Arquivo do mês: junho 2013

Varal de Trovas n. 2 – José Lucas de Barros (RN)

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30 de junho de 2013 · 15:44

José Feldman (Universo de Versos n. 68)

Uma Trova do Paraná

MARIA ELIANA PALMA – Maringá

Para a alma aliviar
na dor, conflito, paixão,
a lágrima acalma o olhar;
um poema, o coração!
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Uma Trova sobre Esperança, de Petrópolis/RJ

GILSON FAUSTINO MAIA

Quando eu era bem criança,
as mãos limpas de aprendiz
transportavam esperança
de ser, um dia, feliz.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE

FRANCISCO PESSOA

Ciúme é como se fosse
um veneno sedutor:
amargo, se mostra doce,
matando aos poucos o amor.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo

SÉRGIO FERREIRA

Confuso, o dono do empório
não anda bom da veneta:
na orelha um supositório,
mas nem sinal da caneta!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Nos poemas que componho,
de beleza quase extrema,
eu ponho em verdade um sonho
dentro de cada poema!
========================
Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos

CRISTINA OLIVEIRA

Sus ojos son tan brillantes,
son mis Soles de alegría,
las luces que culminantes,
¡borran mi melancolía!
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Bandeirante/PR

MARIA LUCIA DALOCE

Entre os véus da noite, imerso,
insone em meu travesseiro,
escrevo apenas um verso
e a saudade… um livro inteiro!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

NERO DE ALMEIDA SENNA – Jequitinhonha/MG
1874 – ????

Muito esquisitos eu acho
teus vestidos, minha prima:
são altos demais embaixo,
e baixos demais em cima…
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

A Trova definitiva,
ideal do Trovador,
por mais que eu padeça e viva
eu jamais hei de compor…
========================
Um Haicai de Curitiba/PR

JOSÉ MARINS
Verão

Calor de verão
A trabalheira que dá
ter essa preguiça
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

as folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

O regozijo da morte
Que ninguém sabe dizer
Tem a beleza da noite
No instante do amanhecer.
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Poeminha Amoroso

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…”
==============================
Uma Poesia de Ubiratã/PR

ALESSANDRA GUIMARÃES
Madrugada Fria

Todos dormem,
num profundo sono.
Rua deserta e silenciosa,
pássaros quietos, se escondem.
Somente gotículas de orvalho,
caindo sobre a calçada,
na madrugada fria.

A lua se esconde,
atrás de uma nuvem que passa,
tornando a noite mais escura.
Nuvens formosas,
carregadas d’água,
se congelam,
na madrugada fria.

O brilho das estrelas,
no infinito desaparecem.
O riacho murmura, levemente,
o vento sopra calmamente,
o eco se cala lentamente,
somente o amor vibra,
na madrugada fria.
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
========================
Uma Sextilha do Rio Grande do Norte

ANTONIO NUNES DE FRANÇA

Em Limoeiro do Norte,
a tarde mudou de clima;
assim houve duas chuvas:
uma d’água, outra de rima;
uma de cima pra baixo,
outra de baixo pra cima.
========================
Uma Poesia de Portugal

ALVES COELHO
Olhos Castanhos

Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos, são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são cruéis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.
========================
Um Soneto de São Paulo/SP

PEDRO MELLO
A Difícil Arte de Fechar Gavetas

Nas gavetas estão os meus dias (felizes
e infelizes), a lua, um pouco de saudade,
resquícios de paixões, lembranças, ansiedade,
vestígios de mulher, amores sem raízes…

Nelas estão papéis, delírios e deslizes
de um homem descuidado e meio sem vontade,
retalhos de ilusão, sonhos pela metade,
pedaços de amargor formando cicatrizes…

Que faço se não sei fechar minhas gavetas?
Se navego o Universo em busca de planetas,
mas nada satisfaz e tudo é meio-tom?

Acostumar-me à Guerra ou procurar a Paz
– o que devo almejar? Para mim, tanto faz
eu viver ou morrer… Nenhum dos dois é bom…
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

GERRIT KOUWENAAR
Amsterdam/Holanda (1923)
É um dia claro

é um dia claro é um mundo escuro
entre a verde erva a carne é vermelha
homens deixam-se vergar por um naco de pão
é um dia escuro é um mundo claro
riem os homens e tudo é possível

percorri o caminho para colher uma maçã
         mas no caminho havia uma cobra

a vida é boa mas a vida podia ser melhor
todas essas guerras entre tréguas eternas
todo esse morrer para viver ainda mais
a vida é boa mas a vida podia ser melhor
a carne é dura de roer mas mais tenra que os ossos

percorri o caminho para escapar à morte
         mas no caminho havia um homem de ferro

enquanto a boca mastiga o ar rarefaz-se
enquanto o pão se digere a mão invalida-se
enquanto falamos na casa ela incendeia-se algures
é um dia escuro é um mundo escuro
os jornais noticiam como aconteceu e como não acontecerá

percorri o caminho para construir uma cidade
         mas projetei torres em subterrâneos

no quadro o mestre-escola escrevia futuro amor e deus
salve a nossa pátria, e eu todo lábios e olhos
imitava-o na lousa
mas lá fora dançava a rapariga tangível
flutuando como se não houvesse leis da gravidade

         percorri o caminho para encontrar o caminho
         mas atrás do pudim havia um prato vazio
=====================
Um Poetrix de Guaíba/RS

PATRÍCIA ESSINGER
tato

o toque beija:
dedos,
insinuação de lábios.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Cidadezinha Qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.
========================
UniVersos Melodicos

JOÃO DE BARRO e LAMARTINE BABO
Uma andorinha não faz verão
(marcha/carnaval, 1934)

 
Esta andorinha teve dois verões. O primeiro em 1931, com letra e música de João de Barro, gravada por Alvinho, e o segundo em 1934, quando Lamartine Babo entrou na parceria e a marchinha tornou-se sucesso na voz de Mário Reis.
A reunião dos dois maiores autores de marchas carnavalescas deu-se por iniciativa de Lamartine que, admirador do refrão (“Vem moreninha / vem tentação / não andes assim tão sozinha / que uma andorinha / não faz verão”), propôs a Braguinha fazer uma nova segunda parte.
Proposta aceita, ele prontamente cumpriu a tarefa, apresentando música e letra que complementavam com perfeição o estribilho. Na verdade, as românticas estrofes originais eram boas, mas muito extensas. Lamartine preferiu compor versos mais carnavalescos, sobre uma melodia de oito compassos (o original tinha dezesseis), o que sem dúvida contribuiu para o sucesso.

Vem moreninha     
vem tentação
Não andes assim tão sozinha
Que uma andorinha não faz verão

Dizem morena  
Que teu olhar
Tem correntes de luz que faz secar
O povo anda dizendo 
Que essa luz do teu olhar
A Light vai mandar cortar
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

BOM DIA, MEUS SINHORINHOS

É uma fileira de meninas, com uma defronte. Canta esta sozinha:

Bom dia meus sinhorinhos }
Mande ô tire ô tire ô lá }  bis

As meninas respondem:
O que é que vós quereis }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina:

Quero uma das vossas filhas }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Todas:

Escolhei a qual quereis }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina:

Quero a menina Fulana }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A escolhida passa para a ponta da fila e as outras cantam:

Que ofício dás a ela }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina sozinha:

Dou o ofício de ser pianista }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Se as meninas se agradam do ofício. cantam:

Este oficio já me agrada }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Se não se agradam, cantam assim:

Este ofício não me agrada }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Para terminar, fazem a roda e todas cantam, pulando:

Fazemos a festa juntas }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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A. A. de Assis (Revista de Trovas “Trovia” n. 163 – Julho de 2013)

Se a inspiração vem chegando,
eu me vejo em pleno espaço,
vendo Deus metrificando
todos os versos que eu faço!
Ademar Macedo

Ah, que estranho desafio
e esquisita proporção:
quanto mais fica vazio,
mais nos pesa o coração!
Pe. Celso de Carvalho

Nossa rede balançando…
nossa conversa entretida…
a nossa vida passando…
a gente esquecendo a vida…
Edgard B. Cerqueira

Na quietude costumeira
de muita vida vazia,
solidão é companheira
dos que não têm companhia…
Luiz Otávio

A mulher é imponderável,
instável, imprevisível,
indócil, imperscrutável…
Não se esqueça: imprescindível!
Magdalena Léa

Tens tanto fascínio, tanto,
que as flores, puras e belas,
se curvam cheias de encanto
quando tu passas por elas!
P. de Petrus

18 de julho – dia do Trovador
Ah Luiz Otávio, ah Luiz, / abençoa os teus irmãos.
Com São Francisco de Assis, / une, ó mestre, as nossas mãos! (aaa)
 


Ao ver as meias, coitado,
o vovô pensa: – Já sei!
Essas dei no ano passado,
no retrasado as ganhei…
Clevane Pessoa – MG

Corpo mole, mal antigo,
não é dengue nem catiça…
O seu mal, meu velho amigo,
é o excesso de preguiça.
Eliana Palma – PR

Beijei-te, sim! Não devia?!
A Regra Áurea desconheces?
Só fiz o que gostaria
que igualmente me fizesses…
José Fabiano – MG

No paraquedas fechado
uma etiqueta dizia:
– “Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia…”
Izo Goldman – SP

Nos conselhos que lhe dá,
qual pai que não tem chilique?
– Filhinha, fique, não vá…
E, se for, filha… não “fique”!…
José Ouverney – SP

Ao vê-lo sem dentadura,
diz a netinha, sapeca:
– Vovó, o meu vovô Jura
está com a boca careca!
Nélio Bessant – SP

– Cê sabe de argo, seu moço,
pra curá quem cai do gaio?
– Sei de um remédio colosso:
passa pó-pra-tapá-taio…
Osvaldo Reis – PR

Uma receita eu preparo,
e um gato me desanima:
chega perto… apura o faro…
e joga areia por cima.
Sérgio Ferreira da Silva – SP
 

Vaidade, doença triste
que nos condena a estar sós…
Não nos deixa ver que existe
ninguém mais além de nós.
A. A. de Assis – PR

Nos meus tempos de criança,
brincando à noite na rua,
nascia em mim a esperança
de um dia alcançar a lua!
Alberto Paco – PR

Em quatro linhas eu conto
qual é do amor todo o mal,
pois se resume num ponto:
o simples ponto final.
Amaryllis Schloenbach –SP

Na tarefa que lhe cabe,
Deus trabalha com você;
mas, por você, já se sabe,
Deus não faz nem diz por quê.
Amilton Monteiro – SP

Delírio é lira do poeta,
a rima do trovador.
É liturgia completa,
quer na alegria ou na dor.
Andréa Motta – PR
Em noites frias, sem lua,
quando meus versos componho,
eu cubro a verdade nua
com meu casaco de sonho.
Antonio Juracy Siqueira – PR

Muitas vidas sem aurora
levadas na fantasia,
são nas noites vida afora
uma carcaça vazia.
Benedita de Azevedo – RJ

No meu olhar já cansado,
guardo estrelas, guardo luas,
as mensagens de um passado
feito de noites só tuas.
Carolina Ramos – SP

Eu trago no pensamento
tantas angústias e apelos,
e sinto inveja do vento
quando roça os teus cabelos.
Clênio Borges – RS

Hoje a vitória te alcança…
Cuidado ao virar a mesa;
a vida é eterna cobrança
num mercado de surpresa.
Conceição Abritta – MG
Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto eu sofro sem você.
Conceição de Assis – MG

Coração de mãe é grande,
infinito como o amor.
Sua ternura se expande
como o perfume da flor!
Cônego Telles – PR

Quiero siempre despertar
con trinos por la ventana,
que las aves saben dar
con fervor cada mañana.
Cristina Oliveira Chávez – USA
Fui dando tudo que tinha
e como o surrar de um sino
a dor foi somente minha,
nunca culpei o destino.
Dáguima Verônica – MG
Do cais, aceno ao vazio,
enquanto o remorso chora…
Castigo é alguém no navio
levando o perdão embora…
Darly O. Barros – SP

Trovador! Que trova fazes?
– Amigo, nem sei dizer!
Com ela, já fiz as pazes,
casados até morrer!
Diamantino Ferreira – RJ

Ultrapassando as fronteiras,
do Sim, do Não, do Talvez,
nosso amor vence barreiras
e o ciúme não tem vez!
Dirce Montechiari – RJ
A trova quando é sentida
viaja em nossa emoção
Nos faz fiéis toda a vida,
une os povos, faz irmãos.
Dinair Leite – PR

Amargando os dissabores
dos seus amores dispersos,
o poeta esconde as dores
nas entrelinhas dos versos.
Djalma Mota – RN

A exemplo de um bom peão,
eu já não tenho altivez;
se um amor me joga ao chão,
tiro o pó… tento outra vez!
Domitilla Borges Beltrame – SP
Coração deixado vago
lamenta ter que informar:
fizeram-lhe tanto estrago,
que não dá mais pra morar.
Dorothy Jansson Moretti – SP
A escolha do par perfeito,
farei nesta… em qualquer vida,
ao resgatar de outro peito,
minha metade perdida!
Élbea Priscila – SP

Desfazendo a natureza,
vai o homem construtor
desconstruindo a certeza
de um futuro promissor.
Eliana Jimenez – SC
Nesta longa caminhada
que fazemos sempre a sós…
nem o silêncio da estrada
quebra o silêncio entre nós!
Francisco Garcia – RN

Quem faz da vida um disfarce
e finge viver a esmo,
de tudo pode safar-se
mas não engana a si mesmo!
Francisco Pessoa – CE
Paz, amor, fraternidade,
eis o lema entre as nações;
porém quanta falsidade
em só três afirmações!
Gasparini Filho – SP

O progresso traz mudanças,
cria fábricas e usinas,
mas se esquece das crianças
que dormem pelas esquinas!
Gérson César Sousa – PR

Alvorada dos meus dias,
teus olhos – luzes pagãs –
acendem com poesias
o céu de minhas manhãs…
Gilvan Carneiro da Silva – RJ

Meus lábios apaixonados
bebem o orvalho dos teus,
desses teus lábios molhados,
que sonham com os lábios meus!
Gislaine Canales – SC

Qual um pastor diligente
cuidando do seu rebanho,
pastoreio no presente
minhas saudades de antanho!
Gutemberg de Andrade – CE
Da janela do avião
deslizo o olhar pelo espaço.
Entre flocos de algodão
revivo sonhos… Renasço.
Heloisa Crespo – RJ
A minha trova sem ela
– a musa que eu sempre quis –
é uma trova tagarela,
rima… rima… e nada diz…
Héron Patrício – SP

Da despedida ao regresso,
tanto mistério restou,
que eu já nem sei, te confesso,
se quem foi, foi quem voltou!
Istela Marina – PR

Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
Jaime Pina da Silveira – SP

Deus! Que beleza me deste!
– Penso que ela é toda minha –
mas no espaço azul celeste
sou só uma nuvenzinha.
Janske Schlenke – PR
Um sorriso, uma indulgência,
um gesto ingênuo de adeus…
Por onde houver inocência
há um pedacinho de Deus…
JB Xavier – SP

Nesta imagem refletida
(tão bom se o espelho falasse…),
quanta história está contida
nos vincos da minha face!
Jeanette De Cnop – PR

A trova é uma obra de arte: merece ser tratada como tal.

Se o anoitecer no deserto
nos impedir de rompê-lo,
alguma estrela, por certo,
ouvirá o nosso apelo.
Joana D’Arc – RJ

Caminhei por esta rua
procurando o seu calor,
Ontem eu quis dar-te a lua,
hoje dou-te o meu amor!
José Feldman – PR

Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!
José Lucas de Barros – RN

Sigamos nossos caminhos
feitos nessa longa estrada,
mesmo se vamos sozinhos
levando mala pesada.
José Marins – PR

Para o velho em desalento,
as ilusões, comparando,
são folhas secas que o vento
agita de vez em quando.
José Messias Braz – MG

A virtude de fazer,
grande verdade contém:
só quem faz por merecer,
merece ter o que tem.
José Reinaldo – AL
Meu desejo percorreu
teu corpo como compasso,
circulando o que é tão meu
na geografia do abraço.
Lisete Johnson – RS

Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz:
– grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
Lucília Decarli – PR
Queria envolver minha alma,
e às alturas supliquei…
e Deus respondeu-me: “– Calma!
Basta amar como eu te amei”.
Luiz Antonio Cardoso – SP

A comunidade da trova é formada, em sua imensa maioria,
por pessoas do bem. Zelemos para que seja sempre assim.

Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
Luiz Carlos Abritta – MG

Por te amar tanto é que a vida,
embora dure um segundo,
possui o espaço e a medida
das horas todas do mundo!…
Mara Melinni – RN
Na caneca… o bom “verdinho”!
Caldo verde… sobre a mesa!
Pão à farta! E o meu ranchinho
é uma “casa portuguesa”!
Maria Madalena Ferreira – RJ

Se a distância, por maldade,
tua presença me furta,
pelo atalho da saudade,
torno a distância mais curta.
Maria Nascimento – RJ

Tem gente que esconde o pranto;
sem razão, sente vergonha;
não sabe que o desencanto
é normal quando se sonha.
Mário Zamataro – PR

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.
Maurício Friedrich – PR
Quem me dera alguém pudesse
entender meu sentimento;
seria a trova uma prece
para o fim do sofrimento.
Neiva Fernandes – RJ
E na noite, noite fria,
estando só, eu chorei.
Fui buscar-te, alma vazia,
de alma vazia voltei…
Neusa Mattar – MG

No Vosso martírio, eu pude
ver quatro quedas, Jesus,
quando um velho, sem saúde,
caiu na fila do SUS!…
Newton Vieira – MG

Que bom poder chamar alguém de irmão/irmã!

De viver não tenha medo;
todo receio é bobagem…
Dessa receita, o segredo
é a pitada de coragem.
Olga Agulhon – PR

Como um triste passageiro,
descobri, só na partida,
que a saudade é o timoneiro
da caravela da vida…
Pedro Melo – SP
Amar e não demonstrar
é como estrela sem lume,
é boca sem paladar,
é flor que não tem perfume.
Raymundo Salles – BA

Dia tão cinza e tão frio,
chuva insistente lá fora…
Aqui, em meu peito, o vazio
abraça a saudade e chora.
Regiane Ornellas – SP

Bendiz a lida na enxada
o lavrador quando sente
cheiro da terra molhada
fertilizando a semente.
Relva do Egipto – MG

Pensei ser fogo apagado…
Mas ao ver-te, de repente,
vi que a chama do passado
arde, ainda, em meu presente.
Thereza Costa Val – MG
Eu não temo o que amealha
as pedras do ódio e rancor,
por crer que qualquer muralha
cede … ante a força do amor.
Therezinha Brisolla – SP

Amigo, não tenha pressa,
pois a vida é um bem precioso.
A treva às vezes começa
em um sinal luminoso!
Wandira F. Queiroz – PR
De um amor que é só miragem
finjo agora ter o assédio,
para escapar da engrenagem
dessa moenda que é o tédio.
Wanda Mourthé – MG

Visite 
http://poesiaemtrovas.blogspot.com/
http://singrandohorizontes.blogspot.com.br/
http://aadeassis.blogspot.com/

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Varal de Trovas n.1 – Carolina Ramos (SP)

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29 de junho de 2013 · 23:37

José Feldman (Universo de Versos n. 67)

Trova em imagem obtida no facebook, montagem sobre logo do UDV

 Uma Trova do Paraná

MÁRIO A. J. ZAMATARO – Curitiba

O tamanho do universo
não cabe em minha janela,
mas entra em pequeno verso,
quando estou de sentinela.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de São Paulo/SP

RENATA PACCOLA

Um sorriso de criança
inocente, doce e aberto
é uma chuva de esperança
em meu caminho deserto!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Chapecó/SC

 
SILVÉRIO RIBEIRO DA COSTA
Nascemos mas não sabemos
quem somos nós, de verdade.
Por isso mesmo morremos,
sem saber a identidade.
=======================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro

EDMAR JAPIASSÚ MAIA

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– A porca… tem masculino?
– Tem, fessora… o parafuso!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Das colheitas dadivosas
que Deus deixa nos caminhos,
uns curvam-se e colhem rosas,
outros, só colhem espinhos…
========================
Uma Trova Hispânica do Perú

PAÚL TORRES

Aunque la noche me cierra
no hay niebla que me doblega,
como el sol llega a la tierra
la luz de mi amor te llega.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Pindamonhangaba/SP

JOSÉ VALDEZ C.MOURA

Na praça da minha vida,
unidas, vi, a chorar,
abraçada a despedida
a saudade a soluçar…
========================
Trovadores que deixaram Saudades

JOSÉ RODRIGUES FERNANDES – Fortaleza/CE
1910 – ????

Chora o vento lá por fora…
Chora a chuva e vão-se as águas.
O coração também chora,
mas nunca se vão as mágoas.
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Como Colombo, singrando
esta vida – incerto mar,
vivo no mundo esperando
um Novo Mundo encontrar…
========================
Uma Poesia de Maringá/PR

ALBA KRISHNA TOPAN FELDMAN
Estrela

Agora o sol já se foi
Não mais sua alegria e suas cores
Não mais sua luz e seu calor.

Apenas uma estrela!

Lá no céu, pálida, triste
Está sozinha
como eu!

Mas todos têm a esperança
de que o sol nasça de novo amanhã
tingindo tudo de dourado novamente.

As cores, os amores…

Só eu que não tenho esperança!

Sonhei o mais louco dos sonhos,
Vivi a mais ousada das fantasias
Impossível!
Não vai se realizar…

Então, eu fico olhando
para aquela estrela
sozinha no céu.
Triste, abandonada…
Como eu!
========================
Um Haicai de São Paulo

EDSON KENJI IURA
Primavera

Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Você está tão longe
que ás vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Sei que amor é sofrimento,
custa a vida querer bem,
mas custa o dobro da vida,
na vida não ter ninguém.
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
==============================
Uma Poesia de Fortaleza/CE

LÚCIA LUSTOSA
Quantos Ais!

Ai é o partilhado
que não é dividido,
mas somado, multiplicado,
nunca subtraído.

Se a vida se esvai,
quero levar comigo
os ais da vida.
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Linda noite a desta lua.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua.
Por onde ela não virá.
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal

ANA HATHERLY
(1929)
A Corrida em Círculos

I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.

II
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.

A senda mais perigosa
Em nós se consumando,
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
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Um Soneto do Ceará

FRANCISCO ALVES LIMA
Crepuscular

Banhando a fronte pálida e sombria
na luz dourada e tépida do sol,
eu meditava e, absorto, percorria
todas as vivas cores do arrebol.

Uma ária antiga dulçurosa epia
dos meus lábios, em notas sibilantes,
apaixonada e trêmula, caia
n’asa sutil das virações errantes.

Minh’alma as notas da canção seguia,
e, ouvindo a voz alegre que cantava,
fitava os céus e cândida sorria…

Quando a canção gemia e soluçava
minh’alma em sombra e mágoa s’envolvia
e olhando, ao longe, a imensidão chorava!…
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

ANNA ENQUIST
Amsterdam/Holanda – 1945
Cena Campestre

A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.

 À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.

 Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.

(tradução: Catherine Bare)
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Um Poetrix de Brasília/DF

ROMILDO AZEVEDO
obstáculos

São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Nudez

Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
========================
UniVersos Melodicos

MILTON AMARAL
Folhas ao vento
(valsa, 1934)

Tão mimosa
Graciosa e angelical
Nasceu em seu jardim uma linda flor
Naquela noite santa de Natal
No momento que juramos eterno amor
No entanto você tudo esqueceu
Trocando meu coração por outro ser
E a flor, ao ver a sua ingratidão
Murchou e em prantos se desfolhou
Até morrer.

Folhas ao vento
Já que o destino assim nos transformou
Envelheci
Na lucidez da imensa provação
Num labirinto
De tristeza e saudade
Num relicário, a cruci dor da ingratidão

Folhas ao vento
Quando a bonança veio me abraçar
Num desalento
Aquele amor fui encontrar
Numa igrejinha, tendo ao colo filho seus
Pedindo uma esmola
Pelo amor de Deus!
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

DE ONDE VEM AQUELA MENINA

É uma fileira de crianças e uma defronte. Cantam as da roda:

De onde vem aquela menina
De tão longe assim, assim
Ao redor de nossa terra
Mangicão, dão, dão

Responde a menina:

Eu ando por aqui assim, assim
À procura de uma agulha
Que aqui perdi

A fileira:

Volta para casa
Vai dizer a teus pais, teus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

A menina:

Eu já fui, já voltei
Já disse a meus pais, meus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.)

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José Feldman (Universo de Versos n. 66)


Uma Trova do Paraná

LUIZ HÉLIO FRIEDRICH – Curitiba

Debruçada sobre o berço
do seu querido filhinho,
busca a mãe, com o seu terço,
indicar-lhe um bom caminho.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Belo Horizonte/MG

OLYMPIO DA CRUZ SIMÕES COUTINHO

Estrela que me seduz
és a imagem da esperança:
– brilhante, mas não traz luz;
tão linda, mas não se alcança.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE

FERNANDO CÂNCIO

A ilusão da meninice
com os meus netos se fez,
agora em plena velhice
eu sou criança outra vez!
=======================
Uma Trova Humorística, de Nova Friburgo/RJ

SÉRGIO F. DOS SANTOS

Nem me lembro mais do gosto
da tal noite de verão,
e até hoje pago imposto
que ela chama de pensão…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Com sua língua de trapo
disse, ao ser mandado embora:
– É moleza engolir sapo,
o duro é botar pra fora!
========================
Uma Trova Hispânica do México

MARIA ELENA ESPINOSA MATA

Que no haya sol en el cielo.
Que se resequen los mares.
¡Qué importa si tú, mi anhelo,
borras todos mis pesares!
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Portugal

MARIA JOSÉ FRAQUEZA

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

DELMAR BARRÃO – Rio de Janeiro/RJ

Talvez eu fosse feliz
se conseguisse esquecer
o bem que pude e não fiz,
o mal que fiz sem querer.
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Vendo inquieto o “costureiro”,
tendo a barba bem cerrada,
diz de chacota, o barbeiro:
“chegou a vez da barbada…”
========================
Um Haicai de Magé/RJ

BENEDITA SILVA DE AZEVEDO

Noite de inverno-
A tremer sob jornais
O pobre na esquina
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

guerra sou eu
guerra é você
guerra é de quem
de guerra for capaz

guerra é assunto
importante demais
para ser deixado
na mão dos generais
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

O sol é que faz o trigo;
e o trigo, que faz o pão.
Mas se o trigo se faz hóstia,
faz-se sol no coração …
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
O Chamado das Pedras

A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha…
Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha…
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta…Volta…Volta…
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem… Vem… Vem…

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou…
Porque não voltou…
E a água do rio que corria
Chamava…chamava…

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.
==============================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
1906 – 1965
Quando Eu Morrer

Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas…

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos.
E hão de esquecer-se do meu caminho silencioso entre eles,
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão.
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma.
Porque nada sou, nada conto e nada tenho.
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.

Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
Quando eu morrer…”
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Tu És Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
1919-2004
Retrato de uma Princesa Desconhecida

      Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
 Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
      Para que a sua espinha fosse tão direita
         E ela usasse a cabeça tão erguida
    Com uma tão simples claridade sobre a testa
 Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
     De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
     Servindo sucessivas gerações de príncipes
         Ainda um pouco toscos e grosseiros
            Ávidos cruéis e fraudulentos

         Foi um imenso desperdiçar de gente
        Para que ela fosse aquela perfeição
           Solitária exilada sem destino
========================
Um Soneto de Vila Rica (atual Ouro Preto)/MG

Beatriz Francisca de Assis Brandão
1779 – 1868
Soneto

 
Estas, que o meu Amor vos oferece,
Não tardas produções de fraco engenho,
Amadas Nacionais, sirvam de empenho
A talentos, que o vulgo desconhece.

Um exemplo talvez vos aparece
Em que brilheis nos traços, que desenho:
De excessivo louvor glória não tenho,
E se algum merecer de vós comece.

Raros dotes talvez vivem ocultos,
Que o receio de expor faz ignorados;
Sirvam de guia meus humildes cultos.

Mandei ao Pindo os vôos elevados,
E tantos sejam vossos versos cultos,
Que os meus nas trevas fiquem sepultados.
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

Robert Walser
Biel/Suiça = 1879 – 1956
Estrela D’Alva

 
Abro a janela,
uma luz opaca matinal perdura.
Já parou de nevar,
a grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
como é maravilhosa!
O horizonte está branco de neve,
brancos de neve estão todos os cumes.

Fresca e sagrada
a quietude matinal no mundo.
Cada voz ressoa clara,
os telhados brilham como carteiras de escola.

Tão silencioso e branco:
um deserto enorme e magnífico,
cuja fria quietude torna inútil
qualquer pensamento. Dentro de mim tudo arde.
=====================
Um Poetrix de Minas Gerais

PEDRO CARDOSO
fome

 
o abismo
entre a mão e a boca,
tem nome…
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Nota Social

 

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos…
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.
========================
UniVersos Melodicos

FRANCISCO ALVES e ORESTES BARBOSA
A Mulher que Ficou na Taça
(valsa, 1934)

 
Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando o que tu és

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O vulto dessa mulher…

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece em meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que, sedento
Quero a paixão sufocar

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça, e no coração.
(Fonte: Cifrantiga)==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

SAMBA LELÊ
1944

 
   Samba Lelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
É de uma boa lambada

Samba, samba, samba, ô Lelê
Samba, samba, samba, ô Lalá
Samba, samba, samba, ô Lelê
Pisa na barra da saia, ô Lalá

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Eliana Jimenez (Trova-Legenda até 30 de Junho. PARTICIPE!!!)

Envie uma trova baseada na figura acima para elianarjz@gmail.com. PARTICIPE!

Divulgação das trovas no blog http://poesiaemtrovas.blogspot.com 

Prazo Máximo: 30 de junho

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Eliana Ruiz Jimenez (Trova-Legenda: Casal na Rede)

Que belo é poder amar
em doce e alegre aconchego:
– o mar, a brisa, o luar…
e a rede para o chamego!
A. A. de Assis – Maringá/PR

Com textura chamejante,
na foto  de alto valor,
perto do mar cintilante
surgem segredos de amor.
Agostinho Rodrigues – Campos/RJ

Das juras que ambos fizemos
sobre a rede a balançar,
belos frutos nós colhemos:
Nossas filhas! Nosso lar!
Alberto Paco – Maringá/PR

Não fosse cartão postal,
mataria minha sede…
vivendo um amor tão igual
defronte ao mar numa rede!
Ana Maria Guerrize Gouveia – Santos/SP

Céu calmo, rede macia,
no peito um grande calor…
Você falava, eu ouvia
embriagado de amor!
Amilton M. Monteiro – São José dos Campos/SP

Junto a ti en esta alborada
frente al mar, sobre la duna,
sintiéndome por ti amada
siento que eres mi fortuna
Ángela Desirée Palacios – Venezuela

Apreciando a natureza,
– belo por-do-sol no mar –
um casal, vendo a beleza,
mais amor vai externar.
Angelica Villela Santos – Taubaté/SP

Momento eterno, maiúsculo,
prenhe de amor e magia:
nós dois fitando o crepúsculo
na rede da poesia!
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Essa tarde e esse mar,
nossa infância assim sem medo,
nossa rede a nos ninar
fazem qualquer um aedo.
Antonio Cabral Filho – Jacarepaguá/RJ

No meigo céu tão dourado
onde a beleza seduz,
o lindo amor é moldado
na forma daquela luz.
Ari Santos de Campos – Itajaí/SC

Na vila dos pescadores
nem só de peixes se fala…
Também se fala de amores
que a rede à noitinha embala!
Bruno P. Torres – Niterói/RJ

Enquanto a rede balança,
embalando o nosso amor,
o mar,  sem ondas, descansa
baixando a voz… em louvor…
Carolina Ramos – Santos/SP

No  “Dia dos Namorados”,
– tão propício para amar,
rapaz e moça sentados
numa rede à beira-mar !
Colavite Filho – Santos/SP

Romantismo sempre existe,
transporta épocas, idade…
ele ao amor não resiste,
fazendo cumplicidade !
Cristina Cacossi – Bragança Paulista./SP

Numa rede um sonho a dois
sob as cores do arrebol:
— Fazer amor e depois
deleitar-se à luz do sol.
Dáguima Verônica – Santa Juliana/MG

Em paz no final do dia,
só nós dois a contemplar
a beleza que irradia
o ouro do sol com o mar.
Dalva de Araujo – Santos/SP

O casal, a rede, o mar,
o olhar enlevado, atento,
à tela crepuscular,
em fase de acabamento…
Darly O. Barros – São Paulo/SP
Tendo o céu e o mar à frente,
imagem que impressionava,
um par de jovens presente,
a paisagem contemplava!
Delcy Canalles – Porto Alegre/RS

Na mesma rede embalados…
Porém a vida é tão dura!
– No que pensam namorados
se não na vida futura?!
Diamantino Ferreira – Campos/RJ

A lua inventa e comanda;
escondida, e de atalaia,
faz que a rede da varanda
sonhe embalar-se na praia.
Dorothy Jansson Moretti – Sorocaba/SP
No embalo dessa rede,
vejo a vida acontecer.
A chama do amor acende,
neste belo entardecer!
Edite Rocha Capelo – Santos/SP

Quem tem amor entardece
em suave balançar,
contemplando o sol que tece
mais um poente no mar.
Eliana Jimenez – Balneário Camboriú/SC
“Foi na rede, frente ao mar,
num sonho feito de ocaso,
que o “caso” deu que falar
quando surgiu um…”atraso”.
Elisabete Aguiar – Mangualde/Portugal
Nós dois… a rede…o horizonte…
Nós dois… o tempo e…mais nada,
que, de repente, é uma fonte
de inspiração carregada!
Flávio Stefani – Porto Alegre/RS
Uma rede, a praia, o mar
e mais, a presença dela
faz a gente suspirar
olhando a formosa tela…
Geraldo Lyra – PE

Quero um mundo sem parede
ou procela, só bonança!
Nós dois no vaivém da rede
flertando o mar como criança.
Geraldo Trombin – Americana/SP
Felizes os namorados,
numa rede, frente ao mar,
sentindo-se emocionados,
conjugam o verbo amar!
Gislaine Canales – Balneário Camboriú/SC

A alegria de viver
vai depender do momento…
Veranear pode ser
perfeito acontecimento.
Glória Tabet Marson – S. J. dos Campos/ SP

A rede armada na praia,
lazer que embala o casal,
que no Ceará se espraia
ao longo do litoral.
Haroldo Lyra – Fortaleza/CE

Enquanto a rede balança,
tenho um pensamento louco:
eu deixei de ser criança
mas ainda sou um pouco…
Janske Niemann – Curitiba/PR
Pôr do sol… em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
Jessé Nascimento – Angra dos Reis/RJ

Nessa onda vespertina
tocando a tépida areia
o que mais nos ilumina
desperta na lua cheia!
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP
Com a Meirezinha ao lado,
eu me ponho a meditar:
mas que trabalho danado,
com as ondas, tem o mar…
José Fabiano – Belo Horizonte/MG
Abraçados numa rede,
o horizonte a contemplar,
era um quadro na parede…
de um amor pra recordar!
José Feldman – Maringá/PR

Para tão juntos estarem,
corações entrelaçados,
juras de amor a trocarem,
é certo, são namorados.
José Kalil Salles – Barbacena/MG

Enfim, sós – disse Medeia,
encanto que une e medeia,
no sucesso dessa ideia
o fogo que em nós ateia.
José Marins – Curitiba/PR

Numa tarde radiante
o céu cheio de esplendor,
os amantes confiantes
trocam mil juras de amor.
José Satiro – Natal/RN
Cuando al amor se lo mece
aunque sea en una hamaca
hasta el alma se enternece
y se afirma cual estaca.
Libia Beatriz Carciofetti – Argentina
Ao teu lado, não sei bem…
São as ondas em seu vagar
ou se é a rede num vai vem
que me dão o céu  e o  mar?
Lisete Johnson – Porto Alegre/RS
Numa rede o sol se pondo,
um casal de namorados,
conta pétalas compondo,
só versos… apaixonados…
Lora Saliba – São José dos Campos/SP
Embalando os namorados;
balançam a rede e o mar,
na tarde de tons dourados
que o amor faz despertar.
Luiz Moraes – São José dos Campos – SP

Se é o nascer ou pôr do Sol,
não difere a apoteose!
Assistimos no arrebol
imbuídos na hipnose…
Maryland Faillace – Santos/SP

Contemplar o mar infindo,
entender sua poesia,
ver o sol se despedindo
é sentir paz e alegria.
Marina Valente – Bragança Paulista/SP
Entardece todo dia,
não há quem não saiba disso,
mas… quem sabe da magia
de uma tarde com feitiço?
Mário A. J. Zamataro – Curitiba/PR

Mar sereno de águas calmas
– refletindo a luz da lua –
contemplai as duas almas
na rede que ao léu flutua!…
Mercedes Lisbôa Sutilo – Santos/SP
Basta ver o entardecer
vou à rede namorar.
Quero de tudo esquecer
ao som das ondas do mar.
Mifori –  São José dos Campos/SP

Um casal apaixonado,
Sob um luar deslumbrante,
curte um amor ritmado
numa rede balouçante…
Myrthes Masiero – São José dos Campos/SP

Desde que o dia amanhece,
até vir o por do  sol,
você é  luz que me aquece,
me ilumina, é meu farol.
Nadir Giovanelli – São José dos Campos /SP

No crepúsculo da vida
com você eu quero estar,
e ficar bem entretida
numa rede à beira mar!…
Nair Lopes Rodrigues – Santos/SP
Numa rede, apaixonados,
entre sonhos, a embalar,
os eternos namorados
fazem juras frente ao mar!
Nei Garcez – Curitiba/PR

Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
Nemésio Prata – Fortaleza/CE

Eu, a rede e a namorada,
nós curtindo o entardecer.
Amar é isso e mais nada…
poucos sabem perceber.
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/MG
Enlaçados numa rede,
co’os pés à beira do mar,
saciamos toda sede,
na doida sede de amar…
Olga Maria Dias Ferreira – Pelotas/RS
O sol, a brisa e esta rede,
no entardecer, que esplendor!
E o mar morrendo de sede,
mata-me a sede de amor!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Contemplando el horizonte
que el Dios Padre nos mandó,
ni una garza, ni un sinsonte
sólo el cielo, tú y yo.
Rafael Ramos Nápoles – Venezuela

Contemplando a maré calma,
que os corações enternece,
o casal é uma só alma
e o seu silêncio, uma prece!
Renato Alves – Rio de Janeiro/RJ
No balanço bem armado
e o luar a seu favor,
o casal apaixonado
celebra sincero amor.
Ruth Farah Nacif Lutterback – Cantagalo/RJ
Tendo o céu quase em queimada
vendo o sol que se retira
nos meus ombros minha amada
deita a cabeça… e suspira!!!
Secel Barcos – Cambridge/Canadá
Tu surgiste em minha vida
Como a rosa esfacelada
Pra eu juntar em terna lida
Tuas dores, doce amada!
Sinclair Pozza Casemiro-Campo Mourão-PR

Que beleza ver o mar
sempre em boa companhia
a ouvir o seu marulhar:
-quanta paz, quanta magia !…
Sônia Ditzel Martelo – Ponta Grossa/PR
Fim de tarde de verão,
numa rede, frente ao mar,
casal em contemplação
redescobre o que é amar.
Sonia Lodi Ferle – Santos/SP

Numa praia, é lindo amar,
contemplando o sol se pôr;
ondas balançando o mar,
e a rede embalando o amor!
Vanda Alves da Silva – Curitiba/PR
O mar, a tarde silente,
a rede, a troca de afeto…
Um momento, simplesmente,
mas… um momento completo!
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

S’o nascer gentil do sol
permite às gentes gostar,
a beleza do arrebol
bem mais os fará vibrar.
Victor Batista – Barreiro/Portugal

Nosso amor cabe num verso
e tem grandezas sem par –
guarda a expansão do Universo
e as sincronias do mar.
Wagner Marques Lopes – Pedro Leopoldo/MG
Visto a dois o entardecer
traz emoção diferente:
É como se amanhecer
se eternizasse na gente.
Wandira Fagundes Queiroz – Curitiba/PR
Fonte:
http://poesiaemtrovas.blogspot.com

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Iº Jogos Florais da UBT em Los Angeles California -USA

Jamais desista de ser feliz, pois
a vida é um espetáculo imperdível,
ainda que se apresentem dezenas de
fatores a demonstrarem o contário”

Fernando Pessoa
Lisboa, Portugal.

O concurso será promovido por Carmen Rojas Larrazábal Delegada de UBT, com o apoio e patrocínio de (Organizações Públicas, escolas, empresas, etc), e dele constarão Os Iº Jogos Florais com concursos de trovas e festividades.

TROVA é uma composição poética de quatro versos heptasílabos ( sete silabas) contando até a ultima sílaba tónica. Rimando o 1º com o 3º e o 2º com o 4º ABAB. expressando um pensamento completo.

As Trovas em língua portuguesa poderão ser remetidas por sistema via e-mail para a Coordenadora em língua portuguesa Gislaine Canales ao e-mail: gislainecanales@gmail.com com cópia ao Presidente Internacional de UBT Cristina Oliveira Chávez. e-mail: CoLibriRoseBeLLe@aol.com com os dados completos de cada concursante.

Nome:
Domicílio:
Cidade:
País:
e-mail:

E as 3 Trovas concursantes

Prazo para entregar as Trovas Março do 2014.

Data das Festividades: do 6 ao 12 de Julho de 2014

Los Angeles California USA

A inscrição será de 280.00 dólares só para os que vão assistir ao Congresso do CUPHI.

Os que não vão assistir poderão concorrer como estão as regras abaixo

Cada Trovador-a poderá enviar, no máximo( 3 ) trovas, inéditas e de sua autoria.

As trovas serão qualificadas por notas a nota mais alta terá 500.00 dólares como parte seus prêmios.

Serão concedidos os seguintes prêmios:
5 Vencedoras (Troféu, diploma ) e 500.00 Dólares à nota mas alta dentro das 5 vencedoras.
5 Menções Honrosas (Troféu e diploma )
5 Menções Especiais (Troféu e diploma)
Não terá repetição de troféu dentro da mesma categoria.

Será constituída a comissão julgadora, formada por Trovadores de reconhecido mérito dentro da literatura Portuguesa.

As Trovas concursantes deverão ser Líricas ou Filosóficas.

O Tema das Trovas será a palavra HUMANIDADE. A palavra HUMANIDADE deverá ir dentro da trova.

O prazo para enviar as trovas concursantes termina o 31 de Março do 2014.

Os participantes que desejem ir às festividades deverão comunicá-lo a Gislaine Canales gislainecanales@gmail.com e A Cristina Oliveira Chávez CoLibriRoseBeLLe@aol.com

Para comunicar-lhes dos benefícios que se lhes outorgarão num pacote especial , em, onde, por 280.00 dólares terão:

Custo para participar 3º CONGRESSO UNIVERSAL DA POESIA HISPANO-AMERICANA (CUPHI III):

1. Taxa de inscrição, além:

Inclui:

A. Materiais (programa, mapa, lista de contatos de emergência, pin, identificação , saco com logotipo CUPHI III )

B. 6 almoços

C. Jantar de Gala de Abertura

D. Jantar de Encerramento

E. Excursão pós-histórico e cultural

F. O acesso a todas as atividades de conferência (incluindo palestras, debates, homenagens, concertos, exposições de arte, concertos, apresentação de livros)

G. Participação em concursos de poesia (Floral Jogos-Quatro Amores dos gregos, e baladas)

H. A publicação de um poema na antologia de CUPHI III:

I . Participação da missa em trovas na Catedral de Nossa Senhora dos Anjos.

Gislaine Canales Y Cristina Oliveira


Fonte:
Mifori

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II Concurso Fulguras do Amor – Poesia (Vencedores)

MEDALHA DE OURO:
REGINALDO COSTA DE ALBUQUERQUE
(CAMPO GRANDE – MS)

A Estátua

Quando em minha janela a noite cresce,
corro até a pracinha aqui bem perto.
A um canto do jardim sempre deserto,
o vulto de uma estátua alto floresce.

Do jarro erguido aos ombros a água desce
ondeando a flor de um lago a céu aberto…
Na pedra ao lado, as mãos ao peito aperto,
dizendo o meu penar diluído em prece.

O bico da coruja adianta a hora…
Na quietação da rua espreita a aurora
detrás do vicejar de um malmequer.

E ao retornar a casa alguém me chama!
No lago, as lindas curvas de alva dama…
Era a estátua num corpo de mulher.

MEDALHA DE PRATA:
ROZELENE FURTADO DE LIMA
(TERESÓPOLIS – RJ)

Doce mel 

Hoje eu só quero encontrar 
Um amor carregado de vontade
Desejoso de morrer de amar
De ser momento na eternidade

Quero beijos muito ardentes
Carícia livre sem restrição
Entregar tudo, totalmente
Corpo, pele, sonhos e ilusão 

Sussurrando com estrelas deixar fluir
Provar o néctar, saborear o doce mel
Sem parcelar a liberdade de ficar

Pagar, receber, dar e dividir
Ser ponte, ser escada, ser céu 
Ir onde nunca olvidei chegar

MEDALHA DE BRONZE:
LARISSA LORETTI
(RIO DE JANEIRO – RJ)

Um amor cigano sem fronteiras

Pássaro nômade sem fazer história…
Um amor estranho, diferente.
Amor cigano
uma fonte que se faz presente
de carinhos e desejos…
Em torno da fogueira
o nosso amor ardente…
Em meio a ouro, prata,
castanholas,
taças de vinho
sons de violino,
e uma esteira de luz
em meu caminho…
Sobre uma rosa vermelha
o punhal cruzado,
sob o céu todo estrelado
Santa Sara protegendo e perdoando…
Dentro do meu destino
um amor cigano
partindo pelo mundo afora
um amor peregrino
guardado
em mim, e neste poema que
a emoção escreveu
apenas para dizer aqui
estrela, encanto, flor…
a melhor coisa que me aconteceu.

Fonte:
Paulo Caruso. http://www.reinodosconcursos.com.br/index.php?pagina=1501479057_20

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Academia Brasileira de Trova (Palestra sobre Luiz Otávio, em 2 de Julho)

Prezados Acadêmicos e Membros de Honra da ABT e amigos trovadores ou amantes da trova:

DIA 2 (DOIS) DE JULHO (TERÇA FEIRA),
ÀS 16 HORAS
ACADEMIA BRASILEIRA DE TROVA
PALESTRA DA ACADÊMICA MARIA NASCIMENTO (CADEIRA Nº 53, PATRONÍMICA DE ELTON CARVALHO),
” A VIDA E A OBRA DE LUIZ OTAVIO, “O PRÍNCIPE DOS TROVADORES”.

Contamos com Vossas presenças para abrilhantarem e prestigiarem uma das mais consagradas trovadoras vivas, que por muitos anos preside e foi fundadora da União Brasileira de Trovas (UBT-RJ)

horário: 16 horas

Local: sede da FALARJ (Federação das Academias de Letras do Rio de Janeiro)

À Rua Teixeira de Freitas, nº 5 , esquina com a Avenida Augusto Severo nº 8 , Sala 303 – 3º andar (Lapa Centro)

Fonte:
Messody Ramiro Benoliel

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Diogo Fontenelle (O Fazer Crônica ao Lume da Poesia )

Bruno Paulino garimpa memórias – acontecidas e sonhadas! – ao longo de suas vivências de menino sertanejo. Nesse tear de gemas e gemidos, o jovem prosador lança mão dos lápis de cores do seu coração marinheiro a azular as miudezas do dia a dia mesquinho, a “…esverdejar”, qual berilo esmeralda, esperas e esperanças vazadas pelas negações e ausências do viver nordestinado.

Ergue-se então, o poeta que veleja pelas marés da tessitura da crônica, gênero que muitas vezes resvala pelo mero fotografar de lembranças encharcadas de desabafos em timbres confessionais. Ressalve-se que não é esse o “fazer crônica” do referido escritor que se afirma pelo ruminar da vida em contínua ancoragem no papel inundado pelos vestígios do sangrar e do sonhar de um menino do bravio sertão cearense. Nesse serpentear, o cronista reanima Quixeramobim à luz de um olhar apaixonado pelo desaguar da melodia da terra em suas florações de encontro e desencontro, de amor e desamor.

Eis assim, o despertar do cronista menino que não matava passarinhos, neto do Vô Luís, Tangedor de Sonhos a bordo de uma cadeira de balanço… Portanto, eis o menino poeta que se faz caçador de palavras multicores a voar pelos ares, como passarinhos em eterno cantar de invernia.

Nesse horizonte mágico do verbal lírico, confesso que volto a Quixeramobim em visita guiada pelo cronista poeta Bruno Paulino, encontro uma cidade inédita para mim, diferente das várias Quixeramobins que venho ajardinando em meus “lembrados” dourados. Descortinam-se dessa edição sopros de vivências infantis e juvenis pontuadas por filigranas do dia a dia que escondem relâmpagos de ternura e encantamentos de outros tempos e espaços que descolam da alma sertaneja sempre sedenta pelo tilintar do “Maravilhoso” em contínua cigania a cumprir a profecia de que “Deus quer ver o povo de Quixeramobim feliz!”

Causa-me especial surpresa que um jovem dos tempos tecnológicos contemporâneos movidos pelo domínio da “Era Digital”, venha escrever uma carta para Manuel Bandeira, Poeta Maior. A meu ver, escrever uma carta entre os caprichos de uma caligrafia vazada em papel azul é coisa de enamorado da Poesia em viagem à deriva pelos vapores do século dezenove. Mas, para meu espanto, é essa a escolha do citado jovem escritor que parece ancorar nos tempos presentes, acendendo luzes de romantismos perdidos e aparentemente extintos, mas ainda passíveis de um redespertar.

Será que os casarões de Quixerambim erguidos “à sombra dos pés de cajá e juazeiros” podem ainda guardar perfumes e melodias do luminoso beato Antonio Conselheiro, da bela Dona Guidinha do Poço, do menestrel Fausto Nilo, da mais que devota catequista Dona Carminha André, e do sábio Jorge Simão? Bruno Paulino vem me confirmar que sim, bem que eu desconfiava nas minhas romarias pelo Reino Insólito da Infância! Cabe-me acreditar que Quixeramobim possui “túneis do tempo” a operar quando bem dedilhados pelo talento de um mago das Artes em floração.

“Mago da Palavra” é o que o verdadeiro Poeta sonha constituir-se ao longo de duros pesares. Na Esfera transcendental da Profecia, regida por algum dom de intuição que eu talvez possa acessar, mediante as proezas do “vento aracati” tangido pelo três vezes Santo Padroeiro: Santo Antonio de Lisboa, Santo Antonio de Pádua, e o não menor Santo Antonio de Quixeramobim… Eu ouso vislumbrar que Bruno Paulino, enquanto cronista estreante, venha trilhar os labirintos do Fazer Poético em Sinfonia Maior.

Fonte:
Nilto Maciel. http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2013/06/o-fazer-cronica-ao-lume-da-poesia-diogo.html

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 4

André o escutava, sem dar uma palavra, mas patenteando no rosto enorme interesse pelo que ouvia.

Era a primeira vez que se achava assim, em comunicação amistosa com um seu semelhante; era a primeira vez que alguém o escolhia para confidente, para íntimo. E sua alma teve com a surpresa deste fato o mesmo gozo de impressões que experimentara ainda há pouco o seu paladar com os saborosos doces até aí desconhecidos para ele.

E o Coruja, a quem nada parecia impressionar, começou a sentir afeição por aquele rapaz, que era a mais perfeita antítese do seu gênio e da sua pessoa.

Quando Salustiano veio abrir-lhes a porta à hora do jantar, encontrou Teobaldo de pé, a discursar em voz alta, a gesticular vivamente, defronte do outro que, estendido na cadeira, toscanejava meio tonto.

— Então? Exclamou o homem das barbas longas. — Que significa isto?

— Isto quê, ó meu cara de quebra-nozes? Interrogou Teobaldo soltando-lhe uma palmada na barriga.

— Menino! Repreendeu o homem; não quero que me falte ao respeito!

— E um pouco de Madeira, não queres também?

— O senhor bem sabe que aqui no colégio é proibido aos alunos receberem vinho.

— Para os outros, não duvido! Eu hei de receber sempre, se não digo ao velho que não empreste mais um vintém ao diretor.

— Não fale assim… O senhor não se deve meter nesses negócios.

— Sim, mas em vez de estares aí a mastigar em seco e a lamber os beiços, é melhor que mastigues um pouco de requeijão com aquele doce.

— Muito obrigado.

— Não tem muito obrigado. Coma!

E Teobaldo, com sua própria mão, meteu-lhe um doce na boca.

— Você é o diabo! Considerou Salustiano, já sem nenhum sinal de austeridade. E, erguendo a garrafa à altura dos olhos: — Pois os senhores dois beberam mais de meia garrafa de vinho?!.

André ao ouvir isto, começou a rir a bandeiras despregadas, o que fazia talvez pela vez primeira em sua vida. Pelo menos, o fato era tão estranho que tanto Salustiano como Teobaldo caíram também na gargalhada.

— E não é que estão ambos no gole?… Disse homem, a cheirar a boca da garrafa e, sem lhe resistir ao bom cheiro, despejou na própria o vinho que restava.

— Que tal a pinga? Perguntou Teobaldo.

— É pena ser tão mal empregada… Responde o barbadão a rir.

— Este Salustiano é um bom tipo! Observou o menino, enchendo as algibeiras de frutas e doces.

— Ora, quando o diretor não pode com o senhor eu é que hei de poder…

E, querendo fazer-se sério de novo:

— Vamos! Vamos! Aviem-se, que está tocando a sineta pela segunda vez!

— Não vou à mesa, respondeu Teobaldo — daqui vou para o jardim; diga ao doutor que estamos indispostos.

E, voltando-se para o Coruja.

— Oh! André! Toma conta de tudo isso e vamos lá para baixo ouvir a flauta do Caixa-d’óculos.

Desde então os dois meninos fizeram-se amigos.

Foi justamente a grande distância, o contraste, que os separava, que os uniu um ao outro.

As extremidades tocavam-se.

Teobaldo era detestado pelos colegas por ser muito desensofrido e petulante; o outro por ser muito casmurro e concentrado. O esquisitão e o travesso tinham, pois, esse ponto de contato — o isolamento. Achavam–se no mesmo ponto de abandono, viram-se companheiros de solidão, e é natural que se compreendessem e que se tornassem afinal amigos inseparáveis.

Uma vez reunidos, completavam-se perfeitamente. Cada um dispunha daquilo que faltava no outro; Teobaldo tinha a compreensão fácil, a inteligência pronta; Coruja o método, e a perseverança no estudo; um era rico; o outro econômico; um era bonito,
débil e atrevido; o outro feio, prudente e forte. Ligados, possuiriam tudo. E, com o correr do ano, por tal forma se foram estreitando entre os dois os laços da confiança e da amizade, que afinal nenhum deles nada fazia sem consultar o camarada. Estudavam juntos e juntos se assentavam nas aulas e à mesa.

Por fim, era já o André quem se encarregava de estudar pelo Teobaldo; era quem resolvia os problemas algébricos que lhe passavam os professores; era quem lhe arranjava os temas de latim e o único que se dava à maçada de procurar significados no dicionário Em compensação o outro, a quem faltava paciência para tudo isso, punha os seus livros, a sua vivacidade intelectual à disposição do amigo, e dividia com este os presentes e até o dinheiro enviado pela família, sem contar as regalias que a sua amizade proporcionava ao Coruja, fazendo-o participar da ilimitada consideração que lhe rendia todo o pessoal do colégio, desde o diretor ao cozinheiro.

De todas as gentilezas de Teobaldo, a que então mais impressionara ao amigo foi o presente de uma flauta e de um tratado de música, que lhe fez aquele volta de um passeio com o diretor do colégio. Coruja trabalhava à sua mesa de estudo quando o outro entrou da rua.

— Trago-te isto, disse-lhe Teobaldo apresentando-lhe os objetos que comprara.

— Uma flauta! Balbuciou André no auge da comoção. — Uma flauta!

— Vê se está a teu gosto.

Coruja ergueu-se da cadeira, tomou nas mão instrumento, e experimentou-lhe o sopro, e ficou tão satisfeito com o presente do amigo que não encontrou uma só palavra para lho agradecer.

— Que fazias tu? Perguntou-lhe Teobaldo.

Mas correu logo os olhos pelo trabalho que estava sobre a mesa e acrescentou:

— Ah! É ainda o tal catálogo!

— É exato.

— Gabo-te a paciência! Não seria eu!

E, tomando a bocejar uma das folhas escritas o outro tinha defronte de si.

— Isto vem a ser?…

— Isto é a numeração das obras, respondeu André.

— Ah! Vai numerá-las…

— Vou. Para facilitar.

— E isto aqui? [interrogou Teobaldo, tomando outra folha de pape].

— Isto é uma lista dos títulos das obras.

— E isto?

— O nome dos autores.

— Depois reúnes tudo?

— Reuno.

— Melhor seria fazer tudo de uma mais prático. Assim, não é tão cedo que te verás livre dessa maçada!

— Há de ficar pronto.

Mas estava escrito que o célebre catálogo não teria de ficar acabado nas férias deste ano. Urna circunstância extraordinária veio alterar completamente os planos do autor.

Logo ao entrar das férias, o pai de Teobaldo apresentou-se no colégio para ir em pessoa buscar o filho.

Entrou desembaraçadamente a gritar pelo rapaz desde a porta da rua.

— Ah! É V. Exa. exclamou o diretor com espalhafato, logo que o viu. E correu a tornar-lhe o chapéu e a bengala.

— Bela surpresa! Bela surpresa, Sr. Barão! Tenha a bondade de entrar para o escritório!

— Vim buscar o rapaz. Como vai ele?

— Muito bem, muito bem.! Vou chamá-lo no mesmo instante. Tenha a bondade V. Exa. de esperar alguns segundos.

E, como se a solicitude lhe dera sebo às canelas, o Dr. Mosquito desapareceu mais ligeiro que um rato. O Sr. Barão do Palmar, Emílio Henrique de Albuquerque, era ainda nos seus cinqüenta e tantos anos uma bela figura de homem. A vida acidentada e revessa, a que o condenara sempre o seu espírito irrequieto e turbulento não conseguira alterar-lhe em nada o bom humor e as gentilezas cavalheirescas de sua alma romântica e afidalgada. Como brasileiro, ele representava um produto legítimo da época em que veio ao mundo.

Nascera em Minas, quando ferviam já os prelúdios da independência, e seu pai, um fidalgo português dos que emigraram para o Brasil em companhia do Príncipe Regente e de cujas mãos se passara depois para o serviço de D. Pedro I, dera-lhe por mãe uma formosa cabocla paraense, com quem se havia casado e de quem não tivera outro filho senão esse.

De tais elementos, tão antagônicos, formou-se-lhe aquele, caráter híbrido e singular, aristocrata e rude a um tempo, porque nas veias de Emílio de Albuquerque tanto corria o refinado sangue da nobreza, como o sangue bárbaro dos tapuias. Crescera entre os sobressaltos políticos do começo do século, ouvindo roncar em torno do berço a tempestade revolucionaria, que havia de mais tarde lhe arrebatar a família, os amigos e as primeiras e mais belas ilusões políticas. Desde muito cedo destinado às armas, matriculou-se na Escola Militar, fez parte da famosa guarda de honra do primeiro Imperador, e, com a proteção deste e mais a natural vivacidade do seu temperamento mestiço, chegou rapidamente ao posto de capitão.

Teve, porém, de interromper os estudos para fazer a lamentável guerra de Cisplatina, donde voltou seis meses depois, sem nenhuma dar ilusões com que partira, nem encontrar os pais e amigos, que sucumbiram na sua ausência, e nem mais sentir palpitar-lhe no coração o primitivo entusiasmo pelos defensores legais da integridade nacional. Orfanato, pois, ao vinte e dois anos, senhor de uma herança como bem poucos de tal procedência apanhavam nessas épocas, pediu baixa do Exército e levantou o vôo para a Europa, fazendo-se acompanhar por um criado que fora de seu pai, o Caetano, aquele mesmo criado que, trinta e tantos anos depois, apareceu no colégio do Dr. Mosquito vestido de libré cor de rapé, com botões amarelos.

Ah! Se esse velho quisesse contar as estroinices que fez o querido amo pelas paragens européias que percorreu! Se quisesse dizer quantas vezes não expôs a pele para livrá-lo em situações bem críticas! Quantas vezes por causa de alguma aventura amorosa ou por alguma simples questão de rua ou de café não voltaram os dois, amo e criado, para o hotel com o corpo moído de pauladas e os punhos cansados de esbordoar!

Durante essas viagens levaram eles a vida mais aventurosa e extravagante que é possível imaginar; só voltaram para o Brasil no período da regência, depois da abdicação do Sr. D. Pedro I, por quem o rapaz não morria de amores. Tornando à província, Emílio, talvez na intenção de refazer os seus bens já minguados, casou-se, a despeito da oposição do Caetano, com uma rapariga de Malabar, filha natural de um negociante português que comerciava diretamente com a Índia.

Atirou-se então a especular no comércio, mas o seu temperamento não lhe permitia demorar-se por muito tempo no mesmo objeto e, achando-se viúvo pouco depois de casado, lançou as vistas para Diamantina, que nessa ocasião atraía os ambiciosos, e lá se foi ele,. sempre acompanhado pelo Caetano, explorar o diamante. Tão depressa o viram em 1835 na Diamantina como em 1842 em Santa Luzia na revolução ao dos liberais mineiros, lutando contra a célebre reação conservadora manifestada pela lei de 3 de Dezembro.

A galhardia e valor com que se houve nessas conjunturas valeu-lhe a estima de Teófilo Otoni e outros importantes chefes do seu partido. Dessa estima e mais dos bens particulares que então gastou na política foi que se originou o título, com que mais tarde o agraciaram. A sua atitude política, a sua riqueza e os seus dotes naturais haviam-lhe já conquistado na corte as melhores relações deste tempo.

Uma vez, por ocasião de trazer para aí uma excelente partida de diamantes, travou conhecimento com um importante fazendeiro de café, em cuja fazenda se hospedou por acaso. Esse homem, mineiro da gema, era no lugar a principal influência do partido conservador e, sem dúvida, um dos que primeiro explorou a famosa Mata do Rio, que então começava a cobrir-se de novas plantações. O fazendeiro tinha uma filha e Emílio cobiçou-a para casar. Mas o encascado político, descendente talvez dos antigos emboabas que avassalaram o centro de Minas, não cedeu ao primeiro ataque, e Emílio teve de lançar mão de todos os recursos insinuativos da sua raça para conseguir captar a confiança do pai e o coração da filha. Quando lá tornou segunda vez, deixou o casamento ajustado.

Então foi ainda a Diamantina liquidar os seus negócios e, voltando à Mata, recebeu por esposa a mulher que, mal sabia ele, estava destinada a ser a mais suave consolação e o melhor apoio do resto de sua vida. Foi desse enlace que nasceu Teobaldo, logo um ano depois do casamento. Emílio só reapareceu na corte em 1847, onde os seus correligionários, então no poder, o agraciaram com o titulo de Barão do Palmar; mas voltou logo para Minas e tratou de estabelecer com os seus capitais uma fazenda na vizinhança da do sogro, que acabava de falecer.

Foi esse o melhor tempo de sua vida, o mais tranqüilo e o mais feliz. Só depois de casado, Emílio pode avaliar e compreender deveras a mulher com quem se unira; só depois de casado descobriu os tesouros de virtude que ela lhe trouxe pura casa, escondidos no coração.

Laura, assim se chamava a boa esposa, era um destes anjos, criados para a boa segurança do lar doméstico; uma dessas criaturas que nascem para fazer a felicidade dos que a cercam. Em casa, senhores chamavam-lhe “Santa”. E este doce tratamento conduzia com os seus atos e com a sua figura.

— Esta, sim! Exclamava o Caetano, entusiasmado Esta, sim, é uma esposa de conta, peso e medida!

Pouco a pouco, Emílio fui amando a mulher, ao ponto de chegar a estremecê-la, o que até aí lhe parecia impossível.

No meio de toda essa felicidade, Teobaldo deu os seus primeiros passos pela mão do pai, da Santa e do fiel Caetano, que já o adorava tanto como os outros. O pequeno era o mimo do casa; era o cuidado, o enlevo, a preocupação de quantos o viam crescer.
Com que sacrifício não consentiu, pois, o Barão do Palmar que o filho, daí a seis anos, seguisse sozinho para um colégio de Londres, donde havia de passar a Coimbra.

Mas assim era necessário, porque Emílio, então comprometido no tráfico dos negros africanos, viu-se atrozmente perseguido por Euzébio de Queiroz, terror dos negreiros e seu inimigo político.

Eis aí quem era e donde vinha o pai de Teobaldo.
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continua…

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Nathalia Leal (Sarau Poético no I Arraial do Papel no Varal, de Maceió)

Uma noite de lua cheia, repleta de cores, bandeirolas e animação, marcou o I Arraial do Papel no Varal, nesse 25 de Junho. Ambientado no Arraial Central da Prefeitura de Maceió, o sarau poético atraiu um público extenso e heterogêneo – muitos foram os que estavam participando e lendo poesia pela primeira vez, o que enriqueceu ainda mais a celebração.

A recepção foi feita pelo grupo de forró Mistura Fina, que animou os presentes. Casais dançavam e rodopiavam próximos ao varal de sisal. A performance de abertura do sarau foi feita pelo animado ator Paulo Poeta, que leu uma poesia do alagoano Tonho Lambe-Sola, arrancando  palmas e risos calorosos do público. Zabumba, triângulo e sanfona do trio-pé-de-serra Os Mais Fortes do Forró introduziam a chegada animada de cada pessoa que ia ao palco dizer poesia.

Presente pela primeira vez no Papel no Varal, a estudante Karen Pimentel, 17, afirmou: “Estou gostando. É importante dar a oportunidade de todo mundo se expressar, mesmo que através da palavra dos outros”. Laryssa França, 21, leu Biu de Crisanto no palco e ressaltou a importância do evento: “É um encontro de poesia, e isso é muito raro”.

A presença de Eliezer Setton deixou a noite ainda mais calorosa e atraiu a atenção daqueles que passavam por perto: o músico, que introduzia suas canções através de causos e cantou clássicos como “Coco 2000”, acabou sua apresentação sendo aplaudido de pé. A Associação Alagoana de Ciclismo também prestigiou o I Arraial do Papel no Varal, com direito a leitura de poema no palco, com bicicleta e capacete.

Cantadas audaciosas enviadas pelo correio elegante, a boneca de pano, o “troféu macaxeira” e a irreverente apresentação de Ricardo Cabús aumentaram a dose de humor, já garantida pela seleção dos poemas matutos de Xexéu Beleléu, Chico Doido do Caicó, entre outros. Houve também entrega de brindes Ao Pharmacêutico àqueles que melhor entoavam os versos, como a jovem Eduarda Leite, de 12 anos.

Outras pessoas também se aventuraram na leitura. É o caso de Gerson Nunes Siqueira, de 55 anos: “Eu leio mal, gaguejando, mas vou ler. O poema fala da história de onde eu ‘vim’, do sertão.” – afirmou, enquanto esperava ansiosamente ser chamado ao palco.

Arriete Vilela, escritora e frequentadora assídua do Papel no Varal, demonstrou sua admiração à continuidade do projeto e sua capacidade de expansão: “É uma iniciativa que vem crescendo, e o melhor: saiu de um círculo pequeno de escritores e leitores alagoanos e hoje está num alcance popular. Gosto muito da ousadia do Ricardo Cabús”.

Apesar da seleção de poemas majoritariamente “matuta”, a leitura dos versos de Manuel Bandeira em “O Trem de Ferro”, feita por José Márcio Passos, arrancou aplausos – o ator também leu “O Gato do Vigário”, de Lêdo Ivo, num clima de grande descontração. As interpretações cuidadosas de Arilene de Castro e Demis Santana – com seu enfeitado chapéu de cangaceiro – também foram de grande destaque. Chico de Assis fez duetos interpretativos com Paulo Poeta, com direito a homenagem ao tradicional pastoril, coco de roda, guerreiro e às nuances coloquiais nordestinas, no encerramento do sarau. Os dois atores entoaram canções folclóricas e arriscaram uma paródia da típica procissão interiorana, aproveitando a animação do público. “A festa acabou. Até ano que vem, se ‘nós vivo for’!”, disparou Chico, em tom de brincadeira.

O evento encerrou-se ao som do trio Os Mais Fortes do Forró, que tocou peças do repertório de Jacinto Silva e Tororó do Rojão, de acordo com o tema escolhido pela Prefeitura de Maceió para os festejos juninos de 2013. Apesar do clima de fim de festa, os casais continuavam sua dança animada, ao som do forró.

O I Arraial do Papel no Varal superou as expectativas e recebeu o maior público de todas as edições do projeto: ao todo, é possível estimar um alcance de cerca de mil pessoas, dentre as que estavam de pé e outras que lotavam as 600 cadeiras ou permaneciam assistindo o sarau por algum tempo. Celebrando a rica cultura popular nordestina, o evento contou com uma atmosfera agradável e animada, permeada por sorrisos, cores e poesias, numa noite bastante interativa.

Fonte:
e-mail do Papel No Varal

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3a Conferência Municipal de Cultura em Belo Horizonte (5 e 6 de Julho)

Clique sobre a imagem para ampliar
A Fundação Municipal de Cultura promove nos dias 5 e 6 de julho a 3ª Conferência Municipal de Cultura de Belo Horizonte, evento preparatório para a 3ª Conferência Nacional de Cultura que acontecerá em novembro. Os debates estão organizados em torno dos seguintes temas: Implementação do Sistema Nacional de Cultura; Produção Simbólica e Diversidade Cultural; Cidadania e Direitos Culturais e Cultura e Desenvolvimento. Para o encaminhamento de propostas relativas a esses temas, serão realizadas Conferência Livres em todas as regionais do município nos dias 18, 20, 22 e 24 de junho. As inscrições para a 3ª Conferência Municipal de Cultura devem ser feitas pela internet no site BH Faz Cultura em formulário específico (clique aqui para acessá-lo) ou nas unidades da FMC (confira tabela abaixo com os enderços).

Mais informações podem ser obtidas pelo email: conferenciacultura@pbh.gov.br.

3ª CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE CULTURA

Local: Instituto de Educação – rua Pernambuco, 47- Funcionários

5 de julho (sexta-feira) das 18h às 22h

6 de julho (sábado) das 8h às 20h
informações: conferenciacultura@pbh.gov.br

Fonte:
e-mail da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte

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José Feldman (Universo de Versos n. 65)

Uma Trova do Paraná

ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA – Bandeirantes

Uma “tesoura” afamada,
E não sabe nem cortar,
Mas a vida da cunhada
Ela vive a tesourar…
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Pedro Leopoldo/MG

WAGNER MARQUES LOPES

Terna esperança… Eu suponho,
sustenta a precoce artista:
toda criança, em seu sonho,
é uma exímia equilibrista.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Pouso Alegre/MG

EDUARDO TOLEDO

Por ser caboclo do mato,
de capina a vida inteira,
meu mundo tem o formato
de uma roça sem fronteira!
=======================
Uma Trova Humorística, de Caçapava/SP

ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA E SILVA

– Esta pimenta é de cheiro?
Pergunta com azedume,
e o garçom fala ligeiro:
– Se não é… boto perfume!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Esses meus versos doridos
que estão bem perto do fim,
são retratos coloridos
que eu mesmo tirei de mim…
========================
Uma Trova Hispânica do Chile

GERMÁN ANTONIO ECHEVERRÍA AROS

!Oh ! gran sol de mi destino
¡Oh! Si tu rodar parara
que sería de mi trino
si yo, ya no te cantara.

===================
Uma Trova sobre Saudade, de Fortaleza/CE

NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO

Saudades da meninice
eu sinto, sempre que vejo
meus netos em peraltice,
e, não tem jeito: marejo!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

CÍCERO ACAYABA
Cambuquira/MG = 1925 – 2009

– “Eu volto um dia” – juraste.
– “Não te espero” – me zanguei…
– “Mentiste: nunca voltaste…
Menti: eu sempre esperei…”
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

O mar nos deu a receita
de um viver sábio e profundo:
sendo salgado, ele aceita
as águas doces do mundo!
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Um Haicai de Santa Maria/RS

MARCELO DE ANDRADE BRUM

Noite de inverno
a lua brilha despida
na face do lago
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
O Que Passou, Passou

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a crônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Ó meu amor! Ó saudade!
– E eu não sabia que amor
era uma felicidade
disfarçada numa dor.
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O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
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Uma Poesia de Juiz de Fora/MG

CECY BARBOSA CAMPOS
Álbum

Desfolhando o velho álbum de retratos,
que jazia abandonado em alguma prateleira,
relembrei pessoas, que estavam esquecidas,
e não reconheci imagens que eram minhas.
O tom amarelado esmaecia
sorrisos jovens que ficaram tristes:
tirava o viço de vidas tão distantes
e que, um dia, foram parte de minha vida.
Entre as velhas amizades retratadas,
revi amigos dos quais eu lembro os nomes
e outros, dos quais, nada mais resta,
porque ficaram perdidos pelo tempo.
Ao contemplar aquelas fotos desbotadas,
vou rejuntando, aos poucos, os pedaços
de uma história que nem sei se já vivi.
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O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935
Não Sei Quantas Almas Tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que so que não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.
========================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ARMANDO SILVA CARVALHO
A Chave Inglesa

Era um corpo inteiramente
português.
Transido de ternura
o óleo das suas mãos
protegia-me
o coração.

 Não sei que mecanismo
despertava em si
quando chorava,
fazia crescer a relva,
meus dentes indecisos
como crias
corriam e devoravam.

 Escreveu-me duas cartas
em cima de um tractor
e nelas descrevia
em frases simples
o modo tortuoso
que me fez traidor.
========================
Um Soneto de São Paulo/SP

MÁRCIA SANCHEZ LUZ
Sonho Alado

Ele fugia a cada passo dado
por mim em direção ao seu encontro;
quando por vezes eu lhe dava os ombros,
voltava a me chamar para o seu lado.

Ele dizia estar apaixonado,
eu respondia assim, logo de pronto,
que parecia mais um reencontro
de duas vidas, de um sonhar alado.

Logo passamos a nos convencer
que o que deixamos era pra ficar
entre nós dois, como um selado pacto

de confidências sobre o abstrato,
eterno e transcendente renascer
de corações e flores a brilhar.
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

YVES NAMUR
Nanur/Bélgica – 1952
Figuras do muito obscuro (I)

Evita pois
Olhar no seio do visível

 E
Antes vê as coisas que não vês
E tudo isso que não ouves.

 Pois é aí,
Ao centro de “Nenhures”,
Que sempre o coração vai ter

 E
O passo do inesperado.
——————

Porquê obstinarmo-nos a chamar ainda
Aquele que o não pode ser

E
Nunca há-de poder regressar?

 Se não fosse para aumentar o vazio
E a nossa necessidade de ser na imensidão?
(Tradução: Fernando Eduardo Carita)
=====================
Um Poetrix do Rio Grande do Sul

ENEU BERNI
comadrices

Calçadas antigas
Tricôs
Pequenas intrigas
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no mei do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
========================
UniVersos Melodicos

VALFRIDO SILVA
Quero morrer cantando (samba, 1934)

Quero morrer cantando um samba
No meio de uma roda bamba
Quero zombar da própria morte
Cercado das pequenas
Que me deram inspiração e forte

No outro mundo
Vão me rir e caçoar
E decida se matando em trabalhar
Pensando somente na riqueza
Sendo a vida mergulhada
Mergulhada na tristeza

Quero morrer cantando um samba
No meio de uma roda bamba
Quero zombar da própria morte
Cercado das pequenas
Que me deram inspiração e forte
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

CASTANHA LIGEIRA

É uma roda de meninas, com uma no meio.
Cantam todas, enquanto passam de mão em mão, sem que veja a do centro, uma castanha:

Castanha ligeira
Que vem do Pará
No meio da roda
Ninguém te achará
Roda, castanha
E torna a rodar
No meio da roda
Ninguém te achará

Enquanto cantam, a menina do meio vai procurando a castanha nas mãos das amiguinhas, até achá-la.
A que for encontrada com a castanha, passa então a ficar sozinha na roda, na vez seguinte.

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953

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José Feldman (Universo de Versos n. 64)


Uma Trova do Paraná

NAIARA MILCA DA SILVA – Curitiba

Na vida, lâmpada acesa;
morte, lâmpada apagada.
Com a vida, mais clareza,
na morte, porta fechada.
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

RENATO ALVES

Eu peço a Deus que a Esperança
nunca venha a ter um fim,
que sempre alimente a criança
que mora dentro de mim!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Caicó/RN

DJALMA MOTA

Inútil, desagradável,
tornar alguém diferente,
para que seja ajustável
aos interesses da gente.
=======================
Uma Trova Humorística, de Minas Gerais

FRANCISCO A. MENESES

O amor de uma mulher,
a segunda vez casada
é como um vinho qualquer,
em garrafa mal lavada.
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Depois que chove na mata,
a lua, de luz acesa;
pinta as folhas cor de prata
com tintas da Natureza.
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

KARINA MARIÁNGELES

¡Que amanezcan muchos soles!
porque yo he encontrado,
cantando en mis arreboles,
la voz de mi dulce amado.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Ponta  Grossa/PR

MARIA HELENA OLIVEIRA COSTA

Na saudade eu julgo ver
uma inversão de caminhos:
água passada a mover
os meus internos moinhos …
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ADALBERTO DUTRA RESENDE
Bandeirantes/PR = 1913 – 1999

Quem seu ciúme proclama,
fazendo questão de expô-lo,
insulta aquela a quem ama,
e ainda faz papel de tolo…
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

A estrela d’alva cintila.
pássaros deixam seus ninhos…
E a madrugada, tranquila,
toma conta dos caminhos…
========================
Um Haicai de São Paulo/SP

H. MASUDA GOGA
(Shuichi Masuda)
1929 – 2008

Passa pelos pampas
o carro-de-boi cantando…
Que dia gélido!
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

não possa tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre uma onda
e outra onda
no oceano dos lençóis
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Essa tua boniteza,
não tem, no mundo, rival.
– Pastora da minha Festa,
– Meu presépio de Natal!
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)

Não Sei
Não sei… se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura… Enquanto durar”
==============================
Uma Poesia de Brasília/DF

VÂNIA M. DINIZ
Ternura

O olhar era intenso,
Como brilhantes faiscantes,
Admiráveis,
Imutáveis.

Havia neles,
Mais do que o brilho,
O regozijo pela vida,
E o fulgor da esperança.

Fixavam um ponto distante,
Como perdidos no sonho,
Quimeras incandescentes,
De longa duração.

Nada parecia irreal,
Na intensidade do momento,
Refletido em soberbas pupilas.

Sinônimo era ternura,
Da expressão a mais linda,
Que enxerguei um dia…
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935
Vendaval

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles — teu pulso divida
Minh’alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar –
Fosse pr’onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver –
Porque é que não entras no meu penssamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais’scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
========================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ANTÓNIO BARAHONA
Naufrágio

Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

De bruços
aos fundos do oceano
eu prisioneiro das redes
no pensamento dos peixes
========================
Um Soneto de Curitiba/PR

EDIVAL PERRINI
(Edival Antonio Lessnau Perrini)
Proa

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Que venham as tormentas, que venha o que vier,
tenho o sonho comigo, o sonho é meu pastor.

O mundo da aparência não me engolirá.
Conheço bem suas manhas, meu ofício é interior:
girassol que é girassol tem proa pro amanhecer.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via-láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.

Ou eu busco a verdade ou ela não me achará.
Minha verdade, o sonho, é pomar e é brasão.
Seu universo, os versos, fio do sim e do não.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Encontro nele a luz, meu alimento e cor.
Que escorra a ampulheta, o sonho é meu pastor.
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

LUCIAN BLAGA
Lancram/Rumenia = 1895 – 1961
AOS LEITORES

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim com colméias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre as grades
e esperam que eu fale.  … Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso… deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.
(tradução: Caetano Waldrigues Galindo)
=====================
Um Poetrix do Rio de Janeiro

RICARDO ALFAYA
exposição

Enxugo dilemas
No varal, toalhas
Manchadas de poemas.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Não Passou

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realemente.
É tudo ilusão de ter passado.
========================
UniVersos Melodicos

NOEL ROSA e KID PEPE
O Orvalho Vem Caindo
(samba, 1934)

Do romântico Agora é cinza ao espirituoso O orvalho vem caindo o repertório do carnaval de 34 ofereceu opções para todos os gostos. Explorando um estilo que lhe rendera o bem sucedido Com que Roupa?, Noel Rosa apresenta aqui um personagem boêmio que dorme ao relento, passa mal e canta a própria miséria de forma engraçada, parecendo não ligar para o azar.

Mas este samba curioso tem em sua história um enigma jamais esclarecido: por que razão Kid Pepe – que até tinha fama de falso compositor entrou na parceria? Entrevistado na época sobre o assunto, Noel desconversou: “Não devemos dizer. É segredo nosso”.

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá no céu

Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal

Meu cortinado é o vasto céu de anil
E o meu despertador é o guarda civil
Que o salário ainda não viu –

ESTRIBILHO

O meu chapéu vai de mal a pior
E o meu terno pertenceu a um defunto maior
Dez tostões no Belchior –

ESTRIBILHO

A minha sopa não tem gosto, nem tem sal
Se um dia passo bem, dois e três passo mal
Isto é muito natural

ESTRIBILHO

A minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar quem descasque por mim
Vivo triste mesmo assim

ESTRIBILHO

(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

A ÁRVORE DA MONTANHA
1958

Refrão:
A árvore da montanha
Olê aí a ô (4x)

Nesta árvore tem um galho
Ó que galho!
Belo galho!
Ai ai ai que amor de galho
O galho da árvore
Neste galho tem um ninho
Ó que ninho!
Belo ninho!
Ai ai ai que amor de ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Neste ninho tem um ovo
Ó que ovo!
 Belo ovo!
Ai Ai Ai que amor de ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Neste ovo tem um pássaro
Ó que pássaro!
 Belo pássaro!
Ai ai ai que amor de pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
 O galho da árvore

Nesse pássaro tem uma pena
Ó que pena!
Bela pena!
Ai ai ai que amor de pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nessa pena tem uma flecha
Ó que flecha!
Bela flecha!
Ai ai ai que amor de flecha
A flecha da pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nessa flecha tem uma fruta
Ó Que fruta!
Bela fruta!
Ai ai ai que amor de fruta
A fruta da flecha
A flecha da pena
A pena do pássaro
 O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nessa fruta tem uma árvore
Ó Que árvore!
Bela árvore!
Ai ai ai que amor de árvore
A árvore da fruta
A fruta da flecha
A flecha da pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 3

Entre os novos alunos, que entraram no seguinte ano para o colégio do Dr. Mosquito, vinha um, que se chamava Teobaldo Henrique de Albuquerque. Menino de doze anos, muito bonito, elegante e criado com mimo. Falava melhor o inglês e o francês do que a sua própria língua, porque estivera mais tempo em Londres do que no Brasil.

O tipo desta criança fazia um verdadeiro contraste com o do Coruja. Era débil, espigado, de uma palidez de mulher; olhos negros, pestanudos, boca fidalga e desdenhosa, principalmente quando sorria e mostrava a pérola dos dentes. Todo ele estava a respirar uma educação dispendiosa; sentia-se-lhe o dinheiro na excelência das roupas, na delicada escolha de perfumes que a família lhe dava para o cabelo e para o lenço, como em tudo de que se compunha o seu rico enxoval de pensionista.

Criança como era, já falava de coisas que o outro nem sonhava ainda; tinha já predileções e esquisitices de gosto; discutia prazeres, criticava mulheres e zombava dos professores sem que estes aliás se dessem por achados, em razão dos obséquios pecuniários que o colégio devia ao pai de Teobaldo, o Sr. Barão do Palmar. Não obstante, esses mesmos dotes e mais sua estroinice de menino caprichoso, sua altivez natural e adquirida por educação abriam em torno dele o ódio ou a inveja da maior parte dos condiscípulos. Logo ao entrar no colégio, fizera muitos inimigos e, pouco depois, era tido e julgado como o mais embirrante e o mais insuportável entre todos os alunos do Dr. Mosquito.

Não lhe perdoavam ser ao mesmo tempo tão rico, tão formoso, tão inteligente e tão gentilmente vadio. Além de tudo isso, como se tanto já não bastava, havia ainda para o fazer malquisto dos companheiros aquela escandalosa proteção que lhe votavam os professores, apesar da formidável impertinência do rapaz. Em verdade a todos falava. Teobaldo com uma sobranceria ofensiva e provocadora. No seu modo de olhar, no tom da sua voz, no desdém de seus gestos, sentia-se a uma légua de distância o hábito de mandar e ser obedecido.

Esta constante arrogância, levava ao supremo grau, afastou de junto dele todos os seus condiscípulos. Mas o orgulhoso não parecia impressionar-se com o isolamento a que o condenavam as suas maneiras, e, se o sentia, não deixava transparecer em nenhum dos gestos a menor sombra de desgosto. Ninguém o queria para amigo.

Um domingo, porém, ao terminar o almoço, ouviu dentre um certo grupo de seus colegas uma palavra de ofensa, que lhe era dirigida. Voltou-se e, apertando os olhos com um ar mais insolente que nunca, exclamou para o grupo:

— Aquele de vocês que me insultou, se não é um covarde, apresente-se! Estou disposto a dar-lhe na cara!

Ninguém respondeu.

Teobaldo franziu o lábio com tédio e, atirando ao grupo inteiro, por cima do ombro, um olhar de desprezo, afastou-se. dizendo entredentes:

— Canalha!

Mas, ao chegar pouco depois à chácara, seis meninos dos mais fortes dos que compunham o grupo, aproximaram-se dele e exigiram que Teobaldo sustentasse o que havia dito no salão.

Teobaldo virou-lhes as costas e os seis iam precipitar-se sobre ele, quando o Coruja, que tudo presenciara a certa distância, de um pulo tomou-lhes a frente e os destroçou a murros.

Acudiu o inspetor, fez cessar a briga e, tomando o Coruja pelo braço, levou-o à presença do Dr. Mosquito.

Teobaldo acompanhou-o.

Exposto o ocorrido, foi o Coruja interrogado e confessou que era tudo verdade: “Batera em alguns de seus companheiros”.

— Pois então recolham-no ao quarto do castigo, disse o diretor. Passará aí o domingo, fazendo considerações sobre o inconveniente das bravatas!

— Perdão! Observou Teobaldo; quem tem de sofrer esse castigo sou eu! Fui o causador único da desordem. Este menino não tem a menor culpa!

E apontou para o Coruja.

— Ó senhores! Pois se eu o vi atracando-se aos outros, como um demônio! exclamou o inspetor.

— E ele próprio o confessa… Acrescentou o diretor. Vamos! Cumpra-se a ordem que dei!

— Nesse caso eu também serei preso, respondeu Teobaldo.

E tão resolutamente acompanhou o colega, que ninguém o deteve. Foram recolhidos à mesma prisão, e desta vez, graças à influência de Teobaldo, o outro, além de não ter de gramar o escuro, recebeu licença para levar consigo alguns livros e a flauta que lhe emprestara o Caixa-d’óculos.

Logo que os dois meninos se acharam a sós, Teobaldo foi ter com o Coruja e disse, apertando-lhe a mão:

— Obrigado.

André fez um gesto com a cabeça, equivalente a estas palavras: “Não tem que agradecer, porque o mesmo faria por qualquer criatura”. Se o senhor fazia parte do grupo que insultei, volveu Teobaldo, peço-lhe desculpa.

— Não fazia, respondeu o outro, dispondo-se a entregar-se de corpo e alma à sua ingrata flauta.

Felizmente para o colega, foram interrompidos por uma pancada na porta. Teobaldo correu a receber quem batia, e soltou logo uma exclamação de prazer:

— Oh! Você, Caetano! Como estão todos lá e casa? Mamãe está melhor? E papai, papai que faz que não vem me ver, como prometeu?

Caetano, em vez de responder, pousou no chão uma cesta que trazia, e abriu os braços para o menino, deixa do correr pelo sorriso de seu rosto duas lágrimas de ternura que se lhe escapavam dos olhos.

Era um homem de meia idade, alto, magro, de cabelos grisalhos, à escovinha, cara toda raspada; e tão simpático, tão bom de fisionomia, que a gente gostava dele à primeira vista. Trajava uma libré cor de rapé, com botões de latão e alamares de veludo preto.

Caetano entrara muito criança para o serviço do avô de Teobaldo, pouco antes do nascimento do pai deste, nunca mais abandonou essa família, da qual mais adiante teremos de falar, e por onde se poderão avaliar os laços de velha amizade que ligavam aquele respeitoso criado ao neto de seu primeiro amo. Por enquanto diremos apenas que o bom Caetano. viu crescer ao seu lado o pai de Teobaldo; que o acompanhou tanto nas suas primeiras correrias de rapaz, como mais tarde nas suas aventuras políticas durante as revoluções de Minas; e que a intimidade entre esses dois companheiros por tal forma os identificou, que afinal criado era já consultado e ouvido como um verdadeiro membro e amigo da família a que se dedicara.

— Mas, Caetano, que diabo veio você fazer aqui? Perguntou Teobaldo. Há novidade lá por casa? Fale; Mamãe piorou?

— Não; graças a Deus não há novidade. A senhora baronesa não piorou, e parece até que vai melhor; o que ela tem é muitas saudades de vossemecê.

— E papai, está bom?

— Nhô-Miló (era assim que chamava o amo) está bom, graças a Deus. Foi ele quem me mandou cá. Vim trazer um dinheiro ao doutor.

— Ah! Ao diretor? Quanto foi?

— Trezentos mil réis.

— Seriam emprestados, sabes?

— Creio que sim, porque trouxe uma letra que tem de voltar assinada…

— E isso que trazes aí no cesto é para mim?

— É, sim senhor. É a senhora baronesa quem manda.

Teobaldo apressou-se a despejar a cesta. Vinham doces, queijo, nozes, figos secos, passas, amêndoas, frutas cristalizadas e uma garrafa de vinho Madeira.

— Isto é que é pouco; devia ter vindo mais… Considerou ele, pousando a garrafa no chão.

— Pois fique sabendo que, se não fosse Nhô-Miló, nem essa teria vindo… A senhora baronesa chegou a zangar-se com ele.

E, mudando de tom:

— Mas é verdade, vossemecê está preso?

— Qual! Estou aqui porque assim o quis.

Em quatro palavras Teobaldo contou o motivo da sua prisão.

— Ah! Disse o criado, vossemecê é seu pai, sem tirar nem pôr!

— Sim, mas não contes nada em casa…

— Não há novidade, não senhor!

E, depois de conversarem ainda mais alguma coisa, Caetano abraçou de novo o rapaz, despediu-se do outro e retirou-se, pretextando que não convinha demorar-se para não chegar muito tarde à fazenda.

Outra vez fechada a prisão, Teobaldo, restituído ao seu bom humor com o presente da família, voltou-se, já risonho, para o companheiro e disse, batendo-lhe no ombro:

— Ao menos temos aqui com que entreter os queixos. E, dispondo tudo sobre uma cadeira, principiou a expor o conteúdo dos pacotes e das caixinhas de doce: Felizmente a garrafa está aberta e o púcaro d’água serve para beber vinho. Não acha que isto veio a propósito?

— É, resmungou o Coruja.

— Pois então, mãos à obra! Gosta de vinho?

— Não sei…

— Como não sabe?

— Nunca provei.

— Nunca? Oh!

— É exato.

— Pois experimente. Há de gostar.

André entornou no púcaro três dedos de vinho e bebeu-o de um trago.

— Que tal? Perguntou o outro fazendo o mesmo.

— É bom! Disse Coruja a estalar a língua.

— Com um pouco de queijo e doce ainda é melhor, atire-se!

André não se fez rogado, e os dois meninos, em face um do outro, puseram-se a petiscar, como bons amigos. Teobaldo, porém, depois de repetir várias vezes a dose do vinho, precisava dar expansão ao seu gênio comentador e satírico; ao passo que o companheiro saboreava em silêncio aqueles delicados pitéus, que chamavam ao mal confortado paladar delícias inteiramente novas e desconhecidas para ele. E contentava-se a resmungar, de vez em quando:

— É muito bom? É muito bom!

— Pois eu, sempre que receber presentes lá de e prometeu o outro, hei de chamá-lo para participar deles. Está dito?

— Está.

— Você chama-se…

— André.

— De…

— Miranda.

— André Miranda.

— De Melo.

— Ah!

— E Costa.

— Não sabia. Como todos no colégio só o tratam por “Coruja”…

— É alcunha.

— Foi aqui que lha puseram?

— Foi.

— Por quê?

— Porque eu sou feio.

— E não fica zangado quando lhe chamam assim?

— Não.

— Eu também faria o mesmo, se me pusessem alguma. Os nossos colegas são todos uns pedaços dasnos, não acha?

Coruja sacudiu os ombros e Teobaldo, um pouco agitado pelo Madeira, começou a desabafar todo o ressentimento que até ai reprimia com tanto orgulho.

Falou francamente, queixou-se dos companheiros, julgou-os a um por um, provando
que eram todos aduladores e invejosos.

— Não quero saber deles para nada! Exclamou indignado. Você é o único com que me darei!

E, muito loquaz e vário, passou logo a falar dos colégios europeus, do modo pelo qual aí se tratavam entre si os estudantes, dos modos de brincar, de estudar em comum, do modo, enfim, pelo qual se protegiam e estimavam.
–––––––––-
continua…

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José Feldman (Universo de Versos n. 63)


Uma Trova do Paraná

MANUEL MARIA – Curitiba

Antes, em minha agonia,
aguardava o teu chamado,
mas agora eu só queria
meu telefone calado…
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Porto Alegre/RS

DELCY CANALLES

Esperança, este meu ego,
está sempre a te esperar!
Volta depressa, pois cego,
não sei se vai te encontrar!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Magé/RJ

REGINA CÉLIA ANDRADE

O criador do universo
tendo o belo como tema,
pôs em cada estrela um verso
e fez da noite um poema.
=======================
Uma Trova Humorística, de Paranaguá/PR

SWAMI VIVEKANANDA

É próprio do brasileiro
nas coisas dar um “jeitinho”.
Faz bagunça o dia inteiro
mas em casa vira “anjinho”.
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Da ingratidão praticada
eu tirei uma lição:
Perdoar, não pesa nada,
pesado…É pedir perdão!
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

MARIA CRISTINA FERVIER

¡Brasil qué lejos estás,
la tierra de mis amores!
En mis adentros brotás
las saudades que son flores.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Bauru/SP

ERCY MARIA MARQUES DE FARIA

Ó Saudade, hoje me provas
que és a melhor das amigas,
porque fazes sempre novas
minhas saudades antigas…
========================
Trovadores que deixaram Saudades

EVANGELINA MAIA CAVALCANTI
Recife/PE

Tenho o coração ferido
pela tua ingratidão.
Antes tivesse nascido
como tu, sem coração!
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Depois de tão longa ausência,
pelo mundo andando ao léu,
voltando à minha querência
parecia entrar no céu…
========================
Um Haicai de São Paulo

EDSON KENJI IURA


Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


o mar o azul o sábado
liguei pro céu
mas dava sempre ocupado
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

A imagem de nossas almas
está nas águas profundas,
quanto mais tristes, mais calmas;
quanto mais calmas, mais fundas.
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Mãe


 Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições…
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.
==============================
Uma Poesia de Moji-Guaçu/SP

OLIVALDO JUNIOR
O Louco


Deu a louca no louco,
e ele se pôs no quintal:
imagina que é outro.

A cara do louco tem cara
de todo mundo que passa.

Para o louco, tudo tem graça.

A graça do louco tem ares
de todo louco que empaca.

Para o louco, nunca tem maca.
Então, como se fosse costume,
ele vira um canário, que vira
uma flor, que vira uma nuvem,
e o dia, louco, passa e desvira
o pobre louco em vaga-lume.

Deu a louca no louco,
e ele se pôs no quintal:
imagina que é louco.
========================
Um Soneto Decassílabo Heróico, de Fortaleza/CE

CABEÇA DE POETA
Soneto à Herbene


No teu sorriso um dom, graça divina.
Olhos da cor de anil, canto pueril.
Aveludada pele de menina,
Exuberante riso, infantil.

Tu és entre as estrelas a mais brilhante,
Voz limpa e terna lembro o teu cantar,
Mas… veio a foice, a morte, penetrante,
Levou-te, lamentável naufragar.

Tu fostes uma criança em tua vida,
Doastes como mãe um amor profuso,
Renascestes, uma flor, em meu jardim.

Te fiz este poema, despedida,
Cantando esse amor, de luz difusa,
Para cantarmos junto aos Querubins.
========================
Uma Poesia de Portugal

JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
Os Versos Guardados


Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

como lençóis de seda fina
ou anel de noivado

como guarda o pobre
as migalhas que não come

como guarda a menina
a boneca antiga

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

pelo tempo fora
o tempo todo

caminhando descalço
sobre um rio
de lume

ou lodo
========================
Um Soneto de Petrópolis/RJ

RAUL DE LEONI
1895– 1926

Legenda dos Dias

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não veio hoje, virá na outra jornada…”

Ontem, hoje, amanhã, depois, e assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera…

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

IVAN LAUCIK
Liptov/Eslováquia 1944 – 2004
Anotação de Fim de Tarde


 Nada importa, dizem-te pela manhã:
E tu (vês-te obrigado) duvidas destas palavras todo o dia.

Resiste, entretém os peixes,
canta-lhes em voz alta sobre a ponte…
Os momentos de alegria quase te envergonham:
As distâncias convenientes, relações de altura e profundidade,
os invernos curtos, vento em conta para os moínhos –
e um tempo longo coberto
de ornamentos de ferro!
(Os livros de Lógica estão gastos
pelas mãos e pelo suor!)

Alguém que ouve mal embriaga-se de palavras:
o futuro pertence apenas aos helicópteros silenciosos,
capazes de aterrar na palma da mão.
(Haverá palma da mão?) E continua em sonhos
a separar-se o comestível do que não presta.

Sim, chegam-nos plantas cheias de entusiasmo.
Mas não é por isso que a folha artificial é menos verde.

Assim os incrédulos valorizam a fé.
Os infalíveis esperam ser salvos pelos nossos erros.
Os vivos sabem
que tudo importa
desde manhã.
=====================
Um Poetrix de Belo Horizonte/MG

SILVANA GUIMARÃES
oh jardineira


eu vou te contar um caso:
o vaso ruim quebrou,
mas sobrou eu, seja como flor.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Meninos Suicidas


Um acabar seco, sem eco,
de papel rasgado
(nem sequer escrito):
assim nos deixaram antes
que pudéssemos decifrá-los,
ao menos, ao menos isso,
já não digo… amá-los.

Assim nos deixaram e se deixaram
ir sem confiar-nos um traço
retorcido ou reto de passagem:
pisando sem pés em chão de fumo,
rindo talvez de sua esbatida
miragem.

Não se feriram no próprio corpo,
mas neste em que sobrevivemos.
Em nosso peito as punhaladas
sem marca – sem sangue – até sem dor
contam que nós é que morremos
e são eles que nos mataram.
========================
UniVersos Melodicos

CUSTÓDIO MESQUITA
Se a lua contasse
(marcha/carnaval, 1934)


Se a lua contasse
Tudo o que vê
De mim e de você
Muito teria o que contar
Contaria que nos viu brigando
E viu você— chorando
Me pedindo pra voltar

Somente a lua foi testemunha
Daquele beijo sensacional
Nesse momento foi tal o enlevo
Que a própria lua sentiu-se mal

Só as estrelas que cintilavam
Hoje dão conta do que se viu
-Contam que a lua foi desmaiando
Caiu nas ondas, boiou. . . sumiu
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

DE ABÓBORA FAZ MELÃO
26 Cantigas de Roda


Da abóbora faz melão
Do melão faz melancia
Da abóbora faz melão
Do melão faz melancia
Faz doce, sinhá
Faz doce, sinhá
Faz doce, sinhá Maria

Quem quiser dançar
Vai na casa do Juquinha
Quem quiser dançar
Vai na casa do Juquinha
Ele pula, ele roda
Ele faz requebradinha
Ele pula, ele roda
Ele faz requebradinha

Uma roda de crianças, com uma delas no centro. No momento em que cantam “faz doce, sinhá”, a criança que está no centro faz um gesto como se estivesse mexendo uma panela. Em “quem quiser dançar”, ela escolhe uma criança da roda, leva-a para o centro e as duas dançam juntas, obedecendo aos comandos “ele pula, ele roda, ele faz requebradinha”. Ao recomeçar a canção, as duas crianças que estão no centro escolhem mais duas e assim por diante, até que todas entrem na roda

Outra versão:

De abóbora faz melão
De melão faz melancia (bis)

Faz doce, Sinhá, faz doce, Sinhá
Faz doce de maracujá (bis)

Quem quiser aprender a dançar
Vai na casa do Juquinha (bis)

Ele pula, ele roda,
Ele faz requebradinha (bis)

(Fonte: Cifrantiga)

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 2

Dormindo conseguiu o que não fizera acordado: seu roncos foram ouvidos pelo inspetor do colégio, e, daí a pouco André, sem dar ainda acordo de si, era conduzido à mesa do refeitório, onde ia servir-se o chá. Seu tipo, já de natural estranho, agora parecia fantástico sob a impressão do estremunhamento; e os estudantes, que o observavam em silêncio, abriram todos a rir, quando viram o inesperado colega atirar-se ao prato de pão com uma voracidade canina.

Mas André pouco se incomodou com isso e continuou a comer sofregamente, no meio das gargalhadas dos rapazes e dos gritos do inspetor que, sem ele próprio conter o riso, procurava chamá-los a ordem.

Por estes fatos apenas fez-se notar a sua entrada no colégio, visto que ele, depois da ceia, recolheu-se ao dormitório e acordou no dia seguinte, ao primeiro toque da sineta, sem ter trocado meia palavra com um só de seus companheiros.

Não procuravam as suas relações, nem ele as de ninguém, e, apesar das vaias e das repetidas pilhérias dos colegas, teria passado tranqüilamente os primeiros dias da sua nova existência, se um incidente desagradável não o viesse perturbar. Havia no colégio um rapaz, que exercia sobre outros certa superioridade, nem só porque era dos mais velhos, como pelo seu gênio brigador e arrogante. Chamava-se Fonseca e os companheiros o temiam a ponto de nem se animarem a fazer contra ele qualquer queixa ao diretor.

André atravessava numa ocasião o pátio do recreio, quando ouviu gritar atrás de si Ó Coruja!

Não fez caso. Estava já habituado a ser escarnecido, e tinha por costume deixar que a zombaria o perseguisse à vontade, até que ela cansasse e por si mesma se retraísse.

Mas o Fonseca, vendo que não conseguira nada com a palavra, correu na pista de André e ferrou-lhe um pontapé por detrás. O pequeno voltou-se e arremeteu com tal fúria contra o agressor, que o lançou por terra. O Fonseca pretendeu reagir, mas o outro o segurou entre as pernas e os braços, tirando-lhe toda a ação do corpo.

Veio logo o inspetor, separou-os e, tendo ouvido as razões do Fonseca e dos outros meninos que presenciaram o fato, conduziu André para um quarto escuro, no qual teve o pequeno esse dia de passar todos os intervalos das aulas. Sofreu a castigo e as acusações dos companheiros, sem o menor protesto e, quando se viu em liberdade, não mostrou por pessoa alguma o mais ligeiro ressentimento.

Depois deste fato, os colegas deram todavia em olhá-lo com certo respeito, e só pelas costas o ridicularizavam. Às vezes, do fundo de um corredor ou do meio de grupo, ouvia gritar em voz disfarçada:

— Olha o filhote do padre Olha o Coruja!

Ele, porém, fingia não dar por isso e afastava-se em silêncio. Quanto ao mais, raramente comparecia ao recreio e apresentava-se nas aulas sempre com a lição na ponta da língua.

No fim de pouco tempo, os próprios mestres participavam do vago respeito que ele impunha a todos; posto que estivessem bem longe de simpatizar com desgracioso pequeno, apreciavam-lhe a precoce austeridade de costumes e o seu admirável esforço pelo trabalho. Uma das particularidades de sua conduta, que mais impressionava aos professores, era a de que, apesar constante mal que lhe desejavam fazer os colegas, jamais se queixava de nenhum, e tratava-os a todos mesma forma que tratava ao diretor e aos lentes isto com a mesma sobriedade de palavras e a mesma frieza de gestos.

Em geral, era por ocasião da mesa que as indiretas dos seus condiscípulos mais se assanhavam contra O Coruja, como já todos lhe chamavam, não tinha graça nem distinção no comer; comia muito e sofregamente com o rosto tão chegado ao prato que parecia que apanhar os bocados com os dentes.

Coitado! Além do rico apetite de que dispunha, não recebia, à semelhança dos outros meninos, presentes de doce, requeijão e frutas que lhes mandavam competentes famílias; não andava a paparicar durante dia como os outros; de sorte que, à hora oficial da comida, devorava tudo que lhe punham no prato, sem torcer o nariz a coisa alguma.

Um dia, porque ele, depois de comer ao jantar todo o seu pão, pediu que lhe dessem outro, a mesa inteira rebentou em gargalhadas; mas o Coruja não se alterou e fez questão de que daí em diante lhe depusesse ao lado do prato dois pães em vez de um!

— Muito bem! Considerou o diretor.— É dos tais que paga por meio e come por dois! Seja tudo por amor de Deus!
CAPÍTULO III
Assim ia vivendo o Coruja, desestimado e desprotegido no colégio, e corno que formando na sua esquisitice uma ilha completamente isolada dos bons e dos maus exemplos, que em torno dele se agitavam.

Dir-se-ia que nascera encascado em grossa armadura de indiferença, contra a qual se despedaçavam as várias manifestações do meio em que vivia, sem que elas jamais conseguissem lhe corromper o ânimo. A tudo e a todas parecia estranho, corno se naquele coração, ainda tão novo, já não houvesse unia só fibra intacta. E, todavia, nenhum dos companheiros seria capaz de maltratar em presença dele um dos mais pequenos do colégio, sem que o esquisitão tomasse imediatamente a defesa do mais fraco. Não consentia igualmente que fizessem mal aos animais, e muita vez o encontraram acocorado sobre a terra protegendo um mesquinho réptil, ou lhe enxergavam vivos sinais de ameaças em favor de alguma pobre borboleta perseguida pelos estudantes.

Na sua mística afeição aos fracos e indefesos, chegava a acarinhar as árvores e plantas do jardim e sentia-se vê-las mal amparadas na hora do recreio. Não reconhecia em ninguém o direito de separar uma flor da haste em que nascera ou encarcerar na gaiola um mísero passarinho. E tudo isso era feto e praticado naturalmente, sem as tredas aparências de quem deseja constituir-se em modelo de bondade. Tanto assim, que tais coisas só foram deveras percebidas por um antigo criado da casa, o Militão, a quem os meninos alcunharam por pilhérias de “Dr. Caixa-d’óculos”.

O Caixa-d’óculos era nada mais do que um triste velhote de cinqüenta a sessenta anos, vindo em pequeno das ilhas e que aqui percorrera a tortuosa escala das ocupações sem futuro. Fora porteiro de diversas ordens religiosas, moço de câmara a bordo de vários navios, depois permanente de polícia, em seguida sacristão e criado de um cônego, depois moço de hotel, bilheteiro num teatro, copeiro em casa de um titular e afinal, para descansar, criado no colégio em que se achava o Coruja.

De tal peregrinação apenas lhe ficara um desgosto surdo pela existência, um vago e triste malquerer pelos fortes e pelos vitoriosos. E foi por isso que ele simpatizou com o Coruja; porque o supunha ainda mais desprotegido e ainda mais desarmado do que ele próprio. Era, enfim, o único em quem o pequeno do padre, durante o seu primeiro ano de colegial, nem sempre encontrara o desprezo e a má vontade. Vindas as férias, o Revmo. João Estêvão, a pretexto de que o pupilo lucraria mais ficando no colégio do que indo para casa, escreveu a esse respeito ao Dr. Mosquito, e bem contra a vontade deste, o pequeno por lá ficou.

André recebeu a notícia, como se já a esperasse, e viu, sem o menor sintoma de desgosto, partirem, pouco a pouco, todos os seus companheiros. Destes, a alguns vinham buscar os próprios pais e as próprias mães: e, ali, entre as frias paredes do internato, ouviam-se durante muitos dias, quentes palavras de ternura, e sentiam-se estalar beijos de amor, por entre lágrimas de saudade. Só ele, o Coruja, não teve nada disso.

Viu despovoar-se aos poucos o colégio; retirarem-se os professores, os empregados, e afinal o último colega que restava. E então julgou-se de todos só e abandonado como uma pobre andorinha que não pudesse embandar-se à revoada das companheiras.

Só, completamente só.

É verdade que o diretor ocupava o segundo andar com a família, isto é, com a mulher e duas filhas ainda pequenas; mas as férias aproveitavam eles para os seus passeios, e além disso, o Coruja só poderia procurá-los à hora das refeições. Embaixo ficaram apenas o hortelão e o Caixa-d’óculos.

André pediu licença ao diretor para tomar parte no serviço da horta e obteve-a prontamente. Com que prazer não fazia ele esse trabalho todas as manhãs! Ainda o sol
não estava fora de todo e já o Coruja andava pela chácara, descalço, em mangas de camisa, calças arregaçadas, a regar as plantas e a remexer a terra. O hortelão, vendo o gosto que o ajudante tomava pelo serviço, aproveitava-o quanto podia e limitava-se a dirigi-lo.

— Ó Coruja, gritava-lhe ele, já em tom de ordem, a perna trançada e o cachimbo no canto da boca: — apara-me aí essa grama! Ou então: Remexe-me melhor aquele canteiro e borrifa-me um pouco mais a alface, que está a me parecer que levou pouca água!

As horas entre o almoço e o jantar dedicou-as o Coruja aos seus estudos, e às quatro da tarde descia de novo à chácara, onde encontrava invariavelmente o Caixa-d’óculos às voltas com uma pobre flauta, dentro da qual soprava ele o velho repertório das músicas de seu tempo.

Foi essa miserável flauta que acordou no coração de André o gosto pela música. Caixa-d’óculos deu por isso, arranjou um outro instrumento e propôs-lhe ministrar algumas lições ao pequeno. Esse aceitou com um reconhecimento muito digno de tão boa vontade, mas sem dúvida de melhor mestre, porque manda a verdade confessar que aquele não ofuscava a glória de nenhum dos inúmeros flautistas que ocupam a superfície da terra, contando mesmo os maus, os péssimos e os insuportáveis.

Mas o caso é que, depois disso, eles lá passavam as últimas horas da tarde, a duelarem-se furiosamente com as notas mais temíveis que um instrumento de sopro pode dardejar contra a paciência humana; e terminada a luta, recolhia-se André ao dormitório e pegava no sono até à madrugada seguinte.

As férias não lhe corriam por conseguinte tão contrárias, como era de supor, e só dois desgostos o atormentavam. Primeiro, não poder comprar uma flauta nova e boa; segundo, ver sempre fechada a biblioteca do Colégio.

Que curiosidade lhe fazia aquela biblioteca! Ele a rondava como um gato que fareja o guarda-comida; parecia sentir de fora o cheiro do que havia de mais apetitoso naquelas estantes, e, por seu maior tormento, bastava trepar-se a uma cadeira e espiar por cima da porta, para devassar perfeitamente a biblioteca.

Um suplício! Vinham-lhe até ímpetos de arrombar a fechadura; e, como consolação, passava horas esquecidas sobre a cadeira, na pontinha dos pés, a olhar de longe para os livros, procurando distinguir e ler o que diziam eles nas letras de ouro que expunham nas lombadas.

Alguns, então, lhe produziam verdadeiras angústias, principalmente os grandes, os de lombo muito largo, que aí estavam de costas, soberbos, como bojudos sábios, concentrados e adormecidos na sua ciência.

O Coruja tivera sempre um pendor muito particular por tudo aquilo que lhe cheirava a alfarrábio e línguas mortas. Adorava os livros velhos, em cuja leitura encontrasse dificuldades a vencer; gostava de cansar a inteligência na procura de explicação de qualquer ponto duvidoso ou de qualquer fosse sujeita a várias interpretações.

Já desde a casa do padre Estêvão que semelhante tendência se havia declarado nele. É que seu gênio retraído e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos submissos e generosos — os livros; esses faladores discretos, que podemos interromper à vontade e com os quais nos é permitido conversar dias inteiros, sem termos aliás obrigação de dar uma palavra.

Ora, para o André, que morria de amores pelo silêncio, isto devia ser o ideal das palestras. Além do que, à sua morosa e arrastada compreensão só o livro podia convir. O professor sempre se impacienta, quando tem de explicar qualquer coisa mais de uma vez; o livro não, o livro exige apenas a boa vontade de quem estuda, e no Coruja a boa vontade era justamente a qualidade mais perfeita e mais forte.

Um dia, o diretor, descendo inesperadamente ao primeiro andar, encontrou-o  tão embebido a espiar para dentro da biblioteca que se chegou a ele sem ser sentido e deu-lhe uma ligeira palmada no lugar que encontrou mais à mão. O Coruja, trepado às costas de uma cadeira e agarrado à bandeira da porta, virou-se muito vermelho e confuso, como se o tivessem surpreendido a cometer um crime.

— Que faz o senhor aí, seu Miranda?

— Olhava.

— Que olhava o senhor?

— Os livros.

O Dr. Mosquito encarou-o de alto a baixo, e, depois de medir um instante acrescentou:

— Vá lá acima e diga à mulher que mande as minhas chaves.

André saltou do seu observatório e apressou-se a dar cumprimento às ordens do diretor.

Este, logo que chegaram as chaves, abriu a biblioteca e entrou. O pequeno, à porta, invadiu-a com um olhar tão sôfrego e tão significativo, que o Dr. Mosquito o chamou e perguntou-lhe qual era o livro que tanto o Impressionara. André coçou a cabeça, hesitando, mas a sua fisionomia encarregou-se de responder, visto que o diretor, depois de lamentar com um gesto a grande quantidade de pó encamado sobre os livros, foi à fechadura, separou do molho de chaves a da biblioteca e disse, passando-lha:

— Durante o resto das férias, fica o senhor encarregado de cuidar destes livros e de fazer tudo isto arranjado e limpo. Quer?…

André sacudiu a cabeça afirmativamente e apoderou-se da chave com uma tal convicção, que o diretor não pôde deixar de rir.

Logo que se viu só, tratou de munir-se de um espanador e de um pano molhado, e, com o auxílio de uma escadinha que havia na biblioteca, principiou a grande limpeza dos livros. Não abriu nenhum deles, enquanto não deu por bem terminada a espanação. Metódico, como era, não gostava de entregar-se a qualquer coisa sem ter de antemão preparado o terreno para isso.

Oh! Mas quão diferente foi do que esperava a impressão recebida, quando se dispôs a usufruir do tesouro que lhe estava franqueado. Não sabia qual dos livros tomar de preferência; não conseguia ler de nenhum deles mais do que algumas frases soltas e apanhadas ao acaso. E, toda aquela sabedoria encadernada e silenciosa, toda aquela ciência desconhecida que ali estava, por tal forma o confundiu e perturbou que, no fim de alguns segundos de dolorosa hesitação, o Coruja como que sentia libertar-se dos volumes a alma de cada página para se refugiarem todas dentro da cabeça dele. Bem penosas foram as suas primeiras horas de biblioteca. O desgraçadinho quase que se arrependeu de havê-la conquistado com tanto empenho, e chegue a desejar que, em vez de tamanha fartura de livros, lhe tivessem franqueado apenas quatro ou cinco.

Mas veio-lhe em socorro uma idéia que, mal surgiu, começou logo por acentuar-se-lhe no espírito, como uma idéia de salvação. Era fazer um catálogo da biblioteca.

Esta luminosa idéia só por si o consolou de toda a sua decepção e de todo o seu vexame. Afigurava-se-lhe que, catalogando todos aqueles livros num só, vê-los-ia disciplinados e submissos ao seu governo. Entendeu que, por esse meio, tê-lo-ia a todos debaixo da vista, arregimentados na memória, podendo evocá-los pelos nomes, cada um por sua vez, como o inspetor do colégio fazia a chamada dos alunos ao abrir das aulas.

E o catálogo ficou sendo a sua idéia fixa.

Principiou a cuidar dele logo no dia seguinte. Mas, a cada instante, surgiam-lhe dificuldades: não sabia como dar começo à sua obra, como levá-la a efeito. Tentou arranjar a coisa alfabeticamente; teve, porém, de abandonar essa idéia, como inexeqüível; numerou as estantes e experimentou se conseguia algum resultado por este sistema; foi tudo inútil. Afinal, depois de muitas tentativas infrutíferas, o acaso, no fim de alguns dias, veio em seu auxílio, atirando-lhe às mãos o catálogo de uma biblioteca da província.

Era um folheto pequeno, encadernado e nitidamente impresso. Coruja abriu-o religiosamente e passou o resto do dia a estudá-lo. Na manhã seguinte, a sua obra achava-se começada, pela nona ou décima vez, é certo, mas agora debaixo de auspícios muito mais prometedores.

E em todo o resto das ferias foi o seu tempo sistematicamente dividido entre o trabalho da horta, o estudo de seus compêndios, as lições do Caixa-d’óculos e a organização do famoso catálogo. Esta, porém, era de todas as suas ocupações a mais querida e desvelada; o que, entretanto, não impediu que ela ficasse por acabar depois da reabertura das aulas.

— Fica para mais tarde, pensou o Coruja, cheio de confiança na sua vontade.

E, sem confiar a sua idéia a ninguém, nem mesmo ao diretor, passava todos os dias feriados e todas as horas de recreio, metido na biblioteca, de cuja fiscalização continuava encarregado.
–––––––––––––––––––––––
continua…….

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José Feldman (Universo de Versos n. 62)


Uma Trova do Paraná

OLGA AGULHON – Maringá

Quanto sonho não vivido
do jeito que foi sonhado!
Mas tudo tem mais sentido
quando, enfim, é conquistado.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Londrina/PR

GERALDO PEIXOTO DE LUNA

Vejo triste, em minha face,
A cada dia que corre,
Uma saudade que nasce,
Uma esperança que morre.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Pouso Alegre/MG

JOSÉ MESSIAS BRAZ

A vida de quem não sonha
e vive sem ter um bem,
lembra uma rua tristonha
onde não passa ninguém…
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

– Depressa!… A bolsa ou a vida.
– Mas, que sufoco, senhor!…
Diz a livreira polida.
– Não sabe o nome do autor?
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Deus, demonstrando poder,
quando a mulher engravida,
transforma a dor em prazer
na celebração da vida!
========================
Uma Trova Hispânica da Republica Dominicana

CLAUDIO GARIBALDY MARTÍNEZ

Todo fiel Entendimiento
llega de Dios con amor,
él nos da discernimiento
para abolir el dolor.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de São Paulo/SP

MARTA MARIA O. PAES DE BARROS

Saudade, mágoa sentida,
barco distante do cais;
pedaço da própria vida
que a gente não vive mais …
========================
Trovadores que deixaram Saudades

OSWALDO NASCIMENTO – São Mateus do Sul/PR

Não há mais nada em minha alma,
nem amor, nem ilusão!
Perdi toma a minha calma
e até mesmo a inspiração!
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Dura menos que um suspiro
ou como a folha que cai…
Mas quando penetra na alma,
a Trova fica… Não sai…
========================
Um Haicai de Santos/SP

REGINA ALONSO

Parece mistério…
Ao vislumbre da tarde
silhuetas no mar.
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

isso sim
de mim se depender
você não vai esquecer
o esfriar e o aquecer
todo o talvez
algum aquele tem que ser
que acontece
entre quem se veste e quem tece
quando anoitecer

você não vai esquecer
ah não nunca nem
o que vai a que vem
este meu… bem…
este nosso tão prazer
nenhuma nota deste amanhecer

você não vai esquecer
se eu não tivesse pavor
de mais dizer o que nem dá
ia dizer tá
teu esquecedor
você não esquecerá
o que quer que havido
haja ou for
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Não sei por que, quando canto
por mais alegre a canção,
tem uma gota de pranto,
que vem do meu coração.
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
O Passado

O salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
“Clube Literário Goiano”.
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.

Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.

Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.

D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.

O Passado…

Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?

Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?

Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?…
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas…
Que importam?

E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.
==============================
Uma Poesia de Curitiba/PR

LÚCIA CONSTANTINO
Saudade

Irmã da terra,
dos ventos,
das tempestades,
por onde pisam agora
teus pés de saudade?

Deixou rosas,
espinhos
e tantos trigais.
E foi ninar num travesseiro de jasmins
à sombra dos pinheirais.
========================
Um Soneto Decassílabo Heróico, de Fortaleza/CE

CABEÇA DE POETA
Soneto à mulher

Mulher, te vejo pura, qual criança
Revelando o amor todos os dias,
E ao contemplar estrelas, que alegria!
Eu sinto a tua essência, da esperança.

Mulher és, mais que tudo, temperança,
Ao compartilhar dores com os amigos,
És vício bom, um drible no perigo,
És emoção, és riso, boas lembranças.

O amor, em sua estrutura, é o pilar…
Uma carícia amiga, um despertar
Uma alma, prenhe de paixão, feliz,

E em seu espírito livre, sem ardis
Em meio a tantas pétalas, uma flor
És coração que explode em amor!

Obs: Devem conter obrigatoriamente em todos os seus quatorze versos, 10 (dez) sílabas poéticas e tônicas nas sílabas 6 (seis) e 10 (dez). Cumprindo essas regras na confecção de um soneto o metrificador promove-o a decassílabo heroico. A denominação é uma associação aos versos heroicos, criados originalmente para homenagear feitos heroicos, heróis, batalhas, etc… (Fonte: Recanto das Letras)
========================
Uma Poesia de Funchal/Portugal

JOAQUIM EVÓNIO
(Joaquim Evónio Rodrigues de Vasconcelos)
1938 – 2012
Foi um Anjo

 
Foi um anjo, melodia
que voou para os meus braços
em amplexo tão ardente…
Curou todas as feridas
que me traziam doente…

Mas hoje, amanhã e sempre
trarei no peito em chamas
a triste recordação
do tempo que não vivi.

Foram dias, foram anos
vividos pelos pinhais,
sentindo como os navios
perdidos… órfãos de cais…

Com o sol nasceu encanto
abraçado aos braços dela…
Veio o Verão, Primavera,
guardando o meu Outono
numa caixa de Pandora…

Foi a aventura sincera
sem amargura nem dor,
foi tudo, foi quase nada,
apenas um grande amor.
========================
Um Soneto de Natal/RN

Francisco Neves Macedo
1948 – 2012
Tributo ao Dicionário

O dicionário, qual mulher incrível,
e sempre para nós, indispensável,
numa entrega total, imensurável,
doando para nós, todo o possível.

Se o verso parecer quase impossível
por sua doação, fica viável
e neste conviver terno e saudável
torna a vida mais doce e mais sensível…

É você, meu amigo dicionário,
nosso caso de amor extraordinário
jamais terá divórcio, ele é moderno.

Vamos esparramar nossa poesia
em romântica e doce parceria…
Nosso caso de amor será eterno!
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

RUI KNOPFLI
Moçambique (1932 – 1998)
Cair do pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sagueza hindu.
Dura um instante no trêmulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vênia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.
=====================
Um Poetrix do Distrito Federal

ROMILDO AZEVEDO
obstáculos

São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
========================
UniVersos Melodicos

LAMARTINE BABO
História do Brasil (marcha/carnaval, 1934)

Quem foi que inventou o Brasil?
Foi seu Cabral!
Foi seu Cabral!

No dia vinte e um de abril
Dois meses depois do carnaval
Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som…
Ao som do Guarani!

Do Guarani ao guaraná
Surgiu a feijoada
E mais tarde o Paraty

Depois
Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô

De lá…
Pra cá tudo mudou!
Passou-se o tempo da vovó
Quem manda é a Severa
E o cavalo Mossoró
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

FESTA DOS INSETOS
[LP A turma do Balão Mágico (1983
)]

A pulga e o percevejo
Fizeram combinação.
Fizeram serenata
Debaixo do meu colchão.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

A Pulga toca flauta,
O Percevejo violão;
E o danado do Piolho
Também toca rabecão.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

A Pulga mora em cima,
O Percevejo mora ao lado.
O danado do Piolho
Também tem o seu sobrado.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

Lá vem dona pulga,
Vestidinha de balão,
Dando o braço ao piolho
Na entrada do salão.

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte I

CAPÍTULO I
 
Quando, em uma das pequenas cidades de Minas, faleceu a viúva do obscuro e já então esquecido procurador Miranda, o pequenito André, único fruto deste extinto casal, tinha apenas quatro anos de idade e ficaria totalmente ao desamparo, se o pároco da freguesia, o Sr. padre João Estêvão, não o tomasse por sua conta e não carregasse logo com ele para casa.

Esta bonita ação do Sr. vigário levantou entre as suas ovelhas um piedoso coro de louvores, e todas elas metendo até as menos chegadas ao padre, estavam de acordo em profetizar ao bem-aventurado órfão um invejável futuro de doçuras e regalias, como se ele fora recolhido pelo próprio Deus e tivesse por si a paternidade de toda a corte celeste.

A Joana das Palmeirinhas, essa então, que era muito metediça em coisas de igreja, chegava a enxergar no fato intenções secretas de alguma divindade protetora do lugar e, quando lhe queriam falar nisso, benzia-se precatadamente e pedia por amor de Cristo que “não mexessem muito no milagre” É melhor deixar! Segredava ela. — É melhor deixar que o santinho trabalhe a seu gosto, porque ninguém como ele sabe o que lhe compete fazer! Mas o “pequeno do padre” como desd’aí lhe chamaram, foi aos poucos descaindo das graças do inconstante rebanho, pelo simples fato de ser a criança menos comunicativa e mais embesourada de que havia notícia por aquelas alturas.

O próprio Sr. vigário não morria de amores por ele, e até se amofinava de vê-lo passar todo o santo dia a olhar para os pés, numa taciturnidade quase irracional.

— Ora, que mono fora ele descobrir!… Dizia de si para si, a contemplar o rapaz por cima dos óculos. — Aquela lesma não havia de vir a prestar nem para lhe limpar as galhetas!

O pequeno era de fato muito triste e muito calado. Em casa do reverendo não se lhe ouvia a voz durante semanas inteiras; e também quase nunca chorava, e ninguém se poderia gabar de tê-lo visto sorrir. Se o vestiam e o levavam a espairecer um bocado à porta da rua, deixava-se o mono ficar no lugar em que o largavam; o rosto carrancudo, o queixo enterrado entre as clavículas, e seria capaz de passar assim o resto da vida se não tomassem a resolução de vir buscá-lo. A criada, uma velha muito devota, mas também muito pouco amiga de crianças, só olhava para ele pelo cantinho dos olhos e, sempre que olhava, fazia depois uma careta de nojo. “Apre! Só mesmo a bondade do Sr. vigário podia suportar em casa semelhante lorpa!”

E cada vez detestava mais o pequeno; afinal era já um ódio violento, uma antipatia especial, que se manifestava a todo o instante por palavras e obras de igual dureza. E a graça é que jamais nenhuma destas vinha só; era chegar a descompostura e aí estava já o repelão, em duas, três, quatro sacudidelas, conforme fosse o tamanho da frase.

O André deixava-se sacudir à vontade da criada, sem o menor gesto de oposição ou de contrariedade.

– Ah! Só mesmo a paciência do Sr. vigário!

Apesar, porém, de tanta paciência, o Sr. vigário, se não mostrava arrependido daquela caridade, era simplesmente porque esse rasgo generoso muito contribuíra para a boa reputação que ele gozava, não só aos olhos da paróquia inteira, como também aos dos seus superiores, a cujos ouvidos chegara a notícia do fato. Mas, no íntimo, abominava o pupilo; mil vezes preferia não o ter a seu lado; suportava-o, sabia Deus como! Como quem suporta uma obrigação inevitável e aborrecida.

Ah! Não havia dúvida que o pequeno era com efeito muito embirantezinho. Sobre ser uma criança feia, progressivamente moleirona e triste, mostrava grande dificuldade para aprender as coisas mais simples. Não era com duas razões, nem três murros, que o tutor conseguia meter-lhe qualquer palavra na cabeça. O pobre velho desesperava-se, ficava trêmulo de raiva, defronte de semelhante estupidez. E, como não tivesse jeito para ensinar, como lhe faltasse a feminil delicadeza com que se abrem, sem machucar, as tenras pétalas dessas pequeninas almas em botão, recorria aos berros, e, vermelho, com os olhos congestionados, a respiração convulsa, acabava sempre empurrando de si os livros e o discípulo, que iam simultaneamente rolar a dois ou três passos de distancia.

— Aquele maldito estúpido não servia senão para o encher de bílis! O melhor seria metê-lo num colégio, como interno… Era mais um sacrifício — Vá! Mas, com a breca! Ao menos ficava livre dele!

Oh! O bom homem já não podia agüentar ao seu lado aquela amaldiçoada criança. Às vezes, ao vê-la tão casmurra, tão feia, com o olhar tão insociável e tão ferrado a um ponto, tinha ímpetos de torcê-lo nas mãos, como quem torce um pano molhado.

Nunca lhe descobria a mais ligeira revelação de um desejo. À mesa comia tudo que lhe punha no prato, sem nunca deixar ou pedir mais. Se o mandavam recolher à cama, fosse a que hora fosse, deitava-se incontinente; se lhe dissessem “Dorme!” Ele dormia ou parecia dormir. “Acorda! Levanta-te!” Ele se levantava logo, sem um protesto, como se estivesse à espera daquela ordem.

Qualquer tentativa de conversa com ele era inútil. André só respondia por monossílabos, no mais das vezes incompreensíveis. Nunca fazia a ninguém interrogação de espécie alguma, e, certo dia perguntando-lhe o padre se ele o estimava, o menino sacudiu com a cabeça, negativamente.

— E que tal?… Considerou o vigário; — olha que entranhas tem o maroto!…
E segurando-lhe a cabeça para o fitar de frente:

— Com que, não gostas de mim, hein?

— Não.

— Não és agradecido ao bem que te tenho feito?

— Sou.

— Mas não me estimas?

— Não.

— E, se fores para o colégio, não terás saudades minhas?

— Não.

— De quem então sentirás?

— Não sei.

— De ninguém?

— Sim.

— Pois então é melhor mesmo que te vás embora, e melhor será que nunca mais me apareças! Calculo que bom ingrato não se está preparando aí! Vai! Vai, demônio! E que Deus te proteja contra os teus próprios instintos!

Entretanto, à noite, o padre ficou muito admirado, quando, ao entrar no quarto do órfão que dormia, o viu agitar-se na cama e dizer, abraçando-se aos travesseiros e chorando: “Mamãe! Minha querida mamãe!”

— São partes, Sr. vigário, são partes deste sonso!… Explicou a criada, trejeitando com arrelia.
CAPÍTULO II
André seguiu para o colégio num princípio de mês. Veio buscá-lo à casa do tutor um homem idoso, de cabelos curtos e barbas muito longas, o qual parecia estar sempre a comer alguma coisa, porque, nem só mexia com os queixos, como lambia os beiços de vez em quando.

Foram chamá-lo à cama às cinco da manhã. Ele acordou prontamente, e como já sabia de véspera que tinha de partir, vestiu-se logo com um fato novo que, para esse dia, o padre lhe mandara armar de uma batina velha. Deram-lhe a sua tigela de café com leite e o seu pão de milho, o que ele ingeriu em silêncio; e, depois de ouvir ainda alguns conselhos do tutor, beijou-lhe a mão, recebeu no boné, uma palmada da criada e saiu de casa, sem voltar, sequer, o rosto para trás. O das barbas longas havia já tomado conta da pequena bagagem e esperava por ele, na rua, dentro do trole. André subiu para a almofada e deixou-se levar. Em caminho o companheiro, para enganar a monotonia da viagem, tentou chamá-lo à fala:

— Então o amiguinho vai contente para os estudos?

— Sim, disse André, sem se dar ao trabalho de olhar para o seu interlocutor.

E este, supondo que o boné do menino, pelo muito enterrado que lhe ficara nas orelhas com a palmada da criada, fosse a causa dessa descortesia, apressou-se a suspender-lho e acrescentou:

— É a primeira vez que entra para o colégio ou esteve noutro?

— É.

— Ah! É a primeira vez?

— Sim.

— E morou sempre com o reverendo?

— Não.

— Ele é seu parente?

— Não.

— Tutor, talvez…

— É.

— Como se chamava seu pai?

— João.

— E sua mãe?

— Emília.

— Ainda se lembra deles?

— Sim.

E, depois de mais alguns esforços inúteis para conversação, o homem das barbas convenceu-se de que tudo era baldado e, para fazer alguma coisa, pôs-se a considerar a estranha figurinha que levava a seu lado. André representava então nos seus dez anos o espécime mais perfeito de um menino desengraçado.

Era pequeno, grosso, muito cabeçudo, braços e pernas curtas, mãos vermelhas e polposas, tez morena e áspera, olhos sumidos de uma cor duvidosa e fusca, cabelo duro e tão abundante, que mais parecia um boné russo do que uma cabeleira.

Em todo ele nada havia que não fosse vulgar. A expressão predominante em sua fisionomia era desconfiança, nas seus gestos retraídos, na sua estranha maneira de esconder o rosto e jogar com os ombros, quando andava, transparecia alguma coisa de um urso velho e mal domesticado.

Não obstante, quem lhe surpreendesse o olhar em certas ocasiões descobriria aí um inesperado brilho de inefável doçura, onde a resignação e o sofrimento transluziam, como a luz do sol por entre um nevoeiro espesso.

Chegou ao colégio banhado de suor dentro da sua terrível roupa de lustrina preta. O empregado de barbas longas levou-o à presença do diretor, que já esperava por ele, e disse apresentando-o:

— Cá está o pequeno do padre.

— Ah! Resmungou o outro, largando o trabalho que tinha em mão. — O pequeno do padre Estêvão. É mais um aluno que mal dará para o que há de comer! Quero saber se isto aqui é asilo de meninos desvalidos!… Uma vez que o tomaram à sua conta, era pagarem-lhe a pensão inteira e deixarem-se de pedir abatimentos, porque ninguém está disposto a suportar de graça os filhos alheios!

— Pois o padre Estêvão não paga a pensão inteira? Perguntou o barbadão a mastigar em seco furiosamente e a lamber os beiços.

— Qual! Veio-me aqui com uma choradeira de nossa morte. E, “porque seria uma obra de caridade, e, porque já tinha gasto mundos e fundos com o pequeno”, enfim foi tal a lamúria que não tive outro remédio senão reduzir a pensão pela metade!

Os das barbas fez então várias considerações sobre o fato, elogiou o coração do Dr. Mosquito (era assim que se chamava o diretor) e ia a sair, quando este lhe recomendou que se não descuidasse da cobrança e empregasse esforços para receber dinheiro.

— Veja, veja, Salustiano, se arranja alguma coisa, que estou cheio de compromissos!

E o Dr. Mosquito, voltando ao seu trabalho, exclamou sem mexer com os olhos:

— Aproxime-se!

André encaminhou-se para ele, de cabeça baixa.

— Como se chama?

— André.

— De quê?

— Miranda.

— Só?

— De Melo.

— André Miranda de Melo… Repetiu o diretor, indo a escrever o nome em um livro que acabava de tirar da gaveta.

— E Costa, acrescentou o menino.

— Então por que não disse logo de uma vez?

André não respondeu.

— Sua idade?

— Dez.

— Dez quê, menino?

— Anos.

— Hein?

— Dez anos.

— An!

E, enquanto escrevia:

— Já sabe quais são as aulas que vai cursar?

— Já.

— Já, sim, senhor, também se diz!

— Diz-se.

— Como?

— Diz-se, sim, senhor.

— Ora bem! Concluiu o Mosquito, afastando com a mão o paletó para coçar as costelas.

E, depois de uma careta que patenteava a má impressão deixada pelo seu novo aluno, resmungou com um bocejo:

— Bem! Sente-se; espere que venham buscá-lo.

— Onde? Perguntou André, a olhar para os lados, sem descobrir assento.

— Ali, menino, oh!

E o diretor suspendeu com impaciência a pena do papel, para indicar uma das duas portas que havia do lado oposto do escritório. Em seguida mergulhou outra vez no seu trabalho, disposto a não interrompê-lo de novo: André foi abrir uma das portas e disse lentamente:

— É um armário.

— A outra, a outra, menino! Gritou o Mosquito, sem se voltar.

André foi então à outra porta, abriu-a e entrou no quarto próximo. Era uma saleta comprida, com duas janelas de vidraça que se achavam fechadas. Do lado contrário às janelas havia uma grande estante, onde se viam inúmeros objetos adequados à instrução primária dos rapazes. O menino foi sentar-se em um canapé que encontrou e dispôs-se a esperar.

Foi-se meia hora e ninguém apareceu. Seriam já quatro da tarde e, como André ainda estava só com a sua refeição da manhã, principiou a sentir-se muito mal do estômago. Esgotada outra meia hora, ergueu-se e foi, para se distrair, contemplar os objetos da estante. Levou a olhá-los longo tempo, sem compreender o que tinha defronte da vista. Depois, espreguiçou-se e voltou ao canapé. Mais outra meia hora decorreu, sem que o viessem buscar. Duas vezes chegou à porta por onde entrara na saleta e, como via sempre o escritório deserto, tornava ao seu banco da paciência. E, no entanto, o apetite crescia-lhe por dentro de um modo insuportável e o pobre André principiava a temer que o deixassem ficar ali eternamente.

Pouco depois de entrar para a saleta, um forte rumor de vozes e passos repetidos lhe fez compreender que alguma aula havia terminado; daí a coisa de cinqüenta minutos, o toque de uma sineta lhe trouxe à idéia o jantar, e ele verificou que se não enganara no seu raciocínio com o barulho de louças e talheres que faziam logo em seguida. Depois, compreendeu que era chegada a hora do tal recreio porque ouvia uma formidável vozeria de crianças que desciam para a chácara.

E nada de virem ao seu encontro.

— Que maçada! Pensava ele, a segurar o estômago com ambas as mãos.

Afinal, a escuridão começou a invadir a saleta. Havia cessado já o barulho dos meninos e agora ouviam-se apenas de vez em quando alguns passos destacados nos próximos aposentos. Em tais ocasiões, o pequeno do padre corria à porta do escritório e espreitava. Ninguém.

Já era noite completa, quando um entorpecimento irresistível se apoderou dele. O pobrezito vergou-se sobre as costas do canapé, estendeu as suas pernitas curtas e adormeceu.
–––––––––––––
continua…
––––––––––––––

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José Feldman (Universo de Versos n. 61)


Uma Trova do Paraná

NEIDE ROCHA PORTUGAL – Bandeirantes
Sem usar o pão sobre a mesa,
eu não reclamo, porquê…
em meio a tanta pobreza
minha fortuna é você!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Curitiba/PR

NEI GARCEZ

Em qualquer fase da vida,
sempre que a incerteza ocorre,
sem que a fé seja perdida
a esperança nos socorre.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Poços de Caldas/MG

CONCHITA MOUTINHO DE ALMEIDA

A terra finge que dorme,
o sereno por seu turno,
com uma ternura enorme
se faz amante noturno.
=======================
Uma Trova Humorística, de Nova Friburgo/RJ

RODOLPHO ABBUD

Um longo teste ela fez,
de cantora com requinte:
– Cantou somente uma vez,
mas foi cantada umas vinte!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Como quem faz sua escolha,
disfarçando o desatino,
alterei folha por folha
do livro do meu destino!
========================
Uma Trova Hispânica da Espanha

ESTHER DE SANTANDER

Vete sí, pero te quiero,
¡quédate! yo te lo ruego,
por tus caricias espero,
a tu amor yo no me niego.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de São Paulo

PEDRO MELLO

Passa o tempo… e, enquanto corre,
a lembrança vai sumindo…
Mas a saudade não morre:
– Apenas fica dormindo…
========================
Trovadores que deixaram Saudades

JERÔNIMO GUIMARÃES – Rio de Janeiro
???? – 1897

Até nas flores se encontra
a diferença da sorte:
umas enfeitam a vida,
outras enfeitam a morte!
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Amor – sentimento forte!
Palavra odiada e querida…
Se é causa de tanta morte,
é a própria razão da Vida!…
========================
Um Haicai de São Paulo

CARLOS SEABRA
Cuidado

olhos felinos
e um corpo de mulher –
cuidado meninos!
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Datilografando este texto
ler se lê nos dedos
não nos olhos
que os olhos são mais dados
a segredos
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Amor vence espinho, ultraje,
Agravo, calúnia e lama.
Amor puro é Deus que age
No coração de quem ama.
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O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Meu Destino

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…
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Uma Poesia de Jaraguá/GO

AFONSO FÉLIX DE SOUZA
1925 – 2002
Noite sem alma

Noite sem vozes roucas
assombrando o silencio.
Noite nua.

Passos incertos
duro como o asfalto
e pensamentos leves
guiando-me os passos.
Indiferença do luar.
Na rua triste
paradas súbitas.
No olhar o medo ingênuo
da infância que não morre.

Risos de mulher
atrás da janela fechada.
Desejos rápidos
a apressar os passos…
A memória murmura
confidencias,
que o silêncio apaga.

Noite sem véu.
Noite que tem a clara nudez da alma
que sonha no escuro.
Desejos leves de amor a guiar os passos
e essa ânsia incontida de sonhar
que como, a infância
não morre nunca.
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Um Limerique

MARIANA U. BARDELLA

Minha peixinha
é metidinha
um dia ela
foi parar na panela
virou comidinha.
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Uma Poesia de Santo Amaro Sousel/Portugal

FÁTIMA MALDONADO
Um Fado

Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas,
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras.
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Um Soneto de Paraíba do Sul/RJ

AGRIPPINO GRIECO 
(1888-1973)
Copo de Cristal

Naquele quarto estreito e abandonado,
onde passo estirado na rede,
horas de tédio, enquanto o sol despede
as setas de ouro sobre o campo ao lado,

esquecido num canto, e, da parede
junto, entre flores, vasos, e um bordado,
há um velho copo de cristal lavrado,
em que, às vezes, aplaco a dor da sede.

Contam-me que esse copo pertencera
outrora a uma esquisita e romanesca
jovem, que nele muita vez bebera.

E ainda hoje a extravagar – cabeça louca ! –
se ao lábio o levo, sinto na água fresca
o perfume e o sabor daquela boca…
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Uma Poesia Além Fronteiras

YEHUDA AMICHAI
Israel (1924 – 2000)
Um Homem e a Sua Vida

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos.
Eclesiastes está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.
(Tradução: Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro)
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Um Poetrix de Minas Gerais

SILVIA MOTA
perda de tempo

de tempos em tempos
enquanto homens resmungam
renova-se o Tempo.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
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UniVersos Melodicos

LAMARTINE BABO
Linda morena (marcha/carnaval, 1933)

A partir do sucesso de “O teu cabelo não nega”, cresceu bastante a presença da marchinha no repertório carnavalesco. Houve mesmo uma certa supremacia sobre o samba, que durou até o início dos anos quarenta. Assim, em 1933, reinaram quase sem concorrência “Formosa” (que era samba e virou marcha, por sugestão de Francisco Alves), “Good bye”, “Segura Esta Mulher”, “Moreninha da praia”, “Trem Blindado”, “Moleque indigesto”, “Aí, hein!”, “Boa Bola” e “Linda morena”, as quatro últimas de autoria de Lamartine Babo
Ingênua, alegre, sentimental, bem representativa do estilo lamartinesco, “Linda Morena” foi um dos grandes sucessos do ano, tendo inspirado até várias paródias, o que na época valia como comprovante de popularidade de uma canção.

Linda morena,     morena
Morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha 
não brilha tanto quanto o teu olhar

Tu és morena, uma ótima pequena
Não há branco que não perca até o juízo
Onde tu passas sai ás vezes bofetão
Toda gente faz questão do teu sorriso

Teu coração é uma espécie de pensão
de pensão familiar à beira-mar
Ó moreninha, não alugues tudo não!
Deixa ao menos o porão pra eu morar

Por tua causa já se faz revolução
Vai haver transformação na cor da lua
Antigamente a mulata era a rainha
Desta vez, ó moreninha, a taça é tua!
(Fonte: Cifrantiga)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

BALAIO

Eu queria se balaio,
balaio eu queria “sê”
Pra ficar dependurado,
na cintura de “ocê”

Balaio meu bem, balaio sinhá
Balaio do coração
Moça que não tem balaio, sinhá
Bota a costura no chão

Eu mandei fazer balaio,
pra guardar meu algodão
Balaio saiu pequeno,
não quero balaio não

Balaio meu bem, balaio sinhá
Balaio do coração
Moça que não tem balaio, sinhá
Bota a costura no chão

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José Feldman (Universo de Versos n. 60)


Uma Trova do Paraná

LUCILIA DECARLI – Bandeirantes

Nem sempre vamos vencer
nessa ou naquela disputa…
o que importa é não perder
a coragem para a luta!
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Uma Trova sobre Esperança, de São Paulo

DARLY O. BARROS

A esperança é a tecelã
a quem a ilusão confia,
a fiação do amanhã,
na roca que os sonhos fia…
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de Pau dos Ferros/RN

    MANOEL CAVALCANTE

Puseste-me na clausura!
E hoje, em sonhos sem sentido,
eu me alimento da jura
que murmuras noutro ouvido…
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Uma Trova Humorística, de Joaçaba/SC

MIGUEL RUSSOWSKI

– Não bebo mais!… – diz o Souza,
com intentos bons e plenos.
Discorda deles a esposa:
– Não bebe mais … e nem menos!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Da Bebida fiquei farto,
bebendo, perdi quem amo;
hoje bebo no meu quarto
as lágrimas que eu derramo.
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Uma Trova Hispânica do Chile

JAIME CORREA

“Del cielo cayó una estrella”,
mujer de mil fantasías.
Sonrisa sensual tan bella,
princesa alegras mis días.
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Uma Trova sobre Saudade, do Rio de Janeiro

SÔNIA MARIA SOBREIRA DA SILVA

Ah , saudade do passado !
tão presente e tão intensa,
que penso ouvir teu chamado,
buscando a minha presença.
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Trovadores que deixaram Saudades

ARCHIMINO LAPAGESSE – Rio de Janeiro
1897 – 1966

Saudade, ponte encantada,
entre o passado e o presente,
por onde a vida passada,
volta a passar novamente!
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Desconfio que a saudade
não gosta de ti, meu bem:
quando tu vens, ela vai…
quando tu vais, ela vem!
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Um Haicai do Maranhão

JOÃO DE DEUS SOUTO FILHO
(haikai homenageando a cidade de Natal)

Recifes em linha,
Muralhas verde-musgo
Emoldurando o mar.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

A saudade é uma andorinha,
que ao morrer do sol a chama,
as asas tristes aninha
no coração de quem ama …
======================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Velho

Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.

Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.
==============================
Uma Poesia de Porto Alegre/RS

ALCIR NICOLAU PEREIRA
Ex-Pirata (Quadra Infantil)

Nem pirata, nem cara de mau
Sou coxo agora de fato
Usaram a minha perna de pau
Pra brincar no jogo de taco

Minha cara dantes bonita
Olho de vidro agora não tem
Pois virou pequena bolita
Nos jogos de gude de alguém

Perdi tudo que eu tinha de bom
Fiquei sem olho e sem minha nau
Perdi perna que fazia mau som
E acabei nunca mais sendo mau
========================
Um Limerique de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Limerique Urbano IV

Pela longa rua da feira
tem tudo de bom e primeira;
vê-se a granel,
quentinho. pastel…
Tem até gente barraqueira.
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Uma Poesia de Lisboa/Portugal

CRISTOVAM PAVIA
(Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho)
1933 – 1968

Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo…
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

 Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume…
Há-de haver velas pela casa
E xales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

 Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente…
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.
========================
Um Soneto de Curitiba/PR

MAMED ZAUÍTH
Fugaz Enlevo

“Oh flor do céu! oh! flor cândida e pura!”
inesquecível deusa da beleza,
com uma auréola de formosura
e um ar esplêndido de realeza.

Tens o condão de transmitir ventura
com tua voz eivada de lhaneza;
consegues sublimar toda candura
à fronte erguida, plena de nobreza!

Qual zéfiro fugaz entre a ramagem,
teus lábios guardam a secreta calma,
sublime enlevo de eternal miragem!

Partiste! E me legaste esta mortalha,
o rosto em lágrimas, prendi tua alma:
“Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”
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Uma Poesia Além Fronteiras

Rabindranath Tagore – Jorasanko/Índia
1861 – 1941    
Julgamento

Não julgues…
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco…
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho…
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
e enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.
(tradução de José Agostinho Baptista)
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Um Poetrix de Angola

THOMAZ RAMALHO
melancolia

Os cotovelos no parapeito da sacada
e o pensamento apoiado
na linha do horizonte..
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Lira do amor romântico

Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
é dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado para trás.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
Você não ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caí n’água também
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
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UniVersos Melodicos

NOEL ROSA e VADICO
Feitio de Oração (samba, 1933)

O compositor Vadico (Osvaldo Gogliano) era um jovem de 22 anos e trabalhava no Rio havia pouco tempo, quando foi apresentado por Eduardo Souto a Noel Rosa, nos estúdios da Odeon. Razão da apresentação: o maestro acabara de ouvi-lo tocar ao piano uma música de sua autoria, ainda sem letra, e achara que o encontro poderia render uma boa parceria.
Noel, então, impressionado com a beleza e o clima místico da melodia, fez a letra de “Feitio de Oração”, iniciando com uma obra-prima a parceria desejada. Pertence a esta letra os famosos versos: “Batuque é um privilégio / ninguém aprende samba no colégio…” A dupla Noel e Vadico durou quatro anos, deixando onze composições.

Quem acha vive se perdendo
Por isso  agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que por infelicidade         
Meu pobre peito invade

Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com satisfação,  e com harmonia
Esta triste melodia,  que é meu samba
Em feitio de oração

O samba na realidade,      
não vem   do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

A ROSA AMARELA

Olha a Rosa amarela, Rosa
Tão Formosa, tão bela, Rosa
Olha a Rosa amarela, Rosa
Tão Formosa, tão bela, Rosa

Iá-iá meu lenço, ô Iá-iá
Para me enxugar, ô Iá-iá
Esta despedida, ô Iá-iá
Já me fez chorar, ô Iá-iá

(repetir)
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José Feldman (Universo de Versos n. 59)

Uma Trova do Paraná

JEANETTE DE CNOP – Maringá

Voltei. Cabisbaixa eu vinha,
com o orgulho lá no chão…
Melhor do que estar sozinha
e coberta de razão!
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

ARCHIMINO LAPAGESSE

A Esperança se revela
em cousa bem natural:
um sapato na janela
numa noite de Natal!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica do Rio de Janeiro

MARIA MADALENA FERREIRA

De mim… tu juras que gostas…
– Mas, tal cinismo, realças,
que eu juro – até de mãos postas,
que as tuas juras são falsas!!!
=======================
Uma Trova Humorística, de São Luis/MA

ORLANDO BRITO
Eu, trabalhar desse jeito,
com a força que Deus me deu,
pra sustentar um sujeito
vagabundo como eu ?!!…
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A ingratidão na pessoa
vai direto ao coração.
Não existe dor que doa
como a dor da ingratidão.
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Uma Trova Hispânica do México

MARIA ELENA

Si el alma no se alimenta,
si se niegan  las caricias,
hay en el amor tormenta
huyen, del lar, las delicias.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de São Paulo

ALBA CRISTINA CAMPOS NETTO

Entre nós não há mais nada,
mas ante a prova de fogo,
saudade é carta marcada
que acaba ganhando o jogo !
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Trovadores que deixaram Saudades

FERNANDO COSTA – São Paulo

Faz a vida o seu descarte
num jogo tão contundente,
que na vida de quem parte,
parte uma parte da gente…
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Um trovador veterano
concorre e zomba: – é “barbada”!
Depois de entrar pelo cano,
bronqueia: foi marmelada!…
========================
Um Haicai Infanto-Juvenil, de Jaboti/PR

LUIZ FERNANDO ORLANDINI LIMA (10 anos de idade)
Bolo de fubá
Saboroso e fofinho
Só mesmo a mamãe.
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Para matar as saudades,
fui ver-te em ânsias, correndo …
– E eu que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo.
===============================
O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Cantaria

I
Meti o peito em Goiás
e canto como ninguém.
Canto as pedras,
canto as águas,
as lavadeiras, também.

Cantei um velho quintal
com murada de pedra.
Cantei um portão alto
com escada caída.

Cantei a casinha velha
de velha pobrezinha.
Cantei colcha furada
estendida no lajedo;
muito sentida,
pedi remendos pra ela.
Cantei mulher da vida
conformando a vida dela.

II

Cantei ouro enterrado
querendo desenterrá.
Cantei cidade largada.
Cantei burro de cangalha
com lenha despejada.
Cantei vacas pastando
no largo tombado.

Agora vai se acabando
Esta minha versejada.
Boto escoras nos serados
Por aqui vou ficando.
==========================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989
)

amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o
======================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

AMAURY NICOLINI
Como um Filme

Quer assistir a um filme
cheio de emoção,
como há muito não se vê ?
É só olhar
dentro do meu coração
e aplaudir a interpretação
magistral e singular
de toda essa saudade de você.
========================
Um Limerique, de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Limeriques Urbanos III

Professor, é com letra de mão?
Sim! cursiva nesta lição.
Quem escreve de pé
tendo no aluno fé,
é professor de profissão.
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Uma Poesia de Coimbra/Portugal

CAMILO PESSANHA
1867 – 1926
Viola Chinesa

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa…
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Um Soneto de Mogúncia/MA

RAYMUNDO CORREA
1859 – 1911
As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüinea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.
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Uma Poesia Além Fronteiras

CÉSAR DÁVILA ANDRADE – Equador
1918 – 1967
Em Que Lugar

Quero que me digas; de qualquer
modo deves dizer-me,
indicar-me. Seguirei teu dedo, ou
a pedra que lances
fazendo flamejar, em ângulo teu braço.

Além, atrás dos fornos de queimar a cal,
ou mais além ainda,
além das valas onde
se acumulam as coroas alquímicas de Urano
e o ar chia como gengibre
deve estar Aquele.

Tens que me indicar o lugar
ainda antes que este dia se coagule.

Aquele deve conter o eco
envolto em si mesmo,
como uma pedra no interior de um pêssego.

Tens que indicar-me, Tu,
que repousas bem mais além da Fé
e até da Matemática.

Poderei segui-lo no ruído que passa
e se detém
subitamente
na orelha de papel?

Por acaso ele está nesse sítio de trevas,
sob as camas,
onde se reúnem
todos os sapatos deste mundo?
(Tradução de José Jeronymo Rivera)
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Lagoa

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa…
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UniVersos Melodicos

NOEL ROSA
Fita Amarela (samba, 1933)

Noel Rosa compôs “Fita Amarela” a partir de uma batucada, conhecida nas rodas de samba, atribuída a Mano Edgar (Edgar Marcelino dos Passos), um bamba do Estácio. A batucada era assim: “Quando eu morrer / não quero choro nem nada / eu quero ouvir um samba / ao romper da madrugada”.
Na mesma época (fins de 1932), Donga e Aldo Taranto usavam o tema para compor o samba “Quando Você Morrer”, gravado por Carmen Miranda. A diferença era que enquanto Noel aproveitava apenas a idéia, Donga e Taranto copiavam também a melodia, segundo Almirante, que registrou o fato em sua coluna “Cantinho das Canções” (O Dia, 11.02.73).
O curioso é que, com o sucesso de “Fita Amarela”, Donga protestou nos jornais, acusando Noel de plagiar seu samba. Já Mano Edgar não tinha como se manifestar. Havia sido assassinado num jogo de ronda em 24.12.31. De qualquer maneira, “Fita Amarela” é um ótimo samba em que ressalta mais uma vez o lado espirituoso de Noel. Marca ainda, juntamente com “Até amanhã”, sua presença no carnaval de 33, ano pródigo em que teve mais de trinta composições gravadas.

Quando eu morrer,
não quero choro, nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Se existe alma,

se há outra encarnação
Eu queria que a mulata 
sapateasse no meu caixãoQuando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela
Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Não quero flores,
nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta
com violão e cavaquinho

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Estou contente,
consolado por saber
Que as morenas tão formosas
a terra um dia vai comer

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela
Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Não tenho herdeiros,
não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos
mas não paguei nada a ninguém

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela
Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Meus inimigos que hoje
falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
uma pessoa tão boa assim
Fonte: Cifrantiga
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

OH! QUE BELAS LARANJAS!

É uma roda de meninas, cantando:

Oh! Que belas laranjas, }
Ó maninha } bis
De que cor são elas? }

Elas são }
Verde, amarelas }
Vira, Maninha } bis
Cor de canela }

Todas as vezes que cantam — Vira Maninha — uma das meninas se volta para fora da roda, conservando-se de mãos dadas. A ronda termina quando a última criança se volta para fora, ficando todas de costas, umas para as outras, sem soltar as mãos
Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953.
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José Feldman (Universo de Versos n. 58)


Uma Trova do Paraná

CIDINHA FRIGERI – Londrina

Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina
minha sede então saciou.
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAUJO
1922 – 2004

Podes ser rico e ser nobre,
se a esperança não te assiste,
não vejo vida mais pobre,
nem vejo sorte mais triste!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Caxias do Sul/RS

MARILENE CAON PIERUCCINI

Três rosas no meu jardim
são de Deus pura magia.
Elas trazem para mim
o encanto da poesia.
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Uma Trova Humorística, de Pouso Alegre/MG

NEWTON MEYER
1936 – 2006

Verão assim, credo em cruz?
– Foi tanto calor na cuca,
que uma porca deu à luz
três leitões à pururuca!!!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A lua, sem empecilho,
desfilando, linda e nua,
deixa também o seu brilho
“nas poças d’água da rua”!
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Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos

CRISTINA OLIVEIRA CHAVEZ

El hambre, guerra y pobreza
que vivimos cada día
pinta en el rostro tristeza
tapa el Sol, de la alegría…
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Bauru/SP

ERCY MARIA MARQUES DE FARIA

Saudade é um velho barquinho
que vence o tempo e a distância
e recolhe, no caminho,
os pedacinhos da infância …
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Trovadores que deixaram Saudades

LEÔNCIO CORREIA – Paranaguá/PR
1865 – 1950

No mar aberto em feridas
em cuja dor te renovas,
sana-se o mal de outras vidas
em meio de grandes provas.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Do Passado faço culto!
Mas tenho cá o meu rito:
— Se triste, eu o sepulto!
Se feliz, o ressuscito…
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Um Haicai de São Paulo

JOÃO TOLOI

Clareira na mata —
Velho jacarandá caído
Carregado de flores.
================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Já lá vai morrendo o dia,
e hoje ainda não te vi.
– O dia em que não te vejo,
é dia que não vivi…
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O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Eu Voltarei…

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei…
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei…
======================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

CECILIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
1901 – 1964
Serenata

Uma voz cantava ao longe
entre o luar e as pedras.
E nos palácios fechados,
entregues às sentinelas,
— exaustas de tantas mortes,
de tantas guerras! —
estremeciam os sonhos
no coração das donzelas.
Ah! que estranha serenata,
eco de invisíveis festas!
A quem se dirigiam
palavras de amor tão belas,
tão ditosas
(de que divinos poetas?),
como as que andavam lá fora,
pelas ruas e vielas,
— diáfanas, à lua,
— graves, nas pedras…?
========================
Um Limerique de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Limerique Urbano II

Na avenida do cemitério
Quem transita segue sério
Quando há lua cheia;
O medo permeia
e sempre há um quê de mistério
========================
Uma Poesia de Guimarães/Portugal

JOÃO GARÇÃO
(1968)
Sentimento

 
A água está parada, muito quieta no meio da noite.
E é preciso perguntar-lhe: és água de um rio?
És água dum mar? És água dentro dum copo
sobre uma mesa muito antiga e sonhada?
És água para um cavalo beber? Para um cão se banhar?
Para um homem e uma criança se lavarem ao relento?
Para uma mulher, para um gato, para um lobo?

E a água talvez não te responda. Nunca te responda.
Ou te responda tarde de mais. Ou nem sequer te ouça.

Mas tu pergunta. Pergunta e espera pela resposta.
Mesmo que os minutos passem entre ti e a água
E devagar uma silhueta se desloque
e depois se detenha no meio das árvores imóveis.
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Um Soneto de Salvador/BA

GREGÓRIO DE MATOS
1623 – 1696
Soneto a Uma Saudade

Em o horror desta muda soledade,
Onde voando os ares a porfia,
Apenas solta a luz a aurora fria,
Quando a prende da noite a escuridade.

As cruel apreensão de uma saudade!
De uma falsa esperança fantasia,
Que faz que de um momento passe a um dia,
E que de um dia passe à eternidade!

São da dor os espaços sem medida,
E a medida das horas tão pequena,
Que não sei como a dor é tão crescida.

Mas é troca cruel, que o fado ordena;
Porque a pena me cresça para a vida,
Quando a v ida me falta para a pena.
========================
Uma Poesia de Longe

ADONIS – Síria
(Ali Ahmad Sa’id)
A Mão da Nuvem

1
Ao voltar de viagem, acordei ontem, perturbado.
Sonhava –
no meu sonho vi que a luz subia como uma
planta cujo nome ignoro mas que se assemelha ao
girassol.
Passaram pelo sonho
numerosas cidades, sem casas,
numerosas casas, sem quarto,
numerosos quartos, sem cama,
numerosas camas sem sono.

 2
Como é voluptuoso ver no ar
desfazerem-se os botões de uma rosa
à luz da madrugada,
quando ela ainda mal desperta!

 3
Através das frestas na porta e nas janelas do meu quarto
vem o ritmo dos passos, nem os do dia, nem os da noite.
São os passos de uma mulher eternamente vagabunda
que nunca envelhece, não repousa, não dorme.
O seu nome é o vento.

 4
Não consegui ainda
convencer o tempo
a associar-se a mim para lançar o seu dado verde.
5
Aqui, onde agora habito,
o vazio não pára de se queixar.
Não arranja nada para fazer
E não tem casa.

 6
Sei que o meu tom, por vezes,
é um tom de celebração,
mas é uma celebração votada ao vento.
Isto porque o que ele nos envia
é só as missivas da dúvida
e os mensageiros da incerteza.

 7
Ouço em viagem vozes estranhas.
Só as pode guardar um museu destinado
à infância da palavra.

8
A viagem ensinou-me
a ler o tempo
traçado pela mão da nuvem.

 9
Onde encontrar o elixir
que ande sempre a meu lado,
que venha sempre de uma outra época?

 10
Ontem, a noite veio a pé para me visitar,
como se se recusasse a apanhar o mesmo comboio
que as estrelas.

 11
Amadurece-me, ó sol.
Colhe-me, ó noite.

 12
Nenhuma proteção para a viagem pelo frio deste mundo
além da linguagem,
mas a linguagem é um pano cheio de buracos.

13
As margens aceitaram
ser uma casa para as ondas,
porque as próprias ondas são
um cais de partida para as margens.

14
Irá o viajante que há em ti encontrar enfim
aquele que em ti reside?
Ficará então a viagem a ser
uma onda de palavras
vindo quebrar-se nas tuas entranhas
contra o rochedo do sentido?

15
O mundo não deixa de ser uma criança.
levanta-te e deita-o no seu leito,
ó amanhã.
========================
Um Poetrix de João Pessoa/PB

REGINA LYRA
Harmonia

Supostas teclas
dedilham saudades.
Música que fazíamos juntos.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
========================
UniVersos Melodicos

Favela (samba, 1933) – Hekel Tavares e Joraci Camargo – Intérprete: Raul Roulien

 
No carnaval me lembro tanto da favela
Onde ela morava
Tudo o que eu tinha era
Uma esteira e uma panela
E ela gostava

Por isso eu ando pelas ruas da cidade
Vendo que a felicidade
Foi aquilo que passou
E a favela, que era minha
E que era dela,
Só deixou muita saudade
Porque o resto ela levou.

Inda outro dia,
Eu fui lá em cima na favela,
E ela não estava
Onde era a casa
Encontrei uma chinela
Que ela sambava

Me lembro tanto do café numa tigela
Que ela me dava
E de umas rezas
Que por mim,
Lá na capela
Só ela rezava.
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

O BAÚ
CD Cantigas de Roda – Vol 1 – 1985

Uma roda e uma menina no centro. A roda canta:

Quase que perco o baú
Perco o baú
Quase que não tomo pé
Não tomo pé
Por causa de um remador
De um remador
Que remou contra a maré

Quando cheguei lá na ponte
Lá na ponte
Perguntei quem me salvou
Quem me salvou
Respondeu o reservante
O reservante
Foi quem me desembarcou
Desembarcou

Então a menina do centro fica meio ajoelhada, de mãos postas em frente da que será escolhida, e canta:

Feliz mamãe
Tenha compaixão
De ver sua filhinha
Em seu doce coração

A menina escolhida passa para o centro da roda e continua o brinquedo.

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953.
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José Feldman (Universo de Versos n. 57)

Uma Trova do Paraná

AMÁLIA MAX – Ponta Grossa

A minha face carrega
tantas marcas de desgosto
que o meu sorriso se nega
em alegrar o meu rosto!
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

APARÍCIO FERNANDES

Culpada de minha dor,          
foi a esperança, Maria.          
Leu nos  meus olhos – amor          
em vez de ler simpatia
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de Porto Alegre/RS

LISETE JOHNSON

Num arco-íris de cores,
fui descendo de mansinho
sem, se quer, pisar nas flores
que plantaste em meu caminho.
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Uma Trova Humorística, de São Paulo

DOMITILLA BORGES BELTRAM
E
O marido agonizante,
insistindo quer saber:
– Fui traído? – e ela, hesitante:
– E se você não morrer?…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A Lua, que a noite ronda
com o seu lindo clarão,
é a lamparina redonda
que ilumina o meu sertão!
========================
Uma Trova Hispânica da França

CARLOS IMAZ ALCAIDE

Navegando por la vida
conocerás el amor
tu serás mi consentida
¡vive sin ningún temor!
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Niterói/RJ

MILTON NUNES LOUREIRO

Se o meu tempo está marcado
e da saudade eu disponho,
invento alguém ao meu lado,
cerro meus olhos e sonho…
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Trovadores que deixaram Saudades

DURVAL MENDONÇA – Rio de Janeiro
1906 – 2001

Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Muitas vezes ao partir,
(oh! tortura singular!)
— os que ficam, querem ir…
os que vão, querem ficar…
========================
Um Haicai de São Paulo

ANTONIO MARCOS AMORIM

final de tarde
se amontoam sabiás
a cantar entre nós
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Quando eu morrer, levo à cova
dentro do meu coração,
o suspiro de uma trova,
e o gemer de um violão.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Bem no Fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
======================
Uma Poesia do Ceará

ROBERTO CALDAS
Envelhecer Feliz

Olhar a vida,
depois dos anos passados
é perguntar ao tempo
o que foi feito mesmo
do tempo que nos foi dado.

Sentir que os cabelos embranqueceram,
os filhos, sempre pequenos, cresceram;
apareceram deles outros herdeiros
e que tantos carnavais vividos
é sempre um convite para vivê-los mais.

Viver mais, no limite máximo
que o desígnio do viver permita;
não ser econômico em gostar da vida:
fazer festa, ser a comida, a bebida,
ser espetáculo para ser visto e pedido bis.

Não ter vergonha de ser feliz,
se quadrado, quadrado,
se moderno, moderno… e daí?

Passou o tempo de ter compostura,
mergulhar em alegria pura,
ser, como nunca antes, audaz.

Saber-se obra por Deus construída
e jamais lamentar as feridas,
aos ingratos esboçar perdão,
das saudades fazer um colchão,
pra lembrar das maravilhas fruídas.

Ser idoso é coroamento
de um ciclo que o sol simboliza,
é passar de calor abrasante
que a força da juventude esparge
para o calor plácido e amigo
que, sem ele,
talvez nenhum ser sobreviva.

Envelhecer feliz
é provar que VIVER VALE A PENA!
========================
Um Limerique de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Limeriques Urbanos I

Dizem que a calçada é do povo…
Quero ver crianças de novo
Brincando… brincando,
Vivendo…sonhando…
porém o povo só leva ovo!
========================
Uma Fábula em Versos, da França

JEAN LA FONTAINE
1621 – 1695
O Leão e o Mosquito

“Vai-te, excremento do Orbe, vil insecto!”
(Ao mosquito dizia o leão um dia)
Quando, clamando guerra,
Respondia o mosquito:

— Cuidas que tenho susto, ou faço caso,
De que rei te intitules? Mais potente
É um rei, que tu não és, e eu dou-lhe o amanho,
Que me dá na vontade. — Assim falando.

Trombeta de si mesmo, e seu herói,
Toca a investir, e pondo-se de largo,
Lança as linhas, e atira-se ao pescoço
Do leão, que enlouquece,
Que escuma, e que nos olhos relampeja:
Ruge horrendo, e pavor em roda infunde
Tão rijo, que estremece, e que se esconde
Toda a gente. — E era obra dum mosquito
Tão insólito susto:
Atormenta-o essa esquírola de mosca,
Que ora helfas lhe pica, ora o costado,
Ora lhe entra nas ventas. —
Então lhe sobe ao galarim a sanha,
Então triunfa, e ri do seu contrário.
O invencível, de ver no irado busto,
Que dentes, garras, em lavá-lo em sangue
Seu dever desempenham.
O costado do leão se esfola, e rasga,
Dá num, dá noutro quadril com a cauda estalos.
Fere a mais não poder, com o açoite os ares. —
Desse extremo furor, que o cansa, e quebra.
Fica prostrado e torvo. —
Eis que o mosquito ali blasona ovante;
Qual a investir tocou, vitórias toca,
Pelo Orbe as assoalha,
Pavoneando gira. — Mas no giro
Certa aranha, que estava de emboscada,
De sobressalto o colhe,
E lhe chupa a ufania.

Doutrinas serviçais há nesta fábula.
Eis uma: Que o que mais entre inimigos
Devemos de temer, são muitas vezes
Os mais pequenos deles.
Outra é: Que alguém escapa aos perigos,
Que em menor lance acaba.
====================
Uma Poesia de Coimbra/Portugal

JAIME CORTESÃO
1884 – 1960
Renascimento

Nasci de novo. Eis-me liberto, enfim!
Foi por um Céu, de estrelas todo cheio,
Numa visão de Amor, que um Anjo veio
Descendo até pousar ao pé de mim.

O beijo que me deu não teve fim…,
Apertou-me nos braços contra o seio,
Abriu os lábios segredando…, e a meio
Bateu asas e levou-me assim.

Ai! como é doce o seio que me embala!
E como tudo é novo e mais profundo!…
Mas já não volta, ou, quando volta, é morto!

Noutro Mundo melhor eu vivo absorto,
E logo conheci que a esse Mundo
Quem vai não volta, ou, quando volta, é morto!!
========================
Um Soneto de Recife/PE

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Felicidade
 
No teu palácio de vitrais preciosos,
espelhos altos, e tapeçarias,
tu, milionário, entre cortesanias,
vives os teus momentos caprichosos.

Braços vendidos e mentidos gozos,
de amores fáceis, enches os teus dias.
Mas, passada a delícia das orgias,
vês, protestos e beijos, mentirosos.

E ah! quantas vêzes, solteirão, cansado,
invejarás o “guardador de gado”
que pelo escurecer, sem falsos brilhos,

volta para a cabana, e alegre janta,
cachimba um pouco, afina a viola, e canta
para o amor da mulher, e o amor dos filhos…
========================
Uma Poesia de Longe

ROLF JAKOBSEN – Noruega
1907 – 1994
Quando Dormem

Todas as pessoas são crianças quando dormem.
Nenhuma guerra as assola então.
Abrem as mãos e respiram
naquele ritmo sossegado que o paraíso lhes concedeu.

Vincam os lábios como pequenas crianças
e abrem ligeiramente as mãos,
soldados e estadistas, senhores e escravos.
As estrelas ficam de guarda
e uma neblina cobre o céu,
breves horas em que ninguém fará mal a ninguém.

Se ao menos pudéssemos falar uns com os outros então,
quando os nossos corações são flores semiabertas.
As palavras seriam espalhadas
pelo vento como pólen.
– Deus, ensina-me a linguagem do sono
=====================
Um Poetrix de Pedreira/SP

RAFAEL NORIS
Arritmia

o músico bêbado
leva à noite
emoções violadas
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Jardim

Negro jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos
como a estátua indecisa se reflete

no lago há longos anos habitado
por peixes, não, matéria putrescível,
mas por pálidas contas de colares
que alguém vai desatando, olhos vazados

e mãos oferecidas e mecânicas,
de um vegetal segredo enfeitiçadas,
enquanto outras visões se delineiam

e logo se enovelam: mascarada,
que sei de sua essência (ou não a tem),
jardim apenas, pétalas, presságio
========================
UniVersos Melodicos

LUÍS PEIXOTO e ARY BARROSO
Maria (samba-canção, 1933)

A necessidade urgente de uma música inédita para a peça teatral “Me deixa Ioiê” fez Luiz Peixoto criar os versos deste samba-canção sobre a melodia de “Bahia”, uma composição pouco conhecida de Ary Barroso.
O nome Maria, que muito bem substituiu o do samba original, era uma homenagem à estrela da peça, a bela atriz portuguesa Maria Sampaio, famosa também pelo seu talento. Esforçando-se para impressionar a homenageada, Peixoto caprichou nos versos, sendo Maria uma de suas melhores produções.
Só o início – “Maria, o teu nome principia / na palma da minha mão… – já vale por um poema, e dos bons. Gravado duas vezes por Sílvio Caldas, este samba foi sucesso em 1934 e 1940.

Maria !
O teu nome principia
Na palma da minha mão
E cabe bem direitinho
Dentro do meu coração
Maria
Maria

De olhos claros cor do dia
Como os de Nosso Senhor
Eu por vê-los tão de perto
Fiquei ceguinho de amor
Maria

No dia,
minha querida,
em que juntinhos na vida
Nós dois nos quisermos bem
A noite em nosso cantinho
Hei de chamar-te baixinho
Não hás de ouvir mais ninguém,
Maria !

Maria !
Era o nome que dizia
Quando aprendi a falar
Da avózinha
Coitadinha
Que não canso de chorar
Maria

E quando eu morar contigo
Tu hás de ver que perigo
Que isso vai ser, ai, meu Deus
Vai nascer todos os dias
uma porção de Marias
De olhinhos da cor do teus,
Maria !
Maria !
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

PASSARINHO DA LAGOA

 
É uma roda de meninas, cantando:

Passarinho da lagoa
Se tu queres avoar
Avoa, avoa
Avoa já

O biquinho pelo chão
As asinhas pelo ar
Avoa, avoa
Avoa já

Quando dizem — O biquinho pelo chão — todas se curvam, imitando o passarinho. Quando cantam — As asinhas pelo ar — todas levantam os braços e balançam, imitando o bater das asas dos pássaros.

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953.
========================

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Arquivado em Universo de Versos

José Feldman (Universo de Versos n. 56)


Uma Trova do Paraná

ADÉLIA WOELLNER – Curitiba

Só verdade e compaixão
ponha no que você faz;
derrame amor e perdão
e deixe fluir a paz.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de São Luís/MA

ORLANDO BRITO

No porto dos meus anseios
esperanças são navios,
que de manhã partem cheios
e à tarde voltam vazios…
=======================
Uma Trova Lírica/ Filosófica do Rio de Janeiro

ALMERINDA LIPORAGE

Do tempo em que tu me amavas
guardo a doçura que vinha
nas uvas que tu passavas
da tua boca pra minha.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo

JAIME PINA DA SILVEIRA

– Quando saiu … a maninha
foi com “mãinha” ou foi só?
– Sei não! Mas voltou “mãinha”,
quando chegou do forró!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Amigos que valem ouro,
nós deveremos mantê-los
guardados qual um tesouro
para nunca mais perdê-los!
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

ALICIA BORGOGNO

Pendiente estoy de vuelos
mientras el sol amanece…
Es uno de los desuelos
de mi vida que atardece.
===================
Uma Trova sobre a Trova, de Ponta Grossa/PR

PADRE HENRIQUE PERBECHE

Trovas? Umas são quais flores
a bailar pelas campinas;
Outras, rubis multicores,
forjadas no ardor das minas.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

EDMILSON FERREIRA MACEDO – Belo Horizonte/MG
1932 – 2008

Oh, musa de mil encantos,
mulher divina e querida,
que sabe enxugar meus prantos
nas horas tristes da vida!
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Estas Trovas foram sonhos
que um trovador já sonhou…
São uns farrapos tristonhos
de um grande amor que passou…
========================
Um Haicai de Balneário Camboriú/SC

ELIANA RUIZ JIMENEZ

Mais um dia nasce.
E esse amor que me vigia
é a luz da manhã.
================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Na janela do teu quarto,
a luz da manhã transborda.
Bem-te-vis estão gritando:
Preguiçosa, acorda, acorda!
=========================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Eu

Eu, quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

Carrego o peso da lua,
Três paixões mal curadas,
Um saara de páginas,
Essa infinita madrugada.

Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.
======================
Uma Poesia de Mimoso do Sul/ES

ALCI SANTOS VIVAS AMADO
Vou Te Dizer Adeus

Finais momentos de felicidade
Abraça-me com urgência,
Tristeza é mania de ansiedade
Por favor, como está tua consciência?

O teu descaso por mim foi perdoado
Não esquecerei um amor tão profundo
De súbito em nós despertado
Laço forte, maior desse mundo.

Senta-te aqui, não sejas uma fera,
Conta-me os dissabores de tua vida
Não fiques assim, estou a tua espera.

Minha alma sente que é inevitável
Adeus! Peço perdão se te ofendi
Redime esse cupido miserável.
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Uma Fábula em Versos, da França

JEAN LA FONTAINE
1621 – 1695
As Rãs Pedindo Rei

Viviam certas rãs num charco imundo
Em república plena. Era um pagode!
Tal qual uns democratas, que há no mundo,
Julgando que a república, no fundo,
Outra coisa não é senão a gente
Fazer o que bem quer e quanto pode,
A rã tripudiava impunemente.
Todos os dias era certo o choque
Entre o batráquio forte, intransigente,
E parte da nação, já descontente.

Largou-lhe lá do céu um rei pacato,
De suma gravidade,
Das alturas tombando, o rei na queda
Fez tal espalhafato,
Que as fêmeas em pavor, os machos fulos,
Aquelas saltitando, estes aos pulos,
Como é uso das rãs nas grandes crises,
Cada qual a gritar: arreda!, arreda!
Entre os juncais, no lodo, nas raízes
Dos salgueiros se enreda.

Por longo tempo em seus esconderijos
Das rãs esteve homiziado o povo,
Transformaram-se em medo os regozijos
Da antiga bacanal. Gigante novo
Cuidavam ser o rei que o céu lhes dera.
Não ousavam sequer sair da toca:
Pois, não raro, os instintos maus de fera
Por imprudente a presa é que os provoca.
Já nessas muito a pêlo vinha
Dizer: Cautela e caldo de galinha…

O rei era um pedaço de madeira.
Nem mais, nem menos. — Numa bela tarde
Uma das rãs, por ser menos covarde
Ou mais bisbilhoteira,
Tirou-se de cuidados, manso e manso
Na flor das águas surge, e, às guinadinhas,
Com muito tento e jeito,
Do cepo se aproxima.
Após ela vem outra.. e outra… aos centos!
Vendo que o rei não sai do seu ripanço,
Rodeiam-no; coaxam: Salta acima…
E coaxado e feito!…

O rei, temido outrora, às picuinhas
Dessa chusma vilã se vê sujeito.
Em rápido momento
Sobre ele a malta audaz se encarapita,
E faz do bom monarca um bom assento.
Nem chus nem bus! Galado que nem porta,
Qual fora noutros tempos!…

Isto irrita.
Rompem as rãs então numa algazarra
Que o pântano atordoa,
Os fios d’alma a quem as ouve corta:
“Leva daqui, ó Jove, esta almanjarra
Que nem mexe, nem pune, nem perdoa,
E mais parece uma alimária morta.
Cabide duma croa.
Em vez de nosso rei — nossa vergonha!”

Vai Júpiter que faz? Uma cegonha
Das muitas que possui logo destaca,
E manda que das rãs ponha e disponha,
Numa das mãos o queijo e noutra a faca.
Ora a cegonha, apenas em seu trono
Dona das rãs se vê e sem ter dono,
Diz consigo:
“Nasci dentro de um fole!
Quem tira agora o papo da miséria
Sempre sou eu!…”
Passeia toda séria,
Perna aqui… perna além, num andar mole
E quanta rã apanha quanta engole.
Geral consternação o charco enluta,
Renovam-se as lamúrias:
Que o rei é doido e tem às vezes fúrias;
Que, doido ou não, o povo trata à bruta;
Doutro rei que as não coma mais depressa
Por fim, que faça o deus formal promessa!
Mas Júpiter tonante
Destarte lhes responde:

“Inútil prece!
Dei-vos um rei tranqüilo, inofensivo,
Que nem sempre se tem, nem se merece:
Um rei, que era um regalo!
Foi vê-lo e pô-lo pela barra fora!
Dei-vos segundo: um gênio um pouco vivo…
Meninas, agüentá-lo!
Era bom o primeiro e foi-se embora.
É mau este de agora.
Contentai-vos com ele, ó meus indezes,
Que venha quem vier… pior mil vezes!”
====================
Uma Poesia de Arruda dos Vinhos/Portugal

Irene Lisboa
(Irene do Céu Vieira Lisboa)
1892 – 1958
Jeito de Escrever

Não sei que diga.
 E a quem o dizer?
 Não sei que pense.
 Nada jamais soube. 

 Nem de mim, nem dos outros.
 Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas…
 Seja do que for ou do que fosse.
 Não sei que diga, não sei que pense. 

 Oiço os ralos queixosos, arrastados.
 Ralos serão?
 Horas da noite.
 Noite começada ou adiantada, noite.
 Como é bonito escrever! 

 Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto – o jeito.
 Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
 No tempo vago…
 Ele vago e eu sem amparo.
 Piam pássaros, trespassam o luto do espaço,
este sereno luto das horas.
Mortas! 

 E por mais não ter que relatar me cerro.
 Expressão antiga, epistolar: me cerro.
 Tão grato é o velho, inopinado e novo.
 Me cerro!

 Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
 solta a outra, de pena expectante.
 Uma que agarra, a outra que espera…

 Ó ilusão!
 E tudo acabou, acaba.
 Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda? 

 Silêncio.
 Nem pássaros já, noite morta.
 Me cerro.
 Ó minha derradeira composição!
Do não, do nem, do nada, da ausência e
 solidão.

 Da indiferença.
 Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
 Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
 Alonga-te.
 A ribeira acordou.
========================
Um Soneto da Bahia

CARLOS RIBEIRO ROCHA
Soneto Montanhês

Neste soneto montanhês que faço
quero lembrar queridos companheiros
caminhos sinuosos onde passo
ouvindo o linguajar dos garimpeiros.

Falam eles das glórias, dos fracassos
dos seus momentos mais alvissareiros
das “corredeiras” feitas por seus braços,
para ali batear meses inteiros…

Mas, uma cena me ficou na mente
que considero a foto permanente
da vida campesina do Sertão:

Enquanto a fonte chora na vertente,
um sabiá gorjeia bem contente
sobre o velho ingazeiro do grotão.
========================
Uma Poesia de Longe

PIA TAFDRUP – Copenhaguen/Dinamarca
Qual a Hora, Qual o Momento?

 
Uma falha na vida é às vezes castigada
com a morte
– veneno – gás – choque – tiros – ou enforcamento –
mas o que é a morte
senão um castigo?
Uma recompensa ou não?
Condenados a morrer
já nós estamos
– mesmo sem castigo.
Ou será a morte
apesar de tudo uma prenda
que nos impede de viver demais?
Isso sim, seria um castigo!
para nós e para os outros.
Difícil é ver a morte
como prenda
no momento de deitar fora o papel
com a morada de um amigo
que morreu,
tenho que me lembrar
de não mandar mais cartas, não fazer mais telefonemas,
talvez desistir de conversar em sonhos…
Devo guardar o papel amarrotado
ou recordar o que ele diz?
Há silêncio
na sombra…
Destruo o endereço que ele escreveu
– mas porquê?
Porque o céu com as brasas que se erguem
brilha vermelho-herodes –
ou porque um pica-pau neste momento
anda por um ramo de pernas para o ar
e cabeça para baixo,
mas o olhar vagueia
pelo céu matinal do abismo.
=====================
Um Poesia In Memoriam, da Argentina

GERALDO TRINDADE
Soneto de Homenagem a Antero de Quental

Se há nesta vida um Deus para os acasos,
Que pela humanidade o bem reparte
Que te dê da fortuna a melhor parte
Que venturas te dê, sem lei nem prazos.

Eu, de alegrias tenho os olhos rasos
de lágrimas, querida, ao vir brindar-te
Quando vejo que até para saudar-te,
As flores se debruçam sobre os vasos.

O meu brinde é sumário, curto e breve
Se o nome que se quer, quando se escreve
Move-se a pena com traços ideais.

Um anjo como tu, quando se brinda
Tem-se a missão cumprida e a festa finda
Quebra-se a taça e não se bebe mais.
========================
Um Poetrix de São Paulo

ARGEMIRO GARCIA
Caminho do Sertão

Levanta-se pó na estrada,
rodando: será saci?
canta longe um bem-te-vi
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Confronto

Bateu Amor à porta da Loucura.

“Deixa-me entrar – pediu – sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão.”

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

“E exclama: “Entre correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar.”
========================
UniVersos Melodicos

ISMAEL SILVA, FRANCISCO ALVES e NOEL ROSA
Uma Jura Que Fiz – (samba, 1932)

Não tenho amor
Nem posso amar
Pra não quebrar
Uma jura que fiz
E pra não ter
Em quem pensar
Eu vivo só
E sou muito feliz

Aquela que eu mais amava
Só pensava em me trair
Quando eu menos esperava
Partiu sem se despedir
Essa mesma criatura
Quis voltar mas eu não quis
E hoje cumprindo a jura
Vivo só e sou feliz

Um amor pra ser traído
Só depende da vontade
Fonte: Cifrantiga
==========

Uma Cantiga Infantil de Roda

FUI À ESPANHA
CD O Tesouro das Cantigas Para Crianças

Fui à Espanha 
Buscar o meu chapéu,
Azul e branco 
Da cor daquele céu.

Ora, palma, palma, palma !
Ora, pé, pé, pé !
Ora, roda, roda, roda ! 
Caranguejo peixe é !

Caranguejo não é peixe, 
Caranguejo peixe é
Caranguejo só é peixe 
Lá no fundo da maré.

Samba, crioula,  
Que veio da Bahia.
Pega na criança 
E joga na bacia.

A bacia é de ouro, 
Areada com sabão;
Depois de areada, 
Enxuga com o roupão.

O roupão é de seda,  
Camisinha de filó,
Touquinha de veludo  
Pra quem ficar vovó.

Em coro, falando :

A benção, vovó !
A benção, vovó !
Fonte: Cifrantiga
========================

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José Feldman (Trova Brasil n. 12 – junho de 2013)

Trova Brasil numero 12 possui cerca de 100 trovas de cada trovador:

Carlos Guimarães
Humberto Rodrigues Neto
Marina Bruna
Lilinha Fernandes
Prof. Garcia
João Batista Xavier Oliveira

E ainda. concursos de trovas com inscrições abertas.

Leia em formato livro clicando AQUI

Ou solicite o livreto, em pdf, para pavilhaoliterario@gmail.com

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José Feldman (Universo de Versos n. 55)

Uma Trova do Paraná

MÁRIO A. J. ZAMARATARO – Curitiba

Tende a viver de amarguras
como a raposa da lenda
quem acha as uvas maduras
mas não colhe esta oferenda.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Pouso Alegre/MG

EDNA DE CASTRO

Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida,
onde se abriga a esperança!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo

ROBERTO TCHEPELENTYKY

Sobre a parreira, o luar
no sereno te retrata…
e os teus olhos a brilhar:
“Duas uvas” … cor de prata…
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo

CAMPOS SALES

– Fazê forró? Deixo não.
– Dotô, meu povo é pacato.
– E se tivé confusão?
– Si tivé, dexa que eu mato.
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Causa-me espanto o coqueiro;
algo de bom ele tem…
Mas, sendo torto ou linheiro,
nunca deu sombra a ninguém!
========================
Uma Trova sobre Saudade, de São Bernardo do Campo/SP

ANTÔNIO VANZELLA

Saudade, lembrança acesa,
não de um amor que passou,
mas, sim, com toda certeza,
daquele amor que ficou! …
=======================
Uma Trova Hispânica da Venezuela

LUIS ALFREDO R. MAZZEI

Mi vida llena de amor
por ella quisiera verte
aunque tenga mi dolor
porque mirarte es quererte
===================
Trovadores que deixaram Saudades

CECIM CALIXTO – Tomazina/PR
1926- 2008
É verdade, neste inverno,
vou dar tudo a quem não tem,
porque sei que para o inferno
nunca vai quem faz o bem.
========================
Uma Trova Popular

A cantar ganhei dinheiro,
a cantar se me acabou.
O dinheiro mal ganhado
água deu água levou.
==========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Espalhem que sou tristonho…
Não ligo ao que o mundo diz…
– Quem na vida tem um sonho,
mesmo se é triste, é feliz…
========================
Um Haicai de São Paulo

ANALICE FEITOZA DE LIMA

Uma água barrenta,
pássaros sobre o barranco.
Um rio minguante.
================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Depois de mandar-te embora,
foi que – cego! – percebi,
que eras a felicidade,
que eu tinha em mão, e perdi.
=========================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Amor Bastante

Quando vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,eu e você,
caminhando juntos.
======================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

ARNOLDO PIMENTEL FILHO
Aquarela

Eu pinto sonhos que nem sempre têm asas
Sonhos vividos
Sonhos esquecidos
Sonhos que poderão viver na minha tela
Na minha triste aquarela
Minha tela pode estar pintada de vazio
Silêncio vazio
Cores incolores que mostram meu rosto
Tela vazia incolor que inspira minhas cores
Eu pinto meus temores na madrugada
Onde a tempestade é a verdadeira tela
Onde a solidão disfarçada
Invade o meu quarto pela janela
Eu pinto a solidão do meu corpo
Pinto as cores da minha voz nua
Pinto meus olhos perdidos no infinito
Minha tela é meu próprio grito
========================
Uma Sextilha, de Natal/RN

ADEMAR MACEDO

Eu sempre passo o domingo
sentindo e dando alegrias,
visitando meus amigos
que não vejo há vários dias;
e caçando inspiração
pra fazer minhas poesias…
========================
Uma Fábula em Versos, da França

JEAN LA FONTAINE
1621 – 1695

O Lobo Pleiteando Contra o Raposo Perante o Macaco

Queixou-se uma vez o lobo
De que se via roubado,
E um mau vizinho raposo
Foi deste roubo acusado.

Perante o mono foi logo
O réu pelo autor levado,
E ali se expôs a querela
Sem escrivão, nem letrado.

“À porta da minha fuma.
Dizia o lobo enraivado.
Pegadas deste gatuno
Tenho na terra observado.”

Dizia o réu em defesa:
“Tu, que és ladrão refinado!
O que, se vives de roubos.
Podia eu ter-te furtado?

— Furtaste! — Mentes! — Não minto!
Questões, gritos, muito enfado.
Já do severo juiz
Tinham a testa azoado.

Nunca Têmis vira um pleito
Tão dúbio, tão intrincado!
Nem que pelos litigantes
Fosse tão bem manejado.

Mas da malícia dos dois
Instruído o magistrado,
Lhes disse: “Há tempo que estou
De quem vós sois informado:

Portanto, em custas em dobro
Seja um e outro multado,
E tanto o réu como o autor,
Por três anos degredado”.

Dando por paus e por pedras
O mono tinha assentado,
Que sempre acerta o juiz,
Quando condena um malvado.
====================
Um Soneto de Vila Viçosa/Portugal

FLORBELA ESPANCA
(Flor Bela de Alma da Conceição Espanca)
1894– 1930
Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho…E não sou nada!…
========================
Um Soneto de Recife/PE

MAJELA COLARES
O Soldador de Palavras

Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo – literal sentido –
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.

Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.

A idéia é fogo. Fogo… o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
========================
Uma Poesia de Longe

VLADIMIR VLADIMIROVITCH MAYAKOVSKY – Geórgia/Russia
1893 – 1930    
Voo de Norturno

Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!
=====================
Um Poesia In Memoriam, de Porto Alegre/RS

IALMAR PIO SCHNEIDER
Soneto a Masaharu Taniguchi
Fundador da Seicho-No-Ie – *1893 – +17.6.1985

Masaharu Taniguchi, Grande Mestre,
que me levou com seus ensinamentos,
a palmilhar este viver terrestre,
à luz de divinais convencimentos…

Eu que vivia como um bom pedestre,
mas sem os especiais conhecimentos,
agora a cultuar meu ramo ancestre,
não tenho tantos aborrecimentos…

Se houvesse o conhecido antes ainda,
é provável que fosse mais feliz,
sem ter passado, às vezes, sem a luz

que deixa a vida muito mais infinda;
porquanto creditei tudo o que fiz
à sorte de levar a minha cruz…
========================
Um Poetrix de São Paulo

BETO QUELHAS
arteiro

o vento brinca escondendo
na cortina dos seus cabelos
os seus olhos em venenos
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Reconhecimento do Amor

Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não querias a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez – sem o perceber, juro –
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.

Entretanto,
ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando – por esperteza do amor – senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.

Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.
========================
UniVersos Melodicos

NOEL ROSA
Coisas nossas (samba, 1932)

Com a gradual implantação do som no cinema brasileiro, Wallace Downey, um americano ligado à nossa indústria fonográfica, percebeu que a produção de filmes musicais poderia ser um negócio muito lucrativo. Assim apoiado pela empresa Byington & Cia., de São Paulo, realizaria em 1931 o curta-metragem “Mágoa Sertaneja” e o longa “Coisas Nossas”, os musicais pioneiros do nosso cinema.

Inspirado, talvez, pelo título deste último, Noel Rosa compôs o samba homônimo (também conhecido por “São coisas nossas”), em que “filosofa” espirituosamente sobre hábitos, manias e “outras bossas” tipicamente brasileiras — “O samba, a prontidão e outras bossas / são nossas coisas, são coisas nossas…”. “Coisas Nossas” e mais outros quatro sambas foram lançados por Noel em discos Columbia, empresa que na época havia instalado um estúdio de gravação no Rio de Janeiro (A Canção no Tempo – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Queria ser pandeiro    
Pra sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa   

Muito nossa
O samba, partidão e outras bossas
São nossas coisas 

São coisas nossas
 

Menina que namora na esquina
e no portão
Rapaz casado com dez filhos   

sem tostão
Se o pai descobre  

o truque dá uma coça
Coisa nossa  

Muito nossa 

O samba, partidão . . . . 

Baleiro, jornaleiro, motorneiro  
Condutor e motorista
Prestamista, vigarista
E o carro que parece uma carroça
Coisa nossa  

Muito nossa
O samba, partidão . . . . .

Malandro que não bebe, que não come
Que não abandona o samba 
Pois o samba mata a fome
Morena bem bonita lá na roça
Coisa nossa  

Muito nossa
Fonte: Cifrantiga
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

VESTIDINHO BRANCO

É uma roda de crianças com uma no meio. Cantam as da roda:

Vestidinho branco }
Prá todas sentam bem } bis

Só assenta pra dona Fulana, ó maninha }
É mais do que ninguém } bis

É mais do que ninguém }
É por dentro e é por fora } bis

É com a letra N, ô maninha }
Com quem ela namora } bis

É com quem ela namora }
E já a namorou } bis

Canta, então, a garota que está no centro da roda, para a escolhida:

Ao sair da roda, ô maninha }
A mão lhe apertou } bis

Aqui, as duas apertam as mãos e ficam assim até o final, quando se abraçam.
Continuam as duas cantando:

A mão lhe apertou }
E foi bem apertadinha } bis

Para o ano, se Deus quiser, ó maninha }
Nós vamos comer galinha } bis
 
Ao dizerem os últimos dois versos, todas as crianças da roda cantam também, juntamente com as duas.
Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953.
========================

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José Feldman (Universo de Versos n. 54)

Uma Trova do Paraná

VANDA FAGUNDES QUEIROZ – Curitiba
Se ausência é cena vazia,
guarda, invisível, latente,
a marca de algo que, um dia,
ali já esteve presente
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Pouso Alegre/MG

MANOELITA AMORIM MEYER
A Esperança corre, voa,
mas deixa por onde passa,
uma impressão suave e boa:
de paz, de amor e de graça.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo/SP

HÉRON PATRÍCIO
Em nossas carícias quentes,
não pesa a idade, nem nada,
porque somos dois poentes
que explodem numa alvorada!
=======================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro

MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
No documento é solteira,
mas vendo a idade da dona,
diz a patroa encrenqueira:
solteira, não, solteirona…
======================
Uma Trova do Ademar
ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013
A lua, de vez em quando
fica um pouco sem brilhar,
para ficar “espiando”
dois pombinhos namorar!
========================
Uma Trova Hispânica da República Dominicana
GARIBALDY MARTÍNEZ
…Envuelto el mundo estrellado
Ocupó tu corazón
¡OH, mi Brasil añorado!
Digno de mi inspiración.
===================
Uma Trova Ecológica, de Santos/SP
CAROLINA RAMOS
Fogo! A mata em pandemônio!
Que angústia amarga senti,
vendo no homem o demônio
do inferno que ardia ali!
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Trovadores que deixaram Saudades
CORNÉLIO PIRES – Tietê/SP
1884 – 1958
Da multidão dos enfermos
Que sempre busco rever
O doente mais doente
É o que não sabe sofrer.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores
LUIZ OTÁVIO
1916-1977
Estrela do céu que eu fito,
se ela agora te fitar,
fala do amor infinito
que eu lhe mando neste olhar …
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Um Haicai de Alegrete/RS
– MARIO QUINTANA
1906 – 1994
Diálogo bobo
– Abandonou-te?
– Pior ainda: esqueceu-me…
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Uma Trova do Rei dos Trovadores
ADELMAR TAVARES
1888 – 1963
Duvido que alguém no mundo,
olhe sem melancolia,
uma vela no horizonte,
lá longe… no fim do dia…
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O Universo de Leminski
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Sem Budismo
Poema que é bom
acaba zero a zero.
Acaba com.
Não como eu quero.
Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
veneno de letra,
bolero. Ou menos.
Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
e sozinho.
======================
Uma Poesia de Curitiba/PR
LUCIA CONSTANTINO
Poeta, Poesia
No sagrado linho da vida,
bordas a pauta dos instantes
e te doas em melodias
a tantos caminhantes.
Enquanto espreitam e coabitam
tristezas e bem aventuranças,
são tuas linhas que refazem
o caminho da esperança.
Talvez sejamos, de uma aquarela,
cores que uma mão desconhecida
pintou em luz eterna
no mesmo manto da vida.
Tudo está certo no universo.
Somos parte de um divino plano.
É no fino linho dos teus versos
que bordam os anjos.
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Cordel, de Cabedelo/PB
GUIBSON MEDEIROS
Cordel de Novelas
Belíssima Despedida de solteiro
A próxima vítima O rei do gado
O profeta Roque santeiro
Sassaricando O bem amado
Cabocla Da cor do pecado
A favorita Estrela guia
O astro Cordel encantado
A padroeira Eterna magia
Alma gêmea As três Marias
A sucessora Vereda tropical
Mulheres de areia Maria Maria
Selva de pedra Lua de cristal
Olho no olho Pecado capital
O amor está no ar
Salomé Fera radical
Escrava Isaura Livre para voar
Aquele beijo Toma lá da cá
Carinhoso Sabor da paixão
Corpo a corpo Direito de amar
Final feliz Explode coração
Pedra sobre pedra O casarão
Terra nostra O mapa da mina
Dancin days A próxima atração
Cambalacho Negócio da China
Feijão maravilha Gina
A gata comeu Marron glacê
Anjo mau gente fina
Tiêta Voltei pra você
Roda de fogo Bambolê
Laços de família Esplendor
Começar de novo Renascer
Amor eterno amor
Mandala Vila Madalena
Torre de babel Escalada
Deus nos acuda Helena
Minha doce namorada
Eu prometo A viagem
Viver a vida Um sonho a mais
Vida nova Irmãos coragem
A sombra dos laranjais
América Pátria minha
Paraíso Tropicaliente
Gabriela a Moreninha
Por amor A vida da gente
Chega mais cama de gato
Beleza pura felicidade
Mico preto Bicho do mato
O dono do mundo celebridade
Um anjo que caiu do céu
Fina estampa sete pecados
Dona Xepa Barriga de aluguel
De corpo e alma Coração alado
Baila comigo Estúpido cupido
O amor é nosso Passione
O noviço O homem proibido
Tempos modernos O clone
Quatro por quatro Locomotivas
Louco amor Pecado rasgado
Como uma onda Água viva
Sol de verão corpo dourado
Sinhá moça Meu bem querer
Perigosas peruas Vira  lata
Senhora do destino Quem é você
Zazá Rainha da sucata
Fogo sobre terra Bang  bang
Porto dos milagres Araguaia
Jogo da vida Pacto de sangue
Era uma vez Saramandaia
De quina pra lua Brilhante
Marina Meu bem meu mal
Pai herói Coração de estudante
Cubanacan Paraíso tropical
Sinhazinha flô Desejo proibido
O primeiro amor Hipertensão
Partido alto Sétimo sentido
Vale tudo insensato coração
O outro Anjo de mim
Morde e assopra Padre Tião
Pé na jaca terras do sem fim
Meu pedacinho de chão
O cravo e a Rosa Duas vidas
Te contei Que Rei sou eu
O semiDeus fera ferida
As três irmãs Sonho meu.
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Uma Fábula em Versos, da França
JEAN LA FONTAINE
1621 – 1695
O Conselho dos Ratos

Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome.
Sua alcunha — Esgana-ratos.

As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Inda o rato mais muchucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.

Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês.
Sim por um vivo diabo.

Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.

Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.

Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:

“Enquanto o permite a noite.
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo:
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã.
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir'”.

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem Fizesse a diligência.

“Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão.
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.”

— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!

— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: “Eu não, eu não!”

Tornou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal,
Que o remédio que se encontra
Inda é pior do que o mal.

Assim mil coisas que assentam
Numa assembléia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que tem dente de coelho.

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Uma Poesia de Lisboa/Portugal
ALFREDO GUISADO
1891 – 1975
Ela, em meu sonho
Ela vivia num palácio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.
As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pousando, trêmulas, frias,
nas cordas, a sonharem melodias…
E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegavam, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.
É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.
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Um Soneto de Paraisópolis/MG
SÔNIA MARIA DE FARIA
Travessia
Se num belo sonho se envolve a vida,
Traz ele novos ares de alegria,
Uma força com meta definida
E um desejo incontido se anuncia.
Mergulha o coração no desafio…
Busca firme traçar a sintonia
Entre dias de sol, noites de frio,
Nada fere sua essência, a euforia.
Se é difícil a paz na travessia,
São os sonhos as borbulhas de magia,
A força estranha, o caminho, a certeza…
Escolher sonhar é sabedoria:
É dos que sonham o raiar do dia…
É dos que lutam sua realeza.
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Uma Poesia de Longe
ARSENY TARKOVSKY – Kirovohrad, Ucrânia
(1907 – 1989)
Pela noite
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “abençoada sejas!”
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
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Um Soneto In Memoriam, de Porto Alegre/RS
Soneto a Arthur Azevedo
Falecimento em 22.10.1908
Foi dramaturgo, poeta e contista,
com “Arrufos”, um soneto forte,
após desentender-se com a consorte,
fez uns ares de quem do amor desista…
Toma o chapéu e sai, sem que suporte,
fingir que não mais ama e se contrista,
mas algo o faz voltar e então persista
a manter a paixão até a morte…
Assim são os amores verdadeiros,
ao menos na aparência dos amantes,
que às vezes têm questiúnculas por nada…
E quando voltam ficam companheiros
para viverem todos os instantes,
seguindo adiante pela mesma estrada…
========================
Um Poetrix do Rio de Janeiro
LILIAN MAIAL
música
meu corpo canção
em acordes se afina
tocado por teus olhos
========================
O Universo de Drummond
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundom,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo. ========================

UniVersos Melodicos
CÂNDIDO DAS NEVES
Noite Cheia de Estrelas (tango-canção, 1932)
Contrastando com o humor irreverente de Noel e Lamartine, 1932 teve também o romantismo derramado de Cândido das Neves em “Noite cheia de Estrelas”. Filho do palhaço, cantor e compositor Eduardo das Neves, Cândido – conhecido como Índio, apesar de ser negro – foi um seguidor de Catulo da Paixão Cearense, notabilizando-se como autor de canções seresteiras.
Exemplo disso é “Noite Cheia de Estrelas”, um tango-canção cheio de imagens rebuscadas e palavras escolhidas no dicionário: “as estrelas tão serenas / qual dilúvio de falenas / andam tontas ao luar / todo astral ficou silente / para escutar / o teu nome entre endechas / as dolorosas queixas / ao luar…”. Gravada por Vicente Celestino, a canção é um clássico dos repertórios do cantor e do autor.
Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata
Qual uma chuva de prata
De raríssimo esplendor
Só tu dormes, não escutas
O teu cantor
Revelando à lua airosa
A história dolorosa desse amor.
Lua,
Manda a tua luz prateada
Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos
Sufocá-la com os meus beijos
Canto
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta, está dormindo
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou  eu
Entre a neblina se escondeu.
Lá no alto a lua esquiva
Está no céu tão pensativa
As estrelas tão serenas
Qual dilúvio de falenas
Andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente
Para escutar
O teu nome entre as endechas
A dolorosas queixas
Ao luar.
Lua,
Manda a tua luz prateada
Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos
Sufocá-la com os meus beijos
Canto
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta, está dormindo
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou  eu
Entre a neblina se escondeu.
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
Um Dia de Cão
Apanhar a bola-la
Estender a pata-ta
Sempre em equilíbrio-brio
Sempre em exercício-cio.
Corre, cão de raça
Corre, cão de caça
Corre, cão chacal.
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor.
Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin.
Lealdade eterna-na
Não fazer baderna-na
Entrar na caserna-na
O rabo entre as pernas-nas.
Volta, cão de raça
Volta, cão de caça
Volta, cão chacal.
Sim, senhor
Cão policial.
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor.
Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin.
Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Snoopy, Lulu,    Bobby
Estou às ordens
Sempre, sim, senhor.
Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo e
Cada vez mais  cão.
(Fonte: Cifrantiga)
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Vírgula

Vírgula pode ser uma pausa… ou não.

Não, espere.
Não espere.
 

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
0,234…

Ela pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.
 

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
 
E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.
 
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
 
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
 
A vírgula pode ser ofensiva.
Não quero comprar seu porco.
Não quero comprar, seu porco.
 
Uma vírgula muda tudo.
Detalhes Adicionais
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

Fonte:
Fábulas e Contos

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Jakob e Wilhelm Grimm (O Pássaro de Ouro)

Era uma vez, há muito tempo, num reino distante, havia um rei que tinha um pomar muito belo nos fundos de seu castelo. Nesse pomar havia uma árvore que produzia maçãs de ouro muito deliciosas. Quando as maçãs amadureciam eram contadas uma a uma. Certo dia o rei notou que faltava uma maçã e então deu ordem para que todas as noites alguém ficasse vigiando a macieira.

Esse rei tinha três filhos, príncipes herdeiros, e então enviou o maior deles, ao cair da noite, a vigiar o pomar e a árvore; porém, antes da meia-noite o jovem não se conteve de sono e adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que faltava uma maçã. Na noite seguinte o rei enviou o filho do meio a vigiar o pomar. E da mesma forma este não teve melhor sorte que seu irmão mais velho. Adormeceu antes mesmo da meia-noite e, quando despertou na manhã seguinte, notou que faltava uma maçã na árvore.

Terceira noite. Chegou a vez do menor, do caçulinha cuidar do pomar. O rei, porém, não botava muita fé no menorzinho e achava que aconteceria o mesmo com ele, e que não teria melhor sorte que seus irmãos mais velhos, motivo pelo qual não queria deixá-lo ir. O jovem, porém, pediu, implorou e insistiu tanto que o seu pai acabou consentindo. Então o caçula postou-se debaixo da árvore, ficou alerta, em vigília, e não deixou que o sono o vencesse. Ficou de olhos bem abertos e vigiando a macieira.

À meia-noite, como era noite enluarada, ele ouviu um grande barulho no ar e viu um grande pássaro voar ao redor da árvore – suas penas eram de ouro puro e brilhavam sob a luz do luar. O pássaro pousou na macieira e bicou uma maçã. Ao fazer isso o príncipe-caçula pegou o estilingue e atirou-lhe uma pedra. O pássaro voou com a maçã no bico mas, atingido na cauda, deixou cair uma pena dourada.

 Na manhã seguinte o caçula levantou-se, pegou a pena e levou-a ao rei seu pai e contou-lhe o que vira durante a noite. O rei então reuniu os sábios do seu reino e todos foram unânimes em dizer que uma pena de ouro daquelas era raríssima, mais cara que todo o seu reino. Então o rei lhes disse:

“Se uma pena assim é tão valiosa, então de nada me adianta ter apenas uma pena dourada. Eu quero o pássaro todo, vivo.”

No dia seguinte o pai chamou o filho mais velho e enviou-o em busca da ave. Ladino, pôs-se a caminho em busca do pássaro de ouro, acreditando que logo o acharia. Mal havia andado alguns quilômetros quando, ao entrar em uma floresta, viu uma raposinha à beira do caminho.

Preparou a espingarda e mirou. A pobre raposinha suplicou:

“Por favor, não me mate. Eu vou lhe dar um bom conselho: Você está em busca do pássaro dourado, não é mesmo ?  Pois bem, hoje à tarde, antes mesmo do por do sol, você irá chegar a uma aldeiazinha. Logo na entrada, na primeira rua dessa aldeiazinha você verá duas pensões – uma diante da outra. Uma delas estará toda iluminada e com música alta. Lá só tem folia e algazarra. Não entre nessa não. Vá à outra, do outro lado da rua, mesmo que ela tenha um aspecto horrível – mas essa é boa.”

 E o príncipe pensou consigo:

“Só se eu fosse muito bobo pra seguir um conselho dessa raposa tola…”

E assim pensando, apertou o gatilho da espingarda mas errou o alvo e não acertou a raposinha que esticou a cauda e os pelos e correu para dentro da floresta. Então o príncipe continuou seu caminho. Ao cair da tarde, chegou a uma aldeiazinha onde havia duas pensões, uma em frente da outra.  Numa delas, só música, festa, folia e bagunça e, na outra, silêncio e um aspecto não muito agradável aos olhos.

 E pensou consigo:

“Eu seria um tolo se eu me hospedasse naquela espelunca feia que mais parece uma favela e cemitério…”

E assim dizendo, entrou na casa onde imperava a bagunça e a folia. E viveu a vida comendo e bebendo, dançando e gastando tudo.  Esqueceu-se do pássaro, do seu pai e de tudo de bom que havia aprendido.

 Como o tempo se passou e o filho mais velho não retornava, o pai enviou o filho do meio. Este se pôs a caminho em busca do pássaro dourado.  E, da mesma forma como acontecera com o seu irmão mais velho, encontrou a raposinha à beira do caminho, a qual deu-lhe conselhos. Porém ele não a ouviu. Chegando àquela aldeiazinha viu, pela janela da casa de folia, seu irmão bebendo e dançando. E lá dentro só algazarra. Seu irmão o chamou. Ele entrou e também levou a vida só no bem-bom.

 Passou-se o tempo e, como nenhum dos dois irmãos retornava, o caçula quis partir em busca do pássaro de ouro, porém seu pai não botava fé nele e não queria deixá-lo partir. Então o rei, seu pai, falou-lhe:

 “É inútil. Se seus irmãos não encontraram o pássaro dourado, você não terá melhor sorte… Você é muito pequeno… “

E tanto insistiu, e implorou o caçula que o rei, seu pai, acabou consentindo na sua partida.

  No caminho, logo na entrada da floresta, o príncipe-caçula encontrou a raposinha a qual disse-lhe que se não a matasse ela lhe daria bons conselhos. O caçula gostava de animais e adorou a raposinha, e disse-lhe:

“Fique tranqüila, raposinha bonitinha, eu não vou causar-lhe mal algum… Eu não vou matar você não…”

E a raposinha disse-lhe:

 “Meu nome é Sabedoria. Seguindo meus conselhos você não irá se arrepender… E para que você chegue mais depressa, suba às minhas costas.”

 Nem bem o jovem havia subido às costas da raposinha esta correu como um raio, passando sobre paus e pedras, até que chegaram àquela cidadezinha. O jovem príncipe desceu e, sem olhar para os lados, seguiu o bom conselho da raposinha. Pernoitou na casa feia, porém sossegada e limpa por dentro; e adormeceu tranqüilamente.

 Na manhã seguinte, ao prosseguir seu caminho, deparou-se novamente com a raposinha à beira do caminho, a qual lhe disse:

“Eu quero continuar lhe ajudando, aconselhando e dizendo o que você deve fazer. Vá sempre em frente, direto e reto, sem olhar para os lados, até que você irá chegar a um castelo diante do qual há um batalhão de soldados, deitados. Mas não se preocupe, pois todos eles estão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre no castelo e vá até o último quarto. Dentro desse quarto você irá encontrar o pássaro dourado dentro de uma gaiola velha, de madeira, pendurada na parede. Ao lado dessa gaiola de madeira estará uma outra gaiola, de ouro maciço, porém vazia; tome cuidado ! Não pegue o pássaro de ouro e o coloque na gaiola dourada. Se você fizer isso algo de mal irá lhe acontecer….”

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta correu tanto que até o vento zunia e assobiava.

 Chegando ao castelo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. O príncipe foi até o quarto onde o pássaro dourado estava dentro de uma gaiola de madeira. Notou que, ao lado, pendurado na parede, havia uma gaiola de ouro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada…. Já pensaram ! Eu levar um pássaro de ouro em uma simples gaiola de madeira e deixar aqui uma gaiola de ouro…??? Brincadeira, né???… . “

Assim pensando, abriu a gaiola de ouro e colocou o pássaro dourado nela.

No mesmo instante o pássaro dourado começou a piar e a  graznar muito forte e alto acordando todos os guardas do castelo, e fugiu da gaiola. O guardas do castelo entraram correndo no quarto, prenderam o príncipe-caçula e o lançaram na cadeia.

 Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte.  Porém, o rei daquele castelo disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse o cavalo de ouro e de crina branca, o qual era mais veloz que o vento; e, ainda por cima, poderia ganhar de presente o pássaro e a gaiola de ouro.

 Triste e desconsolado o príncipe pôs-se a caminho.  Mas, onde encontrar o cavalo de ouro ?  Pensando nisso ele viu sua amiga raposinha, à beira do caminho, a qual lhe disse:

“Viu só ? Eu não lhe falei ?? Você não seguiu meus conselhos… Tudo isso lhe aconteceu porque você não deu ouvidos aos meus conselhos… Mas, coragem. Você terá outra chance. Eu vou lhe mostrar como conseguir o cavalo dourado. Você deve seguir direto e reto esse caminho, sem olhar para os lados nem para trás, até que você irá chegar a um castelo onde encontrará o cavalo dourado em um estábulo. Diante do estábulo você verá, deitados, muitos guardas, mas não se preocupe, pois eles estarão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre na estrebaria, pegue o cavalo e parta a galope. Mas, cuidado ! Coloque sobre ele a sela feita de madeira e couro e não a feita de ouro que estará pendurado ao lado, senão algo de ruim irá lhe acontecer..”.

 Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.  Chegando ao estábulo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Foi até onde o cavalo de ouro estava, com uma sela de madeira e couro.  Pendurada, ao lado, havia uma sela de ouro puro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada…. Já pensaram ! Eu levar um cavalo bonito e alazão como esse com uma simples sela de madeira e couro velho?? … E deixar aqui uma sela novinha de ouro???   Brincadeira, né ?? … . “

Assim pensando, rechaçou a sela velha e colocou a de ouro no alazão. No mesmo instante o cavalo começou a relinchar tão alto e forte que acordou todos os guardas do castelo, os quais vieram e prenderam-no levando-o diante do rei.

Depois o jovem príncipe foi posto na cadeia.

 Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte. O rei daquele castelo, porém, disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse a princesa que morava no castelo de ouro. Se trouxesse a princesa poderia levar de presente o cavalo e a sela de ouro.

  Muito triste e com o coração angustiado o jovem pôs-se a caminho em busca do castelo de ouro e da princesa que nele morava. Por sorte ele logo encontrou no caminho a fiel raposinha, que lhe disse:

“Eu deveria abandoná-lo à sua própria sorte, mas eu tenho pena de você e quero ajudá-lo mais uma vez. Siga esse caminho direto e reto, sem olhar para os lados nem para trás. Ao entardecer você irá chegar a um castelo dourado. Ao soar meia-noite, quando tudo estiver em silêncio, a princesa sairá para nadar na piscina. Então, assim que ela entrar na piscina, mergulhe também e beije-a. Então ela irá seguir você. Porém não a deixe despedir-se e beijar os pais, porque se você deixá-la fazer isso, algo muito ruim irá lhe acontecer.”

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

Quando o príncipe chegou ao castelo dourado encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Esperou dar meia-noite e, quando tudo estava calmo e silencioso a jovem e bela princesa foi até a piscina, entrou, e logo a seguir o príncipe mergulhou e deu-lhe um beijo. Ela disse-lhe então que havia gostado dele, que o amava, e que gostaria de ir embora com ele; porém, antes teria que despedir-se de seus pais. Ele, lembrando-se dos conselhos da raposinha, disse que não. Mas ela tanto chorou e implorou e beijou-lhe tanto que ele acabou consentindo que ela se despedisse dos pais.

 Logo que a jovem princesa entrou no quarto de seus pais, que estavam dormindo, beijou-os, e estes despertaram;  acordaram-se também todos que estavam dormindo no castelo. Houve uma gritaria e o jovem foi preso e colocado na cadeia.

 Na manhã seguinte o rei daquele castelo disse-lhe:

“Sua vida está por um fio, mas você poderá salvá-la se conseguir retirar esta montanha que está diante do meu castelo, montanha difícil de ser transposta e que me impede de ver o outro lado do meu reino. Mas veja bem, você tem que fazer isso no prazo de oito dias. Faça isso e você terá a mão de minha filha em casamento.”

E o príncipe começou a cavar, a retirar terras, paus e pedras da base  da montanha que ficava diante do castelo. E trabalhou, e trabalhou e, no sétimo dia não havia feito muitos progressos, tinha retirado pouca terra. Cansado e exausto, caiu, desanimado e desesperançado, chorou.

 Ao entardecer do sétimo dia apareceu novamente a raposinha sua fiel amiga e disse-lhe:

“Você não merece que eu o ajude pois foi desobediente e não seguiu meus conselhos. Última chance. Deite-se e durma ali na grama que eu vou fazer esse serviço em seu lugar”

E começou a cavar.

Na manhã do oitavo dia, quando o rei acordou e olhou pela janela, a montanha havia desaparecido. Por seu turno, feliz da vida, o jovem príncipe correu ao castelo e disse ao rei que agora este teria de cumprir a palavra e a promessa e dar-lhe a mão da princesa em casamento. Então, alegres e felizes, partiram ambos, príncipe e princesa, em uma carruagem muito bonita, puxada por seis cavalos brancos.

Não demorou muito, a raposinha apareceu-lhe no caminho e falou:

– “O melhor você já conseguiu, mas acontece que o cavalo dourado  também é da princesa do castelo de ouro…”

– “Mas como eu poderei pegá-lo ?”   Perguntou o príncipe.

– “Eu vou lhe explicar. Primeiramente você apresenta ao rei daquele castelo a princesa que ele lhe pediu. Então haverá uma grande alegria naquele castelo e irão lhe dar o cavalo dourado com a sela dourada. Despeça-se de todos no castelo, um por um, e deixe de despedir-se da princesa por último. E, quando você for abraçar a princesa, agarre-a, coloque-a no cavalo e parta a galope dali, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo dourado é mais rápido que o vento.”

 E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela e a princesa, partiu a galope. No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

“Agora irei ajudá-lo a conseguir o pássaro dourado. Quando você se aproximar do castelo onde o pássaro dourado vive, apeie do cavalo dourado e o conduza até o interior do castelo. Ao virem o cavalo dourado, haverá grande alegria naquele castelo e então irão lhe trazer o pássaro dourado na gaiola dourada. Quando você estiver com o pássaro e a gaiola na mão, monte no cavalo, pegue a princesa e parta dali a galope, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo corre mais rápido que o vento.”

E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a princesa, o príncipe partiu a galope.

No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

“Então, como você já conseguiu tudo que queria, agora é hora de você me recompensar pela ajuda que lhe prestei.”

“O que você quer em troca ? “ Perguntou o príncipe.

“Quando entrarmos na floresta, mate-me;  decepe-me a cabeça e as patas.”

E o príncipe disse:

“Mas isso seria uma ingratidão de minha parte… Isso eu não farei.”

A raposinha falou:

“Então eu não poderei mais continuar do seu lado. Se você não fizer isso eu vou lhe abandonar; antes, porém, vou lhe dar mais um conselho: Não compre corpo de enforcado ou espancado e nem sente-se à beira de poço.”

Após falar isso a raposinha entrou na floresta.

 Então o jovem príncipe, pensou:

“Mas que bicho estranho essa raposinha… Tem cada mania estranha… Quem iria comprar carne enforcada ?? E também nunca me passou pela cabeça e nem tenho vontade alguma de sentar-me à borda de algum poço….”

E assim pensando, ao lado da jovem princesa, cavalgando, continuou em direção ao castelo de seu pai. No caminho teve que passar por aquela cidadezinha na qual haviam ficado na bagunça seus dois irmãos mais velhos. Havia ali um tumulto e barulheira infernais.

Perguntando sobre o que estava acontecendo, soube que dois rapazes seriam enforcados. Ao se aproximar mais, viu que eram seus dois irmãos que estavam sendo espancados e iriam ser enforcados porque haviam cometido muitos crimes naquele vilarejo e contraído muitas dívidas. Então ele perguntou ao carrasco se podia resgatá-los e libertá-los, ao que o carrasco respondeu:

 “Pagando bem, que mal tem… “

 O príncipe deu-lhes uma pena de ouro e seus irmãos foram libertados; ambos subiram em uma carruagem e se puseram em marcha rumo ao castelo do velho rei e pai.

 Chegaram novamente à floresta onde haviam visto a raposinha pela primeira vez. Os irmãos mais velhos viram um poço e, como estavam com sede, disseram:

“Pare a carruagem, deixe-nos descansar um pouco aqui à beira desse poço e beber água… “

O jovem príncipe, bobinho, consentiu. Conversa vai, conversa vem, sentou-se à beira do poço e esqueceu-se dos conselhos da raposinha. Os seus dois irmãos então empurraram-no para dentro do poço, pegaram a jovem princesa, o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a gaiola e partiram pra casa, em direção ao castelo. Lá chegando, disseram ao velho rei e pai:

 “Pai, não trouxemos somente o pássaro dourado, mas também a gaiola dourada, o cavalo dourado, a sela dourada e a princesa do castelo de ouro.”

E a alegria naquele castelo foi imensa. Muita festa. 

O cavalo, porém, não queria comer, o pássaro não queria cantar e a jovem princesa ficava sentada a um canto, triste e chorando.

Entrementes, ao cair no poço, o jovem príncipe não morrera. Por sorte o poço estava seco e ele caíra sobre um lodo macio, sem se machucar, porém não conseguia subir porque o poço era muito fundo. Gritando e pedindo por socorro, a raposinha, sua fiel amiga, não o abandonara, veio em seu socorro, estirou-lhe a cauda e retirou-o do fundo do poço e disse-lhe para não se esquecer dos seus conselhos, acrescentando:

 “Eu não posso abandoná-lo, eu tenho que mostrar toda a verdade.”

 Após dizer-lhe essas palavras a raposinha disse-lhe que o levaria até o castelo de seu pai. Abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

A caminho do castelo a Prudência lhe dizia: 

“Você não está totalmente livre do perigo – seus irmãos não estão seguros de que você tenha morrido, por isso enviaram bandidos a lhe procurar pela floresta para então dar cabo de sua vida. Portanto, não se deixe notar.”

Então o príncipe encontrou um mendigo pelo caminho, vestido com farrapos, e com ele trocou as roupas, motivo pelo qual, ao chegar ao castelo de seu pai não foi reconhecido. Só que, lá dentro do castelo, nesse exato momento, o pássaro dourado começou a cantar, o cavalo começou a comer e a bela princesa parou de chorar.   Notando a mudança repentina, o rei perguntou:

“O que significa isso ???”

E a jovem princesa respondeu:

“Eu não sei… Eu estava tão triste e depressiva e de repente fiquei alegre… É como se meu verdadeiro noivo estivesse por perto… “

Apesar de os dois irmãos malvados terem-na ameaçado de morte, caso contasse ao rei a verdade;  ela relatou ao rei o que de fato havia acontecido e o modo como os dois irmãos mais velhos procederam com o caçula.

 O rei chamou e reuniu todas as pessoas de seu reino e, dentre elas estava o jovem príncipe em trajes de mendigo. A jovem princesa logo o reconheceu, beijou-o, lançou-se ao seu pescoço e o abraçou. Os irmãos malvados foram julgados e expulsos do reino. O jovem príncipe casou-se com a bela princesa e herdou todo o reino e os tesouros.

 Mas, o que aconteceu com a raposinha ? 

Certa vez, estando o príncipe e a princesa passeando pela floresta depararam-se com a raposinha, a qual lhe disse:

    “Agora você está feliz e possui tudo que desejava. A minha sorte, porém ainda não está completa e está em suas mãos resolver meu problema. “

E tanto ela insistiu que o jovem príncipe decepou-lhe as patinhas e a cabeça.    Logo a seguir a raposinha transformou-se em um belo e forte rapaz. Para surpresa de todos esse jovem era ninguém mais que o irmão da jovem princesa e que havia sido enfeitiçado por uma bruxa malvada e transformado em raposinha. Desfeito o encanto, voltaram para o castelo e viveram felizes para sempre. O príncipe, a bela princesa e a Sabedoria.

Fonte:
http://www.fabulasecontos.com.br/?pg=descricao&id=17

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Concurso Literário Portugal Telecom (Semifinalistas)

por Maria Fernanda Rodrigues
Há uma década premiando autores de língua portuguesa com livros editados no Brasil, o Portugal Telecom anunciou hoje os 63 semifinalistas da edição 2013 nas categorias romance, poesia e conto/crônica.
Na lista, nomes como o moçambicano Mia Couto (na foto de Filipe Araujo/Estadão), o mais recente Prêmio Camões; o português de origem angolana Valter Hugo Mãe, vencedor no ano passado da categoria romance; autores da nova geração, como Paloma Vidal, José Luiz Passos, Daniel Galera e Ricardo Lísias, e os veteranos Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Affonso Romano de Sant’Anna, entre outros.
Em setembro, serão conhecidos os 12 finalistas e o resultado final será anunciado em novembro. O vencedor de cada categoria ganha R$ 50 mil e ainda concorre ao grande prêmio do ano, também no valor de R$ 50 mil.
Em 2012, foram premiados, além de Valter Hugo Mãe e seu romance A Máquina de Fazer Espanhóis, Nuno Ramos, com Junco (poesia), e Dalton Trevisan, com O Anão e a Ninfeta (contos).
Romance
Mia Couto
A Confissão da Leoa (Companhia das Letras)
Miguel Sanches Neto
A Máquina de Madeira (Companhia das Letras)
Lídia Jorge
A Noite das Mulheres Cantoras (Leya)
Pepetela
A Sul. O Sombreiro (Leya)
Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira
As Visitas que Hoje Estamos (Iluminuras)
Daniel Galera
Barba Ensopada de Sangue (Companhia das Letras)
Xico Sá
Big Jato (Companhia das Letras)
Francisco J. C. Dantas
Caderno de Ruminações (Alfaguara)
Paulo Lins
Desde que o Samba é Samba (Planeta)
Ferrez
Deus Foi Almoçar (Planeta)
Márcia Tiburi
Era Meu Esse Rosto (Record)
Ronaldo Correia De Brito
Estive Lá Fora (Alfaguara)
Paloma Vidal
Mar Azul (Rocco)
Menalton Braff
O Casarão da Rua do Rosário (Bertrand)
Ricardo Lísias
O Céu dos Suicidas (Alfaguara)
Valter Hugo Mae
O Filho de Mil Homens (Cosac Naify)
Evandro Affonso Ferreira
O Mendigo Que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
Elvira Vigna
O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor (Companhia das Letras)
José Luiz Passos
O Sonâmbulo Amador (Alfaguara)
Maria José Silveira
Pauliceia de Mil Dentes (Prumo)
António Lobo Antunes
Sôbolos Rios Que Vão (Alfaguara)
João Gilberto Noll
Solidão Continental (Record)
POESIA
Ruy Espinheira Filho
A Casa Dos Nove Pinheiros (Dobra)
Contador Borges
A Cicatriz de Marilyn Monroe (Iluminuras)
Samarone Lima
A Praça Azul e Tempo de Vidro (Paes)
Ademir Assunção
A Voz do Ventríloquo (Edith)
Lila Maia
As Maçãs de Antes (Biblioteca Do Paraná)
so de Melo
Caderno Inquieto (Dobra) Tar
Ricardo Domeneck
Ciclo do Amante Substituível (7 Letras)
Paulo Elias Franchetti
Deste Lugar (Ateliê)
Marília Garcia
Engano Geográfico (7 Letras)
Paulo Henriques Britto
Formas do Nada (Companhia das Letras)
las Behr
Meio Seio (Língua Geral) Nico
Roberval Pereyr
Mirantes (7 Letras)
Mariana Ianelli
O Amor e Depois (Iluminuras)
Mário Alex Rosa
Ouro Preto (Scriptum)
Sérgio Alcides
Píer (34)
nio Cicero
Porventura (Record) Anto
Annita Costa Malufe
Quando Não Estou Por Perto (7 Letras)
Eucanaã Ferraz
Sentimental (Companhia das Letras)
Sérgio Medeiros
Totens (Iluminuras)
Luci Collin
Trato de Silêncios (7 Letras)
Angélica Freitas
Um Útero é do Tamanho de um Punho (Cosac Naify)
CONTO/CRÔNICA
Domingos Pellegrini
A Caneta e o Anzol (Geração)
João Paulo Cuenca
A Última Madrugada (Leya)
mi Jaffe
A Verdadeira História do Alfabeto (Companhia das Letras) Noe
Fabrício Carpinejar
Ai Meu Deus, ai Meu Jesus (Bertrand)
João Anzanello Carrascoza
Aquela Água Toda (Cosac Naify)
Marcelo Rubens Paiva
As Verdades Que Ela Não Diz (Foz)
Ronivalter Jatoba
Cheiro de Chocolate e Outras Histórias (Nova Alexandria)
Affonso Romano Sant’Anna
Como Andar no Labirinto (L&Pm)
Carlos Nejar
Contos Inefáveis (Nova Alexandria)
Natércia Pontes
Copacabana Dreams (Cosac Naify)
Zuenir Ventura
Crônicas Para Ler na Escola (Objetiva)
Luis Fernando Verissimo
Diálogos Impossíveis (Objetiva)
Cíntia Moscovich
Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva (Record)
Manoel Ricardo de Lima
Jogo de Varetas (7 Letras)
Nélida Piñon
Livro Das Horas (Record)
Eltania Andre
Manhãs Adiadas (Dobra Editorial)
Vera Casa Nova
Mistura Fina (7 Letras)
Tércia Montenegro
O Tempo em Estado Sólido (Grua)
Sérgio Sant’Anna
Páginas Sem Glória (Companhia das Letras)
Jorge Viveiros de Castro
Shazam! (7 Letras)
Fonte:

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Affonso Romano de Sant’Anna (Lançamento de “Que presente te dar?”)


LIVRO TRAZ SÉRIE DE CRÔNICAS PUBLICADAS AO LONGO DA VIDA DO JORNALISTA, ENSAÍSTA E POETA.
Chega às livrarias, pela editora LeYa, o livro de crônicas de Affonso Romano de Sant’Anna, Que presente te dar? – Crônicas de amor e outros afetos. A obra reúne crônicas publicadas em jornais desde a década de 1980, quando foi contratado pelo Jornal do Brasil (1984) para substituir Carlos Drummond de Andrade, até o período de 1990, quando passou a fazer parte da presidência da Fundação Biblioteca Nacional (1990-1996) e foi considerado pela revista Imprensa um dos 10 jornalistas que mais influenciavam a opinião pública no país.
Considerado um dos mais destacados poetas e ensaístas brasileiros, Affonso Romano de Sant’Anna já publicou mais de 50 livros, lecionou literatura no Brasil e no exterior e já foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional, onde reformou e informatizou a instituição, criando programas novos e fazendo com que BN fosse considerada a melhor instituição federal do Rio de Janeiro.
“Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência,quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites do seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda. A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe.”
Falando sobre a mulher já madura, os trinta anos, a paternidade, os amantes, o envelhecer, a inveja, o amor, entre outros, o livro Que presente te dar? tem como maior foco a vida. Tudo um pouco, observado do camarote, pelo escritor que tem a mente inquieta e precisa mostrar ao leitor os detalhes despercebidos, a vida como ela é.
Partindo de pormenores que vão do mundo abstrato ao concreto, Affonso Romano vai mostrando, com sábias palavras, o que é e o que passa por nossa vivência; contextualizando e intercalando com outros tantos textos que completam as observações e nos garantem emoções do começo ao fim.
Com crônicas como, “Fazer 30 anos”, “A mulher madura”, “Na espera do amanhã”, “Quando os amantes dormem” e “O homem que conheceu o amor”, entre outras, “Que
presente te dar” é um livro memorável.
“Envelhecer deveria ser como plainar. Como quem não sofre mais (tanto) com os inevitáveis atritos. Assim como a nave que sai do desgaste da atmosfera e vai entrando noutro astral, e vai silente, e vai gastando nenhum-quase combustível, flutuando como uma caravela no mar ou uma cápsula no cosmos.”
Ficha Técnica
Título: Que presente te dar
Autor: Affonso Romano de Sant’Anna
Formato: 14 x 21 cm
Nº de páginas: 173
Preço: R$ 29,90
Sobre o autor

Affonso Romano de Sant’Anna é um dos mais destacados poetas e ensaístas brasileiros. Com mais de 50 livros publicados, já lecionou literatura no Brasil e no exterior e foi considerado pela revista Imprensa, nos anos 1990, um dos 10 jornalistas que mais influenciam a opinião pública no país. Como Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (1990-1996), reformou e informatizou a instituição, criou programas novos e a BN foi considerada a  instituição federal que melhor funcionava no Rio de Janeiro.
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Mais informações:
Andrea Jocys / Tatiany Leite
Imprensa
Rua Desembargador Paulo Passalacqua, 86 – Pacaembu
01248-010 – São Paulo – SP – Brasil
Fone + 55 11 3129 5448 Ramal 6207 / 6208
Fax + 55 11 31295448
ajocys@leya.com/ tleite@leya.com
Andrey do Amaral – agente literário de Affonso Romano de Sant’Anna
andrey@andreydoamaral.com (61) 8457-7131 (Oi) ou (61) 8224-2394 (Tim) /@AndreyDoAmaral
A LeYa é o grupo editorial que integra algumas das mais prestigiadas editoras portuguesas.
Está presente em quase todos os países de língua portuguesa. No Brasil, o grupo LeYa atua em edições escolares e no mercado de interesse geral, por meio dos selos LeYa e Lua de papel e as parcerias com Casa da Palavra e Fantasy. http://www.leya.com.br

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José Feldman (Universo de Versos n. 53)


Uma Trova do Paraná

SONIA MARIA DITZEL MARTELO – Ponta Grossa

Entre todos os recantos
é aqui que me sinto bem:
– o meu lar tem tais encantos
que outros lugares não têm!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de São Paulo

ANTONIETA BORGES ALVES

Há muita gente na vida
que a felicidade alcança,
não por ter sorte florida,
mas por viver de Esperança!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo

JOSÉ VALDEZ DE CASTRO MOURA

Sou, no retorno ao passado,
– meu teatro de deslizes,
um mero ator fracassado
no palco dos infelizes!
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo

RENATA PACCOLA

Teve um chilique tão forte
que logo tomou vacina
e se mandou para o norte
temendo a gripe sulina …
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Com minha alma amargurada,
envolto em meu sofrimento,
passo inteira a madrugada
jogando versos ao vento…
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

NORA GRACIELA LANZIERI

Sol de mis días felices
que iluminan mis sentidos
brillan siempre tus matices,
tu luz marca mis caminos.
===================
Uma Trova Ecológica, de Bragança Paulista, São Paulo

MARINA VALENTE

O rio, em doce cantata,
desenha um M perfeito
como preito à verde mata
que o aconchega em seu leito.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

REINALDO MOREIRA DE AGUIAR – Natal/RN
1921 – 2010

Coração, velha gaiola…
A saudade, no poleiro,
com seu canto me consola
noite e dia, o tempo inteiro!
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Se é de amor tua ferida,
não busques remédio, — cala!
— O Tempo, aliado à Vida,
lentamente há de curá-la…
========================
Um Haicai de Caxias do Sul/RS

FABRÍCIO CARPINEJAR

A vida com erros de ortografia
tem mais sentido.
Ninguém ama com bons modos.
================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Mesmo nos jardins da vida,
desde a minha meninice,
nunca alcancei uma rosa,
que o espinho não me ferisse.
=============================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade
======================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

VINICIUS DE MORAES
1913 – 1980
Poética II

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!
========================
Décimas em Cordel, de Ipueiras/CE

DALINHA CATUNDA

O Sumiço do Vaqueiro
Quando o vaqueiro partiu
Minha dor doeu no peito
Com saudades do sujeito
Que minha vida floriu
Minha alegria sumiu,
E nesta situação
Olhando pro seu gibão
Eu renego meu destino
Pois meu maior desatino
Foi perder minha paixão.

Tão garboso ele passava
Bem em frente ao meu portão
Com uma rosa na mão,
Que beijava e me jogava.
Eu toda prosa ficava
Com aquele moço Trigueiro
Que rondava meu terreiro
E me chamava de flor,
Por merecer meu amor
Entreguei-me ao tal vaqueiro.

Uma viagem esticada
Ele foi e não voltou.
Meu coração palpitou,
E chorei desesperada.
Olhos grudados na estrada,
E aperto no coração
Murchava a flor do sertão
Que hoje se chama saudade
Perdeu a felicidade
Ao perder sua paixão.

Nem vaqueiro nem boiada,
Só saudade e solidão
Passando pela estrada
Que corta o meu sertão.
Não tem aceno de mão,
Nem levantar de chapéu,
Pois hoje mora no céu
Aquele viril vaqueiro,
Que tacava o tempo inteiro
Boiadas de déu em déu.
========================
Uma Fábula em Versos, da França

JEAN LA FONTAINE
1621 – 1695
O Carvalho e o Caniço

Dizia ao caniço robusto carvalho:
“Sou grande, sou forte;
És débil e deves, com justos motivos,
Queixar-te da sorte!

Inclinas-te ao peso da frágil carriça;
E a leve bafagem.
Que enruga das águas a linha tranqüila
Te averga a folhagem.

Mas minha cimeira tufões assoberba.
Com serras entesta;
Do sol aos fulgores barreiras opondo,
Domina a floresta.

Qual rija lufada, do zéfiro o sopro,
Te soa aos ouvidos,
E a mim se afiguram suaves favônios
Do Norte os bramidos.

Se desta ramagem, que ensombra os contornos,
A abrigo nasceras,
Amparo eu te fora de suis e procelas,
E menos sofreras.

Mas tens como berço brejais e alagados,
Que o vento devasta.
Confesso que sobram razões de acusares
A sorte madrasta.”

Responde o caniço: “Das almas sensíveis
É ter compaixão;
Mas crede que os ventos, não menos que os fracos,
Minazes vos são.

Eu vergo e não quebro. Da luta com o vento
Fazeis grande alarde:
Julgais que heis de sempre zombar das borrascas?
Até ver não é tarde.”

Mal isto dissera, dispara do fundo
Dum céu carregado
O mais formidável dos filhos que o Norte
No seio há gerado.

Ereto o carvalho, faz frente à refrega;
E o frágil arbusto
Vergando, flexível — do vento aos arrancos
Resiste, sem custo.

Mas logo a nortada, dobrando de força,
Por terra lançava
O roble que às nuvens se erguia e as raízes
No chão profundava.
====================
Uma Poesia de Figueira da Foz/Portugal

GRAÇA PIRES
Quero uma Casa

Quero uma casa com paredes azuis,
com varandas vidradas sobre a noite.
Um abrigado lugar no eixo do silêncio.
Um espaço intemporal. Sagrado.
Ancorado perto de um signo lunar,
ou preso a um verão inesperado.
Quero dançar dentro das palavras líquidas:
água, rio, mar, Lágrimas,
talvez o orvalho que escorre pelas árvores de madrugada.
Quero atravessar uma crónica de viagem,
conspirando contra os profetas de marés sobressaltadas,
para não morrer sufocada na engrenagem do medo.
Quero ficar seduzida de uma espera,
no imaginário dos que sonham,
e gritar a idade circular de qualquer afecto.
Quero amar o pretexto branco dos meus olhos
sem precipitar a cor translúcida das raízes
que prendem a noite à palidez do sol na sedução do amanhecer,
e deixar, depois, que um azul extenuado me denuncie.
========================
Um Soneto de Euclides da Cunha/BA

INÁCIO DANTAS
Soneto aos Poetas

     Todo poeta canta para si
a paz e o amor que deseja para o mundo!

Canta, entra no mundo da magia,
põe o tom da paixão n´alma inquieta
move do céu os trovões da alegria
diz o amor com lábios de profeta.

Ergue o teu pensar em linha reta
canta o que tem da vida mais valia,
se alguém não se lembrar do poeta
talvez ainda se lembre da poesia.

Fugir do amor quem o faz se ilude,
revela uma poesia feita a esmo
quem ama e se fecha em si mesmo.

O amor é poesia na sua plenitude!
-Poeta, dessa madeira que tu lavras
constrói o teu castelo de palavras!
========================
Uma Poesia de Longe

CRISTINA CAMPO – Bolonha/Itália
(Vittoria Guerrini)
1923 – 1977
Teu Nome…

Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau…

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Ficou para trás, quente, a vida,
a marca colorida dos meus olhos, o tempo
em que ardiam no fundo de cada vento
mãos vivas, cercando-me…

Ficou a carícia que não encontro
senão entre dois sonos, a infinita
minha sabedoria em pedaços. E tu, palavra
que transfiguravas o sangue em lágrimas.

Nem sequer um rosto trago
comigo, já traspassado em outro rosto
como esperança no vinho e consumado
em acesos silêncios…

Volto sozinha
entre dois sonos lá ’trás, vejo a oliveira
rósea nas talhas cheias de água e lua
do longo inverno. Torno a ti que gelas
na minha leve túnica de fogo.   
=====================
Um Soneto In Memoriam, de Porto Alegre/RS

IALMAR PÍO SCHNEIDER
Soneto Alexandrino a Amadeu Amaral
Falecimento do poeta em 24.10.1929

“Rios”, “Sonhos de Amor”, e “A um Adolescente”,
são sonetos de escol que leio comovido,
porque me fazem bem neste dia envolvente
pela nublada luz do céu escurecido…

E fico a meditar, trazendo para a mente,
os poemas “A Estátua e a Rosa”, em sublime sentido;
“Prece da Tarde”, quando exsurge a voz do crente
como um sopro de amor no caminho escolhido…

Estou perante o mestre Amadeu Amaral,
cujos versos serão sempre muito admirados,
como régio cultor da nobre poesia…

Além do mais, ficou sendo vate Imortal,
pois eleito ele foi por membros consagrados
de nossa Brasileira Excelsa Academia !
========================
Um Poetrix do Rio de Janeiro

FÁBIO ROCHA
presas na boca

as pessoas fingem certezas.
certamente
estão presas
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Poema da Necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
========================
UniVersos Melodicos

JOUBERT de CARVALHO
Maringá (toada, 1932)

É comum no mundo inteiro cidades emprestarem seus nomes a canções. Difícil é uma canção inspirar o nome de uma cidade, como foi o caso de “Maringá”. O fato ocorreu em 1947, quando Elizabeth Thomas, esposa do presidente da Companhia de Melhoramentos do Norte do Paraná, sugeriu que a composição desse nome a uma cidade recém-construída pela empresa, e que em breve se tornaria uma das mais prósperas do estado.
O curioso é que a canção jamais teria existido se seu autor Joubert de Carvalho não fosse, quinze anos antes, um freqUentador assíduo do gabinete do José Américo de Almeida (Ministro da Viação e Obras), tinha como chefe de gabinete o senhor Ruy Carneiro , que mais tarde viria a governador e senador do seu Estado (a Paraíba)..
Joubert, formado em medicina, pleiteava uma nomeação para o serviço público. Numa dessas visitas, aconselhado pelo oficial de gabinete Rui Carneiro, o compositor resolveu agradar o ministro, que era paraibano, escrevendo uma canção sobre o flagelo da seca que na ocasião assolava o Nordeste.
Surgia assim a toada “Maringá”, uma obra-prima que conta a tragédia de uma bela cabocla, obrigada a deixar sua terra numa leva de retirantes. Alguns meses após o lançamento vitorioso de “Maringá”, Joubert de Carvalho foi nomeado para o cargo de médico do Instituto dos Marítimos, onde fez carreira chegando a diretor do hospital da classe.
Joubert de Carvalho gostava da boemia e naquele ambiente veio a conhecer e se tornar amigo do senhor Alcides Carneiro (irmão de Ruy Carneiro e também funcionário do Ministério da Viação e Obras), que solteiro e apaixonado por uma namorada chamada Maria, residente na cidade do Ingá (60 km de João Pessoa – PB), compôs a música “Maringá”, narrando o flagelo da seca no nordeste, principalmente na cidade de Pombal, localizada na alto sertão paraibano.

Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou
 
Maringá,  Maringá
Depois que tu partiste tudo aqui ficou tão triste
Que eu “garrei” a imaginar
Maringá,  Maringá
Para haver felicidade é preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar
Maringá,     Maringá
Volta aqui pro meu sertão pra de novo o coração
De um caboclo a sossegar
 
Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente na cidade de Pombal
Mas veio a seca, tudo a chuva foi-se embora
Só restando então as águas
Dos meus “‘óio” quando chora
Maringá,   Maringá
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

SERENO DA MEIA-NOITE
LP Brincando de Roda Vol. 2 – 1981

É uma uma roda de crianças, com uma no centro. Cantam as da roda:

Sereno da meia-noite }
Sereno da madrugada } bis

Eu caio, eu caio }
Eu caio. sereno, eu caio } bis

Responde a menina do centro:

Das filhas de minha mãe }
Sou eu a mais estimada } bis

Eu não m’importo, }
Que da amiguinha, }
Eu seja a mais desprezada } bis

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.)
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José Feldman (Universo de Versos n. 52)

Uma Trova do Paraná

VANDA FAGUNDES QUEIROZ– Curitiba

Poda as plantas, na lavoura,
Mas planeja, o tempo inteiro:
– vou crescer, vender tesoura…
Eu hei de ser tesoureiro!
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

ANIS MURAD

Alô!… Quem fala?… Esperança?…
– Um momento!… Vou chamar!…
-Esperei… – pobre criança
que envelheceu a esperar!…
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Belo Horizonte/MG

ALYDIO C. SILVA

Este alguém que no passado
fez-se Musa em minha lira,
vive em peito guardado
e as minhas trovas inspira.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Deu, à sua esposa mística,
que finge chilique e ataque,
uma viagem turística…
E ela já embarcou … pro Iraque!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Com certa preponderância
eu impus esta verdade:
Quem inventou a distância
não conhecia a saudade!…
========================
Uma Trova Hispânica da Espanha

CARMEN PATIÑO FERNÁNDEZ

Como dos leños ardientes
tu serás llama, y yo astilla
seremos dos afluentes
de un río en la misma orilla
===================
Uma Trova Ecológica, de Pelotas/RS

OLGA MARIA DIAS FERREIRA

A paisagem verdejante,
Encerra fulgores mil,
E traz a imagem brilhante
De nosso amado Brasil!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

LUIS VAZ DE CAMÕES –  Coimbra/Portugal
1524 – 1580

Neste mundo a montear,
achei-me tão enleado,
   que, donde cuidei caçar,
eu mesmo fiquei caçado.
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Há trovas, ricas, sonoras,
tem brilho, cintilação…
Lembram “foguetes de lágrimas”
nas noites de São João…
========================
Um Haicai de São Paulo/SP

CARLOS SEABRA
gota no vidro
um rosto na janela
olhar perdido
================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

É nossa alma uma criança,
que nunca sabe o que faz.
Quer tudo que não alcança,
quando alcança, não quer mais
================================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI

Curitiba/PR (1944 – 1989)
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela.
E toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
======================
Uma Poesia de Divinópolis/MG

ADÉLIA PRADO
Para Perpétua Memória

Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos muitas vezes.
A mesma cara sem sombras, os graves da fala
em cantos, as palavras sem pressa,
inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como o dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música e cantava.
Que cantasse, era a natureza do sonho.
Que fosse alto e bonito o canto, era sua matéria.
Aconteciam na praça sol e pombos
de asa branca e marron que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha, os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza,
é o que mais punge.
========================
Sextilha, do Ceará

WALMAR COELHO
O Amor

O amor é uma plantinha
Que medra no coração!
Com o afeto se avizinha,
Bem querer ou ilusão,
Vive e cresce, não sozinha,
Nem prescinde afeição.
========================
Uma Fábula em Versos, Da França

JEAN LA FONTAINE
1621 – 1695
O Galo e a Pérola

Um galo achou num terreiro
Uma pérola, e ligeiro
Corre a um lapidário e diz:
“Isto é bom, é de valia.
De milho um grão todavia
Era um achado mais feliz”.

Um néscio ficou herdeiro
De um manuscrito, e a um livreiro
Vai à pressa, e fala assim:
“É bom, é livro acabado.
Concordo, mas um ducado
Valia mais para mim!”
====================
Uma Poesia de Angola

ANA PAULA LAVADO
Nenhum Verso…

Nenhum verso fala de mim
nem do que eu penso
nem do que eu sinto
nem do que eu sou.

Na realidade,
as palavras são apenas
um jogo de letras
mais ou menos cinzelado
ao gosto de cada um.
E poucos, muito poucos
fazem delas seres vivos e humanos.

Eu não lhes dou vida.
Trabalho-as com mais ou menos nexo
ou talvez sem nexo,
porque dele não sinto falta
nem faz falta o que sou!
========================
Um Soneto de São Luís/MA

ARTUR AZEVEDO
1855– 1908
Velha Anedota

Tertuliano, frívolo peralta,
que foi um paspalhão desde fedelho,
tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
tipo que, morto, não faria falta;

lá num dia deixou de andar à malta,
e indo à casa do pai, honrado velho,
a sós na sala, em frente de um espelho,
à própria imagem disse em voz bem alta:

– “Tertuliano és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,
que por trás da cortina ouvira tudo,
serenamente respondeu: – “Juízo!”
========================
Uma Poesia do Recife/PE

JORGE FILÓ
Idas e Idas

Nunca é tarde a partida
E sempre cedo é a ida
Pra quem um fio de vida
Servia de inspiração
Cada gole um novo tema
Em cada trago um poema
Tudo dentro do esquema
Sem dar-se trela à razão.

Vai-se cedo mais um forte
Sem precisar de transporte
Nessa bússola sem norte
Sem que se saiba o destino
Na visão do indeciso
Viaja sem dar aviso
Pois num instante impreciso
Bate o derradeiro sino.
===============================
Uma Poesia de Longe

KHALIL GIBRAN – Bsharri, Líbano
1883 – 1931
Divina Música!

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
e do Amor.
Sonho do coração humano,
fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
e a ouvir com os corações.
=====================
Um Poetrix do Rio de Janeiro

ELIANA MORA
sentimento clandestino

Tu, em viagens ao mundo,
Eu, ali, sempre escondida,
nos porões do teu navio.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
========================
UniVersos Melodicos

GETÚLIO MARINHO e UBIRATAN SILVA
Apanhando papel (samba, 1931)

Nem queiras saber
Como a vida do homem é cruel
Se ele é fraco de idéia
Acaba apanhando papel

Mas eu tenho fé
No meu orixá
Que não há de deixá
A esse ponto chegá
(Nem queiras saber) (x2)

Feliz de quem
Não se passa pra carinho
Não tem o dissabor
De andar pelas ruas
Falando sozinho

Meu santo é forte
É do bom e com ele é assim
Não dará ousadia
De ver ela rir
Ou zombarem de mim

(refrão)

Por isso é que fiz
A Deus uma oração
Pra não ter por mulher
Aquilo que se diz
Amor ou paixão

Desejo gostar
E quero delas todas zombar
Sem meu sacrifício
Pra meu benefício
A vida gozar

(refrão)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

ROCK DO RATINHO
(Cyro de Souza)

Era uma vez um ratinho pequenino
que namorava uma ratinha pequenina
e os dois se encontravam todo dia
num buraquinho na esquina

rock rock rock rock rock
é o rato e a ratinha namorando
rock rock rock rock rock
é o rato e a ratinha se beijando

o ratinho lhe trazia todo dia
um pedaço de toucinho fumeiro
um tiquinho de manteiga, um queijinho
e um pouquinho de manteiga no focinho

rock rock rock rock rock
é o sino da igreja badalando
rock rock rock rock rock
é o ratinho e a ratinha se casando…
========================

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José Feldman (Universo de Versos n. 51)

Uma Trova do Paraná

HULDA RAMOS GABRIEL – Maringá

Tão suave é o teu carinho:
Há nele a calma de um lago…
– Tem a ternura de um ninho
E a paz de um materno afago!
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

EDGAR BARCELOS CERQUEIRA

De verde, toda vestida,            
de esperança, tu povoas   
o vácuo de minha vida     
somente de coisas boas.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo

LUIZ ANTONIO CARDOSO

Numa nascente de versos,
as mensagens, navegantes,
viajam por universos
de temas edificantes.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo

PEDRO MELLO

A gorda vai pro hospital …
E o doutor, meio gaiato:
– O seu chilique, afinal,
é só “Depressão … pós – prato…”
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Chega a causar agonia,
uma visita sacana,
que vem pra passar um dia,
passa mais de uma semana!
========================
Uma Trova Hispânica do México

RICARDO DUCOING

Por más que pulas el cobre
de oro no será la arenga,
que Justicia hacen al pobre
según la plata que tenga.
===================
Uma Trova Ecológica, de Fortaleza/CE

NEMÉSIO PRATA

Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a… Natureza!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ABIGAIL RIZZINI – Nova Friburgo/RJ

Olhar triste, é o da criança,
que olha a vitrina, e em segredo,
chora a morte da esperança
ante o preço de um brinquedo!
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto !..
========================
Um Haicai de Manaus/AM

ANIBAL BEÇA

Morcego em surdina
morde e sopra o velho gato.
Não contava o pulo…
================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

A luz desse olhar tristonho
dos olhos teus, faz lembrar
essa luz feita de sonho
que a lua deita no mar.
=========================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

tudo dito,
nada feito,
fito e deito
======================
Uma Poesia de Santa Cruz do Sul/RS

LYA LUFT
Canção do Amor Sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.
========================
Uma Sextilha, de Caicó/RN

HÉLIO PEDRO

Surge em cada alvorecer,
o sol que cumpre o seu plano
de aquecimento ao planeta
sem que falte ano após ano,
mas no mundo o que mais falta
é o calor do ser humano.
========================
Uma Fábula em Versos de Château-Thierry,França

JEAN DE LA FONTAINE
1621 – 1695
A Rã e o Boi

Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

– Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
– Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou,

– E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.
====================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ANTÓNIO GEDEÃO
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)
1906 – 1997
Dez Reis de Esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
========================
Um Soneto do Amazonas

PE. MANUEL ALBUQUERQUE
1906 – 1977
Prova Infalível

Quando eu soltar meu último suspiro;
quando o meu corpo se tornar gelado,
e o meu olhar se apresentar vidrado,
e quiserdes saber se inda respiro,

eis o melhor processo que eu sugiro:
—  Não coloqueis o espelho decantado
cm frente ao meu nariz, mesmo encostado,
porque não falha a prova que eu prefiro:

— Fazei assim: — Por cima do meu peito.
do lado esquerdo, colocai a mão.
e procedei, seguros, deste jeito:

—  Gritai “MARIA!” ao pé do meu ouvido,
e se não palpitar meu coração,
então é certo que eu terei morrido!
========================
Uma Poesia de Longe

ARTHUR RIMBAUD – Charleville/França
1854 – 1891
A Eternidade

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
(Tradução: Augusto de Campos)
=====================
Um Poetrix de Espinho/Portugal

ANA OLIVEIRA
o lobo mau e a sua esquizofrenia

cortaram ligações
ao tálamo,
na lobotomia
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Parolagem da vida

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
========================
UniVersos Melodicos

JOUBERT DE CARVALHO e OLEGÁRIO MARIANO
De Papo Pro Á (cateretê, 1931)

Em 1931, os românticos Joubert de Carvalho e Olegário Mariano realizaram uma incursão na área sertaneja com o cateretê “De Papo pro Á”. A composição expõe com muita graça a “filosofia” de um caipira esperto que leva a vida pescando e “tocando viola de papo pro á”.
Curiosamente, este cateretê vem pelos anos afora sendo cantado com um erro na letra. O fato foi descoberto nos anos cinquenta pelo pesquisador Paulo Tapajós, que estranhava os versos: “Se compro na feira feijão, rapadura / pra que trabalhar?”. Quem compra geralmente trabalha… Foi o próprio Olegário quem lhe esclareceu: “o verso correto é ‘se ganho na feira feijão, rapadura’. Acontece que, na primeira gravação, Gastão Formenti cantou ‘se compro’, cristalizando-se o erro a partir desse disco”.

Não quero outra vida
Pescando no rio de Gereré
Tem peixe bom
Tem siri patola
De dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá

Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á

Se compro na feira
Feijão, rapadura,
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O homem não deve
Se amofiná
(refrão)
(Fonte: Cifrantiga
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

JOÃO DA ROCHA FOI À PESCA
LP Brincando de Roda – Vol .2 – 1981

As meninas ficam aos pares, de mãos dadas, e cada uma vai fazendo voltas, por cima da cabeça com os braços, sem se soltar. E cantam todas:

João da Rocha foi à pesca,
Convidou papai André;
Quando o Rocha de mergulho,
Pai André de jereré.

Fizeram boas pescadas,
Pescaram boas tainhas;
Quando vieram com fome
Foram logo à cozinha.

Depois da muqueca feita.
Pai André foi dos primeiros;
Por ser o mais guloso,
Engoliu o peixe inteiro.

Ficaram envergonhados
Na presença dos camaradas.
De ver papai André,
Com uma tainha engasgado
(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953)
========================

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Arquivado em Universo de Versos

José Feldman (Universo de Versos n. 50)

Uma Trova do Paraná

NATHAN OSIPE – Bandeirantes

 O dilúvio sem igual
que dizimou os ateus
não era chuva, afinal…
eram lágrimas de Deus!
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Uma Trova sobre Esperança, da Bahia

PE. BELCHIOR D’ATHAYDE
Por que é verdade a esperança?…
Se todo o mundo soubesse…
– É que, por mais que se espere,
ela nunca amadurece…
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Gonçalo/RJ

MARINA DE OLIVEIRA DIAS

Um aviso ao cidadão
sedento em me conquistar:
só me prendo a um coração
com elos do verbo amar.
=======================
Uma Trova Humorística, de Pindamonhangaba/SP

JOSÉ VALDEZ C. MOURA
 

A “velha” tinha morrido,
e  o genro, feliz, vibrou!
_ Ao chegar um desmentido
teve chilique e … enfartou!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A mais triste solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração…
Olhar…e não ver ninguém!
========================
Uma Trova Hispânica do México

GLORIA RIVERA ANDREU

¿Porqué mientes al decirme
que quizá me ames mañana?
Lo que logras es herirme
con tu promesa galana.
===================
Uma Trova Ecológica, de Natal/RN

JOSÉ LUCAS DE BARROS

Toda a natureza é um plano
de vida farta e beleza,
mas o lucro desumano
põe no bolso a natureza!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

JACY PACHECO – Duas Barras/RJ
1910 – 1989

Faço um exame consciente
deste egoísmo sem fim:
num mundo com tanta gente,
por que penso tanto em mim?
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Não desejo nem capela
nem mármore em minha cova…
Apenas escrevam nela
pequenina e humilde Trova…
========================
Um Haicai do Japão

ARAKIDA MORITAKE
1473 – 1549

uma pétala caída
que torna a seu ramo
ah! é uma borboleta
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

 

pelos caminhos que ando
 um dia vai ser
   só não sei quando
======================
Uma Poesia de Paraíba do Sul/RJ

GIUSEPPE ARTIDORO GHIARONI
1919 – 2008
As Árvores Cortadas

Deceparam as árvores da rua!
Sem troncos hirtos na calcada fria,
a rua fica inexpressiva e nua;
fica uma rua sem fisionomia.

0 sol, com sua rústica bondade,
aquece até ferir, até matar.
E a rua, a rir sem personalidade,
não da mais sombras aos que não tem lar.

As árvores, ao vento desgrenhadas,
não lastimam a peia das raízes:
Olvidam sua, dores, concentradas
no sofrimento de outros infelizes.

Eu penso, quando à frente dos casais
vem sentar-se um mendigo meio-morto,
que uma fronde se inclina um pouco mais,
para lhe dar mais sombra e mais conforto.

Sem elas, fica a triste perspectiva
de uns muros esfolados, muito antigos,
que se unem na distância inexpressiva
como se unem dois trôpegos mendigos.

Quando vier com o seu farnel de lona,
arrimar-se à sua árvore querida,
o ceguinho de gaita e de sanfona
será capaz de maldizer a vida.

E aquela magra e tremula viuva
que anda a esmolar com filhos seminus,
quando o tempo mudar, chegando a chuva,
dirá que dela se esqueceu Jesus!…

Meu Deus, seja qual for o meu destino,
mesmo que a dor meu coração destrua,
não me faças traidor, nem assassino,
nem cortador de arvores da rua!
========================
Sextilhas em Cordel, de Riacho de Santana/BA

MARCO HAURÉLIO
O pobre que trouxe a sorte de casar com uma princesa

(trechos)

Peço à Musa inspiradora
Que minha mente não canse
E eu possa versar um conto
Descrevendo cada lance
De uma história comovente
Neste meu novo romance.

Há cerca de nove séculos
Num reino muito distante
Viveu Gusmão, um mau rei,
De orgulho extravagante.
Não houve e não haverá
Outro assim tão arrogante.

Seu imenso poderio
Não conhecia empecilho,
Mas há um tempo seus olhos
Haviam perdido o brilho,
Pois, apesar de tão rico,
Ainda não tinha filho.

A rainha, sua esposa,
Vivia desconsolada,
Pois para o cruel marido
Ela só era a culpada,
E, por mais que se explicasse,
Não podia fazer nada.

Luzia, a sua criada,
Ouvia a sua lamúria,
Ela também conhecia
O monarca e sua fúria.
Assim vivia a rainha
Sempre coberta de injúria.

Até que um dia, cansada,
Ela foi ao oratório
E fez um pedido a Deus,
— Senhor, nesse dia inglório,
Eu venho aqui implorar
Livrai-me do purgatório.

Vós sabeis que vivo triste
E o meu espoco cabreiro,
Pois o reino que governa
Ainda não tem herdeiro.
Por isso peço o auxílio
Do grande Deus verdadeiro.

Então, no dia seguinte,
Ela estava diferente,
A tristeza fora embora,
E, agora, muito contente,
Sentiu que era atendida
Pelo Deus onipotente.

Em breve, porém, chegou
A feliz confirmação.
A rainha em gravidez,
Não escondia a emoção.
Até o severo esposo
Abrandou o coração.
========================
Uma Fábula em Versos, de Roma/Itália

TRILUSSA
(CARLOS ALBERTO SALUSTRI)
1871 – 1950
O Porco e o Burro

Um pobre Burro vendo para o prédio
do matadouro um porco amigo ir,
chorando disse: – Irmão, deves partir,
não nos veremos mais, não há remédio.

Precisas suportar esta medonha
sorte – lhe disse o Porco: – Não choremos,
talvez um dia nos reencontraremos
nalguma mortadela de Bolonha.
====================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ANTÓNIO BARBOSA BACELAR
1610 – 1663
A Uma Ausência

Sinto-me  sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado:

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:

Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.
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Um Soneto de Curitiba/PR

TASSO AZEVEDO DA SILVEIRA
1895 – 1968
Matinal 


Vens de tão simples e clara – ao sol, que é um hino,
a sorrir na manhã de ouro e cristal…
Vens… No límpido ambiente matutino,
és um gorjeio matinal…

Chegas, e de alegria eu me ilumino!
E tudo mais, num frêmito auroral,
se transfigura, ao teu condão divino,
numa clara surdina musical…

Oh que não possa – (vais partir… ) – pela Arte,
na harmonia de um verso eternizar-te,
o timbre de ouro e luz vibrando no ar!

Ah, se ficasses, nota de ouro, ecoando . . .
Ah, se ficasses, límpida, cantando
na alma que emudeceu por te escutar
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Uma Poesia de Longe

Rabindranath Tagore – Jorasanko/Índia
1861 – 1941    
 Quero Ser o Poeta da Noite

Noite, velada Noite,
faz-me teu poeta!
Deixa-me entoar as canções
de todos aqueles
que, pelos séculos dos séculos,
se sentaram em silêncio
À tua sombra!
Deixa-me subir ao teu carro sem rodas
que corre silencioso de mundo a mundo,
tu que és rainha do palácio do tempo,
escura e formosa!

Quantos entendimentos ansiosos
penetraram mudos no teu pátio,
vaguearam sem lâmpada pela tua casa,
À tua procura!
Quantos corações, que a mão do Desconhecido
atravessou com a flecha da alegria, romperam em cânticos
que sacudiam a tua sombra
até aos alicerces!

Faz-me, ó Noite,
o poeta destas almas despertas
que contemplam maravilhadas,
À luz das estrelas,
o tesouro que encontraram
de repente;
o poeta do teu insondável silêncio,
ó Noite!
(tradução: Manuel Simões)
=====================
Um Poesia In Memoriam, de Campos dos Goytacazes/RJ

HELOÍSA CRESPO
Docemente Calada

Chora Campos. Choro eu.
Chora todo ex-aluno
de Ruth Maria Chaves,
a divina dona Ruth,
a dona Ruth de tantos.

A melodiosa voz
calou-se para sempre.
Para sempre? Impossível!
Eu a estou ouvindo agora…
Ela é inesquecível.
Ela é inconfundível!

Ruth está silenciosa,
enquanto faz a passagem
para muito além da Terra,
num reino de anjos e justos,
de almas puras como a dela.
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Um Poetrix de São Paulo

DREYF CAMPANO
invocação

Vagueando pela casa,
silenciei as velas…
Sombras me abraçam.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Campo de flores     

    
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
 quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
 Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
 e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
 e outros acrescento aos que amor já criou.
 Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
 e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
 e cansado de mim julgava que era o mundo
 um vácuo atormentado, um sistema de erros.
 Amanhecem de novo as antigas manhãs
 que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
 imensa e contraída como letra no muro
 e só hoje presente.
 Deus me deu um amor porque o mereci.
 De tantos que já tive ou tiveram em mim,
 o sumo se espremeu para fazer vinho
 ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
 a tirar sua cor dessas chamas extintas
 era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
 Onde não há jardim, as flores nascem de um
 secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
 para arrecadar as alfaias de muitos
 amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
 e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
 o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
 na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
 os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
 e o mistério que além faz os seres preciosos
 à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
 há que amar diferente. De uma grave paciência
 ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
 tenha dilacerado a melhor doação.
 Há que amar e calar.
 Para fora do tempo arrasto meus despojos
 e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
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UniVersos Melodicos

LAMARTINE BABO
Canção para Inglês Ver (fox-humorístico, 1931)

Nenhuma antologia da canção humorística brasileira pode ignorar “Canção Para Inglês Ver”, uma obra-prima no gênero. Espirituosa, crítica, brincalhona, esta composição é uma sátira ao uso de palavras e expressões estrangeiras que se tornou moda entre nós, quando da chegada do cinema falado.
Empregando o recurso do nonsense, Lamartine Babo construiu os versos mais absurdos, através dos quais rimou “I love you” com “Itapiru”; “independence day” com “me estrepei” e outros disparates. Tudo isso sobre uma bela melodia, ao melhor estilo dos foxes americanos.
Gravada pelo autor, “Canção Para Inglês Ver” fez sucesso no país inteiro e ainda estimulou outros compositores a desenvolverem peças sobre o tema, como “Não tem tradução” (de Noel Rosa) e “Good bye” (de Assis Valente).

Ai loviu forguétiscleine meini itapirú
forguetifaive anda u dai xeu
no bonde Silva Manuel
ai loviu tchu revi istiven via catchumbai
independence la do Paraguai estudibeiquer Jaceguai
ou ies mai gless salada de alface flay tox mail til
oh istende oiu ou ié forguet not mi
ai Jesus abacaxi uisqui of xuxu
malacacheta independancin dei
istrit flexi me estrepei
delícias de inhame reclaime de andaime
mon Paris jet’aime sorvete de creme
ou ies mai veri gudi naiti
dubli faiti isso parece uma canção do oeste
coisas horríveis lá do faroeste
do Tomas Veiga com manteiga
mai sanduíche eu nunca fui Paulo Iscrish
meu nome é Laski Enen Claudi Jony Felipe Canal
laiti endepauer companhia limitada
aiu Zé Boi Iscoti avequi Boi Zebu
Lawrence Olivier com feijão tchu tchu
trem de cozinha não é trem azul
(Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

DEBAIXO DO LARANJAL

É uma ronda de garotas, com uma no centro. As da roda cantam:

Debaixo do laranjal }
Encontrei uma menina }
Apanhando flores alvas }
Flores alvas, pra me dar } bis

Flores alvas é casamento }
Dona Fulana quer se casar }
Dona Fulana deixe disso }
Deixe disso, olhe lá! } bis

Termina a criança do centro abraçando uma da ronda, que passará a ser a do meio, na vez seguinte.

[Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953)]
========================

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José Feldman (Universo de Versos n. 49)

Uma Trova do Paraná

GUIMARÃES TABORDA BUENO – Curitiba

Coisa boa é erva mate
pra fazer o chimarrão.
Logo o cansaço combate
e lembra nosso rincão!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Angola

ANA ROLÃO PRETO M. ABANO

A esperança é voz do Além
que nesta vida nos guia.
Sem este amparo ninguém
às mágoas sobrevivia.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Santos/SP

CAROLINA RAMOS

Quando a saudade me guia
pelas noites do passado,
qualquer luz eu trocaria
pela penumbra ao teu lado!
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

JAIME PINA

Por seu espirro incontido,
teve um chilique a Zefina …
Diz que o “porco” do marido
passou – lhe a “gripe suína”!…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Amar… verbo transitivo
que em qualquer conjugação
traz um novo lenitivo
para o nosso coração!
========================
Uma Trova Hispânica de Buenos Aires/Argentina

MIRTA CORDIDO

Soledad, alma gemela
que busca su libertad,
y entre las letras devela
¡que nos une tu hermandad!
===================
Uma Trova Ecológica, de Fortaleza/CE

HAROLDO LYRA

Rio de curvas simétricas
emoldurando a paisagem,
cinzela as veias poéticas
da natureza selvagem
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ADELMAR TAVARES – Rio de Janeiro/RJ
1888 – 1963

Quem dera que minhas trovas
andassem pelos caminhos,
consolando os desgraçados,
dando pão para os ceguinhos …
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas tão pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos …
========================
Um Haicai de Porto Alegre/RS

LINEU COTRIM

mente quieta!
 as palavras se calam,
 na morte do poeta.
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Subir até o azul

 Subir até o azul,
 descer até o inferno,
 são coisas simples
 que no fundo, eu quero
Ir, sem ir. Ficar,
 passando. Passar assim,
 como quem passa,
 amando.A viagem que não fiz
 doi dentro de mim
 assim como a raiz
 de uma árvore sem fim.
======================
Uma Poesia do Rio Grande do Sul

GEVALDINO FERREIRA
(1912 – ????)
Chuvinha Serena e Mansa

Que boa que és, chuvinha!
Chuvinha serena e mansa
caindo assim levezinha,
reverdecendo a campina,
molhando o pelo do gado
batendo no meu telhado,
trazendo um pouco de frio.
Trazendo sono as crianças
trazendo alegria ao rio.
Chuvinha que foi neblina.,
que depois virou garoa;
chuvinha serena e fina,
chuvinha serena e boa
que veio do céu cantando,
deixando o campo molhado,
germinando as sementeiras,
deixando o mato contente;
molhando a palha nas eiras,
molhando a terra e o arado,  
molhando tudo, molhando,
molhando a alma da gente.
========================
Sextilhas de Cordel, de Guarabira/PB

PAULO GRACINDO
90 anos de encantos de um Pavão Misterioso
(primeiras estrofes)

Quem é que nunca ouviu
Um dia alguém contar
A história de um pavão,
Que começou a voar
Há mais de noventa anos
E que nem pensa em parar.

Ele é misterioso,
Mas nunca foi encantado.
Passeou no mundo todo
E sempre foi bem lembrado,
Por tudo que fez e faz
E por onde tem passado.

Ele é o grande astro
De um romance acontecido.
Um romance de verdade,
Daqueles bem aguerrido,
Que já tem quase cem anos,
E jamais foi esquecido.
========================
Uma Fábula em Versos de Château-Thierry,França

JEAN DE LA FONTAINE
1621 – 1695
A Cigarra e a Formiga

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

– Amiga – diz a cigarra
– Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
– À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora!
====================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ANTONIO BARAHONA
Naufrágio

 Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

 De bruços
 aos fundos do oceano
 eu prisioneiro das redes
 no pensamento dos peixes
========================
Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ

TELES DE MEIRELES
(Antonio Peres Junior)
1867 – 1918
Idolatria 

Modelo de caríssima beleza!
Esplêndida mulher fascinadora !
Outra não há mais bela e tentadora! . . .
Prodígio divinal da Natureza! . . .

Artístico primor! Tão sedutora
não era Aspásia e Vênus com certeza
não tinha como tens, tanta pureza
na correção da Forma encantadora…

Que boca e que sorrir tão fascinantes,
desde que os vi, a todos os instantes
outros não vejo e que delícia em vê-los.

Preso de amor nos venturosos laços
eu só queria ter-te nos meus braços;
dormir, sonhar, morrer nos teus cabelos! …
========================
Uma Poesia de Longe

MARIA MANUELA CONCEIÇÃO CARVALHO MARGARIDO -Roça Olímpia/São Tomé e Príncipe
(1925-2007)
Roça

A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino da alvorada
que desperta o terreiro.
E o feito que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsas a bananeira
com um machim de prata;

capinas o mato
com um machim de raiva;
abres o coco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim
com um machim de certeza.

E à tarde regressas
a senzala;
a noite esculpe
os seus lábios frios
na tua pele
E sonhas na distância
uma vida mais livre,
que o teu gesto
há-de realizar.
––––––
Nota:
Andim = dendê

========================
Um Poetrix de Recife/PE

ANTONIO CARLOS MENEZES
melancolia

à beira do rio
sou pássaro que canta
em lugares sombrios.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
A Câmara Viajante

 Que pode a câmara fotográfica?
 Não pode nada.
 Conta só o que viu.
 Não pode mudar o que viu.
 Não tem responsabilidade no que viu.
 A câmara, entretanto,
 Ajuda a ver e rever, a multi-ver
 O real nu, cru, triste, sujo.
 Desvenda, espalha, universaliza.
 A imagem que ela captou e distribui.
 Obriga a sentir,
 A, driticamente, julgar,
 A querer bem ou a protestar,
 A desejar mudança.
 A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
 No que resta – ainda esplendor – da mata Atlântica
 Apesar do declínio histórico, do massacre
 De formas latejantes de viço e beleza.
 Mostra o que ficou e amanhã – quem sabe? acabará
 Na infinita desolação da terra assassinada.
 E pergunta: “Podemos deixar
 Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
 Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?”
 Este livro-câmara é anseio de salvar
 O que ainda pode ser salvo,
 O que precisa ser salvo
 Sem esperar pelo ano 2 mil.
========================
UniVersos Melodicos

FRANCISCO ALVES e LUÍS IGLESIAS
Tormento (canção, 1931)

Mulher
O teu amor maltrata tanto
Que às vezes
Quando a rir doido me ponho
O riso se transforma como um sonho
Em lágrimas sem fim
De um longo pranto

Por isso
Quantas vezes nas noitadas
Escondo sob a face
O riso e a graça
Pois temo que o meu riso se desfaça
Em lágrimas febris e angustiadas

Mas este amor penoso e torturado
Com cheiro de tristezas, prantos e ais
Me faz cada vez mais apaixonado
De ter que a mulher cada vez mais

Me sinto numa orgia turbulenta
A luz do cabaré e a alma ferida
Pois tenho nos meus olhos refletida
A imagem da mulher que me atormenta

Se busco na champagne embriagado
O bálsamo sutil
Do esquecimento
Na taça vejo sempre
Que tormento
Aquele rosto em forma retratado
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

AS CAVEIRAS

(CD Bia Bedram – Brinquedos Cantados)

Quando o relógio bate a uma,
todas as caveiras saem da tumba;
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata
Quando o relógio bate as duas,
todas as caveiras saem nas ruas;
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as três,
todas as caveiras jogam xadrez
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as quatro, 
todas as caveiras pintam quadros
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as cinco,
todas as caveiras apertam os cintos;
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando relógio bate as seis,
todas as caveiras falam chinês
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as sete,
todas as caveiras mascam chiclete
Tumbalacatumba tumbalacatá
Tumbalacatumba tumbalacatá

Quando o relógio bate as oito,
todas as caveiras comem biscoito;
Tumbalacatumba tumbalacatá
Tumbalacatumba tumbalacatá

Quando o relógio bate as nove,
todas as caveiras cantam rock
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as dez,
todas as caveiras fritam pastéis;
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as onze,
todas as caveiras andam de bonde
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata

Quando o relógio bate as doze,
todas as caveiras fazem pose
Tumbalacatumba tumbalacata,
Tumbalacatumba tumbalacata…

Quando o relógio bate a uma,
todas as caveiras voltam pra tumba.
Tumbalacatumba tumbalacata
Tumbalacatumba tumbalacata
(Fonte: Cifrantiga)
========================

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José Feldman (Universo de Versos n. 47) corrigido

A Trova, na imagem de capa, constava o nome de José Marins. 
Perdoem a falha, estou corrigindo abaixo. 
Na verdade a trova é de autoria do Assis, de Maringá. Aos que guardam o Universo, peço que deletem o enviado e coloquem o abaixo. 
Obrigado. José Feldman temporada no norte

A Trova, na imagem de capa, constava o nome de José Marins. Peço que me perdoem a falha, estou corrigindo abaixo. Na verdade a trova é de autoria do Assis, de Maringá. Aos que guardam o Universo, peço que deletem o enviado ontem e coloquem o abaixo. Obrigado. José Feldmantemporada no norte
Uma Trova do Paraná

FRANCISCO FILIPAK – Curitiba
Quando à tarde a branda brisa
bafejava os pinheirais,
as grimpas que o vento alisa
solfejavam os seus ais.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Brasília/DF

NATAL MACHADO
Esperança, triste fado
de um coração descontente,
é o futuro antecipado
numa dúvida presente.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Belo Horizonte/MG

ARLINDO TADEU HAGEN
Minhas mágoas mais secretas
em versos vou transformando.
No horizonte dos poetas
há sempre estrelas brilhando!
=======================
Uma Trova Humorística, de Niterói/RJ

ALBA HELENA CORRÊA
Pra dar chilique, escolhia
estar perto do sofá!
Foi ao chão, pois não sabia
que o retiraram de lá !!!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013
Amores na mocidade
sempre deixam cicatrizes,
marcas de dor e saudade
no peito dos infelizes…
========================
Uma Poesia sobre a Dengue, da 3a. Série do Colégio Colbachini, de Nova Bassano/RS

MARCELO
Dengue

O mosquitinho da dengue
É muito perigoso
Devemos ter cuidado
Para não ser picado
Desse mosquito tinhoso.

Todos nós devemos ter
Grande preocupação
Com esse mosquito violento
Quero estar sempre atento
Para não parar no caixão.

Cuidar da água parada
É obrigação da população
A gente mata a charada
E elimina um problemão.
===================
Uma Trova Ecológica, de Balneário Camboriú/SC

ELIANA RUIZ JIMENEZ
Corre o rio em harmonia,
sem saber que mais à frente
a ganância humana, fria,
devasta o meio ambiente.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ANTÍDIO AZEVEDO – Jardim do Seridó/RN
1887 – 1975
Se a areia que pisas tanto,
adivinhasse quem és,
vibrava toda, garanto,
beijando louca, teus pés
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977
É um prazer bem diferente
e de sabor sempre novo,
ouvir a trova da gente
andar na boca do povo!…
========================
Uma Trova em Imagem, de Juiz de Fora/MG

=================
Um Haicai de São Paulo

ALONSO ALVAREZ
ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
– acordei com teu cheiro
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Poeta itinerante

 Poeta itinerante e peregrino,
 pelas ruas do mundo,
 arrasto o meu destino
 Mundo? Uma aldeia de nome tupi,
 um monstro com nome de santo,
 Curitiba, São Paulo,
 com vocês me deito,
 com algo me levanto.
 Vocês aí parados
 a mesma vida de sempre,
 como vos invejo e vos desprezo,
 voz de nós, voz dos meus avós,
 prazos, prêmios, praças, preços,
 chove sobre mim
 a chuva que eu mereço.
 Invoco forças poderosas.
 Quando vou poder
 transformar minhas ruínas em rosas?
======================
Uma Poesia de Dores do Indaiá/MG

EMÍLIO GUIMARÃES MOURA
Aqui Termina o Caminho

Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo
dentro da noite.
Dentro da tarde, o teu grave pensamento de exílio
Por que ainda esperas? Aqui termina o caminho.
aqui morre a voz, e não há mais éco, nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que
tanto nos perturbaram
e que inutilmente nos conduziram
para nos deixar de súbito na primeira esquina?

Essa voz que vem não sei de onde,
esses olhos que olham não sei o que,
esses braços que se estendem não sei para onde…

Debalde esperarás que o éco de teus passos
acorde os espaços que já tem voz.
As almas já despertaram aqui.
========================
Uma Setilha de Crato/CE

ADAUBERTO AMORIM

Esse mar que tanto inspira
Que tanto causa emoção,
Por ele o poeta delira
Navegando em solidão,
Nas suas ondas balança
E o pensamento não cansa
De ir em outra direção!!!!
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal

ÂNGELO DE LIMA
1872 – 1921
Olhos de Lobas

 Teus olhos lembram círios
Acesos n’um cemitério…
Dr. Rogério de Barros

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris… Incendiados!…

Como os Clarões Finais… – Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados…
– Nas criptas d’um Jazigo Tumular!…

– Como a Luz que na Noute Misteriosa
– Fantástica – Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausoléu!…

– Mausoléu, das Saudades do Ideal!…

– Oh Saudades… Oh Luz Transcendental!
– Oh memórias saudosas do Ido ao Céu!…

– Oh Pérpetuas Febris!… – Oh Sempre Vivas!…
– Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!…
========================
Um Soneto de Lavrinhas/SP

VASCO DE CASTRO LIMA
1905 –
História de Amor  

Nossa história de amor, minha querida,
por culpa tua é que não foi feliz…
De certo, nenhum homem nesta vida
quis a alguma mulher como eu te quis!

Podes reler a história mais sentida
dos amorosos de qualquer pais:
Laura e Petrarca . . . Fausto e Margarida…
Paulo e Virgínia . . . Dante e Beatriz…

Pediste… e a ninguém conto o meu tormento.
Mas vêm fechar-me os lábios no momento
em que, pensando em ti, hei de morrer.

Impedirás, assim, no último dia
que, na triste inconsciência da agonia
eu revele o teu nome sem querer!
========================
Uma Poesia de Longe

CARL SANDBURG – Galsburg,Illinois/EUA
1878 – 1967
Sopa

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
Com uma colher.
(tradução de Alexandre O’Neill)
========================
Um Poetrix de Santa Maria da Feira/Portugal

ANTHERO MONTEIRO
morte

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outuno
a olhar o meu ponto de fuga
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Atriz

A morte emendou a gramática.
 Morreram Cacilda Becker.
 Não era uma só. Era tantas.
 Professorinha pobre de Piraçununga
 Cleópatra e Antígona
 Maria Stuart
 Mary Tyrone
 Marta de Albee
 Margarida Gauthier e Alma Winemiller
 Hannah Jelkes a solteirona
 a velha senhora Clara Zahanassian
 adorável Júlia
 outras muitas, modernas e futuras
 irreveladas.
 Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
 e um mendigo esperando infinitamente Godot.
 Era principalmente a voz de martelo sensível
 martelando e doendo e descascando
 a casca podre da vida
 para mostrar o miolo de sombra
 a verdade de cada um nos mitos cênicos.
 Era uma pessoa e era um teatro.
 Morrem mil Cacildas em Cacilda.
========================
UniVersos Melodicos

NOEL ROSA
Gago Apaixonado (samba, 1931)

Lançada originalmente no teatro de revista na peça Café com Música onde se destacava a famosa cantora Araci Cortes, composição essa que se tornaria peça obrigatória nas apresentações de Noel Rosa; nesta composição Noel demonstra todo seu fino humor, sua imensa verve satírica e sua facilidade em retratar as características peculiares dos tipos humanos da sociedade brasileira dos anos 30, especificamente do Rio de Janeiro, capital da República do Brasil.
Noel inclusive gravou sua composição Gago apaixonado e costumava dizer em tom de deboche que o que mais gostava nesta música era o fato de “esta meus vizinhos não conseguem cantar” (Dárcio Fragoso).

Mu… mu… mulher, em mim fi… zeste um estrago
        Eu de nervoso esto… tou fi… ficando gago
        Não po… posso com a     cru… crueldade
Da saudade, Que… que mal… maldade
Vi… vivo sem afago

Tem tem… tem pe… pena
Deste mo… mo… moribundo, que… que já virou
Va… va… va… va… ga… gabundo
Só… só… só… só…
Por ter     so… so… sofri… frido
Tu… tu… tu… tu… tu… tu… tu… tu…
Tu tens um co… coração fi… fi… fingido

*Repete Introdução*

Mu… mu… mulher, em mim fi… zeste um estrago
        Eu de nervoso esto… tou fi… ficando gago
        Não po… posso com a     cru… crueldade
Da saudade, Que… que mal… maldade
Vi… vivo sem afago

Teu teu co… coração me entregaste
De… de… pois… pois…
De mim tu to… toma… maste
Tu… tua falsi… si… sidade  é pro… profunda
Tu… tu… tu… tu… tu… tu… tu… tu…
Tua vais fi… fi… ficar corcunda!
(Fonte: Cifrantiga)

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Uma Cantiga Infantil de Roda

A Linda Rosa
CD 26 Cantigas de Roda

A linda Rosa juvenil, juvenil, juvenil,
A linda Rosa juvenil, juvenil.

Vivia alegre no seu lar, no seu lar, no seu lar
Vivia alegre no seu lar, no seu lar.

Mas uma feiticeira má, muito má, muito má,
Mas uma feiticeira má, muito má.

Adormeceu a Rosa assim… bem assim…bem assim…
Adormeceu a Rosa assim… bem assim…

Não há de acordar jamais, nunca mais, nunca mais,
Não há de acordar jamais, nunca mais.

O tempo passou a correr, a correr, a correr,
O tempo passou a correr, a correr.

E o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor,
E o mato cresceu ao redor, ao redor.

Um dia veio um belo rei, belo rei, belo rei,
Um dia veio um belo rei, belo rei.

Que despertou a Rosa assim, bem assim, bem assim,
Que despertou a Rosa assim, bem assim.
(Fonte: Cifrantiga)

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José Feldman (Universo de Versos n. 48)

Uma Trova do Paraná

HELY MARÉS DE SOUZA – União da Vitória

Com lua cheia, serena,
perscrutando o firmamento,
aos poucos me integro à cena…
voando em meu pensamento!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de Caçapava/SP

ÉLBEA PRISCILLA DE SOUZA E SILVA

No teatro, o pano desce
e a platéia comovida,
aplaudindo até se esquece
dos dramas da própria vida…
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Uma Trova Ecológica, de São José dos Campos/SP

GLÓRIA TABET MARSON

Amazônia, a riqueza
que hoje está ameaçada,
garante sua grandeza,
se acabar a derrubada!
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Uma Trova Humorística, de Belo Horizonte/MG

ARLINDO TADEU HAGEN

A madame era tão chique
e de tão fina linhagem
que até pra ter um chilique
retocava a maquiagem!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

À noite, as brisas divinas
dão som aos seus movimentos;
e, “na Lua,” as bailarinas
dançam a valsa dos ventos…
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Uma Trova Hispânica do Chile

LAURA ROJAS

No fui luna, ni soy sol,
es mi mundo, primordial,
soy fuerza del girasol,
soy agua de manantial
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

LÚCIA LOBO FADIGAS

Esperança é aquela estrela
de verde luz envolvida,
a cintilar, pura e bela,
no céu escuro da vida.
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Trovadores que deixaram Saudades

CORNÉLIO PIRES – Tietê/SP
1884 – 1958

Da multidão dos enfermos
Que sempre busco rever
O doente mais doente
É o que não sabe sofrer.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Há trovas, ricas, sonoras,
tem brilho, cintilação…
Lembram “foguetes de lágrimas”
nas noites de São João…
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Um Haicai de Manaus/AM

ROSA CLEMENT

por entre as vinhas,
ele abraça mais forte
e beija mais doce…
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Profissão de febre

Quando chove,
 Eu chovo,
 Faz sol,
 Eu faço,
 De noite,
 Anoiteço,
 Tem Deus,
 Eu rezo,
 Não tem,
 Esqueço,
 Chove de novo,
 De novo, chovo,
 Assobio no vento,
 Daqui me vejo,
 Lá vou eu,
 Gesto no movimento.
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Uma Poesia do Rio de Janeiro

FERNANDO AUGUSTO BUARQUE FRANCO NETTO
Outonal

Olhei a noite e senti-me só.
Olhei a noite que te abraçava
Com infinitos braços de treva;
De tanto te desejar,
Senti os braços imensos,
E abracei a noite toda
Para abraçar-te dentro dela.

Não posso juntar as estrelas,
Por meus olhos dentro delas.
Se pudesse, não cegava:
Não ceguei quando chegaste.

O forro negro do céu
São teus olhos dissolvidos
Na pele azul do Inf inito,
E teu sorriso se oculta
Atrás dos raios da lua;
Mas a lua se esconde aflita
Atrás de nuvens de chumbo,
Cansada de ser ferida
Que verte sangue de prata.

Que alvura invade o ar!
Sempre imaginei teus seios
De indefinida brancura –

Desce de leve a neblina,
Trama de chuva tão fina
Como o ouro entretecido
Na seda dos teus cabelos.

As nuvens negras castigam
Meu caminhar solitário
Com finas gotas geladas,
Que me escorrem pela face.

E eu beijo a chuva que cai
Longe, nos teus cabelos.
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Uma Setilha de Salvador/BA

CREUSA MEIRA

Eu vejo tantas Marias
Em busca dos seus amores
No meio de tantas festas
Às vezes só sentem dores
Muitas nem conhecem fitas
Outras nunca usam chitas
E todas adoram flores!
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Uma Poesia de Ponta Delgada/Portugal

ANTERO DE QUENTAL
(Antero Tarquínio de Quental)
1842 – 1891
Idílio

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas,
Ao longe, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces …

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
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Uma Fábula em Versos, de Roma/Itália

TRILUSSA
(CARLOS ALBERTO SALUSTRI)
1871 – 1950
O Palhaço

O rei Leão, vencido pelo tédio,
lembrou-se, enfim, como último recurso,
de que um bufão seria um bom remédio,
e lançou entre os bichos um concurso.

Para o cargo alcançar, o porco, nédio,
toca uma flauta; dança um tango um urso;
pula e grita o macaco, e o rei despede-o:
– Que faça o papagaio o seu discurso!

Vem o gato, o cavalo, o asno, o carneiro…
– Basta! – grita o leão. Pára o berreiro!
Vamos deixar de farsas e mistérios

Ser capaz do grotesco – eis o embaraço:
o homem, só ele, pode ser palhaço…
Nós, bichos, somos demasiado sérios.

(esta fábula foi traduzida por Lemos Filho e deu-lhe a forma de soneto. O original são versos soltos)
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Um Soneto do Rio de Janeiro/GB

TRISTÃO DA CUNHA
(José Maria Leitão da Cunha Filho)
1878 – 1942
Aniversário 

Interrogando a lápide que encerra
tua ligeira forma torturada,
vim deter, no pendor da humana estrada
os passos que me levam para a terra.

O véu das manhãs de ouro se descerra.
Vives de novo na infantil jornada,
toda ternura tímida guardada,
toda piedade ativa que não erra.

Um prodígio de amor muda em conforto
o próprio mal que neste chão depus,
-e ei-lo, convoca os risos fugitivos.

Na eucarística paz do último horto,
o teu tormento já desfeito em luz,
tua bondade purifica os vivos.
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Uma Poesia de Longe

CONSUELO TOMAS – Bocas del Toro/Panamá
Eu Era Uma Casa

Eu era uma casa que quase se fechava
Antiga memória de beijos
Carícia no exílio
Mar calmo e já de volta

Então foste tu
abrindo minhas janelas
Colocando os passos da mirada
música da ternura em tua doce mão
espantando o pó do desengano
uma ou outra palavra e o abraço

ilusão imperfeita
um minuto de vida
oportunidade serena
para ensaiar o amor e suas rupturas

Agora tenho que esquecer-te e não sei como
Recuperar o mecanismo da calma, a música do mar
E sua cumplicidade imensa
O perfeito equilíbrio do que foi conquistado

De qualquer forma antes que a noite chegue
Aqui sempre haverá lugar para teu rosto
Um espaço vazio para que teus braços preencham ou a lembrança
Um silêncio estendido para que teu canto voe ao mais elevado
Aqui.
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Um Poetrix de Santo Antônio de Jesus/BA

RONALDO RIBEIRO JACOBINA
nu divã

Id ao divã divagar
Vã tentativa
de voar
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
A Bruxa

 A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
 de dois milhões de habitantes,
 estou sozinho no quarto,
 estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
 Ainda há pouco um ruído
 anunciou vida a meu lado.
 Certo não é vida humana,
 mas é vida. E sinto a bruxa
 presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
 E nem precisava tanto…
 Precisava de um amigo,
 desses calados, distantes,
 que lêem verso de Horácio
 mas secretamente influem
 na vida, no amor, na carne.
 Estou só, não tenho amigo,
 e a essa hora tardia
 como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
 Precisava de mulher
 que entrasse nesse minuto,
 recebesse este carinho,
 salvasse do aniquilamento
 um minuto e um carinho loucos
 que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
 quantas mulheres prováveis
 interrogam-se no espelho
 medindo o tempo perdido
 até que venha a manhã
 trazer leite, jornal e calma.
 Porém a essa hora vazia
 como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
 Tenho tanta palavra meiga,
 conheço vozes de bichos,
 sei os beijos mais violentos,
 viajei, briguei, aprendi.
 Estou cercado de olhos,
 de mãos, afetos, procuras.
 Mas se tento comunicar-me,
 o que há é apenas a noite
 e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
 Essa presença agitada
 querendo romper a noite
 não é simplesmente a bruxa.
 É antes a confidência
 exalando-se de um homem.
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UniVersos Melodicos

LAMARTINE BABO e ARY BARROSO
No Rancho Fundo (samba-canção, 1931)

Este samba foi lançado pela cantora Araci Cortes em junho de 1930, na revista É do outro mundo. Na ocasião chamava-se “Este mulato vai ser meu” (com o subtítulo “Na Grota Funda”), e tinha letra do caricaturista J. Carlos (José Carlos de Brito Cunha, autor da revista).
Ouvindo a composição, Lamartine Babo achou ruins os versos “Na Grota Funda / na virada da montanha / só se conta uma façanha / do mulato da Raimunda”. Autorizado por Ary Barroso, escreveu nova letra ( “No Rancho Fundo / bem pra lá do fim mundo / onde a dor e a saudade / contam coisas da cidade…”), sendo o samba gravado por Elisa Coelho, no ano seguinte.
O lirismo nostálgico, que predomina na composição, já aparece na introdução instrumental dessa gravação, com o próprio Ary ao piano. A melodia, por sua vez, caminha suavemente em frases descendentes para um final melancólico, em perfeita sintonia com a letra. Quem não gostou da nova versão foi J. Carlos, que julgou a rejeição de sua letra uma desfeita, rompendo com Ary Barroso.

No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade….

No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as mágoas
Tendo os olhos rasos dӇgua

Pobre moreno
Que tarde no sereno
Espera a  lua no terreiro
Tendo o cigarro por companheiro
Sem um aceno
Ele pega da viola
E a lua por esmola
Vem pro quintal deste moreno

No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite  e nem de dia
Os arvoredos
Já não contam mais segredos
Que a última palmeira
Já morreu na cordilheira

Os passarinhos
Internaram-se nos ninhos
De tão triste essa tristeza
Enche de treva a natureza
Tudo por que ?  
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
Para uma casa de sapê 
(Fonte: Cifrantiga)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

A Moda da Garranchinha
(Folclore)

Feita a roda de crianças, de mãos dadas, uma se coloca no centro. Todas cantam:

A moda da garranchinha
É moda particular;
Quem põe o joelho em terra,
Não pode se levantar.

Quando dizem – quem põe o joelho em terra – todas se ajoelham e se levantam ao mesmo tempo. A roda continua cantando:

Fulana levanta a saia,
Fulana levanta o braço;
Fulana tem dó de mim,
Fulana dai-me um abraço

Ao dizerem – fulana levanta a saia – a menina do centro suspende as pontas do vestido. Depois, acompanhando a letra, levanta os braços e por fim dá um abraço na criança que deseja e esta passa então a ser a menina do meio na roda, na vez seguinte.

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953) – Jangada Brasil – Realejo.
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