José Feldman (Universo de Versos n. 27)


Uma Trova do Paraná

VÃNIA MARIA SOUZA ENNES – Curitiba

Trovador por excelência,
tem nas veias o otimismo:
faz as trovas com sapiência,
e dá lições de altruísmo!
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Uma Trova contra a Dengue de Pedro Leopoldo/MG

WAGNER MARQUES LOPES

Aquele que sempre joga
o lixo em qualquer lugar
é o desleixado que roga:
“ –Venha, dengue,  me atacar!”.
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Uma Trova Lírica/Filosófica de São Paulo/SP

SELMA PATTI SPINELLI

Com tanta delicadeza,
um regato a serra desce…
E eu tenho quase certeza
que a própria serra agradece!
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Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ

CLENIR NEVES RIBEIRO

A mulher do amolador,
que é fofoqueira afamada,
diz que se casou sem amor
só pra ter língua afiada!
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Uma Trova do Feldman

JOSÉ FELDMAN – Maringá/PR

Num retrato amarelado,
a saudade em mim se deu.
Ontem tinha meu pai ao lado
sem ele, hoje, o pai sou eu.
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Uma Trova Hispânica das Ilhas Canárias/Espanha

TERESA DE JESÚS RODRÍGUEZ LARA

Te quiero porque te quiero,
sin que medie condición…
y por justicia yo espero
que me des tu corazón.
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Uma Quadra Popular Portuguesa

Mal de amor, raro se perde
É como a nódoa da amora
Só com outra amora verde
A nódoa se vai embora.
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Trovadores que deixaram Saudades

TAPAJÓS DE ARAÚJO – Sorocaba/SP
(Raimundo de Araujo Chagas)
1894 – 1969

Nesse amor aberto em palmas,
espero encontrar depois
um céu para duas almas
e um sonho para nós dois.
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Uma Trova sobre a Trova de Piraquara/PR

HORÁCIO F. PORTELLA

Não chame a trova trovinha
nem diga que ela é pequena…
Seja sua ou seja minha,
é majestosa verbena.
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Um Haicai de Curitiba/PR

ROSALVA FREITAS BRÜSCH

Vento de inverno
Folheou o meu livro
E não leu nada
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois
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Uma Poesia de Belo Horizonte/MG

CÉLIA JARDIM
Tempestade na Alma

Carrego o peso de minhas amarguras
tentando sobreviver a todos temporais
minha alma há tempos em clausura
já não reage a tantos vendavais
A escuridão me acompanha, me dá medo
carrego solitária toda minha sofreguidão
já não sei da vida qual o segredo
que me liberte desta mutilação
Meus rastros se perderam no caminho
já não busco um futuro no passado
plantei flores, colhi tantos espinhos
deixei também, meu presente sepultado
Talvez em algum tempo desconhecido
haja um lugar onde eu possa repousar
secar esta alma encharcada, coração ferido
que o destino se encarregou de maltratar
Vou vivendo e morrendo lentamente
escondendo minha face deste mundo
se eu morrer que seja secretamente
pois meu orgulho foi ferido até o fundo
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Sextilhas de Rio Claro/SP

FAGUNDES VARELA
1841 – 1875

Amo o cantor solitário
Que chora no campanário
Do mosteiro abandonado,
E a trepadeira espinhosa
Que se abraça caprichosa
À forca do condenado

Amo os noturnos lampírios
Que giram, errantes círios,
Sobre o chão dos cemitérios,
E ao clarão das tredas luzes
Fazem destacar as cruzes
De seu fundo de mistérios

Amo as tímidas aranhas
Que lacerando as entranhas
Fabricam dourados fios
E com seus leves tecidos
Dos tugúrios esquecidos
Cobrem os muros sombrios

Amo a lagarta que dorme,
Nojenta, lânguida, informe,
Por entre as ervas rasteiras
E as rãs que os pauis habitam
E os moluscos que palpitam
Sob as vagas altaneiras

Amo-os, porque todo o mundo
Lhes vota um ódio profundo,
Despreza-os sem compaixão
Porque todos desconhecem
As dores que eles padecem
No meio da criação.
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Uma Trova Ecológica de São Paulo

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Uma Poesia de Inhambane/Moçambique

RUI KNOPFLI
1932 – 1997
Princípio do dia

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

 Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

 No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

 E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

 (Amanhã volto a experimentar).
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Um Soneto de Santarém/Portugal

ARLETE PIEDADE
Enigmas de menino

Estou tão triste e revoltado com a vida
não sei porque me deixaram aqui sozinho
foi-se embora a minha mãezinha querida
agora ninguém mais me irá dar carinho…

esta manhã estava tanto gelo na estrada
minhas mãos ficaram de golpes a sangrar
meus pés descalços gretados lá na picada
cheios de bicos, pele dolorosa a queimar

meu estômago pequenino e vazio dói tanto
ninguém me acode nem enxuga meu pranto…
ah! Será que este é de verdade o meu mundo?

Venham me buscar! – Não sou deste recanto!
Imploro olhando o céu, com tal espanto…
medonha solidão, desespero tão profundo!
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Uma Poesia de Longe

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ – Moguer,Huelva/Espanha
1881 – 1959
Consciência Hoje Azul

 Consciência de fundo azul do dia, hoje
concentração de transparência azul;
mar que sobe em minha mão criando sede
de mar e céu no mar,
em ondas abrazantes, de sal vivo.

Manhã de verdade no fundo ar
(céu de água funda
de outro viver ainda em imanência)
explosão suficiente (nuvem, onda, espuma
de onda e nuvem)
para levar-me em corpo e alma
ao âmbito de todos os confins,
a ser o eu que aspiro
e a ser o tu que aspiras em meu anseio,
consciência hoje do vasto azul,
consciência desejante e desejada,
deus hoje azul, azul azul e mais azul,
semelhante ao deus de meu Moguer azul,
um dia.

(Tradução: Antonio Miranda)
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Um Poetrix de Rondônia

TASSO ROSSI
Geométrica mente

tuas curvas,
meus planos…
tangentes.
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Uma Elegia de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902– 1987
Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
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Versos Melodicos

EUSTÓRGIO WANDERLEY (melodia) e ADELMAR TAVARES (versos)
Lágrimas e risos (valsa, 1913)

A vida é toda feita assim
De riso e dor um mar sem fim
Alegre um dia o riso vem
E o pranto seguirá também

A criancinha assim que nasce
Conhece a dor, põe-se a chorar
No entanto o riso em sua face
Só muito após vem a aflorar

Sorrir, chorar e assim vai-se a vida a passar
Cantar, gemer, a mágoa vem junto ao prazer
É louco também quem nos diz, que se considera feliz
Que a sorte aos seus braços lhe atira, mentira, mentira
Pois breve ao invés de cantar
Chorar, chorar

Eu que cantando estou hoje aqui
Enquanto o público sorri
Quem sabe se em vez de cantar
Tenho vontade de chorar

Num circo, vê-se sobre a arena
Ri o palhaço a se perder
E em casa a filha assim pequena
Talvez deixasse-lhe a morrer

Sorrir, chorar e assim vai-se a vida a passar
Cantar, gemer, a mágoa vem junto ao prazer
Palhaço que ri sem cessar
Não deve não pode chorar
Pois quem é pago pra rir pra chalaça
Desgraça, desgraça
Se em pranto tens alma de par
Sorrir, cantar

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