José Feldman (Universo de Versos n. 59)

Uma Trova do Paraná

JEANETTE DE CNOP – Maringá

Voltei. Cabisbaixa eu vinha,
com o orgulho lá no chão…
Melhor do que estar sozinha
e coberta de razão!
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

ARCHIMINO LAPAGESSE

A Esperança se revela
em cousa bem natural:
um sapato na janela
numa noite de Natal!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica do Rio de Janeiro

MARIA MADALENA FERREIRA

De mim… tu juras que gostas…
– Mas, tal cinismo, realças,
que eu juro – até de mãos postas,
que as tuas juras são falsas!!!
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Uma Trova Humorística, de São Luis/MA

ORLANDO BRITO
Eu, trabalhar desse jeito,
com a força que Deus me deu,
pra sustentar um sujeito
vagabundo como eu ?!!…
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A ingratidão na pessoa
vai direto ao coração.
Não existe dor que doa
como a dor da ingratidão.
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Uma Trova Hispânica do México

MARIA ELENA

Si el alma no se alimenta,
si se niegan  las caricias,
hay en el amor tormenta
huyen, del lar, las delicias.
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Uma Trova sobre Saudade, de São Paulo

ALBA CRISTINA CAMPOS NETTO

Entre nós não há mais nada,
mas ante a prova de fogo,
saudade é carta marcada
que acaba ganhando o jogo !
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Trovadores que deixaram Saudades

FERNANDO COSTA – São Paulo

Faz a vida o seu descarte
num jogo tão contundente,
que na vida de quem parte,
parte uma parte da gente…
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Um trovador veterano
concorre e zomba: – é “barbada”!
Depois de entrar pelo cano,
bronqueia: foi marmelada!…
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Um Haicai Infanto-Juvenil, de Jaboti/PR

LUIZ FERNANDO ORLANDINI LIMA (10 anos de idade)
Bolo de fubá
Saboroso e fofinho
Só mesmo a mamãe.
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Para matar as saudades,
fui ver-te em ânsias, correndo …
– E eu que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo.
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O Universo de Cora

CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Cantaria

I
Meti o peito em Goiás
e canto como ninguém.
Canto as pedras,
canto as águas,
as lavadeiras, também.

Cantei um velho quintal
com murada de pedra.
Cantei um portão alto
com escada caída.

Cantei a casinha velha
de velha pobrezinha.
Cantei colcha furada
estendida no lajedo;
muito sentida,
pedi remendos pra ela.
Cantei mulher da vida
conformando a vida dela.

II

Cantei ouro enterrado
querendo desenterrá.
Cantei cidade largada.
Cantei burro de cangalha
com lenha despejada.
Cantei vacas pastando
no largo tombado.

Agora vai se acabando
Esta minha versejada.
Boto escoras nos serados
Por aqui vou ficando.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989
)

amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o
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Uma Poesia do Rio de Janeiro

AMAURY NICOLINI
Como um Filme

Quer assistir a um filme
cheio de emoção,
como há muito não se vê ?
É só olhar
dentro do meu coração
e aplaudir a interpretação
magistral e singular
de toda essa saudade de você.
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Um Limerique, de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Limeriques Urbanos III

Professor, é com letra de mão?
Sim! cursiva nesta lição.
Quem escreve de pé
tendo no aluno fé,
é professor de profissão.
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Uma Poesia de Coimbra/Portugal

CAMILO PESSANHA
1867 – 1926
Viola Chinesa

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa…
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Um Soneto de Mogúncia/MA

RAYMUNDO CORREA
1859 – 1911
As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüinea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.
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Uma Poesia Além Fronteiras

CÉSAR DÁVILA ANDRADE – Equador
1918 – 1967
Em Que Lugar

Quero que me digas; de qualquer
modo deves dizer-me,
indicar-me. Seguirei teu dedo, ou
a pedra que lances
fazendo flamejar, em ângulo teu braço.

Além, atrás dos fornos de queimar a cal,
ou mais além ainda,
além das valas onde
se acumulam as coroas alquímicas de Urano
e o ar chia como gengibre
deve estar Aquele.

Tens que me indicar o lugar
ainda antes que este dia se coagule.

Aquele deve conter o eco
envolto em si mesmo,
como uma pedra no interior de um pêssego.

Tens que indicar-me, Tu,
que repousas bem mais além da Fé
e até da Matemática.

Poderei segui-lo no ruído que passa
e se detém
subitamente
na orelha de papel?

Por acaso ele está nesse sítio de trevas,
sob as camas,
onde se reúnem
todos os sapatos deste mundo?
(Tradução de José Jeronymo Rivera)
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Lagoa

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa…
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UniVersos Melodicos

NOEL ROSA
Fita Amarela (samba, 1933)

Noel Rosa compôs “Fita Amarela” a partir de uma batucada, conhecida nas rodas de samba, atribuída a Mano Edgar (Edgar Marcelino dos Passos), um bamba do Estácio. A batucada era assim: “Quando eu morrer / não quero choro nem nada / eu quero ouvir um samba / ao romper da madrugada”.
Na mesma época (fins de 1932), Donga e Aldo Taranto usavam o tema para compor o samba “Quando Você Morrer”, gravado por Carmen Miranda. A diferença era que enquanto Noel aproveitava apenas a idéia, Donga e Taranto copiavam também a melodia, segundo Almirante, que registrou o fato em sua coluna “Cantinho das Canções” (O Dia, 11.02.73).
O curioso é que, com o sucesso de “Fita Amarela”, Donga protestou nos jornais, acusando Noel de plagiar seu samba. Já Mano Edgar não tinha como se manifestar. Havia sido assassinado num jogo de ronda em 24.12.31. De qualquer maneira, “Fita Amarela” é um ótimo samba em que ressalta mais uma vez o lado espirituoso de Noel. Marca ainda, juntamente com “Até amanhã”, sua presença no carnaval de 33, ano pródigo em que teve mais de trinta composições gravadas.

Quando eu morrer,
não quero choro, nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Se existe alma,

se há outra encarnação
Eu queria que a mulata 
sapateasse no meu caixãoQuando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela
Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Não quero flores,
nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta
com violão e cavaquinho

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Estou contente,
consolado por saber
Que as morenas tão formosas
a terra um dia vai comer

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela
Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Não tenho herdeiros,
não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos
mas não paguei nada a ninguém

Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela
Quando eu morrer,
não quero choro,  nem vela
Quero uma fita amarela
gravada com o nome dela

Meus inimigos que hoje
falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
uma pessoa tão boa assim
Fonte: Cifrantiga
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Uma Cantiga Infantil de Roda

OH! QUE BELAS LARANJAS!

É uma roda de meninas, cantando:

Oh! Que belas laranjas, }
Ó maninha } bis
De que cor são elas? }

Elas são }
Verde, amarelas }
Vira, Maninha } bis
Cor de canela }

Todas as vezes que cantam — Vira Maninha — uma das meninas se volta para fora da roda, conservando-se de mãos dadas. A ronda termina quando a última criança se volta para fora, ficando todas de costas, umas para as outras, sem soltar as mãos
Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953.
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