José Feldman (Universo de Versos n. 20)


Uma Trova do Paraná

MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH – Curitiba
Beijando, a brisa, meu rosto,
 meiga, me faz relembrar,
 com saudade e muito gosto,
 o amor que pude lhe dar

Uma Trova Lírica/Filosófica de Corumbá/MT

RUBENS DE CASTRO
Você já foi escolhida
para ser, em meu caminho…
na Santa Ceia da Vida,
meu Céu… meu Pão… e meu Vinho!

Uma Trova Humorística de Sete Lagoas/MG

WANDERLEY GUEDES DA SILVA
Um fantasma estarreceu,
espantou, gelou o sol.
Minha sogra apareceu
enrolada num lençol.

Uma Trova do Feldman

JOSÉ FELDMAN – Maringá/PR
Jardineira… a flor do amor
regaste nos meus canteiros.
Hoje, dou-te o meu calor
na alameda dos pinheiros!

Uma Trova Hispânica da Buenos Aires/Argentina

MIRTA LÍLIAN CORDIDO
En el medio de la mar
 encontré yo una botella
 que decía: “Me has de amar,
 y serás mi flor mas bella”

Uma Quadra Portuguesa

A fita do teu cabelo
dá o nó, não chega a laço;
não faças conta comigo,
que eu contigo não a faço.

Trovadores que deixaram Saudades

VASCO DE CASTRO LIMA – Rio de Janeiro/RJ
1905-2004

Embora vivas cantando,
canário, tens vida triste:
– já vi lágrimas pingando
nessa vasilha de alpiste!

Um Haicai da Bahia

GIL NUNESMAIA

Vi a lua cheia
entre fios telegráficos:
uma semibreve!

Uma Poesia de Porto/Portugal

SOPHIA DE MELLO BREYNER
1919 – 2004
A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
– Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Uma Setilha de Natal/RN

MARCOS MEDEIROS

A chuva mal começava,
a meninada partia
pra debaixo das biqueiras,
por onde a água escorria
e, depois na enxurrada,
morria de dar risada
extravasando alegria.

Uma Trova Ecológica
 

Uma Poesia de Luanda/Angola

DÉCIO BETTENCOURT MATEUS
E Eu Era teu Kwanza*

Eu era o teu kwanza
Caudaloso
E tortuoso
Destreza
A fartalhar as margens
Das tuas paragens!

Um kwanza vaidoso
E sinuoso
A fundir a doçura
Do meu açúcar
Na salgadura
Das ondulações do teu mar!

Ou ainda a nostalgia
Dum pôr-do-sol a entardecer
A luz do teu dia
Eu era a delicadeza
Duma brisa
A sussurrar-te o amanhecer!

Era a noite solitária
A beijar a insónia
Da tua madrugada
Uma mania
D´aurora adiada
Na maré da tua praia!

Era a melodia
Do trecho
Do canto dum riacho
Harmonia
D´água a batucarem pedras
E a polirem lascas ásperas!

Um aceno distante
No anoitecer
Da tua noite
Dormida-acordada
Eu era o kwanza da tua almofada
A balbuciar-te o alvorecer!
––––––––
O rio Kwanza nasce em Mumbué, município do Chitembo, Bié, no Planalto Central de Angola. O seu curso de 960 km desenha uma grande curva para Norte e para Oeste, antes de desaguar no Oceano Atlântico, na Barra do Kwanza, a sul de Luanda.
O rio Kwanza foi o berço do antigo Reino do Ndongo, tendo também sido uma das vias de penetração dos portugueses em Angola no século XVI.
Junto da foz do rio fica o Parque Nacional da Quiçama. (Wikipedia)

Meia Quadra
        
Entre as modalidades mais difíceis da Poesia popular, está a Meia Quadra, estilo que apresenta estrofes com número de versos não determinados, e com quatro linhas iguais na parte final (http://www.bahai.org.br/cordel/generos.html):
 

     Quando eu disser vida e meia,
     Você diga meia vida;
     Quando eu disser ida e meia,
     Você diga meia ida,
     Quando eu disser lida e meia,
     Você diga meia lida.
     Diga coração e meio.
     Se eu disser meio coração;
     Se eu disser meia baleia,
     Você diga meio cação,
     Se eu disser meio cação,
     Você diga meia baleia;
     Quando eu disser Meia Quadra,
     Você diz que é Quadra e Meia,
     Quando eu disser Quadra e Meia,
     Você diz que é Meio Quadrão!

O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)
Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Um Soneto de Alcantarilha, Silves/Portugal

MANUEL NETO DOS SANTOS
Primavera Esperada

 
Vem amor, quando chegar a Primavera,
Fazer com que floresça o meu sorrir,
Prender-me com os teus braços de hera
E amar-me no regaço do devir.

Vem amor, quando a terra florescer
E o ar, almiscarado de perfume,
Em brisas de ternura te disser
Que acendas no meu corpo esse teu lume.

Vem amor, quando a greda revolvida
Florir, numa aguarela aveludada;
Boninas, lírios brancos, açucenas…

Vem, amor! Quando o dia, a alvorada,
Florir as flores, mesmo as mais pequenas
E traz-me, então, de volta a própria vida.

Uma Poesia de Longe

JOSÉ LEZAMA LIMA – Campamento de Columbia/Cuba
1910 – 1976
Ah, que você escape

Ah, que você escape no instante
em que tenha alcançado sua melhor definição.
Ah, minha amiga, não queira acreditar
nas perguntas dessa estrela recém-cortada,
que vai molhando suas pontas em outra estrela inimiga.
Ah, se fosse certo que, à hora do banho,
quando, em uma mesma água discursiva,
se banham a imóvel paisagem e os animais mais finos:
antílopes, serpentes de passos breves, de passos evaporados,
parecem entre sonhos, sem ânsias levantar
os mais extensos cabelos e a água mais recordada.
Ah, minha amiga, se no puro mármore das despedidas
tivesses deixado a estátua que poderia nos acompanhar,
pois o vento, o vento gracioso,
se extende como um gato para deixar-se definir.

(Trad. Claudio Daniel)

Uma Sextilha de Porto Alegre/RS

DELCY CANALLES

O amor,  em verdade, encerra
 o  verdadeiro  viver!
 Quem ama e se faz amado,
 sabe, ao outro, compreender
 e  vive  uma  vida plena,
 num contínuo  renascer!

Uma Trova Popular

Amar e saber amar
são dois pontos delicados:
os que amam, são sem conta:
os que sabem, são contados.

Uma Poesia em Música

EDMUNDO OTÁVIO FERREIRA (melodia) e CATULO DA PAIXÃO CEARENSE (versos)
Talento e Formosura (1905)

A obra mais famosa de Edmundo Otávio Ferreira, foi Talento e formosura, que recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense, sendo gravado, entre outros, pela Banda da Casa Edson e pela Banda do Corpo de Bombeiros, na Odeon; pelos cantores João Barros e Mário Pinheiro, já com versos de Catulo, na Victor Record e pelo Grupo Lulu o Cavaquinho, na Columbia, todas no início do século XX.
Em 1977, Talento e formosura foi regravada por Paulo Tapajós na série “Cantares brasileiros – vol. 1 – a modinha”, distribuído pela Companhia Internacional de Seguros como brinde de Natal. (Cifrantiga)

Tu podes bem
Guardar os dons da formosura
Que o tempo um dia
Há de implacável trucidar
Tu podes bem
Viver ufana da ventura
Que a natureza
Cegamente quis te dar

Prossegue embora
Em flóreas sendas sempre ovante
De glórias cheia
No teu sólio triunfante
Que antes que a morte
Vibre em ti funéreo golpe seu
A natureza irá roubando
O que te deu

E quanto a mim
Irei cantando o meu ideal de amor
Que é sempre novo
No viçor da primavera
Na lira austera
Em que o Senhor me fez tão destro
Será meu estro
Só do que for imortal

Terei mais glória
Em conquistar com sentimento
Pensantes almas
De varões de alto saber
E com amor
E com pujança de talento
Fazer um bardo
Ternas lágrimas verter

Isto é mais nobre
É mais sublime e edificante
Do que vencer
Um coração ignorante
Porque a beleza é só matéria
E nada mais traduz
Mas o talento é só espírito
E só luz

Descantarei na minha lira
As obras-primas do Criador
O mago olor da flor
Desabrochando à luz do luar
O incenso d’água
Que nos olhos faz
A mágoa rutilar
Nuns olhos onde o amor
Tem seu altar

E o verde mar que se debruça
N’alva areia a espumejar
E a noite que soluça
E faz a lua soluçar
E a Estrela Dalva
E a Estrela Vésper languescente
Bastam somente
Para os bardos inspirar

Mas quando a morte
Conduzir-te à sepultura
O teu supremo orgulho
Em pó reduzirá
E após a morte
Profanar-te a formosura
Dos teus encantos
Mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus
Fechar meus olhos sonhadores
Serei lembrado
Pelos bardos trovadores
Que os versos meus hão de na lira
Em magos tons gemer
Eu morto embora
Nas canções hei de viver

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