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Helena Kolody (Olhos de Antes)

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31 de janeiro de 2013 · 22:23

J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou") Parte 19

José Corrêa da Silva Júnior
(Pilar/ AL, 22 janeiro 1893 –  Santos/SP, 9 setembro 1972).

” PUDOR “

Ama-me assim, sem ânsias nem clamores,
sem amostras no olhar de coisa alguma,
num silêncio feliz, num gesto, em suma,
furtivo às aparências exteriores.

Deixa que o teu amor a paz resuma
essas noites propícias aos amores,
em que os gritos das luzes e das cores
ficam velados através da bruma.

Ama-me assim, como se as nossas vidas
duas árvores fossem diferentes,
por desiguais radículas nutridas…

E como se a alegria que abafamos
amargasse nos frutos renascentes
e entristecesse os pássaros nos ramos. . .
===========

Corrégio de Castro
(sem dados biográficos)

” FLOR DO HELIANTO (GIRASSOL) “

Conheces, certo, aquela flor dourada
que volta a face para o sol nascente
e, tendo a face para o sol voltada,
constante o segue, desde a aurora ao poente.

E já notaste que, se anuviada
a esfera de turquesa não consente
se perceba o astro louro, a flor amada
mesmo sem vê-lo, segue o sol ausente?

Também minha alma é como a flor do helianto.
Desde o instante feliz em que te vi
como tocada de um suave encanto,

– não sei que força estranha que senti –
pois em riso ela esteja, esteja em pranto,
trago-a sempre voltada para ti!
============

Cruz e Souza
João da Cruz e Souza,
(Florianópolis/SC, 24 novembro 1862 – Antonio Carlos/MG, 19 março 1898)

” CORPO “
VII

Pompas e pompas, pompas soberanas
Majestade serene da escultura
A chama da suprema formosura,
A opulência das púrpuras romanas.

As formas imortais, claras e ufanas,
Da graça grega, da beleza pura,
Resplendem na arcangélica brancura
Desse teu corpo de emoções profanas.

Cantam as infinitas nostalgias,
Os mistérios do Amor, melancolias,
Todo o perfume de eras apagadas…

E as águias da paixão, brancas, radiantes,
Voam, revoam, de asas palpitantes,
No esplendor do teu corpo arrebatadas!

ENCLAUSURADA

Ó Monja dos estranhos sacrifícios.
Meu amor imortal! Ave de garras
e asas gloriosas, triunfais, bizarras,
alquebradas ao peso dos cilícios.

Reclusa flor que os mais revéis flagícios
abalaram com as trágicas fanfarras,
quando em formas exóticas de jarras
teu corpo tinha a embriaguez dos vícios.

Para onde foste, ó graça das mulheres,
graça viçosa dos vergéis de Ceres,
sem que o meu pensamento te persiga?!

Por onde eternamente enclausuraste
aquela ideal delicadeza de haste,
de esbelta e fina ateniense antiga?!

” MAGNÓLIA DOS TRÓPICOS “
                                                 À Araújo Figueredo

Com as rosas e o luar, os sonhos e as neblinas,
Ó magnólia de luz, cotovia dos mares,
Formaram-te talvez os brancos nenúfares
Da tua carne ideal, de correções felinas.

O teu colo pagão de virgens curvas finas
É o mais imaculado e flóreo dos altares,
Donde eu vejo elevar-se eternamente aos ares
Viáticos de amor e preces diamantinas.

Abre, pois, para mim os teus braços de seda
E do verso através a límpida alameda
Onde há frescura e sombra e sol e murmurejo;

Vem! com a asa de um beijo a boca palpitando,
No alvoroço febril de um pássaro cantando,
Vem dar-me a extrema-unção do teu amor num beijo.
=================

Cruz Oliveira
(Júlio Auto da Cruz Oliveira)
(Maceió/ AL, 5 dezembro 1880 – ????)

” OLHOS “

Olhos! Tantos amei quantos me abandonaram. . .
Tantos cobri de bens, de inefáveis ternuras,
quantos me querem mal, que em lugar me deixaram
de minhas ilusões, desilusões bem duras.

E dizer que os perdoei: que mau grado amarguras
de que venho de encher dias que se passaram,
só lhes desejo o bem das carícias mais puras
– que hoje me apraz perdoar os que me não perdoaram!

E isso me cura um pouco esse desgosto imenso
de amá-los, esse tédio, a fartura, o cansaço
da vida; e me dá mesmo um prazer quando penso

nas vezes em que a sós eles se consideram
e me admiram mais, pelo bem que lhes faço,
do que eles pelo mal que sempre me fizeram.
===========

Cynthia Castello Branco
(sem dados biográficos)

” PROFANAÇÃO “

Tenho-lhe um ódio quase extravagante
depois de havê-lo amado com loucura…
As vezes penso que se o amor não dura,
tece correntes, mesmo agonizante!

Sinto-me escrava dele e a cada instante
pergunto-me a razão desta clausura! . . .
Talvez porque nascendo é uma ventura,
o amor que morre é sempre vigilante.

Quero afastar os laços que me prendem
ao meu destino, assim como se eu fora
este chão que ele pisa . . . E, entretanto,

garras do Tempo sobre mim se estendem
e é uma vertigem doida, embriagadora,
odiá-lo assim depois de amá-lo tanto!

Fonte:
– J.G . de  Araujo Jorge . “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”. 1a ed. 1963

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Acruche Collection – Trova 10

Imagem com trova obtida no Facebook do Trovadot

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Contos do Folclore Brasileiro (O Menino e a Vó Gulosa)

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

 Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

 — Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

 — Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

 O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

 O menino recomeçou a choradeira:

 — Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

 O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

 — Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

 — Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

 Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

 Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

 — Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

 — Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

 O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.

 Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

 — Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

 — Oh! Menino! Me empresta essa corda.

 O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

 Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

 O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.

 — Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

 — Oh! Menino! Me dê o seu boi!

 E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

 — Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

 A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

 — O boi foi pouco e vou comer você!

 E comeu o menino.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Jandira Mello de Almeida Cahet (Cristais Poéticos)

UM GRITO DE AMOR
Docemente imersa e submersa
na doçura do seu olhar
ardendo em chamas secretas
numa louca sinfonia
  
Vem com o encanto do momento
florido com a luz da lua
com desejo de ser amado
 nos encantando de prazer
  
Seu amor desarrumou meu coração,
mas arrumou minh’alma solitária
há uma primavera agora nos meus dias
perdida na imensidão de tanto querer
  
Alguém modula no teclado
um belo noturno raro
que nos acompanha na noite em flor
partitura que embalamos
para dar forma ao nosso amor
  
Tem um canto de doçura 
na flor que abre no meu peito
nas suas palavras nasce a loucura
do sonoro mar quando me deito

NOTURNO DA DESOLAÇÃO
Em triste sussurrante refúgio de agonia
após noite indormida debaixo da ponte,
resignado, só o abandono lhe assedia
tremulando de ternura e sem horizonte
Sob um tíbio luar quase adormecido
com fragmento que escora sua ruína
traz lampejo de um cometa envelhecido
só a morte neste mundo lhe fascina
Seqüela de solidão na aparência
descobre que esperar não pode mais
pela vida que o excluiu com negligência
e pelos seres irmãos por diferenças sociais
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
denegando a dúbia forma de desesperança
sob fortes sinas que advinham
como vozes que fenecem sem lembranças
Na súplica da última anunciação
galga a escada dos martírios
paira nos céus da consolação
submerso no mundo dos delírios.

RE – ENCONTROS
E nos dizem as predições:
Interregno fez-se magia,
Pois falaram alto as emoções
Dos encontros com alegria.
Consta nos astros a alquimia
Existente entre afetos
Psicanálise e poesia
passam por filhos e netos
Tempos idos sofreguidão
Tempos lindos alvorecer
O final da abstração
Início d’um renascer.
Consta na vida a empatia
Dores doídas, regressões
Trocamos saber, catexia
Como queria a ilusão
Urge o tempo e nosso vinho
Sonhos sonhados, traçador
Entrelaçados de carinho
Do silêncio tecedor.

DISSONÂNCIA

Na favela a miséria disfarça a fome
e a vida não se revela
boca sem dentes:  não se come
sequer a solidão floresce amarela
 A favela encobre a miséria;
 casebres, fendas, emendas
 alastram e consomem a matéria
e a fome traz torturas horrendas
Na favela as crianças pulsam no espaço
– sussurro de lamentação materna –
 o silêncio é escasso,
pois a lei do burguês  governa
As unhas de encardidas mãos
num clamor de súplica, dos desesperados,
aquele que vivia em vão
e os que estão vivos agonizados
Vivem para além do desespero e da esperança
na ignorância e no saber dos abandonados
o efeito de ser ferido que transmuta em vingança
o crepúsculo de nascer e morrer dos renegados.

SONATA AO LUAR
Acordei como flores sorrindo
os rios estavam cantando
todo meu ser vive florindo
 com os humores trocando
Quando a natureza canta
fico em cima de um oiteiro
meu pensamento se encontra
voando para o Rio de Janeiro
Ah! é o teu canto que aparece
que pousa um momento em mim
é um encanto o que me acontece
no verso quando sonho com jasmim
Longe de mim a vida não existe
se estás longe corro e me procuro
 sombra é o movimento que consiste
na eterna felicidade que mensuro
a lua quando desce a terra 
piso nos astros distraída
sua luz perfeita encerra
toda doçura desta vida

A VIDA

A vida é como certa chuva,
 ergue-se do mar ao encontro das nuvens
 A grinalda enfeitada de uva
 e de angúnstias perde-se os bens.

 Ninfas cantam Euterpa a Alegria,
 jasmins bailam no paraíso,
 a beleza persegue Afrodite com euforia 
 e Eco embala o amor de Narciso.

 Ouço sonho de velhos companheiros
 rodopiando em torno da silente vida
 com temores de pássaros faceiros
 que o tempo não elucida.

 Chove cá embaixo nas horas incertas
 Sócrates faz parir idéias pela maiêutica,
 o nirvana é a paz para o humano,
 para o texto sagrado a hermenêutica 
 e a vida dos mortais um engano

CANTO DO AMOR PERDIDO

 Entre as estrelas mais perfumadas
 floresceu um amor como o arco-íris
 por um segundo pensei encontrar-me sonhando
 e neste tempo minh’alma se encantou

 Ao cantar do melro tagarela
 comecei a fazer versos tão amados
 o amor me pegou desprevenida
 e no descompasso do meu coração
 comecei a viver esta ilusão

 Doces beijos e carícias tresloucadas
 me despertavam a todo instante
 o céu me parecia mais azulado
 meu ser cantava em euforia

 Nos lençóis macios do amanhecer
 me encontrei a sorrir despreocupada
 seria a felicidade acontecendo
 ou mais uma ilusão dos apaixonados?

PERFUME DE MULHER

 Acordei como flores sorrindo
 Os rios estavam cantando
 Todo meu ser vive dormindo
 E com os humores trocando

 Pois quando a natureza canta
 Fico no cimo de um oiteiro
 Meu pensamento se encontra
 Voando para o Rio de Janeiro
 Não, não é o teu canto que aparece
 Que pousa um momento em mim
 mas o fantasma que acontece
 No verso com cheiro jasmim

 Longe de mim, só em mim existe
 Depois do teu amor violáceo
 E o olor que persiste
 É açucena verbenáceo

 A lua quando desce a terra 
 Pisa nos astros distraída
 Sua luz perfeita encerra
 Toda doçura desta vida.

Fontes:

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Cláudia Dimer (Os Passos dos Meus Sonhos)

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31 de janeiro de 2013 · 22:00

José de Alencar (O Ermitão da Glória) Parte 2

III

A BALANDRA

Embora expulsos das terras da Guanabara, e destruída a nascente colônia, não desistiram os franceses do intento de se assenhorearem de novo da magnífica baía, onde outrora campeara o Forte Coligny.

Esperando azo de tentar a empresa, continuavam no tráfego do pau-brasil, que vinham carregar em Cabo Frio, onde o trocavam com os índios por avelórios, utensis de ferro e mantas listradas.

Havia naquela paragem uma espécie de feitoria dos franceses, que facilitava esse contrabando e mantinha a antiga aliança dos Tamoios com os Guaraciabas, ou guerreiros de cabelos do sol.

A metrópole incomodava-se com a audácia desses corsários, que chegaram algumas vezes a penetrar pela baía adentro e bombardear o coração da cidade.

Bem longe porém de prover de um modo eficaz à defensão de suas colônias, tinha por sistema deixar-lhes esse encargo, apesar de estar constantemente a sugar-lhes o melhor da seiva em subsídios e fintas de toda a casta.

Baldos de meios para expurgarem a costa da cáfila de piratas, os governadores do Rio de Janeiro, de tempos em tempos, quando crescia a audácia dos pichelingues a ponto de ameaçarem os estabelecimentos portugueses, arranjavam com os minguados recursos da terra alguma expedição, que saía a desalojar os franceses.

Mas estes voltavam, trazidos pela cobiça, e após eles os flamengos e os ingleses, que também queriam seu quinhão e o tomavam sem a menor cerimônia, arrebatando a presa ao que não tinha forças para disputá-la.

Felizmente a necessidade da defesa e o incentivo do ganho tinham despertado também o gênio aventureiro dos colonos. Muitos marítimos armaram-se para o corso, e empregaram-se por conta própria no cruzeiro da costa.

Fazendo presa nos navios estrangeiros, sobretudo quando tornavam para Europa, os corsários portugueses lucravam não somente a carregação de pau-brasil, que vendiam no Rio de Janeiro ou Bahia, mas além disso vingavam os brios lusitanos, adquirindo renome pelas façanhas que obravam-

Precisamente ao tempo desta crônica, andavam os mares do Rio de Janeiro muito infestados pelos piratas; e havia na ribeira de São Sebastião a maior atividade em se armarem navios para o corso, e municiarem os que já estavam nesse mister.

Uma lembrança vaga desta circunstância flutuava no espírito de Aires, embotado pela noite de insônia.

Afagava-o a esperança de achar algum navio a sair mar em fora contra os piratas; e estava resolvido a embarcar-se nele para morrer dignamente, como filho que era de um sargento-mor de batalha.

Ao chegar à praia, avistou o cavalheiro um batel que ia atracar. Vinha dentro, além do marinheiro que remava, um mancebo derreado à popa, com a cabeça caída ao peito em uma postura que revelava desânimo. Teria ele vinte e dois anos, e era de nobre parecer. 

Logo que abordou em terra o batel, ergueu-se rijo o mancebo e saltou na praia, afastando-se rápido e tão abstrato que abalroaria com Aires, se este não se desviasse pronto.

Vendo que o outro passava sem aperceber-se dele, Aires bateu-lhe no ombro:

– Donde vindes a esta hora, e tão pesaroso, Duarte de Morais?

– Aires!… disse o outro reconhecendo o amigo.

– Eu vos contava entre os felizes; mas vejo que também a aventura tem suas névoas.

– E suas noites. A minha creio que de todo escureceu.

– Que falas são estas, homem, que vos desconheço.

Travou Duarte do braço de Aires, e voltando-se para a praia mostrou-lhe um barco fundeado perto da Ilha das Cobras.

– Vedes aquele barco? Há três dias que ainda era uma formosa balandra. Nela empreguei todo meu haver para tentar a fortuna do mar. Eis o estado a que o reduziram os temporais e os piratas: é uma carcaça, nada mais.

Aires examinava com atenção a balandra, que estava em grande deterioração. Faltava-lhe o pavês de ré e ao longo dos bordos apareciam largos rombos.

– Esmoreceis com o primeiro revés!

– Que posso eu? Donde tirar o cabedal para os reparos? E devia eu tentar nova empresa, quando a primeira tão mal surtiu-me?

– Que contais então fazer do barco? Vendê-lo, sem dúvida?

– Só para lenha o comprariam no estado em que ficou. Nem vale a pena de pensar nisso; deixá-lo apodrecer aí, que não tardará muito.

– Neste caso tomo emprestada a balandra, e vou eu à aventura.

– Naquele casco aberto? Mas é uma temeridade, Aires!

– Ide-vos a casa sossegar vossa mulher que deve estar aflita; o resto me pertence. Levai este abraço; talvez não tenha tempo de dar-vos outro cá neste mundo.

Antes que Duarte o pudesse reter, saltou Aires no batel, que singrou para a balandra,

IV

A CANOA

Saltando a bordo, foi Aires recebido ao portaló pela maruja um tanto surpresa da visita.

– Doravante quem manda aqui sou eu, rapazes; e desde já os aviso, que esta mesma tarde, em soprando a viração, fazemo-nos ao largo.

– Com o barco da maneira que está? observou o gajeiro.

Os outros resmungaram aprovando.

– Esperem lá, que ainda não acabei. Esta tarde pois, como dizia, conto ir mar em fora ao encontro do primeiro pechelingue que passar-me por davante. O negócio há de estar quente, prometo-lhes.

– Isso era muito bom, se tivesse a gente navio; mas numa capoeira de galinhas como esta?…

– Ah! não temos navio?… Com a breca! Pois vamos procurá-lo onde se eles tomam!

Entreolhou-se a maruja, um tanto embasbacada daquele desplante. 

– Ora bem! continuou Aires. Agora que já sabem o que têm de fazer, cada um que tome o partido que mais lhe aprouver. Se lhe não toa a dança, pode-se ir à terra, e deixar o posto a outro mais decidido. Eia, rapazes, avante os que me seguem; o resto toca a safar e sem mais detença, se não mando carga ao mar.

Sem a mais leve sombra de hesitação, dum só e mesmo impulso magnânimo, os rudes marujos deram um passo á frente, com o ar destemido e marcial com que marchariam á abordagem.

– Bravo, rapazes! Podeis contar que os pichelingues levarão desta feita uma famosa lição. Convido-vos a todos para bebermos à nossa vitória, antes da terceira noite, na taberna do Simão Chantana.

– Viva o capitão!…

– Se lá não nos acharmos nessa noite, é que então estamos livres de uma vez desta praga de viver!…

– É mesmo! É uma canseira! acrescentou um marujo filósofo.

Passou Aires a examinar as avarias da balandra, e embora a achasse bastante deteriorada, contudo não demoveu-se por isso de seu propósito. Tratou logo dos reparos, distribuindo a maruja pelos diversos misteres; e tão prontas e acertadas foram suas providências, que poucas horas depois os rombos estavam tapados, o aparelho consertado, os outros estragos atamancados, e o navio em estado de navegar por alguns dias.

Era quanto dele exigia Aires, que o resto confiava à sorte.

Quando levantou-se a viração da tarde, a balandra cobriu-se com todo o pano e singrou barra fora.

Era meio-dia, e os sinos das torres repicavam alegremente. Lembrou-se Aires que estava a 14 de agosto, véspera da Assunção de Nossa Senhora, e encomendou-se à Virgem Santíssima.

Deste mundo não esperava mais cousa alguma para si, além de uma morte gloriosa, que legasse um triunfo à sua pátria. Mas o amigo de infância, Duarte de Morais, estava arruinado, e ele queria restituir-lhe o patrimônio, deixando-lhe em troca do chaveco desmantelado um bom navio.

Há momentos em que O espírito mais indiferente é repassado pela gravidade das circunstâncias. Colocado já no limiar da eternidade, olhando o mundo como uma terra a submergir-se no oceano pela popa de seu navio, Aires absorveu-se naquela cisma religiosa, que balbuciava uma prece, no meio da contrição da alma, crivada pelo pecado.

Uma vez chegou o mancebo a esclavinhar as mãos, e as ia erguendo no fervor de uma súplica; mas deu cobro de si, e disfarçou com enleio, receoso de que o tivesse percebido a maruja naquela atitude.

Dobrando o Pão d’Açúcar, com a proa para o norte, e o vento à bolina, sulcou a balandra ao longo da praia de Copacabana e Gávea. Conhecia Aires perfeitamente toda aquela costa com seus recantos, por tê-la freqüentemente percorrido no navio de seu pai, durante o cruzeiro que este fazia aos pichelingues.

Escolheu posição estratégica, em uma aba da Ilha dos Papagaios onde o encontramos, e colocou o velho gajeiro Bruno de atalaia no píncaro de um rochedo, para lhe dar aviso do primeiro navio que aparecesse.

Se o arrojado mancebo tinha desde o primeiro instante arrebatado a maruja pela sua intrepidez, a presteza e tino com que provera aos reparos da balandra, a segurança de sua manobra por entre os parcéis, e a sagacidade da posição que tomara, haviam inspirado a confiança absoluta, que torna a tripulação um instrumento cego e quase mecânico na mão do comandante.

Enquanto esperava, Aires vira do tombadilho passar uma canoinha de pescador, dirigida por uma formosa rapariga.

– Para aprender o meu novo ofício de corsário vou dar caça á canoa! exclamou o mancebo a rir. Olá, rapazes!

E saltou no bate!, acompanhado por quatro marujos que a um aceno esticaram os remos.

– Com certeza é espia dos calvinistas! Força, rapazes; carecemos de agarrá-la a todo o transe.

Facilmente foi a canoa alcançada, e trazida a bordo a rapariga, que ainda trêmula de medo, todavia já despregava dos lábios no meio dos requebros vergonhosos um sorriso brejeiro.

Vira ela e ouvira os chupões que lhe atirava à sorrelfa a boca de Aires apinhada à feição de beijo.

– Tocam a descansar, rapazes, e a refrescar. Eu cá vou tripular esta presa, enquanto não capturamos a outra.

Isto disse-o Aires a rir; e os marujos lhe responderam no mesmo tom.

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