José de Alencar (Ao Correr da Pena) Rio, 20 de maio: Um Incêndio

Domingo passado havia espetáculo no Teatro de São Pedro e no Ginásio Dramático.

Mais longe, num pequeno salão todo elegante, dançava-se e ouvia-se cantar Bouché, Ferranti, Dufrene e a Charton.

A harpa do Tronconi gemia, a flauta de Scaramella trinava como um rouxinol.

Seriam dez horas da noite.

Neste mesmo momento, e no meio desta alegria geral, uma grande catástrofe se consumava.

Uma faísca desprezada crescera, transformara-se em chama, e ameaçava devorar um quarteirão inteiro.

Os sinos dobravam, o povo apinhava-se em torno, a chama enroscava-se ao longo das paredes como uma serpente de fogo, e o incêndio lançava sobre toda esta cena um clarão avermelhado e sinistro.

Fizeram-se atos de heroísmo e de coragem, ações de bravura que passaram despercebidas no meio desta luta terrível do homem com o elemento.

Os ingleses portaram-se com o sangue-frio habitual; os franceses trabalharam com entusiasmo; alguns brasileiros sustentaram a honra do seu nome e os brios nacionais.

No dia seguinte apenas restava de tudo isto um acervo de ruínas ainda fumegantes, um epitáfio escrito pelo fogo, e que todos os passantes iam ler naquelas cinzas ardentes.

Durante dois oi três dias conversou-se sobre o incêndio, fizeram-se mil comentários, e entre muitas coisas que se disse apareceram algumas verdades bem tristes.

Asseguravam que as bombas do arsenal estavam desmanteladas, e que, depois de chegarem ao lugar do incêndio, descobrira-se que não tinham chaves, e portanto fora necessário esperar uma  boa hora para que elas pudessem prestar serviço.

Não sei até que ponto chega a verdade deste fato; mas para mim ele nada tem de novo.

Se se tratasse de uma regata, de algum passeio de ministro a bordo dos navios de guerra, naturalmente tudo havia de estar pronto, as ordens seriam dadas a tempo e se desenvolveria um luxo de atividade e de zelo como não há exemplo, nem mesmo na Inglaterra, o país clássico da rapidez.

Tratava-se, porém, de um incêndio apenas, de cinco casas reduzidas a cinzas, e por isso não é de estranhar que não houvesse a mesma azáfama que costuma aparecer naqueles outros ramos mais importantes do serviço público.

Depois do fogo veio a chuva, como era natural; tinha reinado um elemento, era justo que o outro lhe sucedesse. 

Toda a semana levou esta senhora a fazer-nos pirraças. Roubou-nos o belo divertimento da regata; e de vez em quando escondia-se atrás da porta, isto é, por detrás do Corcovado, e deixava que o sol brilhasse e que o céu se tornasse azul; e, apenas     pilhava um homem na rua, começava a divertir-se à sua custa.

O arsenal de marinha, que não dá grande importância à extinção dos incêndios, podia ao menos tratar de livrar-nos do contratempo da chuva, e fazer a experiência da teoria de Méry. É natural que as suas peças de artilharia estejam em melhor estado que as suas bombas.

Entretanto, apesar da chuva, tivemos esta semana uma noite de Trovador e outra de Sonâmbula.

O Dufrene fazia a sua quarta estréia nesta última ópera. Na ocasião em que se representava uma das cenas do primeiro ato, um amigo que estava no meu lado lembrou-me as seguintes palavras de Balzac:

“Um artiste qui a le malheur d’être pleindre la PASSION qu’il veut exprimer ne saurait la peindre, car il est la CHOSE même, au lieu d’en être l’image.”

O que é que Balzac e o meu amigo quereriam dizer com estas palavras? Não sei; um citou-as sem comentário; o outro escreveu-as sem segunda tenção.

Nesta mesma noite teve lugar a reunião da Sociedade Estatística na sala onde se achavam expostos os produtos industriais dos Estados Unidos, que o Sr. Fletcher oferecera a Suas Majestades e algumas corporações científicas desta corte.

Havia muita coisa a admirar naquela pequena exposição especialmente pelo que toca à fotografia, aos trabalhos de cromolitografia, e às cartas geográficas feitas pelo novo sistema da gravura sobre cera.

Vimos um busto de Webster, que o Sr. Fletcher nos afirmou ser feito com uma máquina, que por meio de um processo engenhoso copia os traços de um outro busto. A semelhança era completa, a julgar-se pelos retratos em fotografia que existiam na sala.

Aberta a sessão pelo Sr. Visconde Itaboraí, o Sr. Fletcher pronunciou um discurso em francês, no qual expôs as suas idéias e os projetos que o haviam animado a voltar ao Brasil. 

Depois de falar sobre a ignorância absoluta e recíproca que existe no nosso país e nos Estados Unidos sobre a organização política, a administração e o progresso de uma e outra nação, mostrou os desejos que tinha, de fazer conhecido o Brasil na sua pátria e de estreitar assim as relações comerciais e políticas dos dois povos americanos.

Se o Sr. Fletcher conseguir realizar esta idéia, pela qual parece trabalhar com tanto entusiasmo, fará um grande serviço à América. Talvez dessas relações que vão começar nasça um grande pensamento de política americana, que no futuro venha a dirigir os destinos do novo mundo e a por um termo à intervenção européia.

E, se é exata uma notícia que nos deram, então é muito natural que os projetos do Sr. Fletcher venham a efetuar-se mais breve do que se pensa.

O Sr. William Trousdale, Ministro Plenipotenciário dos Estados Unidos na nossa corte, é um dos candidatos à futura presidência da Confederação; e, à vista dos valiosos serviços prestados por ele na Guerra do México, é de crer que esta candidatura seja bem aceita pelos diversos Estados.

Quanto à política, é hoje esse terreno tão inclinado, que nele não nos queremos aventurar, quando os chefes deixam os seus soldados errantes e dispersos combatendo em guerrilhas, em saberem ao certo que bandeira defendem.

A Câmara dos Deputados tem aprovado algumas naturalizações de sujeitos que entendem que as leis do país não passam de  letra morta, e que reclamam, pela importância de seus nomes, dispensa naquelas leis.

Até reza a crônica que se deu o foro de cidadão brasileiro a um estrangeiro recomendado à polícia! Talvez que merecesse esse favor para poder ser empregado na espionagem da gente trêfega. 

Desejava bem dar-vos alguma notícia da oposição; porém creio que os oposicionistas modernos procedem de uma maneira muito diferente da que se usava outrora.

Em vez de atacarem o governo, defendem-no; e por isso contaram-me que, perguntando o presidente a um deputado que pedira a palavra na resposta à fala do trono se era pró ou contra, respondera que seria como quisessem

É verdade que lá de vez em quando surge um campeão que não dá quartel ao governo, como sucedeu ontem na discussão da fala do trono.

Que de verdades se descobriram! O país está à borda de um abismo! Nós caminhamos a passos de gigante para o mais completo absolutismo!

Quereis as provas?

As medidas sobre a limpeza da cidade, os regulamentos de instrução pública e de óbitos, o método Castilho, e talvez que a reprovação de alguns professores – tudo isto, na opinião do orador, são golpes profundos que se têm dado à constituição e à nossa organização política.

Pobre constituição! A quanto não estais sujeita! É verdade que, depois que te arrancaram as folhas para as lançarem por aí aos domingos e quintas-feiras, não tinhas mais que esperar.

Esquecia-me de dar-vos uma notícia importante. Um candidato à senatoria, que não teve a fortuna de ser escolhido, foi ultimamente promovido a tenente.

É um ato do governo que merece que merece elogios; é uma prova de que o ministério, apreciando em subido grau os serviços daquele prestante cidadão, não quis que ele entrasse no quartel dos inválidos, e habilitou-o para continuar em serviço ativo.

E o que é mais notável é que este favor foi feito a um deputado oposicionista! Que imparcialidade!

Já sabeis que as iguarias preparadas para a regata foram enviadas aos doidos do Hospício de Pedro II. Decididamente estavam predestinadas!

Seu primeiro destino era servir aos doidos, doidos de amor e de entusiasmo, que, depois das corridas dos escaleres e das amáveis conversas com as belas convivas, teriam de ir fazer um toast à rainha do dia em beleza e ao vencedor do páreo.

Mas tudo isto o tempo veio transtornar, e, em vez de uma regata, deu-se cinco ou seis, e bem regadas pela chuva, que a esta hora ainda cai a cântaros.

E por hoje, despedida à francesa; até o próximo domingo, em que é provável que esteja de melhor veia do que hoje.

Fonte:
José de Alencar. Ao Correr da Pena. SP: Martins Fontes, 2004.
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