José Feldman (Universo de Versos n. 18)


Uma Trova do Paraná

MARIO A. J. ZAMATARO – Curitiba
Tremer como a britadeira
é um sintoma de febrão;
não pense que é brincadeira,
mais um pouco é convulsão.

Uma Trova Lírica/Filosófica de Magé/RJ

MARIA MADALENA FERREIRA
Quem planta em terras fecundas
colhe bons frutos! – E mais:
– cria raízes profundas,
à prova de vendavais!

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP

HÉRON PATRÍCIO
Grita o macaco sem teto,
sem galho e sem agasalho:
– Ninguém mais cumpre o decreto
“cada macaco em seu galho”???

Uma Trova do Feldman
 

JOSÉ FELDMAN – Maringá/PR
Quando entregues à tolice
de uma insensata paixão,
vivemos tanta meiguice,
mas, no fim…. só decepção!

Uma Trova Hispânica de Chilpancingo/Guerrero/México
 

MANUEL S. LEYVA
El Mañana es muy hermoso
por su disfraz de esperanza,
pero el Hoy, es más precioso,
no es ficción en lontananza.

Uma Trova de Ilhavo/Portugal
 

DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Confiemos no porvir
na certeza de que ele é
fruto do nosso sentir
e filho da nossa fé.

Trovadores que deixaram Saudades

JOÃO RANGEL COELHO  – Rio de Janeiro/RJ
1897 – ????

Bendita mão que semeia
 e que em dádiva sofrida
 vai deixando em terra alheia
 pedaços da própria vida.

Um Haicai de Campinas/SP

GUILHERME DE ALMEIDA
1890 – 1969

Pescaria
Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Uma Poesia de São Fidélis/RJ

ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
Travessia

Peguei o rumo da estrada
Marcando firme o compasso
E fui buscar meu espaço
No romper da madrugada.

Atravessei as cancelas,
Saltei valas e valões,
Abri portas e janelas,
Penetrei pelas favelas,
Andei muitos quarteirões.

Busquei fé e esperança,
Dividi o pão que tinha,
Rezei muitas ladainhas,
Pedi a DEUS proteção…
Dei o abraço apertado
No meu tão sofrido irmão!

Passei fome, senti sede,
Pisei em pedras e espinhos,
Nunca fugi dos caminhos
Que pela vida encontrei
Pois quem foge é covarde
E eu nunca me acovardei.

Fui em busca de um amor,
Movido pela paixão.
Machuquei meu coração,
Que tanto tinha pra dar,
Mas fingi não sentir dor
Conjugando o verbo amar.

Gemedeira
 

SEVERINO PINTO – Monteiro/PB
Pela própria denominação do gênero, vemos que serve para temas gracejantes. É a Gemedeira um estilo de poesia, caracterizado pela interposição de verso de quatro, ou, raramente, de duas sílabas, entre a quinta e a sexta linhas da Sextilha, formado pelas interjeições: “ai! e ui! ou ai! e hum!” (http://www.bahai.org.br/cordel/generos.html) Após cantar outros estilos com José Soares do Nascimento, Severino Pinto mudou para Gemedeira:

Cantei Mourão a Galope,
Versejando como entendo!
Vou passar pra Gemedeira,
Como me pedem, eu atendo!
Há pouco, cantei me rindo.
Ai! ai! ui! ui!
Agora canto gemendo!

Trova Ecológica

Uma Poesia de Moçambique/África

JOSÉ PEDRO DA SILVA CAMPOS D’OLIVEIRA
1847 – 1911
A Uma Virgem
(Improviso)
 
Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingénua e casta deudade!
Minha terna inspiração!
Condoi-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!
Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim…
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!…

E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif´rente
D´anos de´nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!…

Quadrão

LACERDA FURTADO
Quadrão para Joaquim Batista de Sena

O Quadrão em oito apareceu com ligeira modificação na sua forma interna, isto é, o quarto verso que rimava somente com o oitavo passou a rimar também com o quinto. (http://www.bahai.org.br/cordel/generos.html) Numa homenagem póstuma ao ilustre mestre Lacerda Furtado, transcrevemos um Quadrão no novo estilo, por ele escrito e oferecido ao grande cordelista paraibano Joaquim Batista de Sena:

Namorando a Salomé,
Vi a barca de Noé,
Palestrei com Josué,
Com Jacó e Salomão;
Travei luta com Sansão,
Nadei no delta do Nilo,
Montado num crocodilo,
Cantando os oito em Quadrão!

Um Soneto de Salvador/BA

ERNANE GUSMÃO
Licor de Anis

Licor de anis,azul,embriagante,
A cada gole meus desejos trais.
O vulto da singela e doce amante,
Fluidos perfumes, densas espirais.

Eu sorvo a tona desse anil bacante
E me inebrio em delírios tais…
Ouço o murmúrio dela, soluçante,
Em sintonia com meus mudos ais.

A timidez me prende, relutante
O coração reclama-segue avante,
Por que não quebras o temor e vais?

E quêdo embora, bafejou-me a graça,
Licor de anis sumiu da minha taça,
Mas ela… dos meus olhos… nunca mais!

Uma Poesia de Longe

LAURA RIDING – Nova York/Estados Unidos
1901 – 1991
Uma Gentileza

Estar viva é estar curiosa.
 Quando perder interesse pelas coisas
 E não estiver mais atenta, álacre
 Por fatos, acabo este minguado inquérito.
 A morte é a condição do supremo tédio.

Vou deixar que me desintegre
 E aí, por saber da paz que a morte traz,
 Seria bom seguir convencendo o destino
 A ser mais generoso, estender, também,
 O privilégio do tédio a todos vocês.

Trova Popular
 
As rosas é que são belas,
são os espinhos que picam,
mas são as rosas que caem,
são os espinhos que ficam…

Poesia em Música

EDUARDO DAS NEVES/RJ – (versos e melodia)
(1874-1919)
A Conquista do Ar (1902)

O feito de Alberto Santos Dumont, contornando a Torre Eiffel em seu balão n° 6, no dia 19.10.1901, inspirou diversas composições, entre as quais a marcha “A Conquista do Ar”, sucesso de 1902. Uma criação de Eduardo das Neves, a canção glorifica o inventor da aviação em versos desbragadamente ufanistas, que o público da época adorou (“A Europa curvou-se ante o Brasil / e clamou parabéns em meigo tom / brilhou lá no céu mais uma estrela / apareceu Santos Dumont”).
Palhaço de circo, poeta, compositor e principalmente cantor, Eduardo das Neves foi o nosso artista negro mais popular no início do século. Pai do também compositor Cândido das Neves, deixou modinhas, lundus, cançonetas, sendo de sua autoria os versos em homenagem ao encouraçado Minas Gerais, feitos sobre a melodia da valsa “Vieni sul Mar”, do folclore veneziano.
Aliás, ainda sobre a mesma melodia, o radialista Paulo Roberto escreveria, em 1945, nova letra exaltando o estado mineiro (“Lindos campos batidos de sol / ondulando num verde sem fim…”), mantendo o refrão popular (“Ó Minas Gerais / ó Minas Gerais / quem te conhece não esquece jamais…”).
No auge da carreira, Dudu das Neves apresentava-se nos palcos de smoking azul e chapéu de seda. (Cifrantiga

A Europa curvou-se ante o Brasil
E clamou “parabéns” em meio tom.
Brilhou lá no céu mais uma estrela:
Apareceu Santos Dumont.

Salve, Estrela da América do Sul,
Terra, amada do índio audaz, guerreiro!
Santos Dumont, um brasileiro!

A conquista do ar que aspirava
 A velha Europa, poderosa e viril,
Quem ganhou foi o Brasil!

Por isso, o Brasil, tão majestoso,
Do século tem a glória principal:
Gerou no seu seio o grande herói
Que hoje tem um renome universal.

Assinalou para sempre o século vinte
O herói que assombrou o mundo inteiro:
Mais alto que as nuvens.
Quase Deus, Santos Dumont – um brasileiro.

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