Isidro Iturat (Arte Poética) parte 1

OUTRA DEFINIÇÃO INFRUTUOSA DO TERMO “POESIA” 

Palavra ritmicamente ordenada,
ou veículo visível para a alma
invisível, ora o rio que mana 

alimentício, ou a sede que não acaba,
mulher mistérica nua na cama,
deus que sopra, ou uma má álgebra. 

Ou o assombro, ou o amar, e/ou a raiva. 

O pleno todo, o carente nada.
(Isidro Iturat )

NOTA AO LEITOR

          O texto a seguir constitui uma síntese das ideias que considero mais essenciais sobre criação poética que pude acumular durante os meus anos de exercício literário. A razão de sua existência provém da praticidade  que supõe dispor de um documento único, breve e de fácil consulta que possa ajudar a mantê-las presentes. Inicialmente, decidi realizá-lo como um apoio à minha própria tarefa literária, mas também pensando na possibilidade de que pudesse auxiliar o trabalho de outros autores.

 1. ADQUIRIR CONHECIMENTO

                                                     Retirado en la paz de estos desiertos,
                                                     con pocos pero doctos libros juntos…
                                                                                         Francisco de Quevedo

1.1. SOBRE AS LEITURAS

          Na hora de aprender sobre qualquer tema, é conveniente procurar primeiro as melhores obras e os melhores autores. Na abordagem de cada matéria, sempre existe aquele livro realmente capaz de expandir com verdadeira força a nossa visão do assunto, aquele autor que tem especial talento, especial capacidade para separar o importante do insignificante etc. A leitura de um só livro excelente pode aportar em poucos dias um alto grau de conhecimento que, de outra maneira, exigiria anos de leituras de uma qualidade mais diluída, além de mostrar aquilo que nunca chegaria a ser aprendido por outros meios.

           E, por extensão, cabe adotar a atitude de procurar sempre as melhores bibliotecas, livrarias, listados de bibliografia, centros de ensino e mestres possíveis.

           Um bom sistema para procurar bibliografia quando não dispomos de orientação pode ser, por exemplo, ir até uma biblioteca de uma universidade, idealmente aquela que tenha um maior prestígio em relação à matéria que queremos aprender (o acesso ao edifício e a consulta aos livros costuma ser possível mesmo que não sejamos alunos da instituição). Ali, podemos tentar reunir o maior número de livros sobre o tema e folheá-los para selecionar os melhores. Dentre todos, podemos escolher de um a três para leitura.

           Por que nas universidades? Simplesmente, porque os compêndios das obras mais refinadas costumam ser encontrados em suas bibliotecas, ou nos listados de bibliografia oferecidos em suas matérias (hoje em dia, estes últimos podem ser encontrados facilmente na Internet). Estas obras, justamente por ser as mais refinadas, também são ignoradas por quase todos com frequência, e chegam a deixar de ser editadas. Mas, por causa do interesse dos professores especialistas, sobrevivem nas prateleiras das bibliotecas universitárias.

           Caso não seja possível tal acesso, logicamente a pessoa terá de se adaptar à sua realidade: se não é na universidade, será na Internet, ou nas livrarias da própria cidade, ou na livraria de outra cidade porque a nossa não possui os livros etc., mas acima de tudo, tentar fazer sempre o máximo possível, custe o que custar, para ter acesso ao bom conhecimento.

           Nota: Gostaria de destacar ao leitor, que não vou sugerir aqui nada que eu mesmo não tenha experimentado e constatado como produtivo.

1.2. O MELHOR LEITOR É UM RELEITOR E UM MEDITADOR DAQUILO QUE FOI LIDO

          Primeiro, a frase de Gustave Flauvert[1]: “Como seríamos sábios se conhecêssemos bem somente cinco ou seis livros”; e depois, Arthur Schopenhauer[2]: “Meditação: só com ela nos apropriamos daquilo que lemos”.

           Estas ideias são especialmente necessárias em nossos dias, nos quais somos frequentemente impelidos a receber grandes volumes de informação e com grande velocidade, o que nos leva, em último caso, a interiorizar solidamente bem pouca coisa de tudo isso.

           Então, primeiro é necessário selecionar as leituras, ler e reler (sem esquecer de sublinhar, anotar, esquematizar etc.); depois, meditar profundamente sobre o que foi lido, caso a matéria valha a pena.
1.3. OS DICIONÁRIOS

          O hábito de utilizar os dicionários na hora de escrever é fundamental para manter nosso corpus particular de palavras em movimento e crescimento, contando também com que o processo de aprendizado oferece naturalmente altos e baixos, períodos de avanços lentos e rápidos, estancamentos, regressões e novos avanços. Este hábito, então, facilitará dispor do acervo expressivo necessário para quem pretende escrever, dominar fenômenos como a rima, superar a recorrência excessiva de determinadas palavras… ,ou seja, expandir o próprio universo interior.

           Os dois tipos mais necessários são:

           1º. O dicionário geral. Além dos motivos mencionados acima, será útil no momento da criação porque, com frequência, quando surge uma frase na nossa mente, alguma palavra nos parece atraente e não sabemos claramente o que significa. O dicionário confirmará se a mesma é adequada ao contexto ou não.

           2º. O dicionário de sinônimos e antônimos. É apropriado para o caso contrário, quando aparece no verso uma palavra cujo significado conhecemos, que expressa justamente a ideia desejada, mas precisamos de uma outra porque a sua forma não se harmoniza na frase ou quando incluída em um verso de medida regular, não tem o número de sílabas adequado.

           Outras sugestões que podem ajudar de acordo com a preferência pessoal: enciclopédias, dicionários de gírias, jargões, retórica, terminologia literária, filosofia, psicologia, sociologia, etimológicos, de símbolos etc.

1.4. ANTOLOGIAS E OBRAS INDIVIDUAIS

          Além de um primeiro contato com os autores, a leitura de antologias e manuais de história da literatura nos permitirá obter, relativamente em pouco tempo, uma visão panorâmica sobre a poesia de qualquer cultura de nosso interesse. Também é preciso levar em consideração que sem conhecer pelo menos as obras e recursos utilizados pelos poetas historicamente mais influentes, será mais fácil cair no equívoco de pensar que estamos inovando, quando, realmente, não é assim.

           Para adquirir um conhecimento amplo e ao mesmo tempo profundo, pode ser útil dedicar alguns períodos para obter esta imagem panorâmica da cultura e outros para focar em apenas um autor, abrangendo assim o geral e o específico.

1.5. EDUCAR O DISCERNIMENTO

          A leitura é qualquer coisa, menos algo inócuo. As modificações nas ideias e estados de ânimo podem ser radicais, principalmente na leitura dos grandes escritores, os quais costumam distinguir-se por saber fascinar através da forma. Isto pode significar, por exemplo, que sem nos darmos conta interiorizemos ideias que podem ser daninhas. Por isso, para o leitor e especialmente para o leitor-escritor, que depois de receber a mensagem se converterá em um novo emissor, é extremamente necessário se exercitar no discernimento, do que há de ser bom ou não, tanto para si mesmo como para os outros.

           Será recomendável meditar, tanto sobre as ideias quanto sobre os estados de ânimo que o texto induz. Por exemplo, depois de ler um autor que transmite niilismo com eficácia, podemos esperar sentir-nos deprimidos, desesperançados, coléricos etc.; diante de outro vitalista, sentir coisas como amor, coragem, alegria… Também será necessário ver o que queremos incorporar para nós mesmos, pois, em grande parte, somos aquilo que comemos.

           Não se trata, contudo, de eliminar de repente qualquer leitura que intuitivamente nos pareça ameaçante. De fato, não será incomum que uma obra seja de nosso interesse, por exemplo, para aprender sobre o seu estilo e que contenha realidades perante as quais sintamos aversão. Uma leitura abordada com os filtros críticos bem dispostos afetará em menor medida as nossas emoções. Então, delimitar o grau que permitiremos nos deixar levar pelo texto é sempre possível.
––––––––

Continua…

Fonte:
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