Lourenço do Rosário (O Coelho e o Leão)

O coelho e o leão eram amigos.

Um dia, o leão foi a casa do coelho para o convidar a acompanhá-lo a casa dos futuros sogros como seu ajudante.

No fundo, o que o leão queria era humilhar o coelho e acabar de uma vez para sempre com as suas malandrices. O coelho aceitou ir com ele.

No dia combinado, partiram os dois. A meio do caminho, disse o leão apontando para as folhas de um arbusto: “Olha, coelho, se, por acaso, durante a refeição, eu me queimar com a comida e gritar por remédio, já sabes, vens a correr e colhes o que te pedir deste arbusto”. O coelho, sem se perturbar, disse que sim. No entanto, tratou de se prevenir porque lhe cheirou logo a uma armadilha. Deixou cair uma faca e continuou viagem com o amigo. Já as casas estavam à vista quando o coelho exclamou: “Oh! mas eu não trago aqui a minha faca. Voltemos para procurá-la”. Ele sabia que o leão não aceitaria a ideia de ter de voltar só para procurar pela faca. “Vai sozinho. Não estou para perder tempo indo procurar por uma faca que não se sabe onde a perdeste”, respondeu-lhe o leão. O coelho queria exactamente aquilo. Correu logo e foi para junto do arbusto. Cortou folhas, raízes, partes de tronco. Secou algumas folhas, fumou outras e o mesmo fez com o caule e as raízes.

Quando chegou a casa, encontrou o leão a conferenciar com os futuros sogros mais a rapariga pretendida. O coelho chegou a tempo de ouvir o pai da rapariga dizer: “Não pense senhor leão que é o único. Por isso eu darei a minha filha ao pretendente que demonstrar maior esperteza. O tempo que ficar cá há-de estar em constante prova”.

Durante o almoço, o leão começou a gritar: “Salva-me amigo”. O coelho percebeu logo o que o leão queria, correu e foi buscar tudo quanto tinha trazido do arbusto. Apresentou primeiro as folhas. O leão pediu: “Quero-as fumadas, trouxeste verdes não prestam”. O coelho apresentou de imediato as folhas fumadas. O leão percebeu que o coelho não tinha caído na armadilha, mas experimentou pedir cinzas do caule do arbusto. O coelho trazia-as. O leão pediu as raízes cortadas às rodelas. O coelho trazia-as. Ao fim e ao cabo, o coelho trazia tudo quanto o leão quis pedir. Não teve outro remédio senão fazer um chá com tudo aquilo e toma-lo. Enquanto isso, o coelho saboreava a comida dos dois.

À noite, a mãe da rapariga apresentou uma boa esteira e uma casca de árvore. O coelho, que sabia que aquilo fazia parte das provas para casar com a rapariga, aceitou logo a casca de árvore, pensando o leão que aquele gesto era de respeito para com ele. O leão disse para consigo: “Ainda bem que o miúdo aceitou a casca de árvore, assim não se discute quem vai dormir na esteira…”

Durante a noite, enquanto dormiam, a esteira onde se encontrava o leão foi-se transformando em cordas que se enrolavam no leão, manie-tando-o totalmente. O coelho, esse, dormia profundamente na sua casa de árvore.

No dia seguinte, o leão acordou ridiculamente amarrado e envergonhado com a figura que estava a fazer perante a sogra e fugiu para não voltar. O coelho foi recebido como genro e casou com a rapariga.

Fonte:
Lourenço Joaquim da Costa Rosário. Contos moçambicanos do vale do Zambeze. Moçambique: Editora Texto/Leya, 2001.

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Arquivado em Contos, Moçambique

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