Jornais e Revistas do Brasil (Jornal de Timon)

Período disponível: 1852 a 1858 
Local: MA 
  
O Jornal de Timon foi fundado em 25 de junho de 1852, em São Luiz, no Maranhão pelo jornalista e historiador João Francisco Lisboa. Inicialmente uma publicação mensal, impressa na “Typographia Const. de I. J. Ferreira”, no nº 23 da rua da Paz, tratou especialmente de história política, não só do Maranhão mas também da Europa, seja, no caso desta última, na Antiguidade, Idade Média ou Idades Moderna e Contemporânea. Tomando de empréstimo o nome do filósofo grego conhecido por sua misantropia (Timon), João Lisboa acabou assumindo a alcunha de “o Timon Maranhense”, tendo entrado para história intelectual brasileira como o patrono da Cadeira nº 18 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

No formato pequeno predominante na época, próximo ao de livros, o Jornal de Timon trazia na página de rosto a epígrafe “Periculum dicendi non recuso” [“Não recuso tratar do que é perigoso”], frase do filósofo romano Cícero. O prospecto da edição inicial, de 25 de junho, expunha as razões do estilo crítico que João Lisboa iria imprimir ao seu jornal:

O obscuro canto do mundo que habitamos não podia escapar á sorte commum, e a epocha que nos coube atravessar, é uma daquellas em que o mal tem decidida preponderancia; (…) o mal vil e despresível, o lodo, a baixeza, a degradação, a corrupção, a immoralidade, toda a casta de vicios enfim, tormento inevitavel dos animos generosos que os cegos caprichos do acaso designaram para espectadores destas scenas de opprobio e de dor. Timon, antes amigo contristado e abatido, do que inimigo cheio de fel e desabrimento, emprehende pintar os costumes do seu tempo, encarando o mal sobretudo, e em primeiro logar, senão exclusivamente, sem que nisso todavia lhe dê primazia, ou mostre gosto e preferencia para a pintura do genero. Ao contrario, faz uma simples compensação, porque o mal, nas apreciações da epocha, ou é esquecido, ou desfigurado.”

Essa edição trazia uma avaliação das experiências eleitorais ao longo da história. Na parte inicial, tratava das eleições na Antiguidade, especificamente em Atenas, Esparta e na Roma republicana e imperial. Na parte seguinte, tratava das eleições na Idade Média e na Idade Moderna, atendo-se à Roma católica, Inglaterra, Estados Unidos, França e Turquia. 

Nas três edições seguintes, publicadas em 1852 e 1853, o foco era dirigido para a história política da Província do Maranhão. Em estilo pungente e, em não poucas vezes, irônico, mas sempre fundado em ótica liberal, o jornal do “Timon Maranhense” teceu duras críticas aos costumes políticos de sua época, tendo por objeto os processos eleitorais e a atuação dos partidos políticos e da imprensa. Não lhe escaparam as cerimônias oficiais, as relações entre o governo e a Igreja, entre a imprensa e o governo, as instalações e logística oficiais, particularidades dos partidos políticos locais, atuação dos líderes locais, articulações e dissoluções partidárias, questões econômicas maranhenses, perseguições a quilombos, rivalidades e tumultos de ordem política, a opressão violenta do poder público com espancamentos e mortes, festejos populares, corrupção eleitoral, relações da província com o poder imperial, o desenvolvimento do indivíduo e do país por meio do trabalho e da produção de riqueza etc.

Na quinta edição, o Jornal de Timon iniciou uma longa série, que duraria até o último número, intitulada “Apontamentos, notícias e observações para servirem á História do Maranhão”. O número pareceu dividido em três livros. O primeiro abordou o Descobrimento da América e do Brasil, o início da colonização do Maranhão, particularidades de antigos exploradores e cronistas do Descobrimento, a divisão do Novo Mundo por Portugal e Espanha e, por fim, o sistema de capitanias hereditárias. O segundo tratou da invasão francesa no norte do Brasil (incluindo a ocupação francesa no Maranhão), expedições portuguesas visando à extirpação dos franceses, batalhas e tréguas e o fim da invasão francesa no Brasil. E o terceiro livro focalizava a invasão holandesa no norte brasileiro, com a tomada do Maranhão pela armada holandesa, saques e deportações de importantes habitantes de São Luís, a insurreição popular contra o domínio estrangeiro, o cerco português à capital maranhense, atrocidades e devastações durante os conflitos, batalhas e conflitos cruciais até o fim da presença holandesa no Brasil.

Após a quinta edição, a publicação de João Francisco Lisboa passou a reunir várias edições em um único volume. Ainda em 1853, um único volume, com 420 páginas, publicava os números 6, 7, 8, 9 e 10. Este volume 6-10 dava prosseguimento à publicação dos “Apontamentos, notícias e observações para servirem á História do Maranhão”. Assim, o quarto livro trazia um “Parallelo das invasões franceza e holandeza”. O quinto e o sexto estudavam questões e particularidades ligadas aos povos indígenas brasileiros, com suas culturas e costumes, organização social e meios de subsistência, crenças espirituais e línguas, escravidão e relações gerais com os invasores europeus, o definhamento frente ao processo de colonização, a antropofagia de prisioneiros em algumas tribos, as impressões e interpretações de Pero Vaz de Caminha e do padre Antônio Vieira, a legislação portuguesa e bulas papais sobre os indígenas, além de particularidades de tribos e comunidades em toda a América setentrional. O sétimo e o oitavo livros, por sua vez, tratavam exclusivamente da relação entre indígenas e os jesuítas, abordando princípios gerais e doutrinas da ordem jesuítica, a figura de Ignácio de Loyola, a missão de São Francisco Xavier no Oriente, a chegada da ordem ao Brasil, lutas entre jesuítas e colonos pela libertação indígena, missões no Maranhão, a vida e a atuação do padre Antônio Vieira, episódios marcantes na história da atuação dos missionários na colônia etc. 

A periodicidade do Jornal de Timon não foi regular. De acordo com o verbete sobre João Francisco Lisboa no site da Academia Brasileira de Letras, “Os cinco primeiros números [do Jornal de Timon] circularam mensalmente. Somente em 1854 saíram, em volume [único] de 416 páginas, os fascículos de 6 a 10”. A pausa na publicação após 1854 deu-se pela transferência de João Lisboa para o Rio de Janeiro em 1855. Depois de curto período na capital brasileira, o maranhense “partiu para Lisboa, incumbido pelo Governo Imperial de coligir, em Portugal, documentos e dados elucidativos da história brasileira”. 

Depois de alguns anos sem circular, por volta de março de 1858 foi lançado o nº 11/12 do Jornal de Timon, em Portugal. A impressão foi na Imprensa União-Typographica, no nº 113 da rua dos Calafates. A edição vinha com um texto explicativo aos assinantes: 

“A regularidade da publicação (…) foi embaraçada por diversas circumstancias. Quando sahimos da província [do Maranhão] em 1855 faltavam ainda dous numeros (cento e sessenta a dusentas paginas) para completar-se o programma. Prevendo o quanto as nossas viagens ao Rio e á Europa poderiam retardar o pagamento desta divida, offerecemos desde logo restituir o importe correspondente das assignaturas; mas nem um só subscriptor se quiz aproveitar deste direito, e todos preferiram esperar. Penhorado por esta lisongeira prova de confiança e benevolencia, o auctor tem hoje a satisfação de apresentar-lhes os n.os 11 e 12 do Jornal de Timon, duplicando o numero das paginas devidas, como uma especie de compensação á longa demora.”

Mesmo com o hiato na periodicidade, o nº 11/12 prosseguiu com os “Apontamentos, notícias e observações para servirem á História do Maranhão”, tratando de assuntos gerais relativos ao Maranhão e ao Brasil coloniais. Em perspectiva analítica, a edição abordou o regime absolutista, as primeiras tentativas de colonização do Maranhão, o governo de Ruy Vaz de Sequeira e de alguns de seus sucessores, a destruição de tribos indígenas locais, a legislação colonial, as questões acerca da fundação do governo geral da Bahia, a magistratura e o clero, questões concernentes às ordens religiosas no Brasil, instituições e figuras públicas maranhenses, organização social das capitanias, legislação criminal e para imigrantes, expedições militares, escravidão e liberdade de indígenas e povos africanos, questões ligadas a atividades econômicas (comércio, indústria, agricultura, navegação, monopólios, privilégios, legislação etc.), a Revolta de Beckman em 1684, administração pública imperial (inclusive os episódios de corrupção e incompetência), estatísticas provinciais e documentos oficias, usos e costumes maranhenses, entre outras coisas. A edição 11/12 foi a última.

Doublé de jornalista e historiador, João Lisboa enfrentou certa resistência da Academia Brasileira de Letras, sobretudo por causa de seu jornal. Ainda de acordo com o verbete da ABL, o intelectual “Atacou, entre outros, [Francisco Adolfo de] Varnhagen, pelo método que empregou na História do Brasil. Apareceu, então, em Lisboa o panfleto Diatribe contra a timonice. Seu autor, disfarçado sob o pseudônimo de Erasmo, era o cunhado do próprio Varnhagen, Frederico Augusto Pereira de Moraes. Também Varnhagen replicou no opúsculo Os índios bravos e o senhor Lisboa.”

Em 1995, a editora Companhia das Letras publicou o livro Jornal de Timon: partidos e eleições no Maranhão, organizado por José Murilo de Carvalho, que transcreve o segundo e o terceiro volumes do jornal Em 2004, o vol. 28 das Edições do Senado Federal republicou os números 1, 2, 3 e 4. Esse volume encontra-se disponível para consulta no site da Biblioteca Digital do Senado Federal: http://www2.senado.gov.br/bdsf/item/id/1098

Bibliografia

 1. João Francisco Lisboa. Academia Brasileira de Letras. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=891&s… Acesso em 3 jul. 2012.
 2. Jornal de Timon – Partidos e eleições no Maranhão. Companhia das Letras. Disponível em: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10528 Acesso em 3 jul. 2012.
 3. LISBOA, João Francisco. Jornal de Timon. Eleições na Antiguidade. Eleições na Idade Média. Eleições na Roma Católica, Inglaterra, Estados Unidos, França, Turquia. Partidos e eleições no Maranhão. Edições do Senado Federal – Vol. 28. Brasília: Senado Federal, 2004. Disponível em: http://www2.senado.gov.br/bdsf/bitstream/id/1098/4/714621.pdf Acesso em 3 jul. 2012.

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