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Helena Kolody (Olhos de Antes)

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31 de janeiro de 2013 · 22:23

J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou") Parte 19

José Corrêa da Silva Júnior
(Pilar/ AL, 22 janeiro 1893 –  Santos/SP, 9 setembro 1972).

” PUDOR “

Ama-me assim, sem ânsias nem clamores,
sem amostras no olhar de coisa alguma,
num silêncio feliz, num gesto, em suma,
furtivo às aparências exteriores.

Deixa que o teu amor a paz resuma
essas noites propícias aos amores,
em que os gritos das luzes e das cores
ficam velados através da bruma.

Ama-me assim, como se as nossas vidas
duas árvores fossem diferentes,
por desiguais radículas nutridas…

E como se a alegria que abafamos
amargasse nos frutos renascentes
e entristecesse os pássaros nos ramos. . .
===========

Corrégio de Castro
(sem dados biográficos)

” FLOR DO HELIANTO (GIRASSOL) “

Conheces, certo, aquela flor dourada
que volta a face para o sol nascente
e, tendo a face para o sol voltada,
constante o segue, desde a aurora ao poente.

E já notaste que, se anuviada
a esfera de turquesa não consente
se perceba o astro louro, a flor amada
mesmo sem vê-lo, segue o sol ausente?

Também minha alma é como a flor do helianto.
Desde o instante feliz em que te vi
como tocada de um suave encanto,

– não sei que força estranha que senti –
pois em riso ela esteja, esteja em pranto,
trago-a sempre voltada para ti!
============

Cruz e Souza
João da Cruz e Souza,
(Florianópolis/SC, 24 novembro 1862 – Antonio Carlos/MG, 19 março 1898)

” CORPO “
VII

Pompas e pompas, pompas soberanas
Majestade serene da escultura
A chama da suprema formosura,
A opulência das púrpuras romanas.

As formas imortais, claras e ufanas,
Da graça grega, da beleza pura,
Resplendem na arcangélica brancura
Desse teu corpo de emoções profanas.

Cantam as infinitas nostalgias,
Os mistérios do Amor, melancolias,
Todo o perfume de eras apagadas…

E as águias da paixão, brancas, radiantes,
Voam, revoam, de asas palpitantes,
No esplendor do teu corpo arrebatadas!

ENCLAUSURADA

Ó Monja dos estranhos sacrifícios.
Meu amor imortal! Ave de garras
e asas gloriosas, triunfais, bizarras,
alquebradas ao peso dos cilícios.

Reclusa flor que os mais revéis flagícios
abalaram com as trágicas fanfarras,
quando em formas exóticas de jarras
teu corpo tinha a embriaguez dos vícios.

Para onde foste, ó graça das mulheres,
graça viçosa dos vergéis de Ceres,
sem que o meu pensamento te persiga?!

Por onde eternamente enclausuraste
aquela ideal delicadeza de haste,
de esbelta e fina ateniense antiga?!

” MAGNÓLIA DOS TRÓPICOS “
                                                 À Araújo Figueredo

Com as rosas e o luar, os sonhos e as neblinas,
Ó magnólia de luz, cotovia dos mares,
Formaram-te talvez os brancos nenúfares
Da tua carne ideal, de correções felinas.

O teu colo pagão de virgens curvas finas
É o mais imaculado e flóreo dos altares,
Donde eu vejo elevar-se eternamente aos ares
Viáticos de amor e preces diamantinas.

Abre, pois, para mim os teus braços de seda
E do verso através a límpida alameda
Onde há frescura e sombra e sol e murmurejo;

Vem! com a asa de um beijo a boca palpitando,
No alvoroço febril de um pássaro cantando,
Vem dar-me a extrema-unção do teu amor num beijo.
=================

Cruz Oliveira
(Júlio Auto da Cruz Oliveira)
(Maceió/ AL, 5 dezembro 1880 – ????)

” OLHOS “

Olhos! Tantos amei quantos me abandonaram. . .
Tantos cobri de bens, de inefáveis ternuras,
quantos me querem mal, que em lugar me deixaram
de minhas ilusões, desilusões bem duras.

E dizer que os perdoei: que mau grado amarguras
de que venho de encher dias que se passaram,
só lhes desejo o bem das carícias mais puras
– que hoje me apraz perdoar os que me não perdoaram!

E isso me cura um pouco esse desgosto imenso
de amá-los, esse tédio, a fartura, o cansaço
da vida; e me dá mesmo um prazer quando penso

nas vezes em que a sós eles se consideram
e me admiram mais, pelo bem que lhes faço,
do que eles pelo mal que sempre me fizeram.
===========

Cynthia Castello Branco
(sem dados biográficos)

” PROFANAÇÃO “

Tenho-lhe um ódio quase extravagante
depois de havê-lo amado com loucura…
As vezes penso que se o amor não dura,
tece correntes, mesmo agonizante!

Sinto-me escrava dele e a cada instante
pergunto-me a razão desta clausura! . . .
Talvez porque nascendo é uma ventura,
o amor que morre é sempre vigilante.

Quero afastar os laços que me prendem
ao meu destino, assim como se eu fora
este chão que ele pisa . . . E, entretanto,

garras do Tempo sobre mim se estendem
e é uma vertigem doida, embriagadora,
odiá-lo assim depois de amá-lo tanto!

Fonte:
– J.G . de  Araujo Jorge . “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”. 1a ed. 1963

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Acruche Collection – Trova 10

Imagem com trova obtida no Facebook do Trovadot

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Contos do Folclore Brasileiro (O Menino e a Vó Gulosa)

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

 Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

 — Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

 — Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

 O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

 O menino recomeçou a choradeira:

 — Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

 O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

 — Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

 — Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

 Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

 Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

 — Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

 — Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

 O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.

 Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

 — Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

 — Oh! Menino! Me empresta essa corda.

 O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

 Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

 O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.

 — Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

 — Oh! Menino! Me dê o seu boi!

 E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

 — Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

 A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

 — O boi foi pouco e vou comer você!

 E comeu o menino.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Jandira Mello de Almeida Cahet (Cristais Poéticos)

UM GRITO DE AMOR
Docemente imersa e submersa
na doçura do seu olhar
ardendo em chamas secretas
numa louca sinfonia
  
Vem com o encanto do momento
florido com a luz da lua
com desejo de ser amado
 nos encantando de prazer
  
Seu amor desarrumou meu coração,
mas arrumou minh’alma solitária
há uma primavera agora nos meus dias
perdida na imensidão de tanto querer
  
Alguém modula no teclado
um belo noturno raro
que nos acompanha na noite em flor
partitura que embalamos
para dar forma ao nosso amor
  
Tem um canto de doçura 
na flor que abre no meu peito
nas suas palavras nasce a loucura
do sonoro mar quando me deito

NOTURNO DA DESOLAÇÃO
Em triste sussurrante refúgio de agonia
após noite indormida debaixo da ponte,
resignado, só o abandono lhe assedia
tremulando de ternura e sem horizonte
Sob um tíbio luar quase adormecido
com fragmento que escora sua ruína
traz lampejo de um cometa envelhecido
só a morte neste mundo lhe fascina
Seqüela de solidão na aparência
descobre que esperar não pode mais
pela vida que o excluiu com negligência
e pelos seres irmãos por diferenças sociais
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
denegando a dúbia forma de desesperança
sob fortes sinas que advinham
como vozes que fenecem sem lembranças
Na súplica da última anunciação
galga a escada dos martírios
paira nos céus da consolação
submerso no mundo dos delírios.

RE – ENCONTROS
E nos dizem as predições:
Interregno fez-se magia,
Pois falaram alto as emoções
Dos encontros com alegria.
Consta nos astros a alquimia
Existente entre afetos
Psicanálise e poesia
passam por filhos e netos
Tempos idos sofreguidão
Tempos lindos alvorecer
O final da abstração
Início d’um renascer.
Consta na vida a empatia
Dores doídas, regressões
Trocamos saber, catexia
Como queria a ilusão
Urge o tempo e nosso vinho
Sonhos sonhados, traçador
Entrelaçados de carinho
Do silêncio tecedor.

DISSONÂNCIA

Na favela a miséria disfarça a fome
e a vida não se revela
boca sem dentes:  não se come
sequer a solidão floresce amarela
 A favela encobre a miséria;
 casebres, fendas, emendas
 alastram e consomem a matéria
e a fome traz torturas horrendas
Na favela as crianças pulsam no espaço
– sussurro de lamentação materna –
 o silêncio é escasso,
pois a lei do burguês  governa
As unhas de encardidas mãos
num clamor de súplica, dos desesperados,
aquele que vivia em vão
e os que estão vivos agonizados
Vivem para além do desespero e da esperança
na ignorância e no saber dos abandonados
o efeito de ser ferido que transmuta em vingança
o crepúsculo de nascer e morrer dos renegados.

SONATA AO LUAR
Acordei como flores sorrindo
os rios estavam cantando
todo meu ser vive florindo
 com os humores trocando
Quando a natureza canta
fico em cima de um oiteiro
meu pensamento se encontra
voando para o Rio de Janeiro
Ah! é o teu canto que aparece
que pousa um momento em mim
é um encanto o que me acontece
no verso quando sonho com jasmim
Longe de mim a vida não existe
se estás longe corro e me procuro
 sombra é o movimento que consiste
na eterna felicidade que mensuro
a lua quando desce a terra 
piso nos astros distraída
sua luz perfeita encerra
toda doçura desta vida

A VIDA

A vida é como certa chuva,
 ergue-se do mar ao encontro das nuvens
 A grinalda enfeitada de uva
 e de angúnstias perde-se os bens.

 Ninfas cantam Euterpa a Alegria,
 jasmins bailam no paraíso,
 a beleza persegue Afrodite com euforia 
 e Eco embala o amor de Narciso.

 Ouço sonho de velhos companheiros
 rodopiando em torno da silente vida
 com temores de pássaros faceiros
 que o tempo não elucida.

 Chove cá embaixo nas horas incertas
 Sócrates faz parir idéias pela maiêutica,
 o nirvana é a paz para o humano,
 para o texto sagrado a hermenêutica 
 e a vida dos mortais um engano

CANTO DO AMOR PERDIDO

 Entre as estrelas mais perfumadas
 floresceu um amor como o arco-íris
 por um segundo pensei encontrar-me sonhando
 e neste tempo minh’alma se encantou

 Ao cantar do melro tagarela
 comecei a fazer versos tão amados
 o amor me pegou desprevenida
 e no descompasso do meu coração
 comecei a viver esta ilusão

 Doces beijos e carícias tresloucadas
 me despertavam a todo instante
 o céu me parecia mais azulado
 meu ser cantava em euforia

 Nos lençóis macios do amanhecer
 me encontrei a sorrir despreocupada
 seria a felicidade acontecendo
 ou mais uma ilusão dos apaixonados?

PERFUME DE MULHER

 Acordei como flores sorrindo
 Os rios estavam cantando
 Todo meu ser vive dormindo
 E com os humores trocando

 Pois quando a natureza canta
 Fico no cimo de um oiteiro
 Meu pensamento se encontra
 Voando para o Rio de Janeiro
 Não, não é o teu canto que aparece
 Que pousa um momento em mim
 mas o fantasma que acontece
 No verso com cheiro jasmim

 Longe de mim, só em mim existe
 Depois do teu amor violáceo
 E o olor que persiste
 É açucena verbenáceo

 A lua quando desce a terra 
 Pisa nos astros distraída
 Sua luz perfeita encerra
 Toda doçura desta vida.

Fontes:

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Cláudia Dimer (Os Passos dos Meus Sonhos)

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31 de janeiro de 2013 · 22:00

José de Alencar (O Ermitão da Glória) Parte 2

III

A BALANDRA

Embora expulsos das terras da Guanabara, e destruída a nascente colônia, não desistiram os franceses do intento de se assenhorearem de novo da magnífica baía, onde outrora campeara o Forte Coligny.

Esperando azo de tentar a empresa, continuavam no tráfego do pau-brasil, que vinham carregar em Cabo Frio, onde o trocavam com os índios por avelórios, utensis de ferro e mantas listradas.

Havia naquela paragem uma espécie de feitoria dos franceses, que facilitava esse contrabando e mantinha a antiga aliança dos Tamoios com os Guaraciabas, ou guerreiros de cabelos do sol.

A metrópole incomodava-se com a audácia desses corsários, que chegaram algumas vezes a penetrar pela baía adentro e bombardear o coração da cidade.

Bem longe porém de prover de um modo eficaz à defensão de suas colônias, tinha por sistema deixar-lhes esse encargo, apesar de estar constantemente a sugar-lhes o melhor da seiva em subsídios e fintas de toda a casta.

Baldos de meios para expurgarem a costa da cáfila de piratas, os governadores do Rio de Janeiro, de tempos em tempos, quando crescia a audácia dos pichelingues a ponto de ameaçarem os estabelecimentos portugueses, arranjavam com os minguados recursos da terra alguma expedição, que saía a desalojar os franceses.

Mas estes voltavam, trazidos pela cobiça, e após eles os flamengos e os ingleses, que também queriam seu quinhão e o tomavam sem a menor cerimônia, arrebatando a presa ao que não tinha forças para disputá-la.

Felizmente a necessidade da defesa e o incentivo do ganho tinham despertado também o gênio aventureiro dos colonos. Muitos marítimos armaram-se para o corso, e empregaram-se por conta própria no cruzeiro da costa.

Fazendo presa nos navios estrangeiros, sobretudo quando tornavam para Europa, os corsários portugueses lucravam não somente a carregação de pau-brasil, que vendiam no Rio de Janeiro ou Bahia, mas além disso vingavam os brios lusitanos, adquirindo renome pelas façanhas que obravam-

Precisamente ao tempo desta crônica, andavam os mares do Rio de Janeiro muito infestados pelos piratas; e havia na ribeira de São Sebastião a maior atividade em se armarem navios para o corso, e municiarem os que já estavam nesse mister.

Uma lembrança vaga desta circunstância flutuava no espírito de Aires, embotado pela noite de insônia.

Afagava-o a esperança de achar algum navio a sair mar em fora contra os piratas; e estava resolvido a embarcar-se nele para morrer dignamente, como filho que era de um sargento-mor de batalha.

Ao chegar à praia, avistou o cavalheiro um batel que ia atracar. Vinha dentro, além do marinheiro que remava, um mancebo derreado à popa, com a cabeça caída ao peito em uma postura que revelava desânimo. Teria ele vinte e dois anos, e era de nobre parecer. 

Logo que abordou em terra o batel, ergueu-se rijo o mancebo e saltou na praia, afastando-se rápido e tão abstrato que abalroaria com Aires, se este não se desviasse pronto.

Vendo que o outro passava sem aperceber-se dele, Aires bateu-lhe no ombro:

– Donde vindes a esta hora, e tão pesaroso, Duarte de Morais?

– Aires!… disse o outro reconhecendo o amigo.

– Eu vos contava entre os felizes; mas vejo que também a aventura tem suas névoas.

– E suas noites. A minha creio que de todo escureceu.

– Que falas são estas, homem, que vos desconheço.

Travou Duarte do braço de Aires, e voltando-se para a praia mostrou-lhe um barco fundeado perto da Ilha das Cobras.

– Vedes aquele barco? Há três dias que ainda era uma formosa balandra. Nela empreguei todo meu haver para tentar a fortuna do mar. Eis o estado a que o reduziram os temporais e os piratas: é uma carcaça, nada mais.

Aires examinava com atenção a balandra, que estava em grande deterioração. Faltava-lhe o pavês de ré e ao longo dos bordos apareciam largos rombos.

– Esmoreceis com o primeiro revés!

– Que posso eu? Donde tirar o cabedal para os reparos? E devia eu tentar nova empresa, quando a primeira tão mal surtiu-me?

– Que contais então fazer do barco? Vendê-lo, sem dúvida?

– Só para lenha o comprariam no estado em que ficou. Nem vale a pena de pensar nisso; deixá-lo apodrecer aí, que não tardará muito.

– Neste caso tomo emprestada a balandra, e vou eu à aventura.

– Naquele casco aberto? Mas é uma temeridade, Aires!

– Ide-vos a casa sossegar vossa mulher que deve estar aflita; o resto me pertence. Levai este abraço; talvez não tenha tempo de dar-vos outro cá neste mundo.

Antes que Duarte o pudesse reter, saltou Aires no batel, que singrou para a balandra,

IV

A CANOA

Saltando a bordo, foi Aires recebido ao portaló pela maruja um tanto surpresa da visita.

– Doravante quem manda aqui sou eu, rapazes; e desde já os aviso, que esta mesma tarde, em soprando a viração, fazemo-nos ao largo.

– Com o barco da maneira que está? observou o gajeiro.

Os outros resmungaram aprovando.

– Esperem lá, que ainda não acabei. Esta tarde pois, como dizia, conto ir mar em fora ao encontro do primeiro pechelingue que passar-me por davante. O negócio há de estar quente, prometo-lhes.

– Isso era muito bom, se tivesse a gente navio; mas numa capoeira de galinhas como esta?…

– Ah! não temos navio?… Com a breca! Pois vamos procurá-lo onde se eles tomam!

Entreolhou-se a maruja, um tanto embasbacada daquele desplante. 

– Ora bem! continuou Aires. Agora que já sabem o que têm de fazer, cada um que tome o partido que mais lhe aprouver. Se lhe não toa a dança, pode-se ir à terra, e deixar o posto a outro mais decidido. Eia, rapazes, avante os que me seguem; o resto toca a safar e sem mais detença, se não mando carga ao mar.

Sem a mais leve sombra de hesitação, dum só e mesmo impulso magnânimo, os rudes marujos deram um passo á frente, com o ar destemido e marcial com que marchariam á abordagem.

– Bravo, rapazes! Podeis contar que os pichelingues levarão desta feita uma famosa lição. Convido-vos a todos para bebermos à nossa vitória, antes da terceira noite, na taberna do Simão Chantana.

– Viva o capitão!…

– Se lá não nos acharmos nessa noite, é que então estamos livres de uma vez desta praga de viver!…

– É mesmo! É uma canseira! acrescentou um marujo filósofo.

Passou Aires a examinar as avarias da balandra, e embora a achasse bastante deteriorada, contudo não demoveu-se por isso de seu propósito. Tratou logo dos reparos, distribuindo a maruja pelos diversos misteres; e tão prontas e acertadas foram suas providências, que poucas horas depois os rombos estavam tapados, o aparelho consertado, os outros estragos atamancados, e o navio em estado de navegar por alguns dias.

Era quanto dele exigia Aires, que o resto confiava à sorte.

Quando levantou-se a viração da tarde, a balandra cobriu-se com todo o pano e singrou barra fora.

Era meio-dia, e os sinos das torres repicavam alegremente. Lembrou-se Aires que estava a 14 de agosto, véspera da Assunção de Nossa Senhora, e encomendou-se à Virgem Santíssima.

Deste mundo não esperava mais cousa alguma para si, além de uma morte gloriosa, que legasse um triunfo à sua pátria. Mas o amigo de infância, Duarte de Morais, estava arruinado, e ele queria restituir-lhe o patrimônio, deixando-lhe em troca do chaveco desmantelado um bom navio.

Há momentos em que O espírito mais indiferente é repassado pela gravidade das circunstâncias. Colocado já no limiar da eternidade, olhando o mundo como uma terra a submergir-se no oceano pela popa de seu navio, Aires absorveu-se naquela cisma religiosa, que balbuciava uma prece, no meio da contrição da alma, crivada pelo pecado.

Uma vez chegou o mancebo a esclavinhar as mãos, e as ia erguendo no fervor de uma súplica; mas deu cobro de si, e disfarçou com enleio, receoso de que o tivesse percebido a maruja naquela atitude.

Dobrando o Pão d’Açúcar, com a proa para o norte, e o vento à bolina, sulcou a balandra ao longo da praia de Copacabana e Gávea. Conhecia Aires perfeitamente toda aquela costa com seus recantos, por tê-la freqüentemente percorrido no navio de seu pai, durante o cruzeiro que este fazia aos pichelingues.

Escolheu posição estratégica, em uma aba da Ilha dos Papagaios onde o encontramos, e colocou o velho gajeiro Bruno de atalaia no píncaro de um rochedo, para lhe dar aviso do primeiro navio que aparecesse.

Se o arrojado mancebo tinha desde o primeiro instante arrebatado a maruja pela sua intrepidez, a presteza e tino com que provera aos reparos da balandra, a segurança de sua manobra por entre os parcéis, e a sagacidade da posição que tomara, haviam inspirado a confiança absoluta, que torna a tripulação um instrumento cego e quase mecânico na mão do comandante.

Enquanto esperava, Aires vira do tombadilho passar uma canoinha de pescador, dirigida por uma formosa rapariga.

– Para aprender o meu novo ofício de corsário vou dar caça á canoa! exclamou o mancebo a rir. Olá, rapazes!

E saltou no bate!, acompanhado por quatro marujos que a um aceno esticaram os remos.

– Com certeza é espia dos calvinistas! Força, rapazes; carecemos de agarrá-la a todo o transe.

Facilmente foi a canoa alcançada, e trazida a bordo a rapariga, que ainda trêmula de medo, todavia já despregava dos lábios no meio dos requebros vergonhosos um sorriso brejeiro.

Vira ela e ouvira os chupões que lhe atirava à sorrelfa a boca de Aires apinhada à feição de beijo.

– Tocam a descansar, rapazes, e a refrescar. Eu cá vou tripular esta presa, enquanto não capturamos a outra.

Isto disse-o Aires a rir; e os marujos lhe responderam no mesmo tom.

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Rogério Miranda (Poesias Avulsas)

RITUAL SIMBOLICO

Memórias ancestrais, 
que vivem no coração 
da terra, 
de um existência 
multidimensional, 
onde sonhos, 
conhecem um mundo
mágico e sagrado
de uma viajem
pelo tempo…

No ritual simbólico
das arvores, 
todos vestidos 
de lua, dançam a sua volta
abraçando-te 
nesta comunhão
com a natureza…

Quando bebemos 
da fonte natural, 
da sabedoria, 
reencontramos
a origem de nossa 
existência, 
reconstruímos
nossa identidade. 
Para sonharmos
com a realidade
do sagrado, 
desejo de 
nossas almas…

quando tomamos
banho de estrelas, 
conhecemos,
o mistério da felicidade
se unindo com a realidade
da liberdade, 
que o alimento do amor.…

TEMPLO DA SABEDORIA

Fazemos de nossas vidas, 
o que pensamos,
 esquecemos do amor, 
para usufruir
da ilusão de um mundo, 
onde a competição
nos afasta 
dos momentos sagrados
 da paz de dentro de nós…

Procuramos, 
no vazio da humanidade
algo que não encontramos, 
nos tornamos 
escravos do desamor 
e da impunidade, 
deixando esquecida uma vida
que tem o poder sagrado da fé..

Vivemos sob o domínio do medo,
temos ações que nos fazem
parar no tempo, 
esquecemos de evoluir, 
pela falta de amor, 
mas aquele AMOR
que nasce de uma 
força de dentro de  nós…

Podemos viver 
como ensinou
o Mestre dos Mestres, 
mas muitas vezes
tomamos decisões egoístas
 que além de magoar, 
nos fere
com o entusiasmo
do impulso…

Somos o templo 
da sabedoria, 
temos o mundo
para caminhar, 
mas teimamos
em ficar presos
em nossos sonhos, 
esquecendo de agradecer 
a Deus, 
pelo milagre do amanhecer…

POETAS DO MUNDO

Somos cavaleiros da paz,
andarilhos do amor, 
em busca do cálice sagrado
da eternidade de nossa alma, 
vivemos em harmonia com 
ciclo da natureza, 
voltaremos de onde saímos, 
para renascer nos braços da vida… 

Somos parte do futuro, 
que no quebra cabeça do
passado, faz da vida 
uma poesia do presente, 
rimando cada dia com
a força da paz …

O poder de nossas poesias, 
se espalham pelo mundo
semeando a paz, 
para despertar
a esperança dos sonhos, 
que circulam pelo
destino a procura 
de uma pousada…

Temos a missão, 
de cultuar a paz, 
espalhando o amor
em cada palavra,
nossa espada, é a caneta
e nosso escudo
um papel em branco…

Cavaleiros da paz,
andarilhos do amor,
vamos avançar, 
distribuindo esperanças, 
nossas poesias tem, 
que estar no meio da humanidade, 
colhendo emoções.

Temos o poder dos poemas
para ensinar, louvar a Deus 
nossa intuição vem da alma, 
e o mundo esta precisando
do amor de nossa poesia…

A LAGRIMA DO POETA 

A lagrima do poeta, 
lamenta a saudade do silencio
que esqueceu no tempo, 
um poema para o amor 
que foi uma pagina em branco.

Quando uma lagrima escorre,
o poeta molha a ponta de sua 
caneta para escrever um 
poema que vai ser uma 
oração sagrada para alma.

Quando o poeta não encontra
tempo para chorar,ele guarda 
as lágrimas, deixando ela 
pingar nos versos
que relembra uma paixão 
que enganou o amor.

O sonho do poeta 
é ver a humanidade
regando as flores 
com suas lagrimas.
e colher as pétalas,
para fazer um tapete 
para quando Jesus voltar.

O mundo é um sonho
para o poeta , e as lagrimas 
o sentimento de sua poesia
que deixa em cada verso
o encontro da paz com o amor.

A musa do poeta, brilha 
na face de Nossa Senhora,
quando de seu olhar brotam
o sagrado amor,fazendo de suas
lagrimas a esperança de
seus filhos.

Quando o amor se despede,
a lagrima é a lembrança,
que encontra na alma o conforto
de uma poesia.

Essas gotas que foram abençoadas
pelos anjos, se tornou 
a primeira do poeta, 
que a sós com Deus 
libera suas emoções 
em um poema.

Sem lagrimas,
a vida sentiria falta
da emoção e não conheceria
o poema que a alma 
escreveu para Mãe de Deus.

MANIFESTO

O mundo esta precisando
de conhecer a força da poesia,
e a paz que ela carrega
em seus versos dando esperança
 para o conforto da alma.

Poetas do mundo, 
vamos nos unir,
e transforma o mundo
em prosa e versos,
espalhando a paz
de Deus, que criou 
o primeiro poema.

A humanidade precisa 
precisa alimentar 
a alma, 
pois ela esta carregando 
peso da ilusão, 
por não ter a poesia
em sua vida.

A criação de Deus, 
nasceu de um sonho,
e com ela a primeira 
poesia, que esta escrito
nas estrelas.

A paz não se impõe
com lutas e sim com amor, 
ela não precisa de exercito,
pois a paz esta no coração
da humanidade.

O mundo precisa da poesia
para despertar o amor, 
ela tem que ser decretada 
pelos governantes. E devolver
para a humanidade, o planeta
que Deus deixou 
para seus filhos.

A poesia tem o poder 
da conquista, 
sem usar a força, 
ela traz consigo o sonho
do amor.

Viver na paz , 
de uma poesia,
para amanhecer 
entre flores e colibris,
é a vida do poeta 
que sonha em mudar 
o mundo em seus versos.

O coração da poesia,
vive em todos os poetas,
que tem o sonhos de unir
os poetas do mundo, 
e um só coração 
entregar a poesia da paz
para Deus.

PLANTANDO PÉROLAS NAS NUVENS

O dia amanhece no brilho
das nuvens,
que se deslumbra com 
o despertar da vida,
onde colibris ouvem
no bater das asas 
o canto da sabia,
e onde borboletas dançam
em harmonia com flores
que perfumam o céu,
encantando as estrelas
que deixa com os anjos 
a missão de realizar
o sonho de Deus…

No mundo dos sonhos 
onde o poeta acorda 
plantando pérolas nas nuvens
a fantasia da vida encontra 
em um pedaço de papel,
a colheita de pingos
de cristais que descem das nuvens
onde perolas se misturam 
com pétalas, 
para espalharem amor 
em cada verso… 

Quando o sonho viaja 
pelo mundo encantado 
de uma canção,
a alma encontra um anjo
que revela o segredo 
da beleza que cerca
o castelo celestial,
cercado de nuvens
que deixaram um 
buquê de perolas
para o sonho que viveu
um amor e descobriu 
na paz o carinho
dos anjos que se encontram
ao lado de Deus…

Fontes:

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Helena Kolody (Grafite)

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30 de janeiro de 2013 · 22:44

A. A.de Assis (Revista Virtual de Trovas Trovia – fevereiro de 2013)

Só Deus tem uma resposta
mas ninguém sabe qual é.
A nossa vida é uma aposta
que se joga com a Fé.
Ademar Macedo

– Bom dia, Felicidade…
com tanta pressa aonde vais?
– Vou plantar uma saudade
onde o amor não volta mais!…
Augusto Rubião

Amo a virtude maciça
de certas almas, o dom
de quem sofrendo injustiça
tem coragem de ser bom.
Francisco Capibaribe

Minha viola de pinho,
vê o que traz teu tocador:
cabeça tonta de vinho,
coração tonto de amor.
Francisco de Matos

Pode o homem ser vassalo,
desde porém que a mulher
não pense nunca em trocá-lo
por outro escravo qualquer…
Jorge de Pádua

Só te peço amor sincero,
e o céu será todo nosso.
Se sou tua – que mais quero?
Se sou mulher – que mais posso?
Magdalena Léa



Namorou de forma incauta
a madame do soçaite…
E agora culpa o internauta
por um vírus no seu… site!
Edmar Japiassú Maia – RJ 

O meu vizinho se poupa,
já que o cansaço é normal…
Quando fala: “Tira a roupa!”,
tira a roupa do varal…
Elisabeth Souza Cruz – RJ

Há na velhice um defeito
que odeio sobremaneira:
a gente perde o direito
de também fazer besteira…
José Fabiano – MG

Ando tão só, meu irmão,
com o arrocho da mulher;
já sei ligar o fogão,
frito ovos, lavo o talher.
José Marins – PR

Diz o cinquentão vaidoso:
– “Eu sou madeira de lei!”
E a mulher, em tom jocoso:
– “Então deu cupim…que eu sei!”
Marta Paes de Barros – SP

Tal calor e tanta graça
em minha amada encontrei,
que, de maria-fumaça,
um trem-bala eu me tornei.
Osvaldo Reis – PR

Gongórico tão fecundo
no trajar e na caneta
que o seu filho veio ao mundo
de gravata borboleta!
Roza de Oliveira – PR

Zerou no vestibular!!!
Com vergonha, ela tremeu.
Disse ao pai pra disfarçar:
– Sabe a última?… Sou eu!
Therezinha Brisolla – SP

Amigo é bênção que a gente
acolhe no coração
como o mais belo presente
que Deus e a vida nos dão!
A. A. de Assis – PR

A noite inteira acordado
e a inspiração não chegou.
Um poeta amargurado,
foi somente o que restou.
Alberto Paco – PR

Ante a doida correria
de um povo que vai e vem,
nas cidades de hoje em dia
ninguém conhece ninguém.
Agostinho Rodrigues – RJ

Eu quero ser o seu vinho,
o cálice que inebria;
ser seu parceiro no ninho,
ser madrugada, seu dia!
A. M. A. Sardenberg – RJ

Sem fazer-me de rogada,
só persiste uma verdade:
a trova em mim fez pousada,
trazendo a felicidade.
Andréa Motta – PR

O amor, para muita gente,
é diversão perigosa.
Quem não sabe ser prudente
transforma em espinho a rosa.
Arlene Lima – PR

Em noites frias, sem lua,
quando meus versos componho,
eu cubro a verdade nua
com meu casaco de sonho.
Antonio Juraci Siqueira – PA

Seguindo a rota da lua,
as nuvens não me detêm.
Com tantos riscos na rua,
na lua vou viver bem.
Ari Santos de Campos – SC

Por ter nas mãos quando querem
nossa alma, alheia aos perigos,
os “amigos”, quando ferem,
ferem mais do que inimigos!
Carolina Ramos – SP

Se eu for a todos dizer
o que está no coração,
num livro não vai caber
toda a minha gratidão.
Cidinha Frigeri – PR

Mais criatividade. Mais fraternidade. Menos competição.
Trinômio sugerido para a comunidade da Trova em 2013.

Ainda bem que tenho os meios
de não ficar tão sozinha:
desenho e bordo, abro e-mails,
faço versos na cozinha…
Clevane Pessoa – MG

Entre o sonho e a realidade,
vendo o meu filho eu pensei:
eis a mais bela verdade
de tudo quanto sonhei!
Conceição de Assis – MG

Meu perdão foi um tributo
a uma lágrima suspensa:
– um detalhe diminuto,
mas que fez a diferença…
Darly  O. Barros – SP

Contra os males da existência,
a  trova  é  o  melhor  remédio:
supre  o  vazio  da  ausência,
poetiza   o   próprio   tédio!
Delcy  Canalles – RS

Lua, que vagas serena
na amplidão do azul celeste,
traz consolo à minha pena,
leva a dor que me trouxeste!
Diamantino Ferreira – RJ

Duas raízes na vinha
juntas não iam vingar.
Se uma era erva daninha,
outra era flor luminar.
Dinair Leite – PR

Com altivez, disse um dia:
– “Ir procurar-te? Jamais!”
Mas a saudade vadia
não respeita o “nunca mais”…
Domitilla B. Beltrame – SP

Dispenso festas, mantenho
com elas pouca amizade,
pois quem tem o amor que eu tenho
só pensa em privacidade.
Élbea Priscila – SP 

Minhas rotas saltimbancas
oscilam nesta escalada:
há nuvens amenas, brancas,
outras balançam-me a escada.
Eliana Jimenez – SC

Só, no palco iluminado,
ante a cadeira vazia,
não via o salão lotado:
só sua ausência sentia…
Eliana Palma – PR

Sempre que a lágrima desce
e insiste em molhar-me a face,
eu uso o lenço da prece…
e é como se eu não chorasse…
Ercy Marques de Faria – SP

Deus, garimpeiro maior,
vai, no seu mister profundo,
salvando o bom e o melhor
que há nos garimpos do mundo.
Flávio Stefani – RS

Há uma sombra em meu caminho
que me segue…e, mesmo assim…
nem quer me deixar sozinho
nem diz o que quer de mim!
Francisco Garcia – RN

Ser  papai é um dom divino,
ser avô faz tanto bem;
quem me dera ser menino
para ter avô também.
Francisco Pessoa – CE

No mar azul, taciturno,
dos teus olhos ao luar,
ponho o veleiro noturno
do meu sonho a te buscar.
Gabriel Bicalho – MG

Quero dizer-te um segredo
 que não confio a ninguém:
 “eu te amo”, e estou com medo!
 E peço aos anjos amém.
Gledis Tissot – SC

Um mundo melhor… queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
Gislaine Canales – SC

Inspiração, sonho, rima,
fantasia e alma de esteta,
eis toda a matéria-prima
com que se faz um poeta!
Héron Patrício – SP

Que jornadas gloriosas
fiz ao longo dos caminhos.
Enchi meus braços de rosas
e nem notei os espinhos.
Janske Schlenker – PR

Tendo por espelho o mar
e o espaço embelezando,
a lua, com seu brilhar,
o ar vai romantizando.
Jessé Nascimento – RJ

Querer ser poeta, não!
Quem é não é por querer.
Escrever do coração
não precisa saber ler.
João Batista X. Oliveira – SP

Veteranos ou iniciantes, campeões ou simples “gostantes”, 
nós que formamos a comunidade da trova somos todos iguais.

Não me indagues por que te amo.
Não saberia dizer.
Eu te amo só porque te amo.
Que outra razão pode haver?
João Costa – RJ

Cigana, linda boneca,
tu sondas meu coração,
na estranha biblioteca
da palma da minha mão…
Josafá S. da Silva – RJ

Uma chave carregamos, 
porta de um mundo melhor; 
entretanto não largamos 
a muleta de um pior.
José Feldman – PR

Elaborei belos planos,
mas esta vida é tão curta,
e os sonhos de muitos anos
o mundo agora me furta!
José Lucas de Barros – RN

Ao me afastar de teus braços
tive perdas, mas, enfim…
sou dono dos próprios passos;
voltei outra vez pra mim.
José Ouverney – SP

Enquanto a chuva, lá fora,
escorre pela vidraça,
choro meu pranto que, embora
passando a chuva, não passa.
Laérson Quaresma – SP

Sonatas intercaladas
antes, durante e depois…
E em nossa pele, trocadas,
as digitais de nós dois!
Lucília Decarli – PR

Casaste… triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
Luiz Carlos Abritta – MG

A vida é palco, onde há canto
de maldade, espanto e dor…
Não há cortina, entretanto,
que feche um palco de amor!
Mara Mellini – RN

Quem deixa a vida pacata,
pra se prender a tormentos,
tem nó, que nunca desata, 
no cordão dos sentimentos. 
Marcos Medeiros – RN

Nas noites de sofrimento,
quer físico, quer moral,
na fé procurei o alento
e encontrei novo alto-astral.
Maria Ignez Pereira – SP

Iluminando o meu ser,
o teu sorriso comprova
que a cada alvo amanhecer
o meu amor se renova.
Mª Luiza Walendowsky – SC

Aquele que um Deus aceita 
e encontra a paz nos seus ritos,  
nem sente que a vida é feita 
de um turbilhão de conflitos.
Maria Nascimento – RJ

A trova é a poesia do século 21: moderna, enxuta,
difícil de fazer mas fácil de entender e de memorizar.

Ponho os olhos no infinito
e me recordo da infância:
do passado escuto um grito
no silêncio da distância…
Mª Thereza Cavalheiro – SP

Tenho uma coisa a dizer
a você que não me entende:
ninguém tem nada a vender,
porém todo mundo vende!
Mário Zamataro – PR

Nas asas da liberdade
firmei meu corpo a voar,
pois ser livre é ter vontade
de não parar de sonhar!
Messody Benoliel – RJ

Eu trago, junto do peito,
silente, a lembrar, constante,
o teu retrato, que estreito
feito uma joia galante.
Maurício Friedrich – PR

A vida é feita de escolhas:
os acertos festejamos…
O duro é virar as folhas
nas tantas vezes que erramos…
Milton Souza – RS

Quando o amor fica em ruína,
sem chão, paredes… ou teto,
o alicerce nos ensina
que só o carinho é concreto.
Olga Agulhon – PR

Toda noite quero vê-las,
mas não vejo (que saudade!).
Cada noite sem estrelas
não é noite de verdade.
Olivaldo Júnior – SP

Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser poeta!
Renato Alves – RJ

Ó Lua que estás sozinha
namorando o imenso mar,
tua sorte é igual à minha:
amas quem não vai te amar!
Thalma Tavares – SP

Em vigília a noite passo
e a ansiedade me aniquila.
Ela chega, eu me refaço…
e finjo dormir tranquila.
Thereza Costa Val – MG

Arrumei minha bagagem
com sonhos e fantasia,
e agora, no fim da viagem,
abro a mala… está vazia.
Vanda Fagundes Queiroz – PR

Ao passar por mim, nem para…
Sou a sombra de ninguém!
Que espaço enorme separa
meu amor do seu desdém!
Wanda Mourthé – MG

Fonte:
A. A. de Assis

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Trova 246 – José Fabiano (Uberaba/MG)

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30 de janeiro de 2013 · 22:30

Kátia Canton (A Abelha Chocolateira)

(Fábula com idéia de João Roberto Monteiro da Silva, 7 anos)

Era uma vez uma abelha que não sabia fazer mel. 

– Mas você é uma operária! – gritava a rainha – Tem que aprender.

Na colméia havia umas 50 mil abelhas e Anita era a única com esse problema. Ela se esforçava muito, muito mesmo. Mas nada de mel…

Todos os dias, bem cedinho, saía atrás das flores de laranjeira, que ficavam nas árvores espalhadas pelo pomar. Com sua língua comprida, ela lambia as flores e levava seu néctar na boca. O corpinho miúdo ficava cheio de pólen, que ela carregava e largava, de flor em flor, de árvore em árvore.

Anita fazia tudo direitinho. Chegava à colméia carregada de néctar para produzir o mais gostoso e esperado mel e nada! Mas um dia ela chegou em casa e de sua língua saiu algo muito escuro. 

– Que mel mais espesso e marrom… – gritaram suas colegas operárias.

– Iac, que nojo! – esbravejaram os zangões. 

Todo mundo sabe que os zangões se zangam à toa, mas aquela história estava ficando feia demais. Em vez de mel, Anita estava produzindo algo doce, mas muito estranho.

– Ela deve ser expulsa da colméia! – gritavam os zangões. 

– É horrorosa, um desgosto para a raça! – diziam outros ainda.

Todas as abelhas começaram a zumbir e a zombar da pobre Anita. A única que ficou ao lado dela foi Beatriz, uma abelha mais velha e sábia.

Um belo dia, um menino viu aquele mel escuro e grosso sobre as plantas próximas da colméia, que Anita tinha rejeitado de vergonha. Passou o dedo, experimentou e, surpreso, disse: 

– Que delícia. Esse é o mais saboroso chocolate que eu já provei na vida!

– Chocolate? Alguém disse chocolate? – indagou a rainha, que sabia que o chocolate vinha de uma fruta, o cacau, e não de uma abelha. 

Era mesmo um tipo de chocolate diferente, original, animal, feito pela abelha Anita, ora essa, por que não…

Nesse momento, Anita, que ouvia tudo, esboçou um tímido sorriso. Beatriz, que também estava ali, deu-lhe uma piscadela, indicando que tinha tido uma idéia brilhante.

No dia seguinte, lá se foram Anita e Beatriz iniciar uma parceria incrível: fundaram uma fábrica de pão de mel, juntando o talento das duas para produzir uma deliciosa combinação de mel com chocolate.

Moral da história: as diferenças e riquezas pessoais, que existem em cada um de nós, são singulares e devem ser respeitadas. 

Fonte:
Revista Nova Escola: Contos

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Contos do Folclore Brasileiro (O Macaco e o Confeito)

 Ilustração: Macé
Macaco guariba foi lavar a casa e achou um vintém. Comprou um vintém de confeito, subiu no pau, e lá ficou comendo. Mas macaco não tem modos, pula daqui, pula dali, acabou derrubando o confeitinho dentro de um oco da árvore. Enfiou a mão, pelejou para tirar, não conseguiu, foi direto dali para o ferreiro e pediu que lhe fizesse um machado, para tirar o confeito do buraco.

 — Sem dinheiro não faço machado nenhum.

 — Faz — gritou o macaco — Vou contar ao rei.

 Foi. Entrou no palácio, dando pulos e fazendo micagens e tropelias.

 — Senhor rei — pediu —, mande o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau para tirar o confeito que caiu no oco.

 O rei, nem como coisa. O macaco foi falar com a rainha:

 — Senhora rainha, mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeito que caiu no oco.

 — Mas é petulante esse macaco — disse a rainha, e não fez caso dele.

 O macaco foi falar com o rato.

 — Rato, roa a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

 — Macaco mais bobo! — comentou o rato. Estava comendo queijo e nem se incomodou.

 O macaco foi falar com o gato.

 — Gato, mande o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

 — Que besteira! — disse o gato, e nem se mexeu.

 O macaco foi falar com o cachorro.

 — Cachorro, mande o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 O cachorro deu um latido de impaciência e nem se incomodou.

 O macaco foi falar com o cacete.

 — Cacete, mande o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeito que caiu no oco.

 — Ah! Ah! — fez o cacete.

 O macaco foi falar com o fogo.

 — Fogo, mande o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 — Saia daqui — disse o fogo.

 — O macaco foi falar com a água.

 — Água, mande o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 — Bicho impertinente! — xingou a água.

 O macaco foi falar com o boi.

 — Boi, mande a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 — Suma da minha vista — disse o boi, e continuou ruminando o seu capim.

 O macaco foi falar com o homem.

 — Homem, mande o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 O homem resmungou:

 — Hum!

 O macaco foi falar com a morte. Lá estava ela no seu trono de ossos, pavorosa.

 — Morte, mande o homem mandar o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 A morte, que não estava de bom humor, pegou a foice e avançou no homem.

 — Não me mate!

 — Então abata o boi!

 O homem foi pra cima do boi.

 — Não me abata, homem!

 — Então beba a água.

 — Não me beba — disse a água.

 — Então apague o fogo.

 — Não me apague — disse o fogo.

 — Então queime o cacete.

 — Não me queime — disse o cacete.

 — Então bata no cachorro.

 — Não me bata — uivou o cachorro.

 — Então morda o gato.

 — Não me morda — miou o gato.

 — Então morda o rato.

 — Não me morda — guinchou o rato.

 — Então roa a roupa da rainha.

 O ratinho subiu no guarda-roupa da rainha e foi no vestido mais bonito: roquerroquerroque…

 A rainha gritou:

 — Não roa a minha roupa!

 — Então mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado para o macaco cortar o pau e tirar o confeitinho que caiu no oco.

 A rainha mandou o rei, o rei mandou o ferreiro, o ferreiro fez o machado. O macaco derrubou a árvore, abriu o tronco, achou o confeitinho e foi embora dando pulos e fazendo trejeitos.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Acruche Collection – Trova 9

Imagem e trova obtidas no facebook do trovador.

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José de Alencar (O Ermitão da Glória) Parte 1

(Obra em 9 partes)

I

AO CORSO

Caía a tarde.

A borrasca, tangida pelo nordeste, desdobrava sobre o oceano o manto bronzeado.

Com a sombra, que projetavam os negros castelos de nuvens, carregava-se o torvo aspecto da costa.

As ilhas que bordam esse vasto seio de mar, entre a Ponta dos Búzios e Cabo Frio, confundiam-se com a terra firme, e pareciam apenas saliências dos rochedos.

Nas águas da Ilha dos Papagaios balouçava-se um barco de borda rasa e um só mastro, tão cosido à terra, que o olhar do mais prático marinheiro não o distinguiria a meia milha de distância entre as fraguras do penedo e o farelhão dos abrolhos.

Pelas amuradas e convés do barco viam-se recostados ou estendidos de bruços, cerca de dez marujos, que passavam o tempo a galhofar, molhando a palavra em um garrafão de boa cachaça de São Gonçalo, cada um quando chegava a sua vez.

Na tilha sobre alva esteira de coco estava sentada uma linda morena, de olhos e cabelos negros, com uma boca cheia de sorrisos e feitiços.

Tinha ao colo a bela cabeça de um rapaz, deitado sobre a esteira; numa posição indolente, e com os olhos cerrados, como adormecido.

De momento a momento, a rapariga debruçava-se para pousar um beijo em cheio nos lábios do moço, que entreabria as pálpebras e recebia a carícia com um modo, que revelava quanto já se tinha saciado na ternura da meiga cachopa.

– Acorde, preguiçoso! dizia esta galanteando.

– Teus beijos embriagam, amor! Não o sabias? respondeu o moço fechando os olhos.

Nesse instante um homem, que descera a abrupta encosta do rochedo com extrema agilidade, atirou-se á ponta da verga, e travando de uma driça, deixou-se escorregar até o convés.

O desconhecido, que assim chegava de modo tão singular, era já bem entrado em anos, pois tinha a cabeça branca e o rosto cosido de rugas; mas conservara a elasticidade e nervo da idade viril.

Com a arfagem que o movimento do velho imprimiu ao navio, sobressaltou-se toda a maruja; e o moço que estava deitado na esteira, ergueu-se de golpe, como se o tocara oculta mola.

Nesse mancebo resoluto, de nobre e altivo parecer, que volvia em torno um olhar sobranceiro, ninguém por certo reconheceria o indolente rapaz que dormitava pouco antes no colo de uma mulher.

Na postura do moço não havia a menor sombra de temor nem de surpresa, mas somente a investigação rápida e o arrojo de uma natureza ardente, pronta a afrontar o perigo em toda a ocasião. 

Do primeiro lanço viu o velho que para ele caminhava:

– Então, Bruno?

– Aí os temos, Senhor Aires de Lucena; é só fisgar-lhes os arpéus. Uma escuna de truz!

– Uma escuna!… Bravo, homem! E dize-me cá, são flamengos ou ingleses?

– Pelo jeito, tenho que são os malditos franceses.

– Melhor; os franceses passam por bravos, entre os mais, e cavalheiros! A termos de acabar, mais vale que seja a mãos honradas, meu velho.

A esse tempo já a maruja toda a postos esperava as ordens do capitão para manobrar.

Aires voltou-se para a rapariga:

– Adeus, amor; talvez nunca mais nos avistemos neste mundo. Fica certa porém que levo comigo duas horas de felicidade bebidas em teus olhos.

Cingindo o talhe da rapariga debulhada em lágrimas, deu-lhe um beijo, e despediu-a atando-lhe ao braço uma fina cadeia de ouro, sua derradeira jóia.

Instantes depois, uma canoinha de pescador afastava-se rapidamente em demanda da terra, impelida a remo pela rapariga.

De pé, no portaló, Aires de Lucena, fazendo à maruja um gesto imperioso, comandou a manobra.

Repetidas as vozes do comando pelo velho Bruno, colocado no castelo de proa, e executada a manobra, as velas desdobraram-se pelo mastro e vergas, e o barco singrou veloz por entre os parcéis.

II

ÚLTIMO PÁREO

O ano de 1608 em que se passam estas cenas, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha apenas trinta e três anos de existência.

Devia de ser pois uma pequena cidade, decorada com esse pomposo nome desde o primeiro dia de sua fundação, por uma traça política de Estácio de Sá, neste ponto imitado pelos governadores do Estado do Brasil.

Aos sagazes políticos pareceu da maior conveniência semear de cidades, e não de vilas, e menos de aldeias, o mapa de um vasto continente despovoado, que figurava como um dos três Estados da coroa de Sua Majestade Fidelíssima.

Com esse plano não é de admirar que um renque de palhoças ás faldas do Pão de Açúcar se chamasse desde logo cidade de São Sebastião, e fosse dotada com toda a governança devida a essa jerarquia.

Em 1608 ainda a cidade se encolhia n a crista e abas do Castelo; mas quem avaliasse da sua importância pela estreiteza da área ocupada, não andaria bem avisado.

Estas cidades coloniais, improvisadas em um momento, com uma população adventícia, e alimentadas pela metrópole no interesse da defesa das terras conquistadas, tinham uma vida toda artificial.

Assim, apesar de seus trinta e três anos, que são puerícia para uma vila, quanto mais para uma cidade, já ostentava o Rio de Janeiro o luxo e os vícios que somente se encontram nas velhas cidades, cortesãs eméritas. 

Eram numerosas as casas de tavolagem; e nelas, como hoje em dia nos alcáçares, tripudiava a mocidade perdulária, que esbanjava o patrimônio da família ao correr dos dados, ou com festas e banquetes a que presidia a deusa de Citera.

Entre essa mocidade estouvada, primava pelas extravagâncias, como pela galhardia de cavalheiro, um mancebo de dezoito anos, Aires de Lucena.

Filho de um sargento-mor de batalha, de quem herdara dois anos antes abastados haveres, se atirara a vida de dissipação, dando de mão à profissão de marítimo, a que o destinara o pai e o adestrara desde criança em sua fragata.

Nos dous anos decorridos foi Aires o herói de todas as aventuras da cidade de São Sebastião.

Ao jogo os maiores páreos eram sempre os seus; e ganhava-os ou perdia-os com igual serenidade, para não dizer indiferença.

Amores, ninguém os tinha mais arrojados, mais ardentes, e também mais volúveis e inconstantes; dizia-se dele que não amava a mesma mulher três dias seguidos, embora viesse no decurso de muito tempo a amá-la aquele número de vezes.

Ao cabo dos dous anos achava-se o cavalheiro arruinado, na bolsa e na alma; tinha-as ambas vazias.- estava pobre e gasto.

Uma noite meteu na algibeira um punhado de jóias e pedrarias que lhe restavam de melhores tempos, e foi-se á casa de um usurário. Apenas escapou a cadeia de ouro, que tinha ao pescoço e de que não se apercebeu.

Com o dinheiro que obteve do judeu se dirigiu à tavolagem resolvido a decidir de seu destino. Ou ganharia para refazer a perdida abastança, ou empenharia na última cartada os destroços de um patrimônio e uma vida mal barateados.

Perdeu.

Toda a noite passara-a na febre do jogo; ao raiar da alvorada, saiu da espelunca e caminhando à-toa foi ter á Ribeira do Carmo.

Levava-o ali o desejo de beber a fresca viração do mar, e também a vaga esperança de encontrar um meio de acabar com a existência.

Naquele tempo não se usavam os estúpidos suicídios que estão hoje em voga: ninguém se matava com morfina ou massa de fósforo, nem descarregava em si um revólver.

Puxava-se um desafio ou entrava-se em alguma empresa arriscada, com o firme propósito de dar cabo de si; e morria-se combatendo, como era timbre de cavalheiro.

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Helena Kolody (Viagem Infinita)

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29 de janeiro de 2013 · 21:11

Rick Steindorfer (Poemas Avulsos)

(Ricardo Steindorfer Proença é de Águas de São Pedro/SP)

A ETERNIDADE…
Sonho um sonho de ternura
viajo pelo tempo, eterno sou
distante de toda usura
perto de Deus eu estou.
Há momentos na eternidade
em que paramos como espíritos
são instantes de sobriedade
sonhos de busca irrestritos.
Olho pela janela da vida
busco no silêncio minha alma
tenho uma existência escolhida
pois levo minha vida na palma.
Desato de mim todos os nós
sou paz nas veredas onde passo
estou neste caminho a sós
livre de tristeza ou cansaço.

AMOR, ETERNO AMOR

A beleza do amor esta no movimento
na cadência carinhosa que nos excita
no poder da ternura que há no sentimento
e no desejo que ao beijo nos incita.

E quando estou dentro, em teus alentos
teu corpo me absorve com ternura e ardor
no ritmo louco de nossos movimentos
alternados entre o prazer e a dor.

 Somos eternos então neste momento
pois somos inteiros naquilo que vivemos
sem receio ou qualquer comedimento
mostramos um ao outro o que sentimos.
E quando estendo a mão a ti finalmente
quando tudo cessa em pausa por instantes
nos preparamos para o amor novamente
e nos entregamos, somos dois amantes.

PAZ

Que haja paz por onde eu passe
e que um manto de luz se estenda ao meu caminho
que a alegria o meu corpo inteiro transpasse
fazendo de todo mundo o seu ninho.
Que haja vida em meu pensamento
e que eu materialize a vontade de Deus
que haja felicidade em meu sentimento
e que eu traduza os Desejos Seus.
Que eu empreste minha força por onde vá
não economizando meu poder em nada
e que meus passos em meu caminhar
faça eterna e pura a minha estrada.
Que eu me lembre sempre de todos
e esqueça sempre de mim
não me perdendo em receios e lodos
vivendo a vida como um simples Curumim.

A FELICIDADE

A felicidade
é um espaço entre o sentir e o pensar
que transforma com qualidade
nossa capacidade de sonhar.

Para ela, não existe receita
pois ela não é um lugar qualquer
nela a alma apenas aceita
aquilo que o espírito quer.

A felicidade não está na paz
mas a paz mora lá
nos ensina como se faz
um bolo simples de abará.

Não pense em ser feliz
busque a sua essência
em tudo que pensa e diz
está toda a sua ciência.

O CAMINHAR DA CONSCIÊNCIA

A Morte o corpo persegue
como o boi é seguido pelo carro
por isso ninguém consegue
ser dela o seu desgarro.

Cuidemos de nossa vida
com o esmero de um mordomo
no esforço de nossa lida
sem falsidade ou assomo.

Fazemos parte de egregoras
e nelas nos revezamos
somos lideres por horas
em outras apenas oramos.

Mas é neste caminhar
nesta vida infinita
que vivemos nosso particular
de forma eterna e irrestrita.

CLAREZA NA LIDA

 Há pessoas que tem má natureza
 parece que não são filhas de Deus
 mas se todos têm em si a pureza
 o que acontece com os princípios seus?

 Já gritei muito no mundo
 já falei sobre a responsabilidade
 sobre o pecado oriundo
 e a vida plena de qualidade.

 De que adianta sermos bons
 se jamais cobramos isso da vida
 elevando os nossos tons
 e buscando a clareza na lida?

 Olhemos os maus com bons olhos
 estão em busca da perfeição
 eles tem lá seus abrolhos
 e amor recluso no coração.

A DOR DE UMA SAUDADE

quando expressa a lembrança 
traz uma dolorosa qualidade 
que nos faz que nem criança 
e sempre que podemos chorar 
por que não inundar os olhos 
sem receio e sem corar 
sem nos preocupar com nossos abrolhos. 

Linda a expressão de tua alma 
linda a canção do teu amor 
uma dor sofrida mas terna e calma 
que se refere a um eterno ardor 
mas viver é isso mesmo 
temos sempre nossos altos e baixos 
só não se pode viver a esmo 
tristes, solitários e cabisbaixos 

A alma que se liberta da vida 
já cumpriu a sua sentença 
vai em busca de outra lida 
sem nenhum ou qualquer diferença 
apenas se torna mais consciente 
mais forte e mais lúcida 
torna-se um ser mais ciente 
numa vida mais intensa e mais lúdica. 

Oremos por nós mesmos 
e aprendamos a nos dar as mãos 
não vamos virar torresmos 
ou viver que nem pagãos 
sabemos que a eternidade existe 
e que alguém criou o universo 
e a verdade sempre consiste 
em se falar em prosa e verso!

A POESIA

A poesia em mim brota como fonte
 como uma nascente interminável
 elas percorrem a minha fronte
 com um poder imensurável.

 Aqui eu sou apenas o cinzel
 que esculpe a força da imagem
 no branco de minha mente, meu céu
 com o poder do sentimento, minha aragem.

 Eu vivo minha vida para a arte
 o resto todo é bobagem
 há momento em que estou em Marte
 outros em Vênus com coragem.

 E quando o momento eterno vier
 e eu tiver que deixar este trapo
 entrego a Ele tudo o que tiver
 sem receio, apego ou cansaço.

Fontes:

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Arquivado em Estado de São Paulo, Poemas

Trova 244 – Luiz Otávio

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29 de janeiro de 2013 · 21:04

Olivaldo Junior (Um ano do Blog da CaEs e da UBT Moji Guaçu/ SP)

Hoje o Blog da Casa do Escritor e da União Brasileira de Trovadores Moji Guaçu, SP, comemora um ano de vida no ar. Eu, Olivaldo, agradeço a todos que, direta ou indiretamente, colaboram para que ele prossiga. O momento serve também para que se faça uma pausa e se pense no quanto ainda falta alcançar. 

O que se pretende, seja em Moji Guaçu, seja em qualquer outra cidade do mundo, é que, de acordo com o nosso caso, a Literatura cresça e se perpetue na vida e no coração daqueles que ainda acreditam no poder das letras. Não escreverei que não há nenhum plano realmente efetivo de fomentação da cultura literária no Brasil, nem que as principais editoras comerciais não se propõem a publicar poesia, recusando o envio de originais para avaliação, pois, afinal, “poesia não vende”. Os poetas que tem publicado em livro suas criações o tem conseguido através de edições cooperativas, ou de financiamento das próprias obras, o que, se por um lado é louvável, por outro é muito triste. Como incitar o nascimento de novos Drummonds e de novas Cecílias, num lugar em que o verso é contrário ao que se espera de um escritor contemporâneo? 

Tivemos, ao fim do ano passado, encontros que se fizeram memoráveis. Dia vinte e oito de novembro, às vinte horas, houve a inauguração do Auditório Maria Ignez Pereira, na Estação Cultura, quando membros da CaEs e da UBT, o presidente da Academia Guaçuana de Letras Cícero Alvernaz e eu, Olivaldo, prestigiamos Maria Ignez no descerramento da placa que dera nome ao local de encontros e palestras da Estação. O então Secretário de Cultura Sr. Edenilson José Faboci comandou a honraria outorgada à poetisa, que leva o nome de Moji Guaçu a várias cidades do País, devido a participações em concursos. O músico Henrique Perina também esteve presente com seu violão, e ambos garantiram a trilha sonora da noite. Além de poemas e textos apresentados pelos escritores, Henrique e eu interpretamos duas músicas: Gotas de luar, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e Pranto de poeta, da mesma dupla de sambistas. Henrique e eu “improvisamos” na apresentação deste samba. 

Dia trinta de novembro, às dezessete horas, foi a vez da premiação do Concurso de Poesias da Biblioteca Municipal João XXIII, no qual Afonso José dos Santos e eu, Olivaldo, fomos dois dos classificados. A premiação também contou com a presença de Maria Ignez Pereira, que foi chamada para entregar troféus e medalhas para alguns autores dos poemas escolhidos.

Dia primeiro de dezembro, às onze horas da manhã, lançou-se o livro póstumo Vida Vivida, de José Maria Duprat, membro da Academia Guaçuana de Letras, num dos auditórios das Faculdades Integradas Maria Imaculada (FIMI). A filha de Duprat, Caru, veio de São Paulo com a família toda para o lançamento do livro do pai, que, segundo a própria Caru, desejava ter o livro dele lançado em meio aos companheiros da AGL, de que era, mesmo morando em São Paulo, frequentador assíduo das reuniões da referida entidade. Foi emocionante ver a família de José Maria Duprat realizando um desejo do patriarca, um sensível cronista, que sempre reverenciava as coisas mais simples da vida como se elas fossem (e são) as coisas a que realmente se devem dar importância. Vida Vivida: uma lição. 

Dia sete de dezembro, na casa da poetisa e trovadora Maria Ignez, reunimo-nos para a última reunião de 2012 da CaEs e da UBT Moji Guaçu, SP. Estiveram presentes a anfitriã Maria Ignez, Afonso, Margarida (recém-chegada companheira), Roberto Nini, Samantha Lodi e eu, quando conversamos sobre os rumos dessas duas entidades no então vindouro 2013. Houve muita conversa e um lanche da tarde agradáveis. 

Retomando o primeiro assunto, eis que a internet e os meios de expressão, inclusive literária, oferecidos por ela tem-se expandido dia a dia. Há blogs que já se prenunciam como sendo “uma imprensa que não gasta papel”, o que é mesmo uma boa frase e, mais que isso, um conceito ecologicamente válido e correto nos dias que seguem. Mas que seria bom se morássemos num país em que a Poesia também tivesse ampla aceitação por editoras e casas publicadoras de livros em papel seria, seria, sim. Um dia, a Poesia vencerá. 

Lançamos há poucos dias o 2º Concurso de Poesias Carlos Cezar – 2013, que pretende ampliar o êxito do primeiro, atraindo a atenção de poetas da cidade e de várias partes do Brasil e do exterior, também. 

O Blog da CaEs e da UBT faz um ano de vida virtual, buscando, em verdade, a virtude dessa vida sem papel, mas bem atenta ao papel que tem: divulgar poetas e escritores daqui e de fora, dando rosas a quem chega a casa e oferta rimas, trovas ou prosa, que tudo é texto, ou espelho.

Olivaldo Júnior 
Presidente da Casa do Escritor 
e da UBT – Seção Moji Guaçu 

Fontes:
Montagem com imagens obtidas na internet

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Arquivado em Cronica, Eventos - Comemorações, Magia das Palavras

Clevane Pessoa (Musicando)

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29 de janeiro de 2013 · 20:57

Ieda Cavalheiro (Teia de Poesias)

FASE DE FAZER

 Saudade de ti… Que fase!
 Que fazes, que faço eu,
 das luas de nosso amar?

 Saudade de ti… que fazes tu?
 Que fase a minha!
 Tua e minha lua, côncavas,
 Na Via Láctea infinita em versos.

 Em que fase, conseguirei,
 Que, o que faças
 transmute teu verso
 em meu inverso,
 fase maior do meu universo?

LIBERDADE

 Essa noite sou tua.
 És meu inteiro!
 Como eu,
 Nua, a lua nos encara,
 Banha-te em luz .
 O vento varre os anos
 do meu – teu tempo,
 A nuvem encobre, solícita,
 As rugas e as imperfeições
 do meu – teu semblante,
 perfeitos, ficamos,
 perfeitamente, livres…
 e amantes,
 em busca,
 do sempre inenarrável.

ALEGRE PORTO
 A Porto Alegre – terra onde semeei dias e amores.

Porto Alegre, berço beira-rio,
Olhos cravados nos sonhos,
Ontem, futuro incerto,
Busquei teu céu – amanhã,
Muro azul, minha imaginação,
Magia de sol avermelhando no horizonte.

Rezei-te terços em luta, mais de meia vida,
Semeei de meus passos tuas ruas,

Praças, igrejas, escolas, casas de cultura,
Teu lago, um sorriso aberto,
Amenizou meu semblante-fantasia,
É minha a honra de seres o chão
Dos filhos de meus sonhos.
Hoje, dias obscuros, paço de meus amores,
Doces e terríveis momentos,
Ternura e luta – realização,
Estrela guia de tantos natais,
Vou contigo, tortuosas curvas,
Busco-te, alegre porto,
Amo-te mais e mais.

BARALHO DE AMOR  
Cinquenta e duas cartas de amor
Em tuas mãos solícitas,
Acarinhando e embaralhando tanto,
A trocá-las de lugar a cada instante,
Formando maços, traçando ouros,
Em copas, fazendo diferentes laços,
Afugentando sonhos e percalços.
Espadas em estranhos desenlaces,
Qual rei em guerra, sem valetes.
Perdida dama de paus,
Sem rumo entre coquetes,
Joguete, apenas.
Como último cartucho, o ás d’ouro,
A arder, qual ferro em fogo, 
Debato-me entre as damas
Reis e ases de alto luxo,
E coringas são insuficientes
Para salvar-me, abatida em mesa, 
Sonolentas vão 
As esperanças de deter-te,
Do monte, lanço mão.
E os sonhos já se acabam…
Em última partida agonizo,
Em mãos, o sete belos d’ouro,
Transforma-se à paixão,
Cartada vil de mísero baralho,
Sob a manga mágica do sonho,
E na última rodada, já em transe,
Banco o amor sem esperança,
Entrega especial antes de morrer: 
Viciado de ti, o coração…

A VOZ QUE CALA

A voz que cala no vale,
Sopro de tua voz,
Cheiro de tua boca,
Independente de ti,
Fica ao meu ouvido
Retumbante nos ares,
Dizendo da paixão 
Que nos arrebata para a vida.

A voz que cala nas colinas,
Vento devastador
Destruindo esperanças, 
Em nossas formas
Submersas no tempo
Que não nos exploramos, 
Submissa às visões do mundo,
Mais que palavras que falam de ti.

A voz que cala na cachoeira,
Brisa serena do universo de nós,
Do mais profundo de ti,
Emergente em meu ser,
Lava nossas almas
Do pecado originado,
Orações não rezadas 
De meu clamor por ti.

A voz que cala em tua boca, 
Teus beijos não dados, 
Nossa ânsia louca
Não nos entregando,
Relíquias do prazer 
De nos termos para sempre,
Mesmo na certeza de te ter, 
Não te tendo aqui.

A voz que cala no silêncio,
É a minha a teu ouvido,
Sinfonia que não quer parar
E te ofertando
O tema escolhido, 
Inacabado assim, mas salutar, 
Virtual, virtuoso, reprimido,
Vida e sobrevida para amar.

A voz que cala no tempo,
É meu ser que invade o teu, 
A lira que me encanta, 
E, maga, realiza meu sonho,
Apesar do desencanto, 
De tua surdez aos meus apelos,
Indubitavelmente,
É a voz do meu amor por ti.

SOU

 Sou teu sonho, teu deleite,
 Sou teu lençol , sou teu leito,
 Sou vida da tua vida,
 Sou o pelo do teu peito.
 Sou conto dos teus romances,
 Sou poesia de tua alma,
 Sou doce enlevo em teu monte,
 Sou linha da tua palma.
 Sou resposta aos teus anseios,
 Sou tua ira, tua calma.
 Sou tua sombra, tua escada,
 Sou pássaros em revoada.
 Se te ganho sou mulher,
 Sou fiel e apaixonada,
 Se te perco, és meu sonho,
 Sou uma folha empoeirada.

GRITO PELA PAZ

 Grito por esse amor imenso
 Rasgando meu pensar:
 – grito de paz, dos desvalidos,
 Na guerra a soçobrar,
 Dos aleijados de braços, pernas,
 De órfãos de pais,
 De irmãos de amar,
 De ouvidos loucos
 E corpos combalidos.
 Grito pelas insanas naus,
 Barcos sem velas
 Bombas sem rumo,
 Largados do oriente,
 Insanidade moral,
 Desatinada e má,
 Ativada por homens
 Ditos do bem,
 Em nome de um deus,
 Que ao encontro não vem.
 Grito desse ocidente explorado,
 Ainda tão criança,
 De exploração do verde
 E roubo da esperança.
 Grito por luzes não acesas
 E falta de água,
 De arroz e de feijão plantados
 Sem esperança de colheita,
 Pela fome e a miséria
 Que ao humano espreita.
 Grito pelas águas dos rios,
 Mudando de cor, sabor e berço.
 Grito pelos pássaros,
 Que não passarão de ovos…
 Pelas baleias e
 Tubarões mortos,
 Sem deixar herdeiros
 Para esticar sua história…
 Grito pela Paz,
 Onde tantos gritam pela guerra.
 Grito por meus gritos,
 De querer crer,
 Que a PAZ não é quimera
 PAZ é BEM
 Que há de ser à aurora,
 Iniciado no amor
 De um por outro ser!

Fonte:

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Ieda Cavalheiro (1950)

Ieda Cunha Cavalheiro nasceu em 23 de março de 1950, em São Gabriel, RS, filha de Edelpídio da Silva Cavalheiro e Carolina Cunha Cavalheiro. 

Formou-se Bacharel em Letras pela UFSM- Universidade Federal de Santa Maria/RS – Extensão em São Gabriel/RS, e em Direito, pelo Instituto Ritter dos Reis de Canoas, RS, em 1988. 

Professora Primária de 1968 a 1973 e de Língua Portuguesa desde 1973, Município de São Gabriel, RS; 

Professora de Língua Portuguesa – 1973 a 1987 – em Bagé – 1973, 1974 e Porto Alegre – 1975 a 1986;

Assessora Jurídica da 1ª Delegacia de Educação – 1986 – 1987 – Porto Alegre/ RS;

Assessora Jurídica da Secretaria de Educação e Cultura do RS – 1987 – 1990

Professora de Língua Portuguesa, de Direito Administrativo e Direito Constitucional em Cursos Preparatórios para Concursos Públicos – 1992 -1995 – Escola Coopper – Porto Alegre, Escola Beta e ABOJERIS, em Porto Alegre.

Advogada em Porto Alegre e Grande Porto Alegre, exercendo a profissão, embora aposentada como profissional liberal desde 31 de março de 2005.

PARTICIPAÇÃO LITERÁRIA

 Escreveu e escreve para vários Jornais Informativos como:

 – O Imparcial, jornal de sua cidade, em 1972-73, artigos sobre a Reforma do Ensino; 

 – Jornal: A Razão de Santa Maria, 1988 – Poesia; 

 – Jornal da Escola Adventista de Porto Alegre: artigos sobre Direito da Criança e do Adolescente;

 – Revista do Lions – Club Porto Alegre – Redenção – vários textos em poesia e prosa. 

 Participou de diversas coletâneas: 

 Gente da Casa -38 Anos – Casa do Poeta Rio – Grandense – CAPORI – 2002,

 Gente da Casa – 39 Anos – CAPORI 2003, 

 Onde se Encontram os Poetas – Volume III – 2003 – Casa do Poeta de Novo Hamburgo/ RS,

 Casa do Poeta de Canoas – 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 

 Palavras – AJEB 2003 – 2005, 

 Agenda Poesia – Brasil 2003, 2004, 2005 – CAPORI 41 Anos, 
MERCOPOEMA 2005, 

Coletânea Brasil Poeta e Antologia em Prosa e Verso da Casa do Poeta, da qual foi revisora de Língua Portuguesa. 

 De jornais Literários: 
RS – Letras, outubro/ 2002, março/ 2004, 2005, 
O Imparcial de São Gabriel, janeiro de 2004, 
A Razão, janeiro de 2004, 
O Mundo Mágico da Poesia julho/ 2004 [encarte]. 

PRÊMIOS RECEBIDOS

Em 1969, recebeu pela redação de ‘Brasil – Portugal, Duas Pátrias, Uma Só Família’ – texto em prosa, 1º lugar no 3º ano normal, 1º lugar na Escola Normal Menna Barreto, 1º lugar na cidade de São Gabriel e 2º lugar no Rio Grande do Sul, pela Editora EL ATENEO DO BRASIL.

 Em 2001, recebeu o Prêmio – A Mais Honrosa Poesia, no Concurso Nelson Fachinelli de Efemérides, com seu poema À Grávida, então, associando-se à Casa do Poeta Rio – Grandense, da qual hoje é membro efetivo, foi Secretária, Tesoureira, Vice – Presidenta Administrativa. Gestão 2005-2006 – Vice-Presidenta de Imprensa, Rádio e TV e Assessora Técnica da Presidenta Gestão 2006-2007 – Diretora de Imprensa e Cultura e Secretária.

Associada efetiva da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB, desde setembro de 2003, participando de PALAVRAS – Coletâneas 2003- 2004.

 2006 – convidada para participar, tornou-se Cônsul dos Poetas Del Mundo para a Zona Noroeste de Porto Alegre/RS.

É associada efetiva, assumindo hoje a Cadeira de n° 12 da Academia Castro Alves de Artes Ciências e Letras de Porto Alegre. 

DO 1º LIVRO e DOS SONHOS

Seu livro Sinfonia de Vida foi lançado na 49ª Feira do Livro de Porto Alegre [2003], é uma resenha de seus textos de toda a vida, selecionados pelo editor, para encaminhá-la em seus primeiros passos literários ao mundo exterior, pois antes, guardava na gaveta seus poemas e sonhos, enquanto lia e propalava os grandes autores brasileiros.

Também obra infantil em prosa e verso EXTRATO DE AMOR uma história infantil, O PEIXINHO E A MENINA TRISTE, e, em versos, um terceiro, AMOR É TUDO

DOS PRÊMIOS RECEBIDOS

 Em 2003, recebeu Menção Honrosa pelo poema, Mãe e Só, ilustrado por Tânia Arnold, na 25ª EXPOESIA; em 2004, 

1º lugar em poesia na 26ªEXPOESIA, por seu poema Almas Gêmeas, 

2º lugar em Ilustração por Vaneila Müller, e Menção Honrosa, por seu poema ‘Nós e a Flor’, ilustrado por Ivette Müller, 

Menção Honrosa por seu poema A Mário Quintana, com ilustração de Ivette Müller, no 10ºConcurso Imagens de Quintana, 

3º lugar em poesia, na EXPOESIA, 2006, com o poema Amigo e 

Menção Honrosa, no V Concurso Nelson Fachinelli de Efemérides com o poema Saudade da Vovó e crônica Parei Para Ver.

Em julho de 2004, participou da Fundação da Associação de Arte e Literatura da Zona Norte de Porto Alegre [AALZON – POA – RS], entidade da qual foi 1ª Secretária e apresentadora dos Saraus da entidade, desde a fundação e hoje é Presidenta eleita para a Gestão 2006-2008.

 Em 2003/2004, foi Coordenadora do IV Concurso Nelson Fachinelli de Efemérides, e Coordenadora Geral do Evento da 27ª EXPOESIA – 2005, promovido pela Casa do Poeta, com apoio da FECI-INTER, com mais de 70 obras de arte plástica inspirada em poesia, por mais 100 participantes entre artistas plásticos e poetas. 

 Participante de várias caravanas culturais da Casa do Poeta, inclusive como coordenadora, com participação com palestras e declamação em escolas no XII, XIII e XIV Congresso Brasileiro de Poesia, em Nova Hamburgo, sendo que nesse último participou como representante da Presidência da Casa do Poeta e saraus da Casa do Poeta de Canoas, Camapuã, Esteio, Casca, Teotônio e outras. 

 Revisora de Língua Portuguesa da obra Antologia em Prosa e Verso da Casa do Poeta Rio -Grandense 2005, publicada pela Editora Plátanos, Porto Alegre-RS e da Coletânea da CAPORI 42 Anos em 2006. 

 Participação em vários jornais literários tais como RS Letras, Tal – e – Qual, Mundo Mágico da Poesia e outros, desde 2001.

 Abriu caminho para a participação da AALZON/POA/RS em Programa Mensal de rádio na Rádio Pampa FM, no Tribuna Popular de Altayr Venzon, desde maio de 2006, e participa com a CAPORI de outro programa mensal no mesmo espaço, desde julho de 2006.

 Possui mais de 300 textos em prosa e verso não publicados. 

Criou e editou o Primeiro Informativo da Casa do Poeta Rio – Grandense , ‘Operário das Letras’, em junho de 2006, sonho muito particular seu, que sabe ter sido e ser também de muitos da Casa, tão antigo quanto sua presença na Casa do Poeta, sempre adiado a pedido de Nelson Fachinelli.

Fonte:

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Ialmar Pio Schneider (Soneto-Oração)

Aos familiares dos entes queridos falecidos na tragédia de Santa Maria – RS – 29.01.2013 – . – 

Transcorrem dias tristes, enlutados, 
e as pessoas se voltam à oração; 
que Deus conforte os pais desesperados, 
porque só n´Ele existe a salvação. 

Nós somos seres, filhos bem-amados
do Pai Maior que paira na amplidão, 
por Quem sempre seremos resgatados
e a retornarmos à ideal mansão. 

É difícil viver, tenhamos fé, 
embora atravessemos maus momentos
em que podemos vacilar até… 

Possamos enfrentar os sofrimentos
nesta terrena vida, de viagem, 
pois estamos aqui só de passagem…

Fontes:
O Autor
Charge de Carlos Latuff obtida no Blog do Tarso

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Arquivado em Rio Grande do Sul, Soneto.

Helena Kolody (Poesia Mínima)

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28 de janeiro de 2013 · 22:43

XXVI Jogos Florais / XIV Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto– 2013 (Prazo: 21 de Março)


Prazo: até 21 de março de 2013.

Resultado: final de abril.

Tema Municipal
Liricas/Filosóficas: Direito
Humorísticas: Torto

Tema Nacional
Liricas/Filosóficas: Muralha
Humorísticas: Cerca

Tema Estudantil
Liricas/Filosóficas: Fada
Humorísticas: Bruxa

Remessa:
Sistema envelopes brancos (8/11) em ARIAL

União Brasileira de Trovadores
Caixa Postal 448
CEP: 14001-970 
Ribeirão Preto-SP-Brasil.

Fonte:
Nilton Manoel

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Arquivado em Inscrições Abertas, Jogos Florais, Ribeirão Preto

Helena Kolody (Significado)

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27 de janeiro de 2013 · 22:22

Fernando Sabino (Martini Seco)

O texto é dividido em quatro partes, que delimitam as etapas da história e as transformações ocorridas. Vamos, a seguir, acompanhar cada uma dessas partes. 

Primeira parte 

Esta parte se inicia com o relato do caso ocorrido em 17 de novembro de 1 957. Um homem e uma mulher entraram em um bar, sentaram-se e pediram dois martinis. Ela foi ao telefone e ele foi ao banheiro. Quando retomaram, a mulher (Carmem) tomou a bebida e caiu morta. Estabelecida a confusão, ninguém sabe como a polícia chegou. Chegou e, inicialmente, supôs tratar-se de suicídio. Entretanto logo surgiram as suspeitas de que se tratava de assassinato. O marido, Amadeu Miraglia, foi considerado como o principal suspeito. Preso, acabou confessando; mais tarde, em juízo, alegou que fora torturado para confessar e acabou absolvido da acusação. 

Cinco anos depois, Maria, 2º mulher de Amadeu Miraglia, vai à delegacia apresentar queixa, porque desconfia que ele quer inatá-la e que usará veneno para que o caso termine como anterior. Amadeu é interrogado e nega tudo. Levanta a hipòtese de que ela. Maria, pretende matar-se e jogar a culpa nele. Acrescenta que já está acostumado com este tipo de injustiça, pois quando criança também foi acusado pelo pai, injustamente, pela morte de um passarinho. 

Segunda parte 

Curiosamente, esta parte se inicia da mesma forma que a primeira, inclusive com a repetição das mesmas palavras. Para o leitor, fica parecendo que Miraglia e a mulher estão envolvidos num novo assassinato, mas na realidade o que se passa é a reconstituição do crime. A partir deste momento, o leitor toma contato com novas informações, que ele terá de juntar às anteriores para compor um quadro de hipóteses coerentes quanto à atitude dos personagens. Miraglia conta que ia se casar com Carmem e que ela estava grávida. Miraglia diz que o filho não poderia ser seu, pois ele era estéril. Miraglia explica que Carmem se suicidou porque não queria admitir lhe fora infiel. Miraglia diz que Maria também queria se matar, porque também estava grávida e sabia que o filho era ilegítimo Em meio a tantas informações, o caso toma vários caminhos, que o comissário Serpa tenta questionar, concluindo que todas as suspeitas apontam para Miraglia. A història se repete: Maria vai com Miraglia ao bar, toma um martini e cai fulminada 

Terceira parte 

Como se pôde ver, esta história acontece como num jogo, o de damas por exemplo, em que novas possibilidades de jogadas vão acontecendo. O detetive Serpa levanta a hipòtese de que Miraglia pretendia matar-se e Carmem, tomando o martini no cálice errado, terminou morrendo. Neste momento, Maria lhe telefona para saber se deve tomar o cálice de martini que Miraglia lhe oferece. Serpa diz que ela deve beber o outro cálice, o que pode configurar um erro, pois se Miraglia pretendia se matar, ela, Maria, morreria fatalmente. 

Quarta parte 

Novamente o leitor é levado a crer num real assassinato, que acaba por não ocorrer. Maria não havia morrido e resolve retirar a queixa contra Miraglia, porque se arrependeu e acabou dando o caso como encerrado. Serpa, finalmente, tem uma pista concreta em suas mãos: a morte de uma mulher desconhecida, por envenenamento, no mesmo bar onde ocorreu a primeira morte. O fato leva Serpa a concluir que uma desconhecida havia tomado o martini de Miraglia e morrera, o que confirma que ele pretendia mesmo se matar. 

O final é inconcluso, não deixando qualquer certeza sobre a culpabilidade ou não de Miraglia.

Fonte:

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Arquivado em Estante de Livros, Resumo.

Acruche Collection – Trova 8

Fonte:
Imagem com a trova obtida no Facebook do Trovador

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Arquivado em São Francisco de Itabapoana, Trova, Trovas

Marluce Portugaels (Eu Vou Cantar o Meu Rio)

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de muitas voltas 
 mil meandros tem o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de margens largas 
 como é bonito o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de terras caídas 
 barrancos toldam o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de aves ligeiras 
 garças voam sobre o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio cheio de estórias 
 lendas, causos contam o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de tantas lembranças 
 como é bom lembrar o meu rio 
 O meu rio Juruá

Fonte:

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Arquivado em Amazonas, poema.

Marluce Portugaels

Nasceu em Eirunepé, Rio Juruá, no interior do Amazonas, a centenas de quilômetros de Manaus. Aprendeu a ler e escrever subindo e descendo o Rio Amazonas, nos chamados navios gaiolas, dos quais seu pai era rádio-telegrafista. Passou parte de sua infância no Seringal Bom Jardim, de seus avós maternos, onde, nos serões para a debulhada do milho, ouvia histórias e causos contados pelos mais velhos. As lembranças dessa época talvez tenham deixado marcas em sua vida como contadora de histórias. 

 Estudou Filosofia e Letras na Universidade Federal do Amazonas, onde se tornou professora de língua e literatura inglesa. Fez Mestrado em Linguística Aplicada nos Estados Unidos, e outros cursos de pós-graduação no campo do ensino de línguas, em universidades brasileiras e europeias. É especialista em Metodologia do Ensino de Línguas Estrangeiras, e Leitura em Língua Estrangeira. Habitou em vários países, como, Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França, Bélgica, e, atualmente, mora em São Paulo, passando longas temporadas em Manaus. 

 Aprender e ensinar línguas são algumas de suas grandes paixões, o que a levou a tornar-se fluente em inglês, francês e espanhol. Sua vida acadêmica tem sido bastante produtiva, dentro e fora da sala de aula, pois, além de dar aulas, escreve trabalhos e promove seminários sobre ensino-aprendizagem de línguas, com apresentações no Brasil e no Exterior. Também escreve textos de ficção, como poemas, trovas, crônicas, contos, já tendo recebido alguns prêmios, e publicado alguns trabalhos em antologias. Colabora com o Jornal do Comércio do Amazonas, em Manaus, escrevendo crônicas.

Fonte:

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Arquivado em Amazonas, Biografia

Conto do Folclore Brasileiro (História da Coca)

Uma vez um menino foi passear no mato e apanhou uma coca; chegando em casa, deu-a de presente à avó, que a preparou e comeu.

 Mais tarde, sentiu o menino fome e voltou para buscar a coca, cantando:

 Minha vó, me dê minha coca
 Coca que o mato me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A avó, que já havia comido a coca, deu-lhe um pouco de angu.

 O menino ficou com raiva, jogou o angu na parede e saiu. Mais tarde, arrependeu-se e voltou, cantando:

 Parede, me dê meu angu
 Angu que minha vó me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A parede, não tendo mais o angu, deu-lhe um pedaço de sabão.

 O menino andou, andou, encontrou uma lavadeira lavando roupa sem sabão e disse-lhe: — Você lavando roupa sem sabão, lavadeira? Tome este pra você.

 Dias depois, vendo que a sua roupa estava suja, voltou para tomar o sabão, cantando:

 Lavadeira, me dê meu sabão
 Sabão que a parede me deu
 Parede comeu meu angu
 Angu que minha vó me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A lavdeira já havia gasto o sabão: deu-lhe então uma navalha.

 Adiante, encontrando um cesteiro cortando o cipó com os dentes. Disse-lhe: — Você cortando o cipó com os dentes?… Tome esta navalha.

 O cesteiro ficou muito contente e aceitou a navalha.

 No dia seguinte, sentindo o menino a barba grande, arrependeu-se de ter dado a navalha (ele sempre se arrependia de dar as coisas) e voltou para buscá-la, cantando:

 Cesteiro me dê minha navalha
 Navalha que lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 O cesteiro, tendo quebrado a navalha, deu-lhe, em paga um cesto. 

 Recebeu o cesto e saiu dizendo consigo: — Que é que eu vou fazer com este cesto?

 No caminho, encontrando um padeiro fazendo pão e colocando-o no chão, deu-lhe o cesto. Mais tarde, precisou do cesto e voltou para buscá-lo com a mesma cantiga.

 Padeiro me dê meu cesto
 Cesto que o cesteiro me deu
 O cesteiro quebrou minha navalha
 Navalha que a lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 O padeiro, que tinha vendido o pão com o cesto, deu-lhe um pão.

 Saiu o menino com o pão, e, depois de muito andar, não estando com fome, deu o pão a uma moça, que encontrou tomando café puro.

 Depois, sentindo fome, voltou para pedir o pão à moça e canta:

 Moça me dê meu pão
 Pão que o padeiro me deu
 O padeiro vendeu meu cesto
 Cesto que cesteiro me deu
 O cesteiro quebrou minha navalha
 Navalha que a lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A moça havia comido o pão; não tendo outra coisa para lhe dar, deu-lhe uma viola.

 O menino ficou contentíssimo; subiu com a viola numa árvore e se pôs a cantar:

 De uma coca fiz angu
 De angu fiz sabão
 De sabão fiz uma navalha
 Duma navalha fiz um cesto
 De um cesto fiz um pão
 De um pão fiz uma viola
 Dinguelingue que eu vou para Angola

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Arquivado em Folclore Brasileiro

Soares de Passos (Canto de Primavera)

Eis surge a quadra florida,
A quadra dos amores,
Vertendo almos fulgores
Do seio juvenil.
Tudo revive ao hálito
Que a natureza aquece;
Tudo rejuvenesce
À luz do ameno abril.

Os bosques odoríferos
Se cobrem de verduras:
Nos montes e planuras
Renasce a tenra flor;
Dos perfumados zéfiros
As músicas suaves
Se juntam das mil aves
Os cânticos d’amor.

Salve, estação esplêndida,
Ó luz apetecida,
Que à terra dando vida,
A tudo dás prazer!
Minha alma em doces êxtases
Festeja a tua vinda,
E se ergue à luz infinda,
Manancial do ser.

D’onde. ó calor benéfico,
Derivas teu alento?
E d’onde o movimento
Que dás à criação?
Do foco sempre vivido
Que anima a natureza
Por toda a redondeza
Da terra, e da amplidão.

Como nos campos fulgidos
Espalha essas estrelas,
Assim as flores belas
Nos campos terreais:
Quão belo, ó Providência,
É teu poder fecundo
Enchendo o vasto mundo
D’alentos imortais!

Debalde o imenso vórtice
Retoma quanto gera:
Tudo se regenera
No perenal crisol,
E tudo canta harmónico
O Ser que, das alturas,
Aos gelos dá verduras,
Às sombras novo sol.

Cantai, ó aves módulas,
Cantai em coro ledo!
Murmúrios do arvoredo,
Cantai a Jeová!
Campinas aromáticas,
Erguei-lhe os mil perfumes
Das flores em cardumes
Que a primavera dá!

Abriu-se o tabernáculo
Da terra florescente;
Todo sorri fulgente,
Todo respira amor:
Ressoem nele os cânticos
De mística harmonia,
Dizendo noite e dia:
– Hossana ao Criador!

Fonte: 
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Arquivado em Poesia, Portugal

Heloisa Prieto (conto recontado: Arthur, o Rei em Busca de um Mundo Ideal)

Noite de tempestade. Baixa Idade Média. Um castelo na Grã-Bretanha. A rainha Igraine abraça o filho recém-nascido. Capaz de prever o futuro, ela sabe que Merlim, o grande mago, está a caminho para buscá-lo. Chora porque seu filho será criado em segredo, na casa humilde de um camponês. 

Assim começa a história do grande rei Arthur. Sempre acompanhado de um falcão, que o protege à distância, o pequeno rei brinca, convive com os irmãos adotivos e trabalha como pastor, sem jamais desconfiar de sua verdadeira identidade. Porém, sua coragem e inteligência manifestam-se quando os pais enfrentam algum problema que ele, tão jovem, rapidamente é capaz de resolver. Ou quando a montanha fala à sua alma. Afinal, Arthur traz a magia no sangue, e a prática da geomancia, a arte de prever o futuro por meio da observação da natureza, era comum entre os celtas.

Quem teria realmente invocado o rei dentro do menino? A espada excalibur ou o espírito da rocha na qual ela fora colocada? O pequeno Arthur, para ajudar um cavaleiro cuja arma fora danificada, acidentalmente encontra uma espada enfiada numa rocha. Ele a retira sem ler as inscrições na pedra: “Aquele que extrair a espada da pedra será o novo rei”.

Menino, Arthur assume o trono e descobre que os pássaros que o protegeram durante toda a vida na verdade tinham sido enviados por seu mentor, o poderoso Mago Merlim. Conquistas e vitórias surgem na vida do jovem líder e seu sábio conselheiro. Estes são os tempos que o consagraram como rei mítico, porém, quando o rei se apaixona pela princesa Guinevere, nem mesmo as palavras de Merlim impedem que ele sofra como qualquer outro mortal. Se você casar-se com ela — alerta o Mago —, os ideais da cavalaria serão destruídos.

É nesse momento da vida de Arthur que a aura mágica se quebra e ele passa a viver sujeito a erros e desilusões. Ignorando o conselho de Merlim, Arthur casa-se com Guinevere que logo depois o trai com seu melhor amigo. A dor dilacera o coração de Arthur. No auge do sofrimento, o rei é vítima de um feitiço e concebe um filho com a meia-irmã, Morgana, hábil nas artes da bruxaria. Mordred, o príncipe maldito, é treinado para destruir o próprio pai. Quando Arthur cai, em campo de batalha, Merlim o abraça e chora, e o rei lhe pede: “Conte ao mundo minha história, Merlim!”

O Mago aceita a missão, sabendo que a vida de Arthur continha um toque divino. E que, além do sofrimento, restaria sempre seu sonho: a busca de um mundo de justiça, honra e fraternidade.

Fonte:
Revista Nova Escola: Contos

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Arquivado em Conto, Contos

Helena Kolody (Cantar)

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26 de janeiro de 2013 · 22:36

Acruche Collection – Trova 7

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26 de janeiro de 2013 · 22:30

J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou") Parte 18

Corrêa de Araujo
(Raimundo Correa de Araújo)
(Pedreiras/MA, 29 maio 1885 – São Luis/MA, 24 agosto 1951)

” AQUELES OLHOS “

Ela olhou e passou, graciosa e bela.
Passou… e foi-se para sempre, embora
brilhe em meu coração, desde tal hora,
ditosa, a doce luz dos olhos dela…

Estrela que no azul cintila e mora,
viu-a o Poeta e emocionou-se ao vê-la;
e amou a estrela doidamente, e a Estrela
fugiu, fulgindo, pelos céus afora…

Desde então, muitos anos já passaram;
talvez haja fechado – a garra adunca
da morte, – os olhos que me deslumbraram..

Neste vale de lágrimas e abrolhos,
viva cem anos, não verei mais nunca
olhos tão lindos como aqueles olhos!

DENTRO DO ABISMO

Morria… O abismo embaixo, esboroadas
Fauces horríveis para o espaço abria,
E eu suspenso no vácuo, as mãos pousadas
Nas margens negras, já sem fé morria.

Sei que caí mas que, ao cair, sagradas
Mãos me ampararam na voragem fria;
E, ao despertar, Alguém d’asas doiradas,
Alguém que eu amo, junto a mim sorria.

Eras tu! Amparaste-me a fugiste:
E eis-me de novo cheio de desditas!
E eis-me de novo desvairado e triste!

E clamo e gemo… que cruel contraste!
És tu agora que me precipitas
No meu abismo donde me tiraste!

NA ARENA

Sou cavalheiro e menestrel, chorosas,
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.

Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.

Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,

Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
============

Fernando Torquato Oliveira 
(Rio de Janeiro/GB, 1913 ).

 CERTEZA 

Hás de ser minha, sinto que estás perto,
como alguém que procura, a cada passo
ser a presença que faltou no espaço,
ou ganhar vida em sentimento incerto.

Não procuro caminhos, nem desfaço
a sombra momentânea, e nem desperto
a poesia latente onde, por certo
vibrarás – sensualíssimo compasso.

Porque despontarás a qualquer hora
vinda do azul cruzado pelos mastros
onde a espuma dos sonhos se demora,

ou virás silenciosa, sob os astros,
um momento talvez antes da aurora
quando o amor busca o amor quase de rastros.

MARINHA

Daquele dia breve, inesperado,
recordo a areia, o finar, a vastidão,
gravados com requintes de artesão
no reverso do mundo iluminado.

Recordo o pormenor de uma canção,
gente no dorso liquido, boleado,
o teu nudismo quase consumado,
o zumbido difuso da extensão…

Vagas avultam, prontas ao massacre,
e vagas de cristal… tocando, algumas,
teus pés de unhas polidas, cor de lacre.

Recordo o fundo azul, teu corpo, brumas,
o cheiro, mais sabor, mesclado de acre,
do “champanhe” espoucante das espumas.

MUNDO

Estás ausente. Pela porta aberta
vê-se, lá fora, a trilha luminosa
dos teus pés delicados, que se foram
em busca cie utensílios ou de plantas

Na mesa tosca, longe do papel
um lápis guarda versos na grafita;
há novelos de lã pelo silêncio
com que teces amor para agasalhos.

Delineiam-se frutas saborosas,
descansam porcelanas na penumbra
onde adejam lembranças dos teus gestos.

Nas folhagens cativas, mas felizes,
paira um rumor de pétalas cumprindo
a receita singela de uma flor.

SOLIDÃO

Gosto da solidão, mas por egoísmo.
Piso as estradas ermas, onde a vida
é sincera, nostálgica, esquecida,
entregue ao seu tranqüilo fatalismo.

Posso pensar em ti longe da lida
e do fragor amorfo do realismo.
Minha paixão procura a cor do abismo,
colho temas na estrada impercorrida.

Não há ninguém no azul desses momentos.
Águas mansas, talvez… E a reticência
das coisas vagas, sem delineamentos.

Envolve-me a poesia. Na inclemência
das distâncias, dos rumos, e dos ventos,
paira, como um perfume, a tua ausência. . .

VORAGEM

Recordei-me de ti naquele instante.
No silêncio, entre os riscos dos bambus,
havia um plano de águas, onde a luz
batia quase oblíqua, cintilante.

junto da relva, em movimentos nus,
singela flor da margem, vacilante,
refletia-se inteira, sem cambiante,
sobre os tons a pincel, argênteos… crus.

A lâmina, entretanto, foi quebrada
por algo que não vi, e a flor singela
fugiu na agitação da água nublada.

Sumiste certo dia, muito bela,
entre as ondas concêntricas,
levada por uma tempestade igual aquela.

Fonte:
– J.G . de  Araujo Jorge . “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”. 1a ed. 1963

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Arquivado em Sonetos

Helena Kolody (Âmago)

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25 de janeiro de 2013 · 22:23

Pepetela (O Planalto e a Estepe – resumo da obra)

O livro começa com o narrador, Júlio, descrevendo onde nasceu (Huíla, sul de Angola), sua família e os tempos da escola. Quando menino, brincava com as outras crianças das redondezas, sendo amigo também dos filhos dos servos, que eram negros. Sua irmã, Olga, que declarava não gostar de negros (provavelmente no início por ter ouvido os adultos falando isso), alertou Júlio para não andar com os negros, mas para ele todos eram iguais. Mais tarde, porém, ele vai descobrir que há o racismo.

O pai de Júlio, que não teve como estudar, fazia de tudo para que o filho conseguisse frequentar a escola e se tornar doutor – qualquer tipo de doutor, contanto que seja um. Não poupava esforços para comprar livros e roupas novas para ele frequentar a escola, mas Júlio deveria ter boas notas, o que ele sempre teve. Quando se formou na escola com ótimo rendimento, Júlio conseguiu uma bolsa de estudos e foi estudar para Coimbra, Portugal. 

Em Coimbra, ingressou no curso de Medicina, mas logo percebeu que aquilo não era o que ele queria fazer. Logo Júlio se aproximou dos outros estudantes africanos que pensavam do mesmo modo que ele e foram morar juntos. Após perder a bolsa de estudos por mal rendimento no curso, resolve partir para o Marrocos junto com mais uns amigos para participar da revolução. Lá chegando, o grupo foi dividido: enquanto os mais escuros iam lutar, os mais claros iriam estudar na Europa. Júlio se sente desiludido e humilhado. É mandado, então, para estudar em Moscovo (Moscou, na Rússia) e lá resolve cursar Economia.

Em Moscovo, o grupo dos angolanos era guiado, e também vigiado, por uma mulher chamada Olga. Ela era quase como uma mãe para eles e se entusiasmava com os avanços de Júlio na língua russa. Por ser branco e de olhos azuis, muitos europeus não se aproximavam muito de Júlio e tinham dúvidas quantos às verdadeiras intenções dele. Mais uma vez, logo tornou-se amigo de outros africanos: o congolês Jean-Michel, o senegalês Moussa e o tanzaniano Salim. Os quatro logo fizeram sua primeira revolução no local: insatisfeitos com seus companheiros de quarto, conseguiram convencer o diretor a mudarem de quarto para os quatro ficarem juntos. Como Moussa e Salim eram muçulmanos e rezavam várias vezes ao dia, ficou acertado que eles ficariam em um quarto e Jean-Michel e Júlio em outro.

Após serem aprovados na língua russa, puderam ingressar na universidade: Jean-Michel e Júlio em Economia, Salim em Agronomia e Moussa em Engenharia. Embora estudando em locais diferentes, os quatro continuaram a se encontrar com frequência. Já Júlio e Jean-Michel continuaram a morar juntos e tornaram-se ainda mais amigos.

Os dois tinham as mesmas aulas e discutiam bastante sobre as coisas aprendidas na universidade. Enquanto Jean-Michel parecia aceitar passivamente tudo o que lhe era ensinado, Júlio tinha diversas dúvidas se tudo aquilo era ou não verdade ou válido. Porém, um dia conversando em um parque da cidade, Jean-Michel confessa também ter diversas divergências e críticas sobre o que é ensinado a eles, mas diz fingir que aceita tudo passivamente porque estão sendo vigiados o tempo todo. Além disso, alerta Júlio a tomar mais cuidado com o que fala. Nesse ponto, o narrador conta o que acontece com Jean-Michel no futuro: após terminar o curso, ele retorna a Brassaville e logo arranja emprego no gabinete de um ministro, subindo de cargo rapidamente até se tornar o chefe máximo da Juventude do Partido. 

Porém, ele havia perdido suas convicções no socialismo, pois todos só pensavam em mulheres e carros, “já que enriquecer é difícil em terra tão pobre”. Por fim, ele se mete em uma tentativa de revolução e é morto.

Quando Júlio estava no segundo ano do curso, uma aluna mongol chamada Sarangerel transfere-se para sua sala. Os dois tornam-se amigos e logo acabam começando um relacionamento amoroso. Um dia ela revela ser filha de um ministro da Mongólia, um dos homens mais importantes de seu país, e por isso pede segredo sobre o relacionamento dos dois. No fim desse ano Sarangerel vai passar as férias em sua terra natal e, ao voltar, os dois percebem que não conseguem ficar longe um do outro.

Jean-Michel já dá sinais de saber que Júlio tem uma namorada, mas não pergunta nada ao amigo e mantêm discrição. Porém, a companheira de quarto de Sarangerel, Erdene, insiste cada vez mais para saber o porquê dos atrasos da amiga e o que mais está acontecendo. 

Um dia, Sarangerel diz estar grávida e Júlio, sem medir as consequências, fica muito feliz. Os dois não queriam que ela abortasse, e Júlio diz que iriam se casar. Porém, Sarangerel diz que a escolha era dela também e que não era para ser nada imposto por ele assim. Ela conta tudo o que estava acontecendo para Erdene, que fica enlouquecida e revela ser uma guarda-costas de Sarangerel. Erdene conta ainda que o pai dela já está informado que ela tem um namorado não mongol e que ela só voltou das férias porque sua mãe queria que a filha se formasse. Erdene temia ser punida caso o pai de Sarangerel descobrisse que sua filha está grávida, e por isso pressiona a moça por uma solução.

Porém, Júlio e Sarangerel não querem o aborto e empreendem uma luta para se casarem. Ele mobiliza os alunos africanos e diversos outros amigos, que viam a criança como símbolo da união dos povos, um exemplo para o futuro. Pedem ajuda para Olga, mas essa nega, pois não quer fazer nada que possa causar uma crise entre dois governos aliados. Nesse ponto, o pai de Sorangerel já deve estar sabendo de tudo, pois Erdene foi até a embaixada e deve ter contado tudo antes que a KGB o fizesse. Júlio e seu grupo vão até a embaixada da Mongólia tentar achar uma solução, mas nem conseguem entrar. Ninguém queria ajuda-los e arriscar seus empregos ou mesmo causar uma crise internacional por conta disso.

A mãe de Sarangerel vai até Moscovo para tentar convencer a filha a abortar ir para Leningrado terminar seus estudos, mas não obtém sucesso em seu intento. No dia em que ela volta para a Mongólia, Júlio e Sarangerel passam a noite juntos na casa da moça. No outro dia, ela some e Júlio fica sabendo por Nara, uma amiga dela, que Sarangerel havia sido levada à força para a Mongólia. A partir daí, ele tenta de todas as forças entrar em contato com ela, mas não consegue. Depois de um tempo, Nara vai passar as férias na Mongólia e conta que Sarangerel deu luz a uma menina.

Júlio e seus amigos se formam e cada um tem um destino diferente. Júlio é mandando para ajudar na revolução na Argélia. Lá, chega a envolver-se com uma moça, mas a relação não dura muito. Ele aos poucos vai subindo de cargo devido a sua competência e dedicação ao trabalho, chegando a comandar um grupo de homens. Em certo momento, Júlio consegue um passaporte argelino para ir até a Mongólia, mas chegando lá ele é recebido por oficiais que o escoltam até o local onde hospedaria. Crente de que iria conseguir uma reunião com o pai de Sarangerel, ele espera. No dia seguinte, é levado para ver sua filha, mas os oficiais mantém Júlio preso dentro do carro e ele só consegue ver as costas da menina. De lá, é mandado direto para o aeroporto para pegar um avião para a Argélia.

Chega a independência, mas os países caem em guerra civil, uma vez que os colonizadores não queriam abrir mão do poder. Cerca de dez anos após a independência de Angola, Júlio é chamado para Lubango e reencontra sua terra-natal e família. Sua irmã Olga, antes racista, agora era nacionalista e defendia a igualdade entre todos. Júlio, que havia lutado na revolução, tornou-se seu herói e exemplo para os demais.

Em Luanda, Júlio logo tornou-se general e usou de sua posição privilegiada para tentar contato com a Mongólia. Todos prometiam ajuda, mas de nada adiantava. Júlio continuava a trabalhar como economista em Angola e tentava elaborar projetos efetivos de paz e progresso para o país. Sem nunca desistir de Sarangerel, o tempo foi passando. Após se reformar das forças militares, continuou trabalhando em uma empresa criada por um amigo seu. Assim, apesar de não ter ficado rico, tinha suas mordomias.

Um dia, sua amiga Esmeralda, que o havia ajudado em Moscovo para que ele e Sarangerel ficassem juntos, vai à Cuba e volta dizendo que encontrou Sarangerel lá. Que ela havia se casado e que sua filha, chamada Altan (significa ouro), estava casada e tinha filhos. Júlio fica atônito e resolve ir até Cuba. Consegue entrar para uma comitiva militar que iria à Cuba no mês seguinte.

Chegando em Havana, consegue tempo para visitar Sarangerel e os dois conversam pela primeira vez em 35 anos. Ela conta que teve dois filhos com seu marido e que esse queria conhecer Júlio. É marcado, então, um almoço para o outro dia. Nesse encontro, tudo ocorre amigavelmente e todos apenas conversam sobre política. De volta ao hotel, Júlio é surpreendido por um telefonema de Sarangerel, dizendo para ele arrumar um visto para ela que ela irá para a Angola viver com ele.

De volta a seu país, Júlio prepara sua casa para receber Sarangerel enquanto o visto fica pronto. Durante esse tempo, ela convence o marido a conceder o divórcio amigavelmente e também conta a seus filhos sua decisão. Algum tempo depois de chegar em Angola, Sarangerel diz que Altan quer conhecer Júlio e eles planejam uma viagem para Itália e toda a família se encontra lá. Altan fica feliz pelos dois pais que tem.

O casal volta para Angola e a vida passam a curtir os dias juntos, uma vez que Júlio decide sair do emprego. Algum tempo depois, Altan e seus irmãos vão conhecer a Angola e ficam encantados com as paisagens do lugar, mas também não deixam de mostrar espanto com a miséria da população.

Certo dia, Júlio resolve ir ao médico para descobrir o motivo de suas fortes dores nas costas. Após os exames, o médico o informa de que ele tem um câncer avançado e não dá muitas esperanças de cura. Júlio mantém isso em segredo de todos e Sarangerel só descobre tudo quando ele é levado ao hospital após uma crise. Altan novamente vai a Angola para despedir-se de seu pai. Júlio morre feliz após passar quatro anos ao lado de sua amada. Portanto, descobre-se ao final do livro que trata-se de um relato póstumo do narrador.

Lista de personagens

Júlio: angolano. decide tudo por instinto, sendo muitas vezes irracional e teimoso. 
Sarangerel: é uma mongol socialista que se transfere para a escola de Júlio no 2o ano. É filha do Ministro da Defesa da Mongólia, um dos homens mais importantes de seu país, mas é simples, modesta e meiga.
Jean-Michel: natural da República do Congo, tem grandes ideais fraternos. Para ele, as ideias socialistas não existem. É morto por ser herético.
Erdene: guarda-costas de Sarangerel, informa todos os passos da moça. Tenta encobrir o romance dela, mas fica com medo de ser punida.
Moussa: senegalês muçulmano, é um aristocrata.
Salim: natural da Tanzânia, é mulçumano. 
Olga: irmã de Júlio, inicialmente é racista, mas depois torna-se uma grande líder nacionalista e luta contra o racismo. Espécie de guia e vigia dos estudantes angolanos em Moscovo.

Sobre Pepetela

Artur Carlos Murício Pestana dos Santos, conhecido por Pepetela, nasceu em 29 de outubro de 1941 na cidade de Benguela, Angola. Seus pais eram angolanos de nascimento, mas descendentes de uma família colonial portuguesa. Começa seus estudos em sua terra natal, mas em 1956 muda-se para Lubango e termina seus estudos lá. Posteriormente, vai para Lisboa cursar o Instituto Superior Técnico. Em 1960 ingressa no curso de engenharia, mas muda logo em seguida para Letras, que também abandona para ingressar no Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) em 1963.

Durante sua época de militante político, Pepetela fugiu para Paris e depois se estabeleceu em Argel, capital da Argélia. Lá trabalhou no Centro de Estudos Angolanos com Henrique Abranches fazendo uma documentação da sociedade e cultura angolanas, além de divulgar as atividades da MPLA pelo mundo. Nesse tempo ele escreve seu primeiro romance, “Muana Puó”, obra que só decide publicar em 1978. Depois da mudança do Centro de Estudos Angolanos para a República do Congo em 1969, Pepetela ingressa na luta armada contra os portugueses, experiência que lhe serviu como inspiração para a obra “Mayombe” (1980), que também só foi publicado após a independência de Portugal.

Com a independência de Angola conquistada em 1975, Pepetela retorna para seu país de origem e torna-se Vice-Ministro da Educação no governo do Presidente Agostinho Neto. O escritor fica no cargo até 1982, quando abandona a carreira política para se dedicar à literatura. Durante essa época, ele encontra apoio do presidente para lançar seus livros.

Em 1984, Pepetela lança um de seus romances mais prestigiados, “Yaka”, romance histórico que trata da vida dos membros de uma família de colonizadores portugueses que vão para Benguela no século XIX. Durante as décadas de 1980 e 1990, continua a publicar diversas outras obras onde Angola é o centro de suas atenções. Em 1997, recebe o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário de língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra.

Durante os anos 2000 o escritor continua com uma intensa carreira literária, publicando livros que tratam da influência norte-americana em Angola, terrorismo e outros temais atuais. 

Suas principais obras são: “Muana puó” (1978), “As aventuras de Ngunga” (1979), “Mayombe” (1980), “Yaka” (1985), “A geração da utopia” (1992), “Parábola do cágado velho” (1996), “A gloriosa família” (1997), “Jaime Bunda, Agente Secreto” (2001) e “Jaime Bunda e a Morte do Americano” (2003)

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Arquivado em Angola, Estante de Livros, Resumo.

Pepetela (O Planalto e a Estepe – Análise da obra)

O pano de fundo para a história de amor impossível de “O planalto e a estepe”, publicado em 2009, é o movimento de libertação dos países angolanos que teve início no começo da década de 1960. Júlio, o narrador e protagonista da história, é um angolano branco e de olhos azuis que quando jovem não tinha noção dos preconceitos e racismo que existia em seu país. Porém, vai aos poucos tomando consciência disso – como, por exemplo, quando conversa com seu professor de filosofia e descobre a diferença entre “colono”, que se refere às pessoas que foram morar na Angola fugindo da pobreza de Portugal, e “colonista”, que esse diz respeito aos brancos que acham que os africanos são inferiores e tiram seus direitos – mas nunca compartilha das ideias racistas dos outros brancos de Angola.

Ao ganhar uma bolsa para estudar em Portugal, Júlio toma contato com outros estudantes africanos e começa a se politizar. Já não gostava do curso, uma vez que estudar anatomia enquanto uma revolução social estava a caminho lhe parecia inútil, abandona a faculdade e vai ao Marrocos para ingressar na luta. Porém, por ser branco, ele não é posto em combate, mas no lugar é mandado para Moscou (ou Moscovo, como aparece no livro) para estudar e aprender os preceitos socialistas. Lá ele conhece a jovem mongol Sarangerel, filha do Ministro da Defesa da Mongólia, e aí começa a descobrir que o racismo tem diversas faces. Não sendo mongol, a família dela nunca iria aceitar o romance dos dois. Quando Sarangerel engravida, é levada à força de volta à Mongólia e inicia-se, então, a luta de Júlio para reencontrar sua amada.

Júlio aprende, então, que a chamada “amizade entre os povos” e o “internacionalismo proletário” não passavam de slogans, pura propaganda. Como seu amigo Jean-Michel o alertou, o marxismo não conseguiu acabar com a diferença entre as raças. No final, o amor entre Júlio e Sarangerel não poderia ser concretizado meramente por questões políticas. Dessa forma, Pepetela expõe em seu livro a hipocrisia dos governos socialistas que pregavam uma coisa, mas na prática agia de outra forma. 

O local onde se dá a história de amor de Júlio e Sarangerel, Moscou, é também o centro de onde se comanda todas as revoluções socialistas pelo mundo. Assim, o movimento de libertação angolano e dos demais países africanos aparece sob um contexto mundial, sendo diretamente ligado à expansão socialista da União Soviética. Portanto, acompanha-se em “O planalto e a estepe” não só a história de luta entre os angolanos colonizados contra os colonizadores portugueses, mas sim todo o conflito entre a expansão do socialismo pregado pela União Soviética contra o imperialismo americano nos anos da Guerra Fria e também após a queda da União Soviética.

Dessa forma, a “grande viagem” de Júlio pode ser interpretada como uma espécie de jornada de aprendizagem pela qual o protagonista passou durante sua vida. Ele começa a história como uma criança ingênua, passa a estudante politizado, torna-se um general respeitado durante a revolução e termina o livro sem falsas ideologias e esperanças, mas com grande aprendizagem. Através desse percurso, percebe-se na própria história de amor impossível entre Júlio e Sarangerel que o preconceito, racismo e, de uma forma geral, o desrespeito às diferenças existe em grande grau e que traz consequências graves para todos. 

Porém, apesar de tantos desencontros e desilusões, Júlio continua firme em seus ideais, tanto amorosos quanto políticos até o fim da história. É interessante notar que ele nunca foi corrompido pela podridão da política feita a seu redor por causa de sua esperança de reencontrar Sarangerel; o que lhe deu forças para lutar e seguir em frente sempre foi o amor. O reencontro dos dois após trinta e cinco anos já ao final do livro mostra que ainda há esperanças para um mundo mais igualitário e justo, sendo que a chave para isto reside no amor e na nobreza de ideais.

O prof. Gilberto Alves da Rocha (Giba), do Curso Apogeu de Curitiba (PR), comenta que “O planalto e a estepe”, obra escrita por um dos maiores escritores angolanos da atualidade, tem um enredo forte e que, portanto, deve-se ficar atento aos detalhes da narrativa. A obra narra o amor entre um estudante angolano (Júlio) e uma jovem mongol (Sarangerel), na década de 60 do séc. XX, uma época bastante conturbada dentro do cenário político-social internacional.

Justamente por conta disso, assinala o prof. Giba, o contexto histórico e social que cerca a obra, além das trajetórias dos protagonistas, fazem com que a história dos protagonistas se transforme num “amor impossível”. Em contraste com o restante da obra, seu início, em que se tem as descrições da infância de Júlio são de um lirismo cativante: harmonia, pureza e brincadeiras infantis cercavam a vida do menino, sob a bela natureza de Angola. Por fim, o prof. Giba comenta que, assim como o protagonista Júlio, o próprio autor integrou o MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola). A obra fala um pouco sobre a história angolana mas também é ambientada na União Soviética, o que representa uma espécie de “internacionalização” da obra de Pepetela.

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Acruche Collection – Trova 6

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25 de janeiro de 2013 · 22:06

7º Concurso Poesiarte (Resultado Final)

1º: Edweine Loureiro
Filho da Floresta
Saitama/Japão

2º: Perpetua Amorim
Deusa Mãe
Franca/SP

3º: Sonia Nogueira
Cajueiro
Fortaleza/CE

4º: Regina Célia
As árvores dão vida
Colombo/PR

5º: Nédia Sales
Cumprindo Ciclos
Conceição do Almeida/BA

6º: Flavio Machado
Prosaicos amazônicos
Cabo Frio/RJ

7º: André L. Soares
Árvore da vida
Guarapari/ES

8º: Roque Aloísio
Rumorejos
Santa Rosa/RS

9º: Jussara Godinho
Viceje!
Caixas do Sul/RS

10º: David Henrique
Futuro da Vida Arbórea
Belo Jardim/PE

11º: Lilian Araújo
O fauno e a dríade
Anápolis/GO

12º: Marcos Sodré
Oxalá
Armação dos Búzios/RJ

13º: Amélia Marcionila
O Guardador de Árvores
Pirapetinga/MG

14º: Janaína Santos
Vida de Árvore
São Bernardo do Campo/SP

15º: Geraldo Trombin
Árvore devida
Americana/SP

16º: Jehan Santos
Semeada na Metrópole
Cabo Frio/RJ

17º: Lohan Lage
Árvore da vida
Trajano de Morais/RJ

18º: Gislaine Aparecida
Árvore da vida
São Paulo/SP

19º: Marcelo de Oliveira
Árvore da vida
Salvador/BA

20º: Isabel Cora
Continuidade
Araruama/RJ

Fontes:

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9º Prêmio Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil (Prazo: 30 de Janeiro de 2013)

Organização:
 Edições SM

Contato e Dúvidas:
Regulamento:
 Inscrição
 A participação é aberta a autores maiores de 18 anos, de todas as nacionalidades. É vedada a participação de funcionários do Grupo e da Fundação SM e/ou de seus parentes em primeiro grau.
 O prêmio contempla obras de ficção nos gêneros romance, novela e narrativa breve. Serão desclassificadas obras com teor pedagógico e informativo, poemas, peças de teatro e coletâneas de contos.
 Os originais devem ser inéditos e escritos em língua portuguesa. Entende-se por inédito o original não publicado (parcialmente ou em sua totalidade) em antologias, coletâneas, suplementos literários, jornais, revistas, sites, etc.
 O candidato pode inscrever no máximo dois originais.
 Quanto à extensão, os originais deverão enquadrar-se nas séries da coleção Barco a Vapor:
 Série Branca: Leitor iniciante a partir de 6 anos: entre 8 e 15 laudas*
 Série Azul: Leitor em processo a partir de 8 anos: entre 16 e 45 laudas*
 Série Laranja: Leitor fluente A partir de 10 anos: entre 45 e 90 laudas*
 Série Vermelha: Leitor crítico A partir de 12 anos: entre 70 e 150 laudas*
 * (Lauda de 1400 caracteres com espaço)
 Para se inscrever, o candidato se cadastrará no site de Edições SM, criando um login e uma senha. Em seguida, deverá preencher o formulário e anexar o seu original, em formato Word ou PDF.
 A fim de assegurar o anonimato dos autores durante o processo de seleção, os originais devem ser apresentados sob pseudônimo. Os dados pessoais dos participantes constarão apenas da ficha de inscrição, para identificação posterior.
 Estabelecem-se os seguintes critérios de formatação dos originais, enviados sem ilustração:
 Fonte Times New Roman, corpo 12, espaçamento duplo, margem de 2,5 cm e numeração em todas as páginas.
 Da folha de rosto do original devem constar apenas o título da obra e o pseudônimo do autor.
 O prazo de inscrição é de 24 de setembro de 2012 a 30 de janeiro de 2013.
 Aos candidatos fica vedada a veiculação e publicação do original inscrito durante o período de avaliação e até três meses após o resultado. A quebra do sigilo quanto à autoria do original antes da divulgação do resultado acarretará a desclassificação do candidato.
 Em caso de desistência, o cancelamento da inscrição só poderá ser feito até 4 de janeiro.
 Juri
 O júri, formado por especialistas em literatura, e escritores de reconhecido prestígio, será divulgado com a lista dos finalistas.
 A decisão do júri é irrevogável e será anunciada por ocasião da entrega do 9° Prêmio Barco a Vapor (segundo semestre de 2013), em data e local oportunamente divulgados no site de Edições SM.
 É facultado ao júri não outorgar o prêmio a nenhuma das obras inscritas.
 Prêmio
 Será outorgado apenas um prêmio, que consistirá na publicação do original na coleção Barco a Vapor. O vencedor firmará um contrato de edição válido pelo período de 7 (sete) anos.
 No ato da assinatura do contrato de edição, o autor receberá R$ 30.000,00 (trinta mil reais) como adiantamento de direitos autorais.
 A fim de garantir a idoneidade do concurso, os nomes dos finalistas serão conhecidos apenas quando o vencedor for escolhido.
 Os finalistas do concurso, ainda que não premiados, poderão eventualmente ser contratados por Edições SM. Assim, durante o prazo de 3 (três) meses a contar da data de divulgação do vencedor, a Editora terá a preferência na aquisição dos direitos de publicação dessas obras.
 A inscrição no Prêmio Barco a Vapor implica a aceitação expressa das normas aqui expostas.
 Todos os casos não previstos nas normas deste regulamento serão discutidos posteriormente.
Fontes:

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XI Concurso “Fritz Teixeira de Salles" de Poesia (Prazo: 31 de Janeiro de 2013)

Organização:
 Fundação Cultural Pascoal Andreta

Contato e Dúvidas:
Regulamento:
 1. Cada autor poderá concorrer com até 02 (dois) poemas, inéditos, e em língua portuguesa.
 2. As poesias deverão ser enviadas, apenas por e-mail, para o seguinte endereço: concurso.fritz.2013@gmail.com, indicando no campo assunto: XI Concurso Fritz Teixeira de Salles – Poesia.
 3. As inscrições estarão abertas de 01 de novembro de 2012 até 31 de janeiro de 2013. Os resultados do concurso serão publicados no site da Fundação Cultural Pascoal Andreta – http://www.fundacaopascoalandreta.com.br – no dia 10 de março de 2013.
 4. Uma Comissão Julgadora, escolhida pela Fundação Cultural Pascoal Andreta, selecionará os melhores trabalhos.
 5. As poesias deverão ser enviadas conforme abaixo:
 a. Digitação em fonte Times New Roman, tamanho 12, com espaço 2 (dois).
 b. Um arquivo contendo nome do autor, pseudônimo (opcional), endereço completo, e-mail, número(s) de telefone(s) e uma sucinta biografia. Indicar ainda o(s) título(s) do(s) poema(s).
 c. Cada poesia deverá constituir um arquivo único, sem a indicação do nome do autor (os textos serão catalogados e indexados por numeração sequencial para encaminhamento à Comissão Julgadora).
 d. Preferencialmente, salvar os arquivos em formato PDF. Arquivos no formato Microsoft Word (.doc ou .docx), OpenOffice ou BROffice também serão aceitos.
 e. Textos digitados no corpo do e-mail não serão considerados válidos, somente aqueles enviados como anexo da mensagem.
 f. Eventuais esclarecimentos poderão ser encaminhados para o mesmo endereço eletrônico, indicando no campo assunto: XI Concurso Fritz Teixeira de Salles – Esclarecimentos.
 6. Semanalmente será publicada no site da Fundação Cultural Pascoal Andreta – http://www.fundacaopascoalandreta.com.br – relação atualizada dos participantes e respectivos poemas cuja inscrição foi aceita pela Comissão Organizadora.
 7. Haverá premiação para os três melhores trabalhos no valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais) cada;
 8. Para os cinco melhores trabalhos de autores da cidade de Monte Sião, R$ 200,00 (duzentos reais) cada.
 9. Todos os oito classificados receberão um livro contendo as poesias premiadas, editado por “Acervo Edições”, além de um Diploma personalizado.
 10. A entrega dos prêmios acontecerá no dia 30 de março de 2013, sábado, às 20:00 horas, no anfiteatro do Colégio Objetivo de Monte Sião – Avenida das Fontes, nº 645, Monte Sião, MG.
 11. Para os classificados que não sejam de Monte Sião, haverá hospedagem com café da manhã.
 12. No caso do não comparecimento de qualquer dos vencedores na noite da premiação, o prêmio respectivo deverá ser procurado dentro de 30 (trinta) dias, a partir da data da entrega, 30 de março de 2013. Findo este prazo o valor será devolvido ao patrocinador e o ganhador perderá o direito ao prêmio.
 13. As festividades da noite serão dedicadas à memória do ex-diretor do jornal “O Monte Sião”, Ugo Labegalini, falecido em setembro de 2012.
 14. Os vencedores poderão declamar sua poesia ou, se desejarem, indicar outra pessoa para fazê-lo.
 15. O envio da(s) poesia(s) ao concurso significa inteira e completa concordância, por parte dos concorrentes, com este Regulamento. Casos omissos serão resolvidos pela Comissão Organizadora. As decisões são irrecorríveis.
Fontes:

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III Concurso Literário – Amores Contados (Portugal) (Prazo: 15 de Fevereiro de 2013)

Organização:
Alfarroba Editora

Contato e Dúvidas:
geral@alfarroba.com.pt
Regulamento:
Com o intuito de incentivar a palavra, dando ênfase à publicação de valores promovendo a criatividade, a ALFARROBA promove o III Concurso Literário – AMORES CONTADOS.
1. Podem concorrer quaisquer pessoas, desde que os textos inscritos sejam em língua portuguesa e inéditos.
2. Os textos não serão de temática livre, deverão respeitar a seguinte informação:
“Conta-me. Conta-me como me conheceste, como me deste o primeiro beijo. Conta-me das mãos dadas e dos olhos brilhantes. Conta-me do nosso início e do nosso fim. Ou só do nosso início. Ou só do nosso fim. Conta-me do meio. Conta-me do nosso amor de verão, do nosso casamento. Fala-me de isso tudo, diz-me coisas dos nossos netos. Ou então de nunca mais me teres visto depois da nossa única noite. Conta-me tudo.”
3. As inscrições encerram a 15 de fevereiro de 2013 (data envio). Os textos enviados após esta data não serão considerados para efeito do concurso e, tal como todos os outros só serão devolvidos se forem acompanhados por envelope correio verde, endereçado ao próprio autor.
4. O limite para cada texto é de 6000 palavras.
5. As inscrições podem ser formalizadas por correio ou e-mail.
Correio:
Alfarroba
Concurso Literário Amores Contados
Rua Carlos Rodrigues Francisco, 139
2890 – 042 ALCOCHETE
E-mail
assunto “Concurso Literário Amores Contados”
geral@alfarroba.com.pt
6. Os contos devem apenas ser remetidos por uma via, tendo de ser acompanhados pelos seguintes dados:
– pseudónimo / nome completo
– data de nascimento
– profissão
– morada
– telefone
– e-mail
7. Cada participante pode realizar quantas inscrições desejar.
8. Poderão concorrer todos os autores, portugueses e estrangeiros, residentes no Continente e Regiões Autónomas do Arquipélago da Madeira e dos Açores.
9. Os textos poderão ser ilustrados.
10. O resultado, do qual não haverá direito a recurso, será tornado público até 30 abril de 2013, através do blogue da editora, site e contacto pessoal com os 5 premiados.
11. A editora reserva-se o direito à não atribuição do prémio apenas por falta de qualidade em todos os critérios pré-estabelecidos.
12. A equipa de apreciação será composta por 3 nomes convidados pela direcção da editora.
13. Os 5 vencedores verão o seu texto publicado em livro pela Alfarroba, a quem pertence os respectivos direitos de autor da 1.ª edição, que terá uma tiragem não superior a 1000 exemplares.
14. A cada autor dos textos premiados serão entregues 10 exemplares da edição promovida pela Alfarroba.
15. Os casos omissos e as dúvidas de interpretação do regulamento serão resolvidas pela direcção da Alfarroba.
16. Uma vez enviados e/ou entregues os textos, depreende-se que os participantes conhecem e aceitam as cláusulas de participação.
A direção da Alfarroba
Fonte:

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Helena Kolody (Dom)

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24 de janeiro de 2013 · 22:22

Miguel Sanches Neto (A Solidão Segundo Helena Kolody)

Se na prosa ensaística, que pertence ao domínio do que é chamado de esfera científica, a capacidade de pensar deve estar aliada à de intuir, na poesia, para dizer com Fernando Pessoa, só o sentir é pensar. O poeta moderno que tem namorado com a metalinguagem procura encurtar a distância entre reflexão e poesia.

Helena Kolody, que fez da vida um ato poético, tal como desejava Murilo Mendes em O Discípulo de Emaús (“Viver a poesia é muito mais importante do que escrevê-la”), construiu uma obra que revela um olhar pensante. É através de um olho aguçado, com o qual ela desvela o mundo ao seu redor, que a essência das coisas é vislumbrada. Mas nunca de forma discursiva. A metáfora, principal recurso desta poeta luminosa e iluminada, dá aos seus poemas uma carga de reflexão em aberto. Helena não pensa para o leitor. Faz com que este pense mediante o confronto com metáforas polivalentes. Por isso, escreve ela: “Os olhos que mergulham no poema / completam o circuito da poesia”.

Quero, nesta ligeira viagem à obra da poeta, percorrer um roteiro bem específico: o sentido que Helena dá à solidão. Não desejo insinuar que este seja o tema mais importante de sua produção. Mas confesso que é um assunto que me toca.

Um haicai publicado em Música Submersa (1945) pode ser o nosso ponto de partida:

  De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha.

Não há nenhuma referência direta à solidão. No entanto, a imagem criada pelo poema nos remete a uma situação triste, mas de grande beleza. A árvore, que é comparada a uma noiva, assume uma condição humanizada. A pereira é a árvore solitária que sonha com um enlace matrimonial. É o sonho que torna esta situação, a princípio entristecedora, numa experiência positiva. O poema “Solidão” (in A Sombra do Rio, 1951) deixa clara esta valorização:

  Estamos sempre sozinhos
 Em nossas horas maiores.
A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.
A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.

Aqui o verbo “florescer” reitera a imagem vegetal do poema anterior, tornando-se um eixo semântico importante desta viagem. Helena deixa sugerido que a solidão pode ter uma transcendência que a glorifique. Isto vai iluminar a leitura de um minúsculo poema intitulado “Ensaio” (Vida Breve, 1964), um dos mais belos de sua obra. Ele vem justamente reforçar o sentido positivo da solitude. Ouçamos a poeta:

A solidão da vida,
 Longo ensaio
Da solidão da morte.

O ser solitário, sob esta ótica, é um estrangeiro que vive uma condição futura, em função de um devir eterno. A vida terrena é um intervalo que se constitui numa experiência. É um exercício no vazio, uma antecipação do ritmo do além-morte. Aceitar a sua solidão é uma forma de aceitar a condição humana, pois “ninguém consegue partilhar a solidão” (“Ilhas”, in Vida Breve). Do mesmo livro, o poema “Mensagem” termina com uma frase que corrobora o sentido deste sentimento para Helena Kolody:

A própria solidão
teve sua quieta alegria
sem eco.

Esta situação não representa, no entanto, um isolamento pessoal. O eu poético não está egoisticamente separado de seus semelhantes. Não é uma ruptura com o aqui e o agora. Mas a consciência da verdade incontornável da nossa essência. Os homens somos seres fadados à solidão. A cidade, dentro desta perspectiva, é retratada como um “aglomerado de solidões”, o que destaca a contradição que nos caracteriza: a proximidade das pessoas não elimina o insulamento. Logo, poderia ser falso o que diz o poeta: “Nenhum homem é uma ilha”. Para finalizar esta viagem, que é circular, vou comentar um poema publicado em Ontem Agora, que emblematicamente se chama “Nós”. A primeira pessoa do plural, que dá uma ideia de união, e questionada pela poeta. Toda a comunhão seria parcial porque a solidão de indivíduo o isola:

Fomos duas árvores castas.
 Não misturamos as raízes.
 Apenas enlaçamos
os ramos
e sonhamos juntos.

  A imagem vegetal retorna e fecha o circuito. Os “noivos” (o verbo é “enlaçar”) não conse­guiram uma união profunda, resta apenas o emaranhar dos galhos. A única comunhão possível se dá no plano da virtualidade: eles sonham o mesmo sonho. Assim como a pereira em flor, as árvores de agora não conseguem ultrapassar as fronteiras da solitude.

É válido notar que a imagem da árvore simbolizando a condição solitária é extremamente feliz. Ela é um ser fixo, fadado a viver preso a um determinado lugar, sem poder se aproximar das coisas que deseja. Tudo que lhe resta é a tentativa de tocar as mais próximas.

Esta solidão, drama de quem vive, é positiva porque pode ser transcendida pelos sonhos e pelo poder criativo da arte. A alegria quieta de que fala Helena reside no fato de sabermos que sozinhos teremos que cruzar a fronteira definitiva. Neste estado, criar um mundo verbal nos serve de consolo, como no poema “Invenção”:

Invento uma lua cheia.
Clareia a noite em mim.

 
 A tensão dramática está definitivamente instalada. A solidão, para Helena Kolody, é alegre porque, mesmo que imperceptivelmente, emite um eco. Nenhum homem será uma ilha enquanto possuir a palavra.

Fonte:
Gazeta do Povo. 26 maio 1994. disponível no site de Miguel Sanches Neto

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Maria Nascimento Santos Carvalho (Romance Inacabado)

      Romance Inacabado é uma história triste, como tantas outras que já escrevi, retratando não só o meu drama pessoal, mas, também, o de muitos seres humanos cujo romantismo, despreparo psicológico ou a carência afetiva os levam a acreditar nas mais absurdas utopias do Destino, como continuo, ingenuamente, acreditando.

      Um dia, que poderia ser qualquer um do mês de agosto, Maria, como fazia há algum tempo, saiu para fazer uma caminhada de fim de tarde, que lhe fora imposta pelo excesso de peso gerado pela vida sedentária que ultimamente levava.

      Mal chegou ao destino avistou, a meia distância, um cavalheiro que, em princípio, lhe pareceu muito familiar, mas depois de observar atentamente percebeu que era um estranho, uma daquelas pessoas que, à primeira vista, encantam e deixam uma impressão tranqüilizadora.

      O seu mais novo conhecido, anônimo, parecia um artista. Sua beleza negra era de tirar o fôlego de qualquer mulher desacompanhada ou encostada num “estaleiro”. Estava num papo animado com um amigo, simpático, com jeito brejeiro, rindo como se estivessem fazendo comentários maliciosos a respeito de alguma coisa ou de alguém.

      Estavam andando em posições opostas e Maria percebeu, ao passar olhando para o “artista”, que sua presença parecia fazer parte da paisagem das pedras do Calçadão, que ele estivesse acostumado a pisar todos os dias, sem se dar conta, sequer, de que ela poderia ser uma pedra com formato diferente.

      Ao voltarem, novamente se encontraram e Maria teve a sensação de ser a mesma pedra do calçadão que ele havia ignorado e pisado há menos de uma hora e por mais que ela olhasse em sua direção não foi nem notada, porque os dois amigos só tinham sorrisos um para o outro, o que reforçou a sua certeza de que andavam o tempo todo debochando de colegas ou de quem quer que por eles passasse.

      Mais uma vez, mesmo nunca tendo avançado um sinal em sua vida afetiva, olhou com admiração para o “artista” e o achou a “paisagem” mais interessante que já havia passado diante dos seus olhos e, instintivamente, desafiando a sua timidez e esquecendo todos os Mandamentos da Lei de Deus, pela primeira vez na vida se via transgredindo todas as normas de boa conduta e como se os seus olhos despertassem a sua mente, sua alma e o seu coração, como uma louca que perdeu a noção do raciocínio, pensou alto, pronunciando, imaginariamente : “- eu quero este artista para mim”.

      Maria era solteira e não pensava em se prender a ninguém, mas aquele “atleta” havia mexido com sua cabeça e por um momento pensou em tentar conquistá-lo, esquecendo sua meta principal : a liberdade … E, fugindo daquele pensamento brusco, pensou: como queria conquistar um homem que nem havia olhado para ela, que não sabia seu nome, que nada sabia a seu respeito, a não ser que a ignorara como se ela fosse mais um pedaço do calçamento embaixo da sola dos seus tênis?

      Maria, mesmo sem perceber, passou a observá-lo, e, por incrível que pareça, tinha sempre a mesma impressão do dia em que o conheceu. Seu colega parecia mais falante e ele mais observador, mas, no fundo, dava para notar que tinham sempre um bom repertório de coisas engraçadas para comentar enquanto malhavam e nada que considerassem errado ou ridículo passava despercebido por seus olhos críticos.

      O tempo foi passando e cada dia mais crescia a vontade de Maria ouvir a voz do ilustre “desconhecido”, de saber se era gentil, atencioso, se era romântico… essas coisas que mulher, geralmente, tem curiosidade de saber. Mas, mesmo quando uma vez ou outra estava sozinho, não lhe dava a menor chance de se sentir mais visível do que aquela pedra à qual já se reportou.

      Maria se sentia a pessoa mais insignificante da face da terra, mas jurava que, um dia, nem que tentasse o resto de sua vida, derreteria aquela pedra de gelo e falaria com o “dito cujo”, nem que fosse para ficar mais decepcionada do que já estava com a sua indiferença, ou seu preconceito inconcebível.

      Depois de poucos meses de tê-lo visto, Maria já estava tão escravizada à presença daquele ilustre desconhecido que nem sabia como andar, quando passava por ele. Tinha medo de parecer que estava rebolando para chamar a sua atenção, de que ele a interpretasse mal… mas como iria interpretar isso ou aquilo se não se dava conta da sua existência ?

      Maria, na ânsia de perder peso mais depressa, caminhava usando meias compridas, roupas grossas etc. o que, para eles, poderia dar a impressão de que estava com as pernas mais riscadas de varizes do que o Mapa do Brasil, uma vez que pareciam observar o que viam e o que imaginavam ver para aumentar o rol de assuntos engraçados para as longas caminhadas.

      Por isso, para não alimentar a má impressão, com o tempo Maria foi se desvencilhando dos excessos do vestuário, descobriu as pernas, passou a usar camisetas, como quase todos os “atletas” com excesso de peso, e só faltou pendurar uma melancia no pescoço para que aquele homem lhe dirigisse a palavra.

      Apesar de saber que estava agindo errado, ela não abria mão do seu desejo de ser notada, e comeu o pão que o Diabo amassou por conta dessa maluquice que se havia apoderado dela. Ela reconhecia o “seu artista” a uma distância incrível e seu coração começava a bater desordenadamente. Pouco tempo depois, passou a pensar nele vinte e quatro horas por dia e quase toda noite chorava e se desesperava pela sua incapacidade de falar com uma pessoa que via quatro ou cinco vezes por semana e não era vista por ele hora nenhuma.

      Às vezes, ele sumia uma, duas semanas, para o seu maior desespero e quando o revia era como se o céu se abrisse aos seus pés e ela pudesse entrar nele com o seu “admirador imaginário” que, magicamente, a tornava invisível, como se nunca tivesse passado por ele. Era como se Deus se lembrasse de lhe devolver uma felicidade que nem lhe pertencia e talvez nunca fosse pertencer. Seu coração disparava e ela já não tinha mais controle da situação.

      Em síntese, já estava com os nervos à flor da pele e só faltava agarrá-lo a força e dizer : — eu estou aqui, eu o amo, eu sou louca por você… só falta eu me pendurar no seu pescoço e você finge que nunca me viu ? Será que sou uma porcaria tão sem valor que você não inclina seu rosto nem para rir de mim ?

      Mas, felizmente, sua loucura, por milagre, não chegou a tanto, embora tenha faltado muito pouco para ter um ataque histérico e se jogar nos braços dele.

      Um dia, quase três anos já passados, após tanto sofrimento, Maria viu, de longe, que “seu artista” estava sozinho e, quase como um desafio, prometeu a si mesma: é hoje que vou fazer este homem falar comigo, custe o que custar … e ficou maquinando o que poderia fazer. De repente, quando ele se aproximou, fingiu que estava se sentindo mal, mas, nem assim ele parou para lhe perguntar se estava com algum problema de saúde, se precisava de ajuda.

      Foi a pior idéia que ela poderia ter, pois nunca pensou que mesmo fingindo que nunca havia cruzado com ela, ele fosse passar como um cometa, sem lhe dirigir uma palavra, nem perguntar se ela estava precisando de alguma ajuda. Parece até que sabia que a única coisa que ela estava precisando era ouvir sua voz e receber um gesto de carinho, por menor que fosse.

      Como não estava sentindo nada além da vontade de tê-lo mais perto, quando percebeu que nem olhou para trás para ver se alguém havia se importado com ela, recomeçou a caminhada e na volta, com voz trêmula, fingindo uma ousadia que não tinha, se atravessou na frente dele, quase o atropelando e foi logo perguntando, num fôlego só. — Porque você não deixa de ser metido a importante demais e não fala comigo? Só falta eu engolir você com os olhos e você finge sempre que não me vê ? Fingi que estava passando mal e você nem quis saber se eu precisava de auxílio… — Você já me viu algum dia aqui, por acaso ?

      Ele, surpreso, com voz pausada disse, com um ligeiro sorriso, não sei se de nervosismo pela reação de Maria ou de deboche pelo inusitado : — Eu conheço você, sim, e quando você usava aquelas meias grossas eu comentava com o meu amigo : — esta mulher, coitada, deve ter as pernas cheias de varizes, por isso, só anda com elas cobertas com estas meias ridículas. — Adorei quando você tirou as meias e passou a caminhar com roupas mais joviais. Aí, disse ele : — percebi como é uma mulher charmosa, interessante e sensual. Nesse momento ela se esqueceu de que era apenas uma pedra do calçadão e começou a se sentir uma pedra bruta, mas visível aos olhos do novo “amigo”.

      Seguiram batendo papo, embora ela estivesse morrendo de medo que alguém a visse com um estranho e a interpretasse mal. Mas estava tão feliz com o rumo que a conversa estava tomando que queria que o mundo parasse naquela noite.

      Depois desse dia, “seu príncipe”, o José, como se identificara, volta-e- meia aparecia sozinho e saíam conversando amenidades, separados como dois estranhos, com receio das línguas maldosas, uma vez que ele se revelara comprometido.

      Das amenidades passaram para conversas mais arrojadas, até que, um dia, chegaram ao ponto que ela queria : Ficar a sós com aquele deus negro, há tanto tempo dono dos seus sonhos, das saudades,de sua alma, dos maus pensamentos; enfim, do seu todo.

      Foi o que de mais bonito aconteceu em toda a sua vida. Ela se sentiu mulher de verdade, pela primeira vez, e abandonou aquela sensação de estar errada por amar tanto aquele adorável desconhecido.

      Em seus encontros e desencontros esporádicos foram descobrindo as suas afinidades… E quantas !

      Maria pensava que suas afinidades fossem capazes de aproximá-los cada vez mais, mas lhes faltava um fator em comum : ele a queria como amiga que aceitasse apenas uma “amizade colorida”; ela o queria como amigo, como homem e como o pai dos filhos que ela tanto sonhava ter, o que levava suas afinidades a um grande distanciamento, a um imenso abismo. O quase tudo em comum parecia muito pouco para um relacionamento mais sólido e, dia a dia, se perdeu na diversidade dos seus sentimentos, como nesses versos :

Coincidências

     Agora que conheço a tua infância,
      eu vejo que foi quase igual à minha :
      a falta de recursos, com constância,
      e tudo o que não tinhas … eu não tinha !
         
      Nós tínhamos irmãos em abundância,
      pais honrados que, às vezes, à noitinha,
      percorriam a pé longa distância
      para vermos um circo, na pracinha.
            
      Lutando, já formados, progredimos,
      mas os nossos destinos não unimos
      porque em teu peito não me dás guarida …
     
      Noventa e nove por cento há em comum …
      e eu não sei como apenas ” menos um “
      pode matar os sonhos de uma vida ! …


     Meses depois, José se desvencilhou de Maria como se tivesse se desvencilhado de um par de tênis desgastado pelo uso, sem um desentendimento, sem uma explicação … Apenas sumiu como havia aparecido, sem se importar com o que poderia estar acontecendo com ela, como se percebesse que ela estava precisando do seu apoio, de cuidados especiais para enfrentar uma gravidez de risco, uma vez que estava na primeira gestação, com quase quarenta anos de idade.
      José, que se dizia caixeiro viajante, durante muitos anos não foi visto por Maria, que criara seus dois filhos, Leonardo e Lena, os gêmeos gerados num relacionamento proibido e sem importância para José. Foi num momento de desânimo e decepção que expressou mentalmente as suas

Marcas na Alma

     Partiste sem aviso, às escondidas,
      sem promessa de um dia regressar..
      e, embora com saudades incontidas,
      eu me recusaria a te esperar.
   
      Se eu tivesse o milagre de outras vidas,
      e motivos de sobra para amar,
      com receio de novas despedidas
      eu jamais voltaria a te aceitar …
     
      Foram tantos projetos que ruíram,
      tantos sonhos de amor que se evadiram,
      tanto estrago em minha alma a vida fez
      
      que, farta de tristeza e desengano,
      queria que o destino desumano
      acabasse comigo de uma vez.


     Quando passou para a faculdade, num “trote de calouros”, Leonardo se feriu gravemente e sua colega de cursinho, Andressa, que estava com ele, ajudou a socorrê-lo e passou a noite no hospital aguardando notícias.

      Maria, avisada da tragédia, chegou pouco tempo depois e conversava com a coleguinha de seu filho quando José chegou preocupado, tentando levar a filha para casa, sem perceber que era a mãe de Léo que se encontrava de costas. Foi um choque muito grande para os dois.

      Léo estava sendo operado e José logo se ofereceu para doar sangue, se fosse preciso e para ficar com Maria, enquanto o pai do garoto não chegasse. Maria agradeceu, dizendo que não era preciso, mas José levou Andressa para casa e voltou para lhe fazer companhia, confessando que sua esposa estava doente, há muitos anos, e que ele era quem cuidava dos dois filhos : Andressa e Anderson, já quase adultos.

      Foi no hospital que José teve certeza de que Leonardo era seu filho, depois de se submeter a exames para descobrir se havia compatibilidade para doação de um rim, uma vez que o acidente havia comprometido os rins do novo universitário.

      Leonardo, depois de muito tempo hospitalizado, voltou à vida normal, mas, ainda muito magoado por não ter conhecido seu pai, leu uma poesia que havia encontrado num “livro de bolso”, e parecia a sua história :

Desilusão

     Ao ver um pai chegar na minha escola
      trazendo a mão do filho em sua mão,
      carregando, feliz, sua sacola,
      sinto uma enorme dor no coração…
      
      Penso em mais tarde os dois jogando bola
      e sinto até inveja da emoção
      daquele pai que, às vezes, se controla
      para não dar no filho uma ” lição ” …
      
      Agora, quase adulto como estou,
      nem ligo para o pai que me gerou
      e não dirige a mim um simples ai …
      
      Se esse pai não me deu nenhum conforto,
      não sabe se estou vivo, ou se estou morto,
      não quero nem saber se tenho um pai !…

    
      Hoje, com os filhos ultrapassando os vinte e um anos de idade, Maria olha para trás, revive todo o sofrimento porque passou e ainda encontra forças para agradecer a Deus por seus filhos, fruto de um amor proibido e inconseqüente, e reza para que seu “artista preferido” encontre o amor que teve e jogou fora, sem sequer tomar conhecimento da existência de seus filhos, que, inteligentemente, talvez pouco estão se importando se em suas certidões de nascimento existe apenas um pai ignorado, como costumam dizer nos momentos mais angustiantes, embora Maria tenha certeza de que dizem isto para não entristecê-la mais ainda.

      Leonardo e Lena freqüentam a mesma sala de aula, e num trabalho escolar, falando sobre o Dia do Papai, Lena resolveu apresentar seu

Sonho Adormecido …

     Sonhei com o meu pai a vida inteira,
      embora um pai que nem me viu crescer …
      pois encontrei, no sonho, uma maneira
      de encarar meu problema sem sofrer …
      
      E, filha de um ausente e mãe solteira,
      eu me humilhei demais para entender
      que o preconceito é a mais triste barreira
      que o mundo inteiro, um dia, há de vencer.
      
      Meu pai, que era caixeiro viajante,
      mudava de lugar a cada instante,
      deixou o seu ” produto ” e foi embora …
      
      mas mesmo sendo um pai desconhecido,
      se acordasses meu sonho adormecido
      eu seria, meu pai, feliz agora.

     Maria foi quase todos os gêneros de pedras no caminho de José, o seu príncipe, mas embora tenha rolado nas tempestades que o destino lhe impôs, continua com a mesma certeza do primeiro dia em que o viu, porque seu coração, seus olhos, sua mente, sua alma e todo o seu ser o escolheram para ser o homem de sua vida e, mesmo depois de tudo que já passou, mesmo com o coração sangrando por não havê-lo conquistado, ainda não perdeu a esperança de reencontrar a felicidade ao lado do homem que, um dia, sem conhecê-lo, sem nada saber da sua vida, pensou como quem reza em silêncio : — ” Eu quero este homem para mim”. Por enquanto, enquanto vive de esperança, faz de Contradição a sua prece de cada dia.    

Hoje, mais uma vez, desesperada
por ser injustamente preterida,
vejo que já nasci predestinada
a amar sem nunca ser correspondida …
     
       Mas o que mais me dói, na despedida,
      é saber que fui sempre desprezada
      porque foste o anjo bom da minha vida
      e eu da tua jamais pude ser nada.
      
      Se me pudesse ver da eternidade,
      chorando de tristeza e de saudade
      pelo amor que no tempo se perdeu,
     
       Carlos Drummond de Andrade me diria :
      ” E agora “, como vais viver, Maria,
      sem o José que achavas que era teu ? !


     Como a esperança é a última que morre, Maria espera, um dia, poder dizer :

      – E serão felizes para sempre…

Fonte:
http://www.marianascimento.net/contos/003.htm

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Arquivado em Conto, Contos, Rio de Janeiro

Natália Lima (Poesias Avulsas)

FELICIDADE
E quando chegar amanhã
Eu vou estar do teu lado
E no depois de amanhã
Estaremos  contando histórias
de tudo o que vivemos

E por amá-lo hoje
Me honra a certeza desse amor
que  ainda ontem  desconhecia

Felicidade  é  teu amor
Por toda a eternidade
Felicidade é ser amor
Para minha felicidade

SE NÃO EXISTISSE HORA
Se não existisse hora
O tempo não acabava
Se não existisse hora
A vida não passava
Há  horas percebo o tempo
E o que ele leva consigo
O tempo acelera os segundos
E  os primeiros que passam voando
Já os últimos estão mais perto
Mas não muito longe do fim

Se não existisse hora
Também não existiria
Nem o nascer, nem o pôr
E nem o crescer da flor
Nem muitas belezas
E nem muita dor
Daquilo que parte por ora
Sem controlar o passar
O desejo do inerte impossível
Desejo de ter e ficar
Desejo do desequilíbrio

Se não existisse hora
Todo tempo seria agora
Sem pressa  e sem demora
O tempo faria  greve
E  a hora faria graça
Sem culpa ou explicações
Se não existisse hora
Estaria agora em outro lugar .…

PRECISO ESCREVER
Preciso escrever com a força daquele
que um dia conseguiu ser lido e admirado

Foi lido, admirado e cantado…

Aquele mesmo que versejava nas madrugadas

Um tal que parava no tempo e se perguntava:
-Serei lido amanhã ?

E se respondia feliz:
-Percebo que sim…

O mesmo que se questionava
quanto a riqueza de seus versos

Lia-se   e não acreditava

Mas aquela mesma força, a mesma força conseguiu ser lida
conseguiu ser admirada

Ao menos a minha própria visão leu o fundo
o profundo do meu eu
Com tanta força
Que mal espera para escrever
O que já está em mente
Antes mesmo que estes versos acabem…

PERCEPÇÃO
Você pode fazer da sua vida, o céu
Basta ter a percepção
Da simplicidade das coisas
Do valor do pouco
E de que o muito nem sempre  é tanto
De não parar no tempo
Mas ter paciência
Do significado do amor
De exercer a paz
Da importância de um sorriso
E da intensidade dos gestos
De que não somos perfeitos
Mas podemos ser o  ídolo de alguém
De que nem todo dia estaremos felizes
Mas que alguém é feliz porque existimos
Procurar algo para achar
Seja feito por você , ou por outrém
Mas que seja feito de coração
Com a pureza divina
De quem tem a percepção
De que a vida pode ser o céu

DESABAFO
Há algo que me sufoca
Que me inquieta
Não sem bem o quê
Algo que mexe com tudo
Tira-me o sossego
Tem a ver com o que sinto
Com o que quero ser
Tem a ver com o que conto
Com o quero dizer
Sem saber ao certo o quê
Vou-me esvaziando do sufoco
E preenchendo lacunas com palavras
No papel antes branco
Agora pleno de sentimento
Apenas sentimentos
Sem que eu ainda saiba qual
Sentimento que me alivia a alma
Sentimento relaxante
Desabafo talvez
Daquilo que precisava ser dito
Mesmo que sem sentido

CENAS DE AMOR
Escrevo que te amo
Com a felicidade pulsante
Que me percorre as veias

Escrevo no teu corpo
Sobre o doce amor
Que me entorpece

Escrevo versos nossos
Únicos e cúmplices
Que traçam o gosto
Da boca
Do beijo

De todas as partes
Que compõem
Nossas Lindas
Simples,
Mas Intensas,
Porém Incomparáveis,
Cenas de amor .…

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=56322

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Arquivado em Amazonas, Manaus, Poesias Avulsas

Mário de Andrade (Tempo da Camisolinha)

Mário de Andrade, no conto “Tempo da Camisolinha “, da obra Contos Novos, assume um foco narrativo em primeira pessoa, com narrador participante, que, simultaneamente, é o protagonista da narrativa. A narrativa, por sua vez, é posterior aos fatos: o narrador adulto conta sua experiência infantil. Apesar de os fatos estarem distantes no tempo, estão próximos emocionalmente. Para contá-los, o narrador envolve-se tanto, que assume a linguagem da criança e expressa suas emoções e interrupções por meio de sinais de pontuação subjetivos, como reticências e exclamações: “(…) davam nela, machucavam muito ela, isto é … muito eu não queria não, só um bocadinho, que machucassem um pouco, sem estragar a cara tão linda da pintura, só pra minha madrinha saber que agora que eu tinha a boa sorte, estava protegido e nem precisava mais dela, tó! ai que saudades das minhas estrelas-do-mar! (…)” “(…) eu bem não queria pensar, mas pensava sem querer, deslumbrado, mas a boa mesmo era a grandona perfeita, que havia de dar mais boa sorte pra aquele malvado de operário que viera, cachorro! dizer que estava com má sorte! Agora eu tinha que dar pra ele a minha grande, a minha sublime estrelona-do-mar!…” A apresentação do conflito não é a tradicional, já que, inicialmente, o narrador não parece ter a preocupação de situar o leitor no tempo e no espaço; não se preocupa em conduzir o texto para que o leitor o assimile de forma segura.

“A feiúra dos cabelos cortados me fez mal.”: tal colocação não conduz o leitor ao assunto diretamente. Posteriormente, saberemos que os “cabelos cortados” foram os dele. O narrador parte de suas próprias experiências; o corte dos cabelos trouxe-lhe uma “noção prematura de sordidez dos nossos atos” ou “da vida”. A criança não queria seus cabelos cortados; isso lhe trouxe sofrimento, mas a justificativa recebida foi que deveria ficar homem. Isso, em vez de animá-lo, apavorava-o, pois uma criança de três anos não queria ser homem; queria ser apenas criança. É o iníicio, assim, de uma das abordagens contidas no texto: o pré-estabelecido, o convencional, as regras fundamentais, que devem ser sempre seguidas por alguém que deseja fazer, coerentemente, parte da estrutura social. É “sórdido”, como nos coloca o narrador, um menino ter cabelos “dum negro quente, acastanhados nos reflexos”, principalmente se “caíam pelos ombros em cachos gordos, com ritmos pesados de molas de espiral”. A reflexão que nos fica é se o que é sórdido é a imposição, ou a delicadeza dos cachos… Tal fato se torna tão marcante, que, já homem, os cachos tornaram-se a lembrança de um “engano grave”, que o fizeram destruir o quadro que ainda continha essa lembrança. No corte dos cabelos, não são apenas eles que são destruídos, mas o “olhar manso, um rosto sem marcas, franco, promessa de alma sem maldade”. O que fica é o homem que acha “besta” a camisolinha conservada pela mãe para que economizasse.

O adulto, que agora é, tenta-se justificar pelo que ele foi (“Guardo esta fotografia porque si ela não me perdoa do que tenho sido ao menos explica”). A criança, forçada a virar homem aos três anos, passa a ter um “quê repulsivo de anão”. É nítida a comparação que faz entre ele e o irmão, Totó. O irmão mantém o ar sem malícia e infantil; parece não ter sofrido a repressão vivida pela personagem protagonista. Ao caracterizá-lo como “criança integral”, reforça as perdas sofridas pelo narrador; nesse momento, a idéia dos cachos retorna à mente do leitor: o problema reforça-se como moral, não como físico; com os cabelos, perdeu-se a pureza. O personagem narrador – a “montruosidade insubordinada”, revelada pelos “olhos que espreitam” – contrapõe-se ao irmão, “a própria imagem da infância”. Num momento de “flash-back”, o narrador reflete sobre o valor dos signos do passado (“não sei por que não destruí em tempo também essa fotografia”): é a forma de buscar-se e encontrar-se nas reminiscências. É como se fosse capaz de perceber que a foto era a comprovação da repressão e seus resultados: o que fazer diante disso? … a sensação da incapacidade de reagir… Quando o leitor entra em contato com tudo isso, sente que os cachos cortados são ponto de partida do enredo. O fluxo de consciência vai tomando maior espaço à medida que incomoda o narrador. “Voltemos ao caso que é melhor”: prefere interromper as reflexões a deparar-se, possivelmente, com o que não quer ver… Nessa repressão tão sofrida, o pai é elemento desencadeador de todo o processo: “meu pai suavemente murmurou uma daquelas suas decisões irrevogáveis”.

A antítese marca a introdução do pai no enredo – suave e irrevogável; nesse caso, a suavidade não se liga à delicadeza, mas ao fato de não haver discussão nas decisões por ele tomadas. A maior revolta do menino é não ter nenhuma participação nisso: “Deixassem que eu sentisse por mim, me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decisão à antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas íntimas (…)”. A reação do narrador é de “monstruosidade insubordinada”, voltando-se contra o cabeleireiro; a dificuldade de lembrar é grande, já que a resistência a tudo isso se mantém até hoje (“Tudo o mais são memórias confusas ritmadas por gritos horríveis (…)”). A seleção de vocabulário é pesada porque a dor também é: “cadáveres de meus cabelos”, “um não-conformismo navalhante”… e a reação do menino é de pranto. Nota-se que o que dói mais é a troca proposta pelos adultos: presentes, gozações, espelhos. Ninguém tenta entender a dor do garoto. Na relação indivíduo/mundo, a reação do indivíduo é a revolta: nasce o homem – como queriam os “outros” – mas é alguém “cheio de desilusões, de revoltas, fácil para todas as ruindades”, com lembranças infantis desagradáveis, cujo único elemento restante foram “as camisolinhas”, tão detestáveis quanto todo o resto. A figura paterna não afeta apenas o menino, mas também a mãe: depois de um parto desastroso, movia-se “premiada pelas obrigações da casa e dos filhos”. A idéia de “obrigação” intensifica-se ao longo das ações dela (“menos tratava da casa que se iludia, consolada por cumprir a obrigação de tratar da casa.”).

A atitude do pai diante do sofrimento materno é exposta de forma irônica: “Diante da iminência de um desastre maior, papai fizera um esforço espantoso, o seu ser que só imaginava a existência no trabalho sem recreio, todo assombrado com os progressos financeiros que fazia e a subida de classe.” Observa-se o antagonismo de interesses entre esses elementos do mesmo ciclo familiar: a criança, preocupada apenas com a própria dor (tal egocentrismo reflete-se, inclusive, nas reminiscências do narrador, que não consegue lembrar-se, exatamente, do que ocorria com sua mãe – “(…) não sei direito…” -; a mãe, preocupada com suas obrigações para com a família; o pai, preocupado com os “progressos financeiros e a subida de classe”. O que vemos, portanto, é a família conservadora burguesa. Para melhorar o estado de saúde de sua mãe, vão para a praia. A mudança de espaço não mudará esse quadro familiar. Observa-se isso, por exemplo, no quadro de Nossa Senhora do Carmo (trazido da cidade para a praia), utilizado para ameaçar e amedrontar o menino (“Meu filho, não mostra isso, que feio! repare: sua madrinha está te olhando na parede!”). Diante disso, o menino não se submete, pois desafia a “madrinha santa”, quando a mãe não está olhando (“Tó! que eu dizia, olhe! Olhe bem! Tó! olhe bastante mesmo!”). Nessa mudança de espaço, as poucas mudanças de atitudes são apenas aparentes: a mãe “sentia um prazer perdoável de representar naquelas férias o papel largado de convalescente”; o pai “deixara menos pai, um ótimo camarada com muita fome e condescendência”. O que se nota é que pai e mãe precisam de motivos, “desculpas”, para se comportarem de modo diferente, enquanto que o filho mantém sua personalidade rebelde, avessa ao formal.

Os operários trabalhadores do canal reforçam a hierarquia que a criança já observava na família, já que tratavam melhor a ele, “filhinho de ‘seu dotô’, do que aos próprios filhos”: como diz o próprio narrador, agiam “proletariamente”… Tudo isso se segue de um fato novo que modifica o ritmo do enredo: o garoto é presenteado com três estrelas-do-mar por um operário, que lhe diz que as mesmas dão boa sorte. A posse das estrelas-do-mar tornou-se algo fundamental para a criança: constituíam-se num segredo. Não sendo necessário dividi-las ou partilhá-las com alguém, tornam-se algo só seu, capaz de dar a boa sorte prometida e protegê-lo de qualquer infortúnio: “Comer? pra que comer? elas me davam tudo, me alimentavam, me davam licença para brincar no barro, e si Nossa Senhora, minha madrinha, quisesse se vingar daquilo que eu fizera pra ela, as estrelas me salvavam, davam nela (…)” Porém, a posse das estrelas é momentânea; a felicidade é momentânea. Ao ver, na praia, um operário triste, queixando-se da sua má sorte, a criança sente-se na obrigação de ceder-lhe sua estrela-do-mar (de início, a pequena, mas, depois, sabia que devia ceder a maior: “(…) aquele homem com tantos filhinhos pequenos e aquela mulher paralítica na cama!… e no entanto eu era feliz, feliz e com três estrelinhas-do-mar pra me darem sorte…”). Se, no início do conto, o embate da criança era com o mundo, agora, é consigo mesma, quando descobre que até dentro de si as coisas não são harmoniosas: ao mesmo tempo que deseja as estrelas, que quer as três – que, para ele, representam a suprema felicidade -, incomoda-se com o sofrimento do operário. Dolorosamente, acaba deixando sua vontade de lado e entrega-lhe a estrela: “Tome! Eu soluçava gritado, tome a minha… tome a minha estrela-do-mar! dá… dá, sim, boa sorte!…”. Tal atitude não deixa – ao contrário do que se poderia esperar de uma narrativa moralista tradicional – o garoto satisfeito consigo mesmo, já que foi tão altruísta. O que ocorre, na verdade, é um imenso sofrimento, arrependimento (“eu sofria arrependido”), que ele não consegue conter: “Eu corri pra chorar à larga, chorar na cama, abafando os soluços no travesseiro sozinho.”. À sua maneira, a narrativa torna-se cíclica: o sofrimento vivido com a perda dos cachos castanhos retorna na perda da estrela-do-mar… é o homem que se forma através de perdas sucessivas, de sofrimentos contínuos, “no infinito dos sofrimentos humanos”.

Fonte:
Sos Estudante

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Contos do Folclore Brasileiro (A Formiguinha e a Neve)

Pois é, uma formiguinha gostava muito de fofoca, gostava muito de conversar. Aí, ela, no tempo frio, no tempo de geada, — e toda formiga também gosta muito de carregar, gosta muito de roubar, não é? — ela ia no moinho roubar fubá. Aí quando ela já evinha embora, já com frio, aí a geada prendeu o pezinho dela com o bolinho de fubá dela na cabeça, não é?

 Aí o sol veio, derreteu a geada, ela foi em casa, guardou o fubazinho dela e em vez de mexer o anguzinho dela, não, foi tirar pergunta.

 Aí foi na casa do sol:

 — Ô sol, você é tão forte que você derreteu a geada que estava presa no meu pezinho!

 Aí o sol respondeu pra ela:

 — Eu sou tão forte que a nuvem me tapa!

 Ela foi na casa da nuvem:

 — Ô nuvem, como você é tão forte que você tapa o sol e o sol derreteu a geada que prendeu o meu pezinho?

 Aí a nuvem falou:

 — Eu sou tão forte que o vento me toca.

 Ela foi na casa do vento:

 — Ô vento, como você é tão forte que sopra a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

 Aí o vento falou:

 — Eu sou tão forte que a casa me tapa.

 Aí ela foi na casa:

 — Ô casa, como você é tão forte que você tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

 Aí a casa:

 — Eu sou tão forte que o rato me fura.

 Aí ela foi na casa do rato:

 — Ô rato, como você é tão forte que você fura a casa, a casa tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

 Aí o rato falou:

 — Eu sou tão forte que o cachorro me pega.

 Aí ela foi na casa do cachorro:

 — Ô cachorro, como você é tão forte que você pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

 Aí o cachorro falou:

 — Eu sou tão forte que a onça me pega.

 Aí ela foi na casa da onça:

 — Ô onça, como você é tão forte que você pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

 Aí ela disse:

 — Eu sou tão forte que o caçador me mata.

 Aí ela começou a ficar brava:

 — Ô caçador, como você é tão forte que você pega a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

 Aí o caçador:

 — Eu sou tão forte que a morte me mata.

 Aí ela falou para a morte:

 — Ô morte (gritando já), como você é tão forte que você mata o caçador, o caçador mata a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol e o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

 Aí a morte:

 — Eu sou tão forte que te mato.

 Plat! Passou o pé nela, matou ela e pronto.

 Ela não comeu o anguzinho dela, não é? ficou só tirando pergunta. Se ela fosse comer o anguzinho dela, quietinha, ela tinha enchido a barriga dela e não tinha morrido.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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