José Feldman (Universo de Versos n. 23)

Uma Trova do Paraná

MARIA LUCIA DALOCE CASTANHO – Bandeirantes
De ilusões eu fui vivendo…
E a esperança, disfarçada,
via os meus sonhos morrendo,
e nunca me disse nada!

Uma Trova Lírica/Filosófica de Santos/SP

BRITES Q. FIGUEIREDO
Num cofre-forte, guardado
por bruxas, lá na distância,
está o que me é negado:
– os sonhos de minha infância!

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP

SÉRGIO FERREIRA DA SILVA
Uma receita eu preparo,
e um gato me desanima
chega perto… apura o faro…
e joga areia por cima.

Uma Trova do Feldman

JOSÉ FELDMAN – Maringá/PR
Quando se perde um amor,
o coração dá um brado:
– Por favor, tire essa dor.
Ó Pranto! Fique calado!

Uma Trova Hispânica da Argentina

MARÍA CRISTINA FERVIER
Señora de ojos vendados,
no le robes la esperanza
a los pobres derrotados.
La justicia es su templanza.

Uma Quadra Popular

Mulher é livro fechado,
Mas fechado para valer…
Nunca confessa o pecado,
Faz do pecado viver

Trovadores que deixaram Saudades

NÁDIA ELISA SANCHES HUGUENIN – Nova Friburgo/RJ
Na trova e no trovador,
é que se encontram, suponho,
criatura e criador
unidos no mesmo sonho!

Um Haicai de São Paulo/SP

CARLOS SEABRA
era uma vez
um sapo que beijado
poeta se fez

O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)
Por um lindésimo de segundo

Tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas.

Uma Poesia de Curitiba/PR

LÚCIA CONSTANTINO
Saudade

Irmã da terra,
dos ventos,
das tempestades,
por onde pisam agora
teus pés de saudade?

Deixou rosas,
espinhos
e tantos trigais.
E foi ninar num travesseiro de jasmins
à sombra dos pinheirais.

Uma Sextilha de São Paulo/SP

THALMA TAVARES
Descobri um grande amor
– meio século já faz –
e ainda hoje é o motivo
que sempre alegre me traz,
por ser a troca constante
de ternura, amor e paz.

Uma Trova Ecológica

Uma Poesia de Santo Antão/Cabo Verde

DINA SALUSTIO
(pseudonimo de Bernardina Oliveira)
Éramos Tu e Eu

Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espetáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

 Éramos tu e eu
Dentro de nós.

 As contrações cada vez mais rápidas
O descontrole
A emoção
A ciência atenta
O oxigênio
A mão amiga
De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

 São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.

A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.

Um Limerique de São Paulo/SP

TATIANA BELINKY

Alguns estudos dizem que surgiu na França no início do século 17, já outros dizem que na Irlanda  na cidade de  Limerick, onde soldados cantavam pequenos poemas com um certo humor para passar o tempo. O principal  autor destes pequenos versos, no entanto, dizem ser um inglês Edward Lear, que gostava de escrevê-los com sátira, humor  e um certo tanto de absurdo. No Brasil, começou a ser divulgado por dois escritores são eles, Joaquim de Souza Andrade ou Souzândrade como ele gostava de ser chamado e Clarice Lispector. Porém quem mais difundiu esta categoria aqui no Brasil foi a escritora ( famosa por seus livros infantis) Tatiana Belinky, que os define assim: […” são cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o segundo e o quinto; o terceiro e o quarto, mais curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimo para fazer algumas brincadeiras. (Kate Weiss )

Quem pensa que eu sou uma ogra
No seu pensamento malogra.
Língua bifurcada?
Só quando enfezada.
Porque eu sou mesmo é sogra.

Um Soneto de Minas Gerais

SÔNIA MARIA DE FARIA
Travessia

Se num belo sonho se envolve a vida,
Traz ele novos ares de alegria,
Uma força com meta definida
E um desejo incontido se anuncia.

Mergulha o coração no desafio…
Busca firme traçar a sintonia
Entre dias de sol, noites de frio,
Nada fere sua essência, a euforia.

Se é difícil a paz na travessia,
São os sonhos as borbulhas de magia,
A força estranha, o caminho, a certeza…

Escolher sonhar é sabedoria:
É dos que sonham o raiar do dia…
É dos que lutam sua realeza.

Uma Poesia de Longe

CONSUELO TOMAS – Bocas del Toro/Panamá
Eu era uma casa

Eu era uma casa que quase se fechava
Antiga memória de beijos
Carícia no exílio
Mar calmo e já de volta

Então foste tu
abrindo minhas janelas
Colocando os passos da mirada
música da ternura em tua doce mão
espantando o pó do desengano
uma ou outra palavra e o abraço

ilusão imperfeita
um minuto de vida
oportunidade serena
para ensaiar o amor e suas rupturas

Agora tenho que esquecer-te e não sei como
Recuperar o mecanismo da calma, a música do mar
E sua cumplicidade imensa
O perfeito equilíbrio do que foi conquistado

De qualquer forma antes que a noite chegue
Aqui sempre haverá lugar para teu rosto
Um espaço vazio para que teus braços preencham ou a lembrança
Um silêncio estendido para que teu canto voe ao mais elevado
Aqui.

Uma Poesia do Porto/Portugal

ALBERTO DE SERPA
1906 – 1992
Recreio

Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves….

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
— Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas…

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
À vida que vai chegando despercebida e breve…

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes…

Outra Quadra Popular

Rouxinol canta de noite,
de manhã a cotovia;
todos cantam, só eu choro
toda a noite e todo o dia!

Uma Poesia em Música

CUPERTINO DE MENEZES (melodia) e HERMES FONTES (versos)
Constelações (modinha, 1908)

 
Constelações, que fulgurais
Iluminai as minhas lágrimas finais
Carbonizai meu coração
Para domar e sufocar
E exterminar essa paixão
Oh! sol crestai, vento esfolhai
Das rosas d’alma as frias pétalas de gelo
A minha vida é um pesadelo
E o pesadelo uma visão
Que pouco a pouco vai roubando-me a razão.

Só é feliz quem não se diz
Saber libar os flébeis beijos do luar
Alma sem luz, vinde sonhar
Ao terno som consolador
Das flautas mágicas do amor
Oh! coração sem ilusões
Que inda bateis, mas não viveis, não tendes vida
Minh’alma é como uma ferida a gotejar sangue de luz
Como a do mártir que morreu pregado à cruz

Quando anoitece, a sombra desce
A voz da prece nos espíritos languesce
Fica a cismar meu pensamento
No firmamento que se fulge num momento
A fulgurar
Quando amanhece, o céu floresce
A loura messe das abelhas estremece
Fica a gemer meu coração, fica a sentir, a palpitar
Como o vulcão na tíbia luz crepuscular

Manhãs de abril, dai-me esta luz
Que ao sonho induz meu coração primaveril
Em ouro e anil se fulge o azul
Sobre o paul em que vivemos num monótono torpor
Como um clarim descanta em mim
Um serafim que marca o fim dos meus pesares
Nos vagalhões de etéreos mares hei de ser navegador
Para sulcar ou naufragar num mar de amor

Oh! corações, como tufões
Passai, voai por sobre todas as paixões
Amai a luz, ò rosicler
Amai as flores, esquecei os vãos amores da mulher
Sois loucos pois, vós todos sois
As mariposas que se vão queimar na chama
Jesus tem pena de quem ama
Indulta amor que tudo quer
Ai! Quanta força tem o amor de uma mulher.

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