Lourenço do Rosário (Conto Moçambicano: O Coelho e o Cágado)

O coelho e o cágado eram amigos.

Certo dia, combinaram semear, juntos, feijão jugo.

Quando o feijão ficou maduro, colheram-no e foram cozê-lo.

Enquanto preparavam a refeição, o coelho disse: “Amigo, lembrei-me agora que tinha de ir dar um recado a uma pessoa. Não me demoro, volto já”. O cágado prometeu que esperaria por ele.

Tendo-se afastado uns metros, o coelho começou a atirar pedras contra o companheiro. Este, vendo-se numa situação inesperada em que corria o perigo de apanhar uma pedrada, fugiu e deixou abandonada a panela do feijão. Então, o coelho aproximou-se e comeu tudo sozinho. Depois espalhou as cascas à volta. Quando o cágado regressou, passado o medo, o coelho mostrou-se aborrecido. O cágado pediu desculpas e disse: “Se calhar foram os macacos”. “Se calhar”, respondeu o coelho.

Nos dias seguintes, o coelho repetiu a cena e foi comendo sozinho o feijão.

Um dia, o cágado que já havia muito que andava desconfiado daquelas saídas do coelho à mesma hora, fingiu que fugia quando o coelho começou a atirar-lhe pedras. Escondeu-se por detrás de uns arbustos e observou atônito quem era afinal o autor das pedradas. E resolveu por sua vez pregar-lhe uma partida. Disse o cágado: “Olha amigo, desde que colhemos o feijão, não nos lembrámos dos espíritos dos nossos antepassados. Eles habitam este riacho. Se calhar até são eles quem nos anda a atirar pedradas. Atiremos, pois, algum feijão para o rio”. O coelho, que respeitava as crenças e ficava cheio de medo quando se falava em espíritos, concordou com o cágado e atiraram todo o feijão à água. O cágado, que tem possibilidades de viver na água e fora dela, entrou para dentro do rio e comeu o feijão todo. A cena repetiu-se nos dias seguintes.

O coelho não estava a gostar da situação. Desconfiado, enfiou um dos feijões num anzol. Quando o cágado mergulhou para comer o feijão, comeu o que tinha o anzol e o coelho pescou-o.

A partir daí, a amizade entre ambos terminou.
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Outra versão do quarto parágrafo:

“Tendo-se afastado uns metros, o coelho despiu a pele e ficou completamente pelado. Voltou para junto do cágado e disse: “Compadre, olha o animal pelado”. O cágado ficou apavorado e fugiu, deixando a panela do feijão. O animal pelado, que era o coelho, aproximou-se e comeu o feijão todo. Depois espalhou as cascas. Quando o cágado regressou, o coelho mostrou-se indignado, pois já tinha vestido a sua pele. O cágado disse: “Se tu estivesses, fugias como eu”. O coelho respondeu: “Talvez”.
Fonte:
Lourenço Joaquim da Costa Rosário. Contos moçambicanos do vale do Zambeze. Moçambique: Editora Texto/Leya, 2001.

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