972). 

Em 1959, fundou-se na Bahia um Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT), que reunia, sob essa designação, além dos cultores da quadra setissilábica, vários cantadores, violeiros e autores de literatura de cordel. Quando o Grêmio realizou um Congresso de Trovadores, na cidade de São Paulo, Luiz Otávio foi convidado a representar a entidade na região sul do País, melhor dizendo no Rio de Janeiro. E aceitou o convite. Mas, no Rio de Janeiro, o Grêmio cresceu, ganhando invejável projeção, e esse fato gerou uma dissidência com os seus dirigentes no Nordeste. Então, Luiz Otávio, com o apoio unânime dos trovadores filiados às seções da região sul centro-oeste, propôs a criação da União Brasileira de Trovadores, que se instalou no Rio em 8 de janeiro de 1967. Vitoriosa desde então, a UBT é uma associação de âmbito nacional, que se destina especificamente ao estudo e à divulgação da trova, como instrumento de propagação da cultura, tendo sido Luiz Otávio, por um questão de justiça, seu primeiro presidente nacional. Com organização própria, um presidente nacional, delegacias e seções estaduais e municipais, as quais gozam de relativa autonomia, a UBT promove, anualmente, os Jogos Florais, que habitualmente se inserem nos festejos comemorativos do aniversário dos Municípios onde têm sede suas atividades. 

E que são os Jogos Florais? Com antecedentes que parecem remontar às festas populares realizadas na Antiga Roma em homenagem à deusa Flora, os Jogos Florais eram um certame periódico, instituído em Toulouse, na França, no ano de 1323, por poetas desejosos de manter as tradições e o lirismo da poesia palaciana. O prêmio principal era uma violeta de ouro, havendo também menções honrosas configuradas numa rosa e num malmequer, ambos de prata. Daí por diante, realizaram-se na França, em diversas épocas, novos certames do gênero, contando-se entre seus vencedores figuras do porte de Voltaire, Chateau-briand, Victor Hugo e Lamartine… 

Em Portugal, a Emissora Nacional promoveu também os seus Jogos Florais, inclusive com a finalidade de eleger, a cada ano, o Príncipe dos Poetas Portugueses. Ademais, em terras portuguesas, são famosos os Jogos Florais de Coimbra, do Porto, de Figueira da Foz, de Almada, assim como os das antigas províncias africanas, sobretudo Angola. Há notícias de Jogos Florais realizados no Brasil, nos anos de 1914, 1915 e 1916, pelo Liceu Feminino, da cidade paulista de Santos. 

Atualmente, em nosso País, os Jogos Florais são concursos anuais de trovas, instituídos pelas seções municipais de União Brasileira de Trovadores, abertos a participantes de todos os estados e cidades do território brasileiro, bem como dos demais países de língua portuguesa, segundo um regulamento padrão, comum a todas as seções, com ligeiras variantes de caráter local. As trovas, obrigatoriamente inéditas, sob pena de desclassificação, versando tema preestabelecido, assinadas com pseudônimo, para assegurar a imparcialidade do julgamento, são apreciadas por uma comissão formada por trovadores de diferentes seções da UBT; estes as classificam, mediante a  de uma nota (atribuição de valor subjetivo), e as devolvem à seção de origem, onde, só então, se tornam conhecidos os nomes verdadeiros dos concorrentes. Quase sempre, os prêmios são entregues em solenidade pública, em festivo ambiente de confraternização, sendo que, nos Jogos Florais de Niterói, esses prêmios são representados por troféus alusivos ao tema do concurso. 

É justo recordar que os Jogos Florais do Movimento Trovadoresco tiveram seu berço na cidade serrana de Nova Friburgo, em 1958, sendo vencedores do primeiro concurso os trovadores Rodrigues Crespo, Anis Murad, Colbert Rangel Coelho, Jesy Barbosa, Raul Serrano, Octávio Babo Filho, Walter Waeny, Leila Ribeiro Ferreira e Paulo Fénder. O tema era amor e a trova vitoriosa, da autoria de Rodrigues Crespo, era esta: 

“Não me chames de senhor; 
eu não sou tão velho assim. 
E, ao teu lado, meu amor, 
não sou senhor nem de mim.” 

Ao fim de tudo, a animadora verdade é que o número de excelentes trovadores tem crescido consideravelmente, com a revelação de inumeráveis trovas antológicas. E os Jogos Florais constituem uma gratíssima oportunidade de aproximação fraterna entre poetas de todos os rincões deste continental Brasil, que, em tempos remotos, chegou a ser descrito como um imenso arquipélago cultural. 

A trova, deste modo, cumpre maravilhosamente sua missão, que já estava nos sonhos iniciais de Luiz Otávio – unir o Brasil. 

E viva a Trova! 

Fonte:
Seleções em Folha. Ano 4. N.1 – janeiro 2000. São Paulo/SP

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Teatro de Ontem e de Hoje (Eles Não Usam Black-Tie)

Espetáculo que inicia a fase nacionalista do Teatro de Arena e lança o autor Gianfrancesco Guarnieri, que serve de modelo e estimulo para outros jovens escritores dramáticos brasileiros.
Em 1957, José Renato resolve assumir a produção de O Cruzeiro Lá no Alto, texto de Gianfrancesco Guarnieri, prevista para ser a última montagem do grupo, que passa por graves dificuldades financeiras.
Rebatizada, por sugestão de José Renato, como Eles Não Usam Black-Tie, provocativa referência ao Teatro Brasileiro de Comédia – TBC, e a seu público. A peça trata de uma greve operária, colocando em cena moradores de uma favela e seus problemas socioeconômicos. O texto faz um recorte preciso de um momento altamente dramático: o jovem operário Tião fura o movimento grevista, pois, tendo engravidado a namorada, teme perder o emprego na hora em que mais necessita dele. As conseqüências de sua atitude são dolorosas e ele é obrigado a enfrentar não apenas seu pai, o líder grevista, mas também sua própria namorada, que o impele à frente de luta e o abandona.
Eugênio Kusnet, com sua larga experiência no método de Stanislavski, encarna o velho Otávio; Lélia Abramo, politizada intelectual vinda de experiências junto a grupos operários anarquistas, vive a mãe Romana; Miriam Mehler, recém-formada pela Escola de Arte Dramática – EAD, encarrega-se de Maria, amor de Tião, interpretado pelo melhor ator do Arena no período – Gianfrancesco Guarnieri, depois substituído por Oduvaldo Vianna Filho. Os outros papéis cabem a Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.
A encenação de José Renato é simples, direta e eficiente. Valoriza o enredo e dá corpo às personagens, imprimindo dramaticidade e energia à ação. Utiliza um samba composto por Adoniran Barbosa para pontuar passagens significativas da trama. Êxito surpreendente para quem pensava em fechar as portas, Black-Tie permanece um ano em cartaz, cumprindo posteriormente bem-sucedida carreira no interior de São Paulo e no Rio de Janeiro. Animado pelo sucesso, o Arena investe forças na criação de outros textos nacionais, instituindo o Seminário de Dramaturgia, de onde sairão os textos para as montagens seguintes, que respondiam à necessidade do público de ver nos palcos a realidade nacional. Até 1960, foram montados, entre outros: Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho; Quarto de Empregada, de Roberto Freire; Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa. 
Destaca o crítico Sábato Magaldi: “A encenação de José Renato foi, até aquele momento, a mais homogênea e de rendimento uniforme e satisfatório. E a recompensa supunha muitas dificuldades para transmitir a veracidade do texto, porque formavam o elenco atores inexperientes ou estrangeiros. Valorizou a montagem a maturidade, orientada no sentido do despojamento. […] Em poucos trabalhos ele não revela a preocupação de inventar algo, para que sua presença ficasse marcada. Aqui, o encenador se libertou da sedução de impor os próprios achados e atingiu a autenticidade, por despir o conjunto de efeitos. Não seguiu, também a falsa pista do pitoresco no morro, despreocupando-se da tarefa quase impossível, na arena, de mostrar a cor local”.1
Eles Não Usam Black-Tie é a primeira de muitas outras encenações que colocam o Teatro de Arena como o conjunto de maior representatividade em São Paulo até meados da década de 1960.
Notas 

1. MAGALDI, Sábato. Um palco brasileiro: o Arena em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1984.
Fonte:

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Cássio Pantaleoni (Por que Precisamos de Poesia?)

A pergunta-título que ora se coloca não refere quem a reclama. Poderia ser formulada por quem se depara com a poesia e que, enfadado, desdenha-a. Por outro lado, poderia ser feita pelo próprio poeta, como tentativa de encontrar justificação para sua lida. Contudo, precisamos, sem pressa, preservá-la em sua condição ambivalente, para que possamos responder, tanto ao poeta quanto ao leitor mais refratário, algo que se avizinhe com o real sentido do que se investiga.
Primeiramente, é necessário dizer que se engana aquele que afirma encontrar o traço da premeditação na elaboração poética, como se houvesse alguma intenção prévia do poeta, pretendendo expor algo que já antes andava em convívio com sua alma. Ao contrário, a poesia é rastro de espontaneidade, algo que é deixado como evidência daquilo que é inaugurado no instante em que se manifesta, vazando desinteressada das fímbrias do espírito. É uma incontinência que se conforma em versos, redondilhas e lirismos. 
Ressalte-se que a elaboração poética é, sempre e de algum modo, uma distensão dos costumes, da cotidianidade, expressão que flerta com os sentidos que ainda não nos são de todo conhecidos. É fácil compreender isso. Se concordarmos que o espírito – a cultura – é uma justaposição das idéias do mundo na borda da história, então a poesia é referência, pois nos fala desde um ponto comum, formas e conteúdos legados pela cultura. Também é acedência, possibilitando o acesso para uma nova região do sentido. Ela consente que outros recursos possam colaborar para o entendimento dos tempos em que se vive e das possibilidades futuras, mostrando-se ainda como importante percurso para a invenção de novas acepções. Ela retira do discurso familiar o que é comum a todos para então projetar algo que estranha. A poesia é uma intemperança. 
Podemos perguntar se ela – a poesia – é algo presciente, ou se simplesmente se trata de uma irrupção, e assim investigar os fundamentos dessa disposição dos poetas. Mas talvez assim estaríamos desistindo daquilo que efetivamente está em jogo na poesia – o outro. 
É difícil imaginar que o poeta escreva para si mesmo, mesmo quando assim diz fazer, tal como um agente solitário diante de um mundo de descaso. Ele já sempre discorre diante de. Esse estar diante de é um estar junto com o outro de modo análogo, mas contraposto; conforme, mas independente. O poeta busca denunciar a familiaridade dos discursos. Ele avizinha representação e apresentação, sugerindo uma aventura, convidando à travessura. Assim, o poeta sempre é de algum modo diante de e adiante do outro, mas nunca sem antes encontrar conforto naquilo que aí está como legado das idéias do mundo. A poesia só existe no campo de uma certa inteligibilidade. É uma reconsideração do sentido que só pode ser realizada mediante o outro. Reconsiderar o sentido é especular, no imaginário coletivo, acerca das possíveis intenções perdidas na linguagem, contudo sem recorrer à intencionalidade. A espontaneidade é o destino da poesia e seu começo. Não poderia haver mediação intencional. Intencionalidade é imposição, é desconsideração do outro. 
Responde-se assim porque precisamos da poesia. Pois, poetas ou não, necessitamos crer na espontaneidade. Precisamos crer que ainda é possível se libertar desse condicionamento dos discursos, das idéias, dos rituais sociais. Precisamos recuperar a espontaneidade de modo arrebatador, precisamos ser tomados por ela de tal forma que cada gesto ou palavra seja uma manifestação verdadeiramente divina. Quando perdemos a espontaneidade deixamos a condição humana à deriva, pois aí, sem ela, o que visamos é apenas a autoconsideração. 
Como inspiração, vale lembrar Quintana: “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão…eu passarinho!” .
––––––––––
SOBRE O AUTOR
Cássio Pantaleoni é Mestre em Filosofia pela PUCRS no campo de especialização da Fenomenologia e da Hermenêutica. Escritor, finalista da edição de 2011 da Categoria Contos da AGES, finalista do concurso de Contos Machado de Assis do SESC-DF em 2011, Segundo Lugar no 21o. Concurso de Contos Paulo Leminski em 2010, fundador da editora 8INVERSO e profissional da área de Tecnologia da Informação. Autor de “Os Despertos” (2000), “Ninguém disse que era assim” (2002), “Desmascarando a incompetência” (2005), “Histórias para quem gosta de contar histórias” (2010) e “A Sede das Pedras” (2012).cassio@8inverso.com.br
Fontes:

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Paula Raposo (Caravelas da Poesia)

“A TUA CANÇÃO”

O mar voltou a chamar-me,
 brando, azul;
 ondulando
 levemente de espuma e paz.

Eu regresso, de mansinho
 (ao seu afago),
 canto a tua canção
 -num beijo inesgotável-
 quando o mar me desperta
 todas as ausências:
 eu te chamo breve em nós.

CARTA DE PAIXÃO”

Escrevo-te:
 mais uma carta de paixão.
 Conto-te do desejo,
 do incontornável calor
 do teu corpo e do meu,
 da saudade vincada de ti,
 da cama, do suor, do orgasmo.
 É: uma carta de paixão
 (esta), a que te escrevo,
 com palavras que escorrem
 no envelope.
 Vem hoje;
 para que eu me venha, também.

“AQUECE”

Não deixes arrefecer,
 aproveita a imaginação
 e no vento frio,
 que nos gela,
 aquece comigo a noite.
 Deixa que a madrugada
 regresse a casa
 e o calor se faça sentir,
 como a memória,
 agora ausente,
 do que fomos;
 nas entranhas
 os únicos sobreviventes.

“ATRASOS”

Sempre olhavas o relógio
 E as horas marcadas
 Para estar em casa
 Quando começava
 A despir-me
 Olhavas-me cobiçoso
 E tocavas-me
 Onde sabias
 As horas ficavam para trás
 (Mas nunca te atrasavas
 Em casa)
 Atrasavas-te só em mim
 No reboliço
 Em que deixávamos
 Metade de nós

“CANÇÃO DO AMOR”

Gosto das canções de amor
 Embaladas na tua voz
 Como se a música
 Chovesse prateada
 Em torno do meu corpo
 Emudecido
 Gosto de te ouvir
 Nas canções de amor
 Que a tua vida não calou
 E que cantas ainda
 Sob um feixe de luz
 Na madrugada aquecida
 De um quarto de hotel
 Adormeces-me em desvario
 Quando assim me embalas
 E a chuva é prateada
 E o vento se torna poema
 Na tua canção de amor.

“O TEMPO ERRADO”

Tanta palavra dita e redita
 Esquecida e magoada
 Falada no silêncio
 Fechada no tempo
 De não ser nada.
 Palavras repetidas
 Como se fossem verdade
 Como se as quisesse ouvir
 Só para que a minha voz
 Ecoe e eu a escute
 Para que as palavras
 Sejam as da minha solidão
 As da minha vontade
 Aquelas que se entregam
 Sem troca alguma.
 Ditas e reditas
 Enterradas no dia
 Do tempo errado…

DESENHO

Desenho com um lapis,
acabado de afiar,
os traços que contornam
o teu rosto
onde a barba se destaca,
mas não sei desenhar
o tom da tua voz.

Talvez o pinte de azul- maresia
e o acaricie
num longo gesto,
pronunciado
Pelo bico de meu lápis,
junto à nascente
do dia
com a sofreguidão
da maré

Fontes:

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Paula Raposo (1954)

Maria Paula Raposo nasceu em Lisboa, em 1954. 

Chegou a frequentar a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas Interrompeu os estudos para ir trabalhar num banco, trabalho que trocou em 1987, por um escritório de contabilidade. 

Concilia a sua carreira de escritora e poetisa com a atividade que continua a desenvolver nesse escritório. 

O seu primeiro livro, num registo marcadamente autobiográfico, foi editado em 2001, sob o título “Incoerências“. Com o seu segundo livro, “Canela e erva doce”, Paula Raposo estreou-se na edição de poesia. A sua poesia é livre, sem deslumbramentos formais no que respeita a métrica e rima, contendo em si uma contemplação constante, um encanto místico, onde o amor está sempre presente. 

Em 2006 participou com outros autores no livro A Poesia nos Blogs, Ed. Apenas Livros.

Participou na I Antologia de Poetas Lusófonos, com 5 poemas, Folheto Edições & Design, Lda. 

Em 2007 participou com um poema no livro da blogosfera O que é o amor? da Anjo Dourado.

 Em 2008 participou com outros autores no livro misto 22 Olhares sobre 12 palavras, Edium Editores e na “II Antologia de Poetas Lusófonos” com 5 poemas, Folheto Edições & Design, Lda.

 Editou em novembro de 2008 pela Apenas Livros Golpe de asa. 

Em março de 2009 Nevou este verão e em outubro o Marcas ou memórias do Vento todos da Apenas Livros.

 Em 2009 colaborou, com um poema, na “II Antologia das Noites de Poesia” em Vermoim (Maia- Porto).

 A 30 de outubro de 2010 foi apresentado o O verbo Ser também da Apenas Livros.

 Em outubro de 2011 Insubmissa: o lado errado numa linha imaginária, pela Chiado Editora.

 Em fevereiro de 2012 colaborou na Antologia Entre o Sono e o Sonho III da Chiado Editora.

 Em março de 2012 colaborou na I Antologia de Poesia da Editora Universus.

    A autora (in)define-se numa só frase: “Não sou definível, sou apenas uma mulher como as outras”.

Fontes:

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Machado de Assis (Fagundes Varela: Cantos e Fantasias)

AQUI TEMOS um livro do Sr. F. Varela, que é ao mesmo tempo uma realização e uma: promessa: — realiza as esperanças das Noturnas e das Vozes da América, e promete ainda melhores páginas no futuro. 

O Sr. F. Varela é um dos talentos mais vitais da nova geração; e lendo os seus versos explica-se naturalmente o entusiasmo dos seus companheiros da academia de São Paulo, onde o nome do autor das Noturnas goza de uma indisputável primazia. A academia de S. Paulo, como é natural em uma corporação inteligente, deu sempre um belo exemplo de confraternidade literária, rodeando de aplausos e animação os seus talentos mais capazes. Nisto o Sr. Ferreira de Meneses, autor do prefácio que acompanha os Cantos e Fantasias, é um órgão fiel do pensamento de todos; e saudando esta reunião, no mesmo livro, de dois nomes prestimosos, de dois moços de talento, saudamos ao mesmo tempo o progresso da academia e o futuro das letras brasileiras.

O Sr. Ferreira de Meneses, que conviveu com o poeta dos Cantos e Fantasias indica no prefácio a que aludimos os autores que servem de modelo ao Sr. Varela, e entre eles, Lord Byron. Não nos parece inteiramente exata esta apreciação. É verdade que, durante algum tempo, a poesia de Lord Byron influiu poderosamente nas jovens fileiras da academia; mas se o autor das Vozes da América aprecia, como todos nós, a musa do cantor de Child-Harold, nem por isso reproduz os caracteres do grande poeta, e damos-lhe por isso os nossos parabéns.

Houve um dia em que a poesia brasileira adoeceu do mal byrônico; foi a grande sedução das imaginações juvenis pelo poeta inglês; tudo concorria nele para essa influência dominadora: a originalidade da poesia, a sua doença moral, o prodigioso do seu gênio, o romanesco da sua vida, as noites de Itália, as aventuras de Inglaterra, os amores de Guiccioli, e até a morte na terra de Homero e de Tibulo. Era, por assim dizer, o último poeta; deitou fora um belo dia as insínias de noble lord, desquitou-se das normas prosaicas da vida, fez-se romance, fez-se lenda, e foi imprimindo o seu gênio e a sua individualidade em criações singulares e imorredouras.

Quis a fatalidade dos poetas, ou antes o privilégio dos gênios criadores, que este espírito tão original, tão próprio de si, aparecesse um dia às imaginações de alguns como um modelo poético. Exaltou-se-lhes a imaginação, e adoeceram, não da moléstia do cantor de D. Juan, mas de outra diversa, que não procedia, nem das disposições morais, nem das circunstâncias da vida. A conseqüência era natural esse desespero do poeta inglês, a que alude o Sr. Ferreira de Meneses, não existia realmente nos seus imitadores; assim, enquanto ele operava o milagre de fazer do cepticismo um elemento poético, os seus imitadores apenas vazavam em formas elegantes um tema invariável e uniforme. Tomaram-se de uns ares, que nem eram melancólicos, nem alegres, mas que exprimiam certo estado da imaginação, nocivo aos interesses da própria originalidade. A culpa seria dos imitadores ou do original?

Dos imitadores não era; são fáceis de impressionar as imaginações vivas, e as que se deixaram adoecer tinham nisso a razão da sua desculpa. É supérfluo dizer que, na exposição deste fato, não temos intenção de acusar a poesia quando ela exprime os tédios, as tristezas, os desfalecimentos da alma humana; a vida é um complexo de alegrias e pesares, um contraste de esperança e de abatimento, e dando ao poeta uma alma delicada e franzina, uma imaginação viva e ardente, impôs-lhe o Criador o duelo perpétuo da realidade e da aspiração. 

Daqui vem a extrema exaltação do poeta, na pintura do bem, como na pintura do mal; mas exprimir essas comoções diversas e múltiplas da alma é o mesmo que transformar em sistema o tédio e o cepticismo?

Um poeta houve, que, apesar da sua extrema originalidade, não deixou de receber esta influência a que aludimos; foi Álvares de Azevedo; nele, porém, havia uma certa razão do consangüinidade com o poeta inglês, e uma íntima convivência com os poetas do norte da Europa. Era provável que os anos lhe trouxessem uma tal ou qual transformação, de maneira a afirmar-se mais -a sua individualidade, e a desenvolver-se o seu robustíssimo talento; mas verdade é que ele não sacrificou o caráter pessoal da sua musa, e sabia fazer próprios os elementos que ia buscar aos climas estranhos.

Faremos, a seu tempo, um estudo deste poeta, e então diremos o que nos ocorre ainda a respeito dele; por agora limitamo-nos a atribuir-lhe uma parte da influência exercida em algumas imaginações pela poesia byrônica, e nisso fazemos um ato póstumo de justiça literária. Ora, pois, é o Sr. Varela uma das vocações que escaparam a essa influência; pelo menos, não há vestígio claro nas suas belas poesias. E como o nosso juízo não é decisivo, é apenas uma opinião, podemos estar neste ponto em desacordo com o autor do prefácio, sem por isso deixarmos de respeitar a sua opinião e apreciar o seu talento. No que estamos de pleno acordo, e no juízo que ele forma do poeta, apesar de defeitos próprios da mocidade; é o Sr. Varela uma vocação real, um poeta espontâneo de verdadeira e amena inspiração. Diz o autor do prefácio que os descuidos de forma são filhos da sua própria vontade e do desprezo das regras. Se assim é, o sistema é antipoético; a boa versificação é uma condição indispensável à poesia; e não podemos deixar de chamar a atenção do autor para esse ponto. Com o talento que tem, corre-lhe o dever de apurar aqueles versos, a minoria deles, onde o estudo da forma não acompanha a beleza e o viço do pensamento. Desde já lhe notamos aqui os versos alexandrinos, que realmente não são alexandrinos, pois que lhes falta a cesura dos hemistíquios; outros descuidos aparecem ainda no volume dos Cantos e Fantasias; vocábulos mal cabidos, às vezes, rimas imperfeitas, descuidos todos que não avultam muito no meio das belezas, mas que o nosso dever obriga-nos a indicar conscienciosamente.

Feitos estes reparos, entremos na leitura do livro do Sr. Varela. Divide-se em três partes: “Juvenília”, “Livro das Sombras”, “Melodias do Estio”. Destes títulos só os dois primeiros definem o grupo de poesias que lhes corresponde; o último, não; e há aí poesias que nos parecem caber melhor no “Livro das Sombras”; isto, porém, é crítica de miunças, e veio ao correr da pena. O que importa saber é o valor dos versos do Sr. Varela. A primeira parte, como o título indica, compõe-se das expansões da juventude, dos devaneios do amor, dos palpites do coração, tema eterno que nenhum poeta esgotou ainda, e que há de inspirar ainda o último poeta. 

Toda essa primeira parte do livro, à exceção de algumas estrofes, feitas em hora menos propícia, é cheia de sentimento e de suavidade; a saudade é, em geral, a musa de todos esses versos; o poeta quer rêver et non pleurer, como Lamartine; descrição viva, imagens poéticas, uma certa ingenuidade do coração, que interessa e sensibiliza; nada de arrojos mal cabidos, nem gritos descompassados; a mocidade daqueles versos é a mocidade crente, amante, resignada, falando uma linguagem sincera, vertendo lagrimas verdadeiras.

O título de “Livro das Sombras”, que é a segunda parte do volume, faz crer que um abismo a separa do poema de “Juvenília”; mas realmente não é assim. As sombras no livro do Sr. Varela são como as sombras da tarde, as sombras transparentes, douradas pelo último olhar do dia, não as da noite e da tempestade. Não há mesmo diferenças notáveis entre os dois livros, a não ser que, no segundo, inspira-se o poeta de assuntos diversos e variados, e não há aí a doce monotonia do primeiro. O “Cântico do Calvário”, porém, avantaja-se a todos os cantos do volume: são versos escritos por ocasião da morte de um filho; há aí verdadeiro lirismo, paixão, sensibilidade e belos efeitos de uma dor sincera e
profunda. São esses também os versos mais apurados do livro, descontados uns raros descuidos. A idéia com que fecha essa formosa página é bela e original, nasce naturalmente do assunto, e é representada em versos excelentes. Quase o mesmo podemos dizer dos versos ao “Mar” que tantos poetas hão cantado, desde Homero até Gonçalves Dias; a paráfrase de Ossian, “Colmar”, encerra igualmente os mais belos versos do poeta, e tanto quanto é possível parafrasear o velho bardo, fê-lo com felicidade o Sr. Varela. “Colmar” pertence já ao livro das “Melodias do Estio”; como se vê, a nossa apreciação é rápida, tendo por fim resumir o nosso pensa-mento, acerca de um livro que merece a atenção da análise, e de um poeta que tem jus ao aplauso dos entendedores.

Se há neste volume mais de uma imperfeição, se por vezes aparecem os descuidos de forma e de locução, não façamos desses cochilos de Homero grande cabedal; aconselhemos, sim, ao autor que não erija em sistema um defeito que pode diminuir o mérito das suas obras. Vê-se pelos bons versos que ele nos dá, quanto lhe é fácil produzir certo apuro na forma; emendar não prova nunca contra o talento, e prova sempre a favor da reflexão; e o tempo, cremos ter lido isto algures, só respeita aquilo que é feito com tempo; máxima salutar que os poetas nunca deviam esquecer.

Quanto ao cabedal da natureza, a inspiração a espontaneidade, essa tem-na o Sr. Varela em larga escala; sabemos que é um moço estudioso, e vê-se pelas suas obras, que possui a rara qualidade do gosto e do discernimento. Os que prezam as boas letras interessam-se pela ascensão progressiva do nome do Sr. Varela, e predizem-lhe um futuro glorioso. Que ele não perca de vista esse interesse e essa predição. Aconselhando-lhe a perseverança e o trabalho, o culto desvelado e incessante das musas, a nossa intenção é simplesmente corresponder aos hábitos de atividade que lhe supomos; não entra, porém, no nosso espírito a idéia de exigir dele uma prova de infatigabilidade literária; há quem faça uni crime da produção lenta, e ache virtude nos hábitos das vocações sôfregas; pela nossa parte, nunca deixaremos de exigir, mesmo dos talentos mais fecundos, certas condições de reflexão e de madureza, que não dispensam uma demora salutar. Ao tempo e à constância no estudo, deve-se deixar o cuidado do aperfeiçoamento das obras. Com estas máximas em vista e um talento real, como o do Sr. Varela, é fácil ir longe.

Desperta-nos as mesmas considerações um volume que acabamos de receber do Rio Grande do Sul. Intitula-se Um Livro de Rimas, e é escrito pelo Sr. J. de Vasconcelos Ferreira. Tem o poeta rio-grandense talento natural e vocação fácil; falta-lhe estudo e talvez gosto; alguns anos mais, e podemos esperar dele um livro aperfeiçoado e completo. O que lhe aconselhamos, porém, é que, além do extremo cuidado na escolha das imagens, que as há comuns e nem sempre belas, no livro das Rimas, procure o Sr. Ferreira tratar da sua forma, que em geral é pobre e imperfeita. Faça das musas, não uma distração, mas um culto; é o meio de atingir à bela, à grande, à verdadeira poesia.

Fonte:
Machado de Assis. Crítica Literária. Pará de  Minas/ MG: Virtualbooks, 2003.

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Jornais e Revistas do Brasil (Diário do Maranhão)

Período disponível: 1855 a 1911 
Local: São Luis, MA 
  
Criado por empresários locais e dirigido por Antônio Rego, o Diário do Maranhão foi lançado em 1855, na cidade de São Luís. Veio à luz poucos anos após a lei que extinguiu o tráfico intercontinental de escravos para o Brasil (1850), apresentando-se como um “jornal do commercio, lavoura e industria”. Sua circulação foi suspensa em 1858, para reaparecer em 1873, com pequenas modificações.
Até 1858 as edições eram diárias, continham quatro páginas em formato grande, divididas em três colunas. Compunha-se de quatro partes: a oficial, com matérias referentes ao expediente da província; folhetim, espaço destinado a romances e novelas francesas; marítima, sobre o movimento de entrada e saída de embarcações no porto de São Luís, e notícias, com assuntos diversos, como festas, propagandas de mercadorias e serviços, comércio de escravos, de bebidas e leilões. Também publicava fatos ocorridos em outras cidades que não a capital, como Alcântara e Caxias, e notícias internacionais. Defendia a discussão de princípios e se declarava imparcial nas questões públicas ou particulares.
 O jornal oferecia assinaturas anuais por 12$000 réis, semestrais por 6$000 réis e trimestrais por 3$500 réis. Os anúncios para assinantes eram gratuitos (até três vezes com dez linhas, custando o excedente 40 réis por linha). Não assinantes pagavam 60 réis por linha em “typo comum” e 180 réis em “typo diferente”. As assinaturas deveriam ser pagas adiantadas e começavam em qualquer dia, finalizando nos meses de março, junho, setembro ou dezembro. A tipografia ficava na rua dos Barbeiros, 8.
A partir de 1874 o jornal experimentou algumas mudança. Continuou com quatro páginas, porém divididas em cinco colunas. Havia a secção geral, na qual se discutiam temas variados, e a secção de notícias, dividida em anúncios – com ofertas de serviços em geral, de profissionais do ensino, de mão-de-obra escrava em fazendas e construção civil, além de amas (de leite e para serviços domésticos) e mercadorias, como alimentos, bebidas, louças, roupas, remédios e escravos – e secção comercial, com o movimento da alfândega, do tesouro provincial e do setor financeiro.
A assinatura tinha valores diferenciados para capital e interior. Quem morasse em São Luís poderia assinar o jornal por seis meses (8$000 réis) ou por três meses (4$000 réis). Quem morasse no interior só tinha a opção da assinatura semestral (9$000 réis).
A publicação continuou diária, matutina, deixando de sair apenas às segundas-feiras e nos dias seguintes a datas santificadas e feriados. A redação e tipografia do Diário do Maranhão ficavam, então, na rua das Palmas, 6.
No acervo da Fundação Biblioteca Nacional há edições digitalizadas de 11.150 números, publicados entre 1855 e 1911.
Fonte:

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 768)


Uma Trova de Ademar  

O tempo austero e sisudo
põe na memória da gente
o alzheimer que apaga tudo
do vídeo tape da mente!
–Ademar Macedo/RN– 

Uma Trova Nacional  

Depois desta despedida 
que feriu meu coração, 
aqui fiquei esquecida 
a brincar de solidão. 
–Maria Cardoso Zurlo/RS– 

Uma Trova Potiguar  

O barco é movido a remos … 
E hoje, pai, longe de ti, 
eu só sei dizer: vencemos; 
é injusto eu dizer: venci. 
–Manoel Cavalcante/RN– 

Uma Trova Premiada  

2012   –   Caxias do Sul/RS 
Tema   –   COR   –   4º Lugar 

Brancos, negros e amarelos, 
se a causa é justa e loquaz, 
juntam braços, que são elos 
forjando as cores da Paz! 
–Flávio Roberto Stefani/RS– 

…E Suas Trovas Ficaram  

A voz dos ventos distantes, 
dentro das conchas do mar, 
são preces de navegantes 
que não puderam voltar.
–Hegel Pontes/MG– 

U m a P o e s i a  

Quando a lua vem chegando 
linda de véu e capela, 
é a noiva mais bonita 
que brilha na passarela, 
ela cochila em meus braços 
e eu durmo nos braços dela! 
–Prof. Garcia/RN– 

Soneto do Dia  

CIRENEUS. 
(Resposta ao soneto “Luz” de Divenei Boseli) 
–Thalma Tavares/SP– 

Gloriosa a mulher que a sós carrega 
seu madeiro de luta e sofrimentos. 
Seu calvário é de dor, mas não se entrega 
e raríssimos são seus bons momentos. 

A lhe dar seu valor ninguém se nega 
nem se nega a exaltar-lhe os sentimentos 
aquele que as virtudes não renega 
e sabe quanto pesam-lhe os tormentos. 

Mas não só na mulher esta virtude 
manifesta-se assim, estóica e rude 
– exemplo de firmeza sobranceira: 

na vida, em muitos homens reconheço, 
cireneus que carregam sem tropeço 
a sua cruz e a cruz da companheira!

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Antônio Lôbo (Novos Atenienses: poemas)

OLHOS VERDES
Alfredo de Assis

Tinha o mar para mim, sempre, um novo atrativo.
Quanta vez eu lhe disse as minhas alegrias,
Sentindo-o, forte e belo, estremecer, cativo
Dos meus sonhos, num brando exalar de harmonias!

Hoje o meu velho amigo, hoje o mar, como vivo,
Só me traz o pavor e cruéis agonias.
Já não posso fitá-lo, ai! não posso, que avivo
Estas penas sem fim! estas mágoas sombrias!

Porque o verde do mar lembra o verde de uns olhos
Que me foram na vida a suprema ventura.
E por quem vivo agora a gemer e a chorar.

Olhos cheios de luz, olhos cheios de escolhos,
Cheios duma divina expressão de ternura,
E cruéis… e fatais como as águas do mar…

(Lôbo, Antônio. Os Novos Atenienses. São Luís: SIOGE/AML, 1970. p.58.)

SERTANEJAS
Luís de Carvalho

I

Vem nascendo a manhã. A lavandisca
Desfere o canto à sombra das ramadas.
Tremendo, o orvalho límpido faísca
Das paineiras nas flores desatadas.

Solta, pelos capões correndo, a arisca
Seriema as estridentes gargalhadas.
E a aurora as nuvens de oiro e sangue risca,
Doira e ensangüenta a areia das estradas.

Todo o sertão está desperto. O brando
E frio vento da manhã sacode
O mangueiral, as mangas despencando.

Sobe da mata o aroma das resinas.
E a codorniz, assobiando, acode
Aos pios matinais das sururinas.

II

Meio dia. Lá fora um sol violento
Cai do céu, queima o pó, doira as espigas.
À beira da água o gado sonolento
Repousa, e batem roupa as raparigas.

Agora a mata é quieta e muda. O vento
Cessou. Cessaram todas as cantigas.
Nem um leve rumor, nem um lamento
No seio bom das árvores amigas.
O engenho, entanto, à luz do sol trabalha.
A cana guincha nas moendas. Fuma
Fuligem negra a férvida fornalha.

Borbulha o mel nas tachas referventes
E um bafo sobe, ao desflorar da espuma,
Entre o fragor das máquinas trementes.

III

Agora o curvo céu resplende. O cheiro
Bom da jurema os ares embalsama.
Dorme o curral. O gênio feiticeiro
Da noite anda a sonhar de rama em rama.

Fia o luar nas árvores a trama
Da luz. Da casa-grande no terreiro
Tem a viola enleios de quem ama,
Entre os dedos nervosos do vaqueiro.

Grilos… O fogo azul dos pirilampos…
O murmurar dos ninhos e do rio,
A mãe-da-lua aos gritos pelos campos…

Noite de minha terra, mansa e boa!
Deixa que eu durma ouvindo o desafio
Das cantigas dos sapos na lagoa!… 
(p. 63-64)

(Lôbo, Antônio. Os Novos Atenienses. 2. ed. São Luís: SIOGE/AML, 1970.)

Fonte:

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Antônio Lôbo (Os Novos Atenienses)

O perfil intelectual de Antônio Lôbo, no panorama da Literatura Maranhense, tem como paradigma as próprias concepções que ele expressou no texto de uma obra que, sem vias de dúvida, é precursora, fundadora, mestra e pioneira, no campo da crítica e teoria literária maranhense, Os Novos Atenienses, editada em primeira edição pela Tipografia Teixeira, em São Luís do Maranhão, 1909; reeditada pelo SIOGE, sob os auspícios da Academia Maranhense de Letras, em 1970, quando da passagem do Centenário de Nascimento do Autor.

Em Os Novos Atenienses, Antônio Lôbo analisa o renascimento da cultura e da literatura maranhense, procurando registrar e resgatar o momento literário de então, bem como a vida e a obra dos escritores que se destacaram na primeira década do século XX, apresentando em seu discurso uma leitura bem peculiar, que classificaríamos até de profética, dada a verdadeira atenção para as entrelinhas e os subentendidos usados por ele, com certeza para driblar a ditadura das letras da sociedade aristocrática da época, elitista, cartesiana, conservadora e puritana, sobretudo hipócrita, toda poderosa em seu círculo radicalmente fechado.

Sem dúvida, para falar dessa fase imediatamente finissecular, ele se estrutura nos precedentes, um momento áureo e de apogeu da Literatura Maranhense, em razão do qual o Maranhão mereceu o epíteto de Atenas Brasileira. Momento marcante, representado por escritores, eruditos, intelectuais e homens cultos do porte de Sotero dos Reis, Odorico Mendes, João Lisboa, Henriques Leal, Gonçalves Dias e poucos outros.

Os marcos anunciadores desse renascimento, na prática, são a fundação da Oficina dos Novos, em 28 de julho de 1900, que teve, como idealizador e responsável, o próprio Antônio Lôbo, e da Renascença Literária, em 17 de março de 1901, movimento cultural dissidente, encabeçado por Nascimento Moraes.

O principal mérito da obra Os Novos Atenienses, de Antônio Lôbo, está no caráter da novidade e autenticidade do documento para a época e para hoje, pelo fato de o texto ter vários olhares, leituras e diálogos, cujo descortino aponta para um universo semântico simultaneamente fixado no presente de então, na grande noite negra que o precedeu, num passado áureo e no futuro. Tempo esse sempre escasso e gasto por antecipação por quantos se equivocam sobre o que seja imortalidade. Inquestionavelmente, um manifesto, um documento referencial único, que funda, paralela e simultaneamente, uma teoria e uma crítica literária, portanto uma obra pioneira, no gênero, como referencial de visão crítica de uma época. Entre outros méritos está, também, o de registro e resgate dos movimentos, jornais e revistas literárias que cobrem o final do século XIX e o início do século XX.

Lendo Os Novos Atenienses, tomamos conhecimento da cultura literária de um escritor e de toda uma congregação geracional, aglutinada em torno deste como mentor intelectual, que se impôs por mérito e por necessidade. Temos consciência do quanto esta obra é indispensável, para que se possa fazer justiça aos que, do passado, passaram ao tempo presente, literariamente. Travamos conhecimento com a seriedade de propósitos e comprometimento de um homem de firmeza de caráter admirável, como Antônio Lôbo, para com a literatura e a sociedade maranhense. Um homem que preferiu morrer a corromper-se em qualquer plano. Não houve nem há tantos maranhenses da sua estirpe, muito pelo contrário. Com ele, podemos viajar para o passado e conviver com uma visão preconceituosa e restritiva que a intelectualidade maranhense tinha sobre a criação literária.

Lendo-se o texto de Antônio Lôbo, tem-se a antevisão de que, no Maranhão do início do século XX, ainda predominava a tacanha concepção parnasiana, equivocada, sobre o que seja a essência do poético ou da poesia. Portanto, poeta ainda era o doutor em se tratando de versificação e metrificação. E ele próprio fez certas concessões a esse tipo de pensamento, creditando, na teoria, conceitos sobre os quais, na prática, não referendara.

Felizmente, quando lemos Antônio Lôbo, percebemos, nas entrelinhas, que os seus verdadeiros eleitos não eram, senão, aqueles que a elite cultural da época considerava malditos, decadentes ou manquê, já que ele próprio, no mais belo poema que publicou, Por Amor de uns Olhos, paradoxal e contraditoriamente, se expressou como um legítimo simbolista, contrariando os cânones parnasianos, tão em voga, porém já retrógrados para poetas da estirpe de excêntricos como Maranhão Sobrinho, I. Xavier de Carvalho, Luís Carvalho e Alfredo de Assis, dentre poucos outros, que viveram o tempo cronológico de sua geração e muito além.

POR AMOR DE UNS OLHOS
Antônio Lôbo
…………………………………………………..
Olhos que lembram preces e luares,
Céus estrelados, vagas marulhantes,
Guitarras a gemer, harpas cantantes,
Noites de amor em flóridos pomares,
…………………………………………………..
Olhos que evocam, sugestivamente,
Umas paisagens líricas de sonhos,
Sob o clarão nostálgico e tristonho
De um perene luar, saudoso e algente,

Vagos queixumes, indecisas mágoas,
Prantos convulsos, nalgum sítio ermo
Harpejos tristes de alaúde enfermo,
Cisnes boiando sobre claras águas,

Velas que passam deslizando mansas,
Por tardes tristes, invernosas, frias,
Um desfilar de castas utopias,
Todo um cortejo branco de esperanças;
Olhos que a gente nunca mais esquece,
Como eu vos amo e quero, saiba embora
Que não se fez pra mim à luz da aurora
Que nas vossas pupilas resplandece,

Que as horas passem, que se volvam os dias,
Que os anos se amontoem sobre os anos,
Que um após outro cheguem os desenganos,
Que uma após outra fujam as alegrias,

Sempre na mente vos trarei brilhando,
Sempre em minhalma vivereis luzindo,
Olhos que um dia eu conheci sorrindo,
Olhos que após abandonei chorando.

(Moraes, Jomar. Vida e Obra de Antônio Lôbo. São Luís: Revista Legenda Editora, 1969. p.53-55.)

OS NOVOS ATENIENSES: A OFICINA DOS NOVOS & A RENASCENÇA LITERÁRIA

Essa agremiação, instalada a 28 de julho de 1900, sob o patronato de Gonçalves Dias, por Francisco Serra, João Quadros e Astolfo Marques, foi a Oficina dos Novos, que ainda hoje se mantém nesta capital, e cuja direção ficou assim composta: Presidente, Francisco Serra; Vice-Presidente, Luís Carvalho; Secretário-Geral, Astolfo Marques; Tesoureiro, Monteiro de Sousa; 1º Secretário e Bibliotecário, Maranhão Sobrinho.(…) O seu quadro social, que se foi sucessivamente alargando, conta hoje 30 sócios efetivos, 40 sócios honorários e 51 sócios correspondentes. A Oficina fez-se representar na imprensa por um periódico: Os Novos,(…).

Depois da publicação do primeiro número de Os Novos, isto é – a 16 de agosto de 1900, surgia na imprensa literária da terra, outro periódico – A Atualidade, – dirigido por Luís Carvalho e Henrique Fernandes, com a colaboração de Fran Paxeco, Damasceno Ferreira, Raimundo Santiago, Luís Serra, Maranhão Sobrinho, Viriato Correia, João Quadros e Agostinho Reis. Este último mantivera, anteriormente, outra folha literária, também de publicação periódica, em que haviam colaborado, I. Xavier de Carvalho e A. dos Reis Carvalho.

No ano seguinte, isto é – em 1901, desligava-se da Oficina dos Novos, um grupo de moços, para ir fundar uma nova sociedade.: A Renascença Literária, representada logo na imprensa por um mensário – Renascença, que viveu de 1901 a 1902, redigido por I. Xavier de Carvalho, Nascimento Mo-raes, M. George Gromwell, Otávio Galvão, Rodrigues de Assunção, Leôncio Rodrigues, Leslie Tavares e Caetano Sousa.

NOTA

É interessante notar que, até quando Antônio Lôbo faz certas restrições relacionadas ao modo peculiar como alguns poetas manejavam a mimésis, em nível da estesia, ou seja, como percebiam a beleza, de uma maneira estranha, extravagante, a exemplo de I. Xavier de Carvalho e Maranhão Sobrinho, que operaram os poemas, privilegiando as percepções sensoriais, é com uma diplomacia que desarma qualquer ânimo de antítese. Porque, primeiro, ele exalta, engrandece, amacia o ego, como um conterrâneo orgulhoso e ufanista dos irmãos que tem, para, em seguida, censurar, mas, ainda na censura, elogioso. Percebe-se que, no fundo, ele era um simpatizante da ousadia dos jovens pares, poetas que hoje são reconhecidos como legítimos antecipadores do Modernismo, por haverem criado uma autêntica maneira de se significar no discurso, através da alegoria, em nível da trapaça e do fingimento de que tão bem nos falou Fernando Pessoa. Luís Carvalho e Alfredo de Assis são exemplos típicos dessa aspiração que consagrou poetas como I. Xavier de Carvalho e Maranhão Sobrinho, que souberam construir textos, cujas bases são a sinestesia, a onomatopéia, a prosopopéia, a aliteração, o paradoxo, a ambigüidade, esse contraditório, portanto, ao estilo parnasiano, gerador das funções da linguagem no aceso do poético e metalingüístico. Luís de Carvalho, por exemplo, é alegoria pura, aliteração, sinestesia, onomatopéia, prosopopéia, a nos lembrar o soneto Moenda, de Da Costa e Silva.

Fonte:

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Antônio Lôbo (1870 – 1916)

Antônio Lôbo é o nome literário de Antônio Francisco Leal Lôbo que nasceu em São Luís, capital do Estado do Maranhão, a 4 de julho de 1870. 

Professor, jornalista e escritor, tendo-se destacado, nesta última profissão, como ensaísta, poeta, romancista e tradutor.

Como funcionário público, exerceu os cargos de Oficial de Gabinete do Governo do Estado, da Biblioteca Pública Benedito Leite, do Liceu Maranhense e da Instrução Pública. 

Juntamente com Fran Paxeco, Ribeiro do Amaral, Barbosa de Godois, Corrêa de Araújo, Astolfo Marques, Godofredo Viana, Clodoaldo de Freitas, Inácio Xavier de Carvalho, Domingos Barbosa, Alfredo de Assis e Armando Vieira da Silva, fundou, na noite de 10 de agosto de 1908, a Academia Maranhense de Letras, uma extensão da Oficina dos Novos. 

Congregou e aglutinou, em torno da projeção intelectual de seu nome, os escritores de expressão da época. 

Em virtude de perseguições políticas, moralmente traumatizado, no último ano de sua existência, recolheu-se a sua residência e, na madrugada de 24 de junho de 1916, enforcou-se com uma corrente.

OBRAS MAIS EXPRESSIVAS

– A Carteira de um Neurastênico, romance publicado, inicialmente sob a forma de folhetim, na Revista do Norte, em São Luís, sob o pseudônimo de Jayme Avelar, em 1903; 
– Pela Rama, crônicas, São Luís, 1912; 
– Os Novos Atenienses, ensaio, São Luís, 1909. 

Traduziu as seguintes obras: 
– Debalde, romance da autoria de Stenkiwicz, cuja publicação inicial foi sob a forma de folhetim na Revista do Norte, São Luís, 1901; 
– em parceria com Fran Paxeco, O Juiz sem juízo, comédia da autoria de Bisson; 
– Henriqueta, da autoria de François Coppée.

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José de Alencar (Ao Correr da Pena) Rio, 10 de junho: Um Tema Delicado

Falemos de política.

É um tema muito delicado, sobretudo na época atual.

Mas o que é política?

Se a etimologia não mente, é a ciência do governo da cidade.

Pode ser que esta definição não lhes agrade; mas isto pouco me embaraça. Estou expondo um novo sistema social; é natural que me aparte das opiniões geralmente admitidas.

Continuemos.

A política é o governo da cidade. A cidade se compõe de freguesias, de ruas, de casa, de famílias e de indivíduos, assim como a nação de províncias e municípios.

Já se vê, pois, que a política deve ser também a ciência de bem governar a casa ou a família, e de promover os interesses dos indivíduos.

Isto é lógico, e ninguém me poderá negar que, promovendo-se estes interesses, não se concorra poderosamente para o melhoramento da freguesia, da província e finalmente do país.

Daqui resultam, portanto, dois grandes sistemas políticos, dois princípios únicos da ciência do governo.

Um que procede à guisa da análise, que parte do particular para o geral, que promove os interesses públicos por meio dos interesses individuais.

O outro é uma espécie de síntese, desce do geral ao particular, e, melhorando o país, assegura o bem-estar dos indivíduos.

Este método, tanto em política, como em lógica, tem geralmente pouca aceitação: do contrário os espíritos esclarecidos preferem a análise.

Quereis saber como se faz a análise em política?

Em vez de examinarem-se as necessidades do país, examinam-se as necessidades deste ou daquele indivíduo, nomeiam-no para um bom  emprego criado sem utilidade pública, e o país se incumbe de alimenta-lo por uma boa porção de anos.

Lá chega um dia em que se precisa de um ministro, e lança-se mão daquele indivíduo como de um homem predestinado, o único que pode salvar o país.

Eis, portanto, os favores feitos àquele indivíduo dando em resultado um benefício real à causa pública; eis a política por meio do empenho – quero dizer da análise, – criando futuros ministros, futuros presidentes, futuros deputados e senadores.

Alguns espíritos frívolos, que não têm estudado profundamente este sistema político, chamam a isto patronato! 

Ignorantes, que não sabem que cálculo profundo, que sagacidade administrativa é necessária para criar-se um homem que sirva nas ocasiões difíceis!

Estes censuram o deputado que, em vez de se ocupar dos objetos públicos, trata dos seus negócios particulares; falam daqueles que sacrificam os interesses de sua província às exigências de sua candidatura de senador.

E não compreendem que estes hábeis políticos, promovendo os interesses de sua pessoa, de sua casa e de sua família, não tem em vista senão auxiliar o melhoramento do país, partindo do menor para o maior.

De fato, algum dia eles pagarão à nação tudo quanto dela receberam, em projeto de reformas, em avisos, em discursos magníficos. Isto enquanto não vão à Europa passear e fazer conhecida do mundo civilizado a ilustração dos estadistas brasileiros.

E há quem chame a isto patronato, empenho ou desmoralização! Como se em muitos outros paises, e até na França, não estivesse em voga este mesmo sistema de governar!

Outrora se dividiam as forma de governo em república, monarquia representativa e monarquia absoluta. Hoje está conhecido que estas duas divisões são puramente escolásticas, e que não há senão duas maneiras de governo: o governo individual e o governo nacional, o governo dos interesses particulares e o governo dos interesses do país.

Cada um deles pode conduzir ao fim desejado, procedendo por meios diversos.

Um, por exemplo, escolhe o indivíduo para o emprego, segundo a sua aptidão; o outro escolhe emprego para o indivíduo, segundo a sua importância.

O primeiro ganha um bom empregado, o segundo um excelente aliado. Um pode errar na escolha do indivíduo; o outro pode ser traído pelo seu protegido.

Se os meus leitores acham muito extravagante esta preleção política, têm bom remédio; é não lerem segunda vez, se tiverem caído na atualidade.

Não pensem contudo que pretendo fazer concorrência às últimas declarações feitas na Câmara dos Deputados; de maneira alguma.

Qualquer dos métodos ali apresentados é inquestionavelmente melhor do que o meu, começando pelo de um nobre deputado de São Paulo.

Que política salvadora! Voltaremos ao tempo das revoltas, das perseguições, das eleições armadas. Teremos uma espécie de fanatismos político, uma cruzada, a que se chama saquaremismo puro!

Ora, é inegável que se podem obter grandes resultados com esta política. A revolução, segundo dizem, é uma força civilizadora, regenera como o fogo, purifica como o martírio.

Portanto não há que hesitar! Adotemos esse programa salvador; arranjemos quanto antes uma meia dúzia de São José dos Pinhais, e avante, que o futuro é nosso! A jovem oposição entrará no senado, e teremos dado um grande passo para o engrandecimento da nossa pátria.

E a respeito de política, estou satisfeito, quero dizer estou suficientemente enfastiado.

E, o que mais é, não tenho nada de bonito que dizer-vos. A semana que acabou foi unicamente de esperanças. Todo o mundo esperava; nestes sete dias passados ninguém teve um pensamento que não fosse uma expectativa.

Até quinta-feira esperou-se que a procissão de São Jorge fosse brilhante, e por isso uma concorrência extraordinária enchia as ruas privilegiadas.

Quase todas as moças bonitas da cidade estavam reclinadas pelas varandas dessas casas, tão tristes e tão soturnas nos outros dias.

Cada janela era um buquê; e como um buquê pode ser bonito ou feio, perfumado ou inodoro, segundo as flores de que se compõe, deve cada um entender a palavra a seu modo.

Há gente que gosta da rosa, porque tem espinhos; há outros que preferem a violeta, porque é modesta; e talvez que alguns apreciem o cravo amarelo, a papoula, e achem um certo sainete no cheiro da arruda e do manjericão.

Para todos estes gostos havia flores nos buquês de que falei. O jardim era completo, principalmente no que diz respeito a girassóis.

A procissão saiu.

Se ainda não sabeis, podeis ficar certo disto, assim como do logro que nos pregou. Anunciavam uma procissão muito bonita, e saiu uma muito feia.

São Jorge apareceu vestido de novo, mas posso afiançar-vos que não estava à son aise. Induzi isto da palidez, da cor de mortalha que tinha o seu semblante.

De fato o ativo guerreiro não podia estar ao seu gosto dentro daquele manto enorme, que cobria cavaleiro e cavalo, de tal maneira, que de longe apenas se via um capacete e uma capa que caminhavam com quatro pés.

Depois da imagem vieram as irmandades do costume; houve porém, uma que eu não conheci, e que entretanto ia de envolta com a do Carmo; falo de uma  que trazia capa amarela, cor que não me consta tenha sido adotada por nenhuma confraria desta corte.

Depois de quinta-feira começou todo o mundo a esperar pelas ações da estrada de ferro, e pelo resultado das cartas entregues à comissão, as quais montam já a mais de cinco mil!

Nem os ministros, nem as moças bonitas, nem os lentes no tempo de  exames, ou os eleitores em época de eleição, são capazes de apresentar um tal número de billets doux.

A comissão tem, portanto, de fazer o milagre de Jesus Cristo, dividir esse pão, não em fatias, porém sim em migalhas.

E é essa divisão que todos esperam ansiosos, calculando já pelos dedos os resultados prováveis do emprego deste dinheiro que tem seguro um interesse de sete por cento.

Além desta expectativa, preocupou igualmente os ânimos a esperança de uma decisão do governo a respeito da questão do Paraguai; porém, como todas as esperanças da semana, esta ainda não se realizou.

Entretanto, apesar de não sermos dos mais entusiastas da política atual, estamos convencidos que a resolução do governo, qualquer que seja, será ditada pela solicitude que nos inspira a todos a honra e a dignidade nacional.

Enquanto o mundo da sociedade, que passa o seu tempo a brincar e a divertir. O baile do Cassino na terça-feira equivale a uma expedição do Paraguai.

A diretoria, qual novo Pedro Ferreira, levou-nos para o salão da Fileuterpe, no qual tiveram lugar as exéquias do baile aristocrático.

Diz Auguez que para muitos homens a vida começa num salão de baile e acaba na sacristia de uma igreja.

Pode ser; mas o que sou capaz de apostar é que esse baile de que fala o escritor do Mosqueteiro não teve de certo nenhuma semelhança com o de terça-feira.

A casa, que é uma excelente estufa para curar constipações, parece que foi construída na Rússia ou na Sibéria, e de lá mandada vir de encomenda.

Demais, tem uma escada imoral, porque deixa ver as pernas de todas as moças e velhas que sobem. Basta postar-se um homem no saguão durante a noite para fazer um estudo completo da pernologia da cidade.

Pernologia é um termo novo que eu inventei na noite do Cassino, por não ter outra coisa que fazer; mal sabia eu que me havia de servir dele tão cedo.

Quanto ao serviço do Cassino, não direi mais do que três palavras: não havia pão.

Um baile sem pão é uma falta imperdoável, é um atentado à galantaria, uma coisa incompreensível.

E se não que reflitam no provérbio antigo, na máxima dos tempos em que se sabia amar e se prezavam todas as belas-artes: Sine Cerere et Baccho friget Vênus.

Uma sociedade como o Cassino deve ter um serviço magnífico, um serviço delicado e que não seja uma espécie de segunda edição do que se encontra por aí em qualquer bailezinho.

Já  me enfastia esta infernal monotonia, que me persegue em todas as reuniões. É um drama em quatro atos que se repete mais do que os milagres de Santo Antonio. Ás dez horas – primeiro ato – chá. Às onze horas – segundo ato – sorvetes. Á meia noite – terceiro ato – empadas. A uma hora – quarto ato – chocolate.

Há mais de três anos que os bailes do Rio de Janeiro rezam por esta cartilha, e reduzem-se a apresentar-nos empadas, como se já não estivéssemos faros delas.

E, a propósito de empadas, quero comunicar-vos umas reflexões que fiz há tempos sobre o casamento, em um sábado de tarde quando passavam uns carros destinados para este fim.

Em primeiro lugar, não pude deixar de estranhar que se escolhesse o sábado para a celebração deste ato, quando, segundo a tradição popular, é neste dia que os diabos andam soltos.

Depois, lembrei-me do que diz um escritor, cujo nome não me lembro; esse santo homem, que naturalmente é celibatário, só compreende que se casem três classes de indivíduos: os políticos, os ambiciosos de fortuna e os velhos reumáticos e caquéticos.

Os políticos desposam uma boa posição na sociedade, uma proteção valiosa, uma família influente, um nome de prestígio. Para eles a mulher é um diploma.

Os ambiciosos casam-se com uma boa porção de contos de réis, com uma excelente mesa, um palácio, e todas as comodidades da vida. Para eles a mulher é uma letra de câmbio, ou uma hipoteca sobre boa herança.

Os velhos reumáticos casam com as cataplasmas e as tisanas.

Para estes a mulher é uma enfermeira, uma irmã de caridade, um xarope de saúde.

Além destas três classes gerais, há algumas exceções, que não deixam de ter a sua originalidade.

Há sujeitinho que casa unicamente para dizer – eu casei; outros que mudam de estado e deixam a vida de ser solteiros para fazer a experiência.

Alguns entendem que devem ter uma bela mulher na sua sala, assim como se tem uma étagère, um lindo quadro, ou um rico vaso de porcelana de Sèvres. 

Gostam de levar pelo braço uma bonita moça, porque faz o mesmo efeito que uma comenda ou uma fita do Cruzeiro: chama a atenção.

Muitos casam para terem um autômato que lhes obedeça, sobre quem descarreguem o seu humor, a quem batam o pé e ruguem o sobrolho, como Júpiter Olímpico.

Finalmente, uns dizem que casam por inclinação e por amor, isto é, casam porque não têm motivo, e por isso são obrigados a inventar este pretexto.

Mas deixemos esta matéria vasta, e voltemos ao nosso pequeno mundo de seis dias.

Sabeis que vamos ter breve uma celebridade lírica no nosso teatro?

Temos tanto esperado, que já é tempo de uma vez cumprirem as velhas promessas que nos costumam fazer.

A nova cantora, o novo rouxinol da Ausônia, que vem encantar as noites da nossa terra, chama-se Emmy La Grua.

É uma bela moça, de formas elegantes, de grandes olhos, de expressão viva e animada. A boca, sem ser pequena, é bem modelada; os lábios são feitos para esses sorrisos graciosos e sedutores que embriagam.

Bem entendido, se o retrato não mente, e se aquela moça esbelta e airosa que vi desenhada não é uma fantasia em crayon.

Quanto à sua idade, bem sabeis que a idade de uma moça é um problema que ninguém deve resolver. Os indiscretos dizem que tem vinte e três anos; quando mesmo tenham trocado os números, não é muito para uma moça bonita.

As belas mulheres não têm idade; têm épocas, como os grandes monumentos; nascem, brilham em quanto vivem, e deixam depois essas melancólicas ruínas, em face das quais o viajante da terra vem refletir sobre o destino efêmero das coisas deste mundo.

Terminando, tenho de dar-vos os meus parabéns pela escolha do novo senador pelo Pará, o Sr. Conselheiro Souza Franco. É uma daquelas graças que honram a quem as faz, honrando ainda mais quem as recebe.

Como sei que alguns dos meus leitores são amantes de originalidades, recomendo-lhes que não deixem de ir contemplar uns jardins babilônicos que a Câmara Municipal e a polícia estão mandando fazer na Rua do Ouvidor, esquina da  Vala.

Tem a altura de cerca de quarenta palmos; e, se um dos jarros cair, poderá esmagar algum pobre passante.

Mas é tão divertido, que não vale a pena proibi-los, por causa de tão mesquinha conseqüência.

Deveis ter lido hoje no Correio Mercantil um artigo da Revolução de Setembro sobre o tráfico de africanos no Brasil. Isto mostra quanto é apreciada, mesmo nos países estrangeiros, a grande regeneração que devemos aos esforços do Sr. Eusébio de Queirós.

É também um motivo para que paguemos com generosidade quaisquer serviços que se tenham prestado neste importante objeto; há dívidas sagradas que, uma vez contraídas, importam a honra e dignidade do governo, que neste caso equivale a uma injúria; e o governo não pode deixar de fazer calar essas queixas, ou pelo menos justificar-se delas.

Fonte:
José de Alencar. Ao Correr da Pena. SP: Martins Fontes, 2004.

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Carlos Drummond de Andrade (Receita de Ano Novo)

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27 de dezembro de 2012 · 20:43

Isabel Furini (Viver ou Ver a Vida Passar?)

 Penso que A VIDA É UMA VIAGEM. Não podemos ficar como barcos encalhados. 

Nos anos 90, uma amiga me convidou para participar de um curso de organização mental. Para reconhecer afinidades entre os participantes, a professora, já na segunda aula, deu-nos um questionário. Uma das perguntas era: o que você quer mudar de sua vida?

Céus! A maioria de nós queria mudar tanta coisa que ficamos surpresos porque minha amiga disse: Eu não quero mudar nada, quero que tudo continue igual, sou aposentada. Uma vez por semana vou até Araucária para ver minha cunhada, uma vez por mês desço à praia para comer um peixinho em Paranaguá e duas vezes no ano vou ao Rio para visitar minha irmã. Eu não quero que nada mude.

– Mas você não disse ontem que mora sozinha?

– Sim, mas eu gosto de morar sozinha.

– E não disse que não gosta do clima frio de Curitiba?

– Sim, mas eu não vou mudar de residência.

– Você não disse que gostaria de cantar?

– Sim, mas tenho tempo de participar de um coro. Eu tenho minha vida bem organizada.

– Desculpe, mas se quer que tudo continue igual, quer dizer que não tem nenhum sonho? Nenhuma meta?

– Não! Já fiz tudo o que eu queria na vida. Entrei em uma empresa como estagiária, antes de terminar a faculdade, trabalhei lá toda a vida e me aposentei. Não quero nada novo, quero que minha vida continue como está.

– Parece que deixou de viver… – afirmou a professora.

Um dos alunos, um rapaz muito brincalhão, exclamou: 

– Parece uma morta-viva!

E a namorada do rapaz começou a caminhar como um zumbi pela sala. Minha amiga ficou zangada e reclamou dizendo que quando eles envelhecerem, verão como é a vida realmente.

– Desculpe, senhora. – disse o rapaz – Idosos também têm sonhos. Veja o caso de dona 

Claudina (a velhinha estava sorridente), ela quer conhecer as pirâmides do Egito. Para mim o problema não é que a senhora seja idosa. Para mim, o problema é que a senhora já morreu e ainda não sabe disso.

Eu fiquei impressionada porque esses jovens me apresentaram um retrato de minha amiga que eu não conhecia. Eu tentei falar com ela, mas ela não queria dialogar. Não queria mudar. Entendi que era o momento de afastar-me dela, pois precisamos de amigos vivos, com metas, com sonhos, com alegria. Pessoas capazes de dialogar e, se for preciso, de criar mudanças. Não importa aposentar-se de um trabalho, mas não podemos aposentar-nos dos sonhos, porque a vida é um constante aprendizado.

A VIDA É UMA VIAGEM. Não podemos ficar como barcos encalhados.

Fonte:

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Cristina Pires (Sonetos Escolhidos)

SILÊNCIOS QUE PERDURAM

 Serás tu, Tempo, responsável pelo uso
 Dos mares e das naus perdidas nas rotas
 Dos céus gastos p’las asas das gaivotas
 Que rondam o patamar de um olhar difuso?

 Serás tu, Tempo, o guardião das imortais
 Trocas de frases silenciosas e das rondas
 Dos desejos que pululam em tíbias ondas?
 Gastaram-se as janelas, e os véus orientais

 Que estas mãos tanto amarrotaram…figurantes
 De um cenário de passos e risos vagantes!
 Gastaram-se, para sempre, as rocas e os fusos

 Que urdiam colchas em lentas e suaves gavotas.
 Só os muros, forrados com ais poliglotas,
 Ó Tempo, não se usam c’os silêncios reclusos…

EFÉMERO

 Ilusões! Ilusões e desencantos!
 Ouropéis… consciências ressequidas
 Nas ruelas das lágrimas pungidas
 P’la Essência nefanda de alguns cantos.

 Céus! Glória! Entoam mudos os santos
 Do vale Azul da alma, que com bridas
 De algodão chafurdam às escondidas
 Nas promessas olvidadas nos prantos.

 Almos encantos! Queixumes opacos
 Em esquifes sublimes de uns patacos,
 Purgam no fel de ventos subalternos.

 Vai! Adentra, sem dó, no prazer rubro
 E sepulta, na Terra, esse delubro,
 Dos pórticos de ferro e dos Infernos!

GEADAS DE INVERNO

 Por entre as frestas, cinzeladas na janela
 do meu singelo olhar, perdido num vão,
 Assisto a duelos, entre o Sol e o Deus Trovão,
 Nos frios lençóis dum leito ornado de procela.

 Glaciais rajadas, vêm num ímpeto selvagem,
 Fustigar, calmamente, o fraco Sol restante
 nos poiais azuis celestes, do árido semblante,
 Que me ofertaste, gentilhomem, com friagem.

 Se o Vento, cruel, não permite um fim feliz,
 Nem deixa entrar as réstias finais dum dia claro,
 Que seque já a Primavera…, e a cicatriz

 Que tu deixaste, em geadas, e extinguiste, assim,
 as altaneiras chamas, fósseis dum amparo
 num Inverno conjugal; num leito de marfim!

NOITES DE ÂMBAR E D’ARGENTO

 Folheio, em um resumo, as belas noites quentes; 
 As noites salpicadas de âmbar e de argento, 
 Que iluminavam paixões, em quartos crescentes, 
 Com brilhos intensos, levados pelo vento… 

 Foram tão breves as insónias no teu corpo; 
 Nos braços teus…, relíquias dum tempo voraz! 
 Amante fui, amante sou, e serei porto 
 Dos teus passados! Já passados, fica a paz… 

 Relembro, hoje, os teus cabelos já nevados 
 No frio do Inverno cruel; os lençóis enrugados; 
 A minha pele de tons cor de rosa murcha… 

 Agora, não sei dormitar só e ao relento; 
 É, pois, nos braços teus, que morre o sofrimento 
 Do corpo meu, que pelo teu, tanto estrebucha…

XV – REMINISCÊNCIAS DESSE BEIJO 

 Ah ! Aprazíveis eram aqueles momentos, 
 Quando, eufórica, ficava à tua espera 
 À janela, vestida de carmim e hera, 
 Flutuava nas alamedas do firmamento. 

 Ah ! Que ainda hoje rememoro esse beijo, 
 Que de tão incendiário, desbastava o pranto, 
 Quando me banhava sob o nenúfar branco, 
 Na noite…, sob o luar prateado de desejo, 

 E hoje figuram as marcas do resguardo, 
 Nas folhas dos álamos…, nas horas do aguardo 
 Onde deixei solitário e virgem, o carme. 

 Hoje, trajo-me tão só de velhas lembranças… 
 Enterradas no peito ficam as tuas danças, 
 Daquele incendiário beijo pleno de charme.

XIV – BEIJOS LÍRICOS 

 Quando, eufórica, ficava à tua espera, 
 À janela via as andorinhas passar… 
 Vestidas de gala voando no versejar, 
 Voam, como eu voo, nas esquinas da primavera ! 

 Ficam os tempos, vão-se as cálidas vontades, 
 De abraçar o tempo fútil, desperdiçado 
 Em retóricas infecundas do passado, 
 Que só voltam nas asas livres das saudades ! 

 Ah ! Quem me dera viver a vida outra vez, 
 Lutar arduamente contra esta timidez, 
 E deixar de enaltecer tantos sofrimentos ! 

 Cortar as asas do abutre venenoso, 
 Morrer no antídoto do beijo amoroso… 
 Ah ! Aprazíveis eram aqueles momentos !

XII – BEIJO DO PECADO 

 Flutuava nas alamedas do firmamento, 
 De mãos dadas com a cupidez e o pecado. 
 Que mais me dá se me ofertam o mau olhado 
 Se é o teu beijo que me invade o pensamento ? 

 Permaneçam com o meu corpo!… Tanto dá ! 
 Essa não é essa a minha maior preocupação. 
 Que deixem a minha alma viver na monção… 
 Modesta moradia que a Terra engolirá. 

 Para ver-te chegar vestido de canela, 
 Nem os ventos me arredarão desta janela, 
 Nem os Diabos afastarão esta quimera, 

 Recolher esses teus doces lábios nos meus. 
 Impávida vejo-os passar esses ateus, 
 À janela, vestida de carmim e hera.

VII – BEIJO PROFANO 

 E hoje figuram as marcas do resguardo, 
 Nos rostos carcomidos pela vil demência, 
 De pensar que cada beijo alimenta a ausência, 
 Da liaça que preserva cada novo fardo. 

 Assim fui ! Demente ! Ávida de prazer ! 
 Febre delirante…, obcecação pelo achaque. 
 Fui larápia e profana. Ah ! Ignorei o vate. 
 Choro os pesares sem saber o que fazer. 

 Ilumina-me neste empedrado caminho, 
 Deus das Trevas, cede-me as hastes do azevinho, 
 Sucumbirei aos castigos por tanto vicejo. 

 Saberei reprimir esta minha avareza, 
 Quando adormeço nua no seio da natureza, 
 Na noite…, sob o luar prateado de desejo !

IV – BEIJO SALGADO 

 Hoje trajo-me tão só de velhas lembranças, 
 Como um ancião soneto que resiste ao tempo, 
 Em cadência, ritmo da dança do lamento, 
 Nas harpas suaves, acordes e ressonâncias. 

 Salteador implacável foste dos meus véus, 
 Trovador de lira, cancioneiro do luar, 
 Amo da lisonja, ático do meu pecar. 
 Excomungada serei dos valentes céus, 

 Se enxugar o sabor a sal do meu caminho. 
 Ébria solitária, cálice em desalinho, 
 Recuso veementemente a oferenda alarde. 

 Ao lado do orvalho do cardo das saudades, 
 Encaro o maligno Deus das Tempestades, 
 Onde deixei solitário e virgem, o carme !

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