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Trova 257 – Mário de Sá-Carneiro (Lisboa/Portugal)

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31 de março de 2013 · 00:55

A. A. de Assis (Revista Virtual de Trovas “Trovia” n. 160 – Abril de 2013)


A mais triste solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração…
olhar e não ver ninguém!
Ademar Macedo – RN

Eu creio em Deus, com profundo
sentido de lucidez…
Mas, no Deus que fez o mundo,
não no Deus que o mundo fez!
Alfredo de Castro – MG

Não é quando vais embora
que tenho ciúmes assim.
É quando estás como agora,
pensativo, junto a mim…
Carolina de Castro

O livro, a cerveja ao lado,
o rádio, o abajur antigo…
Eu deixo tudo arrumado,
fingindo que estás comigo.
Maria Tereza Noronha

Foi por falta de carinho
que errei e perdi meus passos,
mas bendigo o “mau caminho”
que me levou aos teus braços…
Nádia Huguenin

Por aparências não deve
ninguém tirar conclusões:
conheço seios de neve
tendo o calor dos vulcões…
Oscar Batista
 


O velho tudo trocava
(de namorada, também).
– Como vassoura – explicava –,
a nova é que varre bem!
Adélia Woellner – PR

– Quando saiu… a maninha
foi com “mãinha” ou foi só?
– Sei não! Mas voltou “mãinha”,
quando chegou do forró!
Jaime Pina da Silveira – SP

Ao fazeres repreensão,
não te esqueças do lembrete:
melhor que “passar sabão”
será  “passar sabonete”…
José Fabiano – MG

No sonho de uma lagarta
asas planam na vereda.
 Mas, casulo, não descarta
virar calcinha de seda.
José Marins – PR

O terapeuta sugere:
– “Apimente” a relação!
Mas a mulher interfere:
– “Tô” fora!… Pimenta, não!
Lucília Decarli – PR

Quem quer agradar a dois
e em cima do muro fica
perde o primeiro, e depois
o segundo… e se trumbica.
Osvaldo Reis – PR

Tem três fases na gaveta
da vida de um velho pai:
a de rei, a de careta,
e a de bom, quando ele vai.
Raymundo Salles Brasil – BA

Moderninha como quê,
vovó diz no “facebook”:
– Quero entrar no BBB!…
Vou dar “upgrade” em meu “look”!
Renato Alves – RJ
 

Que tristeza ouvir um santo,
um sábio, um poeta, um rei,
ao peso do desencanto,
dizer ao mundo: – Cansei!
A. A. de Assis – PR

Costumo dizer que a trova
é diminuta poesia,
mas que sempre põe à prova
a nossa sabedoria.
Agostinho Rodrigues – RJ

O meu humilde barquinho
à praia eu fiz aportar.
Vim procurar o carinho
que teimas em me negar.
Alberto Paco – PR

Que a verdade não se cale
ou que sempre nos lembremos
de que nossa vida vale
pelos amigos que temos!
Aluízio Quintão – MG

Meu amor, botão ainda,
desabrochou na alvorada,
e agora é uma rosa linda,
mas de saudade orvalhada…
Amaryllis Schloenbach – SP

Enquanto o tempo ameaça
com seus bloqueios constantes,
o amor entorna uma taça
no banquete dos amantes.
Antonio Cabral Filho – RJ

Vou sem rumo, de partida,
nas águas do meu sonhar;
– a jangada é minha vida,
vou remando além do mar.
Ari Santos de Campos – SC

A praia é sempre pisada,
mas nos dá grande lição,
pois, mesmo sendo humilhada,
massageia o coração.
Arlene Lima – PR

A minha roça eu troquei
pelas luzes da cidade.
Nesse dia eu comecei
meu plantio de saudade!
Arlindo Tadeu Hagen – MG

Quando a saudade me embala,
o teu nome a repetir,
o silêncio tanto fala,
que não me deixa dormir!
Carolina Ramos – SP

Por timidez, dei as costas
ao amor que eu sempre quis…
– E a vida deu-me as respostas
às perguntas que eu não fiz!…
Clenir Neves – Austrália

No meu giro de lembranças,
as pequenas coisas tecem
doce teia de esperanças,
e as saudades se amortecem…
Clevane Pessoa – MG

Entre o sonho e a realidade,
vendo o meu filho eu pensei:
eis a mais bela verdade
de tudo quanto sonhei.
Conceição de Assis – MG

El mundo gira hechizado,
baila samba su tesoro
de Brasil su enamorado,
!No lo cambia ni por oro!
Cristina Oliveira (Colibrí) – USA

Cem vezes tu repetiste
que me amavas loucamente…
Cem vezes tu me mentiste
e cem vezes eu fui crente!
Delcy Canalles – RS

Lua, que vagas, serena,
na amplidão do azul celeste,
traz consolo à minha pena,
leva a dor que me trouxeste!
Diamantino Ferreira – RJ

A minha grande alvorada
será eterna… eu suponho:
– Se um sonho não der em nada
eu troco por outro sonho!
Dilva Moraes – RJ
 Quero ser sempre a criança
com desejo de estudar,
curiosa e na esperança
de nunca me completar…
Dinair Leite – PR

A vovó não tem memória:
perde os óculos… na testa!
Mas jamais esquece a história
da varanda… e uma seresta!…
Domitilla B. Beltrame – SP

Sou livre, sem restrição,
mas afinal, para quê?
Mil vezes a escravidão…
mas juntinho de você.
Dorothy J. Moretti – SP

Já tive família e nome,
posição…luxo também,
mas de mim fiz um pronome
indefinido: ninguém!
Élbea Priscila – SP

Urge o tempo, faz-se escasso,
e, ao sofrer na despedida,
o nosso amor, sem espaço,
mostra a vida não vivida.
Eliana Jimenez – SC

Carícias íntimas, belas,
minha maior emoção
foram chutes nas costelas:
meus bebês em gestação!
Eliana Palma – PR

Eu não me prendo à verdade
e à razão sempre me imponho,
porque toda a realidade
antes de tudo foi sonho!
Elisabeth Souza Cruz – RJ

Este silêncio, tão mudo,
que o nosso olhar escondia,
nos fez sentir quase tudo
de tudo o que eu já sentia!
Eva Yanni Garcia – RN

Na ausência que não nos poupa,
saudade é formiga arisca
que fica dentro da roupa
e volta e meia belisca.
Flávio Stefani – RS

Minha renúncia…Quem sabe…
não seja a chave secreta,
de tudo quanto só cabe
na inspiração de um poeta!
Francisco Garcia – RN

Saudade é o tempo guardado
dentro do peito da gente…
Nó que se dá, no passado,
e se desfaz no presente.
Francisco Pessoa – CE

Meia-noite e eu te espero…
É grande a minha ansiedade.
Vem, amor! Vem que eu te quero;
és minha felicidade!
Gislaine Canales – SC
 
Na resposta, que não veio,
certeza e desilusão;
você não quis que o correio
fosse cúmplice de um não!
Istela Marina – PR

Precisa o mundo, imperfeito,
saber o quanto é capaz
a ausência de preconceito
de ser prenúncio de paz.
Jeanette De Cnop – PR

Com meus sonhos mais singelos,
embalados na esperança,
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
Jessé Nascimento – RJ
 
O tempo passa, não para,
mas meu amor por você
é como o canto da Iara:
um coração… à mercê.
José Feldman – PR

A preguiça dos ponteiros
de meu velho carrilhão
mostra os minutos ronceiros
das noites de solidão!
José Lucas de Barros – RN
 
Sonhei um sonho tão triste!…
Sonhei que o mundo acabou…
– Logo depois, tu partiste,
e o sonho se confirmou…
José Ouverney – SP
 

Em cada nota eu receio,
na pauta que a vida escreve,
que transformem nosso enleio
numa simples semibreve.
Luiz Carlos Abritta – MG

Trovadores… luz… ribalta!
No cenário: a poesia.
Trova nasce… verso salta…
na maior coreografia.
Mª das Graças Stinglin – PR

Em tua ausência, a esperança
põe seus véus na realidade,
mas quem vive de lembrança
morre aos poucos… de saudade!
Maria Lúcia Daloce – PR
 
Para escrever os sentidos,
companheiros de ilusão,
não servem versos contidos:
tem que abrir o coração.
Mário Zamataro – PR

Um romântico poeta
tem seu dia, sim senhor,
e por ser do amor esteta,
com certeza é um trovador!
Maurício Friedrich – PR

Lá fora nada me importa,
e esqueço da vida ingrata,
quando você fecha a porta…
e tira o nó da gravata!
Neide Rocha Portugal – PR
 
Xeroquei a sua imagem
e guardei na minha mente;
sempre na minha abordagem
é você que está presente.
Neiva Fernandes – RJ

Coragem: medo vencido…
Fé em Deus, em nós, na lida.
Nunca nada está perdido
se há amor em nossa vida.
Olga Agulhon – PR

Tua imagem refletida
no espelho do nosso quarto
mostra a saudade sentida
que só contigo reparto.
Olga Ferreira – RS
 
Entre esperas e procuras,
encontros e despedidas,
somadas, nossas loucuras
dão mais vida a nossas vidas!
Rodolpho Abbud – RJ
 

Um coração congelado
pega fogo de repente,
quando o amor, fósforo alado,
risca faíscas na gente!
Roza de Oliveira – PR

Quem dera se a vida fosse
mais simples de ser vivida:
nem todo regresso é doce,
nem sempre é amarga a partida…
Selma Patti Spinelli – SP

Nas noites frias, um drama
que a miséria perpetua:
alguns chamarem de cama
o que outros chamam de… rua !
Sérgio Ferreira da Silva – SP

Tira-me o sono um passado
não distante do presente:
– Eu tomei o “bonde errado”
do teu sorriso inocente.
Thalma Tavares – SP

Somos dois… mas  somos um!
Temos tanta afinidade
que, entre nós, tudo é comum,
até  mesmo a identidade…
Thereza Costa Val – MG
 
O peso do tempo é brando,
se carrego este preceito:
Ao poente vou chegando,
mas tenho auroras no peito.
Vanda Queiroz – PR
 

Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!
Vânia Ennes – PR

Partiu… nem disse o motivo,
e eu, da saudade à mercê,
estou viva, mas não vivo,
pois não vivo sem você.
Wanda Mourthé – MG
 
Felicidade é a rota
do sábio… Que vai além!…
O que possui não se esgota,
mesmo entregando o que tem!
Wagner M. Lopes – MG

O tempo passou… e agora…
já é mais que entardecer,
mas tua presença é aurora
na noite do meu viver.
Zeni de Barros Lana – MG

Fonte:
A. A. de Assis

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Roseline de Jesus Pedroso (Poemas Avulsos)

CANÇÃO

Quando a noite desce
e a escuridão se esconde
no brilho das estrelas;
a lagoa dorme em seu leito de prata
e, no breu da noite se arrepia
encrespando a superfície fria
onde a lua espia e sua luz resgata.

A dor desaparece
numa paz sem nome, rústica e tranqüila…
mesmo que não se possa vê-las,
com seus olhos brilhantes, sobre a mata
as estrelas esperam vir o novo dia
e o sol esparramar sua cascata
de luz para aquecer o homem.

E Deus, que lá da imensidão
dirige os astros e equilibra o mundo,
volta seus olhos, com amor profundo,
para a lagoa, sorri e então diz
ao vento pra compor uma canção
de paz e, ao mesmo tempo, uma lição
para ensinar o homem a ser mais feliz.

NAVEGAR  É  PRECISO…
No mar desta nossa vida
existem muitos revezes,
mil perigos, vagalhões
muitos piratas, ladrões
que querem nos afogar

Choramos, sim ,muitas vezes,
quantas for preciso chorar,
muitas batalhas perdemos,
mas outras iremos ganhar.
Nem tudo é como queremos,
mas temos que navegar.

O  porto ainda está distante,
“âncora é outro falar”…
tesouros, flores, diamantes,
vamos todos encontrar
quando enfim, como sonhamos,
a nossa hora chegar.

O nosso lugar na vida
é onde devemos estar,
hoje aqui: em outro momento
haveremos de mudar,
pois  nosso devir nos ensina
que, mesmo contra o vento,
“outras velas, outros remos`´ 

É preciso navegar1

VIDA NA ROÇA

Naquele tempo de infância,
lá no meio do sertão,
vivíamos tão felizes
brincando de pé no chão:
meu  pai plantava e colhia
a cana, o milho e o feijão,
moia a cana e fazia
rapadura de montão;
mamãe era professora
na escolinha da região.

E que escolinha tão boa,
foi nela que eu aprendi
os sábios ensinamentos
que nunca mais esqueci,
que é ser honesto e sincero
pra ter paz no coração;
ler e escrever direitinho
para ser bom cidadão.

Lembro a bulha do riacho,
correndo manso no chão
e o marulhar da cachoeira
cantando lá no grotão.
Eram uma festa pros olhos
os campos cheios de cores
e o pomar da minha casa
carregadinho de flores.
Os sonhos que então eu tinha
eram tão cheios de amor…
não tinha pressa nenhuma,
não tinha nenhuma dor…
De manhã, logo cedinho,
pra roça meu pai saía
e minha mãe me chamava
para ver nascer o dia.

Ela cuidava da casa,
da horta e dos animais
depois saía pra  escola
que era o que gostava mais.
À noitinha, todos juntos,
lá, em volta do fogão,
cantavam causos e lendas
e contos de assombração.

Meu pai falava de tudo
o que era sua vida então
e minha mãe estava sempre
às voltas com a correção
dos cadernos dos alunos
que eram sua paixão.

Todos os fins de semana
tinha muita diversão,
ia pousar lá no sítio
de meu avô Napoleão.
A minha avó me acarinhava
com bolinhos de polvilho,
tinha doce de caixeta
e deliciosos sequilhos,
um macarrão feito em casa
com  um pretinho feijão,
e, na chapa do fogão de lenha
era onde  assava o pinhão.

Ai. que saudades que tenho
daquele tempo de então,
do café, que a mãe torrava
e socava no pilão,
do leite tirado na hora
que eu  bebia no galpão
e, no inverno o que aquecia
era um bom fogo de chão.

A gente era muito pobre,
luz só tinha de lampião
e a cozinha lá de casa
de terra batida, o chão…
mas tenho muita saudade                 
daquela vida de então,
quando a gente era criança
e a vida era só canção
de passarinhos cantando
lá no meio do sertão.

CLASSIFICADOS

Procura-se:
O dia de ontem, o canto da  fonte,
o riso, a brisa, e a carroça velha
passando na ponte;
o chapéu de palha,
a botina gasta, a enxada,
a foice e  a capinada
e a paz perdida com o pó da estrada.

Procura-se:
O sonho, a saudade,
os causos e as modinhas
à luz do lampião;
a conversa mansa, o fogo de chão;
o prato de sopa
e a gente esperando assar o pinhão…
o som do riacho; o bater da roupa
e o frescor da água
escorrendo junto ao suor do rosto
e a paz, a paz que o cansaço traz.

O capim verdinho
e o cheiro da terra úmida de orvalho;
o feijão colhido, fruto do trabalho
sobre o assoalho de terra batida;
o fogão a lenha; o bolinho frito
na gordura quente
que juntava água na boca da gente…
E a paz, a paz, que o cansaço traz.

Procura-se:
A mão calejada no bater da enxada;
a chuva bendita renovando a vida
e o som do sino,
a reza do Divino
na velha capela na curva da estrada;
o caboclo magro fumando um palheiro
à sombra do galpão.

Procura-se:
a fonte da honestidade e da retidão;
o Norte, o horizonte guardando a esperança
e o fim da caminhada
e a paz, a paz que o cansaço traz.

PRECE  EM SONETO

Ascende aos céus a voz dos pobrezinhos
e a luz opaca, o pouco de esperança
que ainda nutre os olhos dos velhinhos
reflete-se nos olhos das crianças…

Em busca de poder, de glória e fama,
nem mesmo isso estamos conseguindo!
A insônia visitando a nossa cama,
não mostra rumo certo,  nem caminhos!

É urgente, no escuro onde hoje estamos,
que busquemos encontrar a luz perdida
para reacender aquela antiga chama…

e, nas páginas que ainda não viramos,
em um lugar qualquer de nossa vida
alguma história nova construamos..

PERENIDADE
Uma vida  só não me basta…
quero muito mais que isto:
quero ouvir velhas histórias
e encontrar velhos amigos
nas brancas casas de pedra
na beirada do horizonte.

Uma vida  só não me basta…
quero mil flores na estrada
para enfeitar o futuro.

Uma vida  é muito pouco;
preciso mais que uma vida
para subir às montanhas
nas asas das borboletas,
tomar banho de cascata;
para rir com as crianças
e falar tantas bobices
quantas me der na veneta.

Uma vida é muito pouco
para conhecer o mundo,
tão longe, infinito mundo…
Uma vida é muito pouco
para ouvir o mar batendo
na ardente franja da praia.
Para estar com quem eu amo
preciso da eternidade
e a paz do  sonho mais louco.

ABRAÇO

Não  te amei porque quis,
mas amei-te desde aquela noite
em que te vi pela primeira vez….
não te amei por seres belo
nem por seres forte…
Importa o motivo, se é que ele existe?
O que importa
é o abraço de tua presença
que me envolve sempre,
mesmo que não estejas comigo.
Teus passos ecoam
no silêncio da minha solidão.
Não te ouço a voz,
mas tua suave lembrança
é como um eco de paz em minha inspiração,

INCERTEZA

As estrelas existem  p’ra brilhar
e as flores para colorir os campos
os passarinhos vivem a cantar
e voar acima das ilusões humanas…
é o chão do homem que o prende e ancora,
o imã que o atrai à infelicidade.
É pena o homem não saber voar,
nem deixar que se espalhe sua luz
escondida sob a cama, atrás de portas fechadas…
onde as chaves?

Como abrir o coração à luz,
a essa luz perfeita que nos faz chorar?
como entender a paz que não chegou ainda;
uma promessa apenas de encontrar a luz?
Como sair à rua e gritar ao mundo,
se o mundo todo já gritando está
de dor tamanha e de tristeza tanta?

Onde a paz, onde a luz no coração humano?

Os homens humilhados,
os jovens drogados
e as crianças famintas
serão capazes de encontrar a luz?
Os anjos sabem tudo…
e as lágrimas dos anjos se derramam
nas páginas do livro onde teimo em escrever a paz.

O TEMPO

O tempo vai passando…
com seu sorriso irônico,
esgueirando-se pelos cantos
da boca da vida.
O tempo vai cansando
de olhar o passado
na ânsia de voar no presente
e de chegar ao futuro,
de esvair-se sem jeito,
sem mudança, sem brilho nenhum.

E o futuro do tempo presente
é feito um sonho ausente.

Esgueira-se o tempo
Por entre as frestas do pensamento,
escorre o tempo
por entre os dedos do vento…

Voa  cantando, passa chorando,
sempre voando
e vai plantando
rugas na cara dos desatentos,
com desalento,
com estertores de grandes dores.

Como um cavalo de branca crina
passa trotando pela campina
ao sol poente…
lá vai o tempo
levando os sonhos
da gente.

Voa tempo!
Ainda há tempo para mudar
enquanto é tempo!


Fonte:
A Autora

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Roseline de Jesus Pedroso

Roseline de Jesus Pedroso nasceu em Tibagi, filha de Anibal Pedroso e Leopoldina Bittencourt Pedroso.

1958 – Concluiu o ensino fundamental, em Tibagi.

Estudou o 1º ano do Curso de Magistério, em Ponta Grossa.

De 1961 a 1964, trabalhou como professora estadual.

Em 1987, concluiu o Curso de Magistério e no mesmo ano, foi contratada e começou a trabalhar na Rede Municipal de Ensino de Telêmaco Borba, como professora.

Em 1995 – concluiu o Curso de Pedagogia na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Foi docente e coordenadora do Curso de Pedagogia da FATEB e da Faculdade de Educação, Administração e Tecn Pedagoga com Especialização em Orientação Educacional e Alfabetização pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Desde 2005 –  coordenadora da Educação de Jovens e Adultos – Fase I – Secretaria Municipal de Educação de T. Borba

2012 –  Colégio Estadual Wolff  Klabin – pedagoga – tutora do Curso profuncionário

1995 – classificada em 1º lugar no Paraná e em 2º lugar no Brasil – Concurso 15 de outubro – Por uma Escola de Cidadãos com o relato de sua prática.
Título do trabalho premiado: Redimensionar a pratica pedagógica; um desafio e uma necessidade permanente.

Produções na área da Educação

O medo e as narrativas. In:  Medos, medinhos, Medonhos: como lidar com o medo infantil – vários autores. Publicado em 2004 – Editora Unijuí – R. G. do Sul.
Caderno Pedagógico da Educação de Jovens e Adultos. T. Borba: Secretaria Municipal de Educação, 2007
Histórias dentro da história : A história da educação em Telêmaco Borba – (ainda no prelo)
Questões pedagógicas que merecem ressignificação, Publicado em 2012

Desde 2006, vem desenvolvendo com os professores e os alunos da Educação de Jovens e Adultos um projeto de leitura intitulado Mala da Poesia, a partir do qual organiza e coordena os livros de textos e trabalhos dos alunos da EJA,  publicados pela Prefeitura Municipal, através da Secretaria Municipal de Educação.

Livros de poemas publicados :
2001: Vida

2006: Palavras de esperança 
2007: Nossas palavras
2008: Arte e vida: experiências significativas  (
livro de poemas e desenhos) 
2009: AçãoeducAção pela arte e a palavra (livro de poemas e desenhos)
2010: A leitura da palavra nas palavras da memória (livro de poemas e desenhos) 
2010: Poemas Escolhidos
2011: Memórias de um tempo passado sempre presente.
2012: Pensamentos poéticos.

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Aparecido Raimundo de Souza (Galho Torto)

O motorista estancou, obedecendo a ordem.

Entretanto, ninguém deu as caras com a intenção de ficar naquele lugar. Todos olharam para os lados, outros resmungavam. Um velhinho chamou a atenção pedindo ao engraçadinho que fosse fazer palhaçadas nos quintos do inferno:

— Se manca, pô!…

O carro voltou a se movimentar. A solicitação foi novamente acionada:

— Um minutinho, “motor”…

Em meio à multidão que mais parecia sardinhas em lata, uma jovem beirando os vinte anos, se arrastava com bastante dificuldades, pedindo licença e tentando abrir uma brecha, por menor que fosse, na confusão de braços e pernas agrupadas ao longo do corredor:

— Por favor, companheiros, só um segundinho!

Da roleta, o cobrador não avistava quem implorava por caminho. Dezenas e dezenas de braços, cabeças e costas se juntavam, desordenadamente, à frente de seus olhos. Tampouco o condutor, pelos retrovisores estrategicamente colocados, distinguia com a nitidez devida, à referida personagem:

— É pra hoje, minha filha? – indagou. – Posso fechar a traseira?

Como resposta chegou aos seus ouvidos um “por favor, senhora, um passinho à frente” e “me ajudem, por Nossa Senhora”. E nada de pintar à saída. Cheio de razão e bastante zangado o cidadão não esperou uma segunda ordem. Deu continuidade à marcha. Aos solavancos, seguiu em frente. Apavorada, sem ter alcançado seu objetivo, a garota desatou a gritar e a chorar copiosamente numa escala ascendentemente melodramática:

— Ei, me deixe aqui, pare, pare, paaaaaaaaaaare!…

Não teve conversa. Um rapaz que cochilava, confortavelmente sentado, junto a uma das janelas, resolveu tomar as dores da pobre infeliz. Levantou de seu assento e berrou:

—“Guenta aí, motor”. É uma aleijada!

— Aleijada é a senhora sua mãe…

Foi nessa hora que os ocupantes, em coro uníssono, danaram a fazer alarido, tomando, efetivamente, conhecimento do estado deplorável daquela personagem que pretendia interromper a viagem alguns pontos anteriores. Um sujeito “deste tamanho” parecia um cavalo estabanado, se dependurou no fio da sineta, ao tempo em que protestava, eufórico:

— Esse animal não respeita ninguém. Pensa que está carregando uma manada de elefantes…

Enquanto isto, a humilde e torta paralítica, apoiada num par de muletas, finalmente galgava as escadas almejadas:

— Seu desalmado. Bruto de uma figa. Cafajeste! Fazer isso logo comigo. Agora terei que voltar quase um quilômetro.

O articulado entrou no acostamento e freou estabanadamente. Houve uma enxurrada de palavrões.

Queriam bater no motorista, no cobrador e até num policial civil à paisana, que voltava para casa:

— “Filho da mãe! – esbravejou, ensandecida uma velhinha”.

— “Cachorro!” — emendou um terceiro, que aproveitou a balburdia e desceu pela frente, sem pagar.

Por derradeiro, a deficiente saltou. Saiu aos prantos, lamentando sua desdita. Depois de quase um “bafafá” os ânimos se acalmaram. Na segurança da calçada, a irrequieta mutilada, com uma das pernas do bastão de encosto apontada para o céu, prometia, solenemente, quebrar a cara do sujeito que pilotava a condução. Seu gesto, contudo, permaneceu na vontade. Logo que o transporte se afastou, a moça tirou de dentro da bolsa um enorme saco de pano e, nele guardou os paus de arrimo. Ato contínuo se empertigou e sorriu, com deboche e cinismo. Sem olhar para os lados, atravessou, correndo, a pista movimentada, em direção ao outro lado. Tudo em questão de segundos, sob os olhares incrédulos dos transeuntes que, movidos pela curiosidade, começavam a se agrupar em seu derredor.

Fonte:
Aparecido Raimundo de Souza. Refúgio para Cornos Avariados. SP: Ed. Sucesso, 2011

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Pedro Du Bois (Poemas Inéditos)

CIÚME

O sucesso o aplauso o cumprimento
no reconhecer a raiva entranhada

ciúme

nada mais querem de você
nessa hora de glória
em que o mundo vem abaixo
e você somente agradece.

CONSTRUIR

O homem destrói
a casa
e a refaz
em prédios
maiores

a magnitude da obra
indica o poder
a fortuna
a capacidade
a determinação
o descaso com o que está feito

o terreno ao lado
permanece vazio
vago
desocupado.

ESCREVER

Sobre o que escrevo a terra liberta
o texto indigesto e acrobático. Conheço
no espaço a treva na extensão afoita
das respostas – amanhã será a véspera
da repetição. A inocência em olhos
sobrestados no contínuo linguajar:
a estrada em acordes de sentenças
que no dizer o gesto contemporiza
a estátua imobilizada ao talhe. Escrevo
o detalhe afirmado em sugestão
e ordem.

FACES

Sob a face
há outra face
e outra face
se sucede
na face
anterior

todas as faces olham
o mesmo lado

todos os lados
estão do lado de fora

sobre a primeira face
irreconhecível
se sustentam faces
sucessivas

você me vê na face
externa de onde olha
minha face infinita.

LUZES

O fulgor
refulge
– significa
estar avivado
no extremo

enuviado no espaço
descalço sobre a grama
lavado em corpo ácido –

o dourado poente
aponta vésper
e a noite antecede
o amanhecer

no globo
que se repete.

NADA

Velhas construções
e o badalar dos sinos
próximos

(pessoas se recolhem incólumes
em mais um dia de passagem)

estabeleço as regras
e retenho na velocidade
o corpo que se desloca

a vila se fecha em sonhos
de épocas anteriores: pássaros
adormecidos em árvores.

Estabeleço as regras
e as deposito
sobre o nada.

NORMAL

A normalidade
busca na igualdade:

crescer
estudar
arrumar emprego
casar
ter filhos: descender
ascender
ao cargo maior

descansar
envelhecer
perder

desesperar os filhos
na frustração da vida
igualada na normalidade.

RISOS

O riso
adulto
repassa
a criança
em vida

o velho sorri
sua estrada
em repouso

longe
o vulto
próximo
ao contato

o riso permanente
na razão que completa
as horas de espera.

SILÊNCIO
não há quem converse
que a rua fechada
escurece a hora
do recolhimento

onde estão as respostas
do ano findo?

onde faço do futuro
a ponte inferior
das respostas?

debruçado sobre a amurada
aterriso o corpo no desgosto
da rua fechada: não me responde
o escuro sobre a descendência
vinda no sabor do calor
que me desmancha

sei do horror que se aproxima
em lágrimas de chuva

Fonte:
O Autor

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Carlos Leite Ribeiro (A Maçã)

Imagem por Iara Melo
E eu aqui metida nesta ambulância, cheia de dores.

Nunca mais chegamos ao hospital ! e tudo começou por causa de uma maçã!…

Era eu pequenita e andava na escola primária, e, no trajecto de regresso à minha pobre casa, passava sempre pela frutaria do pai do Artur.

Naquele dia, num dos expositores que ficavam em cima do passeio, estavam em exposição uma belas e lustrosas maçãs. Os meus pais eram pobres e eu já há muito que não comia fruta.

Parei extasiada a admirar as maçãs. Tive a tentação de roubar uma, mas hesitei. Foi quando atrás de mim apareceu o Artur, que me disse:

“Ana, estas maçãs devem ser muito saborosas!…”.

“Sim ! devem ser uma delícia, Artur …” – respondi eu ao meu colega de escola.

“Porque não compras uma ?!” – perguntou-me o Artur.

“Olha, porque não tenho dinheiro. Bem sabes que os meus pais são muito pobres” – disse-lhe já quando me afastava.

No outro dia, na hora do recreio, o Artur abeirou-se de mim, e, timidamente, entregou-me um saco de papel, dizendo:

“Toma, isto é para ti, Ana”.

Curiosamente, rasguei o saco e, lá dentro estava uma bela e lustrosa maçã!

As lágrimas saltaram-me e tive vontade de o abraçar.

Mas o Artur já se tinha retirado …

Durante anos, o Artur sempre me presenteou com saquinhos de papel, tendo lá dentro sempre uma maçã.

E, por causa da maçã, um belo dia casamos; e, também por causa da maçã, vou aqui dentro desta ambulância a caminho do hospital, onde conto dar à luz o nosso primeiro filho.

Uma maçã dada pela Eva, dizem que atrapalhou o Adão; e uma maçã dada pelo Artur, está a atrapalhar-me e dar-me muitas dores.

Mas dentro em pouco o fruto do nosso grande amor nascerá, e, tudo voltará à normalidade.

E tudo isto por causa de uma maçã !!!

Fonte:
O Autor

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Ernâni Rosas (Sonetos Escolhidos)

SALOMÉ

Ó Bailarina, oh! mariposa inquieta!
Aljofrada da gema de uma tarde.
És nume, Salomé, ágil goleta…
dentre o incenso da sombra que oura e arde…

Espectro errante de um cometa absorto
após a bacanal “saturniana”!…
(onde os nardos têm ócio do “Mar-Morto”!)
e ergue-se a lua irial, sibariana…

Chovem do céu os raios da nova aurora
sobre seu corpo d’âmbar colmado
da via Láctea que su’alma olora…

Numa auréola de Luz e alegoria
Esvaindo-Te em Sonho musicado,
para a glória do “Mal” que a irradia…

HORA DA INSÔNIA
Noite sem termo! A Lua erra em delírio,
Balbucío palavras sem querer…
Cismo no olor vernal d’alma de um lírio,
E sou memória d’algo a transcender…

Sofro-lhe a ausência. A carne é meu martírio,
Ressurjo… Amo a visão do meu Não-Ser!
Todo meu corpo é amorfa névoa–círio…
Volúpia de um perfume a se perder.

Cismo na errante estrela, que deslumbra
O vaso de teu ser dentre o relento
Num murmúrio de fonte que ressumbra!

Sou o olfato! Amo as horas de um jardim…
Sou uma vaga sonora em pensamento:
Eflúvio lirial que vens a mim!…

 RIMAS À LUA:

Dorme em lascivo leito, reclinada…
Repontando de Astros e fogueiras,
Ateias a coivara prateada
Dos caminhos desertos, pegureira…

Lua! Da meia noite, solitária,
Urna errante p’la nave do infinito…
Cravas o lácteo incêndio funerária,
Às montanhas geladas de granito…

Peregrinando em tua marcha hiante
E exausta de fadiga em água amara
Buscas o mar, o oceano o teu amante…

Artista, cuja tela, ao ver-Te aclara!
N’esse sonambulismo inebriante…
Em suas vagas verdes Te enlaçara…

LÚCIFER

No espelho encantado do destino
Mais de uma vez me vi transfigurado:
As horas tinham timbre cristalino
E erravam opalizadas no passado…

Não me fato de olha-las, no mistério
Tênues e loiras como a corda flébil
Do violino outonal do poente aéreo,
Que amortece em lilás num corpo débil…

Não me farto de olhar, erro inconsciente…
O solo é de diamante e o espaço um astro…
Vivem mármores d’alma no poente!

Foge-me a luz e se antecipam as horas,
No lago azul há cisnes de alabastro,
E o espelho em que me vi é tudo auroras!…

PERDI-ME… TODA UMA ÂNSIA…

“Perdi-me… toda uma ânsia me revela
sombra de Luz em corpo de olor vago,
a saudade é um passado que cinzela
em presente, a legenda desse orago”.

“Errasse em densa noite de beleza,
pisasse incerto, um falso solo de umbra…
sonho-me Orfeu… o Luar, que me deslumbra…
é marulho de luz na profundeza!…”

Toda a alma do azul esvai-se em lua…
nimba-lhe a face um crepe de Elegia…
É alvor do dia numa rosa nua,

que as minhas mãos cruéis sonham colher…
mas ao tocar desfolha-se mais fria,
que a sombra de meus dedos a tremer…

O SONHO-INTERIOR

O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto…

Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo…

Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda…

Velaram-se Sudários teus Espelhos…
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos

DEPOIS DE TE SONHAR…

Depois de Te sonhar Mistério ido
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.

Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto…

Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe…

Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde…
por que surges em Sonhos num jardim?

NOITE DE VALPURGIS

Náufrago brigue do Éter e do Sonho,
Derramando um clarão tíbio e suicida…
O sol acena um áureo Adeus à Vida
E doura a imensa estrada ante-sonho!

Âmbito argivo em mármore de estranha
Visão de torres e cruzes brancas,
Onde passaram adejos de asas francas
Das aves, se o Luar neva à montanha…

Gotas nitentes pela luz douradas
São pérolas que um mar verteu um dia,
Junto às areias gris das alvoradas!

Exaurindo-se à Luz dentre a agonia,
Difunde-se qual tule em nuvem alada…
Para voar a tua fantasia!…

PENUMBRA DO LUAR

Noite de lua e noveiro, argente
Difunde-se o luar pela folhagem…
Com a mesma languidez vaga e dormente
Da chuva, quando cai sobre a ramagem…

Como a música ao longe e som dolente
Recorda todo esse abandono… E a aragem
Que passa, agita o olor suave e florente
Vindo das messes, da vernal paisagem…

E o luar cresce através de ermo arvoredo,
Noite chuvosa e triste a Lua ateia…
Fluida névoa de luz… Sonho… Segredo…

Ao ressurgir das coisas na saudade
Que o silêncio evocou… E à luz ondeia
Erra na morta e fria claridade…

SONETO

Vai alta a lua lírica e silente,
Toda paisagem em sonho se embebeu!
Narra a si-mesmo o eco, vagamente…
Paira a auréola da luz dentre os céus…

Parece madrugada! Um galo canta…
Uivam de tédio os cães, não chega o dia!
[pois] se o Luar turvou minha alegria…
E a noite toda de uma mágoa santa!

Outono! Vão-se as horas… E lacrimosa
É tão triste a vereda e a própria casa…
Traz saudades da vida religiosa!

Cada vez mais o luar neva e cintila…
Seixos em pranto à flux o areal abrasa,
E a água por ser ceguinha erra e vacila…

CREPÚSCULO

 Toda existência, é ocasional regresso…
Ali, a sombra do homem é grave e austera,
recai a tarde em cisma, à noute o espera
sossega a ceifa célere dos músculos…

É efêmero o viver do caminheiro
falsa visão do sonho p´la atmosfera
na demência da enxada do coveiro
que enterra as ruínas, mais as primaveras!…

Vida e ânsia vibrando num só verso
no transporte da serra ao éter puro,
é contato genial com o Universo…

Bruxuleia a minguar em céu escuro,
porque não crê, ficando submerso…
entre o oceano e o Nirvana do futuro!…

CONVALESCENTE

Convalesço dos males da Quimera
partindo sempre de um desejo rude,
a malograda sorte da galera
que aportar com delírio nunca pude…

Do amor, nada pretendo com veemência
pela vida misérrima que arrasto!
Eu sinto o frágil coração tão gasto
às futuras e rudes penitências…

Desconheço o rigor dessa ironia
Quando o sol tomba na água e eril centelha
sem n´a apagar em fulva alegoria…

Amo a noute, amo o espelho do Universo
nunca a chaga de um Deus que se avermelha
no sangue que palpita no meu verso!…

VISÃO

Agoirenta visão da luz gelada!
Que mistério possui tua Presença?
Quando desces à terra anuviada,
Vais a Jesus, a Deus pedir licença!…

E arrebatas as almas desgraçadas
às geenas do Mal, como sentença!
e a mim, me levarás pela alvorada
de tuas vestes lúgubres – e descrença!…

Louca hiena da fé bebes-me a vida,
na fria tentação do teu segredo!
no Tântalo falaz, como bebida…

Cerras-me os olhos, gelam-me teus dedos…
arrebatas-me o corpo a vão degredo
num só beijo de morte apetecida!…

A MORTE

 Sou dos ventres a lúbrica bacante,
a pantera em meus ócios de veludo:
fascino os corações, que enervante,
no languir dos aromas, sobretudo…

Serei do teu Amor, homem, o quebranto,
talvez, a morte em minha garra adunca,
sou bizarra no amor, não vejo nunca:
o que possa na dor causar espanto!

Venho meu corpo à alambra do oriente,
Lascivo riso exóticos perfumes…
Encarno a mancenilha em forma ingente!

Sou a sombra do Amor luxuriante.,
Inebrio as cabeças dos amantes…
Nunca amei, nem de mim não tive ciúmes!

Fontes:
Apostila 7 de Simbolismo – Literatura Brasileira, in http://www.jayrus.art.br
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/ernani_rosas.html

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Ernâni Rosas (1886 – 1954)

Ernâni Salomão Rosas Ribeiro de Almeida nasceu no Desterro (Florianópolis) em 31 de março de 1886. Filho do também poeta Oscar Rosas.

Trabalhou em cargos modestos e variadas e humildes atividades profissionais.

Viveu no Rio de Janeiro desde os 3 anos de idade. Chegou a entrevistar-se com poetas como Luiz de Montalvo, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mas sua poesia é considerada simbolista, tardia. Viveu em Nova Iguaçu, onde morreu em condições difíceis, com o agravante da discriminação por ser gago e homossexual. Poeta em certo sentido hermético, de inspiração mallarmáica.

Dentre suas principais influências estão Eugênio de Castro e Cruz e Sousa.

Como observa Andrade Muricy: “O fato de ter ficado quase completamente desconhecido e não haver, por isso, tido influência histórica, não lhe invalida a precedência”.

O poeta faleceu em 1954.

Fontes:
Apostila 7 de Simbolismo – Literatura Brasileira, in http://www.jayrus.art.br
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/ernani_rosas.html

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Alexandre Dumas (Caçada Russa)

O príncipe Troubetzkoi aproximou-se e deu-me a mão. Ele não vinha só para isso, mas também para me convidar a uma caça ao lobo no bosque de Gatchina, onde se diz que os lobos são tão abundantes como as lebres na floresta de Saint-Germain.

A caça aos lobos, juntamente com a caça ao urso, é uma das diversões favoritas dos russos. Apenas que, como os descendentes de Rourik gostam do perigo enquanto perigo, inventaram uma caçada que oferece dois perigos ao mesmo tempo: primeiro, o de ser devorado pelos lobos, como Balduíno I, imperador de Constantinopla; segundo, o de espatifar-se junto com o carro, como Hipólito, filho de Teseu.

Essa engenhosa invenção se realiza no inverno, é claro, época em que a falta de alimento torna os lobos ferozes. Entram numa troika três ou quatro caçadores, cada um com um fuzil de dois tiros. A troika é um carro qualquer (drojky, kibitk, caleça ou tarantass) com três cavalos atrelados. O nome lhe vem da atrelagem, e não da forma.

 O cavalo do meio não deve em nenhum momento deixar o trote, enquanto o da direita e o da esquerda não devem em nenhum momento deixar o galope. O do meio trota com a cabeça baixa, e é chamado comedor de neve. Seus dois parceiros, que não têm mais que uma rédea, são atrelados pelo meio do corpo ao varal do carro e galopam com a cabeça virada, um para a direita e o outro para a esquerda. São chamados furiosos. Assim conduzida, a atrelagem toma o aspecto de um leque.

 Um cocheiro que tenha segurança — se é que há no mundo um cocheiro seguro — conduz a troika. Detrás do carro, com uma corda ou uma corrente de uns dez metros, amarra-se um leitão. Inicialmente o leitão é cuidadosamente transportado dentro do carro, até a entrada do local onde se conta começar a caçada. Ali é descido, e o cocheiro solta os cavalos, que avançam, sendo o do meio trotando e os das alas a galope.

 O leitão, pouco habituado a essa marcha, lança queixas que degeneram logo em lamentações. A essas lamentações, um primeiro lobo mostra seu focinho e começa a ir ao encalço do porco, depois dois lobos, depois três, dez, cinqüenta lobos. Todos disputam o leitão e brigam entre si para se aproximar, um dando-lhe uma patada, outro uma dentada. Das lamentações o pobre animal passa aos gritos desesperados. Esses gritos vão despertar os lobos nas profundezas mais recônditas da floresta.

 Tudo o que há de lobo em três léguas ao redor acorre, e a troika vê-se perseguida por uma matilha de lobos. Nessa hora é importante ter-se um bom cocheiro. Os cavalos, que têm pelos lobos um horror instintivo, tornam-se aloucados. O que trota quereria galopar, os que galopam quereriam desembestar.

 Durante todo esse tempo os caçadores atiram ao léu. Nem há necessidade de apontar. O porco grita, os cavalos relincham, os lobos uivam, os fuzis troam. É um concerto que daria inveja a Mefistófeles no “sabbat”. Coche, caçadores, porco, matilha de lobos, são um turbilhão levado pelo vento. A neve voa em torno, como uma nuvem de tormenta deslizando no ar, lançando relâmpagos e raios.

 Enquanto o cocheiro é senhor de seus cavalos, por mais precipitados que sejam, tudo vai bem. Mas se ele perde o controle, se a atrelagem se detém, se a troika vira, então tudo acaba. No dia seguinte, no outro, ou oito dias depois, encontram-se os restos do carro, os canos dos fuzis, as carcaças dos cavalos e os ossos maiores dos caçadores e do cocheiro.

 No último inverno, o príncipe Repnin fez uma dessas caçadas, e pouco lhe faltou para que não fosse a última. Estava com dois de seus amigos, numa propriedade que limita com a estepe. Resolveram caçar lobos, ou melhor, fazer-se caçar pelos lobos. Preparou-se um amplo trenó, onde duas ou três pessoas podiam mover-se à vontade. Atrelaram-se três robustos cavalos, que foram confiados a um cocheiro nascido na região e muito experiente. Cada caçador tinha um par de fuzis duplos e cento e cinqüenta cartuchos.

 Os lugares foram distribuídos assim: o príncipe Repnin voltado para trás, e cada um de seus amigos voltado para um dos lados. Chegaram à estepe, ou seja, a um imenso deserto coberto de neve. Era uma caçada noturna. A lua, no seu pleno, reluzia com o mais vivo brilho, e seus raios, refletidos pela neve, difundiam uma claridade que podia rivalizar com a do dia.

 O porco foi baixado e o trenó partiu. Sentindo-se puxado contra sua vontade, o porco gritou. Alguns lobos apareceram, mas de início pouco numerosos, medrosos, conservando-se a uma grande distância. Pouco a pouco seu número aumentou, e à medida que aumentavam, aproximavam-se dos caçadores, que para iniciar não comunicaram à sua troika mais que uma marcha comum, apesar da impaciência medrosa dos cavalos. Eram vinte lobos, mais ou menos, quando se encontraram bastante próximos para começar o massacre.

 Um tiro de fuzil partiu, um lobo caiu. Um grande tumulto se fez, e pareceu aos caçadores que o bando ficara reduzido pela metade. Com efeito, contrariamente ao provérbio que diz que os lobos não se comem entre si, sete ou oito esfomeados ficaram atrás, para devorar o morto. Mas logo os vazios foram preenchidos. De todos os lados ouviam-se uivos respondendo a uivos; de todos os lados viam-se aparecer focinhos pontudos e faiscar olhos semelhantes a carvões acesos.

 Os lobos estavam ao alcance, e os caçadores faziam fogo continuamente. Mas por mais que os tiros acertassem, o bando ia sempre aumentando, em vez de diminuir. Em breve não foi mais um bando, foi uma matilha cujas fileiras cerradas seguiam os caçadores. Sua corrida era tão rápida que pareciam voar sobre a neve, tão ligeira que não fazia o menor ruído. A onda de lobos se aproximava sem cessar, como uma maré muda, e não recuava perante o fogo dos três caçadores, por mais nutrido que fosse. Formavam atrás da troika um enorme crescente, cujas duas pontas começavam a ultrapassar a linha dos cavalos.

 O número de lobos aumentou com tal rapidez, que se diria que saíam de debaixo da terra. Havia qualquer coisa de fantástico em sua aparição. Não se podia, com efeito, entender a presença de dois a três mil lobos no meio de um deserto onde, em toda uma jornada de viagem, descobrir-se-iam apenas dois ou três.

 Fizeram o porco cessar de gritar, puxando-o para dentro do trenó, uma vez que seus gritos redobravam a audácia dos perseguidores. O tiroteio não cessava, e já tinham usado mais da metade da munição. Restavam uns duzentos tiros, e estavam rodeados ainda por dois ou três mil lobos. Os dois cornos do crescente avançavam mais e mais, e ameaçavam fechar-se, formando um círculo do qual o trenó, os cavalos e os caçadores tornar-se-iam o centro.

 Se um dos cavalos caísse, tudo acabaria. Os cavalos, espantados, bufavam e davam saltos terríveis.

 — O que pensas disto, Ivan? — perguntou o príncipe ao seu cocheiro.

 — Penso que não está bem, meu príncipe.

 — Temes alguma coisa?

 — Os demônios provaram sangue, e quanto mais vós atirardes, mais seu número aumentará.

 — Qual é teu parecer?

 — Se vós permitirdes, meu príncipe, vou soltar rédeas aos meus cavalos.

 — Estás seguro deles?

 — Eu respondo por eles.

 — E de nós, tu respondes?

 O cocheiro não disse palavra. Era evidente que não queria se comprometer. Ele soltou rédea aos cavalos, em direção ao castelo. Lançados com todo fôlego, aguilhoados pelo terror, os cavalos dobraram a velocidade. A distância era literalmente devorada por seus ímpetos desesperados. O cocheiro os excitava ainda por um assobio agudo, ao mesmo tempo que faziam uma curva que devia cortar uma das pontas da meia-lua. Os lobos afastaram-se, para abrir passagem aos cavalos. Os caçadores iam disparar, mas o cocheiro gritou:

 — Por vossa vida, não atireis mais!

 Obedeceu-se ao cocheiro.

 Aturdidos com aquela manobra inopinada, os lobos permaneceram um instante indecisos. Durante esse instante a troika percorreu um quilômetro, e quando os lobos voltaram a persegui-la, já era demasiado tarde. Não a puderam alcançar.

 Um quarto de hora depois, estava-se à vista do castelo. O príncipe calculou que durante esse tempo os cavalos percorreram mais de duas léguas. No dia seguinte, visitou a cavalo o campo de batalha e encontrou as ossadas de mais de duzentos lobos.

 Como se vê, não faltam emoções nesse tipo de caçada.

Fonte:
Alexandre Dumas. En Russie: Impressions de voyage. Paris/France: Calmann-Lévy. Disponível em http://contosbemcontados.blogspot.com.br/search/label/ALEXANDRE%20DUMAS%20-%20Caçada%20russa

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Antônio Martins de Araújo (História da Cidadezinha dos Palacetes de Porcelana)

Era uma vez pelos idos
 de mil seiscentos e doze
 uma rainha francesa
 também chamada Maria
 cujo sonho era enricar
 Maria pegou de seus
 dois tenentes-generais
 de Luís 13 de França
 e os mandou correr mar

 Sieur de Ia Ravardière
 e sieur de Rasilly
 que ouvirem melhor fizeram
 por via de João de Barros
 que era o dono de tuas terras
 passar a velhice honrada
 se importando com seus livros

 a fim de pagar as dívidas
 que o naufrágio que levou
 a seu filho sócio e haveres
 lhe criou pra todo o sempre
 enquanto a vida viveu
 e sabendo das andanças
 de espanhóis e genoveses
 uns pra cima outros pra baixo
 mas todos por estes lados
 puseram proa a noroeste
 e em Upaon-açu deram

 diz que antes por ti passaram
 piratas em rapinagem
 mas porém não te esposaram
 chantaram pelo teu ventre
 encanto e simplicidade

 ontem disse um jesuíta
 que também te muito amou
 e outra vez um filho teu
 que assim te viu e te vê
 seres tu por esses tempos
 do mundo a única filha
 rodeada de mil encantos
 e amor por todos os lados
 mas com toda a maranduba
 desde que foste inventada
 São Luís do Maranhão
 que tens sido cobiçada
 por tudo quanto é nação

 sempre vive de teus dias
 boiando na fantasia
 até Bernardes que nunca
 chegou a te conhecer

 recontou aquele fato
 famoso do julgamento
 das formigas que roubavam
 a farinha dos moirões
 da igreja dos barbadinhos
 de quantos anos atrás

 lá um dia em Guaxenduba
 mil seiscentos e quatorze
 português estava morrendo
 pelas balas dos franceses
 foi quando Nossa Senhora
 da Vitória apareceu
 viu com quem estava a paixão
 pois as balas dos soldados
 de Jerônimo de Albuquerque
 muito havia se acabaram
 ficou com pena dos fracos

 olhou toda aquela areia
 que eles próprios mal pisavam
 e a areia se transformou
 na pólvora com que expulsaram
 os franceses para a França

 o general Alexandre
 no outro ano ficaria
 com o forte de São Felipe
 que seria após cabeça
 do Maranhão-Grão-Pará
 outro tanto do Brasil

 os meus avós me contaram
 que os seus avós lhes contaram
 a estória da baronesa
 que quebrava com martelo
 os dentes de escravas suas
 quando seu marido achava
 os dentes delas bonitos

 outrora até baronesas
 cautelosas dos maridos
 quando as escravas moçavam
 endurecendo seus peitos
 de inveja destas furavam-nos
 com alfinetes queimados
 para seu encantamento
 vazar por aqueles furos
 e murchando ainda em moças
 os maridos não quererem
 ter qualquer coisa com elas

 em fundos vasos de alvacenta argila
 que hoje alguidares se chamam
 desde três séculos atrás
 que em ti se amassa juçara
 pra comer com camarão
 e farinha de mandioca

 já no século dezessete
 um almirante holandês
 te levou um coronel
 pra humilhar teu governo
 apeando-se na praia
 do Desterro e profanando
 a igreja e tua infância
 de menina inconcebida
 logo a maldição da história
 fez do bairro onde a maldade
 se fundou e amanheceu
 a zona donde a miséria
 nunca mais anoiteceu

 só depois é que vieram
 os dois Antônios da história
 que com raiva desterraram
 ao capitão holandês
 para os caminhos de Holanda

 Fonte das Pedras lá em baixo
 Carmo Novo aqui em cima
 e Oiteiro da Cruz lá longe
 trincheira onde os tetravôs
 cimentaram com seu sangue
 a areia de teus anais

 acontecido de ontem
 é a estória de nhá Jansen
 que rojava a escravaria
 sobre a lama das sarjetas
 pra sobre elas pisar
 quando as chuvas estiavam
 mas a carruagem rica
 da grande dona de escravos

 com a alma penada dela
 ainda hoje se arrasta
 com os pesados correntões
 toda meia-noite em ponto
 nas ruas sem uma gente
 de São Luís do Maranhão
 […]

 e a grande história de amor
 que para quem não conhece
 até parece legenda
 do filho de branco e escrava
 das terras de Jatobá
 que por amor de um amigo
 deixou de fugir com a amada
 e serem ambos felizes
 mas que por isso não foram:
 “Enfim te vejo, enfim posso
 Curvado aos teus pés dizer-te
 Que não cessei de querer-te
 Pesar do quanto sofri…”

 São Luís do Maranhão
 tua história toda é feita
 de amor e libertação
 tu te lembras que Vieira
 pagou com ir para a cela
 e com a morte temporária
 a morte de não te ver
 a ousadia de haver
 tentado livrar os índios
 do sacrifício sem paga?

 tu te lembras que Aluísio
 foi largado nos teus braços
 por tua sociedade
 por ter achado que o negro
 é tão gente quanto o branco
 e humilhado te deixou
 para ser engrandecido
 por terras que não amou?

 mas tu te lembras também
 que algumas vezes tens sido
 não mãe mas quase madrasta
 por consentires que alguns
 de teus filhos atrasados
 não perdoem aos irmãos
 que sabem mais um pouquinho?

 tu te lembras certo dia
 voltou com anel da Bahia
 um certo filho doutor
 que desejou te ajudar
 e por causa da campanha
 que ele fez pela melhora
 de tua alimentação
 seus irmãos ignorantes
 passaram a lhe chamar
 de doutor Farinha Seca
 e ele voltou pra Bahia
 para ser Nina Rodrigues
 e com a ciência provou
 que os negros também são gente?

 mas outros que nem Mohana
 deixam seus ouros lá fora
 fazem voto de pobreza
 e voltam pra te servir
 és assim mesmo! teus filhos
 e até os que só te veem
 podem deixar-te de vez
 mas para nunca jamais
 te apagarão da memória
 com toda a maledicência
 de tuas águas azuis

 tens tudo pra vir a ser
 outra Atenas Brasileira
 no entanto foste o ceitil
 do mais possante rebanho
 de cegos surdos e mudos
 deste país sem fronteira
 deste gigante Brasil
 […]

Fonte:
ARAÚJO, Antônio Martins. História da Cidadezinha dos Palacetes de Porcelana.  São Luís: Lithograf, 2012

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Guimarães Rosa (Corpo Fechado)

(Conto de Sagarana)
–––––––––––––

Análise do Conto

Corpo Fechado é a antepenúltima das nove novelas que compõem Sagarana, romance inaugural da obra ficcional de Guimarães Rosa. Este é um dos contos no qual evidencia-se o universo primitivo e fantástico do autor.

Narrado em primeira pessoa, com o narrador participando da história e tendo visão limitada dos fatos que narra. Quem narra a estória é um médico de um vilarejo do interior. Corpo Fechado começa propriamente no final, com Manuel Fulô contando outros casos para o doutor.

A técnica narrativa do conto é em forma de entrevista. O “doutor”, no decorrer da história, vai entrevistando Manuel Fulô, um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para glória do arraial.

O cenário é Laginha, arraial monótono do interior de Minas Gerais e o espaço do conto é variado, deslocando-se a ação de um lugar para outro.

Corpo Fechado continua a problemática apresentada em São Marcos: mundo de feitiçarias e bruxarias. Um curandeiro fecha o corpo e anulando a fragilidade do protagonista que, imantado pela fé, vence o vilão, brutal e valente, mas sem o amparo do sagrado.

Além dessa temática, sobressai também a saga dos valentões das gerais, principalmente com o temível Targino, e a saga dos ciganos, muito freqüente no interior.

Personagens

Médico – Narrador, mora num arraial do interior de Minas. Fez amizade com Manuel Fulô. Gostava de ouvir-lhe as conversas.

Manuel Fulô – Sujeito pingadinho, quase menino, cara de bobo de fazenda, cabelo preto, corrido. Não trabalhava. Gostava de moça, cachaça e conversa fiada.

Beija-Flor – Besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, lustrosa, sábia e mansa – mas só para o dono, Manuel Fulô.

Das Dor – Noiva de Manuel Fulô; moça pobre, mas muito bonita.

Targino – O valentão mais temido do lugar. Era magro, feio, de cara esverdeada. Dificilmente ria.

Antônio das Pedras-Águas – Era pedreiro, curandeiro e feiticeiro.

Resumo do conto

A amizade do narrador com Manuel Fulô nasceu do nada. Solidificou-se quando o narrador descobriu que Manuel comia cogumelo com carne. Manuel Fulô gostava de moças, de cachaça e de conversa fiada.

Beija-Flor era o orgulho de Manuel Fulô. Mais que isso: era uma espécie de complemento. Besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, lustrosa, sábia e mansa – mas só para o dono. Quando Manuel Fulô ficava bêbado – e isso acontecia todos os domingos – atracava-se ao pescoço de Beija-Flor, e a mula levava-o com todo o cuidado. Sabia abrir porteiras.

Manuel Fulô conta ao narrador que viveu uns tempos com uns ciganos só para aprender alguns truques. Os ciganos gostavam dele porque pensavam que ele era bobo de verdade. Com os ciganos, Manuel Fulô aprendeu tudo sobre cavalos. Sabia transformar animal ruim em bicho de valor em pouco tempo. Quando deixou os ciganos, passou a ganhar dinheiro negociando com animais.

Manuel Fulô contou ao narrador como conseguiu, certa vez, enganar os ciganos. Arranjou dois cavalos imprestáveis, preparou-os, fez-lhe maquiagens para disfarçar defeitos e trocou-os por dois cavalos bem melhores. Com isso, perdeu a freguesia. Ninguém quis mais negociar com Manuel Fulô porque ele era capaz de enganar até ciganos.

Uma noite, o narrador e Manuel Fulô estavam bebendo cerveja na venda. De repente, entrou Targino e caminhou na direção dos dois amigos. Pediu licença ao doutor: queria falar um particular a Manuel Fulô. Pura formalidade, pois Targino falou bem alto, na porta da venda, a três passos do narrador:

– Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva, amanhã… Já mandei recado, avisando a ela… É um dia só, depois vocês podem se casar… Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… – E Targino, com o indicador da mão direita, deu um tiro mímico no meu pobre amigo, rindo, rindo, com a gelidez de um carrasco.

Depois da ameaça, o doutor-narrador levou Manuel para a casa dele (do doutor). Que fazer? O próprio Manuel não via saída. Targino era valentão, ninguém podia com ele. No outro dia, enquanto Manuel ainda se recupera do porre, o doutor saiu à procura de ajuda. Primeiro, foi à casa do Coronel Melguério. O homem deu de ombros: se alguém tivesse coragem de enfrentar o Targino… Depois, foi a vez do vigário: prometeu rezar. De volta, o doutor encontrou a casa cheia: eram os parentes de Manuel Fulô. Pediam ao doutor que não fizesse nada. O correto era entregar para Deus. Maria das Dores estava sozinha com a mãe, chamando pelo noivo.

Chamava-se Antonico das Pedras ou Antonico das Águas. Era pedreiro, curandeiro e feiticeiro. No meio da aflição, foi ter à casa do doutor. Ali, com ar de pressa, trancou-se no quarto com Manuel Fulô. Um tempo depois, a porta abriu-se, e Manuel anunciou com cara de defunto: entreguem a mula Beija-Flor para seu Antônio. O feiticeiro pediu um prato fundo, brasas, linha e cachaça. Os apetrechos apareceram, e os dois se trancaram no quarto.

Enquanto isso, Targino saiu à rua deserta e caminhava em direção à casa onde estava a Maria das Dores, a noiva ameaçada.

Manuel Fulô, depois de algum tempo trancado no quarto com Antônio feiticeiro, saiu teso, cara de mau, olhar fixo. E assim, caminhou para a rua: ia ao encontro de Targino. Todos ficaram assustados. Antônio Feiticeiro explicou: Manuel Fulô estava com o corpo fechado. Arma de fogo não tinha poder sobre ele. A mãe de Manuel pediu que segurassem o filho dela, pois seu Toniquinho pusera-o doido. “Mas ninguém transpôs a porta”. E lá estavam os dois, Targino e Manuel Fulô, frente a frente. Manuel falou primeiro, xingando a mãe do valentão. Mexeu na cintura e tirou dela uma faquinha quase canivete. Cresceu para cima de Targino. Foram cinco tiros, as balas zuniram. Manuel Fulô pulou sobre Targino e aplicou-lhe várias facadas pela altura do peito. O valentão capotou e morreu num átimo. Manuel Fulô ainda lhe deu mais facadas, sujando-se todo de sangue.

Manuel Fulô fez um mês inteiro de festa e até adiou o casamento, pois o padre teimou que não matrimoniava gente bêbeda. O narrador foi o padrinho.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/c/corpo_fechado_conto

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O Nosso Português de Cada Dia (Pegadinhas do Português) 7

Pegadinha 35

Ele se acorda às seis horas todos os dias.

Nesta frase o pronome se está tornando a frase incoerente, isto é, o emprego desse pronome é inadequado. Em provas de vestibular e concurso público, esse tipo de ocorrência provoca a chamada incoerência textual ou linguagem inconsequente.

Ninguém acorda a si mesmo! Cada indivíduo, simplesmente, acorda ou, então, é acordado por alguém, algum som alto, um terremoto etc. Agora, decididamente, acordar a si mesmo é proeza que escapa à habilidade humana.

A frase equivocada, depois de corrigida, fica assim:

Ele acorda às seis horas todos os dias.

Pegadinha 36

O governo vai criar novos impostos.

A expressão criar novos é da mesma família de subir pra cima, descer pra baixo, chutar com os pés etc. Já que não é viável criar nada velho, escreva-se, pois, apenas criar, e pronto!

A frase inicial, depois de corrigida, fica assim:

O governo vai criar impostos.
Pegadinha 37

Não me importo que o Palmeiras perca.

Faz-se três construções com o verbo importar-se, sempre pronominal no sentido de ter importância ou interesse:

1 – quando o sujeito for uma oração introduzida pela conjunção integrante que, o verbo importar deve estar no subjuntivo (exclusivamente para casos como o da presente dica). Exemplos:

Não me importa que você discorde.
Não me importa que o partido perca.

2 – quando o sujeito não for uma oração, usa-se somente importa, sem a conjunção que:

Não me importa a derrota da Argentina.

3 – se ao verbo seguir a preposição com, emprega-se importo, forma do presente do indicativo. Exemplos:

Não me importo com tuas lamúrias.
Não me importo com frescuras.
Outros exemplos em outros tempos verbais:
Não me importará que ele vença a competição.
Não me importaria que Márcia dissesse a verdade.
Naquela época, não me importava que a economia fosse mal.
Não me importaram os elogios baratos.
Não me importou a vitória inglesa.
Não me importarei com divertimentos banais.
Não me importava com coisa alguma.

Depois da correção, a frase fica assim:

Não me importa que o Palmeiras perca.

Pegadinha 38

A palestra agradou os congressistas.

Esta é uma questão de transitividade verbal. O verbo agradar, usado como transitivo direto, significa fazer carinho, mimar, enfim fazer as vontades. Exemplos:

A mãe agrada o filho recém-nascido, a fim de que ele pare de chorar.
A namorada agrada o rapaz, com elogios e atenções desmedidos.

Conforme exposto acima, palestra nenhuma poderá agradar os congressistas ou quem quer que seja.

Uma boa palestra, mas só se for boa mesmo, poderá agradar aos congressistas (note a preposição a); pois o verbo agradar, usado como transitivo indireto, significa corresponder à expectativa, satisfazer, produzir agrado. Veja outros exemplos de frases com o verbo agradar, empregado como transitivo indireto. Exemplos:

O filme agradou aos estudantes.
A prova agradou aos candidatos.
O resultado não agradou a mim.

A frase inicial, depois da correção, se apresenta assim:

A palestra agradou aos congressistas.

Pegadinha 38

Ganho apenas um mil reais por mês.

Não se mistura um (singular) com mil (plural). Com mil só se usam os numerais dois, três, quatro e os que exprimirem valor superior. Exemplos:

Comprei mil quilos de farinha.
Vendemos mil quilos de peixe,
Transportamos dois mil suínos para o Nordeste.
Trouxemos seis mil sacas de cimento.

A frase inicial, depois da correção, fica assim:

Ganho apenas mil reais por mês.
Pegadinha 39

O time perdeu porque seu centroavante não chutou em gol durante toda a partida.
Neste caso, quem acaba perdendo, verdadeiramente, é quem diz ou escreve uma frase dessas, desperdiçando a oportunidade de calar-se. O verbo chutar admite as seguintes regências: chutar a, chutar para, chutar contra ou, simplesmente, chutar. Exemplos:

O jogador chutou a gol.
O jogador chutou para o gol.
O jogador chutou contra o gol.
O goleiro chutou para fora.
O jogador chutou acima da trave. (E não: … em cima da trave.)

A expressão dar chutes pode ser usada, também, com a preposição em. Exemplos:

O jogador deu chutes na bola contra o gol adversário.
A criança dava chutes na porta.

A frase inicial, depois da correção, fica assim:

O time perdeu porque seu centroavante não chutou a gol durante toda a partida.
Pegadinha 40

Ninguém sabe aonde eu moro!

Aonde somente se emprega com verbos e expressões que indicam movimento:

E agora! Vamos aonde?
Determinaram sua ida aonde?
Já, para designar um local, usa-se onde:
Trabalho onde poucos teriam coragem de trabalhar.

A frase inicial, devidamente corrigida, fica assim:

Ninguém sabe onde eu moro!
Pegadinha 41

A obrigação do preenchimento da guia é do próprio contribuinte!

A palavra obrigação exige um tipo de preposição, conforme o elemento ao qual se refere. Referindo-se a nomes, no sentido de fazer uma determinada ação, obrigação exige a preposição a. Referindo-se a verbos, exige a preposição de. Já, referindo-se a nomes, usada sempre no plural (obrigações), no sentido de compromisso, exige a combinação das preposições para com. Exemplos:

A obrigação ao alistamento militar é intransmissível. (fazer o alistamento)
A obrigação de pagar as custas é do requerente.
Todo técnico de futebol tem obrigação para com seus jogadores.

A frase inicial, depois da correção, fica assim:

A obrigação ao preenchimento da guia é do próprio contribuinte!

Pegadinha 42

Toda a mulher casada deveria saber dirigir automóvel.

Toda a (note a presença do artigo) significa inteira. Depois desse entendimento, a frase parece esdrúxula da cabeça aos pés!

Toda (note a ausência do artigo) significa qualquer. Agora, sim, a frase passa a ter sentido, pois se quer referir, na frase inicial, a qualquer mulher, e não à mulher inteira.

Veja os seguintes exemplos:

Todo homem deveria falar uma língua além da materna. (qualquer homem)
Todo o homem tremia de frio. (o homem inteiro)
Toda a cidade festejou a vitória do time. (a cidade inteira)
Toda cidade tem problemas com drogas. (qualquer cidade)

A frase inicial, depois da correção, fica assim:

Toda mulher casada deveria saber dirigir automóvel.

Fonte:
126 Pegadinhas em Língua Portuguesa. http://www.softwareebookecia.com.

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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXII)

Sonetos

136
A fermosura fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

114

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes,
agora descansais com meus cuidados.

Deixastes-me sentir os bens passados,
para mor dor da dor que me ordenastes;
então nü’hora juntos mos levastes,
deixando em seu lugar males dobrados.

Ah! quanto milhor fora não vos ver,
gostos, que assi passais tão de corrida,
que fico duvidoso se vos vi:

sem vós já me não fica que perder,
se não se for esta cansada vida,
que por mor perda minha não perdi.

101

Ah! minha Dinamene! Assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te?
Ah! Ninfa! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste!

Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te,
que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!

Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei, que valha tanto,
que inda tenho por pouco o viver triste?

013

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

080

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te,
quão cedo de meus olhos te levou.

083

Amor, co’a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta te com as lágrimas que choro.

005

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

042

Amor, que o gesto humano n’alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade
lágrimas de imortal contentamento.

058

A Morte, que da vida o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contr’ ele espada fera,
e co’ Tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que üa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
üa é Razão contra a Fortuna austera,
outra, contra a Razão, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma,
duas num corpo o Amor ajunte e una;

porque assi leve triunfante a palma,
Amor da Morte, apesar da Ausência,
do Tempo, da Razão e da Fortuna.

068

Apartava se Nise de Montano,
em cuja alma partindo se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar se deste engano.

Pelas praias do Índico Oceano
sobre o curvo cajado s’encostava,
e os olhos pelas águas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.

Pois com tamanha mágoa e saudade
(dezia) quis deixar me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.

Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!

Fontes:

  • CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
  • Imagem formatada com imagem obtida na internet, sem identificação do autor.

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 28. Modéstia

Franklin Penha dera-me hoje a impressão de um grande fátuo. Viu-me no bonde e cumprimentou-me com excessiva amabilidade, com regozijada surpresa, como se tivesse descoberto em mim, de repente, algum encanto inédito. E eu nem sequer tinha a barba feita. O motivo não tardou a aparecer. O que Franklin pretendia era capturar a minha atenção e boa vontade para uma notícia de jornal que trazia recortada, no bolso, e lhe pesava como uma barra de ouro. A notícia era mais ou menos a seguinte:

“O Senhor Doutor Franklin da Costa Penha, conceituado advogado do nosso foro e futuroso cultor do nosso passado, acaba de ser nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de…, por indicação, unanimemente aprovada, do eminente historiógrafo brasileiro Sr….”

-“Parabéns, bichão.”

-“Oh!”

Apesar desse oh! Franklin estava realmente satisfeito, mais talvez do que o seu venerando xará depois que eripuit fulminen, etc. Guardou o retalho na carteira, quase a afagá-lo com as pontas dos dedos, como se fosse um aéreo tecido de seda; arrumou a carteira no bolso e, confidencial e grave:

-“Não; eu, de fato, para ser franco, fiquei muito contente. Eu sou assim. Tenho ainda alguma coisa do menino de colégio, que se ufana dos prêmios recebidos. Puerilidade. Pura, insofismável puerilidade. Eu podia contar-lhe esta nova assim com um arzinho de quem não ligava, negligentemente, como por uma lembrança de acaso. Podia ter-lhe dito que o fato me agradava por este ou por aquele motivo nobre; pelo prazer que teriam lá em casa, pela recomendação que estas distinções representam no seio de uma burguesia bobalhona… enfim qualquer coisa por esse gosto. Mas tudo isso não seria senão hipocrisia. A verdade pura é que fiquei contente por mim mesmo, pela própria distinção em si; contente deveras, cheio de contentamento como um balãozinho de goma elástica cheio de ar. Eu sou assim. “Mas também, amanhã ou depois, já estarei resfriado; nem me lembrarei mais de que fui eleito sócio correspondente. Depende de eu querer alcançar uma outra tetéia que no momento me seduza.”

Franklin dizia-me estas coisas com tanta simplicidade e com um lume tão sincero nos olhos, que tudo lhe aceitei como vera confissão. E absolvi-o. Não, ele não é fátuo. É talvez mesmo o oposto do fátuo, um grande modesto.

Modéstia, afinal, não é isso? A verdadeira não é aquela que se proíbe a mínima expansão de vaidade. Os indivíduos que se proíbem a menor demonstração de vaidade são quase sempre os mais vaidosos dos vaidosos. Pretendem, sonham, invejam, sofrem e gozam tanto quanto os outros, com a única diferença de que põem abafos a isso tudo e, além de tudo, ainda querem fruir a reputação de ser extraordinariamente modestos. Há mesmo cidadãos que devem a maior parte do seu renome à sua modéstia ou à sua preguiça. O pouco que dão de si, dão como passatempo, como capricho ou brinco de um momento, como efeito de imposições alheias, como necessidade ocasional. Por si mesmos, não, não querem nada, querem sossego! Mas o seu maior gozo é quando os admiradores exclamam: “Ah! se este safado se resolvesse a trabalhar!” Vaidosos dobrados, têm várias vaidades lá dentro, presas e gordas como perus de galinheiro, e ainda por cima se deliciam, epicuristicamente, com a vaidade de não ter nenhuma vaidade, que é a mais vá, a mais falsa, a mais loucamente ambiciosa de todas.

O modesto verdadeiro não é o que se envergonha das suas vaidades, é aquele que lhes dá expansão, reconhecendo-as porém com bonomia como tais, sem lhes emprestar outros nomes, nem estar com rodeios e mentirolas. Somente, possuir a clara consciência delas é automaticamente reduzi-las. Dar-lhes expansão, assim, é rarefazê-las. É torná-las exteriores, superficiais e passageiras, como um suor, como escamazinhas eruptivas da pele, como secreções, coisas que a economia orgânica de um corpo são, normalmente engendra e rejeita. Uma limpeza, uma “catársis”, um arejamento, um alívio.

Gozar as próprias vaidades com sincera e inocente imprudência é o melhor meio de lhes sentir a vacuidade, de as tornar inócuas, de acabar por desprezá-las e perdê-las. Permitir-lhes que levantem o vôo é deixar que se vão embora.

Alegrar-se alguém abertamente com os seus pequenos triunfos é um modo amável de se confessar bem gratificado. Saudável fusão de bonomia, conformidade e desprendimento: modéstia, enfim; a boa, a legítima, a pura. A única.

Todo o mal da vaidade está nos sentimentos e nos cálculos que se lhe ajuntam, que a mascaram, a pervertem, a envenenam, a entranham na alma, hipertrofiando-a, dando-lhe porvezes a figura hidrópica de virtudes austeras, dessas que merecem lápides em latim. -É assim que se formam esses veneráveis cavalheiros amargos que santamente odeiam todas as manifestações brilhantes e aladas da vida, esses grandes desambiciosos que se vingam em todo o mundo de não poderem confessar ambições, esses perpétuos caluniadores que enxameiam e zumbem, como varejeiras pesadas e tontas de sânie, em redor de cada desgraçado cujo nome não ficou soterrado como o deles na própria impotência.

Nietzsche teve razão – o que algumas vezes lhe acontece por maneira fulmínea -quando disse que as paixões, em seu estado puro, são boas. Apenas haverá nisso exagero. São boas porque são naturais, porque são o próprio homem. O que as torna más, corrompendo-as envilecendo-as, é a hipocrisia, que as dissimula intensificando-as no entanto; que as enfeita por fora, como serpentes, mas dá-lhes o veneno e a insídia; que as oculta e as desvia de seus fins imediatos, claros e geralmente saudáveis, para as pôr ao serviço de afetos nobres e de longos, tenazes e engenhosos ressentimentos.
Menos ousado, Augusto Comte apenas reconhece à vaidade -desejo de aprovação -direitos de cidade na sua moral sociocrática; mas…

… Mas que Nietzsche! que Comte! que Fulano ou Beltrano! Antes de todos eles, o Eclesiastes havia proclamado, para todo o tempo, que tudo é vaidade neste mundo.

Dessa e de outras afirmações se tirou apressadamente a ilação de que o cristianismo nascente votava um ódio entranhando à vida. Mas ele não fazia senão pôr o dedo na latejante verdade, na dolorosa e redentora verdade. Era uma libertação e um alívio que ele trazia: tornaram-no um torvo condenador da vida. Era uma reação contra o formalismo, a pedantaria, a artificiosidade hipócrita do judaísmo literalizante e manhoso, uma revolta do espírito, uma insurreição de veracidade heróica, alegre triunfal da nossa miséria”.

Sim, tudo é vaidade; sim, o homem é mau; sim, somos o verme da terra. Pois, sejamos vaidosos, sejamos maus, sejamos vermes, francamente, de cara descoberta, de alma leve, com a lavada e impudente sinceridade da flor e da fera, à luz do Sol e à face de Deus, na perpétua humildade de uma confissão total e tranqüila! Não queiramos converter velhacamente a larga realidade comum da nossa pobreza em falsas opulências de exceção. Quem se abaixa é que será exaltado: só quem se reconhece tal qual é, ou tal qual somos, achará em si mesmo a verdadeira força purificadora e ascensional, que não mente nem quebra. Confessemo-nos sinceramente a Deus, e Deus a todos os humildes perdoa e sustém.

Como é que a tola perversidade humana pôde converter a clara e benéfica fonte de liberdade e de alegria, que há no fundo dessa viril visualização cristã da vida, nesta coisa sombria e horrenda, nesta mascarada de mistificações, neste pesadelo de atrozes artifícios, neste abominável Santo Ofício de idealismos hipócritas e peçonhentos e de mútua espionagem, que a sociedade instituiu dentro de si mesma e carrega no seio como um rolo esfervilhante de víboras?

Jesus claro, natural e harmonioso como a Verdade, até fabricou vinho em Caná para a jovialidade simples dos homens…

A modéstia é uma virtude imensuramente prezada pelo grande número. Todos a veneram. Todos a exigem dos outros. Por que? Mas, evidentemente, por ciúme e inveja. Não há ninguém mais modesto do que as velha chupadas, arrependidas… de não haverem pecado. – Não podendo suprimir os méritos de quem os tem, quer-se que ao menos o possuidor não os reconheça, ou finja não os reconhecer; quer-se diabolicamente aguar, estragar, atormentar com dúvidas, com acanhamentos, com terrores e com escrúpulos o prazer natural, irreprimível e capitoso que ele possa provar. Assim, mais ou menos, falou Zaratustra.

A moral social é uma formidável conspiração de todos contra cada um, para o triturar, perverter, o desvirilizar, o reduzir a um ser lamentoso e tortuoso, um aleijado sofredor, grotesco e malfazejo. O pátio dos Milagres! O envaidecido enrosca-se e enclavinha-se em si mesmo. Em vez de lançar ao vento as suas pequenas fatuidades e libertar-se delas, ele as recolhe, as acumula, as afunda lá dentro, e as recoze, e as cultiva em sigilo, como um fabricante de venenos, com toda a sorte de cautelas, de temores, de desculpas, de artifícios, de equívocos, de dissimulações, e aí temos uma franqueza quase inocente convertida, pelo farisaísmo da virtude, numa podriqueira secreta!

Só o indivíduo que experimenta prazeres de vaidade, sem se enganar sobre a natureza deles, assistindo a essas experiências do sentimento como um lúcido espectador de si mesmo, só este é capaz de modéstia. Se algum há que não os conheça, esse não é propriamente um modesto, é um que nasceu com uma falha psicológica, como outros nascem privados da vista ou com um pé atrofiado. Não tem mérito algum. Tem um defeito de nascença.

A modéstia é a vaidade que sorri de si mesma. E nesse sorriso vai o quantum satis de contra-veneno.

A boa modéstia é a vaidade que sorri de si mesma para não se rir das outras, e que às vezes arde e se sublima na chama do sorriso -como um balão de papel se destrói e desaparece na própria chama que o eleva.

A vaidade paga regiamente as suas culpas. Quantos artistas crucificados na sua obra, vertendo sangue e clarões!

A boa modéstia é aquela que doma as suas vaidades e as subjuga ao domínio de uma paixão forte e bela, como os tigres que puxavam o carro de Dionísios.

A serpente, às vezes, gasta o seu veneno em botes aos raminhos que bolem ou às sombras que passam, e assim se torna inócua ao picar uma rês ou um homem. A vaidade é muitas vezes como a cobra.

À vaidade parece dever-se também uma quantidade de horrores: assassínios, roubos, atrocidades, suicídios. Na realidade, ela desempenha apenas o papel de um purgante orgânico da comunidade social. Em muitos casos, se a uma só causa se podem filiar coisas tão complexas, é a modéstia que deve ser responsabilizada. Convertida em mandamento irretorquível, comprime e abate a natureza humana e a obriga a esses longos desvios e absurdas transferências da paixão inextirpável, a vontade de se afirmar. O excesso de modéstia pode prolongar-se até ao cinismo, e à delinqüência.

Fonte:
Domínio Público

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Afonso Arinos (Assombramento) Parte 3

Manuel Alves, ao cair da noite, sentindo-se refeito pelo jantar, endireitou para a tapera, caminhando vagarosamente.

Antes de sair, descarregou os dois canos da garrucha num cupim e carregou-a de novo, metendo em cada cano uma bala de cobre e muitos bagos de chumbo grosso. Sua franqueira aparelhada de prata, levou-a também enfiada no correão da cintura. Não lhe esqueceu o rolo de cera nem um maço de palhas. O arneiro partira calado. Não queria provocar a curiosidade dos tropeiros. Lá chegando, penetrou no pátio pela grande porteira escancarada.

Era noite.

Tateando com o pé, reuniu um molho de gravetos secos e, servindo-se das palhas e da binga, fez fogo. Ajuntou mais lenha arrancando paus de cercas velhas, apanhando pedaços de tábua de peças em ruína, e com isso, formou uma grande fogueira. Assim alumiado o pátio, o arneiro acendeu o rolo e começou a percorrer as estrebarias meio apodrecidas, os paióis, as senzalas em linha, uma velha oficina de ferreiro com o fole esburacado e a bigorna ainda em pé.

– Quero ver se tem alguma coisa escondida por aqui. Talvez alguma cama de bicho do mato.

E andava pesquisando, escarafunchando por aquelas dependências de casa nobre, ora desbeiçadas, sítio preferido das lagartixas, dos ferozes lacraus e dos caranguejos cerdosos. Nada, nada: tudo abandonado!

– Senhor! Por que seria? – inquiriu de si para si o cuiabano e parou à porta de uma senzala, olhando para o meio do pátio onde uma caveira alvadia de boi-espáceo, fincada na ponta de uma estaca, parecia ameaçá-lo com a grande armação aberta.

Encaminhou para a escadaria que levava ao alpendre e que se abria em duas escadas, de um lado e de outro, como dois lados de um triângulo, fechando no alpendre, seu vértice. No meio da parede e erguida sobre a sapata, uma cruz de madeira negra avultava; aos pés desta, cavava-se um tanque de pedra, bebedouro do gado da porta, noutro tempo.

Manuel subiu cauteloso e viu a porta aberta com a grande fechadura sem chave, uma tranca de ferro caída e um espeque de madeira atirado a dois passos no assoalho.

Entrou. Viu na sala da frente sua rede armada e no canto da parede, embutido na alvenaria, um grande oratório com portas de almofada entreabertas. Subiu a um banco de recosto alto, unido à parede e chegou o rosto perto do oratório, procurando examiná-lo por dentro, quando um morcego enorme, alvoroçado, tomou surto, ciciando, e foi pregar-se ao teto, donde os olhinhos redondos piscaram ameaçadores.

– Que é lá isso, bicho amaldiçoado? Com Deus adiante e com paz na guia, encomendando Deus e a virgem Maria…

O arrieiro voltou-se, depois de ter murmurado as palavras de esconjuro e, cerrando a porta de fora, especou-a com firmeza. Depois, penetrou na casa pelo corredor comprido, pelo qual o vento corria veloz, sendo-lhe preciso amparar com a mão espalmada a luz vacilante do rolo. Foi dar na sala de jantar, onde uma mesa escura e de rodapés torneados, cercada de bancos esculpidos, estendia-se, vazia e negra.

O teto de estuque, oblongo e escantilhado, rachara, descobrindo os caibros e rasgando uma nesga de céu por uma frincha de telhado. Por aí corria uma goteira no tempo da chuva e, embaixo, o assoalho podre ameaçava tragar quem se aproximasse despercebido. Manuel recuou e dirigiu-se para os cômodos do fundo. Enfiando por um corredor que parecia conduzir à cozinha, viu, ao lado, o teto abatido de um quarto, cujo assoalho tinha no meio um montículo de escombros. Olhou para o céu e viu, abafando a luz apenas adivinhada das estrelas, um bando de nuvens escuras, roldando. Um outro quarto havia junto desse e o olhar do arneiro deteve-se, acompanhando a luz do rolo no braço esquerdo erguido, sondando as prateleiras fixas na parede, onde uma coisa branca luzia. Era um caco velho de prato antigo. Manuel Alves sorriu para uma figurinha de mulher, muito colorida, cuja cabeça aparecia ainda pintada ao vivo na porcelana alva.

Um zunido de vento impetuoso, constringido na fresta de uma janela que olhava para fora, fez o arneiro voltar o rosto de repente e prosseguir o exame do casara-o abandonado. Pareceu-lhe ouvir nesse instante a zoada plangente de um sino ao longe. Levantou a cabeça, estendeu o pescoço e inclinou o ouvido, alerta; o som continuava, zoando, zoando, parecendo ora morrer de todo, ora vibrar ainda, mas sempre ao longe.

– É o vento, talvez, no sino da capela.

E penetrou num salão enorme, escuro. A luz do rolo, tremendo, deixou no chão uma réstia avermelhada. Manuel foi adiante e esbarrou num tamborete de couro, tombado aí. O arneiro foi seguindo, acompanhando uma das paredes. Chegou ao canto e entestou com a outra parede.

– Acaba aqui – murmurou.

Três grandes janelas no fundo estavam fechadas.

– Que haverá aqui atrás? Talvez o terreiro de dentro. Deixe ver…

Tentou abrir uma janela, que resistiu. O vento, fora, disparava, às vezes, reboando como uma vara de queixada em redemoinho no mato.

Manuel fez vibrar as bandeiras da janela a choques repetidos. Resistindo elas, o arneiro recuou e, de braço direito estendido, deu-lhes um empurrão violento. A janela, num grito estardalhaçante, escancarou-se. Uma rajada rompeu por ela adentro, latindo qual matilha enfurecida; pela casa toda houve um tatalar de portas, um ruído de reboco que cai das paredes altas e se esfarinha no chão.

A chama do rolo apagou-se à lufada e o cuiabano ficou só, babatando na treva.

Lembrando-se da binga sacou-a do bolso da calça; colocou a pedra com jeito e bateu-lhe o fuzil; as centelhas saltavam para a frente impelidas pelo vento e apagavam-se logo. Então, o cuiabano deu uns passos para trás, apalpando até tocar a parede do fundo. Encostou-se nela e foi andando para os lados, roçando-lhe as costas procurando o entrevão das janelas. Aí, acocorou-se e tentou de novo tirar fogo: uma faiscazinha chamuscou o isqueiro e Manuel Alves soprou-a delicadamente, alentando-a com a principio, ela animou-se, quis alastrar-se, mas de repente sumiu-se. O arrieiro apalpou o isqueiro, virou-o nas mãos e achou-o úmido; tinha-o deixado no chão, exposto ao sereno, na hora em que fazia a fogueira no pátio e percorria as dependências deste.

Meteu a binga no bolso e disse:

– Espera, diaba, que tu hás de secar com o calor do corpo.

Nesse entremente a zoada do sino fez-se ouvir de novo, dolorosa e longínqua. Então o cuiabano pôs-se de gatinhas, atravessou a faca entre os dentes e marchou como um felino, sutilmente, vagarosamente, de olhos arregalados, querendo varar a treva. Súbito, um ruído estranho fê-lo estacar, arrepiado e encolhido como um jaguar que prepara o bote.

No teto soaram uns passos apressados de tamancos pracatando e uma voz rouquenha pareceu proferir uma imprecação. O arneiro assentou-se nos calcanhares, apertou o ferro nos dentes e puxou da cinta a garrucha; bateu com o punho cerrado nos feixos da arma, chamando a pólvora aos ouvidos e esperou. O ruído cessara; só a zoada do sino continuava, intermitentemente.

Nada aparecendo, Manuel tocou para diante, sempre de gatinhas. Mas, desta vez, a garrucha, aperrada na mão direita, batia no chão a intervalos rítmicos, como a úngula de um quadrúpede manco. Ao passar junto ao quarto de teto esboroado, o cuiabano lobrigou o céu e orientou-se. Seguiu, então, pelo corredor a fora, apalpando, cosendo-se com a parede. Novamente parou ouvindo um farfalhar distante, um sibilo como o da refega no buritizal.

Pouco depois, um estrépito medonho abalou o casara-o escuro e a ventania – alcatéia de lbos rafados – investiu uivando e passou à disparada, estrondando uma janela. Saindo por aí, voltaram de novo os austros furentes, perseguindo-se, precipitando-se, zunindo, gargalhando sarcasticamente, pelos salões vazios.

Ao mesmo tempo, o arrieiro sentiu no espaço um arfar de asas, um soído áspero de aço que ringe e, na cabeça, nas costas, umas pancadinhas assustadas… Pelo espaço todo ressoou um psiu, psiu, psiu… e um bando enorme de morcegos sinistros torvelinhou no meio da ventania.

Manuel foi impelido para a frente à corrimaça daqueles mensageiros do negrume e do assombramento. De músculos crispados num começo de reação selvagem contra a alucinação que o invadia, o arneiro alapardava-se, eriçando-se-lhe os cabelos. Depois, seguia de manso, com o pescoço estendido e os olhos acesos, assim como um sabujo que negaceia.

E foi rompendo a escuridão à caça desse ente maldito que fazia o velho casarão falar ou gemer, ameaçá-lo ou repeti-lo, num conluio demoníaco com o vento, os morcegos e a treva.

Começou a sentir que tinha caído num laço armado talvez pelo maligno. De vez cm quando, parecia-lhe que uma coisa lhe arrepelava os cabelos e uns animálculos desconhecidos perlustravam seu corpo em carreira vertiginosa. No mesmo tempo, um rir abafado, uns cochichos de escárnio pareciam acompanhá-lo de um lado e de outro.

– Ah! vocês não me hão de levar assim-assim, não – exclamava o arrieiro para o invisível. – Pode que eu seja onça presa na arataca. Mas eu mostro! Eu mostro!

E batia com força a coronha da garrucha no solo ecoante.

Súbito, uma luz indecisa, coada por alguma janela próxima, fê-lo vislumbrar um vulto branco, esguio, semelhante a uma grande serpente, coleando, sacudindo-se. O vento trazia vozes estranhas das socavas da terra, misturando-se com os lamentos do sino, mais acentuados agora.

Manuel estacou, com as fontes latejando, a goela constrita e a respiração curta. A boca semi-aberta deixou cair a faca: o fôlego, a modo de um sedenho, penetrou-lhe na garganta seca, sarjando-a e o arneiro roncou como um barra-o acuado pela cachorrada. Correu a mão pelo assoalho e agarrou a faca; meteu-a de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou a garrucha e apontou para o monstro; uma pancada seca do cão no aço do ouvido mostrou-lhe que sua arma fiel o traia. A escorva caíra pelo chão e a garrucha negou fogo. O arneiro arrojou contra o monstro a arma traidora e gaguejou em meia risada de louco:

– Mandingueiros do inferno! Botaram mandinga na minha arma de fiança! Tiveram medo dos dentes da minha garrucha! Mas vocês hão de conhecer homem, sombrações do demônio!

De um salto, arremeteu contra o inimigo; a faca, vibrada com ímpeto feroz, ringiu numa coisa e foi enterrar a ponta na tábua do assoalho, onde o sertanejo, apanhado pelo meio do corpo num laço forte, tombou pesadamente.

A queda assanhou-lhe a fúria e o arneiro, erguendo-se de um pulo, rasgou numa facada um farrapo branco que ondulava no ar. Deu-lhe um bote e estrincou nos dedos um como tecido grosso. Durante alguns momentos ficou no lugar, hirto, suando, rugindo.

Pouco a pouco foi correndo a mão cautelosamente, tateando aquele corpo estranho que seus dedos arrochavam! era um pano, de sua rede, talvez, que o Venâncio armara na sala da frente.

Neste instante, pareceu-lhe ouvir chascos de mofa nas vozes do vento e nos assovios dos morcegos; ao mesmo tempo, percebia que o chamavam lá dentro Manuel, Manuel, Manuel – em frases tartamudeadas. O arneiro avançou como um possesso, dando pulos, esfaqueando sombras que fugiam.

Foi dar na sala de jantar onde, pelo rasgão do telhado, pareciam descer umas formas longas, esvoaçando, e uns vultos alvos, em que por vezes pastavam chamas rápidas, dançavam-lhe diante dos olhos incendidos.

O arneiro não pensava mais. A respiração se lhe tornara estertorosa; horríveis contrações musculares repuxavam-lhe o rosto e ele, investindo as sombras, uivava:

– Traiçoeiras ! Eu queria carne para rasgar com este ferro ! Eu queria osso para esmigalhar num murro.

As sombras fugiam, esfloravam as paredes em ascensão rápida, iluminando-lhe subitamente o rosto, brincando-lhe um momento nos cabelos arrepiados ou dançando-lhe na frente. Era como uma chusma de meninos endemoniados a zombarem dele, puxando-o daqui, beliscando-o d’acolá, açulando-o como a um cão de rua.

O arneiro dava saltos de úgre, arremetendo contra o inimigo nessa luta fantástica: rangia os dentes e parava depois, ganindo como a onça esfaimada a que se escapa a presa. Houve um momento em que uma coréia demoníaca se concertava ao redor dele, entre uivos, guinchos, risadas ou gemidos. Manuel ia recuando e aqueles círculos infernais o iam estringindo; as sombras giravam correndo, precipitando-se, entrando numa porta, saindo noutra, esvoaçando, rojando no chão ou saracoteando desenfreadamente.

Um longo soluço despedaçou-lhe a garganta num ai sentido e profundo e o arneiro deixou cair pesadamente a mão esquerda espalmada num portal, justamente quando um morcego, que fugia amedrontado, lhe deu uma forte pancada no rosto. Então, Manuel pulou novamente para diante, apertando nos dedos o cabo da franqueira fiel; pelo rasgão do telhado novas sombras desciam e algumas, quedas, pareciam dispostas a esperar o embate.

O arneiro rugiu:

– Eu mato! Eu mato! Mato! – e acometeu com de alucinado aqueles entes malditos. De um foi cair no meio das formas impalpáveis e vacilantes. fragor medonho se fez ouvir; o assoalho podre cedeu barrote, roído de cupins, baqueou sobre uma coisa e desmoronava embaixo da casa. O corpo de Manuel, tragado pelo buraco que se abriu, precipitou-se e tombou lá embaixo. Ao mesmo tempo, um som vibrante de metal, um tilintar como de moedas derramando-se pela fenda uma frasqueira que se racha, acompanhou o baque do corpo do arneiro.

Manuel lá no fundo, ferido, ensangüentado, arrastou-se ainda, cravando as unhas na terra como um ururau golpeado de morte. Em todo o corpo estendido com o ventre na terra, perpassava-lhe ainda uma crispação de luta; sua boca proferiu ainda: – “Eu mato ! Mato! Ma…” – e um silêncio trágico pesou sobre a tapera.
–––––––––––-
continua…

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Ditados Populares do Brasil (Letra P)

Pagar o pato
Paga o justo pelo pecador.
Pagar o pato.
Pago chorando o que prometi sorrindo.
Pancada de amor não dói mas cria calo.
Panela em que muitos mexem é sempre mal temperada.
Para cuspir rosas é preciso saber engolir espinho.
Para que seu marido não acorde com a macaca… Depile-se.
Para que tanta pose se o cemitério é o teu fim.
Pato e parente só serve para sujar a gente.
Para ser feliz basta ser bom.
Pensa no bem para ser feliz.
Perca um minuto na vida, mas não perca a vida num minuto.
Perto de quem ama, sem poder amar.
Peru quando faz roda quer comer minhoca.
Plantei amor e colhi saudade.
Pobre é como pneu; quanto mais trabalha, mais liso fica.
Pobre quando ganha ovo, está podre.
Pobre quando mete a mão no bolso só tira os cinco dedos.
Poeira é minha penicilina.
Por onde eu passo deixo saudade.
Por três coisas sou perdido: mulher, cavalo e baralho.
Precisa-se de uma empregada que durma neste emprego.
Precisa-se de uma empregada para o que der e vier.
Preferível ser covarde cinco minutos a ser defunto em um minuto.
Prefiro amar quem me odeia a odiar quem me ama.
Prego que levanta a cabeça, martelo nele.
Preguiçoso é o dono da sauna, que vive do suor dos outros.
Prestação e mini saia, quanto mais curta melhor.
Promessa de candidato não enche a barriga.
Pai rico, filho nobre, neto pobre.
Palavra de rei não volta atrás.
Palestra de cachorro é em porta de açougue.
Pancada grande é que mata cobra.
Panela no fogo, barriga vazia.
Panela que muitos mexem, não toma tempero
Panela velha é que faz boa comida
Pão de pobre só cai de manteiga para baixo.
Papagaio come milho, e periquito leva fama.
Papagaio velho não aprende a falar.
Para bom entendedor, meia palavra basta.
Para cavalo velho, somente milho novo.
Passado três, um gato vira tigre
Passar de cavalo a burro.
Passar manteiga em venta de gato.
Passarinho que come pedra bem sabe o cu que tem
Passarinho, que acompanha morcego, dorme de cabeça pra baixo.
Pau que nasce torto morre torto.
Pedra que rola não cria limo.
Peito lavado, nariz enxugado.
Peixe morre pele boca.
Pela boca morre o peixe
Pelo dedo se conhece o gigante.
Pelo rodar da carruagem, se sabe quem nela vem.
Pelos santos se beijam as pedras.
Pequena nuvem tapa um sol.
Perder o fio da meada.
Perder o latim.
Perder vela com mau defunto.
Perdido como cego em tiroteio.
Perdido por um, perdido por mil.
Perguntar não ofende.
Perto de quem come, longe de quem trabalha.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Pimenta nos olhos dos outros não doi
Pior a emenda que o soneto
Pior cego é aquele que não quer ver.
Pobre como Jó.
Pobre é que nem cachimbo, nasceu pra levar fumo.
Pobre só enche a barriga quando morre afogado.
Pode-se levar o burro à água, mas ele só bebe se quiser.
Poleiro de pato é no chão.
Pôr as cartas na mesa.
Pôr as mangas de fora.
Por causa de um grito se perde uma boiada.
Por cima de queda, coice.
Por fora bela viola, por dentro pão bolorento
Por fora como umbigo de vedete.
Pôr suspensórios em cobra.
Pra baixo todo santo ajuda
Pra burro velho, capim novo
Pra quem é, bacalhau basta
Praga de urubu magro não pega em cavalo gordo.
Praga de urubu não mata cavalo gordo
Prego batido, ponta virada.
Prejuízo pouco é tiquinho.
Presunção e óleo bento, cada qual toma a contento.
Pretensão e água benta cada um tem quanto quer
Primo e pinto são quem sujam a casa.
Promessa de feijão não dá para encher barriga.
Promessas não pagam dívidas.
Promessas, só santo ajudam.
Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Pular da brasa pra cair na labareda.

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Pedro Emílio (Falecimento)

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29 de março de 2013 · 21:20

Pedro Emílio (1936– 2013)

Pedro Emílio de Almeida e Silva nasceu em Campo Alegre (Distrito de Cantagalo), no estado do Rio de Janeiro,em 09 de junho de 1936, filho de Jonas de Almeida e Silva e Austrealina Silva.

Formou-se como Bacharel em Direito.

Casou-se com Maria Paulina Sardenberg Silva, com quem teve 3 filhos.
 

Trabalhou no rádio e no jornal.

Foi Inspetor Seccional da Fazenda, cargo no qual aposentou-se em 1960.

Trovador e poeta, ocupava a cadeira nº 04 da Academia Fidelense de Letras, tendo por patrono Jayme Coelho.

Pedro Emílio, um dos baluartes da trova em São Fidélis, era um dos raros trovadores reminiscentes dentre os que conviveram com Luiz Otávio, J. G. de Araújo Jorge e Aparício Fernandes.

Faleceu em São Fidélis/RJ, ontem, 28 de março de 2013.

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Pedro Emílio (Versos Diversos)

TROVAS
Ai, quem me dera morrer
à mercê dos meus desejos
– apertado nos teus braços,
afogado nos teus beijos!

A minha mãe se enternece
me embalando com o olhar,
compondo terços em prece
sem ser preciso rezar”.

Ao mesmo tempo em que mata,
mata e faz viver também…
Saudade é dor que maltrata,
maltrata fazendo o bem!

Das esperanças que tenho,
duas não posso alcançar:
são as que vivem pousadas
no verde do teu olhar…

Desejar mulher alheia
é pecado sem perdão?
Mas… e se ela nos deseja,
comete pecado ou não?…

Eu não troco a minha vida
pela vida de ninguém,
que nenhuma é mais florida
que a minha, junto ao meu bem.

No cantar de uma cigarra
há tanta melancolia,
que parece ser a tarde
chorando a morte do dia!…

O destino, minha amada,
nos impõe coisas assim:
– Eu não te esqueço por nada!
Por nada… esqueces de mim…

O outono as árvores deixa
despidas completamente…
– Vontade de ser outono
no corpo de muita gente!

Planta um beijo em meu jardim,
meu amor, quando te fores,
que, ao ver teu beijo florir,
murcharão as outras flores!

“Que Deus te ajude!” – assim disse
um mendigo em minha porta.
– Quem dera que Deus te ouvisse,
infeliz que me conforta!

 POEMA PARA EMBALAR JOANA

Quando Joana nasceu,
todas as estrelas
acordaram com ela
e em ciranda cantaram:

“Existe Bela-Joana
Existe Joana-Bela!”

Duas gotinhas de céu
pingaram nos olhos dela,
Joana tem cor de alvorada
e cabelos de luar.

Duas résteas de manhã
disseram nos lábios dela:
“Bela-Joana”  é serra
“Joana-Bela” é mulher.

Quando Joana sorriu,
todas as cores sorriram,
sorriram todas as flores,
até a tristeza sorriu.

Quando Joana andou
pisou leve, mansinho,
mas a primavera acordou
e os passarinhos cantaram:

“Existe Bela-Joana
existe Joana-Bela
Bela-Joana é serra
Joana-Bela é mulher!”

Quando Joana falou,
Um poema estava mudo
Joana acordou o verso
E as palavras rezaram:

– Joana cheia de graça!
– Joana cheia de luz!

——-
SÃO FIDÉLIS
CANTIGA PARA TRÊS TEMPOS

Chuva amarela na Gamboa:
– O I T I S –
Na avenida, chuva doce:
– S A P O T I S –
Tapetes coloridos nas manhãs
Sob os pés de flamboiãs.
LUCAS e CAMBIASCA
– Freis pioneiros –
no silêncio do bronze
FIDÉLIS
– Santo Padroeiro –
na inércia da massa unicolor.
1840 …..1870 …….1970 ……..
Vila ….. Cidade … Saudade…
Maria
Cheia de graça
que passa.
na praça:
– cadência de passos
no espaço.
Dilma ….. Dilce…… Dilza…..
Diva……. Dolores …… dores:
Verso pobre,
canto roucos.
Tudo é nada,
muito é pouco.
O que eu digo,
o que eu sinto
no canto pobre
no verso rouco
para dizer donde vens
para dizer o que tens,
é muito pouco,
é muito pouco.
Cajá, café, caju,
Casa, cachaça, …..Cacilda.
No leito,
o rio,
o estio,
dorme
ouvindo cantigas
de lendas antigas.
Lampião sem gás,
coreto sem “Jazz”,
porto
morto.
Hinos, sinos, Banda.
Bogos, jogos, fogos.
A araponga gonga,
Fere fogo na forja
e aguça o agudo gume
perfuro – cortante,
do comerciante
especialista
– e até tratadista
em robalo.
Cores, flores,
gente, cachorro quente.
Vila!
Cidade!
Saudade.
————-
MADRUGADA

Dois cigarros acesos no silêncio da madrugada
O meu e o teu cigarro
Uma tragada um beijo, um beijo uma tragada:
– Teu braço é o meu travesseiro quente e macio
Dois pássaros que a tempestade da noite separa
E se juntam em manhã dourada de estio
– Preciso partir, mas antes que eu diga mais nada
prende-me nos braços e entre beijos e abraços
pede-me para ficar
E como num delírio louco de amor
Começa a falar: Não, não vá embora
Deixe que o sol desponte e os pássaros comecem a cantar lá fora
Deixe que a névoa adormecida no colo azul das montanhas distantes
Desapareçam ao toque sutil da aurora.
-Que será do resto da manha se te fores,
não vês que ficarei sozinha morrendo de amores?
Esqueça a vida querido e me entregue a luz do teu olhar
Num sonho eterno e perdido
Somente agora o sol debruça em nossa janela
Com ar de malícia vem nos dar bom dia
Beijar nosso amor em eterna poesia
Louvar nosso amor nessa manhã tão bela
– Esqueça a vida querido e me entregue a luz do teu olhar
Num sonho eterno e perdido.
O que será do resto do dia se te fores,
Não vês que ficarei morrendo de amores?
Esqueça a vida querido…
O que será da tarde se te fores,
Não vês que ficarei sozinha morrendo de amores?
Deixe que a tarde caia serena
A encher de sombras e odores o caminho
Por onde há de passar sozinho
Esqueça a vida querido…
Somente agora a lua vem nascendo
Como um pintor em fina tela
Imagens vem tecendo…
Dois cigarros acesos no silêncio da madrugada
O meu e o teu cigarro…

O SAPO E A LUA

Os sapos, despertos,
saíam do mato
perto, com espanto,
da linha do trem.
Enquanto da noite,
logo após a chuva,
Penetrava o manto.

Na esquina a lua
na poça d’ água
boiava disforme…
A canção da rua
( que mágoa: )
a voz dos sapos
espiando a lua
afogada n’ água.

FLOR DE MARÇO

Floresces no outono
Rosa – de – Março
pálida e inocente?

Pequena flor de março
fria e sem cor
pendida num galho
solitário e triste…

Por que chegas, agora,
Fora do tempo
(do meu e do teu)
Rosa – de – Março
tímida e nervosa?

Só não sabes
o bem que tanto trazes
a um Jardim – de – Outono
solitário e triste…

QUERO-QUERO

À tarde nos campos
Dizem os quero-queros aos bandos
Quero-quero!…
Quero-quero!…
Quero-quero!…

Que “querem-querem”
Os quero-queros?
Pobres pedintes das beiras dos brejos!
Se eu soubesse
O quê o quê
Juro-juro
Dava-dava

 Pobre-pobre dos quero-queros
Sou estribilho
Um eco…
Eu também quero…
Também quero…
Também quero…

ROSA

Flor ou espinho?
– Um nome na lembrança
plena de solidão!
– imagem entalhada
pelo esquecimento!

( Rosa um espinho na garganta. )

Musa ou mulher?
-Um verso na boca
cheia de coração!
Uma canção emudecida
Morta de emoção

( Rosa uma cantiga de roda na rua:
Que se chama solidão…
Que roubou me coração… )

– O último ópio!

CACHOEIRA DO SALTO

Nas mãos do leito
Desce suave o rio.

Sussurra num jeito brisa
Nas copas das árvores centenárias.

Segue solene.

Teclas agudas, rotundas, disformes
Das submersas falésias ancestrais…

Cortam-se as águas,
Dilaceram-se, entrelaçam – se:
Murmúrios polissonoros freqüentes!

Elevam-se, embaraçam-se em tranças louras e disformes!

Seguem suaves e brandas
Os cabelos longos e serenos
Das águas milenares
Penetrando o oceano.
( até quando? )

VALENÇA
(poema dedicado à minha irmã Ana ao completar 80 anos)
Jardim de cima
Jardim de baixo…

Quando te encontro
É que me acho!

Do verso a rima
Da flor o Cacho!

Vale de cima
Vale de baixo…

Quando te encontro
É que me acho!

Do verso a rima
Da flor o cacho!

Na manhã de cinzas
Fênix ressurge…

Entre névoa que se evapora
Esplêndida aurora!

Cheia de amor, uma crença
Valei – me Valença!

CANÇÃO FINITA

Do primeiro canto da primavera
serão teus:
– o pássaro e a canção

Da primeira flor da primavera
serão teus:
– a cor e o perfume

Do primeiro verso da primavera
serão teus:
– o poeta e o poema.

Do último canto da primavera
de quem serão:
– o pássaro e a canção?

Da última flor da primavera
de quem serão:
– a cor e o perfume?

Do último verso da primavera
de quem serão:
– o poeta e o poema?

Murcha a flor…
quieto o pássaro…
morto o verso…

De quem será a primavera?

GAMBOA DE OUTRORA

Gamboa é a rua triste da cidade
Triste na expressão das árvores
Triste na expressão dos pássaros!

Gamboa rua da chegada,
Gamboa rua da partida …

Quando chego é rua do abraço
Que me estende o peito úmido de saudade,
Quando parto é rua do adeus
Que me acena na primeira curva do caminho

Gamboa é a rua das lágrimas amarelas dos oitis
Choradas das calçadas …
Rua das casas antigas debruçadas no tempo …
Lamento das rezas dos pardais em tardes de cinzas,
Sombras das casas antigas debruçadas no tempo …

Gamboa é a rua triste de minha cidade,
Triste só para mim, quem sabe ?

Lá, a gente chega na partida …
Lá, a gente parte na chegada …

Fontes:
http://www.sardenbergpoesias.com.br
http://poeticasfulinaimicas.blogspot.com.br
http://www.saofidelisrj.com.br/
http://www.vendavaldasletras.wordpress.com

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A. A. de Assis (A Trova na Imagem 10)

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29 de março de 2013 · 01:24

Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XXI)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

SE EU MORRER NOVO

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

SE DEPOIS DE EU MORRER

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

SE O HOMEM FOSSE

Se o homem fosse, como deveria ser,
Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais.
Animal directo e não indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar tini sentido às cousas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do “conjunto”;
Um sentido como ver e ouvir do “total” elas cousas
E não, como temos, um pensamento do “conjunto”;
E não, como temos, uma idéia, do “total” das cousas.
E assim — veríamos — não teríamos noção do “conjunto” ou do “total”,
Porque o sentido do “total” ou do “conjunto” não vem de um total ou de um
conjunto
Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

TAMBÉM SEI FAZER CONJETURAS

Também sei fazer conjeturas.
Há em cada cousa aquilo que ela é que a anima.
Na planta está por fora e é urna ninfa pequena.
No animal é um ser interior longínquo.
No homem é a alma que vive com ele e é já ele.
Nos deuses tem o mesmo tamanho
E o mesmo espaço que o corpo
E é a mesma cousa que o corpo.

TODAS AS OPINIÕES

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?

Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

TU, MÍSTICO

Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.

UM DIA DE CHUVA

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.

ÚLTIMA ESTRELA

Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trêmulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim;
Alegre pelo critério (?) que tenho em Poder ver-te
Sem “estado de alma” nenhum, sonho ver-te.
A tua beleza para mim está em existires
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.

UMA GARGALHADA

Uma Gargalhada de rapariga soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem não vejo.
Lembro-me já que ouvi.
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: não, os montes, as terras ao sol o sol, a casa aqui,
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois
lados da cabeça

VERDADE, MENTIRA

Verdade, mentira, certeza, incerteza…
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos
e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

VIVE

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet, sem identificação do autor.

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Isaac Leib Peretz (Bontsha, o Silencioso)

(1852-1915 – Polônia)
Judeu polonês que escrevia em iídish, lsaac Leib Peretz deixou uma enorme influência em inúmeros escritores judaicos contemporâneos, pelo mundo todo. Seus contos constam em várias antologias mundiais, principalmente publicados nos Estados Unidos. Histórias como As Três Prendas, Dois Moribundos e este Bontsha, o Silencioso, retrato de um ser humano que nunca sentiu ódio e que nunca se queixa de Deus ou dos outros homens, são contos consagrados. De amor pela vida e de um humor (quase) pungente.
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Aqui, neste mundo, a morte de Bontsha, o Silencioso, não causou nenhuma impressão. Pergunte a qualquer um: quem foi Bontsha? Como viveu? Como morreu? Suas forças pouco a pouco o abandonaram, seu coração, com o tempo, desistiu de bater ou foram seus ossos que cederam debaixo do peso de seu fardo? Quem sabe? Talvez, por não comer, tenha morrido de fome.

Um cavalo, que caísse morto, puxando uma carroça pelas ruas, chamaria mais atenção. Curiosos viriam de longe para ver a carcaça. O local do acidente ficaria marcado. Os jornais noticiariam o fato. Mas se os cavalos fossem tão numerosos como os seres humanos não mereceriam tal honra. Afinal, quantos cavalos existem? Já os homens, são tantos – deve haver bilhões!

Bontsha era um ser humano. Viveu desconhecido, no silêncio, e no silêncio morreu, depois de passar pela vida como uma sombra. No dia em que Bontsha nasceu, ninguém ficou alegre, ninguém tomou um copo de vinho. Na sua confirmação, não houve discurso nem celebração. Viveu como o grão de areia na beira do grande oceano, entre milhões de outros, grãos como ele. E quando o vento, enfim, o levantou e levou com seu sopro para a outra margem, ninguém notou.

Durante sua vida, seus pés não deixaram marcas no pó da estrada; depois de sua morte, o vento derrubou a tabuleta que marcava sua sepultura, e quando a mulher do coveiro encontrou aquele pedaço de madeira, já longe do seu túmulo, usou-o para acender o fogo embaixo de uma panela de batatas. Três dias depois da morte de Bontsha ninguém mais, nem mesmo o coveiro, se lembrava onde fora enterrado. Se houvesse uma lápide no túmulo, alguém poderia, mesmo muitos anos depois, ler seu nome na pedra e Bontsha, o Silencioso, não teria desaparecido da memória dos homens como uma sombra.

Solitário viveu e solitário morreu. Não fosse a pressa e o barulho infernal em que vivem os homens, talvez alguém notasse que Bontsha também era um ser humano, que seus ossos se quebravam sob o peso das tarefas diárias, que ele tinha dois olhos assustados, que era trêmula sua boca silenciosa, que mesmo quando não tinha um pesado fardo nas costas ele caminhava curvado, olhando para o chão, como se já estivesse procurando a sepultura.

Quando o levaram para o hospital, dez miseráveis disputaram seu canto estreito que logo encontrou um inquilino. Quando foi para o necrotério, havia vinte doentes que só esperavam que ele morresse e vagasse seu leito na enfermaria. Eram quarenta os mortos a serem sepultados, quando o levaram para o cemitério. Quem sabe quantos esperam para roubar dele até mesmo aquele pedacinho de chão?

Silencioso quando nasceu, silencioso na vida, silencioso quando morreu, mais silencioso ainda foi seu enterro. Mas no outro mundo foi diferente. Ali a morte de Bontsha foi uma sensação. O som da trombeta messiânica ecoou pelos sete céus, anunciando: Bontsha, o Silencioso, morreu! Os anjos mais importantes voaram, com suas asas imponentes, para contar uns aos outros: Sabe quem chegou? Bontsha! Bontsha, o Silencioso, morreu.

Os anjinhos, com suas asas de ouro e seus sapatinhos prateados, os olhos brilhando e rindo de felicidade e de alegria, correram, cantando, para receber Bontsha. O rumor que fizeram com suas asas, o bater de seus pequenos sapatos e seu riso cristalino correram por todo o Paraíso, de forma que até Deus soube que Bontsha, o Silencioso, havia chegado.

Nosso pai Abraão esperava por ele no portão, com braços estendidos para abençoar e acolher:

– A paz esteja contigo! – disse com o rosto, patriarcal e vincado, iluminado por um doce sorriso.

Mas o que está acontecendo no céu? Dois anjos trazem um trono dourado para que Bontsha se sente nele e sobre sua cabeça colocam uma coroa de pedras preciosas.

– Mas por que o trono e a coroa? Antes mesmo que ele seja julgado? – se perguntam os santos com uma pontinha de inveja.

Os anjos respondem que aquele é Bontsha e que seu julgamento será apenas uma formalidade. Quem poderia dizer alguma coisa contra ele? Imaginem, Bontsha, o Silencioso!

Quando se viu recebido por um coro de anjinhos e abraçado pelo patriarca Abraão como se fossem velhos amigos, quando viu preparado para si um trono e sua cabeça coberta por uma coroa, quando ouviu que em seu julgamento final nada seria dito contra ele, Bontsha, como fazia em vida, ficou em silêncio. Ficou em silêncio de medo. Com o coração apertado e o sangue correndo gelado; sabendo que tudo isto só podia ser um sonho ou um terrível engano.

Ele estava acostumado às duas coisas, sonhos e enganos. Quantas vezes não sonhara ser rico, com muito dinheiro! Apenas para acordar na mesma cama de sempre e um pouco mais miserável. Quantas vezes alguém lhe dissera uma palavra gentil com um sorriso! Apenas para afastar-se com nojo e irritação ao perceber o engano.

Não ousava levantar os olhos, fazer um movimento, como não ousara responder à saudação do patriarca (seus lábios não conseguiram formar a palavra “paz”). Tinha medo que um gesto seu fizesse o sonho se dissipar e que ele acordasse num ninho de cobras. Medo que uma palavra o denunciasse por quem não era, e descoberto o engano fosse expulso dali. Medo que o impedia de ouvir o coro angelical e de ver dançar em volta dele os querubins. Quando o conduziram, enfim, diante de Deus no Tribunal do Juízo, não foi, ao menos, capaz de dizer “bom dia”. Estava paralisado de medo.

Olhando para o chão belíssimo, que só fazia aumentar seu terror quando via que eram seus pés que pisavam ali, tudo que conseguia pensar era: “Quem sabe com que ricaço importante ou sábio rabino me confundem? Ele aparecerá e será o meu fim E fechou os olhos para não ver.

Não conseguiu entender o que diziam quando chamaram seu próprio nome. Ouvia as vozes como quem houve um instrumento musical sem dar sentido às palavras. Uma voz de anjo dizia:

– Bontsha, o Silencioso, um nome que o cobre de glória como nem o mais rico e elegante dos mantos jamais cobriu um príncipe…

“O que será que estão dizendo? De quem estarão falando?”, pensava Bontsha, a quem parecia ter ouvido seu nome, enquanto outra voz interrompia seu anjo defensor:

– Rico manto! Príncipe! Poupe-nos as metáforas e o tempo.

– Nunca reclamou – continuou a defesa – nem de Deus nem da vida; em seus olhos nunca se viu traço de mágoa ou despeito. Nunca um protesto aos céus.

Bontsha continuava sem entender do que falavam quando outra vez ouviu a voz do promotor:

– Deixemos, por favor, a retórica!

– Seus sofrimentos foram indescritíveis, temos aqui um homem que padeceu mais que Job!

“Quem?” – pensava Bontsha – “Quem será este homem?”

– Fatos! Fatos! Deixe de lado os floreios e atenha-se, por favor, aos fatos! disse o juiz.

– No oitavo dia foi circuncidado…

– Tanta riqueza de detalhes é desnecessária.

– Fizeram um talho mal feito e nem ao menos lhe estancaram o sangue…

– Desnecessária e de mau gosto.

– Desde criança sempre silencioso. Não chorava sua dor, nem mesmo quando perdeu sua mãe e foi entregue à víbora, à bruxa, que era sua madrasta!

“Será que falam de mim?” – pensou Bontsha.

– Não é a madrasta quem está sendo julgada – advertiu o juiz.

– Eram contados os pequenos pedaços de pão bolorento e duro que lhe dava. Enquanto ela mesma tomava seu café com creme. A única coisa que Bontsha teve com abundância foram maus tratos. Equimoses e cicatrizes ficavam à vista de todos, através dos rasgos, nos trapos que lhe dava para vestir. No inverno fazia-o cortar lenha descalço no frio quintal coberto de neve. Suas mãozinhas eram fracas e se feriam nos troncos pesados demais para elas. Tantas vezes seus pés congelaram. Mas ele sempre em silêncio, sem nunca uma queixa, nem mesmo ao seu pai…

– Aquele bêbado? Imaginem queixar-se a ele! – a voz do promotor era cheia de escárnio enquanto o corpo de Bontsha tremia com a memória do medo antigo.

– Nunca reclamou e sempre tão só. Jamais teve um amigo, um companheiro. Jamais foi a uma escola. Nunca viu uma muda de roupa nova. Nunca soube o que era um momento
de liberdade.

– Objeção! Objeção! – gritou irritado o promotor. – Ele está apenas apelando para o sentimentalismo da Corte, com esses vôos de retórica.

– Silencioso! Mesmo quando seu pai, completamente embriagado, atirou-o para fora de casa, na neve fria de uma noite de inverno, ele não disse nada. Levantou-se em silêncio e andou para onde o levaram seus passos.

– Vagou pelo mundo na miséria e em silêncio; mesmo passando fome, ele implorava apenas com o olhar. Finalmente, numa noite chuvosa de início de primavera seus passos o levaram (como o vento transporta uma folha) para uma grande cidade. Lá entrou sem ser visto nem ser ouvido, mas, mesmo assim, o jogaram numa prisão. Sempre em silêncio não protestou nem perguntou: “Por quê?” “Que foi que eu fiz?” Quando as portas da prisão se abriram, ele saiu, como havia entrado, sem dizer uma palavra. Procurou um trabalho e deram-lhe o mais pesado e o que pagava menos. Ele aceitou em silêncio! Mais terrível que o trabalho era procurar por trabalho, suando frio, com o estômago torturado pela fome. Sempre em silêncio! Enlameado e sujo, era, com desprezo, expulso das calçadas e obrigado a andar pela rua, entre as bestas e os carros, com sua carga. Ele mesmo uma besta de carga, arriscando o pescoço a cada passo. Em silêncio.

– Nunca se preocupou em saber quantos quilos de carga devia carregar, .nem quantas viagens devia fazer, tropeçando a cada passo para ganhar uma moeda. Nunca levantou a voz para reclamar sua paga. Como um mendicante, esperava que lhe dessem o que de direito era seu. Esperava na porta em silêncio; se lhe diziam: “Volte mais tarde”, desaparecia como uma sombra, e mais tarde voltava como uma sombra para esperar. Nunca reclamou quando lhe pagavam menos ou davam-lhe, misturada às outras, uma moeda falsa. A tudo suportava em silêncio.

– Uma vez – continuou o anjo defensor – sua sorte pareceu mudar. Que milagre aconteceu? Quando cruzava a rua, Bontsha viu uma carruagem que vinha em disparada com os cavalos sem governo. Seu cocheiro estava caído lá atrás com a cabeça sangrando. Dentro dela um homem mais morto que vivo de pânico. Os cavalos assustados espumavam pela boca e em seus olhos selvagens brilhava uma luz que era como o fogo numa noite escura. Bontsha atirou-se às rédeas e conseguiu parar os cavalos. O homem a quem salvara era rico e generoso e não foi ingrato, pôs nas mãos dele o chicote do cocheiro morto e fez de Bontsha seu novo cocheiro. Um cocheiro! Não mais um carregador! Melhor ainda, seu benfeitor conseguiu-lhe uma esposa na qual, com grande generosidade, fez ele mesmo um filho para que Bontsha criasse. E Bontsha, em silêncio ainda desta vez, não reclamou.

“É de mim que falam” – pensou Bontsha – “é realmente de mim!” – Mas ainda assim não teve coragem para abrir os olhos e olhar seus juizes.

– Resignou-se em silêncio – prosseguiu o anjo – quando, falido, seu benfeitor deixou de pagar-lhe todos os salários atrasados. Aceitou sem uma queixa quando sua esposa o abandonou deixando-lhe seu filho, ainda pequeno, para que ele cuidasse. E permaneceu em silêncio, quando, quinze anos mais tarde, aquele mesmo menino que ele criara estava crescido e forte o bastante para botá-lo para fora de sua própria casa.

“É de mim que estão falando” – pensou Bontsha, ainda com medo – “é de mim mesmo!”

– Ficou em silêncio até mesmo quando – continuou o anjo que o defendia – o benfeitor, tendo resolvido seus problemas econômicos e novamente rico, pagou a todos seus credores e não se lembrou de pagar a ele. E, mais ainda, contratou um novo cocheiro para sua bela carruagem enquanto Bontsha trabalhava outra vez como carregador pelas ruas. E, quando foi atropelado, por esta mesma carruagem com seus belos cavalos, suas rodas de borracha e seu novo cocheiro, nem então, Bontsha, agonizando na rua, teve uma palavra amarga. Nem mesmo à polícia ele disse quem o havia atropelado e abandonado na rua. No hospital, onde todos têm o direito de gemer, Bontsha continuou em silêncio; quieto em seu leito, abandonado por médicos e enfermeiros, que não perdem tempo com quem não pode pagar. Sempre assim, sem um murmúrio! Quando a morte chegou, ele a esperava em silêncio. Nunca um protesto contra os homens, nunca um protesto contra Deus!

A defesa havia terminado e o pânico voltou a tomar conta de Bontsha; agora, ele sabia, viria a fala do promotor. Como o defensor, que o fizera lembrar de tantos detalhes de sua vida na Terra, seria agora a vez da acusação de tirar do passado seus pecados e faltas e trazê-los todos de volta à memória. Deus sabe o que ele iria lembrar!

– Senhores! – começou o anjo acusador, com uma voz seca e dura, mas logo fez uma pausa como se não soubesse como continuar. – Senhores! – começou outra vez e finalmente disse – Senhores, como Bontsha, que passou toda a vida em silêncio, eu também ficarei em silêncio.

Sobre o Tribunal caiu um grande silêncio que foi quebrado por fim por uma voz nova. Uma voz que vinha do mais alto trono. Uma voz terna e amorosa:

– Bontsha, meu filho! Bontsha – a voz era como música -, filho do meu coração!

Bontsha foi tocado, pela voz de Deus, no mais íntimo de seu ser. Sua alma começou a chorar. E era tão doce chorar. Nunca Bontsha pensara que chorar pudesse ser tão doce.

– Meu filho…

Nunca, desde que sua mãe morrera, ninguém o chamara assim. Com uma voz assIm.

– Meu filho – ele continuou ouvindo -, você sofreu tanto e nunca se queixou. Não existe um lugar em seu coração que não tenha sido ferido. Não existe lugar no seu corpo que não tenha sangrado. Nenhum lugar em sua alma que não fosse ofendido. Sem um protesto, sempre em silêncio.

– Em vida ninguém o compreendeu. Você mesmo não se compreendeu. Que não era necessário suportar tanto. Que tinha o direito de se lamentar. Que seu lamento chegaria ao céu. Que um gemido seu poderia chamar um exército de anjos vingadores e o próprio fim do mundo. Nunca entendeu o poder adormecido que havia em você. Lá, naquele mundo de ilusões, seu silêncio nunca foi recompensado, mas aqui no Paraíso, é tudo seu. Não apenas uma parte, não uma cota, mas tudo. O Paraíso é seu! O que você quiser, é tudo seu!

Então, Bontsha, ousou finalmente levantar os olhos. A luz o cegava. A luz esplendorosa que estava em tudo e em toda parte. Os anjos brilhando na luz, o trono iluminado.

Ele baixou novamente os olhos, ofuscados:

– Verdade? – Perguntou incrédulo e um pouco embaraçado.

– Sim, de verdade! – respondeu o Todo Poderoso, e com ele, numa só voz, todo o coro celestial – É tudo seu! Tudo no Paraíso é seu! Escolha! Tome! É tudo seu! Você estará tomando daquilo que já é seu!

– Nesse caso – disse Bontsha, sorrindo pela primeira vez -, nesse caso, Excelência, eu gostaria de ter todos os dias, no café da manhã, um pãozinho quente com bastante manteiga.

Um silêncio terrível tomou conta do Tribunal, mais terrível ainda do que tinha sido o silêncio de Bontsha durante toda sua vida. E Deus e os anjos baixaram a cabeça, envergonhados de terem criado na Terra tanta e tão desnecessária humildade.

Então o silêncio foi quebrado pela gargalhada amarga do anjo acusador.

(Tradução de Octávio Marcondes)

Fonte: Os 100 melhores contos de humor da literatura universal / Flávio Moreira da Costa (org.).Rio de Janeiro: Ediouro, 2001

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Afonso Arinos (Assombramento) Parte 2

Enoitara-se o escampado e, com ele, o rancho e a tapera. O rolo de cera, há pouco aceso e pregado ao pé direito do rancho, fazia uma luz fumarenta. Embaixo da tripeça, o fogo estalava ainda. De longe vinham aí morrer as vozes do sapo-cachorro que latia lá num brejo afastado, sobre o qual os vaga-lumes teciam uma trama de luz vacilante. De cá se ouvia o resfolegar da mulada pastando, espalhada pelo campo. E o cincerro da madrinha, badalando compassadamente aos movimentos do animal, sonorizava aquela grave extensão erma.

As estrelas, em divina faceirice, furtavam o brilho às miradas dos tropeiros que, tomados de langor, banzavam, estirados nas caronas, apoiadas as cabeças nos serigotes, com o rosto voltado para o céu.

Um dos tocadores, rapagão do Ceará, pegou a tirar uma cantiga. E pouco a pouco, todos aqueles homens errantes, filhos dos pontos mais afastados desta grande pátria, sufocados pelas mesmas saudades, unificados no mesmo sentimento de amor à independência, irmanados nas alegrias e nas dores da vida em comum, responderam em coro, cantando o estribilho. A princípio timidamente, as vozes meio veladas deixaram entreouvir os suspiros; mas, animando-se, animando-se, a solidão foi se enchendo de melodia, foi se povoando de sons dessa música espontânea e simples, tão bárbara e tão livre de regras, onde a alma sertaneja soluça ou geme, campeia vitoriosa ou ruge traiçoeira irmã gêmea das vozes das feras, dos roncos da cachoeira, do murmulho suave do arroio, do gorjeio delicado das aves e do tétrico fragor das tormentas. O idílio ou a luta, o romance ou a tragédia viveram no relevo extraordinário desses versos mutilados, dessa linguagem brutesca da tropeirada.

E, enquanto um deles, rufando um sapateado, gracejava com os companheiros, lembrando os perigos da noite nesse ermo consistório das almas penadas – outro, o Joaquim Pampa, lá das bandas do sul, interrompendo a narração de suas proezas na campanha, quando corria à cola da bagualada, girando as bolas no punho erguido, fez calar os últimos parceiros que ainda acompanhavam nas cantilenas o cearense peitudo, gritando-lhes:

– Ché, povo! Tá chegando a hora!

O último estribilho:

Deixa estar o jacaré:
A lagoa há de secar

expirou magoado na boca daqueles poucos, amantes resignados, que esperavam um tempo mais feliz, onde os corações duros das morenas ingratas amolecessem para seus namorados fiéis:

Deixa estar o jacaré:
A lagoa há de secar

O tropeiro apaixonado, rapazinho esguio, de olhos pretos e fundos, que contemplava absorto a barra do céu ao cair da tarde, estava entre estes. E quando emudeceu a voz dos companheiros ao lado, ele concluiu a quadra com estas palavras, ditas em tom de fé profunda, como se evocasse mágoas longo tempo padecidas:
Rio Preto há de dar vau

Té pra cachorro passar!

– Tá chegando a hora!

– Hora de que, Joaquim?

– De aparecerem as almas perdidas. Ih! Vamos acender fogueiras em roda do rancho.

Nisto apareceu o Venâncio, cortando-lhes a conversa.

– Gente ! O patrão já está na tapera. Deus permita que nada lhe aconteça. Mas vocês sabem: ninguém gosta deste pouso mal-assombrado.

– Escute, tio Venâncio. A rapaziada deve também vigiar a tapera. Pois nós havemos de deixar o patrão sozinho?

– Que se há de fazer? Ele disse que queria ver com os seus olhos e havia de ir só, porque assombração não aparece senão a uma pessoa só que mostre coragem.

– O povo diz que mais de um tropeiro animoso quis ver a coisa de perto; mas no dia seguinte, os companheiros tinham que trazer defunto para o rancho porque, dos que dormem lá, não escapa nenhum.

– Qual, homem! Isso também não! Quem conta um conto acrescenta um ponto. Eu cá não vou me fiando muito na boca do povo, por isso é que eu não gosto de pôr o sentido nessas coisas.

A conversa tornou-se geral e cada um contou um caso de coisa do outro mundo. O silêncio e a solidão da noite, realçando as cenas fantásticas das narrações de há pouco, filtraram nas almas dos parceiros menos corajosos um como terror pela iminência das aparições.

E foram-se amontoando a um canto do rancho, rentes uns aos outros, de armas aperradas alguns e olhos esbugalhados para o indeciso da treva; outros, destemidos e gabolas, diziam alto.

– Cá por mim, o defunto que me tentar morre duas vezes, isto tão certo como sem dúvida – e espreguiçavam-se nos couros estendidos, bocejando de sono.

Súbito, ouviu-se um gemido agudo, fortíssimo, atroando os ares como o último grito de um animal ferido de morte.

Os tropeiros pularam dos lugares, precipitando-se confusamente para a beira do rancho.

Mas o Venâncio acudiu logo, dizendo:

– Até aí vou eu, gente ! Dessas almas eu não tenho medo. Já sou vaqueano velho e posso contar. São as antas-sapateiras no cio. Disso a gente ouve poucas vezes, mas ouve. Vocês têm razão: faz medo.

E os paquidermes, ao darem com o fogo, dispararam, galopando pelo capão adentro.
–––––––––––––-
continua…

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 27. Justiça

Íamos hoje para a cidade na marcha habitual, nem muito rápida, nem propriamente vagarosa. Circunstância notável, se bem que ordinária -o bonde não correu nem por um instante fora dos trilhos. Entretanto, chocou de repente com um automóvel, e surgiu uma grande discussão a respeito de se saber a quem tocava a culpa, se ao motorista, se ao chauffeur.

Entrou em função o juiz que há dentro de cada indivíduo, e as sentenças divergiam.

-“Foi esse negrinho estúpido,” dizia um, indigitando o chauffeur.

-“O culpado é esse louco desse portuga,” asseverava outro, referindo-se ao motorista.

-“Cadeia com eles, é o que eu vivo a dizer.”

-“Qual! só a pau.”

-“Por milagre não houve coisa muito pior: olhe como ficou a máquina.”

-“Foi pena que não ficasse ainda mais escangalhada, era menos uma.”

-“Mas o bonde podia bem ter parado a tempo.”

-“Não podia, aqui é um declive.”

-“Seu guarda, o culpado é o chauffeur.”

-“Não, seu guarda, o culpado é o motorneiro.”

E cada juiz era também um partidário, ou do lado do homem do bonde, ou do lado do homem do automóvel. Por simpatia física, por espírito de nacionalidade ou de raça, por disposição mais favorável a uma das classes de automedontes, por ter ou não automóvel, por ter ou não ter um parente chauffeur ou automobilista, por mero palpite, cada um propendeu imediatamente para uma das bandas.

Mas, valha a verdade, havia também homens imparciais, por exceção. Um destes, abanando a cabeça, e afastando-se do burburinho, me ponderou tranqüilamente:

-“Ora, ora! Quem foi, quem não foi… Eu o que fazia era pegar nos dois e socá-los no xilindró: é aí, seus danados! Esta corja…”

Fonte:
Domínio Público

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O Nosso Português de Cada Dia (Pegadinhas do Português) 6

Pegadinha 27

Viemos aqui, nesta hora, expressar nosso agradecimento pelo grande favor que nos fizeram.
Neste caso, apresenta-se um verbo comumente usado de maneira errada em algumas de suas formas. Nesta oportunidade falaremos apenas sobre um desses deslizes cometidos com o uso indevido do verbo vir. Ninguém diz: “estivemos aqui, nesta hora.” Diz-se, porém, no tempo certo: “estamos aqui, nesta hora.” Se é “nesta hora” que o fato ocorre, então, o verbo deve estar no presente.

Então, depois da correção, tem sua frase inicial assim escrita:

Vimos aqui, nesta hora, expressar nosso agradecimento pelo grande favor que nos fizeram.

Pegadinha 28

O político que se pode confiar ainda não nasceu.

Este é erro próprio da fala popular, linguagem que não está nem aí para a regência verbal. Erros desse tipo são muito explorados em provas de vestibulares e concursos públicos. Esteja alerta, caro leitor. A regência do verto confiar exige a preposição em, pois quem confia, confia em alguém, e não confia alguém.

Este tópico, depois da correção, tem sua frase inicial escrita assim:

O político em que se pode confiar ainda não nasceu.

Pegadinha 29

Traze-me uns pastelzinhos.
Neste tópico, focalizamos um aspecto muito explorado em provas de vestibulares e concursos públicos – o plural dos diminutivos em -zinho -, que é feito do seguinte modo:

A – leva-se o substantivo ao plural em seu grau normal: pastéis;
B – retira-se o s final: pastei;
C – acrescenta-se -zinhos, e pronto: pasteizinhos.

Outros exemplos:
pãezinhos
carreteizinhos
limõezinhos
caracoizinhos
aneizinhos

Depois da correção, a frase correta fica assim:

Traze-me uns pasteizinhos.

Pegadinha 30

O relógio marcou meio-dia e meio.

Esta pegadinha que, de vez em quando, figura em provas de vestibular e concurso, sempre acaba tirando candidatos do páreo. A palavra que se refere a horas é meia e não meio. Diz-se nove horas e meia, vinte horas e meia e assim por diante.

Então, depois da correção, temos a seguinte frase:

O relógio marcou meio-dia e meia.

Pegadinha 31

Ao comer, tenha cuidado com os espinhos de peixe.

Esta pegadinha apresenta mais uma popularização errônea de uma palavra. Peixe não tem espinhos. Isso é próprio de certas plantas e, quando muito, do porco-espinho. Peixe tem espinhas. É bom estar preparado para a ocorrência de casos como o desta dica, em provas de vestibular e concurso.

Então, depois da correção, temos a seguinte frase:

Ao comer, tenha cuidado com as espinhas de peixe.

Pegadinha 32

Nossa situação está russa.

Esta pegadinha nos adverte para não confundir estado físico ou mental com estado político. Russa refere-se à Rússia. Quando se quer dizer que a situação está feia, diz-se que está ruça (com ç), que significa a cor pardacenta, escura. Em provas de vestibular e concurso, não é raro questões desse gênero.

Então, depois da correção, temos a seguinte frase:

Nossa situação está ruça.

Pegadinha 33

O juiz leu os 3º, 4º e 5º parágrafos.

Eis um tema frequentemente cobrado em provas de vestibular e concurso — a concordância nominal. A frase em destaque, acima, está mal formulada quanto ao aspecto da concordância nominal. Mesmo que haja uma lista ou uma série de elementos antes do artigo, este deve concordar com o elemento mais próximo. O artigo deve ficar no singular, diante de palavra no singular. Exemplos:

Este cartório serve a 2ª e 3ª varas de família.
A revogação atingiu o 4º, 5º, 6º e 7º artigos da antiga lei.
Estamos discutindo o I e II itens do contrato.
A 1ª, 2ª e 3ª séries terão aulas de educação física.

Então, depois da correção, temos a seguinte frase:

O juiz leu o 3º, 4º e 5º parágrafos.

Pegadinha 34

O chefe reclamou porque a secretária não tinha entregue o relatório.

Nesta pegadinha, temos que considerar que existem duas línguas faladas no País — a culta e a popular. Esta é falada sem nenhuma preocupação com o idioma, enquanto aquela cujo conhecimento é exigido em provas de vestibular e concurso, subordina-se às normas da língua portuguesa falada no Brasil.

O verbo entregar possui dois particípios — entregue e entregado. Com os verbos ter e haver, usa-se entregado. Por outro lado, a forma entregue é usada com os verbos ser e estar. Exemplos:

A moça não havia entregado o bilhete.
João já tinha entregado as passagens.
Uma lista nova é entregue todas as manhãs.
Não se preocupe, a encomenda foi entregue.
A mercadoria está entregue.

A frase acima, depois de corrigida, fica assim:

O chefe reclamou porque a secretária não tinha entregado o relatório.

Fonte:
126 Pegadinhas em Língua Portuguesa. http://www.softwareebookecia.com.

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Soares de Passos (A Fonte dos Amores)

Eis os sítios formosos, onde a triste
Nos dias d’ilusão viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d’amor inda lhe guardam.
Oh! quantas vezes, solitária fonte,
Após longo vagar por esses campos
Do plácido Mondego, nestas margens
A namorada Inês veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
Aos montes e às ervinhas ensinando
O nome que no peito escrito tinha!
E quantas, quantas vezes no silêncio
Desta grata soidão viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sós felizes,
Nos êxtases da terra os céus gozando!

Pobre, infeliz Inês! breves passaram
Os teus dias d’amor e de ventura.
Ao régio moço o coração renderas,
E o que em todos é lei, em ti foi crime.
Eis do bárbaro pai, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, ei-lo que aos sítios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante do teu bem, ao desamparo,
Ai! não pudeste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos pés d’Afonso lacrimosa
Pediste compaixão; debalde em ânsias
Abraçando teus filhinhos inocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos ímpios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Ei-los a ti correndo, ei-los que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio cristalino,
Que tanto amou, oh bárbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonizante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos inocentes abraçada expiras.

Inda, infeliz Inês, inda saudosos
Estes sítios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os ecos, brisas,
Parecem murmurar a infanda história;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
Às margens, e aos rochedos comovidos
Teu derradeiro, moribundo alento.

Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Guimarães Rosa (O Burrinho Pedrês)

Conto de Sagarana

Análise da obra

Conto narrado em 3ª pessoa. A onisciência do narrador é propositalmente relativizada, dando voz própria e encantamento às narrativas e acentuando sua dimensão mítica e poética.

Em O burrinho pedrês, primeiro dos nove contos, Guimarães procura mostrar, tendo como pano de fundo o mundo dos vaqueiros, que todos têm a sua hora e sua vez de ser útil. É o caso do burrinho Sete-de-Ouros: a gente segue a esperteza mansa do bicho, a sua finura de instinto e inteligência que o faz poupar-se, furtar-se a choques e maus pisos e, por fim, orientar-se e salvar-se numa cheia onde os cavalos afogam, carregando um bêbado às costas e ainda outro náufrago enclavinhado no rabo – ressalta Oscar Lopes.

O burrinho pedrês é uma estória que metaforiza a experiência da velhice, um burrinho experiente sabe se orientar onde cavalos de boa montaria sucumbem.

Neste conto, assim como em Conversa de bois e em A volta do marido pródigo, os animais se transformam em heróis, questionando o saber dos homens com o seu suposto não saber.

A ironia do escritor vale-se do decadente burrinho para pôr a nu a onipotência presunçosa do homem, que julga controlar o próprio destino, ignorando as inesperadas surpresas que este lhe reserva. A perspectiva místico-religiosa, a luta entre o bem e o mal, os riscos morais que acompanham o homem no perigoso ofício de viver, são os temas preponderantes que alimentam a ficção.

Em Sagarana renasce o anônimo “contador de estórias”, o homem-coletivo que se enraíza nos rapsódias gregas e nas canções de gesta medievais. Desde o início do conto (“Era um burrinho pedrês…”) esboça-se claramente a atitude ingênua e espontânea da “palavra lúdica”, que não aprisiona o falar nos limites rígidos do individualismo, mas se identifica com a palavra anônima e coletiva.

Seja pela fórmula lingüística caracterizadora da narrativa elementar, da fábula, da lenda (“Era um burrinho…”), tempo e modo verbais que, de imediato, tiram à narrativa o caráter de coisa datada, para projetarem na esfera intemporal do universo de ficção; seja pela mescla de precisão e imprecisão documental no registro do espaço (vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão); seja pela dimensão antropomórfica (forma humana) que é dada à personagem central, o “burrinho-gente”, e que situa a narrativa na fronteira entre o real e o mágico; seja pela funcionalidade das cantigas inseridas no fluxo narrativo, tudo isso e muito mais nos revela, no universo da palavra rosiana, a presença do “homo ludens” (homem lúdico), descompromissado com as estruturas convencionais do pensamento lógico.

A trama desse conto, como nas demais narrativas de Guimarães Rosa, é relativamente simples. Publicado pela primeira vez em 1946, O burrinho pedrês é uma história sugerida por um acontecimento real, passado no interior de Minas Gerais, envolvendo um grupo de vaqueiros. É a história da condução de uma boiada em dia de fortes chuvas, em algum ponto indefinido do sertão, sob a tensão de uma maquinação ameaçadora de ciúme e crime. O seu desfecho, de todo surpreendente, só poderia ser ideado por um mestre da palavra e da criação literária. O foco da narrativa está centrado em um burrinho pedrês, que é testemunha de um trágico acidente. Em contraponto com a intriga que se desenvolve entre os boiadeiros, há episódios relacionados com o ciclo mítico do boi, onipresente na vida sertaneja. Pairando sobre tudo e todos, destaca-se a figura sábia e intensamente “humana” do burrinho pedrês, que aparece pouco na ação mas, como citado, domina o universo da narrativa.

O cenário é a Fazenda da Tampa, do Major Saulo, no interior de Minas Gerais.

O burrinho Sete-de-Ouros, protagonista da história, simboliza o peso da vida quando “Carregado de algodão”, o trabalho do burrinho, e metaforiza a carga dos homens, o peso do mundo, como fardos de algodão. “Preguntei: p’ra donde ia?” – a forma arcaica do verbo perguntar sugere a indagação permanente dos homens, sábios e filósofos: para quê?, por quê?, de onde?, para onde?. “P’ra rodar o mutirão” alude ao esforço coletivo, ao dever de solidariedade que o burrinho cumprirá na sua hora e na sua vez.

Desde esse primeiro conto, estão presentes os elementos fundamentais para compreendermos os contos de Sagarana. O nome do burrinho, Sete-de-Ouros, é recoberto pela magia de um número místico (sete) e pela força simbólica do ouro, indicador de superação e de transcendência paralquimistas. A travessia, a superação de obstáculos por ocultos caminhos é uma imagem freqüente em Guimarães Rosa, como também a presença de forças mágicas, da natureza, atuando sobre o mundo e mostrando as possibilidades de os fracos se tornarem fortes, de se saber uma vida no resumo exemplar de apenas um dia.

Personagens

Sete-de-Ouros – animal miúdo e resignado, idoso, muito idoso, beiço inferior caído. Outros nomes que tivera ao longo de anos e amos: Brinquinho, Rolete, Chico-Chato e Capricho.
Major Saulo – corpulento, quase obeso, olhos verdes. Só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo. Estava sempre rindo: riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; riso mudo, de normal. Não sabia ler nem escrever, mas cada ano ia ganhando mais dinheiro, comprando mais gado e terras.
João Manico – vaqueiro pequeno que montou o burrinho Sete-de-Ouros na ida. Na volta, trocou de montaria. Na hora de entrar na água, refugou, alegando resfriado, e escapou da morte.
Francolim – espécie de secretário do Major Saulo, encarregado de pôr ordem nos vaqueiros. Obedece cegamente às ordens do Major. Foi salvo, na noite da enchente, pelo burrinho Sete-de-Ouros.
Raymundão – vaqueiro de confiança do Major Saulo. Enquanto tocam a boiada, vai contando a história do zebu Calundu.
Zé Grande – vai à frente da boiada, tocando o berrante.
Silvino – vaqueiro; perdeu a namorada para Badu e planejava matar o rival na volta, depois de deixarem a boiada no arraial.

Resumo do conto

Na Fazenda da Tampa, do Major Saulo, os homens estão ultimando os últimos preparativos para sair pelo sertão, tocando uma boiada de bois de corte. O dia é de chuva, mas ela ainda não veio. Major Saulo ordena que os homens preparem os animais. Por zebra, o burrinho Sete-de-Ouros, presente ali na varanda da casa grande, também é escolhido para a viagem. Para montá-lo, o Major escolheu o vaqueiro João Manico.

Raymundão conta a história do touro Calundu. Não batia em gente a pé, mas gostava de correr atrás de cavaleiro. Certa vez, na proteção de um grupo de vacas com seus bezerros novinhos, Calundu enfrentou uma onça preta, amedrontando a fera e pondo-a para correr. Certa feita, o touro Calundu matou Vadico, filho do fazendeiro Neco Borges. O pai, vendo filho ensangüentado no chão, puxou o revólver para matar o touro. Vadico, antes de morrer, pediu que o pai não matasse Calundu. Neco Borges mandou o touro para outra fazenda para ser vendido ou dado a alguém. Raymundão foi quem levou o bicho. O zebu ficou uma noite apenas no curral. No outro dia, estava morto.

Depois da chuva grossa, a boiada chegou ao córrego da Fome. Estava cheio. A travessia era perigosa, e o Major Saulo pediu cautela. Ali já morrera muita gente. Mas a travessia é feita sem perda. Até o Sete-de-Ouros atravessou sem reclamar.

Em determinado ponto do caminho, Major Saulo ordenou que Francolim trocasse de montaria com João Manico. A ordem foi obedecida. Francolim fez um pedido ao Major: que, na entrada do povoado, a troca fosse desfeita. Não ficava bem para ele, encarregado do Major, ser visto montado no burrinho Sete-de-Ouros.

Badu está na fazenda há apenas dois meses e já tomou a namorada do Silvino. Por isso, os dois viraram inimigos, um querendo prejudicar o outro. Francolim já avisou o major sobre o perigo de um matar o outro. Raymundão acha que o caso não é para morte. A moça é meio caolha. O casamento com Badu já está marcado. Raymundão, em prosa com o Major, informou que Silvino vendeu umas quatro cabeças de gado por preço abaixo do normal. Outra informação que veio do Francolim: Silvino está com bagagem além do normal. O Major Saulo, antes da chegada ao povoado, determinou que Francolim, na volta, vigie Silvino o tempo todo. O Major está convencido de que Silvino já planejou a morte de Badu.

A chegada ao povoado foi uma festa. O povo, mesmo com a meia-chuva, foi para o curral da estrada de ferro ver o embarque. Depois, os animais ficaram descansando enquanto os vaqueiros andavam um pouco pelo povoado.

Na hora de ir embora, cada um pegou a sua montaria. Badu ficou por último: estava bêbado e tinha ido comprar um presente para sua morena. Por maldade, deixaram-lhe o burrinho Sete-de-Ouros. Na saída do povoado, alguém vaiou: Badu era por demais grande para o burrinho pedrês, os pés iam quase arrastando no chão. Já no fim do lugar, Francolim estava parado no meio da estrada, esperando Badu.

Francolim deixou Badu para trás e foi juntar-se ao grupo. Queria mesmo era ficar de olho em Silvino. Os dois, Silvino e o irmão Tote, iam bem na frente dos dois. Tote tentava dissuadir o mano para não matar Badu. Mas Silvino estava determinado. Esperava apenas o momento certo para fazer o serviço e cair no mundo.

João Manico, por insistência de todos, contou mais uma vez a história da boiada que estourou à noite, quando o Major Saulo, ainda novo, era tratado por Saulinho. No estouro, de madrugada, o gado passou por cima dos dois vaqueiros que estavam de vigia. Deles, só restou uma lama cor de sangue.

Viajavam à noite. De repente, os cavalos empacaram, pressentindo o mar de água. O Córrego da Fome transbordara, inundando tudo bem alem das margens. Todos aprovaram a idéia de esperar Badu e o burrinho Sete-de-Ouros. Se o burro entrasse na água, todos o seguiriam. É que burro não entra em lugar de onde não pode sair.

Sete-de-Ouros entrou levando Badu ás costas. Os cavalos seguiram-no. E foi uma tragédia: oito vaqueiros mortos naquela noite. Benevides, Silvino, Leofredo, Raymundão, Sinoca, Zé Grande, Tote e Sebastião. O burrinho Sete-de-Ouros, com Badu agarrado às crinas e Francolim agarrado à cauda, conseguiu atravessar o mar de águas em que se transformara o pequeno córrego. Já em terra firme, livrou-se de Francolim e seguiu ligeiro para a fazenda. Ali, livraram-no do vaqueiro, que dormia, e dos arreios.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_burrinho_pedres_conto

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Ditados Populares do Brasil (Letra O)

O adeus é o fim da esperança e o começo da saudade.
O amor é igual ao sol: a nuvem cobre mas não apaga.
O amor não sendo firme, por qualquer coisa varia.
O assassino da distância, o acumulador da saudade.
O Brasil espera que cada um cumpra com seu débito.
O amor faz passar o tempo e o tempo faz passar o amor.
O Brasil produz e a Ford conduz.
O caminho da volta é fácil.
O chifre é como consórcio. Quando você menos espera, é contemplado.
O inferno é uma série de diabos, a mulher uma série de infernos.
O homem é como bicicleta, quando pára cai.
O homem nasce, cresce, fica bobo e casa.
O homem vence pela coragem e a mulher pelo carinho.
O homem pensa, a mulher dá o que pensar.
O maior peso do mundo é uma mulher leviana.
O mundo não vale o meu lar.
O poste é o limite.
O pouco que eu te vejo me ajuda a viver.
O problema do menor é o maior do Brasil.
O que bota pobre pra frente é topada.
O que levanta a cabeça do pobre é avião.
O que se escreve com a pena nem a machado se desfaz.
O terror da morte é a sentinela da vida.
O teu chamego não é amor, é labareda.
O amor é cego, mas vê muito longe.
O apressado come cru.
O barato sai caro
O boi sabe onde arromba a cerca.
O bom filho a casa torna
O coração tem razões que a própria razão desconhece.
O diabo quando não vem, manda.
O frade onde canta, janta. (Provérbio antigo quando os religiosos compareciam a saraus.)
O habito faz o monge.
O hábito não faz o monge
O homem é fogo, a mulher estopa, o diabo assopra
O homem na praça, e a mulher em casa.
O homem põe e Deus dispõe.
O homem prevenido vale por dois
O ímpio a própria sombra o amedronta, o justo é um leão que tudo afronta.
O ladrão cuida, que todos o são.
O macaco é quem está certo.
O melhor da festa é esperar por ela.
O melhor remédio para tristeza é consolar a alheia.
O olho do dono é que engorda o cavalo
O pior cego é o que não quer ver
O pior surdo é o que não quer ouvir
O prevenido morreu de velho, e o desconfiado ainda hoje é vivo.
O prevenido vale por dois.
O prometido é devido
O que dá pra rir, dá pra chorar.
O que é teu, às tuas mãos vai ter.
O que não mata, engorda
O que não tem remédio remediado está.
O que o berço dá, só a cova tira
O que os olhos não veem, o coração não sente
O que os olhos não vêem, o coração não sente.
O reverso da medalha.
O risco que sofre o pau, sofre o machado.
O sabio não diz o que sabe, o tolo não sabe o que diz
O sol nasce para todos
O tempo cicatriza as feridas do corpo e da alma
O tiro saiu pela culatra.
Ofereça ao vilão o dedo e ele lhe toma a mão.
Olhar de peixe morto.
Olho por olho, dente por dente
Onde há foguete, há festa.
Onde ha fumaça, há fogo
Onde há fumaça, há fogo.
Onde não entra o sol, entra o médico
Orvalho não enche poço.
Os cães ladram, e a caravana passa.
Os incomodados que se mudem.
Os maiores venenos estão nos menores frascos
Os melhores perfumes estão nos menores frascos
Os olhos do dono engordam o cavalo.
Os ultimos serão os primeiros
Ou vai, ou racha.
Ovelha que berra, bocado que perde.
Ovo gabado, ovo gorado.

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Trova 257 – Dorothy Jansson Moretti (SP)

Imagem formatada com trova obtida no facebook da autora

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Nicoló Maquiavel (Belfagor)

O florentino Nicoló Bemardo Maquiavel (1469-1527 – Itália), diplomata, homem de Estado, historiador e escritor, virou um nome consagrado (a ponto de virar adjetivo: “maquiavélico) como autor de O Principe, obra que é um marco do Renascimento italiano, até hoje indispensável nos estudos das ciências políticas. Belfagor, sua única história curta conhecida, está presente em várias antologias do humor universal.
==========

Nas antigas memórias das crônicas de Florença lê-se uma história relacionada a um homem santíssimo que, em meio à devassidão da época, era mui respeitado por todos seus contemporâneos. Certo dia, absorto em suas piedosas meditações, conseguiu ver que as almas dos infelizes mortais que morriam pecadores e que iam para o inferno lamentavam – se não todos, pelo menos a maior parte – que a razão de tal desdita devia-se ao fato de terem-se casado. Minos e Radamanto, juntos com outros juízes do inferno, ficaram deveras admirados e, não podendo dar crédito às calúnias que tais almas lançavam ao sexo feminino, deram ciência disso a Plutão, tanto mais que tais lamentações só faziam crescer. Plutão então deliberou examinar o caso de perto com todos os príncipes do Inferno para, só depois, tomar partido do que fosse julgado o mais conveniente para descobrir a falácia e saber a verdade por inteiro. Convocou-os, pois, ao conselho, e falou nos seguintes termos:

– Embora eu, meus diletos amigos, por disposição celeste e vontade do destino, e ainda que me encontre acima do juízo de Deus e dos homens, no entanto, como maior prova de sabedoria e prudência, resolvi consultar-vos hoje sobre a conduta que devo seguir num caso que poderia redundar em infâmia para nosso império. Todas as almas dos homens que entram em nosso reino pretendem ter sido causa disso a própria mulher, o que não nos parece possível. Condenando tal afirmação, talvez os levianos nos acusem de maldade; caso não o fizermos, talvez os injustos nos considerem demasiado indulgentes e pouco afeitos à justiça. Querendo evitar uma e outra acusação, e não encontrando um meio para tal, decidimos convocar-vos a fim de que nos ajudeis com vossos conselhos e façais com que este reino continue a viver sem infâmia, como sempre tem vivido.

Nenhum daqueles príncipes das trevas deixou de considerar o caso importantíssimo e de grande monta. Estavam todos de acordo em que era necessário descobrir a verdade, mas discordavam quanto à maneira de assim proceder. Alguns julgavam que se devia mandar um deles ao mundo, outros que vários, para ali pessoalmente conhecerem, sob a forma humana, qual era a verdade. A outros parecia desnecessário tal transtorno: bastaria obrigar algumas almas, por meios de diversos tormentos, a confessá-la.

No entanto, como a maioria optasse pela primeira opinião, foi essa a adotada. Mas ninguém se ofereceu voluntariamente para a empreitada; assim, recorreram eles a um sorteio. A sorte recaiu sobre Belfagor, arquidiabo, que anteriormente – antes de cair do Céu – tinha sido arcanjo.

Foi com relutância que ele aceitou o encargo, mas o poder de Plutão o constrangera a executar o que o conselho deliberara e teve assim que consentir nas condições solenemente aceitas por todos. Fora deliberado que aquele em quem recaísse a sorte receberia imediatamente cem mil ducados, e com eles viria nascer no mundo. A casar-se sob a forma de um homem e a viver com a mulher dez anos; depois, fingindo morrer, voltaria e exporia a seus superiores a própria vivencia, quais eram os encargos e os incômodos do casamento. Deliberou-se também que, durante o tempo em apreço, ele ficaria submetido a todos os achaques e males a que os homens estão sujeitos, inclusive a pobreza, a prisão, as doenças e todas as desgraças que aos mortais ocorrem, salvo se por meio de engano e astúcia conseguisse livrar-se delas.

Aceitas pois as condições e os ducados, foi-se Belfagor ao mundo e, devidamente provido de cavalos e acompanhantes, entrou ele em Florença com o maior aparato. Escolhera esta cidade para domicílio, entre todas as demais, por lhe parecer a mais plausível para quem quisesse viver empregando seu dinheiro em negócios. Fez-se chamar Rodrigo de Castela e alugou uma casa no bairro de Todos os Santos [Ognissanti]. Para que não pudessem lhe descobrir os antecedentes, disse ter partido da Espanha ainda criança; dali fora à Síria e a Alepo, onde ganhara tudo o que possuía; de lá viajara para a Itália e a fim de se casar num lugar mais humano e mais conforme à vida civilizada e à sua própria índole.

Era Rodrigo um moço formoso, que aparentava trinta anos. Em poucos dias demonstrara ele quantas riquezas tinha e dera provas de sua liberalidade e humanidade; logo vários cidadãos nobres, providos de muitas filhas e pouco dinheiro, lhe ofereceram seus préstimos. Entre todas, Rodrigo escolheu uma belíssima donzela chamada Honesta. Filha de Américo Donati, que tinha mais três filhas, quase em idade de se casar, e três filhos já adultos. De família muito nobre e tido em bom conceito em Florença, era no entanto muito pobre, levando-se em conta sua numerosa prole e sua condição.

Rodrigo celebrou suas núpcias com esplendor e grandeza, não descuidando de nada que seja necessário em tais circunstâncias, pois entre as obrigações que lhe foram impostas ao sair do Inferno, estava a de sujeitar-se a todos os caprichos humanos; assim, logo passou a deleitar-se com as honrarias e pompas do mundo e a gostar de ser louvado entre os homens, coisas que o levaram a grandes gastos. Por outro lado, não tardou muito a apaixonar-se perdidamente por sua D. Honesta e quase não conseguia viver quando a encontrava triste ou aborrecida.

Com sua nobreza e formosura, a senhora Honesta levara consigo para a casa de Rodrigo um orgulho tão desmesurado que mesmo Lúcifer não o tivera igual. Rodrigo, que podia comparar um e outro, considerava o de sua mulher infinitamente superior, e consta que ainda chegou a ser maior quando percebera o amor que seu marido sentia por ela. Imaginando ser por todas as maneiras a dona absoluta, dava suas ordens sem consideração ou piedade, e se ele relutasse a fazer as suas vontades, desatava em recriminações e injúrias, o que era para o pobre Rodrigo motivo de viva pena e aflição. Sem dúvida, por consideração a seu sogro, a seus cunhados e demais parentes, por respeito aos deveres do casamento e pelo amor que dedicava à esposa, sofria seus males com a maior paciência. Quero passar em silêncio sobre os grandes gastos a que era obrigado para contentá-la, vestindo segundo os novos costumes e as modas mais recentes, que nossa cidade varia por hábito natural; nem lembrarei que, para ela o deixar em paz, teve ele de ajudar o sogro a casar as outras filhas, o que lhe fez despender também considerável importância. Depois, querendo manter-se em boa paz com a mulher, consentiu em mandar um dos irmãos dela ao Oriente com casimira e outro para o Ocidente levando sedas, ao passo que para o terceiro irmão abriu em Florença uma oficina de ourives, em que despendeu a maior parte do dinheiro que possuía. Além disso, nas festas de Carnaval e de S. João, celebradas pela cidade inteira segundo tradição antiga, quando grande número de cidadãos nobres e ricos se honravam uns aos outros com magníficos banquetes, D. Honesta, para não ficar atrás de outras damas, queria que seu Rodrigo superasse a todos os demais com suas festas. Tudo isso, suportava-o Rodrigo pelos motivos supracitados; apesar de gravíssimas, nem graves as teria achado se houvessem introduzido a paz em sua casa, permitindo-lhe aguardar em sossego o momento de sua própria ruína. Mas foi o contrário o que aconteceu, pois a índole insolente da esposa, além das despesas insuportáveis, carreara-lhe inúmeros aborrecimentos. Nenhum criado a agüentava, não digo por muito tempo, mas nem sequer por alguns dias. Para Rodrigo era o mais duro dos incômodos não possuir um criado que tivesse amor a sua casa. Os próprios diabos que trouxera consigo como domésticos preferiram voltar aos fogos do Inferno a viver no mundo sob as ordens daquela mulher.

Assim prosseguia a vida tumultuada e inquieta de Rodrigo. Tendo já consumido nos gastos desenfreados o que recebera em espécie, começou a viver à espera das entradas financeiras que aguardava do Ocidente e do Oriente. Como ainda tivesse bom crédito, pediu dinheiro emprestado para não ficar aquém de sua condição; e já certo número de letras sacadas por ele circulavam na praça, o que logo foi percebido pelos que trabalhavam neste ramo de negócios. Já era bem precária a situação de Rodrigo quando, de súbito, chegaram notícias do Oriente e do Ocidente: aqui, um dos irmãos de D. Honesta perdera no jogo todo o dinheiro de Rodrigo; ali, o outro, ao voltar de um navio carregado de suas mercadorias, que não estavam no seguro, naufragou com toda a carga.

Mal estas novas circulavam pela cidade, os credores de Rodrigo reuniram-se. Consideravam-no um homem liquidado, mas ainda não podiam tomar providências por não haver expirado o prazo das cobranças; resolveram, pois, que mandariam quem o observasse habilmente, para que num abrir e fechar de olhos não resolvesse fugir. Por sua parte, Rodrigo, sem ver outro remédio e sabendo das obrigações de seu pacto infernal, decidiu fugir a todo o transe. Certa manhã montou a cavalo e saiu da cidade pela porta do Prato, perto da qual residia. Espalhada a notícia de sua fuga, os credores recorreram alarmados às autoridades e puseram-se no encalço dele, acompanhados não apenas de meirinhos como também de muitos populares.

Mal se distanciara da cidade cerca de uma milha, souberam eles de sua fuga, de sorte que, vendo-se perdido, resolveu Rodrigo, para melhor se esconder, abandonar a estrada principal e tentar a sorte em outras direções; porém o terreno árduo e abrupto dificultava tremendamente a sua marcha. Percebendo que era impossível seguir a cavalo, decidiu-se salvar-se a pé mesmo, deixando o animal no meio do caminho, e depois de ter muito tempo andado por entre vinhas e canaviais que cobriam os campos, aproximou-se de Pretola, detendo-se na casa de Giovanni Matteo de Bricca, um dos colonos de Giovanni dei Bene. Felizmente àquela hora chegava também ao local o próprio Giovanni Matteo para alimentar o gado. A ele se recomendou o fugitivo, prometendo-lhe que, se o salvasse dos inimigos que o perseguiam para fazer com que morresse na prisão, o tornaria rico, coisa que lhe daria prova antes mesmo de sair de sua casa; se não o fizesse, concordaria que o próprio camponês o entregasse a seus adversários.

Embora simples camponês, era Giovanni Matteo homem de coragem. Pensou que nada tinha a perder se tentasse salvá-lo, e prometeu-lhe auxílio. Em frente à casa havia um monte de estrume: foi lá que o escondeu, cobrindo-o de caniços e ramos colhidos para fazer fogo.

Mal acabara Rodrigo de esconder-se, seus perseguidores chegaram. Por mais ameaças que fizessem a Giovanni Matteo, não conseguiram fazê-lo confessar o que tinha visto.

Assim, partiram, e depois de procurá-lo todo aquele dia e mais o seguinte, retomaram exaustos para Florença.

Afastada a agitação, Giovanni Matteo tirou Rodrigo do esconderijo e pediu-lhe que cumprisse a promessa, ao que Rodrigo lhe disse:

– Irmão meu, tenho uma grande obrigação para contigo e desejo cumpri-la de qualquer maneira; e para que acredites em que eu possa fazer, vou dizer-te quem sou.

Nisso revelou a sua identidade contando em que condições saíra do Inferno e como se casara. Em seguida, explicou-lhe como pretendia fazê-lo rico. O seu plano, resumindo, era o seguinte: quando Giovanni Matteo soubesse que alguma mulher estava tomada pelos espíritos, devia saber que era ele, Rodrigo, que se apoderara dela: nem sairia do corpo da vítima sem que Giovanni Matteo viesse a tirá-lo: assim, poderia o camponês pedir aos parentes da endemoninhada o preço que bem entendesse. Giovanni Matteo aceitou a proposta e Rodrigo partiu.

Decorridos alguns dias, propagou-se por toda Florença a notícia de que a filha de mestre Ambrósio Amadei, casado com Bonaiuto Tebalducci, estava tomada pelos maus espíritos. Não descuidaram os parentes de nenhum dos remédios a que se recorria em casos semelhantes; assim, puseram-lhe na cabeça o crânio de S. Zenóbio e o manto de S. João Gualberto. Rodrigo, no entanto, zombava de tudo aquilo. E para dar a entender a todos que o mal da moça era um espírito e não qualquer imaginação fantástica, falava em latim, discutia coisas de filosofia, descobria os pecados de muita gente, desmascarando-os, entre outros, a um frade que guardara em sua cela durante mais de quatro anos uma mulher vestida à maneira de um fradinho, coisas que a todos enchiam de espanto. Estava Mestre Ambrósio irritadíssimo e, havendo experimentado em vão todos os remédios, perdera já a esperança de curar a filha, quando Giovanni Matteo veio ter com ele, prometendo-lhe a saúde da filhinha se lhe dessem quinhentos florins para comprar uma propriedade em Pertola. Mestre Ambrósio aceitou a proposta. Então Giovanni Matteo, depois de mandar dizer certo número de missas e executar certas cerimônias para embelezar a coisa, aproximou-se da moça e segredou-lhe ao pé do ouvido:

– Rodrigo, aqui estou eu esperando que me cumpras a promessa.

Ao que Rodrigo respondeu:

– Com o maior prazer. Mas isto não chega ainda a te tornar rico. Eis por que, apenas saído daqui, entrarei na filha do rei Carios de Nápoles, e de lá não sairei sem que me chames. Exigirás então uma recompensa segundo a tua vontade, e depois disso não deverás mais me importunar.

Nisso saiu do corpo da moça doente, para a alegria e admiração de toda Florença.

Não tardou e espalhava-se por toda Itália a mesma desgraça ocorrida, desta vez com a filha do rei Carios. Como os remédios dos frades de nada adiantassem, o rei, que ouvira falar em Giovanni Matteo, mandou que ele fosse conduzido até ele. Chegando a Nápoles, o camponês, depois de algumas cerimônias de fachada, curou-a. Mas antes de sair do corpo da princesa, Rodrigo disse-lhe:

– Bem vês que hei cumprido a minha promessa de enriquecer-te. Agora que recompensei o serviço que me fizeste, nada mais te devo; assim, aconselho-te a que não mais apareças à minha frente, pois se te fiz benefícios até aqui, daqui por diante poderia causar-te dissabores.

Giovanni Matteo retornou a Florença muito rico, pois o rei lhe havia dado mais de 50 mil ducados, e não pensava senão em desfrutar de sua riqueza, com muito gosto e sossego, sem cogitar que Rodrigo pudesse, em qualquer época, lhe causar algum dissabor. Bem cedo, no entanto, se desiludiu, ante a notícia de que uma filha de Luís VIl, rei da França, estava possuída pelo demônio. Notícia essa que tumultuou de todo a alma de Giovanni Matteo, que não conseguia parar de pensar na autoridade daquele monarca e nas palavras que lhe dissera Rodrigo. De fato, o rei, não encontrando remédio para o mal de sua filha, e tendo ouvido falar da capacidade de Giovanni Matteo, mandou chamá-lo, primeiro através dos correios, simplesmente; mas em vista de que o homem alegava certa indisposição, viu-se o rei forçado a recorrer ao governo de Florença, o qual obrigou Giovanni Matteo a obedecer.

Desesperado, foi Giovanni para Paris, onde foi logo explicando ao rei que efetivamente curara já certas pessoas endemoninhadas, mas que isso de modo algum significava que soubesse ou pudesse curá-las todas, pois algumas havia de natureza tão pérfida que não temiam ameaças nem encantamentos, nem religiões, seja qual for; que, no entanto, estava disposto a fazer o que pudesse, mas pedia desculpa e perdão se não viesse a ser bem-sucedido. Enfastiado, o rei declarou que, se não lhe curasse a filha, mandaria enforcá-lo. Viu-se Giovanni Matteo em péssimos lençóis, mas fez de sua fraqueza sua força: mandou vir a possuída e, aproximando-se-lhe do ouvido, recomendou-se humildemente a Rodrigo, lembrando-lhe o benefício prestado e como seria ingrato se o desamparasse naquele imbróglio. Rodrigo então assim reagiu:

– Traidor infame! Como te atreves a aparecer perante mim? Acreditas que podes te vangloriar de ter enriquecido à minha custa? Pois hei de mostrar-te a ti e a todos que sei muito bem dar e tomar qualquer coisa, como melhor me prover; e antes que partas daqui, farei enforcar-te, custe o que custar.

Dando-se por perdido, Giovanni Matteo, não vendo outro remédio, resolveu arriscar a sorte por outro meio. Mandou que levassem dali a possuída e disse ao rei:

– Senhor, como falei a Vossa Majestade, há espíritos tão malignos que com eles ninguém pode; pois este é um dos tais. Mas quero fazer uma última tentativa: se for bem-sucedido, Vossa Majestade e eu teremos alcançado o nosso objetivo; caso contrário, estarei nas mãos de Vossa Majestade, que saberá ter comigo a compaixão que faz jus a minha inocência. Ordene Vossa Majestade que se erga na Praça de Notre Dame um grande palco onde caibam todos os barões e todo o clero desta cidade; mande orná-lo de panos de seda e de ouro, e mande erguer no meio dele um altar. Preciso que no domingo próximo Vossa Majestade se reúna no estrado do palco com todos os seus príncipes e barões, numa pompa real, vestidos de trajes ricos e esplêndidos. Depois da missa celebrada, Vossa Majestade fará vir a possuída. Preciso, além disso, que num ângulo da praça haja pelo menos vinte pessoas reunidas com trompas, cornetas, tambores, cornamusas, címbalos, timbales e outros instrumentos de toda sorte. Quando eu erguer o chapéu todos deverão tanger seus instrumentos e encaminhar-se na direção do estrado. Estas coisas, juntas com alguns remédios secretos, poderão fazer, julgo eu, com que o espírito maligno desapareça.

Tudo isso o rei ordenou. Chegou a manhã de domingo. O palco improvisado estava cheio de personalidades, e a praça, cheia do povo. Celebrada a missa, a endemoninhada foi conduzida ao estrado por dois bispos e muitos senhores. Ao ver tamanha multidão e tanto aparato, Rodrigo ficou meio tonto e disse consigo mesmo: “Que será que inventou esse traidor miserável? Será que está pensando me espantar com toda essa pompa? Ignora que estou acostumado a assistir as pompas do Céu e fúrias do Inferno? Haverei de castigá-lo de qualquer maneira.”

Quando, logo depois que Giovanni Matteo se aproximou novamente e lhe pediu que saísse, Rodrigo assim lhe falou:

– Bela idéia a tua, para dizer a verdade! Que pensas alcançar com todo esse aparato? Acreditas escapar assim ao meu poder e à ira do rei? Ladrão miserável, farei com que te enforquem haja o que houver!

Como não parasse de dizer tais palavras, acrescentando-lhes outras menos injuriosas, Giovanni Matteo houve por bem não perder mais tempo. Ergueu o chapéu, todas as pessoas encarregadas de fazer barulho tocaram seus instrumentos e com rumor que atingia o Céu foram-se aproximando do estrado. O barulho aguçou os ouvidos de Rodrigo que, sem entender do que se tratasse, pediu assombrado que Giovani Matteo lho explicasse, e Giovanni respondeu-lhe de forma bem perturbada:

– Ai, meu Rodrigo, é a tua mulher que vem te buscar!

Foi, em verdade, maravilhoso ver até que ponto Rodrigo horrorizou-se ao ouvir o nome de sua mulher. Tamanho lhe foi o espanto que, sem indagar a si mesmo se seria possível que ela ali estivesse, fugiu sem dizer uma palavra e assim deixou a princesa livre; preferiu voltar ao inferno para dar conta de suas ações a submeter-se outra vez ao jugo matrimonial, suportando tantos desgostos, aborrecimentos e perigos.

E eis aqui como Belfagor, de volta ao Inferno, pode dar testemunho dos males que uma mulher leva consigo a um lar, e como Giovanni Matteo, que foi mais astuto do que o diabo em pessoa, pôde retornar a sua casa cheio de alegria.

Fonte:
COSTA, Flávio Moreira da (org.) . Os 100 melhores contos de humor da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001

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Afonso Arinos (Assombramento) Parte 1

História do Sertão

À beira do caminho das tropas, num tabuleiro grande, onde cresciam a canela-d’ema e o pau-santo, havia uma tapera. A velha casa assombrada, com grande escadaria de pedra levando ao alpendre, não parecia desamparada. O viandante a avistava de longe, com a capela ao lado e a cruz de pedra lavrada, enegrecida, de braços abertos, em prece contrita para o céu.

Naquele escampado onde não ria ao sol o verde escuro das matas, a cor embaçada da casa suavizava ainda mais o verde esmaiado dos campos.

E quem não fosse vaqueano naqueles sítios iria, sem dúvida, estacar diante da grande porteira escancarada, inquirindo qual o motivo por que a gente da fazenda era tão esquiva que nem ao menos aparecia à janela quando a cabeçada da madrinha da tropa, carrilhonando à frente dos lotes, guiava os cargueiros pelo caminho a fora.

Entestando com a estrada, o largo rancho de telha, com grandes esteios de aroeira e mourões cheios de argolas de ferro, abria-se ainda distante da casa, convidando o viandante a abrigar-se nele. No chão havia ainda uma trempe de pedra com vestígios de fogo e, daqui e dacolá, no terreno acamado e liso, esponjadouros de animais vagabundos.

Muitas vezes os cargueiros das tropas, ao darem com o rancho, trotavam para lá, esperançados de pouso, bufando, atropelando-se, batendo uns contra os outros as cobertas de couro cru; entravam pelo rancho adentro, apinhavam-se, giravam impacientes à espera da descarga até que os tocadores a pé, com as longas toalhas de crivo enfiadas no pescoço, falavam à mulada, obrigando-a a ganhar o caminho.

Por que seria que os tropeiros, ainda em risco de forçarem as marchas e aguarem a tropa, não pousavam aí? Eles bem sabiam que, à noite, teriam de despertar, quando as almas perdidas, em penitência, cantassem com voz fanhosa a encomendação. Mas o cuiabano Manuel Alves, arrieiro atrevido, não estava por essas abusões e quis tirar a cisma da casa mal-assombrada.

Montado em sua mula queimada frontaberta, levando adestro seu macho crioulo por nome “Fidalgo” – dizia ele que tinha corrido todo este mundo, sem topar coisa alguma, em dias de sua vida, que lhe fizesse o coração bater apressado de medo. Havia de dormir sozinho na tapera e ver até onde chegavam os receios do povo.

Dito e feito.

Passando por aí de uma vez, com sua tropa, mandou descarregar no rancho com ar decidido. E enquanto a camaradagem, meio obtusa com aquela resolução inesperada, saltava das selas ao guizalhar das rosetas no ferro batido das esporas; e os tocadores, acudindo de cá e de lá, iam amarrando nas estacas os burros, divididos em lotes de dez, Manuel Alves, o primeiro em desmontar, quedava-se de pé, recostado a um mourão de braúna, chapéu na coroa da cabeça, cenho carregado, faca nua aparelhada de prata, cortando vagarosamente fumo para o cigarro.

Os tropeiros, em vaivém, empilhavam as cargas, resfolegando ao peso. Contra o costume, não proferiram uma jura, uma exclamação; só, às vezes, uma palmada forte na anca de algum macho teimoso. No mais, o serviço ia-se fazendo e o Manuel Alves continuava quieto.

As sobrecargas e os arrochos, os buçais e a penca de ferraduras, espalhados aos montes; o surrão da ferramenta aberto e para fora o martelo, o puxavante e a bigorna; os embornais dependurados; as bruacas abertas e o trem de cozinha em cima de um couro; a fila de cangalhas de suadouro para o ar, à beira do rancho, – denunciaram ao arneiro que a descarga fora feita com a ordem do costume, mostrando também que à rapaziada não repugnava acompanhá-lo na aventura.

Então, o arrieiro percorreu a tropa, correndo o lombo dos animais para examinar as pisaduras; mandou atalhar à sovela algumas cangalhas, assistiu à raspagem da mulada e mandou, por fim, encostar a tropa acolá, fora da beira do capa-o onde costumam crescer as ervas venenosas.

Dos camaradas, o Venâncio lhe fora malungo de sempre. Conheciam-se a fundo os dois tropeiros, desde o tempo em que puseram o pé na estrada pela primeira vez, na era da fumaça, em trinta e três. Davam de língua às vezes, nos serões de pouso, um pedação de tempo, enquanto os outros tropeiros, sentados nos fardos ou estendidos sobre os couros, faziam chorar a tirana com a toada doída de uma cantilena saudosa.

Venâncio queria puxar a conversa para as coisas da tapera, pois viu logo que o Manuel Alves, ficando ai, tramava alguma das dele.

– O macho lionanco está meio sentido da viagem, só Manuel.

– Nem por isso. Aquele é couro n’água. Não é com duas distâncias desta que ele afrouxa.

– Pois olhe, não dou muito para ele urrar na subida do morro.

– Este? Não fale!

– Inda malhando nesses carrascos cheios de pedra, então é que ele se entrega de todo.

– Ora!

– Vossemecê bem sabe: por aqui não há boa pastaria; acresce mais que a tropa deve andar amilhada. Nem pasto, nem milho na redondeza desta tapera. Tudo que sairmos daqui, topamos logo um catingal verde. Este pouso não presta; a tropa amanhece desbarrigada que é um Deus nos acuda.

– Deixe de poetagens, Venâncio ! Eu sei cá.

– Vossemecê pode saber, eu não duvido; mas na hora da coisa feia, quando a tropa pegar a arriar a carga pela estrada, é um vira-tem-mão e – Venâncio p’r’aqui, Venâncio p’r’acolá.

Manuel deu um muxoxo. Em seguida levantou-se de um surrão onde estivera assentado durante a conversa e chegou à beira do rancho, olhando para fora. Cantarolou umas trovas e, voltando-se de repente para o Venâncio, disse:

– Vou dormir na tapera. Sempre quero ver se a boca do povo fala verdade uma vez.

– Hum, hum! Está aí! Eia, eia, eia!

~ Não temos eia nem peia. Puxe para fora minha rede.

– Já vou, patrão. Não precisa falar duas vezes.

E daí a pouco, veio com a rede cuiabana bem tecida, bem rematada por longas franjas pendentes.

– Que é que vossemecê determina agora?

– Vá lá à tapera enquanto é dia e arme a rede na sala da frente. Enquanto isso, aqui também se vai cuidando do jantar..

O caldeirão preso à rabicha grugrulhava ao fogo; a carne-seca no espeto e a camaradagem, rondando à beira do fogo lançava à vasilha olhares ávidos e cheios de angústias, na ansiosa expectativa do jantar. Um, de passagem atiçava o fogo, outro carregava o ancorote cheio de água fresca; qual corria a lavar os pratos de estanho, qual indagava pressuroso se era preciso mais lenha.

Houve um momento em que o cozinheiro, atucanado com tamanha oficiosidade, arremangou aos parceiros dizendo-lhes:

– Arre! Tem tempo, gente! Parece que vocês nuca viram feijão. Cuidem de seu que fazer, se não querem sair daqui a poder de tição de fogo!

Os camaradas se afastaram, não querendo turrar com cozinheiro em momento assim melindroso.

Pouco depois chegava o Venâncio, ainda a tempo de servir o jantar ao Manuel Alves.

Os tropeiros formavam roda, agachados, com os pratos acima dos joelhos e comiam valentemente.

– Então? perguntou Manuel Alves ao seu malungo.

– Nada, nada, nada! Aquilo por lá, nem sinal de gente!

– Uai! É estúrdio!

– E vossemecê pousa lá mesmo?

– Querendo Deus, sozinho, com a franqueira e a garrucha, que nunca me atraiçoaram.

– Sua alma, sua palma, meu patrão. Mas… é o diabo!

– Ora! Pelo buraco da fechadura não entra gente, estando bem fechadas as portas. O resto, se for gente viva, antes dela me jantar eu hei de fazer por almoçá-la. Venâncio, defunto não levanta da cova. Você há de saber amanhã.

– Sua alma, sua palma, eu já disse, meu patrão; mas, olhe, eu já estou velho, tenho visto muita coisa e, com ajuda de Deus, tenho escapado de algumas. Agora, o que eu nunca quis foi saber de negócio com assombração. Isso de coisa do outro mundo p’r’aqui mais p’r’ali – terminou o Venâncio, sublinhando a última frase com um gesto de quem se benze.

Manuel Alves riu-se e, sentando-se numa albarda estendida, catou uns gravetos do chão e começou a riscar a terra, fazendo cruzinhas, traçando arabescos…. A camaradagem, reconfortada com o jantar abundante, tagarelava e ria, bulindo de vez em quando no guampo de cachaça. Um deles ensaiava um rasgado na viola e outro – namorado, talvez, encostado ao esteio do rancho, olhava para longe, encarando a barra do céu, de um vermelho enfumaçado e, falando baixinho, co’a voz tremente, à sua amada distante…
––––––––––
continua

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Cláudia Dimer (Os Passos dos Meus Sonhos)

Fonte:
Poesia formatada obtida no facebook da autora

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 26. Rufina

Encontrei-me hoje com o boticário, a quem não via desde a última vez que vira Rufina.

“Quem é aquela moça”, lhe perguntei, “que, há coisa de duas semanas, viajou conosco neste bonde? Aquela morenota de olhos grandes e úmidos? Aquela de bonitos dentes? Aquela espigadinha, de branco, a quem você, saltando do carro, deitou uma olhadela xaroposa?”

Fabiano custava-lhe recordar-se. Vincou a testa, cravou os olhos no tejadilho, levou a unha do indicador para entre os incisivos, com a boca aberta.

-“Uma gorda, de cabelo ondado?”

-“Nada. Não ofenda.”

-“Não me lembro… Espere. Uma alta, de nariz grande?”

-“Já lhe disse que era morena, pequena, engraçada.”

Fabiano agitou-se, como que para sacolejar a caixa das lembranças, atirou uma perna para cima da outra, curvou o busto, agarrou o queixo, carregou o cenho. “Diabo!” De repente, riu-se, deu-me uma tapona no joelho e exclamou:

-“Já sei! Uma cabrochinha, não é isso?”

Conservei-me calado, mandando em espírito, o idiota do boticário a todos os mil demônios. Aliviado, voltei-me para ele, frio:

-“Desistamos, oh amigo Fabiano José de Figueiredo Alves.”

-“Figueiredo, não; Azevedo.”

-“Ou isso.”

Eu estava convencido de que Fabiano não queria era lembrar-se de Rufina. Impossível que se tivesse realmente esquecido dessa criatura maviosa e rara. Conhecia mulheres como um recenseador: uma gorda, uma alta, uma parda, fora muitas outras que não referiu; e não se recordava da única que valia a pena! Grande ordinário.

Percorremos umas quatro ou cinco quadras em silêncio. Eu nem sequer olhava para a cara de Fabiano. A certa altura, perguntou-me se sabia o nome da moça.

-“Rufina.”

-“Hein?!”

-“Rufina.”

Fabiano olhou para mim e disparou a rir.

-“Já sei, meu caro, já sei!”

-“Mas porque essa risada?”

-“Ah! já sei, meu amigo, já sei. .. Olhe, ela nunca se chamou Rufina. Qual Rufina, nem meia Rufina!… É boa! Ela é Augusta, meu caro amigo. Augusta, entendeu? Rufina… é boa! quiá, quiá, quiá…”

“Mas.. então, conhece-a?…”

– “Pchê! Há muito tempo. Uma rapariga magra, moreno-mate, com o nariz levemente rebitado, o queixo saliente, não é isso? Conheço muito. Chama-se Augusta, mora ali para as bandas do cemitério. Boa fazenda coitada!”

Desmoronei. Só ao cabo de longos e dolorosos minutos pude reconstruir-me um pouco, firmar-me um pouco em cima de mim mesmo, e perguntar com voz sumida:

-“Mas, então, esse nome de Rufina?”

-“Muito simples. Bestice do coronel Ferrão, um velho meio pancada -bem pancada, aliás – que tinha a mania de lhe dar esse nome.”

-“E por que?”

-“Por nada, burragem dele. Gostava de trocar os nomes, fazia isso com toda a gente. Tinha um sobrinho, o Bentoca, Bento Felizardo Ferrão, homem respeitável, atacadista ali no centro: chamava-lhe Esmeraldino, até diante dos empregados, na loja. O Viana, era para ele Pascoal, um dia; outro dia, era Bonifácio. A mim, quis-me uma vez batizar por Crispiniano, mas eu, pan! barrei-o logo: Às suas ordens, seu Januário. Danou-se -ora, imagine: danou-se, o bestiaga! -e não falou mais comigo.”

Emudeci. Fabiano continuava, mas já não o entendi daí por diante. A versátil indiferença do boticário chocava-me como uma sem-vergonhice irritante, de sujeito sem alma, sem o senso piedoso e comovido da miséria humana. Mas Fabiano afinal era um bom homem: isto é, um tipo fútil e feroz como soem ser os homens de juízo.

Oh! n’insultez jamais une femme qui tombe!

Mas não é isso, oh poeta, não é isso o pior. O horrendo é esta indiferença, esta sorridente indiferença, esta familiar e brincalhona ferocidade, aérea, difusa, impalpável, com que se considera um ser humano, com que se fala de uma pobre mulher – logo de uma mulher! de uma triste mulher e do seu destino, de uma mulher bela, graciosa e miseranda; de uma mulher que tem toda a massa de que se fazem as mães e os anjos da terra, -e com uns olhos tão grandes, tão úmidos, tão luminosos!

-“Mas porque é que queria saber” indagou o boticário, depois de uma pausa.

-“À-toa, Fabiano.”

-“Pois olhe, é fácil.”

Encarei-o de um modo que devia ter-lhe parecido esquisito, pois calou-se e ficou sério. E não se falou mais nisto.

Fonte:
Domínio Público

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O Nosso Português de Cada Dia (Pegadinhas do Português) 5

Pegadinha 20

Depois de vinte minutos de interrupção, o árbitro deu continuidade ao jogo.

Esta seção de dicas de português para concursos expõe um grande equívoco de uso das palavras continuidade e continuação, conforme se explica a seguir.

continuidade — propriedade física da superfície dos corpos;

continuação — prosseguimento;

Exemplos:

A continuidade do grande espelho do salão foi afetada por uma rachadura na parte superior direita.
A continuidade do leito da ponte foi interrompida por uma trinca de uns dez centímetros, de lado a lado.
Em continuação a esta exposição de razões, falarei, agora, sobre os meninos de rua.
Precisamos dar continuação àquela partida de xadrez, no prazo máximo de cinco dias contados de sua interrupção.
Depois que o aluno alterado retirou-se da sala, o professor deu continuação à aula.

Então, depois da correção da frase inicial, fica assim:

Depois de vinte minutos de interrupção, o árbitro deu continuação ao jogo.

Pegadinha 21

A polícia não pode prendê-lo porque ele é de menor.

Eis uma seção de dicas de português para vestibulares e concursos cuja sutileza muita gente boa não percebe. O predicativo dessa frase liga-se ao sujeito com auxílio de verbo de ligação sem preposição. O povo é que construiu essa anomalia. Veja outros exemplos de predicativo:

Ele é sargento do exército.
Ela é maior de 14 anos.
Ela é a rainha do colégio.
Ele é menor de 6 anos.
Meu pai é professor.
Então, depois da correção da frase inicial, fica assim:

A polícia não pode prendê-lo porque ele é menor de idade.

Pegadinha 22

Sou difícil de fazer amizade.

Neste tópico de dicas de português para concursos, a frase já se inicia por uma incoerência, pois ninguém é difícil ou fácil de coisa alguma. Pelo menos, assim se espera. O que é difícil não é a pessoa, mas sim a ação de fazer amizade. O sujeito dessa frase é oracional — fazer amizade — e o predicativo é difícil. O verbo é de ligação — ser.

Então, depois da correção da frase inicial, fica assim:

É-me difícil fazer amizade. – ou – Fazer amizade me é difícil. – ou – Fazer amizade é difícil para mim.

Pegadinha 23

Já comuniquei o chefe que a mercadoria chegou.

Esta pegadinha de português para vestibular e concurso aborda um deslize sutil e corriqueiro, ideal para uma questão de concurso. Não devemos, jamais, comunicar uma pessoa, seja ela quem for. O que se comunica é o objeto da comunicação, isto é, o assunto, o fato ocorrido.

Comunica-se, sim, à pessoa um determinado fato. O verbo comunicar possui dois objetos. Um deles é o objeto indireto, que é a pessoa que recebe a comunicação. A esse objeto o verbo se liga sempre por meio de preposição. O outro complemento verbal é o objeto direto, que representa o fato comunicado.

Veja os seguintes exemplos:
Daniel comunicou ao Mário a demissão da antiga secretária
.O presidente comunicou ao povo a decisão que tomara quando decidiu o caso.
O marido comunicou à mulher que naquele dia não iria almoçar em casa.

Então, depois da correção da frase inicial, fica assim:

Já comuniquei ao chefe que a mercadoria chegou.

Pegadinha 24

A rapariga está meia aborrecida.

Mais um exemplo de pegadinha que tirou preciosos pontos para a aprovação de muitos vestibulandos e concursandos. Meia, modificando substantivo, é adjetivo e varia em gênero e número. Exemplos:

Meio litro de água. (metade do litro)
Meia xícara de café. (metade da xícara)
Ele fala em meias palavras. (metade das palavras, como metáfora de “não dizer tudo”)
Ele se expressa em meios termos. (idem, explicação acima)
Meio, modificando adjetivo, é advérbio e, como tal, não varia. Exemplos:
Ela está meio triste.
As duas moças permanecem meio confusas.

Então, depois de corrigida a frase inicial, fica assim:

A rapariga está meio aborrecida.

Pegadinha 25

Mais de um artista cantarão.

Este caso exige-nos atenção redobrada. Embora saibamos que a expressão “mais de um artista” representa, no mínimo, duas pessoas, devemos levar o verbo à forma da terceira pessoa singular cantará, fazendo a concordância gramatical com o numeral um da expressão “mais de um”.

Veja outros exemplos:
Mais de um automóvel foi sorteado.
Mais de uma mulher assistiu à cena.

Do mesmo modo, é feita a concordância de frases do tipo Menos de dois alunos fizeram a prova. Nessa frase, embora compreendamos que a expressão “menos de dois alunos” representa, quantitativamente, um aluno; a concordância também é gramatical, com base no numeral dois da expressão “menos de dois alunos”, e não ideológica, isto é, com a idéia ou sentido que a frase puder sugerir.

Outros exemplos:
Menos de dois livros, foram queimados no incêndio.
Menos de duas moças saíram antes de o espetáculo se findar.

Então, depois de corrigida a frase inicial, fica assim:

Mais de um artista cantará.

Pegadinha 26

Eu nasci há trinta e cinco anos atrás.

Esta pegadinha nos lembra uma famosa música dos anos setentas — Eu nasci há dez mil anos atrás. Há excesso nessa frase! Quando ocorre excesso desse tipo, dizemos que existe redundância, isto é, repetição viciosa, que só empobrece a linguagem de quem a comete. O verbo haver, por si só, já representa “tempo transcorrido”, a palavra atrás é redundante. Deve-se, portanto, escolher — ou se escreve há, do verbo haver, ou atrás.

Então, depois de corrigida a frase inicial, poderia ser escrita de duas maneiras:

Eu nasci há trinta e cinco anos.
ou Eu nasci trinta e cinco anos atrás.

Fonte:
126 Pegadinhas em Língua Portuguesa. http://www.softwareebookecia.com.

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Ditados Populares do Brasil (Letra N)

Na prática, a teoria é outra.
Nada como um dia atrás do outro, e uma noite no meio.
Não adianta chorar o leite derramado.
Não botar prego sem estopa.
Não coloque o carro na frente dos bois.
Não confundir alhos com bugalhos.
Não cries cão se te falta pão.
Não culpar a vassoura pela existência do lixo.
Na boca de quem não presta o bom não vale nada.
Na cabine cabem muitas; no coração só uma.
Na estrada da vida há espinhos de metro em metro e rosas de légua em légua.
Na frente, a felicidade; atrás, poeira e saudade.
Na subida você me aperta, na descida nós acerta.
Namorar mulher casada é fazer contrato com a morte.
Namoro é isca, casamento é anzol.
Não buzine, levante mais cedo.
Não buzine, passe por baixo.
Não chore, meu bem, na volta te levarei.
Não confie em mulher nem em freio de caminhão.
Não corro porque tenho pressa.
Não creio em homem que perde nem em mulher que acha.
Não fico rico, mas me divirto.
Não esquente a cabeça que o chifre amolece.
Não faça do seu namorado um tarado, a vítima poderá ser você.
Não fale a Deus dos seus grandes problemas, fale aos seus problemas que você tem um grande Deus.
Não há amor sem disciplina nem disciplina sem amor.
Não há mezinha que cure a dor da separação.
Não há mulher sem graça nem festa sem cachaça.
Não há regra sem exceção nem mulher sem senão.
Não há sabão que lave a alma da inveja.
Não maldiga o fim da vida, ele é o começo da vida sem fim.
NÃo me acompanhe que não sou novela.
Não me dê conselho; sei errar sozinho.
Não podem ser escondidos: o amor, o fogo e a tosse.
Não preciso esconder nada, o tempo vê, escuta e revela tudo.
Não se desculpe, corrija-se.
Não sou batom, mas vivo na tua boca.
Não sou bombeiro, mas apago o teu fogo.
Não sou rei, mas gosto de coroa.
Não sou dentista, mas gosto de banguela.
Não sou detetive, mas ando na pista.
Não sou laquê, mas vivo na cabeça das mulheres.
Não sou parafuso, mas vivo sempre apertado.
Não sou peixe, mas nado nas tuas águas.
Não sou pipoca, mas dou meus pulinhos.
Não sou 7 de setembro, mas sou parada.
Não suba de um salto, você pode cair.
Não suba muito, a queda pode ser maior.
Não temo estrada ruim, tudo é canja pra mim.
Não tenha pressa que a vida é curta.
Não tenho tudo que amo, mas amo tudo o que tenho.
Não tente descobrir os meus defeitos. Procure os seus.
Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração.
Nas curvas do teu corpo freei meu coração.
Nas longas estradas de saudade choro.
Nas longas estradas moro e  as vezes de saudade choro.
Nele mando eu e na minha casa minha mulher.
Nesta casa, quanto mais curta a mini-saia, melhor.
Ninguém é tão ninguém que nunca tenha ajudado alguém.
Ninguém se fie em cachorro na cozinha nem em mulher que sai sozinha.
No baralho da vida só encontrei uma dama.
No começo é bom, no fim é pior.
No deserto Deus fala ao homem.
No jardim de minha vida, de planta só tem saudade.
No laço do teu amor, minha alma geme e suspira.
No silêncio da noite é que aumenta a população.
Nossas BRIGAS são renovações de amor.
Nosso amor virou cinza porque você mandou brasa.
Nunca é tarde pra amar.
Não dar ponto sem nó.
Não dê a passada maior que as pernas.
Não deixar o certo pelo duvidoso.
Não deixes pra amanhã o que podes fazer hoje.
Não é com vinagre que se apanha moscas
Não faça aos outros o que não queres que te façam
Não fale o roto do esmolambado.
Não fale o sujo do mal lavado.
Não fazer aos outros o que não quer que lhes faça.
Não há carne sem osso,Não há nada que não tenha suas dificuldades
Não há mal que perdure, não há dor que não se cure
Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.
Não há mulher sem graça nem festa sem cachaça.
Não há nada como um dia depois do outro
Não há rosa sem espinho.
Não há segundo prato com o gosto do primeiro.
Não julgue o vinho pelo barril.
Não meta a colher onde não é chamado.
Não se deve dar pérolas aos porcos
Não se meta em camisa de onze varas.
Não se pode assobiar e chupar cana.
Não vá o sapateiro além das tamancas.
Nas pedras nascem flores.
Nascer empelicado.
Nem só de pão vive o homem.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Nem tudo está perdido.
Nem tudo que reluz é ouro
Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai.
Nem tudo são flores.
Ninguém perdoa a testemunha da desdita.
Ninguém pode servir a dois senhores.
Ninguém sabe tanto que não possa aprender e nem tão pouco que não possa ensinar.
No velório de pobre há choro, no de rico há briga.
Nunca vi carrapateira botar cacho na raiz, nunca vi moça solteira ter palavra no que diz.
Nuvem baixa, sol que racha

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Trova 256 – Pedro Melo (SP)

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25 de março de 2013 · 00:08

Paulo Setúbal (Poemas Avulsos II)

Pintura de Iman Maleki
A FAZENDA

Ao meu querido Laerte

Seis horas… Salto do leito.
Que céu azul! Que bom ar!
Ai, como eu sinto no peito,
Moço, vivo, satisfeito,
O coração a cantar!

No meu quarto, alegre e claro,
Há rosas e girassóis.
Eu, com enlevo, reparo
No mínimo do seu preparo,
Na alvura dos seus lençóis.

Que doce encanto, e que graça,
Nesta simpleza aldeã,
Têm, sobre os vãos da vidraça,
Leves cortinas de cassa,
Bailando ao sol da manhã!

E da florida janela
Que eu abro de par em par,
– Verde painel, larga tela,
Da cor mais viva e mais bela,
Desdobra-se ao meu olhar!

A manhã, que é fresca e branda,
A rir, gloriosa e feliz,
Doira a casa veneranda,
Com sua quieta varanda
Cheirosa de bogaris…

Um renque de altos coqueiros
Circunda o velho pomar;
Toscos, enormes tabuleiros,
Ficam em frente os terreiros,
Com grãos em coco a secar.

Num quadro, curvo e sozinho,
Um pobre negro, o Bié,
A passo, devagarinho,
Com seu rumoroso ancinho,
Lá vai, rodando o café…

Depois – a máquina, a tulha,
O alpendre, o farto paiol:
Ah, como a roça se orgulha
De ver subir a fagulha
Que lança a máquina ao sol!

Branca, entre tufos, a escola,
Na estrada logo se vê:
Aí, nessa casinhola,
A filha de nhá Carola
Vive a ensinar o a b c.

Fulgem, na estrada tranqüila,
Casinhas brancas de cal:
É a colônia que cintila,
Graciosa como uma vila,
Risonha como um pombal.

Ao longe, o pasto, a cancela,
– Um boi deitado no chão:
Paisagem rude e singela,
Daria fina aquarela
De puro estilo aldeão.

E além, para lá da ponte,
Ao lado do matagal,
Por sobre as lombas do monte,
Por todo o imenso horizonte,
– Alastra-se o cafezal!

O olhar, tonto, se extasia
Na cena rústica e chá;
E a gente sente a poesia.
Sente a radiosa alegria
De tão soberba manhã!

Absorto no panorama
Que assim contemplo, de pé,
Eis que uma velha mucama,
Surgindo à porta, me chama:
“Nhonhô, tá pronto o café…

A GENTE

Saio a passear… Claro e quente,
O sol na altura sorri.
Eu sigo, de alma contente,
Saudando esta boa gente
Dos sítios onde nasci!

Lá vou, por entre este povo,
Com tanta ingênua emoção,
Que eu, sem querer, me comovo,
Revendo agora, de novo,
Nhô Lau, seu Juca, o Bastião…

* * *

Aquele… Nossa Senhora!…
– Aquele é o seu Nicanor:
O mesmo, tão curvo agora,
Que foi, nos tempos de outrora,
O meu grande professor!

É um velho… Um republicano
Desde o tempo que lá vai!
Vive a falar no Floriano,
Dizendo que é veterano
Da guerra do Paraguai…

* * *

E este?… O Mendonça afamado,
O célebre caçador!
Traz a lapeana de lado,
E um perdigueiro malhado
Que salta no carreador.

Rude, feroz, barba intonsa,
Com a sua desfaçatez,
A todos narra o Mendonça
Terríveis caçadas de onça,
– Caçadas que nunca fez.

* * *

Lá está na foice, roçando,
O velho Jeca Morais:
Caboclo bom, gênio brando,
Apenas, de quando em quando,
Bebe algum trago demais.

* * *

No dia em que se endominga,
Vai ao povoado passear;
E à volta, cheirando à pinga,
Discute, provoca, xinga,
Querendo à força brigar!

* * *

Junto, o Nicola persiste
Em consertar um moirão;
Não sei se no mundo existe
Outro violeiro mais triste
Que esse infeliz mocetão.

Louca paixão, louca e imensa,
Sempre em angústias o traz:
É que ele, o poeta, só pensa
Na filha do Quim Proença,
Que gosta de outro rapaz.

Quando o luar desenrola,
No espaço, o místico alvor,
Sonhando um sonho, o Nicola
Põe-se a chorar na viola
As mágoas do seu amor…

* * *

Guiando os bois do seu carro,
Que ringe num alto som,
Nhô João, na estrada de Barro,
Lá vai, pitando um cigarro,
Cheiroso de fumo bom.

Com seu enorme trabuco,
Calça xadrez, pé no chão,
Na venda do Zé Macuco,
Sentado à mesa do truco,
– Que noites passa nhô João!

* * *

Ao longe, num largo trote,
Com elegâncias de peão,
– Bombacha, espora e chicote –
Passa na estrada o Mingote,
Montado num alazão.

Moço dos mais arrogantes,
De claro olhar, claro e azul,
Conta as paixões delirantes
Que teve em terras distantes,
Ao vir com tropas do Sul…

* * *

Eu sigo… Festivamente,
O sol na altura sorri;
Assim, risonho e contente,
Revejo toda esta gente
Dos sítios onde eu nasci…

DERRADEIRA SAUDADE

Paixão fugaz… Ventura passageira…
Rosa que não colhemos da roseira,
Mas que esteve, no galho, ao nosso alcance.
Ah! Quanta vez, num desespero mudo,
Eu quedo-me a cismar naquilo tudo,
Que encheu de sol nosso cruel romance!

Bendigo ainda os beijos que maldizes,
Que abriram na minhalma cicatrizes,
Que encheram de ambrosias nossa boca;
Só me consola, nesta dor pungente,
Lembrar que te adorei perdidamente,
Lembrar que me adoraste como louca!

Mudaste muito, eu sei… Mas, com certeza,
Nas horas de saudade e de tristeza,
Em que a alma chora e o coração nos trai,
Hás de pensar em mim de quando em quando,
Com lágrimas nos olhos relembrando
– Toda essa história que tão longe vai!

Fonte:
SETUBAL,Paulo. Alma Cabocla 

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Olivaldo Junior (Aniversário…)

Aniversário. Pintura de Galina
Tento enganar o Tempo, mas ele não perde o bonde e me deixa a pé. O Tempo é demais para mim. Por isso, ao fazer um texto, ao compor um tema, engano o Tempo (e a mim mesmo) trancando-o nas letras e nos compassos a fim de tê-lo a qualquer hora. Ontem fiz aniversário. Sim, “eu tenho mais de vinte anos”, mas o Tempo ainda corre em minhas veias, ainda durmo em suas teias, sonhando encontros e cânticos para alguém.

Alguém mandou cartão pelos Correios. Mais alguém, um poema, que mo mandou por e-mail. O que me importa é que alguém telefonou e me deu parabéns ainda que longe. Longe, ou perto, alguém se lembrou de que fiz aniversário. Abraçaram-me. Ganhei abraços de braços que também querem outros. Outros não mandaram nada. Alguns não sabiam. De uns poucos, não sei dizer.

Outra noite, cá estava eu, junto do rádio, qual fazia quando criança, ouvindo música, pensando alto e voando baixo. Não consegui encontrar quem me acompanhasse no ato de tentar cantar. Mais coisas, meu bem, não falo. “Eu tenho mais de vinte anos”. Sonhos envelhecem como eu mesmo me envelheço a cada vez que me recordo: tudo é recorte, apenas penas que o vento inventa ao voar.

Parabéns, “menino que eu fui”! Você me fez vivo enquanto viveu! Ainda, num e noutro gole de música, muito breve, eu o vejo… Você, que sonha, mas é morto. O que se vê é um homem cujos versos tem tido indiferença e cuja música é cachaça que se deixa envelhecer (sonhos?), sem ninguém a ter provado.

Fontes:
O Autor

Pintuira obtida em http://www.chapelart.com.br


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Homero (Batracomiomáquia – A Guerra entre Rãs e Ratos)


Ao iniciar, rogo ao coro de Helicon que assista a minha alma para entoar o canto que recém registrei nas tábuas sobre meu joelho – uma luta imensa, obra marcial plena de bélico tumulto -, desejando que chegue aos ouvidos de todos os mortais como os ratos se distinguiram ao atacar as rãs, imitando as proezas dos gigantes filhos da terra. Tal como entre os homens se conta, seu princípio aconteceu da seguinte maneira: Sedento, depois de se livrar de uma doninha, um rato submergia sua ávida barba ali perto, num lago, e se reconciliava na água doce como mel, quando viu uma rã tagarela, que no lago tinha suas delícias, e que assim lhe falou:

Inchabochechas: – Quem és tu, forasteiro? De onde chegastes nestas ribeiras? Quem te engendrou? Dize-me tudo honestamente, e que não perceba eu que mentes. Se te considerar digno de ser meu amigo, levar-te-ei a minha casa e te darei muitos e bons presentes de hospitalidade. Eu sou lnchabochechas e, no lago me honram como perpétuo guerreiro das rãs; meu pai Lodoso me criou e deu-me à luz Rainha-das-Águas, que com ele se juntara amorosamente às margens do Erídano. Observo que também és formoso e forte, mais ainda do que os demais; e deves ser rei e valoroso combatente nas batalhas. Mas, ande, revele-me já tua linhagem!

Roubamigalha: – Por que me perguntas por minha linhagem? Conhecida é e a de todos os homens e deuses, e até das aves que no céu voam. Eu me chamo Roubamigalha, sou filho do magnânimo Róipão e tenho por mãe Lambedentes, filha do rei Róipresunto. Mas… Como poderás conseguir que eu seja teu amigo, se minha natureza é completamente diversa da tua? Para ti, a vida está na água, mas eu costumo roer o quanto os homens possuem; não se me oculta o pão enfeitado que se guarda no redondo cesto; nem a grande torta recheada de gergelim; nem a talhada de presunto; nem o fígado dentro de sua branca túnica; nem o fresco queijo, de doce leite fabricado; nem os ricos doces, que até aos imortais apetecem; nem coisa alguma das que preparam os cozinheiros para os festins dos mortais, espargindo condimentos de toda sorte aos borbotões.

Jamais fugi da horrível gritaria insana das batalhas, mas sempre me encaminho para o tumulto e imediatamente me junto aos combatentes mais avançados. O homem com seu grande corpo é coisa que não me assusta, pois, imiscuído-me na cama em que repousa, mordo-lhe a ponta do dedo e até o pego pelo calcanhar, sem que sinta ele qualquer dor nem o desampare o doce sono enquanto eu o mordo. Dois são os inimigos a quem, em grande forma, eu temo sobre tudo o mais na terra: o gavião e a doninha, que terríveis pesares me causam; e também o lutuoso cepo onde se oculta a traidora morte. Mais temo porém a doninha, que é fortíssima e, ao me esconder numa toca, na própria toca vai ela me procurar. Não como rábanos, nem couves, nem abóboras; nem me alimentos de verdes acelgas nem aipo; que estes são vossos manjares próprios dos que habitam a lagoa.

lnchabochechas, sorrindo, respondeu:

Inchabochechas: – Ó, forasteiro, das coisas do ventre muito te envaideces; também nós, as rãs, temos muitas coisas admiráveis de se ver, tanto no lago como em terra firme, pois Zeus Cronion nos deu um duplo modo de viver, e tanto podemos saltar na terra como mergulhar na água, habitando moradas que de ambos elementos participam. Se desejares comprová-lo, mui fácil te há de ser: monta nas minhas costas, agarra-te a mim para não escorregares e chegarás tranqüilo ao meu palácio.

Assim falou – e deu as costas a ele. O rato, subindo de um salto ao lugar indicado, prendeu as mãos no pescoço macio. E a princípio regozijava-se contemplando os hortos vizinhos e deleitando-se com o nado de Inchabochechas; mas assim que se sentiu molhado pelas ondas cor de púrpura, brotaram-lhe copiosas lágrimas e, tardiamente arrependido, lamentava-se e arrancava os cabelos, apertando com suas patas o ventre da rã, com o coração aos pulos com o insólito da aventura, ansiando em voltar à terra firme; enquanto isso, um glacial terror fazia-o gemer. Estendeu então a cauda sobre a água, movendo-a como um remo; e, enquanto pedia às divindades que o ajudassem a chegar no chão firme, as ondas cor-de-púrpura iam banhando-o. Gritou finalmente – e estas foram as últimas palavras que sua boca proferiu:

Roubamigalha: – Com toda a certeza não foi assim que sobre seus ombros levou a amorosa carga o touro que, através das ondas, conduziu à Creta a ninfa Europa – como, nadando, a mim transporta sobre os seus esta rã que mal ergue seu amarelo corpo por entre a branca espuma.

De repente apareceu uma hidra com o pescoço sobre a água. Que amargo espetáculo para os dois! Ao vê-la, submergiu lnchabochecha sem lembrar da qualidade do companheiro que, abandonado, ia morrer. Foi-se portanto a rã ao fundo do lago e assim evitou a negra morte. O rato, quando a rã o soltou, caiu de costas na água; e apertava as patinhas; e, em sua agonia, soltava guinchos agudíssimos. Muitas vezes submergiu ele na água, muitas outras conseguiu flutuar, aos coices; não conseguiu no entanto escapar ao seu destino. O pêlo molhado aumentava seu peso. E, ao perecer nas águas, tais palavras pronunciou:

Roubamigalha: – Teu proceder não haverá de passar despercebido, ó lnchabochechas, que este náufrago fizeste despencar do teu corpo como uma pedra. Em terra, ó mui perversa, não me vencerias nem no vale-tudo, nem na luta, nem na corrida; mas te valeste da fraude para jogar-me nágua. Tem a divindade um olho vingador e pagarás teu crime ao exército de ratos, sem que consigas escapar.

E assim expirou ele na água. Mas aconteceu de vê-lo Lambeprato, que se achava sobre a branda relva da ribeira; e a proferir horríveis chiados correu para dar notícia aos ratos. Assim que estes a souberam, ficaram dominados de terrível ira. Ordenaram em seguida aos arautos que, ao romper da aurora, convocassem todos para uma reunião na morada de Róipão, pai do desditado Roubamigalha, cujo cadáver apareceu estendido na lagoa, pois o mísero já não se achava mais próximo da ribeira: ia flutuando no meio do charco. E quando, ao surgir da madrugada, todos acudiram ao encontro, Róipão, irritado com a sorte do filho, foi o primeiro a falar:

Róipão: – Amigos! Embora a mim em particular as rãs causaram tanta dor, a atual desventura a todos nós alcança. Sou muito desgraçado, pois perdi três filhos. Ao mais velho, matou-o a muito odiada doninha, pondo-lhe as garras em uma toca. Ao segundo, levaram-no à morte os cruéis homens, inventando uma engenhosa armadilha à qual chamam ratoeira e que é a perdição dos ratos. E o que era meu terceiro filho, tão caro a mim e a sua veneranda mãe, afogou-o lnchabochechas, levando-o para o fundo da lagoa. Mas eia, armai-vos, guarnecei vossos corpos com lavradas armaduras e saiamos todos contra as rãs.

Expondo tais razões, a todos persuadiu a que se armassem; e a todos armou Ares, que é quem cuida da guerra. Primeiro ajeitaram a seus músculos bainhas de verdes favas bem preparadas, que então abriram e que durante a noite haviam roído das plantas. Puseram-se couraças de peles hastes, dispostas com grande habilidade, depois de esfolarem uma doninha. O escudo consistia numa tampa, das que levam uma lamparina no centro; as lanças eram longuíssimas agulhas, labor de Ares em bronze; e o capacete era uma casca de ervilha por sobre as frontes.

Assim armaram-se os ratos. Ao perceberem isso, as rãs saíram da água e, reunidas, celebraram uma comissão para tratar do pernicioso embate. E, enquanto procuravam saber qual a causa daquele levante e tumulto, acercou-se deles um arauto com uma varinha na mão – Furaondas, filho do magnânimo Róiqueijo – e anunciou-lhes a funesta declaração de guerra:

Furaondas: – Ó, rãs! Os ratos nos ameaçam com guerra e me enviaram para vos dizer para se armarem para a luta e o combate, pois viram nágua a matar Roubamigalhas vosso rei lnchabochechas. Pelejai, pois, vós, os mais valentes entre as rãs.

Assim começou, e seu discurso penetrou em todos os ouvidos e mexeu com as mente de todas as rãs. E como sobrou a culpa para lnchabochecha, ele falou:

Inchabochechas: – Amigos! Não levei o rato à morte, nem o vi perecer. Deve ter-se afogado enquanto brincava às margens do lago, imitando o nadar das rãs; e os perversos me acusam – a mim, que sou inocente. Mas, adiante, busquemos de que modo nos será possível destruir os pérfidos ratos. Vamos cobrir o corpo com as armas e vamos nos colocar nos altos da ribeira, no lugar mais abrupto; e quando vierem eles nos atacar, fisguemos os que de nós se aproximarem pelos cascos e tiremo-los rapidamente do lago, dentro de suas próprias armadilhas. E depois que na água se afogarem, pois não sabem nadar, vamos erigir um alegre troféu que o ratocídeo comemore.

E assim a todos persuadiu que se armassem. Cobriram suas pernas com folhas de malca; puseram-se as couraças de verdes acelgas; transformaram habilmente em escudos folhas de couve; tomaram como se lança fosse cada qual os seus juncos longos; e cobriram a cabeça com elmos que eram conchas de caracóis. Vestida a armadura, enfileiraram-se no alto da ribeira, brandindo as lanças, cheios de furor.

Então, ao estrelado céu, chamou Zeus as divindades, e mostrando-lhe a batalha e os fortes combatentes, que eram muitos e manejavam longas lanças – como se pusesse em marcha um exército de centauros ou de gigantes -, perguntou sorridente quais deuses ajudariam as rãs e quais os ratos? E disse a Atenéia:

Zeus: – Filha! Irás por ventura auxiliar os ratos, já que todos saltam em teu templo, onde se divertem com o vapor da gordura queimada e com manjares de toda espécie?

E Atenéia respondeu-lhe:

Atenéia: – Ó pai! Jamais iria prestar ajuda aos aflitos ratos porque eles já me causaram um sem-número de males, destruindo os diademas e as lâmpadas para beberem o azeite. E ainda mais me atormenta o ânimo o fato de me roerem e ainda esburacarem uma túnica de sutil trama que eu mesma havia tecido; e agora a costureira me constrange pelo ocorrido – horrível situação para uma imortal! -, pois comprei fiado o tecido para tecer e agora não sei como irei devolver a ele. Mesmo assim, não pretendo defender as rãs, que tampouco elas têm juizo: recentemente, ao voltar de um combate em que muito me cansei, elas não me permitiram cerrar os olhos com seu alarido; e estive deitada, sem dormir e com a cabeça dolorida até ouvir o galo cantar. Portanto, ó Deuses!, vamos nos abster de dar-lhes a nossa ajuda, pois combaterão corpo a corpo mesmo que uma divindade se lhes oponha – vamos nos divertir todos contemplando aqui do céu a batalha.

Assim falou, e os restantes deuses obedeceram-na e todos juntos se encaminharam para determinado lugar estratégico. E então os mosquitos anunciaram, com grandes trombetas, o fragor horroroso do combate; e Zeus Cronida no céu troou, dando o sinal para a funesta luta.

Começou com Chiaforte ferindo Lambehomem com a lança, cravando-a no ventre e no fígado: o rato caiu de boca para baixo, os pêlos manchados e, ao tombar com grande baque, as armas ressoaram sobre seu corpo. Depois Habitatocas, como alcançara Lamacento, enterrou-lhe no peito a forte lança: a negra morte apresou o caído e voou-lhe a alma do corpo. Acelguívoro matou Penetraondas atirando-lhe o dardo no coração e nas mesmas margens matou também Róiqueijo.

Rãdojunco, ao ver Furapresunto, começou a tremer, tirou o escudo e fugiu, saltando na água. Descansanalama, o irrepreensível, matou o Comedordecapim e Gozadoraquático feriu também de morte ao rei Róipresunto, atingindo-lhe com o cabo da arma na parte de cima da cabeça: o cérebro do rato fluiu-lhe pelo nariz e a terra manchou-se de sangue! Lambepratos matou com a lança Descansanalama, o irrepreensível: a escuridão velou seus olhos. Ao vê-lo, Comealho agarrou Farejado pelos pés e, ao apertar o tendão com força, afogou-o no lago. Ladrãodemigalha quis vingar seu companheiro defunto e feriu Comealho no ventre, bem no meio do fígado: caiu a rã a seus pés e o espírito dela foi para o Hades. Andaentrecouves atirou-lhe de longe um punhado de lama que lhe borrou o rosto todo e por pouco não o cegou. Ficou raivoso o rato e, colhendo com a mão uma enorme pedra, verdadeiro obus da terra, com ela feriu Andaentrecouves abaixo do joelho: partiu-se a perna direita da rã, que caiu de costas no pó. Tagarela veio em seu auxílio e, atacando Ladrãodemigalha, feriu-o no ventre: enterrou-lhe todo o afiado junco e, ao arrancar a arma, os intestinos esparramaram-se no solo. E, assim que o viu no alto da ribeira, habitatocas – o qual, sentindo-se bastante abatido, retirava-se coxeando do combate – saltou num fosso para escapar da horrível morte. Róipão feriu Inchabochechas na extremidade do pé; e este; aflito, jogou-se no lago. Ao vê-lo caído e exausto, Alguívoro abriu caminho por entre os combatentes dianteiros e avançou sobre Róipão com seu junco em lance, não conseguindo, porém, romper-lhe a couraça, na qual cravou a ponta da arma. Feriu-o, no entanto, no forte casco de reforço, fazendo-se êmulo do próprio Ares, o divinal Cataorégano, único combatente que se destacava por entre a multidão de rãs. Mas partiram contra ele que, ao perceber-se assim acuado, não quis esperar seus esforçados heróis e acabou submergindo na parte mais profunda do lado.

O mancebo Roubaparte, entre todos destacado e filho do irrepreensível Roedorqueespreitaopão, recebeu deste a ordem para que se juntasse ao combate, e o filho garantiu, esbravejando, que haveria de exterminar toda a linhagem das rãs. Foi a elas com ganas de luta; rompeu ao meio uma casca de noz e armou-se. Temerosas, as rãs retiraram-se para o lago. E haveria ele de levar a cabo seu propósito, pois grande era sua força, se não o houvesse percebido imediatamente o pai dos homens e dos deuses: Zeus,
que compadecido das rãs, moveu a cabeça e assim falou:

Zeus:        – ó Deuses! Enorme é a façanha que meus olhos vão contemplar. Muito perplexo deixou-me Roubaparte ao se vangloriar de que haverá de destruir as rãs do lago. Enviemos o quanto antes Palas Atenas, que é quem produz o tumulto da guerra, ou Ares, para que o retirem da batalha, independente de sua valentia.

Ares respondeu-lhe:

Ares:        – Nem o poder de Palas Atenas nem o de Ares haverão de bastar para livrar as rãs da horrível derrota. Mas mesmo assim sigamos em seu auxílio, ou então move tu a tua arma, com a qual mataste os titãs, que eram em muito melhores do que todos; e desta maneira será dominado o mais valente, tal como em outros tempos fizeste perecer o robusto varão Capaneo, o grande Enceladonte e as ferozes famílias dos Gigantes.

Assim disse, e Zeus arremessou seu brilhante raio. Antes, emitiu um trovão que fez estremecer o vasto Olimpo, e em seguida lançou o raio – a terrível arma de Zeus que voou serpenteando da sua soberana mão. A queda do raio a todos causou pavor, tanto às rãs quanto aos ratos; mas nem por isso o exército destes últimos abandonou o combate, talvez esperando ainda mais do que destruir a linhagem das beligerantes rãs, se Zeus, no Olimpo, compadecendo-se delas, não lhes houvesse imediatamente enviado ajuda.

De pronto apresentaram-se uns animais com ombros como bigornas, de garras curvas e andar oblíquo, pés torcidos, com bocas como tesouras, peles de crustáceos, com ossos consistentes, costas largas e reluzentes, cambaios, lábios prolongados, e que olhavam pelo peito e tinham oito pés e duas cabeças, indomáveis; eram caranguejos que puseram-se a cortar com suas bocas as caudas, pés e mãos dos ratos, cujas lanças se dobravam ao enfrentar os novos inimigos. Temeram-nos os tímidos roedores e, cessando qualquer resistência, puseram-se em fuga.

E assim, ao pôr-do-sol, terminava aquela batalha que só um dia durara.
       
Fonte:
COSTA, Flávio Moreira da (org.) . Os 100 melhores contos de humor da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001

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Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XX)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

POUCO A POUCO

Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espetáculo que vejo: vejo-o,
É exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele.
E é esse sentimento que me liga à manhã que aparece.
Pouco me Importa
Pouco me importa.
Pouco me importa o que?
Não sei: pouco me importa.
Primeiro Prenúncio
Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço,
Da trovoada de depois de amanhã?
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.
Ter certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo.
O mundo será diferente —
Haverá eu a menos —
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada
Pastor do Monte
Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

QUANDO TORNAR A VIR A PRIMAVERA

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

QUANDO VIER A PRIMAVERA
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

QUANDO ESTÁ FRIO

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas

O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

QUANDO A ERVA CRESCER
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de “interpretar” a erva verde
sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.

SEJA O QUE FOR

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo “isto é real”, mesmo de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,
Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,
Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Existe para mim — nos momentos em que julgo que efetivamente
Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo

Se a alma é mais real
Que o mundo exterior como tu, filósofos, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade”

Se é mais certo eu sentir
Do que existir a cousa que sinto —
Para que sinto
E para que surge essa cousa independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.

Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?
Nos dias certos; nos dias exteriores da minha vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim.
Mas) tão sublimemente não-meu.

Quando digo “é evidente”, quero acaso dizer “só eu é que o vejo”?
Quando digo “é verdade”, quero acaso dizer “é minha opinião”?
Quando digo “ali está”, quero acaso dizer “não está ali”?
E se isto é assim na vida, por que será diferente na filosofia?
Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro fato merece ao menos a precedência e o culto.

Sim, antes de sermos interior somos exterior.
Por isso somos exterior essencialmente.

Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia,
Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
E isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet,
sem identificação do autor.

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Autran Dourado (O Risco do Bordado).

Obra-prima da carpintaria literária, O risco do bordado vem percorrendo desde seu lançamento, em 1970, o caminho típico de um clássico contemporâneo, alcançando um notável sucesso de público e crítica, suscitando inúmeras teses universitárias e sendo adotado como leitura curricular. O próprio Autran Dourado considera-o o eixo central de sua obra pela forma com que conjuga sua obsessiva construção de uma mítica mineira. “Escrevo para compreender Minas”, declarou ele.

Ambientado na mítica Duas Pontes, cidade a que retornaria em outros livros como uma síntese do universo interiorano de seus personagens, O risco do bordado é uma viagem ao passado do escritor João da Fonseca Ribeiro, que volta ao cenário de sua infância. Ao encontrar antigos moradores da cidade, parentes e companheiros de infância, ele vai montando uma espécie de quebra-cabeças entre o vivido e o imaginado, completando e expandindo fragmentos de memória que são a narrativa de sua infância e adolescência.

Como num típico romance de formação, em que o principal interesse está no crescimento e desenvolvimento do protagonista, o leitor vai sabendo, aos poucos, como João se tornou o que é, sua dura trajetória na descoberta da sexualidade, da amizade, da traição e, também, da literatura. Prostitutas, jagunços, antepassados mortos, parentes velhos, figuras características de Duas Pontes cruzam o caminho de João, que desta forma vai enxergando, retrospectivamente, o risco sob o bordado que, afinal, é a sua própria história de vida.

Autran Dourado dá à narrativa o ritmo descontínuo da memória. Ele trabalha idas e vindas e histórias fragmentadas que, num primeiro momento, podem se assemelhar a contos sutilmente interligados. Arquitetado paciente e minuciosamente a partir de gráficos e esquemas, O risco do bordado tem um similar na obra do autor: Uma poética do romance. Neste ensaio, também reeditado pela Rocco, ele explica cada detalhe da construção do romance, publica os desenhos e plantas-baixas que auxiliaram sua construção e reflete sobre seu processo de criação como um todo.

Artigo:

O Herói Trágico em O risco do bordado, de Autran Dourado.
Por: Lilian Manes de Oliveira – Revista Saberes – Letras/Universidade Estácio, RJ.

Numa sequência cronológica linear, constata-se que o crescimento de João, protagonista de O risco do bordado, corresponde a um sucesso de mistérios que o levam a questionar-se, em sua trajetória de menino a homem. Por vezes as diferentes formas de questionamento revestem um mesmo mistério. O encontro de João com o mistério leva-o a um sentimento trágico da vida. Ele é um pessimista sombrio. A busca de um sentido existencial o conduz a uma atitude de tragédia.

Seu primeiro encontro é com a “Casa da Ponte”, que dá título ao primeiro capítulo da obra. Esta tem seu ciclo trágico iniciado e concluído por tal casa.

Segundo Albert Camus, “a tragédia é um mundo fechado”. “Mundo fechado” era a Casa da Ponte, “reino proibido” de pequenas e grandes tragédias, que despertavam a curiosidade do menino. Dividido entre dois sentimentos, a vontade de ver Teresinha Virado (o despertar do sexo) e o medo de ser descoberto pela mãe, seu Bernardino ou outra pessoa, João é um personagem tenso: “nunca para ele uma espera durou tanto num átimo assim tão pequeno. O coração carregado, lampejos, vislumbres”. “Metade dele queria ir logo embora, a outra metade fincava pé”.

O problema ainda semiconsciente do garoto, diante do sexo, vai reaparecer num sentimento irrealizado de amor incestuoso, em “O salto do touro”.

Num outro momento, João se defronta com a morte. “… agora que o velho Maximino estava para morrer – aquela agonia lenta que chegava a dar nos nervos e que deixava os meninos, o colégio, a cidade, suspensos de angústia, de medo”.

“É limpa a tragédia, é repousante, é certa” (Jean Anouilh). Limpa? Como um terreno após a explosão de uma bomba atômica. Repousante e certa? Como a morte inelutável.

Os colegas de João, a empregada do tio-avô desempenham, cada um, seu papel. Dir-se-ia que correspondem ao coro da tragédia grega, que anuncia a morte do velho, que não deixa nenhuma margem à esperança. Não há surpresa nessa morte. Ela é esperada, longamente esperada. Não atinge João. O que o atinge é a agonia, a situação que se prolonga, a angústia resumindo todos os seus sentimentos: contar ou não à vovó Naninha? Ir ou não ao enterro? A morte já estava decidida. O desenlace, irremediável. Eis o verdadeiro efeito da tragédia. Ela é limpa; é pura, porque é fatal.

Outra vez ela aparece. A fatalidade previsível; a “ananké” dos gregos, o “fatum” latino vai-se repetir em “A volta do filho pródigo” e em “Assunto de família”.”Às vezes vovô Tomé achava que tio Zózimo tinha puxado ao pai dele, era muito parecido com o bisavô Mariano”. Eis a premonição trágica. O desempenho de Zózimo e Zé Mariano é descrito, como se João tivesse sempre presente no espírito o trágico futuro que os aguardava. Zé Mariano trancou-se num barraco e suicidou-se. Tio Zózimo também, enforcado. Em “As voltas do filho pródigo”, João ainda é personagem, o que serve de ligação deste grupo com os dos capítulos precedentes. Em “Assunto de família”, João é sujeito oculto, apenas ouvinte, pois o caso é narrado em falsa terceira pessoa, sendo o avô quem fala, o remorso e a culpa identificando os dois. A situação trágica se propõe pelo desdobramento do sujeito enunciante. João participa de ambas as tragédias, já que “presencia” a primeira como o “ouvido” do avô. O capítulo é escrito em terceira pessoa. A tragicidade do personagem se revela na busca da saída para uma angústia que o leitor apenas percebe, sem entender-lhe, a princípio, a razão. Vovô Tomé acha uma saída: comunica-se com o neto. Agora João carrega consigo a dúvida. Os tormentos do avô são seus. Todo esse capítulo poderia ser transposto para a primeira pessoa; mas, se tal ocorresse, não haveria mais o ouvinte: vovô Tomé continuaria incomunicável.

A busca se apodera de João. Incomunicável é ele. É trágico. O questionamento lhe pertence. Ele conscientiza o problema. As perguntas sobre o comportamento do tio nunca lhe são respondidas. Mas percebe a atmosfera trágica num crescendo quotidiano. As cartas que vovó Naninha oculta; o desespero de vovô Tomé; de novo, o coro trágico anunciando a João a volta do tio. Quando ele chega, a tragicidade aumenta; porém sofre uma interrupção. Como um parêntese entre a chegada e o fim de Zózimo, este volta à vida, a família se alegra, os habitantes da cidade o cumprimentam: é o trágico aberto. A um ciclo trágico que se fecha, segue outro ciclo trágico que se abre. Num de seus retornos ao lar, o filho pródigo se suicida. Sucessivamente, João se encontra com a loucura, com a morte. É o trágico cerrado.

Outra vez a figura da morte: a de Zé Mariano. O coro trágico – Teodomiro e Sá Vitoriana – pressentindo o desenlace trágico. A angústia de vovô Tomé: “não demorou três dias (três dias que foram a minha agonia, a minha morte temporã)”.

O que compõe a atmosférica trágica não é só a obra, é o leitor; o que conta são as relações dos personagens com o leitor. A atmosfera trágica implica adesão, engajamento, identificação. Daí chamar-se tensão dionisíaca ao estado no qual o leitor se sente ligado ao destino dos personagens, seja por identidade, seja por vontade de ruptura, tão intimamente que ele perde consciência de que este destino não é o seu. Assim a morte, destino comum a todos, pode constituir um tema de tragédia, quando o leitor se identifica com ela. A morte trágica é a minha morte, eu sou o sujeito da ação que se representa.

Entretanto, a morte não é somente o ponto extremo de um engajamento que pode encontrar sua força em outras circunstâncias. No trágico, pode representar um papel secundário. É uma das saídas. O homem é trágico, porque faz uma pergunta, respondida ou não. Só o homem é trágico, porque nunca encontrará uma resposta. As saídas não são A SAÍDA.

Vovô Tomé sofreu o tormento da incomunicabilidade. Não conseguiu penetrar no íntimo do pai, pois Zé Mariano lhe era de um mutismo monossilábico. O ciúme que sentia do meio-irmão foi provocado pelo distanciamento em que, embora filho legítimo, o pai o colocara. Em companhia de Teodomiro, parecia que o pai voltava à vida.

Um princípio de identidade estabelece o paralelismo. Também João não se comunica com o pai. Em seu mundo habitam mãe, avó, avô, tios, amigos. Referia-se ao pai de leve. O leitor sabe apenas que é mal sucedido nos negócios, não se dá bem com o sogro. João não deixa vir à tona os motivos. A incomunicabilidade está nas entrelinhas. Apenas, depois de morto ( “Sob a magia da dor”) , descobre-se o nome do pai: Tonico Nogueira. João ainda acrescenta: “remedando o tio que assim o apresentava às pessoas”. O silêncio sobre o pai é quase total.

O destino também é o inimigo de tia Margarida. O sobrinho não entende o porquê de uma existência estreita, daquele “mundo fechado”. “Querendo, ela podia ser bem bonita”. No entanto, um sentimento de culpa em relação a ela o acompanha desde menino. “Esse era o seu pecado mais fundo, a sua maior dor; embora ele nada tivesse feito, nenhuma culpa lhe coubesse. Porém, a culpa tudo tingia e envenenava”. “O salto do touro materializa essa culpa, dá-lhe razões de existir. O destino foi inimigo de João também. “Destino”, palavra criada por Hegel, para explicar a natureza profunda do tormento helênico, por ele próprio definida: “O destino é a consciência de si mesmo, mas como de um inimigo.”

Engloba, portanto, algo exterior e que se realiza no interior do ser humano. O mecanismo trágico existe desde o sempre. “Querendo” e “podia”: duas hipóteses. O risco do bordado impede de realizá-las. Prazer e dor, eis a tragédia pura; suas mil combinações refletirão as mil possibilidades de sofrer.
 

“Valente Valentina” retrata a magia e o deslumbramento, a necessidade apolínea do sonho que eleva o homem. Sonho que se esfuma na dualidade da tensão existencial. “Ah, meu Deus, como tudo se passou tão depressa! … Eu súbito descobri a verdade de que a gente só guarda para toda a vida aquilo que dói demais. Num instante chegou a hora do Circo Milano partir”. Valentina partira. “Eu nada podia fazer”. Não mais restava nenhuma esperança. O próprio princípio da tragédia se põe em causa. “O mundo é uma comédia para o homem que pensa e uma tragédia para o homem que sente” (Provérbio espanhol).

No capítulo final, “As roupas do homem”, o protagonista se liberta de suas dúvidas, recupera sua identidade. O simplesmente João a verbaliza: João da Fonseca Nogueira. Livra-se dos sentimentos de impotência diante do mistério existencial. O trágico o levou à descoberta de um universo misterioso e confusamente temido. Consegue a serenidade: os tormentos que o afligiam são apenas recordações.

O trágico termina num apaziguamento triste. João olha de frente seu destino. Liberta-se, pelo repouso que a tragédia da vida lhe trouxe.

Fonte:
Apostila 8 de Contemporânea da Lit. Brasileira. Disponível em http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Contemporanea/Autran_Dourado_O_Risco_do_Bordado_resumo.htm

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O Nosso Português de Cada Dia (Pegadinhas do Português) 4

Pegadinha 14
Costuma se fazer bons negócios nesta feira.

O verbo concorda com o seu sujeito, na voz passiva. Observe que temos dois verbos, um auxiliar e outro, principal.

Veja outros exemplos de uso da voz passiva em situações semelhantes:

Não se podem prever essas situações. (Não podem ser previstas essas situações.)
Devem-se devolver os crachás ao final do evento. (Devem ser devolvidos os crachás ao final do evento.)

A frase inicial estaria corretamente escrita da seguinte maneira:

Costumam se fazer bons negócios nesta feira.

Pegadinha 15

Não exceda da dosagem alcoólica permitida.

O verbo exceder não admite preposição. Outros exemplos:

O motorista foi multado porque excedeu os limites de peso de carga de seu caminhão.
(Errado: O motorista foi multado porque excedeu dos limites de peso de carga de seu caminhão.)

Lotação: 42 passageiros. Não exceda este limite. (Errado: Lotação: 42 passageiros. Não exceda deste limite.)

O certo seria escrever a frase original do seguinte modo:

Não exceda a dosagem alcoólica permitida.

Pegadinha 16

Não estacione! Sujeito a guincho.

Nada pode estar sujeito a um objeto que, neste caso, é o guincho, mas sim a uma ação, que seria a de guinchamento. Em outras hipóteses, os que transgridem a lei penal estão sujeitos a prisão, mas não a preso; se a transgressão for grave, podem até estar sujeitos a banimento, mas não a banido; como também, uma latinha de cerveja, no freezer, está sujeita a congelamento, mas não a gelo.

A frase inicial, corretamente grafada, ficaria assim:

Não estacione! Sujeito a guinchamento.

Pegadinha 17

Não fiz o dever de matemática.

Para muitas pessoas, há uma confusão muito grande, envolvendo os significados das palavras dever e deveres. Inicialmente, determinemos suas semânticas, conforme os bons dicionários:

dever: obrigação;

deveres: tarefas (sempre no plural).

O exemplo seguinte economiza muita explicação e esclarece a questão:

O dever de cada estudante é fazer seus deveres escolares.

Talvez, esta regrinha ajude a estabelecer com mais clareza a distinção:
deveres (tarefas) se fazem;
dever (obrigação) se cumpre.

Outros exemplos:
Ele cumpriu o dever de pai.
O dever de todo militar é servir o seu país.
Deixei de fazer os deveres de geografia.
Ela não dá conta de realizar os deveres domésticos. Precisa de uma empregada.

A frase original, corrigida, fica assim:

Não fiz os deveres de matemática.

Pegadinha 18

Pare de atazanar os outros!

Eis uma pérola da linguagem popular. Se formos a um dicionário e chegarmos à excrescência atazanar, teremos como significado a remissão ao vocábulo atenazar, que significa torturar, aborrecer, irritar, apertar com tenaz. Atazanar é uma palavra sem origem, é uma anomalia resultante da pronúncia atrapalhada de atenazar. Fica-se, portanto, com esta grafia, que é a correta.

A frase original deve ser reescrita, assim:

Pare de atenazar os outros.

Pegadinha 19

O comandante nos disse que ficássemos alertas.

Aqui está uma dica de português para vestibular e concurso, a qual tem gerado muita controvérsia. A palavra alerta pertence à classe dos advérbios e, como tais, é invariável. Não se flexiona para indicar gênero (Ele está alerta.), como também para indicar número (Permaneço alerta. Permanecemos alerta. Eles permanecem alerta.). Só se admite variação, quando substantivada, isto é, quando a palavra estiver acompanhada de artigo (Esqueci os alertas do comandante.).

Então, depois da correção da frase inicial, fica assim:

O comandante nos disse que ficássemos alerta.

Fonte:
126 Pegadinhas em Língua Portuguesa. http://www.softwareebookecia.com.

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 25. Manual de Cozinha

Arranjei hoje com um contínuo um Manual do Perito Cozinheiro, para ler durante a viagem, à falta de outra leitura edificante, instrutiva ou deleitável.

Trago a cabeça cheia de leituras de jornal, e já não me diverte nada, pelo contrário, a sarabanda cotidiana das crônicas, estudos, fantasias, comentários, bisbilhotices e descomposturas. Tenho a impressão de já haver lido isso tudo não sei quantas vezes, desde a minha vida anterior, nosremotos pródromos do jornalismo com Mr. Théophraste Renandot. É incrível como as coisas atuais caducam depressa, como as novidades são velhas, como os fatos extraordinários são vulgares.

É verdade que a impressão de perpétua velhice só se prova agudamente quando se vai descambando ladeira abaixo dos anos em enta. Mas isso apenas demonstra que o espetáculo é comprido e só se pode bem apreciar depois de lhe ter visto um bom pedaço.

O fato é que estou fazendo quaresma a respeito dessa carne-de-vaca dos prelos. Ontem, li no bonde o Livro de são Cipriano, conhecimento que me entreteve como um fruto proibido, e que valeu ao dono do volume, servente da repartição, um pacote de fumo Veado. Hoje, um dos meus colegas devia emprestar-me as Noites da Virgem, mas afinal parece que teve receio de que eu lhe extraviasse essa “mimosa jóia”, e declarou-me que a não havia encontrado; mentira, pois é o seu livro de cabeceira.

Arranjei-me porém com o contínuo, que fora da repartição é cozinheiro praticante, em ocasião de festa e regabofe, e dentro da repartição aprende a arte, decora receitas e dá consultas. Seja registado em sua honra, que não preenche apenas assim o seu horário oficial: também serve o café e faz o jogo do bicho.

O Manual fez-me o efeito refrescante de um bastão de cristal japonês passado pelas têmporas em hora de dor de cabeça. Nunca eu havia provado a tal ponto a maravilhosa utilidade das leituras inúteis. A parte referente ao preparo do peru com farofa e de outras aves domésticas e selváticas parecia escrita por um estômago inspirado, tanto garbo havia na variedade dos termos técnicos, na escolha das palavras mais precisas e sugestivas, no emprego dos adjetivos mais emanteigados e olorosos, enfim na composição de um estilo todo suavemente tostado e pururuca.

Li tudo, mas com absoluto desinteresse; por um puro ato de vontade, sem que nada me obrigasse ou seduzisse, ou me prometesse o mais remoto benefício. Singular prazer, cujo valor só depois completamente reconheci. Nem sequer me era dado pensar no aproveitamento de alguma receita, porque todos os pratos de que eu gosto já são perfeitamente executados e são de sobra para uma rotação conveniente dos menus; a tal ponto que ao saborear o frango assado no domingo, já eu sinto um pouquinho de saudade da torta de palmito da quinta-feira, e vice-versa, e assim por diante.

O que havia de bom nessa leitura era o emprego tenaz da vontade num objeto indiferente, ótimo exercício; era, depois, o esquecimento de umas amofinações, porque é impossível conciliar-se a leitura atenta de uma série de receitas de assados e cabidelas com o remeximento de espinhos espirituais.

Era, finalmente, a entrevisão liminar de um vasto mundo desconhecido, o mundo da Copa e da Cozinha, da pastelaria e das Artes afins; um mundo de ocupações e preocupações, de atividades e de idealidades, com sua história, seu tesouro tradicional, sua literatura, sua arte, sua ética, sua ciência; um mundo que aí fervilha tão perto do meu e ao qual eu andava alheio como se ele fosse Marte ou Saturno!

Esta percepção da impermeabilidade dos diferentes planos da vida me calou fundo na alma, e eu me senti ainda mais pequenino.

Se eu amanhã fizesse (mera hipótese) um poema forte, ou construísse uma teoria de mecânica, ou propusesse uma nova e fecunda maneira de interpretar a história, nada disso teria a mínima repercussão no mundo da Cozinha e da Copa; nem um eco sequer do meu nome chegaria até lá. A preparação do peru com farofa continuaria a mesma; ou, se se modificasse, havia de ser por ação de um dos íncolas, inovador de talento; e a alma do artista viveria em todo esse mundo largo mais viva e mais venerada do que a Divina Comédia ou o Discours de la Méthode ou o Novum Organum cá pelo nosso. E a sua glória não sofreria contestações nem eclipses, proclamada cada dia, através de tempos sem conta, por milhares de bocas verídicas e gratas!

E o nosso pobre mundo comum é todo assim, feito de mundinhos concêntricos, que se articulam sem se confundir E nós, ai de nós! pretendemos viver “cosmicamente!”

Fonte:
Domínio Público

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Aluísio Azevedo (O Esqueleto) Parte XIV, final – O Esqueleto

Assim muito aclamado pelas massas populares que lhe iam agradecer a carta de liberdade, d. Pedro desanuviou-se das tristezas que por alguns momentos o ensombraram com o caso de Branca.

De toda essa história tenebrosa que o fizera cruzar armas contra o Satanás não percebia grande cousa. Ficava-lhe apenas na memória o vago delineamento incerto de uma criança que ele supusera amante do escultor e que fora sua por uma noite sombria e treda como nas aventuras daquele tempo. E ficava-lhe principalmente nos quartos baixos do palácio o magro fidalgo das Espanhas que se aproveitava da ferida para prolongar o seu apetite e as suas bravatas.

D. Bias fortunava-se de fato um homem feliz. Servia-se do ferimento como indelével e irrecusável atestado de bravura inscrito no pergaminho da sua pele. E servia-se mais ainda do cozinheiro do Paço a quem estava constantemente pedindo bifes e bifes e outras esquisitas guloseimas.

Gesticulava, gritava e berrava.

Inimigo da solidão, rodeava-se dos criados a quem vivia contando as aventuras complicadas em que se metera. E tanta fertilidade tinha a sua irrequieta imaginação de espanhol, que conseguia sempre forjar mais um caso para o serão de cada noite, e mais um episódio para a conversa de cada dia.

E tantas fez que em torno dele formou-se uma reputação de espírito e bom humor.

D. Pedro quis vê-lo.

Entrou-lhe no aposento muito sério, com a compostura solene e grave de um imperador que também gosta da troça, mas deseja conservar a sua força moral.

Falou no ferimento, mostrando-se muito sentido com o acontecimento, lamentando-se do ocorrido, mas sem uma alusão ao Satanás.

– Ora senhor, ora senhor, isto não foi, não foi nada, explicou d. Bias. – O ferro entrou-me apenas dez polegadas no braço. Uma ninharia!

– Sim. Não foi nada, mas podia ser fatal.

D. Bias respondeu com um forte oscilar desprezível de ombros. Que não se importava. Que já estava acostumado àquelas cousas.

– Em todo caso posso garantir-te que não tinha vontade nenhuma de te matar.

– Ora senhor! Por quem é não falemos mais nisso. Eu até já vou me esquecendo de que fui ferido. A força do hábito, sabe, a força do hábito!

– Com que então tens sido ferido muitas vezes?

– Nem contas há que as possa enumerar.

E narrou:

– De uma, lá nas Espanhas, voltava eu muito sossegado de três duelozinhos pequeninos em que tinha morto os quatro adversários quando me saiu à frente um piquete de cavalaria comandado pelo irmão dos cinco rapazes que eu acabava de remeter para os infernos.

– E brigaste contra todo o piquete?

– Qual briguei! qual nada! Matei-os a todos sem exceção de um cavalo.

– Mas então não foste ferido!

– Fui, sim, senhor! Quando não havia mais adversários contra quem pelejar, caiu uma tempestade e veio um raio com tanta força que…

– Foste queimado?

– Qual queimado! Senhor! Feri-me eu mesmo com a minha espada indo a desviar-me do raio.

– E onde?

– Já não me recordo mais. Mas, caramba! que aquilo, sim, foi um golpe bem dado e de mão de mestre. Voou um braço para aqui, uma perna p’ra ali e a cabeça não sei para onde.

– Diabo! Pois tu te fizeste assim em pedaços?

– Qual eu! qual nada! Senhor. Foi o inimigo.

– Mas que inimigo?

– Ah! Eu não sei.

D. Pedro não pôde conter uma gargalhada e saiu.

Saiu, alegre da vida, cantarolando umas cantigas brejeiras. E teve uma idéia. A idéia de fazer uma caçoada com d. Bias, de pregar-lhe um bom susto. Deviam ser interessantes a cara e as falas do aventuroso cavaleiro das Espanhas, quando lhe aparecesse diante de si um fantasma ameaçador e tétrico que contra ele investisse numa encenação apavorante de tragédia. E, nas boas disposições de espírito em que estava, d. Pedro tratou logo de preparar a pilhéria.

Vieram-lhe a princípio dúvidas para escolha entre diversos projetos que se lhe apresentaram à imaginação. Mas, à noite, quando se despedia da cigana, lá no circo do Valongo, resolveu-se, enfim, e pediu ao Vampa que lhe vendesse um esqueleto articulado, que havia a um canto da parede e de que o saltimbanco se servia nas suas mágicas e pantomimas.

Trouxe-o, ruas afora por aquela noite escura, debaixo da capa, como um mistério, bem junto a si, como uma profanação.

E, quando entrou no Paço, antes de cear, foi logo ao quarto de d. Bias.

Segurando o esqueleto pela coluna vertebral, mal envolveu-o na capa, o bastante para esconder-se a si e para permitir que o descendente do soldado de Cid Campeador pudesse ver toda a horrível conformação espetral do fantasma.

D. Bias dormia.

Uns pratos vazios, muito lambidos e uma garrafa escorropichada, atestavam que o valente cavaleiro andante das aventuras contadas acabara de cear; lautamente, mais lautamente do que era permitido supor a quem o visse magro e esgalgado, um esqueleto ele mesmo. Acordou e gritou.

Sobre o peito descansa-lhe a ossadura descarnada da mão do esqueleto. E a olhá-lo, com o grande olhar tenebroso e mau das caveiras, estava um vulto bem junto a si, debruçado sobre o seu leito. Gritou.

Gritou e retorceu-se todo na cama, nu e esquelético, envolto na mortalha alvadia do lençol, fantasma contra fantasma.

D. Pedro ria-se.

E largou o esqueleto que então caiu todo inteiro sobre d. Bias.

Foi, nesse momento, um espetáculo diabolicamente nunca visto e nunca sonhado até então.

Por entre os lençóis e a capa, no belo contraste do preto e branco, debatiam-se os dous. D. Bias a contorcer-se todo, a querer desvencilhar-se desse novo companheiro de dormida, animava-o, fazia-o viver, emprestava-lhe movimento.

– Por Dios! choramingava o espanhol, por Dios! Não me faça nada! Deixe-me em paz, tenha pena de mim!

E fazia-se súplice, e queria erguer-se para ficar de joelhos, para pedir piedade, para comprometer-se a tudo quanto o fantasma quisesse, para tornar-se submisso e escravo, enfim, com tanto que o deixasse viver.

E com os movimentos que tentava, o esqueleto movia-se também, recolhia o braço num amplexo que horripilava o outro, intrometia a perna entre as do fidalgo das Espanhas, ligava-se-lhe enfim numa bela conjunção amorosa.

D. Bias soluçava. A voz desaparecia-lhe até.

Foi preciso que o príncipe, já farto do espetáculo, interviesse e separasse os dous.

– Caramba! fez d. Bias. Eu tinha medo porque era um esqueleto e não havia contra quem lutar!

E mais calmo depois, achou uma boa compensação no convite para a ceia de d. Pedro que este tinha mandado trazer para o quarto.

Não comia entretanto com toda a sua habitual voracidade. O esqueleto, que ficara sobre o leito, incomodava-o.

Levantou-se, e escondeu-o dentro de um armário.

– Se o esquecem agora, e se o descobrem daqui a cem anos… lembrou o príncipe.

D. Bias mastigou barulhentamente um grande naco de carne; e depois, olhando muito sério para o armário, disse:

– Caramba! que boa peça vou eu pregar às gerações futuras!

FIM

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Ditados Populares do Brasil (Letra M)

Macaco velho não bota a mão em cumbuca.
Mais fácil é pegar um mentiroso que um coxo.
Mais tem Deus pra dar, que o Diabo pra tomar.
Mais vale amigo na praça, do que dinheiro na caixa.
Mais vale cair em graça, do que ser engraçado.
Mais vale quem Deus ajuda, que quem bem cedo madruga.
Mais vale um gosto, do que dez vinténs.
Mais vale um pássaro na mão, que dois voando.
Mal de muitos, consolo de poucos.
Malandro esperto, não chia.
Malandro que é bom não estrila.
Malhar, enquanto o ferro está quente.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Maria vai com as outras.
Matar dois coelhos, com uma cajadada só.
Mateus, primeiro os meus.
Mato a cobra, e amostro o pau.
Me fale em pau de jangada, que é pau que abóia.
Melhor a pobreza honrada que a riqueza roubada.
Melhor esmagar, do que ser esmagado.
Mente desocupada, celeiro do que não presta.
Mentira exige memória.
Mentira tem pernas curtas.
Mingau quente se come pelas beiradas.
Muita conversa, pouco trabalho.
Muito riso é sinal de pouco juízo.
Mulher é como relógio, deu o primeiro defeito nunca mais anda direito.
Mulher é pra pouco tempo, ex-mulher é para sempre.
Mulher sem filho é como terra sem água.
Maior do que o mundo só o coração de mãe.
Mais vale chegar atrasado neste mundo, do que adiantado no outro.
Mantenha a distância.
Mãos limpas, mas o bolso cheio de notas sujas.
Melancia grande e mulher muito boa, ninguém come sozinho.
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão.
Meu negócio é sombra, água fresca, jornal de letra grande e ganhar na loteria.
Meu silêncio é desdém.
Meu vício é você, morena.
Meus olhos te dirão a verdade.
Meus sonhos te pertencem.
Mexa com as mulheres, mas conserve a sua direita.
Minha vingança é o silêncio.
Minha embriaguez, tu és meu cálice.
Montanha comigo é champanha.
Morar com sogra é vestibular para o céu.
Morena, esse é o teu ninho.
Moro no mundo e passeio em casa.
Morrer não dói, o que dói é viver sofrendo.
Mulher bonita é como estrada boa, perigosa.
Mulher, cachaça e bolacha em toda parte se acha.
Mulher é como calo. Incomoda.
Mulher de janela, nem costura nem panela.
Mulher é como árvore, só dá galhos.
Mulher e bateria não se emprestam, voltam descarregadas.
Mulher e carga não se despreza.
Mulher é como música, só faz sucesso quando é nova.
Mulher e freio não merecem confiança.
Mulher e retrato só se revela no escuro.
Mulher e sopa só quente.
Mulher é como morcego, só sai ? noite.
Mulher é como bife, só amacia quando apanha.
Mulher é como estrada, é boa, mas perigosa.
Mulher é como jornal, quando novo, distrai, quando velho, só serve pra embrulho.
Mulher é como papel de embrulho, só se ajeita com peso em cima.
Mulher é como pau de porteira: quando cai um, bota-se outro.
Mulher é como pudim, só doce e gostoso.
Mulher feia, cachorro e cobra, comigo é na paulada.
Mulher é fogo, homem é estopa; vem o diabo e sopra.
Mulher feia e enfeitada é sepultura cheia de flor.
Mulher feia e frete, de graça não carrego.
Mulher feia e fruta azeda só com muita cana.
Mulher feia e cachorro vira lata só o dono procura.
Mulher feia e onça só na jaula.
Mulher feia e urubu comigo é na pedrada.
Mulher feia é como relógio, só presta pra fazer hora.
Mulher feia é igual a ventania, só quebra galho.
Mulher feia só come do meu se roubar.
Mulher moderna que casa com “pão” passa fome.
Mulher na janela não cozinha nem mexe panela.
Mulher noturna não ama ninguém.
Mulher que dá muita bola acaba levando chute.
Mulher e caminhão não se empresta.
Mulher é como canjica, quanto mais mexe melhor fica.

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IX Concurso de Trovas da Academia Mageense de Letras (Prazo: 2 de Julho de 2013)

A Academia Mageense de Letras, no decurso de seu XXV Aniversário de Fundação, promoverá o presente IX Concurso de Trovas, na forma do Regulamento a seguir:

Art. 1.º O certame, de âmbito nacional/internacional, compreenderá duas categorias, com os seguintes temas: “Academia” (Lírico/Filosófico) e “Trem” (Humorístico).

Art. 2.º Cada poeta poderá participar, em cada categoria, com apenas 01 (uma) única trova inédita, a ser enviada até 02 de julho de 2013, valendo a data da postagem.

Parágrafo único. Considera-se trova a composição em quatro versos, em redondilha maior, rimando o 1.º com o 3.º e o 2.º com o 4.º versos, com rimas perfeitas, formando sentido completo e sem título.

Art. 3.º A trova a ser enviada, pelo sistema de envelopes, deverá ser remetida para o endereço: Caixa Postal 93.717, Magé, RJ, 25.900-000. No remetente escrever Luiz Otávio, repetindo o endereço do destinatário.

Art. 4.º A premiação ocorrerá na festa de aniversário de academia, dia 26 de agosto de 2013, em local e horário a serem confirmados.

Art. 5.º Serão conferidos diplomas aos dez primeiros classificados, em cada categoria.

Art. 6.º Fica vedada a participação dos acadêmicos e de seus familiares no certame.

Art. 7.º A comissão julgadora será composta por 03 (três) acadêmicos, convidados pela organização do certame, cuja decisão será irrecorrível.

Art. 8.º Qualquer eventualidade será decidida de forma irrecorrível pela organização do Concurso.

Alzir Ferreira
Presidente
Antônio Seixas
Coordenador do Concurso

Fonte:
A. A. de Assis

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43ºs. Jogos Florais Internacionais de Nossa Senhora do Carmo – Fuseta 2013 (Prazo: 15 de Maio de 2013)

ORGANIZAÇÃO

– A organização destes Jogos Florais cabe à Casa Museu Profª Maria José Fraqueza. Sendo seu ob-jectivo homenagear poetas algarvios potenciais concorrentes que mais se distinguiram pela sua honro-sa participação, presença, divulgação e mérito. Constando no nosso arquivo entre as primeiras poetisas e escritoras mais antigos concorrentes -. o nome da nossa amiga – MARIA ROMANA DA COSTA LOPES ROSA que muito tem contribuído nas diversas atividades culturais promovidas neste contexto.

REGULAMENTO
1 – ADMISSÃO

1.1 – O concurso está aberto a todos os poetas nacionais e estrangeiros, desde que se exprimam em língua portuguesa.

1.2 – Podem concorrer em dois níveis etários (quer sejam jovens ou seniores) mas deverão indicar a idade no exterior do envelope, juntamente com o pseudónimo.

2 – Os trabalhos devem ser inéditos e respeitar as regras da poesia, nas variantes seguintes:

2.1 – Quadra Popular – Tema livre – em sistema de envelopes.

2.2 – SONETO

Tema: “Em noites de luar tens mais poesia” – Maria Romana

2.3. – Glosando em Quadra (poesia obrigada a mote):

Mote:
“ Eu sou a folha caída
Tão triste, sem solução…
Sou experiência vivida,
Neste Mundo de ilusão! .”
Maria Romana

3 – (Reportagem, entrevista, texto, artigo, crónica, conto) subordinado ao tema:
“OS JOGOS FLORAIS E OS POETAS”

3.1 – O texto não deverá exceder 2 páginas. A apresentação estética deverá ser feita em papel formato A/4 . Tipo de letra “Times New Roman”.

4 – CALENDÁRIO

4.1 – Recepção dos trabalhos – até ao dia 15 de Maio de 2013, carimbo dos correios. A data da Sessão de Entrega dos Prémios deverá ser levada a efeito no mês de Julho (dia 13 – sábado), no decorrer das Festas da Padroeira.

5 – ENVIO DOS TRABALHOS

5.1 – Os trabalhos concorrentes deverão ser enviados pelo correio, sem indicação do remetente, para a seguinte morada:

Casa Museu Profª Maria José Fraqueza
43ºs.Jogos Florais Internacionais de N. Sra. do Carmo
APARTADO 71
8700 – 908 FUSETA – ALGARVE – PORTUGAL

5.2 – Variantes: Deverão os trabalhos das modalidades – Soneto, Glosa em Quadra e Prosa – serem acompanhados de um envelope fechado, contendo, no exterior, o pseudónimo e a variante a que respeita e, no interior, a identificação, idade, nome completo e a morada do concorrente. Os concorrentes, deverão indicar o escalão a que pertencem no exterior do respectivo envelope.

5.3 – O número de trabalhos a apresentar será dois apenas para as quadras populares
(escritas em envelopes separados) e um trabalho, em triplicado, para as outras variantes.

6. DISPOSIÇÕES GERAIS

– Não usar pseudónimos repetidos em concursos anteriores.
– Apenas os concorrentes premiados serão avisados por escrito;
– Os trabalhos não premiados serão destruídos, conservando o autor os seus direitos;
– Os concorrentes premiados deverão nomear, em caso de não comparência, um seu representante;
– As despesas do correio para envio aos premiados, serão suportadas pelos mesmos, em caso de não comparência.
– A classificação dos trabalhos será da competência dos elementos do júri, que será constituído por pessoas competentes, de cujas decisões não há recurso, salvo em caso de plágio ou de trabalho não inédito, devidamente comprovado.
– Qualquer omissão neste Regulamento ou situação imprevista será resolvida pela Presidente do Júri.

Fonte:
José Fabiano

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10º Concurso Tamoios – FNLIJ (Prazo: 31 de Março de 2013)

Organização:
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ

Regulamento:

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, seção brasileira do International Board on Books for Young People – IBBY, com o propósito de incentivar a produção literária para crianças e jovens e a leitura, tem promovido concursos de textos para professores e escritores. Agora, em 2012-2013, como uma ação de fortalecimento da nova década dos povos indígenas (2005 – 2015) proclamada pela UNESCO, em parceria com o INBRAPI – Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual, por meio do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas – NEArIn, a FNLIJ promove:

10º CONCURSO TAMOIOS DE TEXTOS DE ESCRITORES INDÍGENAS

Regulamento

Inscrição:

– Poderão participar indígenas adultos brasileiros residentes no Brasil, que tiverem sua filiação indígena apresentada;

– O texto inscrito deve ser fruto de uma produção literária para o público de crianças e/ou jovens, podendo ser de autoria coletiva;

– O texto deve ser inédito;

Tamoios. Foi como os indígenas confederados se denominaram no século XVI para fazer frente à expansão portuguesa. A palavra significa Filhos da Terra, Nativos. Em homenagem a esta resistência dos antepassados e a esta nova confederação dos Filhos da Terra, que hoje usam a escrita como arma, os organizadores elegeram este nome para intitular o presente concurso.

– O texto deve vir apresentado em português, em forma narrativa ou poética;

– Cada texto deve ser apresentado impresso em 3 cópias, em papel A4, fonte arial 12, espaçamento 1,5, tendo o máximo de 40 laudas, com título e o pseudônimo do autor;
– Separadamente, em um envelope fechado, o participante deve informar seus dados pessoais (nome completo, povo indígena a que pertence, endereço/cep, telefone, email, cidade e estado) e uma biografia de 5 linhas com sua trajetória de vida. Caso seja um texto coletivo, deve ser informada a biografia do grupo;

– Os trabalhos deverão ser enviados até 31 de março de 2013 para a sede da FNLIJ:

Rua da Imprensa, 16 – sala 1215
CEP 20030-120 – Rio de Janeiro – RJ;

– Após o concurso, os trabalhos não serão devolvidos;

– Maiores informações na FNLIJ pelo telefone: (21) 2262 9130 e pelo e-mail:
fnlij@fnlij.org.br ou no INBRAPI pelo telefone: (61) 3033 7019 e pelo e-mail:
inbrapi@inbrapi.org.br

Julgamento:

– A comissão julgadora será composta por especialistas indicados pela FNLIJ e pelo INBRAPI, através do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas – NEArIn;

– Caberá à comissão julgadora selecionar ou não mais de um vencedor.

Divulgação dos resultados:

Os resultados serão comunicados diretamente ao(s) vencedor(es) pela FNLIJ e divulgados no Notícias e no site da FNLIJ:
http://www.fnlij.org.br

Premiação:

– Um acervo de livros de literatura infantil e juvenil será doado pela FNLIJ;

– A entrega de prêmios será feita durante o evento 15 º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, de 5 a 16 de junho de 2013, no Centro de Convenções SulAmerica, no Rio de Janeiro;

– O texto premiado será publicado no jornal Notícias da FNLIJ;

Contato e Dúvidas:
– FNLIJ: (21) 2262 9130 – fnlij@fnlij.org.br
– INBRAPI: (61) 3033 7019 – inbrapi@inbrapi.org.br

Fonte:
http://www.fnlij.org.br/principal.asp?cod_diario=86

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11º Prêmio Portugal Telecom (Prazo: 7 de Abril de 2013)

Organização:
Portugal Telecom

Regulamento:

Os Livros

O Prêmio Portugal Telecom 2013 contempla três categorias distintas: romance, poesia e conto/crônica, escritos em língua portuguesa e publicados no Brasil de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2012.

Livros em primeira edição, escritos em língua portuguesa, e publicados fora do Brasil devem ter sido editados no país de origem entre 1º de janeiro de 2009 e 31 de dezembro de 2012, desde que tenham sido publicados no Brasil em 2012.
Todas as obras devem apresentar ISBN impresso no livro.

A Inscrição

Os livros serão inscritos por seu autor ou editor no site http://www.premioportugaltelecom.com.br, entre 15 de março e 7 de abril de 2013.

Após a realização da inscrição no site, é necessário enviar quatro exemplares do(s) livro(s) inscritos para Portugal Telecom Brasil:
Rua Cubatão, nº 320, 4º andar – CEP 04013-001 – São Paulo – SP

Apenas após o recebimento dos livros e a validação da Curadoria, a inscrição será realmente efetivada.

A Curadoria

A Curadoria 2013 é formada pela curadora-coordenadora e consultora literária da Portugal Telecom, Selma Caetano; pelo poeta Antonio Carlos Secchin, curador da categoria poesia; pelo escritor Luiz Ruffato, curador de romance; e pelo escritor Marcelino Freire, curador de conto/crônica.

A curadoria responde pelo resultado de todas as etapas do Prêmio e participa da composição de todos os júris.

A Estrutura

O Prêmio é desenvolvido em três etapas, com júris que se sudecem:

Primeira Etapa: Júri Inicial

300 profissionais do meio literário indicados pela Curadoria elegem os 60 primeiros classificados – 20 livros de cada categoria – entre os livros inscritos. O Júri Inicial elege também os júris das próximas etapas, entre seus membros.

Segunda Etapa: Júri Intermediário

Os 6 jurados eleitos pelo Júri Inicial + os 4 curadores elegem 12 finalistas – 4 livros de cada categoria – entre os 60 classificados na etapa anterior.

Terceira Etapa: Júri Final

Os 6 jurados eleitos pelo Júri Inicial + os 4 curadores elegem o vencedor de cada categoria, entre os 12 finalistas. Logo após a escolha do romance, livro de poesia e livro de conto/crônica vencedores, os jurados se reúnem mais uma vez para eleger o Grande Prêmio Portugal Telecom 2013, entre os três vencedores.

O Prêmio

Prêmio Portugal Telecom Romance = R$ 50 mil reais
Prêmio Portugal Telecom Poesia = R$ 50 mil reais
Prêmio Portugal Telecom Conto ou Crônica = R$ 50 mil reais
Grande Prêmio Portugal Telecom 2013 = + R$ 50 mil reais

Leia o regulamento completo aqui:
http://www.premioportugaltelecom.com.br/regulamento2013.pdf

Inscrições:
http://www.premioportugaltelecom.com.br/inscricoes/

Contato e Dúvidas:
http://www.premioportugaltelecom.com.br/contato/

Fonte:
http://www.premioportugaltelecom.com.br/

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