Arquivo do mês: junho 2013

Varal de Trovas n. 2 – José Lucas de Barros (RN)

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30 de junho de 2013 · 15:44

José Feldman (Universo de Versos n. 68)

Uma Trova do Paraná

MARIA ELIANA PALMA – Maringá

Para a alma aliviar
na dor, conflito, paixão,
a lágrima acalma o olhar;
um poema, o coração!
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Uma Trova sobre Esperança, de Petrópolis/RJ

GILSON FAUSTINO MAIA

Quando eu era bem criança,
as mãos limpas de aprendiz
transportavam esperança
de ser, um dia, feliz.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE

FRANCISCO PESSOA

Ciúme é como se fosse
um veneno sedutor:
amargo, se mostra doce,
matando aos poucos o amor.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo

SÉRGIO FERREIRA

Confuso, o dono do empório
não anda bom da veneta:
na orelha um supositório,
mas nem sinal da caneta!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Nos poemas que componho,
de beleza quase extrema,
eu ponho em verdade um sonho
dentro de cada poema!
========================
Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos

CRISTINA OLIVEIRA

Sus ojos son tan brillantes,
son mis Soles de alegría,
las luces que culminantes,
¡borran mi melancolía!
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Bandeirante/PR

MARIA LUCIA DALOCE

Entre os véus da noite, imerso,
insone em meu travesseiro,
escrevo apenas um verso
e a saudade… um livro inteiro!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

NERO DE ALMEIDA SENNA – Jequitinhonha/MG
1874 – ????

Muito esquisitos eu acho
teus vestidos, minha prima:
são altos demais embaixo,
e baixos demais em cima…
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

A Trova definitiva,
ideal do Trovador,
por mais que eu padeça e viva
eu jamais hei de compor…
========================
Um Haicai de Curitiba/PR

JOSÉ MARINS
Verão

Calor de verão
A trabalheira que dá
ter essa preguiça
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

as folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

O regozijo da morte
Que ninguém sabe dizer
Tem a beleza da noite
No instante do amanhecer.
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Poeminha Amoroso

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…”
==============================
Uma Poesia de Ubiratã/PR

ALESSANDRA GUIMARÃES
Madrugada Fria

Todos dormem,
num profundo sono.
Rua deserta e silenciosa,
pássaros quietos, se escondem.
Somente gotículas de orvalho,
caindo sobre a calçada,
na madrugada fria.

A lua se esconde,
atrás de uma nuvem que passa,
tornando a noite mais escura.
Nuvens formosas,
carregadas d’água,
se congelam,
na madrugada fria.

O brilho das estrelas,
no infinito desaparecem.
O riacho murmura, levemente,
o vento sopra calmamente,
o eco se cala lentamente,
somente o amor vibra,
na madrugada fria.
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
========================
Uma Sextilha do Rio Grande do Norte

ANTONIO NUNES DE FRANÇA

Em Limoeiro do Norte,
a tarde mudou de clima;
assim houve duas chuvas:
uma d’água, outra de rima;
uma de cima pra baixo,
outra de baixo pra cima.
========================
Uma Poesia de Portugal

ALVES COELHO
Olhos Castanhos

Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos, são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são cruéis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.
========================
Um Soneto de São Paulo/SP

PEDRO MELLO
A Difícil Arte de Fechar Gavetas

Nas gavetas estão os meus dias (felizes
e infelizes), a lua, um pouco de saudade,
resquícios de paixões, lembranças, ansiedade,
vestígios de mulher, amores sem raízes…

Nelas estão papéis, delírios e deslizes
de um homem descuidado e meio sem vontade,
retalhos de ilusão, sonhos pela metade,
pedaços de amargor formando cicatrizes…

Que faço se não sei fechar minhas gavetas?
Se navego o Universo em busca de planetas,
mas nada satisfaz e tudo é meio-tom?

Acostumar-me à Guerra ou procurar a Paz
– o que devo almejar? Para mim, tanto faz
eu viver ou morrer… Nenhum dos dois é bom…
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

GERRIT KOUWENAAR
Amsterdam/Holanda (1923)
É um dia claro

é um dia claro é um mundo escuro
entre a verde erva a carne é vermelha
homens deixam-se vergar por um naco de pão
é um dia escuro é um mundo claro
riem os homens e tudo é possível

percorri o caminho para colher uma maçã
         mas no caminho havia uma cobra

a vida é boa mas a vida podia ser melhor
todas essas guerras entre tréguas eternas
todo esse morrer para viver ainda mais
a vida é boa mas a vida podia ser melhor
a carne é dura de roer mas mais tenra que os ossos

percorri o caminho para escapar à morte
         mas no caminho havia um homem de ferro

enquanto a boca mastiga o ar rarefaz-se
enquanto o pão se digere a mão invalida-se
enquanto falamos na casa ela incendeia-se algures
é um dia escuro é um mundo escuro
os jornais noticiam como aconteceu e como não acontecerá

percorri o caminho para construir uma cidade
         mas projetei torres em subterrâneos

no quadro o mestre-escola escrevia futuro amor e deus
salve a nossa pátria, e eu todo lábios e olhos
imitava-o na lousa
mas lá fora dançava a rapariga tangível
flutuando como se não houvesse leis da gravidade

         percorri o caminho para encontrar o caminho
         mas atrás do pudim havia um prato vazio
=====================
Um Poetrix de Guaíba/RS

PATRÍCIA ESSINGER
tato

o toque beija:
dedos,
insinuação de lábios.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Cidadezinha Qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.
========================
UniVersos Melodicos

JOÃO DE BARRO e LAMARTINE BABO
Uma andorinha não faz verão
(marcha/carnaval, 1934)

 
Esta andorinha teve dois verões. O primeiro em 1931, com letra e música de João de Barro, gravada por Alvinho, e o segundo em 1934, quando Lamartine Babo entrou na parceria e a marchinha tornou-se sucesso na voz de Mário Reis.
A reunião dos dois maiores autores de marchas carnavalescas deu-se por iniciativa de Lamartine que, admirador do refrão (“Vem moreninha / vem tentação / não andes assim tão sozinha / que uma andorinha / não faz verão”), propôs a Braguinha fazer uma nova segunda parte.
Proposta aceita, ele prontamente cumpriu a tarefa, apresentando música e letra que complementavam com perfeição o estribilho. Na verdade, as românticas estrofes originais eram boas, mas muito extensas. Lamartine preferiu compor versos mais carnavalescos, sobre uma melodia de oito compassos (o original tinha dezesseis), o que sem dúvida contribuiu para o sucesso.

Vem moreninha     
vem tentação
Não andes assim tão sozinha
Que uma andorinha não faz verão

Dizem morena  
Que teu olhar
Tem correntes de luz que faz secar
O povo anda dizendo 
Que essa luz do teu olhar
A Light vai mandar cortar
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

BOM DIA, MEUS SINHORINHOS

É uma fileira de meninas, com uma defronte. Canta esta sozinha:

Bom dia meus sinhorinhos }
Mande ô tire ô tire ô lá }  bis

As meninas respondem:
O que é que vós quereis }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina:

Quero uma das vossas filhas }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Todas:

Escolhei a qual quereis }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina:

Quero a menina Fulana }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A escolhida passa para a ponta da fila e as outras cantam:

Que ofício dás a ela }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina sozinha:

Dou o ofício de ser pianista }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Se as meninas se agradam do ofício. cantam:

Este oficio já me agrada }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Se não se agradam, cantam assim:

Este ofício não me agrada }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Para terminar, fazem a roda e todas cantam, pulando:

Fazemos a festa juntas }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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A. A. de Assis (Revista de Trovas “Trovia” n. 163 – Julho de 2013)

Se a inspiração vem chegando,
eu me vejo em pleno espaço,
vendo Deus metrificando
todos os versos que eu faço!
Ademar Macedo

Ah, que estranho desafio
e esquisita proporção:
quanto mais fica vazio,
mais nos pesa o coração!
Pe. Celso de Carvalho

Nossa rede balançando…
nossa conversa entretida…
a nossa vida passando…
a gente esquecendo a vida…
Edgard B. Cerqueira

Na quietude costumeira
de muita vida vazia,
solidão é companheira
dos que não têm companhia…
Luiz Otávio

A mulher é imponderável,
instável, imprevisível,
indócil, imperscrutável…
Não se esqueça: imprescindível!
Magdalena Léa

Tens tanto fascínio, tanto,
que as flores, puras e belas,
se curvam cheias de encanto
quando tu passas por elas!
P. de Petrus

18 de julho – dia do Trovador
Ah Luiz Otávio, ah Luiz, / abençoa os teus irmãos.
Com São Francisco de Assis, / une, ó mestre, as nossas mãos! (aaa)
 


Ao ver as meias, coitado,
o vovô pensa: – Já sei!
Essas dei no ano passado,
no retrasado as ganhei…
Clevane Pessoa – MG

Corpo mole, mal antigo,
não é dengue nem catiça…
O seu mal, meu velho amigo,
é o excesso de preguiça.
Eliana Palma – PR

Beijei-te, sim! Não devia?!
A Regra Áurea desconheces?
Só fiz o que gostaria
que igualmente me fizesses…
José Fabiano – MG

No paraquedas fechado
uma etiqueta dizia:
– “Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia…”
Izo Goldman – SP

Nos conselhos que lhe dá,
qual pai que não tem chilique?
– Filhinha, fique, não vá…
E, se for, filha… não “fique”!…
José Ouverney – SP

Ao vê-lo sem dentadura,
diz a netinha, sapeca:
– Vovó, o meu vovô Jura
está com a boca careca!
Nélio Bessant – SP

– Cê sabe de argo, seu moço,
pra curá quem cai do gaio?
– Sei de um remédio colosso:
passa pó-pra-tapá-taio…
Osvaldo Reis – PR

Uma receita eu preparo,
e um gato me desanima:
chega perto… apura o faro…
e joga areia por cima.
Sérgio Ferreira da Silva – SP
 

Vaidade, doença triste
que nos condena a estar sós…
Não nos deixa ver que existe
ninguém mais além de nós.
A. A. de Assis – PR

Nos meus tempos de criança,
brincando à noite na rua,
nascia em mim a esperança
de um dia alcançar a lua!
Alberto Paco – PR

Em quatro linhas eu conto
qual é do amor todo o mal,
pois se resume num ponto:
o simples ponto final.
Amaryllis Schloenbach –SP

Na tarefa que lhe cabe,
Deus trabalha com você;
mas, por você, já se sabe,
Deus não faz nem diz por quê.
Amilton Monteiro – SP

Delírio é lira do poeta,
a rima do trovador.
É liturgia completa,
quer na alegria ou na dor.
Andréa Motta – PR
Em noites frias, sem lua,
quando meus versos componho,
eu cubro a verdade nua
com meu casaco de sonho.
Antonio Juracy Siqueira – PR

Muitas vidas sem aurora
levadas na fantasia,
são nas noites vida afora
uma carcaça vazia.
Benedita de Azevedo – RJ

No meu olhar já cansado,
guardo estrelas, guardo luas,
as mensagens de um passado
feito de noites só tuas.
Carolina Ramos – SP

Eu trago no pensamento
tantas angústias e apelos,
e sinto inveja do vento
quando roça os teus cabelos.
Clênio Borges – RS

Hoje a vitória te alcança…
Cuidado ao virar a mesa;
a vida é eterna cobrança
num mercado de surpresa.
Conceição Abritta – MG
Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto eu sofro sem você.
Conceição de Assis – MG

Coração de mãe é grande,
infinito como o amor.
Sua ternura se expande
como o perfume da flor!
Cônego Telles – PR

Quiero siempre despertar
con trinos por la ventana,
que las aves saben dar
con fervor cada mañana.
Cristina Oliveira Chávez – USA
Fui dando tudo que tinha
e como o surrar de um sino
a dor foi somente minha,
nunca culpei o destino.
Dáguima Verônica – MG
Do cais, aceno ao vazio,
enquanto o remorso chora…
Castigo é alguém no navio
levando o perdão embora…
Darly O. Barros – SP

Trovador! Que trova fazes?
– Amigo, nem sei dizer!
Com ela, já fiz as pazes,
casados até morrer!
Diamantino Ferreira – RJ

Ultrapassando as fronteiras,
do Sim, do Não, do Talvez,
nosso amor vence barreiras
e o ciúme não tem vez!
Dirce Montechiari – RJ
A trova quando é sentida
viaja em nossa emoção
Nos faz fiéis toda a vida,
une os povos, faz irmãos.
Dinair Leite – PR

Amargando os dissabores
dos seus amores dispersos,
o poeta esconde as dores
nas entrelinhas dos versos.
Djalma Mota – RN

A exemplo de um bom peão,
eu já não tenho altivez;
se um amor me joga ao chão,
tiro o pó… tento outra vez!
Domitilla Borges Beltrame – SP
Coração deixado vago
lamenta ter que informar:
fizeram-lhe tanto estrago,
que não dá mais pra morar.
Dorothy Jansson Moretti – SP
A escolha do par perfeito,
farei nesta… em qualquer vida,
ao resgatar de outro peito,
minha metade perdida!
Élbea Priscila – SP

Desfazendo a natureza,
vai o homem construtor
desconstruindo a certeza
de um futuro promissor.
Eliana Jimenez – SC
Nesta longa caminhada
que fazemos sempre a sós…
nem o silêncio da estrada
quebra o silêncio entre nós!
Francisco Garcia – RN

Quem faz da vida um disfarce
e finge viver a esmo,
de tudo pode safar-se
mas não engana a si mesmo!
Francisco Pessoa – CE
Paz, amor, fraternidade,
eis o lema entre as nações;
porém quanta falsidade
em só três afirmações!
Gasparini Filho – SP

O progresso traz mudanças,
cria fábricas e usinas,
mas se esquece das crianças
que dormem pelas esquinas!
Gérson César Sousa – PR

Alvorada dos meus dias,
teus olhos – luzes pagãs –
acendem com poesias
o céu de minhas manhãs…
Gilvan Carneiro da Silva – RJ

Meus lábios apaixonados
bebem o orvalho dos teus,
desses teus lábios molhados,
que sonham com os lábios meus!
Gislaine Canales – SC

Qual um pastor diligente
cuidando do seu rebanho,
pastoreio no presente
minhas saudades de antanho!
Gutemberg de Andrade – CE
Da janela do avião
deslizo o olhar pelo espaço.
Entre flocos de algodão
revivo sonhos… Renasço.
Heloisa Crespo – RJ
A minha trova sem ela
– a musa que eu sempre quis –
é uma trova tagarela,
rima… rima… e nada diz…
Héron Patrício – SP

Da despedida ao regresso,
tanto mistério restou,
que eu já nem sei, te confesso,
se quem foi, foi quem voltou!
Istela Marina – PR

Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
Jaime Pina da Silveira – SP

Deus! Que beleza me deste!
– Penso que ela é toda minha –
mas no espaço azul celeste
sou só uma nuvenzinha.
Janske Schlenke – PR
Um sorriso, uma indulgência,
um gesto ingênuo de adeus…
Por onde houver inocência
há um pedacinho de Deus…
JB Xavier – SP

Nesta imagem refletida
(tão bom se o espelho falasse…),
quanta história está contida
nos vincos da minha face!
Jeanette De Cnop – PR

A trova é uma obra de arte: merece ser tratada como tal.

Se o anoitecer no deserto
nos impedir de rompê-lo,
alguma estrela, por certo,
ouvirá o nosso apelo.
Joana D’Arc – RJ

Caminhei por esta rua
procurando o seu calor,
Ontem eu quis dar-te a lua,
hoje dou-te o meu amor!
José Feldman – PR

Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!
José Lucas de Barros – RN

Sigamos nossos caminhos
feitos nessa longa estrada,
mesmo se vamos sozinhos
levando mala pesada.
José Marins – PR

Para o velho em desalento,
as ilusões, comparando,
são folhas secas que o vento
agita de vez em quando.
José Messias Braz – MG

A virtude de fazer,
grande verdade contém:
só quem faz por merecer,
merece ter o que tem.
José Reinaldo – AL
Meu desejo percorreu
teu corpo como compasso,
circulando o que é tão meu
na geografia do abraço.
Lisete Johnson – RS

Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz:
– grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
Lucília Decarli – PR
Queria envolver minha alma,
e às alturas supliquei…
e Deus respondeu-me: “– Calma!
Basta amar como eu te amei”.
Luiz Antonio Cardoso – SP

A comunidade da trova é formada, em sua imensa maioria,
por pessoas do bem. Zelemos para que seja sempre assim.

Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
Luiz Carlos Abritta – MG

Por te amar tanto é que a vida,
embora dure um segundo,
possui o espaço e a medida
das horas todas do mundo!…
Mara Melinni – RN
Na caneca… o bom “verdinho”!
Caldo verde… sobre a mesa!
Pão à farta! E o meu ranchinho
é uma “casa portuguesa”!
Maria Madalena Ferreira – RJ

Se a distância, por maldade,
tua presença me furta,
pelo atalho da saudade,
torno a distância mais curta.
Maria Nascimento – RJ

Tem gente que esconde o pranto;
sem razão, sente vergonha;
não sabe que o desencanto
é normal quando se sonha.
Mário Zamataro – PR

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.
Maurício Friedrich – PR
Quem me dera alguém pudesse
entender meu sentimento;
seria a trova uma prece
para o fim do sofrimento.
Neiva Fernandes – RJ
E na noite, noite fria,
estando só, eu chorei.
Fui buscar-te, alma vazia,
de alma vazia voltei…
Neusa Mattar – MG

No Vosso martírio, eu pude
ver quatro quedas, Jesus,
quando um velho, sem saúde,
caiu na fila do SUS!…
Newton Vieira – MG

Que bom poder chamar alguém de irmão/irmã!

De viver não tenha medo;
todo receio é bobagem…
Dessa receita, o segredo
é a pitada de coragem.
Olga Agulhon – PR

Como um triste passageiro,
descobri, só na partida,
que a saudade é o timoneiro
da caravela da vida…
Pedro Melo – SP
Amar e não demonstrar
é como estrela sem lume,
é boca sem paladar,
é flor que não tem perfume.
Raymundo Salles – BA

Dia tão cinza e tão frio,
chuva insistente lá fora…
Aqui, em meu peito, o vazio
abraça a saudade e chora.
Regiane Ornellas – SP

Bendiz a lida na enxada
o lavrador quando sente
cheiro da terra molhada
fertilizando a semente.
Relva do Egipto – MG

Pensei ser fogo apagado…
Mas ao ver-te, de repente,
vi que a chama do passado
arde, ainda, em meu presente.
Thereza Costa Val – MG
Eu não temo o que amealha
as pedras do ódio e rancor,
por crer que qualquer muralha
cede … ante a força do amor.
Therezinha Brisolla – SP

Amigo, não tenha pressa,
pois a vida é um bem precioso.
A treva às vezes começa
em um sinal luminoso!
Wandira F. Queiroz – PR
De um amor que é só miragem
finjo agora ter o assédio,
para escapar da engrenagem
dessa moenda que é o tédio.
Wanda Mourthé – MG

Visite 
http://poesiaemtrovas.blogspot.com/
http://singrandohorizontes.blogspot.com.br/
http://aadeassis.blogspot.com/

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Varal de Trovas n.1 – Carolina Ramos (SP)

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29 de junho de 2013 · 23:37

José Feldman (Universo de Versos n. 67)

Trova em imagem obtida no facebook, montagem sobre logo do UDV

 Uma Trova do Paraná

MÁRIO A. J. ZAMATARO – Curitiba

O tamanho do universo
não cabe em minha janela,
mas entra em pequeno verso,
quando estou de sentinela.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de São Paulo/SP

RENATA PACCOLA

Um sorriso de criança
inocente, doce e aberto
é uma chuva de esperança
em meu caminho deserto!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Chapecó/SC

 
SILVÉRIO RIBEIRO DA COSTA
Nascemos mas não sabemos
quem somos nós, de verdade.
Por isso mesmo morremos,
sem saber a identidade.
=======================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro

EDMAR JAPIASSÚ MAIA

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– A porca… tem masculino?
– Tem, fessora… o parafuso!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Das colheitas dadivosas
que Deus deixa nos caminhos,
uns curvam-se e colhem rosas,
outros, só colhem espinhos…
========================
Uma Trova Hispânica do Perú

PAÚL TORRES

Aunque la noche me cierra
no hay niebla que me doblega,
como el sol llega a la tierra
la luz de mi amor te llega.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Pindamonhangaba/SP

JOSÉ VALDEZ C.MOURA

Na praça da minha vida,
unidas, vi, a chorar,
abraçada a despedida
a saudade a soluçar…
========================
Trovadores que deixaram Saudades

JOSÉ RODRIGUES FERNANDES – Fortaleza/CE
1910 – ????

Chora o vento lá por fora…
Chora a chuva e vão-se as águas.
O coração também chora,
mas nunca se vão as mágoas.
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Como Colombo, singrando
esta vida – incerto mar,
vivo no mundo esperando
um Novo Mundo encontrar…
========================
Uma Poesia de Maringá/PR

ALBA KRISHNA TOPAN FELDMAN
Estrela

Agora o sol já se foi
Não mais sua alegria e suas cores
Não mais sua luz e seu calor.

Apenas uma estrela!

Lá no céu, pálida, triste
Está sozinha
como eu!

Mas todos têm a esperança
de que o sol nasça de novo amanhã
tingindo tudo de dourado novamente.

As cores, os amores…

Só eu que não tenho esperança!

Sonhei o mais louco dos sonhos,
Vivi a mais ousada das fantasias
Impossível!
Não vai se realizar…

Então, eu fico olhando
para aquela estrela
sozinha no céu.
Triste, abandonada…
Como eu!
========================
Um Haicai de São Paulo

EDSON KENJI IURA
Primavera

Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Você está tão longe
que ás vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Sei que amor é sofrimento,
custa a vida querer bem,
mas custa o dobro da vida,
na vida não ter ninguém.
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
==============================
Uma Poesia de Fortaleza/CE

LÚCIA LUSTOSA
Quantos Ais!

Ai é o partilhado
que não é dividido,
mas somado, multiplicado,
nunca subtraído.

Se a vida se esvai,
quero levar comigo
os ais da vida.
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Linda noite a desta lua.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua.
Por onde ela não virá.
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal

ANA HATHERLY
(1929)
A Corrida em Círculos

I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.

II
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.

A senda mais perigosa
Em nós se consumando,
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
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Um Soneto do Ceará

FRANCISCO ALVES LIMA
Crepuscular

Banhando a fronte pálida e sombria
na luz dourada e tépida do sol,
eu meditava e, absorto, percorria
todas as vivas cores do arrebol.

Uma ária antiga dulçurosa epia
dos meus lábios, em notas sibilantes,
apaixonada e trêmula, caia
n’asa sutil das virações errantes.

Minh’alma as notas da canção seguia,
e, ouvindo a voz alegre que cantava,
fitava os céus e cândida sorria…

Quando a canção gemia e soluçava
minh’alma em sombra e mágoa s’envolvia
e olhando, ao longe, a imensidão chorava!…
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Uma Poesia Além Fronteiras

ANNA ENQUIST
Amsterdam/Holanda – 1945
Cena Campestre

A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.

 À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.

 Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.

(tradução: Catherine Bare)
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Um Poetrix de Brasília/DF

ROMILDO AZEVEDO
obstáculos

São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Nudez

Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
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UniVersos Melodicos

MILTON AMARAL
Folhas ao vento
(valsa, 1934)

Tão mimosa
Graciosa e angelical
Nasceu em seu jardim uma linda flor
Naquela noite santa de Natal
No momento que juramos eterno amor
No entanto você tudo esqueceu
Trocando meu coração por outro ser
E a flor, ao ver a sua ingratidão
Murchou e em prantos se desfolhou
Até morrer.

Folhas ao vento
Já que o destino assim nos transformou
Envelheci
Na lucidez da imensa provação
Num labirinto
De tristeza e saudade
Num relicário, a cruci dor da ingratidão

Folhas ao vento
Quando a bonança veio me abraçar
Num desalento
Aquele amor fui encontrar
Numa igrejinha, tendo ao colo filho seus
Pedindo uma esmola
Pelo amor de Deus!
(Fonte: Cifrantiga)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

DE ONDE VEM AQUELA MENINA

É uma fileira de crianças e uma defronte. Cantam as da roda:

De onde vem aquela menina
De tão longe assim, assim
Ao redor de nossa terra
Mangicão, dão, dão

Responde a menina:

Eu ando por aqui assim, assim
À procura de uma agulha
Que aqui perdi

A fileira:

Volta para casa
Vai dizer a teus pais, teus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

A menina:

Eu já fui, já voltei
Já disse a meus pais, meus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.)

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José Feldman (Universo de Versos n. 66)


Uma Trova do Paraná

LUIZ HÉLIO FRIEDRICH – Curitiba

Debruçada sobre o berço
do seu querido filhinho,
busca a mãe, com o seu terço,
indicar-lhe um bom caminho.
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Uma Trova sobre Esperança, de Belo Horizonte/MG

OLYMPIO DA CRUZ SIMÕES COUTINHO

Estrela que me seduz
és a imagem da esperança:
– brilhante, mas não traz luz;
tão linda, mas não se alcança.
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE

FERNANDO CÂNCIO

A ilusão da meninice
com os meus netos se fez,
agora em plena velhice
eu sou criança outra vez!
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Uma Trova Humorística, de Nova Friburgo/RJ

SÉRGIO F. DOS SANTOS

Nem me lembro mais do gosto
da tal noite de verão,
e até hoje pago imposto
que ela chama de pensão…
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Com sua língua de trapo
disse, ao ser mandado embora:
– É moleza engolir sapo,
o duro é botar pra fora!
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Uma Trova Hispânica do México

MARIA ELENA ESPINOSA MATA

Que no haya sol en el cielo.
Que se resequen los mares.
¡Qué importa si tú, mi anhelo,
borras todos mis pesares!
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Uma Trova sobre Saudade, de Portugal

MARIA JOSÉ FRAQUEZA

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!
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Trovadores que deixaram Saudades

DELMAR BARRÃO – Rio de Janeiro/RJ

Talvez eu fosse feliz
se conseguisse esquecer
o bem que pude e não fiz,
o mal que fiz sem querer.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Vendo inquieto o “costureiro”,
tendo a barba bem cerrada,
diz de chacota, o barbeiro:
“chegou a vez da barbada…”
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Um Haicai de Magé/RJ

BENEDITA SILVA DE AZEVEDO

Noite de inverno-
A tremer sob jornais
O pobre na esquina
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

guerra sou eu
guerra é você
guerra é de quem
de guerra for capaz

guerra é assunto
importante demais
para ser deixado
na mão dos generais
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

O sol é que faz o trigo;
e o trigo, que faz o pão.
Mas se o trigo se faz hóstia,
faz-se sol no coração …
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O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
O Chamado das Pedras

A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha…
Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha…
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta…Volta…Volta…
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem… Vem… Vem…

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou…
Porque não voltou…
E a água do rio que corria
Chamava…chamava…

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.
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Uma Poesia do Rio de Janeiro

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
1906 – 1965
Quando Eu Morrer

Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas…

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos.
E hão de esquecer-se do meu caminho silencioso entre eles,
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão.
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma.
Porque nada sou, nada conto e nada tenho.
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.

Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
Quando eu morrer…”
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O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Tu És Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
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Uma Poesia de Porto/Portugal

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
1919-2004
Retrato de uma Princesa Desconhecida

      Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
 Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
      Para que a sua espinha fosse tão direita
         E ela usasse a cabeça tão erguida
    Com uma tão simples claridade sobre a testa
 Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
     De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
     Servindo sucessivas gerações de príncipes
         Ainda um pouco toscos e grosseiros
            Ávidos cruéis e fraudulentos

         Foi um imenso desperdiçar de gente
        Para que ela fosse aquela perfeição
           Solitária exilada sem destino
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Um Soneto de Vila Rica (atual Ouro Preto)/MG

Beatriz Francisca de Assis Brandão
1779 – 1868
Soneto

 
Estas, que o meu Amor vos oferece,
Não tardas produções de fraco engenho,
Amadas Nacionais, sirvam de empenho
A talentos, que o vulgo desconhece.

Um exemplo talvez vos aparece
Em que brilheis nos traços, que desenho:
De excessivo louvor glória não tenho,
E se algum merecer de vós comece.

Raros dotes talvez vivem ocultos,
Que o receio de expor faz ignorados;
Sirvam de guia meus humildes cultos.

Mandei ao Pindo os vôos elevados,
E tantos sejam vossos versos cultos,
Que os meus nas trevas fiquem sepultados.
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Uma Poesia Além Fronteiras

Robert Walser
Biel/Suiça = 1879 – 1956
Estrela D’Alva

 
Abro a janela,
uma luz opaca matinal perdura.
Já parou de nevar,
a grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
como é maravilhosa!
O horizonte está branco de neve,
brancos de neve estão todos os cumes.

Fresca e sagrada
a quietude matinal no mundo.
Cada voz ressoa clara,
os telhados brilham como carteiras de escola.

Tão silencioso e branco:
um deserto enorme e magnífico,
cuja fria quietude torna inútil
qualquer pensamento. Dentro de mim tudo arde.
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Um Poetrix de Minas Gerais

PEDRO CARDOSO
fome

 
o abismo
entre a mão e a boca,
tem nome…
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Nota Social

 

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos…
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.
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UniVersos Melodicos

FRANCISCO ALVES e ORESTES BARBOSA
A Mulher que Ficou na Taça
(valsa, 1934)

 
Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando o que tu és

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O vulto dessa mulher…

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece em meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que, sedento
Quero a paixão sufocar

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça, e no coração.
(Fonte: Cifrantiga)==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

SAMBA LELÊ
1944

 
   Samba Lelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
É de uma boa lambada

Samba, samba, samba, ô Lelê
Samba, samba, samba, ô Lalá
Samba, samba, samba, ô Lelê
Pisa na barra da saia, ô Lalá

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