Arquivo do mês: julho 2013

A. A. de Assis (Revista Virtual de Trovas "Trovia" – n.164 – agosto de 2013)


Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim!
Izo Goldman
 

Nascemos irmãos comuns,
mas a ambição e os engodos
puseram nas mãos de alguns
o mundo que era de todos!
José Maria M. de Araújo

Digo tudo sem receio…
Sei, amor, que não aprovas.
Meu coração retalhei-o
e, dos pedaços, fiz trovas…
Luiz Otávio

É tanto o amor que me invade
quando em teus braços estou,
que cada instante é saudade
do instante que já passou!
Newton Meyer
 
Dona Saudade, velhinha,
bordadeira paciente,
não tem agulha nem linha,
mas borda os sonhos da gente!
Onildo de Campos

Meu coração, hoje em dia,
desfeito, cansado e mudo,
lembra uma feira vazia,
depois que venderam tudo!
Pe. Celso de Carvalho

Parabéns Olga Agulhon, Eliana Palma e Ademar Schiavone pelo grande sucesso e beleza do VI Encontro Literário de Maringá
 


Tem muita trova que choca,
e é natural que aborreça…
Exemplo: a trova-minhoca,
que não tem pé nem cabeça!
Antônio da Serra – PR

No verão ela anuncia
que o nudismo é a sensação
e o que só o marido via,
agora todos verão!
Arlindo Tadeu Hagen – MG

“Há fantasma”, alguém dizia,
“neste beco”, e com razão.
– Era contramão de dia,
mas à noite… quanta mão!
Clenir Neves Ribeiro – Austrália

Chaminelar… chaminilo!
Você lembra o que é que é?
É poder fazer aquilo
em cima da chaminé!
Gislaine Canales – RS

Chega da farra na boa,
como quem acha que pode.
No escuro, beija a “patroa”…
sente na boca um bigode…
Jaime Pina da Silveira – SP

Ao homem muito ciumento
há um dilema que aperreia:
ou esquece o casamento,
ou casa com mulher feia!
Josa Jásper – RJ

Para os jovens, de ordinário,
este é um problema somenos:
o velho, no aniversário,
comemora um ano a menos…
José Fabiano – MG

Certa mocinha atrevida,
com seus namoros no mato,
sempre aparece mordida
por “dentes” de carrapato…
Thereza Costa Val
 

Dentre os bens que o filho espera
receber por transmissão,
tesouro nenhum supera
o exemplo que os pais lhe dão.
A. A. de Assis – PR

Esta lágrima que escorre,
deixando marcas no rosto,
é água que me socorre,
purificando o desgosto.
Adélia Woelllner – PR
 
Num jogo de sombra e luz
fui tomado de emoção,
ante a porta que conduz
o meu ao teu coração.
Agostinho Rodrigues – RJ

Por diferentes caminhos,
chegamos à encruzilhada,
depois seguimos juntinhos
através de nova estrada.
Alberto Paco – PR
 
Tuas recusas sem jeito
mostram, de modo evidente,
que tens meu corpo em teu leito,
com outra imagem na mente.
Almerinda Liporage – RJ

Entre as escolhas que fiz,
eu sofri e sei por quê:
uma só me fez feliz,
foi essa de amar você!
Almir Pinto de Azevedo – RJ

Há um farol em teu olhar
que ilumina a minha vida;
sem ele (estou a cismar),
ficarei cego, querida!
Amilton Maciel – SP

Uma vida de alegria
eu precisava buscar;
e encontrei na poesia
meu eterno e doce lar.
Angela Stefanelli – RJ
 
Quero, por tudo e por nada,
esquecer-te a qualquer preço
mas a distância danada
já sabe o meu endereço!
Antonio Colavite Filho – SP
 

Se receber uma ofensa
só tente ficar calado…
Terá como recompensa
nosso respeito dobrado!
Arlene Lima – PR

Não se faz mais amizade
como dantes se fazia…
– Hoje até felicidade
anda assim: meio vazia.
Ari Santos de Campos – SC

Não há guarda no portão
nenhum trinco ou cadeado;
mas não me faça invasão,
só entre se for chamado.
Cida Vilhena – PB

Por te amar, tenho sofrido,
mas não me arrependo: Vem!
– Quem ama as rosas, querido,
ama os espinhos também!
Carolina Ramos – SP
 
A vida é dura, renhida,
porém tem muita poesia.
Faço parte da torcida
da esperança a cada dia.
Cônego Telles – PR

No silêncio do meu grito
ouço a voz da solidão…
Nos meus versos deixo escrito
como está meu coração.
Dáguima Verônica – MG

Sem vitupérios e afrontas,
cerra às ofensas teus lábios,
que, em muito acerto de contas,
vence o silêncio dos sábios!
Darly O. Barros – SP
 
Cem vezes tu repetiste
que me amavas loucamente…
Cem vezes tu me mentiste
e cem vezes eu fui crente!
Delcy Canalles – RS
 

Na mesma rede embalados…
Porém a vida é tão dura!
– No que pensam namorados
se não na vida futura?!
Diamantino Ferreira – RJ

Desamarrando a fitinha
das lembranças, tenho medo
de que dentro da caixinha
não seja eu… teu segredo!
Dilva Moraes – RJ

Foste embora e, na saudade,
a ofensa se fez lição:
descobri que o amor-verdade
se alicerça no perdão!
Domitilla B. Beltrame – SP

Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!
Dorothy Jansson Moretti – SP

Corre o rio em harmonia,
sem saber que mais à frente
a ganância humana, fria,
devasta o meio ambiente.
Eliana Jimenez – SC

Tataravó dos poemas,
a toda hora se inova.
– Não importa quais os temas,
todos cabem numa trova.
Eliana Palma – PR

Minhas mãos… venho trazê-las,
até parecem vazias,
mas são repletas de estrelas
que eu colho todos os dias…
Elisabeth Souza Cruz – RJ
 
Memória é um caderno aberto
aos olhos do coração,
com registros que, por certo,
nunca mais se apagarão…
Ercy Marques de Faria – SP

Toda tarde o passarinho
bate as asas, quando canta.
Quanto mais longe do ninho,
mais afinada a garganta!
Francisco Garcia – RN

Em nossas carícias quentes,
não pesa a idade, nem nada,
porque somos dois poentes
que explodem numa alvorada!
Héron Patrício – SP
 
As flores que o ipê espalha
refletem a luz da lua.
Beleza não atrapalha;
ao contrário: enfeita a rua.
Hulda Ramos – PR
 

A beleza da poesia
– eu vou contar pra você –
não vem da mente que cria
e,sim, d’alma de quem lê!
JB Xavier – SP
 

Por mais poder e dinheiro,
muitos homens, desalmados,
expõem Jesus no madeiro…
e escondem bolsos recheados…
Jeanette De Cnop – PR

Terra de tanta riqueza,
fertilidade, alimento;
eu canto tua beleza,
choro teu desmatamento.
Jessé Nascimento – RJ
 
Pensamento ao mar, areia,
tarde sonora, quimera…
em leves ondas vagueia
na solidão de uma espera!
João Batista X. Oliveira – SP
 

Depois de arrastar a cruz,
que pesa mais na subida,
feliz de quem vê a luz
no fim do túnel da vida!
José Lucas de Barros – RN

Pôr do sol… em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
Jessé Nascimento – RJ
 
Cultivemos o jardim
do amor, com perseverança,
para que seja o estopim
de um futuro de esperança.
José Feldman – PR
 

Naquela noite de lua
o balde subiu chorando;
no poço não a viu nua,
mas o luar se espelhando.
José Marins – PR

Ante a dor que me espezinha,
a esperança se evapora…
Até a saudade que eu tinha
não quis ficar… foi embora!
José Messias Braz – MG
Que saudade, Mestre Izo Goldman. Você será sempre reverenciado pelas suas belas trovas e por tudo de bom que pela trova fez.

No sótão da alma vazia,
com tanta saudade em jogo,
se a ausência atira água fria,
a lembrança aviva o fogo!
José Ouverney – SP

Nada consigo de graça,
mas batalho pra valer,
pois somente a vida abraça
quem gostar de seu viver.
José Roberto P. de Souza – SP

Jamais busco o falso atalho
da glória não merecida…
É no suor do trabalho
que se constrói uma vida!
José Valdez – SP

Sou guerreira, sou versada,
venha a luta que vier;
minha paz é conquistada
na força de ser mulher.
Karla Bitencourt – PR

Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
Luiz Carlos Abritta – MG
 
Quisera que o mundo visse
meu ar de felicidade
assim que você me disse:
“Namoro” – e não: “Amizade”.
Luiz Hélio Friedrich – PR
 

Árvore… da terra abrigo,
que insensato o homem destrói,
pondo a vida ao desabrigo…
desatino, que corrói.
Mª Conceição Fagundes – PR

Meu bem, chegue aqui pertinho,
tenho um segredo a contar:
o teu amor e carinho,
lamento, não vou guardar!
Mª Luiza Walendowsky – SC

Num lugar do coração
habita sempre o menino
que faz bolhas de sabão
para iludir seu destino…
Mª Thereza Cavalheiro – SP
A trova é muito mais que um poema de quatro versos; principalmente quando traz mensagem útil no seu bojo.

Sonho um mundo colorido,
flores perfumando a estrada,
sem um ai, sem um gemido
de criança abandonada.
Marina Valente – SP
 
A grande, a maior virtude
é de quem pode mostrar
que sendo apenas açude
tem a grandeza do mar!
Marta Paes de Barros – SP

As medalhas com que cobre
o seu peito de vaidade
mostram que falta a mais nobre:
– a medalha da humildade.
Maurício Cavalheiro – SP

Plácido, corres no leito,
às margens, onde nasci;
ó Iguaçu, trago em meu peito
a água que é parte de ti.
Maurício Friedrich – PR
 
Numa insônia persistente
sinto a alma espedaçada,
a imprimir na noite em frente
fria e longa madrugada.
Mifori – SP
 

Ao buscar o que ela quer,
na luta por seu direito,
é no labor que a mulher
vence qualquer preconceito.
Nei Garcez – PR

O maior dos desamparos
que se impõe a um trovador
é ver seus versos tão caros
julgados por amador.
Nilsa Melo – PR

Viajei pelo mundo inteiro
e nunca mais pude achar
o que no instante primeiro
encontrei em seu olhar.
Olga Agulhon – PR
 
Planto o grão com uma meta:
 – gerar vida em profusão…
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
Renato Alves – RJ

Mais fraternidade. Mais criatividade. Menos competição.

Cada vez em que é agredida
na sua obra e beleza,
cai uma gota, sofrida,
dos olhos da natureza.
Roberto Acruche – RJ
 
A natureza hoje chora
a cruel devastação
que faz o verde ir embora
e veste de cinza o chão !…
Sônia Ditzel Martelo – PR
 

Bravura é viver sorrindo
embora seja evidente
que a vida é dor insistindo
em ser mais forte que a gente.
Thalma Tavares – SP
 

Por mágoas que me consomem,
hoje eu culpo os erros meus.
Ele era apenas um homem…
fui eu que fiz dele um deus!
Therezinha Dieguez Brisolla – SP.

O mendigo solitário,
perambula pela rua.
Ao redor só o cenário
de uma imensa e fria lua.
Vanda Alves da Silva – PR
 
A minha alma adolescente,
de braços dados com a vida,
parece nem ser parente
desta face envelhecida.
Vanda Fagundes Queiroz – PR

Água límpida é preciosa
para o planeta, vital;
pura, líquida ou gasosa,
tesouro fundamental.
Vânia Ennes – PR
 
Lago azul – trecho do céu,
encravado na vertente:
os cisnes – nuvens ao léu;
a barca – lua crescente.
Wagner Marques Lopes – MG
 

A realidade transponho
e vivo em mundo ideal…
Quero as mentiras do sonho,
não as da vida real!
Wanda Mourthé – MG
 

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Varal de Trovas n 29 – Helena Kolody (Curitiba/ PR) e Soares da Cunha (Governador Valadares/ MG)

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José Feldman (Universo de Versos n. 95)


Uma Trova do Paraná

MARIA DA CONCEIÇÃO FAGUNDES
Curitiba


Tesoura a vida do alheio
E age de modo imparcial
E ela afirma, sem receio:
– É “terapia social”!!!
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

COLBERT RANGEL COELHO


Esperança: o nosso ninho,
pobre, sim… mas com bonança.
Eu e tu… Nosso filhinho…
Ah, meu Deus, quanta esperança!

========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Quando pergunta o burrinho,
diz a mula envergonhada:
– “Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma…burrada!…”
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Simão/SP

THALMA TAVARES


– És meu príncipe! – dizia
vovó com seu jeito doce…
Tão doce que eu me sentia
como se príncipe fosse.
=======================
Uma Trova Humorística, de Pitangui/MG

JOSÉ ANTONIO DE FREITAS


O palhaço, sem mistério,
segredou-me, um dia, assim:
– Levo o meu trabalho a sério,
mas o povo ri de mim!…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Entre os atos de bonança
e meus pecados mortais,
quando eu botar na balança,
Deus sabe quais pesam mais!…
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

LIBIA BEATRIZ CARCIOFETTI

Pido a Dios mucha templanza
al vivir en estos días
su presencia es la esperanza
de alejar mis agonías.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Nova Friburgo/RJ

THEREZINHA TAVARES


O jeito de viver bem
com equilíbrio, com paz,
na vida consegue quem
de temperança é capaz!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ÉLTON CARVALHO

Rio de Janeiro (1916- 1994)

Vem, palhaço, sem tardança,
 com teus trejeitos, teus chistes,
 e acorda a alegre criança
 que dorme nos homens tristes…
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Quando a Trova é mesmo boa,
é sempre assim que acontece:
– o dono fica esquecido,
mas a Trova não se esquece…
========================
Um Haicai de Manaus/AM

ANIBAL BEÇA


Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Velho em trajes de rapaz
dá a impressão, diz o povo,
de um livro antigo demais
encadernado de novo.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Uma vez que a gente cante
dizendo o que o povo diz,
a trova fica contente,
a trova fica feliz. . .
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Princesa Desalento


Minh’alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento!

É fágil como o sonho dum momento;
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria:
Minh’alma é a Princesa Desalento…

Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve minh’alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Noturno


Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.
==============================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

ESTER FIGUEIREDO

Um Sonho de Vida

Lua que me olha à distância
sabe bem da inconstância
deste enamorado coração:
incauto…ansioso…vivendo de ilusão

Busca e não encontra lenitivo…
para esta dor tem motivo
e que só ELE sabe o segredo.

Vou caminhando pela vida
a passos lentos, sem guarida…
Até quando?-Não sei!

Sei apenas que a sorte
não pode driblar a morte
nem o sonho que eu sonhei!
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

De Joelhos

“Bendita seja a mãe que te gerou”
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
a tua ama , pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
da tua vida o doce alvorecer
Bendita seja a Lua que inundou
de luz a terra só pra te ver….

Benditos sejam todos que te amarem,
as que em volta de ti ajoelharem
numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher
Bendito seja o beijo dessa boca
=====================
Uma Poesia do Pernambuco

GERALDO FALCÃO

Referência do Sonho


Não sei se vão os meus olhos,
não sei se vem a paisagem.
Quero a luz absoluta
mãe das águas do tempo:
quero deter o seu curso
no eterno presente.
Com unção aproximo-me do altar invertido
de um deus embriagado pelo sangue
de homens acusados de morte.
Tateando nas trevas vou buscando
a primordial pureza, o primordial sentido,
a primordial palavra liturgicamente expressa.
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per’las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
========================
Uma Poesia de Portugal

ALMEIDA GARRETT

(João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett) 
Porto (1799 – 1854) Lisboa
 Anjo és

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua frente anuviada
Não vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d’amor.
Teus olhos têm negra a cor,
cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. – Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… Lágrima? – Escaldou-me…
Queima, abrasa, ulcera… Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá… De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Ah, o Amor…


Me lembro, ah, se me lembro… Eu lembraria
por mil anos ainda o que sofri;
era angústia, era dor, era agonia,
era… meu Deus! Como sobrevivi?

Ainda ouço a tua voz – cruel e fria –
renegar todo o amor que havia em ti,
ou pelo menos, que eu julguei que havia,
até… aquele instante em que te ouvi.

Depois, depois… E só eu sei o quanto
cego e faminto atropelei meus passos,
e quanta vez me vi no próprio espanto;

só eu sei… Mas voltaste… Ah, a mulher…
Ah, o amor… Fecho os olhos, abro os braços!
… Que seja tudo como Deus quiser!
============================
Um Soneto do Rio de Janeiro

MARIA NASCIMENTO

Súplica

Jurei não lhe falar mais de ternura,
nem dar sinais de angústia nem de dor,
mas sinto as cicatrizes da censura
bem menos doloridas que as do amor…

Assim, movida pela desventura,
vivendo um sentimento embriagador,
tento afogar meu sonho na amargura,
e volto a lhe falar do meu amor.

Deixe que eu ame intensa e livremente,
sem censurar o meu comportamento,
sem ter pena das penas que padeço,

que eu sofro, por você, conscientemente,
e, por maior que seja o meu tormento,
estou sofrendo menos que mereço…
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)


Na doçura do lirismo
nossos poemas são hinos
que viram salmos de amor,
e os poetas são meninos
de imaginários castelos,
cantando versos tão belos
como notas de violinos.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

JUAN LUIS MARTINEZ
Viña del Mar/Chile (1942 – 1993)Villa Alemana/Chile

Não só ser outro, como escrever a obra de outro

A grande impostura
o grande impostor
resvalado
nunca revelado
o nome verdadeiro
seu nome
o mesmo nome
tantas vezes escutado
imputado
tantas vezes repetido
tantas esquecido.

O eu tão desnecessário
maltratado
incinerado
ausente involuntário
habituado a estar só.

Dizer versos
que foram do outro
que foste
quando já não eras.

Constrói o teu não-eu:
sua ausência: a tua.

Para não ser
é necessário
que antes construas
a ausência
desse eu, que não
serás nunca

o espaço vazio
do não-eu.
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Americana/SP

GERALDO TROMBIN

Elas por Elas


Sheilas, Tanias, Pierinas ou Mirelas;
Brancas, Negras, Vermelhas, Amarelas;
Cheinhas, esbeltas, esguias, magricelas;
Na direção, no mouse ou nas panelas;
De salto alto, sandálias ou chinelas;
Tricotando, escrevendo, pintando a vida em aquarelas;
Adormecidas ou despertas como sentinelas;
Pagando caro ou simplesmente bagatelas;
Maçãs, morangos, cenouras, berinjelas;
Atentas a documentários, filmes ou novelas;
Cuidando de maridos, namorados, filhos ou mesmo delas;
São sempre insinuantes, apaixonadas e singelas;
Supermulheres, superprotetoras, superbelas.

Apesar das preocupações, não dão a mínima a chorumelas,
Nem deixam nada pelas tabelas,
Até quando os homens pisam feio no calo delas.

Se de verdade os amam, perdoam as piores mazelas,
Expondo inclusive suas almas pelas janelas.
E, nem romântico jantar à luz de velas,
Regado com vinho, olhares, beijos e abraços nas paralelas,
Reconsideram tudo, ficando muito bem, ficando elas por elas.

Exemplos de perseverança, força e amor, só mesmo vindo delas.

(1o. Lugar no I Concurso Literário “Maria Mariá” 2013, modalidade Poema Livre, em Maringá/PR)
=====================
Um Poetrix da Bahia

JUSSARA MIDLEJ

Palavras

Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

F


Forma
forma
forma

que se esquiva
por isso mesmo viva
no morto que a procura

a cor não pousa
nem a densidade habita
nessa que antes de ser

deixou de ser
não será
mas é

forma
festa
fonte
flama
filme

e não encontrar-te é nenhum desgosto
pois abarrotas o largo armazém do factível
onde a realidade é maior do que a realidade
========================
UniVersos Melodicos

René Bittencourt
 

SERTANEJA
(canção, 1939)


De uma simplicidade comovente, este bucólico canto de amor à mulher sertaneja seria uma das composições mais cantadas em todo o Brasil nos anos seguintes ao seu lançamento, em julho de 39. Todo amador com pretensões a se tornar um novo “cantor das multidões”, inscrevia-se num programa de calouros (que na época vivia o auge da popularidade) para cantar: “Sertaneja se eu pudesse / se Papai do Céu me desse / o espaço pra voar / eu corria a natureza / acabava com a tristeza / só pra não te ver chorar…”.

Incluída entre os maiores sucessos de Orlando Silva, “Sertaneja” seria superada em popularidade apenas por três ou quatro canções de seu repertório, como “Carinhoso” e “Lábios Que Beijei”. Curiosamente, seu autor, o compositor, jornalista e empresário artístico, René Bittencourt, não era do sertão, tendo nascido na Ilha de Paquetá e vivido no Rio de Janeiro.

Sertaneja se eu pudesse
Se Nosso Senhor me desse
O espaço pra voar
Eu corria a natureza
Acabava com a tristeza
Só prá não te ver chorar

Na ilusão deste poema
Eu roubava um diadema
Lá do céu pra te ofertar
E onde a fonte rumoreja
Eu erguia tua igreja
Dentro dela o teu altar

Sertaneja
Porque choras quando eu canto ?
Sertaneja
Se este canto é todo teu . . . .
Sertaneja
Prá secar os teus olhinhos
Vá ouvir os passarinhos
Que cantam mais do que eu

A tristeza do seu pranto
É mais triste quando eu canto
A canção que eu te escrevi
E os teus olhos neste instante
Brilham mais que a mais brilhante
das estrelas que eu já vi.

Sertaneja vou me embora
A saudade vem agora
A alegria vem depois
——–Vou subir por essas serras
Construir lá noutras terras
Um ranchinho prá nós dois.

(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

MARCHA SOLDADO


Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo,
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional.

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 18

CAPÍTULO X

Só no dia seguinte, as 2 horas da tarde, foi que ele saiu da casa de Leonília. Sentia-se aborrecido e como que importunado por uma espécie de remorso: afigurava-se-lhe que em torno daquele seu desleixo pela vida girava um mundo de atividade dos que trabalham para comer, dos que labutam desde pela manhã.

Pungia-lhe a idéia de haver-se deixado arrastar por uma mulher, cujo amor seria para ela uma virtude, mas para ele nada menos do que uma depravação moral. Ao chegar ao centro da cidade, o movimento comercial das ruas, o vaivém das classes laboriosas, ainda mais lhe agravaram a consciência da sua inutilidade e da sua inércia.

— Por que, perguntava consigo, não pertenço ao número desses que trabalham, desses que sabem ganhar a vida?

E arrependia-se de ter ido ao Lírico, de haver oferecido de beber a Leonília, em vez de a tratar com frieza, o que afinal seria digno de sua parte. E vinham-lhe de novo os ímpetos de reação e um grande desejo de atirar-se a qualquer trabalho produtivo e honesto.

— Mas, por onde principiar? Onde e em que descobrir ocupação? Fazer-se professor? Isso, porém, era tão precário, tão maçante e tão subalterno… Empregar-se na redação de um jornal? Mas em qual? E como? A quem devia dirigir-se?

E daí não passavam as íntimas reclamações do seu caráter.

Às vezes, à mesa dos cafés, dizia ele aos companheiros:

— Homem! Vejam se me arranjam um emprego!… Eu preciso trabalhar! É preciso viver, que diabo!

Mas estas palavras caiam por terra, sem aparecer quem as erguesse. O que aparecia eram novos e novos convites para tomar alguma coisa — para jantar em companhia de mulheres suspeitas e para assistir a espetáculos bufos. O Aguiar, principalmente nunca o a abandonara com as suas franquezas de moço rico e com os seus eternos protestos de estima e admiração.

E Teobaldo topava a tudo, considerando interior mente, para se desculpar, “que não seria metido em casa que ele havia de descobrir arranjo; precisava furar, ir de um lado para outro, até achar o que desejava”.

E, visto que aceitava esses obséquios, apressava-se a retribui-los, quando porventura lhe caía de Minas algum dinheiro, sem reservar nenhum para os seus credores.

Por várias vezes, em ceias fora de horas, depois de enxutas algumas garrafinhas de Chiante e Malvasia, que eram os seus vinhos prediletos, os amigos de Teobaldo, na febre dos brindes, faziam-lhe grandes elogios ao talento e à educação; e ele, coitado ouvia tudo isso já com uma certa amargura, porque ia cada vez mais se convencendo de que lhe faltava a competência para ganhar a vida. E, quando, pelas três ou quatro da manhã conseguia chegar à casa tinha a cabeça em vertigem e o coração estrangulado por um desgosto profundo.

A casa! Que suplício para ele… Como tudo aquilo que respirava a presença do Coruja lhe exprobrava silenciosamente as suas culpas. Era aí que Teobaldo mais sentia o  peso brutal de própria nulidade; era aí, já recolhido aos lençóis, que ele considerava, um por um, todos os seus passos na vida. E excitado, cheio de revolta contra si mesmo, levava longo tempo a virar-se de um para outro lado da cama, antes de conseguir pegar no sono.

Na manhã seguinte acordava muito prostrado, sem ânimo de deixar o colchão e, ainda de olhos fechados, chamava pelo moleque. Quase sempre, em vez do Sabino, era o fiel Caetano quem acudia ao seu primeiro chamado, e, enquanto Teobaldo se preparava defronte do toucador, o pobre velho o observava com um profundo olhar de comiseração. Depois, meneava a cabeça, suspirando, e punha-se a escovar a roupa que o rapaz tinha de vestir.

Teobaldo às vezes batia-lhe carinhosamente ao ombro, dizendo:

— Como tudo isto mudou, hein, meu velho amigo?… Como tudo isto é tão diverso dos nossos bons tempos!…

O criado então levava os olhos à manga de sua velha libré, que nunca mais fora reformada depois da morte do barão e entre lágrimas falava neste para desabafar.

Teobaldo perguntava sempre a que horas saíra o Coruja.

— Às seis da manhã, respondia invariavelmente o criado.

E os dois conversavam um pouco; depois Teobaldo descia ao banheiro, que era no primeiro andar. Banho, café, vestir e leitura dos jornais nunca se liquidava antes do meio-dia. Por almoço tomava em geral dois ovos quentes, um cálice de vinho; feito o que, saia logo, sem destino, à procura de tal colocação.

No dia imediato ao em que ele esteve com Leonília, acordou mais cedo do que de costume, vestiu-se com certa presteza, foi à secretária e escreveu a seguinte carta:

“Querida — Não voltarei a ter contigo e peço-te que não dês o menor passo com o fim de fazer-me mudar de resolução, porque perderias o tempo. Aceita a insignificante lembrança que com esta te envio, e esquece-te, para sempre, do mais infeliz Teobaldo que há no mundo.”

Fechada a carta, meteu-a no bolso e saiu.

Na véspera, antes de dormir, havia deliberado o que agora punha em prática. Era preciso, era indispensável, não tornar à casa de Leonília, ainda que para isso fosse necessário que ele se fizesse mal e grosseiro. E, neste propósito, chegou à rua dos Ourives, à loja de um joalheiro, a quem vendera as jóias de Santa, escolheu uma medalha de ouro, com um pequeno brilhante no centro e perguntou quanto custava.

— Cem mil réis, respondeu o joalheiro.

— Do que tenho comigo posso apenas dispor de cinqüenta. Consente que lhe fique devendo o resto?

O dono da casa fez um ligeiro ar de hesitação, mas disse em seguida:

— Pois leve.

— Já não quero! Exclamou Teobaldo, empurrando de defronte de si o escrínio onde estava a jóia. Pode guardá-la!

— Não, doutor, leve-a! Peço-lhe que a leve!

E, por suas próprias mãos, introduziu o estojo no bolso do rapaz.

Este passou-lhe os cinqüenta mil réis e correu logo para a casa de Leonília. Entrou, bateu, entregou ao criado a carta e mais o estojo e, sem esperar pela resposta, saiu apressado.

À noite desse mesmo dia, atravessava a rua do Ouvidor, quando o Aguiar foi ao encontro dele e disse-lhe, estendendo-lhe o braço pelas costas:

— Amanhã faço anos e quero que jantes comigo. Serás o único rapaz que terei ao meu lado! Prometes ir?

— Pois bem, respondeu Teobaldo. Mas onde é o jantar?

— No Pharaoux.

— A que horas?

— Às cinco…

— Lá estarei.

No outro dia, quando Teobaldo chegou ao hotel, não lhe passou despercebido certo cupê, que estacionava à porta; mas não fez caso e subiu a escada.

— É aqui, disse-lhe um criado discretamente, mal o viu, e fê-lo entrar para um gabinete particular.

Teobaldo ficou surpreso ao dar com Leonília, que estava à cabeceira da mesa.

— Ah! Fez o Aguiar, como em resposta ao gesto do amigo, convidei esta dama para te ser agradável, sabendo que a companhia dela só poderia dar-te gosto…

— Oh! Certamente, certamente! Exclamou o filho do barão, puxando uma cadeira e assentando-se ao lado de Leonília, a quem cercou de galanteios.

— E esta outra senhora?… Perguntou ele depois, apertando a mão a uma rapariga de pouca idade, que se quedava assentada à esquerda de Leonília.

— Ah! Essa convidei para ser agradável a mim mesmo, respondeu o Aguiar, por sua vez tomando assento junto da tal rapariga.

— É uma amiga das minhas, explicou a outra, que parecia muito empenhada no jantar.

E, voltando-se diretamente para Teobaldo:

— Só desta forma conseguiríamos pilhá-lo hoje! Com efeito! O senhor faz-se agora de manto de seda!…

— É que às vezes a gente pretende dar valor às coisas, exigindo por elas muito mais do que valem…

— Bravo! Gritou Aguiar. Eis uma teoria comercial na boca de Teobaldo! Estou encantado! Não te fazia capaz de tanto!…

— Ah! Respondeu o outro, a rir; o comércio é toda a minha vocação!…

— E não digas brincando… Quem sabe se algum dia não serás meu colega no comércio?…

— Pode ser! E que todo o meu mal fosse esse!…

— Eu… Queres que te diga?… Eu, pelo menos, continuou o Aguiar, derramando Madeira nos cálices, nunca me arrependi de haver entrado para o comércio. Verdade é que nada fiz por mim e que não estaria na posição em que me acho, se não fosse meu pai, mas nem por isso sou menos feliz, verdadeiramente feliz! Que diabo! Ganhar sem sentir, às vezes sem trabalhar!… Pode haver coisa melhor? Passo semanas e semanas inteiras na pândega, gasto por vinte e, quando julgo que os negócios vão mal, diz-me o guarda-livros que ganhei mais do que nunca! Ah! Nada há como o comércio para fazer dinheiro! E hoje, deixem falar quem fala, o dinheiro é tudo! Com ele tudo se obtém: — Glórias, honras, prazeres, consideração, amor! Tudo! Tudo!

— É exato! Confirmou Teobaldo, sorrindo amargamente e no íntimo arrependido de ter aceitado o convite do Aguiar. É exato!

— Ah! Disse a rapariga, que este convidara para ser agradável a si mesmo. Quem pode negar a grande superioridade do dinheiro sobre todas as coisas?

— Eu! Acudiu Leonília, que acabava de observar os gestos de Teobaldo. Protesto contra as teorias de Aguiar e juro que o dinheiro não representa para mim a menor sedução… Gosto dele, não nego, mas nos outros, não por ele, mas pelo gostinho de o extrair gota a gota, beijo a beijo, e tanto assim que, mal o apanho, lanço-o à rua pela primeira janela que encontro aberta. Nunca depenei um ricaço por amor ao seu dinheiro, mas tão somente pelo gostinho de o deixar depenado. É uma paixão comparável à dos jogadores ricos, uma paixão de glória, uma febre de querer vencer, de querer derrotar, ainda com o sacrifício dos próprios interesses.

E erguendo o copo:

— Dinheiro! Dinheiro! Rio-me dele! O dinheiro, quanto a mim, é a mais triste recomendação que um homem pode ter! Quais seriam os milhões que valeriam, por exemplo, o amor deste demônio?

E, dizendo isto, levava as mãos ao cabelo de Teobaldo e chamava a atenção dos outros para a cabeça dele, como quem mostra um objeto de arte.

— Que dinheiro vale a doçura aveludada destes olhos mais belos que os diamantes?… Que dinheiro vale toda esta riqueza? esta boca, este sorriso desdenhoso, estes dentes, esta palidez de estátua e este ar de senhor que mata de amores as suas escravas? Sim! Que me digam as mulheres qual é o dinheiro que paga tudo isto, sem contar ainda com o que há escondido neste tesouro — O talento, o caráter, a educação e a energia!

— Olha a Leonília apaixonada! Exclamou o Aguiar rindo muito.

— E por que não? Perguntou ele a encará-lo firme. Por que não? Julgas que sou incapaz de um sentimento nobre e desinteressado?… Pois olha, filho, queres que te diga? No dia em que abandonei o meu banqueiro estava em véspera de receber das mãos dele alguma coisa que eqüivale a tanto como o que possuis, e não foi por isso que não o mandei passear, logo que entendi que o devia fazer!

— Ah! Todos sabem que tu és mulher caprichosa…

— Caprichosa, não! Sou apenas mulher! Tenho coração, tenho nervos! Quando adoro um homem, sou capaz de tudo por ele, de tudo! Compreendem? De tudo! Ainda que tivesse de quebrar todas as conveniências como quem quebra isto!

Assim dizendo, tinha arrancado do pescoço o seu colar e arremessava-o partido sobre a mesa.

Teobaldo compreendeu a intenção com que isso fora feito, e lançou sobre ela um olhar de ameaça.

— Que significa esse olhar? Perguntou a cortesã. Não o compreendo.

— Tanto melhor para mim! Disse o moço esvaziando o copo — porque não tenho a menor necessidade de ser compreendido por quem não o merece!

— Sempre o mesmo orgulho e a mesma vaidade! Replicou Leonília.

— Ah! Volveu aquele, rindo com desprezo. Estás à beira da praia e julgas-te em pleno oceano! Meu orgulho! Conhecê-lo-ás depois, se te passar pela fantasia a idéia de experimentá-lo!

— Então! Então! Reclamou o Aguiar, nós não estamos aqui para discutir questões dessa ordem. Perante a pândega somos todos iguais. Faço anos e exijo que se lembrem um pouco de mim! Ainda não me fizeram um só brinde!

Leonília soltou uma risada e disse voltando-se para o festejado:

— Desculpa, filho, mas já não me lembrava que te devo o obséquio de teres feito anos hoje.

— Não repares, acrescentou Teobaldo, batendo com o seu copo no do outro rapaz. E — Bebamos à tua saúde! — Para que nunca te arrependas de tuas teorias sobre o dinheiro!…

— Obrigado! Respondeu Aguiar, mas consente que eu te diga uma coisa com franqueza: Eu não faço anos hoje!

— Como assim?

— Perdoa-me, mais tarde o saberás!

Teobaldo olhou para o amigo, depois para Leonília e afinal sacudiu os ombros.

Já haviam comido a sobremesa e dispunham-se a tomar café, quando aquele deu por falta do Aguiar e da rapariga que este convidara para seu recreio.

— Para onde teriam ido? Perguntou ele a Leonília.

— Foram-se embora. Chega-te mais para mim e ouve o que te vou dizer.

Teobaldo obedeceu.

— Sabes? Disse da. Este jantar foi uma cilada que te armei; eu, só eu, podia fazer com que o Aguiar se achasse na intimidade em que o viste com aquela rapariga; em troca, ele empregou os meios para te arrastar até aqui.

— De sorte que eu servi de divertimento a vocês ambos?… Servi para objeto de especulação, fui negociado!

— É exato, respondeu ela, e creio que não levarás a tua birra ao ponto de me deixares aqui sozinha, em um hotel!…

— Mas por que não procederam de outro modo?

— Porque já te conheço e tenho plena certeza de que só assim havias de vir.

— E, se por gosto eu não teria vindo, para que obrigar-me então a vir à força?

— Porque antes assim do que nada. Para o amor todos os meios são bons.

— Pois saiba que errou nos seus cálculos, disse Teobaldo, indo buscar o chapéu; estou disposto a acompanhá-la até à casa, mas não subirei um só degrau de sua escada.

— Por quê?

— Porque, para fazer da senhora a minha amante — Sou pobre demais, e para ser o seu amant de coeur — Sou muito rico e muito orgulhoso.

— Eu então só posso pertencer a um homem rico?

— De certo, porque é preciso muito dinheiro para comprar o luxo com que a senhora se habituou.

— Bem, volveu ela; já não precisa vir comigo. Adeus, Só lhe peço um obséquio…

— Qual?

— Vá amanhã à minha casa depois do meio-dia

— Fazer o que?

— Buscar a resposta do que acabou de me dizer agora. Vai?

— Vou. Adeus.

Leonília saiu. meteu-se no carro e Teobaldo ainda ficou no hotel, a fumar charutos e a beber, multo enfastiado de sua vida.
–––––––-
continua…

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Varal de Trovas n 28 – Geraldo Trombin (Americana/ SP) e Clevane Pessoa (Belo Horizonte/ MG)

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José Feldman (Universo de Versos n. 94)

Uma Trova do Paraná

A. A. de ASSIS
Maringá/PR

Cumprem a Lua e as estrelas
o ofício de serem belas…
E, no entanto, para vê-las,
só o poeta abre as janelas!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Fortaleza/Ceará

OCTACÍLIO DE AZEVEDO
1892 – 1978

Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

É nos momentos tristonhos
que eu peço à minha lembrança
que traga de volta os sonhos,
no aconchego da esperança…
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo/SP

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Na noite escura, eu componho
e mal consigo enxergar…
Fecho os olhos e, no sonho,
minha noite…é de luar!
=======================
Uma Trova Humorística, de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Nesse comércio bizarro
de promoção de viés.
Ainda venderão carro
dando de brinde mais dez.
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Eu já velho, semimorto,
para me manter de pé,
fiz de Deus meu próprio porto
onde ancorei minha fé!
========================
Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos

LEONARDO HUERTA

De los soles que he mirado
ninguno me gusta más…
que el de tu verso adorado
¡lleno de amor y de paz!
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Balneário Camboriú/SC

ELIANA RUIZ JIMENEZ

É preciso uma aliança
entre o querer e o poder,
pois é só com temperança
que se alcança o bem-viver.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

J. G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Neste dia alegre e doce,
de festas, sentimental,
queria que você fosse
meu presente de Natal!
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Retrato de tua sorte
podes nisto contemplar:
todo rio, por mais forte,
encontra a morte no mar…
========================
Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ

HERMOCLYDES S. FRANCO

A maré alta devolve
plásticos e pneus,
mas não devolve a “vergonha”!
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

A aurora corou de pejo
naquele claro arrebol,
sentindo na face o beijo
da boca rubra do Sol.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

noite alta   lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Nunca vi dizer ser pobre
quem come em paz o seu pão,
quem toca sua viola
sem peso no coração
======================
Uma Décima do Nemésio

NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO
Fortaleza/CE

Solidariedade!

Oh! Deus meu, que estás no céu,
diga-me, qual o destino
desta menina (ou menino!),
que vive jogada ao léu
sem solado e sem chapéu?
Que Tu me dês, de verdade,
um pingo de caridade
pra que eu leve à esta criança
uma nesga de esperança.
Isto é: Solidariedade!
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
ă igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.
==============================
Uma Poesia de Canoas/RS

NEIDA ROCHA

Retrato de Família
(9º lugar no X Concurso Literário virArte)

Solitários,
na parede pálida,
os sorrisos perpétuos
insistem em relembrar
a alegria do momento.
Os olhares perdidos,
na lente,
revivem cada segundo
pela eternidade.
O segredo de cada coração
ficou no limbo da mudez,
enquanto a moldura
aconchega
as traças da saudade.
Hoje,
o retrato vela o sono
do semblante sereno
da maturidade.
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Caravelas

Cheguei ao meio da vida já cansado
De tanto caminhar já me perdi
Num estranho país que nunca vi,
Sou neste mundo imenso o exilado

Tanto tenho aprendido e não sei nada
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadado

Se eu sempre fui assim esse mar morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem portos
Onde velas de sonhos se rasgaram

Caravelas douradas a bailar
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar
As que lancei à vida e não voltaram, não voltaram…
=====================
Uma Poesia do Fortaleza/CE

VICENTE ALENCAR

Vida

O contorno do teu corpo
dá-me a medida maravilhosa da vida.
– E o que é a vida?
Um momento,
um beijo,
um afago.
Um corpo abraçado e amado.
A vida é um sonho
de momento,
uma chama.
Um minuto de felicidade.
A vida é um encontro
de sentimentos.
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
========================
Uma Poesia de Portugal

EUGÉNIO DE ANDRADE
(José Fontinhas)
Distrito de Castelo Branco(1923 – 2005)Porto
 

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

A Lua e Conselho

A Lua
Com receio talvez
de ser quadrada
a lua vai surgindo… devagarinho

Conselho
Fica em silêncio,
Olha e ouve. O mundo escuta
cada vez menos. Cada vez menos
os olhos vêem.
============================
Um Soneto de Piracicaba/SP

LINO VITTI

Ser Namorado !

Ser namorado! Aurora esperançosa e linda
na gôndola do sonho em lago iluminado!
Manhã sentimental que pensas santa e infinda,
Alma em festa total, coração transtornado!

Quando se esfolha o amor é a vez do namorado,
doce e divina é sempre a sua ansiosa vinda.
O amor primeiro é egoísta, indomável, sagrado,
fogo eterno que nunca arrefece ou se finda.

Ser namorado! Oh! céus que maravilha imensa
Que futuro, que glória – o namorado pensa!
Viver a dois, cantando um hino de amorzinho!

Mas cuidado, os que andais em busca desse sonho
pois o amor, como flor, que se abre ao sol risonho,
é efêmero e fugaz, é encanto, é vida…é espinho!
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Discórdia e perversidade
já vêm do tempo de Adão,
quando Caim, por inveja,
tirou a vida do irmão;
apesar disso, acredito
que um futuro mais bonito
inda nos estende a mão.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

ELISABETH DOS SANTOS COLUMA
Los Angeles/EUA

Ia Escrever um Poema
 Ia escrever um poema
Mas foi ele quem me escreveu.
Foi só olhar pela janela,
Pra colorir o papel.
E pintar a lua de verde,
Pensando que era folhagem
E imitar o farfalhar dela
Com um sopro bem suave
Lá no canto do meu quarto…
Pra ninguém pensar que escrevo
Sem papel e sem pincel.
Foi o poema que me escreveu.
E que me fez assim desse jeito.
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Nova Friburgo/RJ

ANTONIO ROSALVO R. ACCIOLY

A Costureira

Cansei de discursos humanos
prefiro escutar minha máquina
costurando meus panos.

A geografia dos bordados
não me causa danos
e no tempo que me resta
vou costurando meus planos.

Pela quadra da janela
chove uma chuva verde
e um bem-te-vi grita
de cima duma palmeira.

Hoje é dia de remendos
ontem preguei mil botões
tem vezes que a vista embaça
o tempo escurece
e eu fico observando
na quietude branca da parede
uma velha aranha
no labor paciente da sua teia.
E tanto quanto meus bordados
hoje a vida já não
me causa danos.

(5o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Poema Livre)
=====================
Um Poetrix de Curitiba/PR

MARILDA CONFORTIN
A outra
hoje, uva
amanhã, passa
Eu, vinha.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Estrambote Melancólico

Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.
========================
UniVersos Melodicos

Sílvio Caldas e Orestes Barbosa
SUBURBANA
(valsa-canção, 1939)

Olhando o céu me demoro
Num verso triste é que choro
Ninguém vê o pranto meu
Há muita lágrima triste
Que em seu sorriso consiste
Como o poeta escreveu

Minha linda suburbana
Por trás da veneziana
Vem sorrir nesta canção
Com teus lábios de doçuras
Que são tâmaras maduras
Da flora do coração

Zona norte da cidade
Residência da saudade
Onde nasceu o teu cantor
No teu cantor comovido
Que sonha com teu vestido
Que morre por teu amor

Olho as estrelas cansadas
Que são lágrimas doiradas
No lenço azul do céu
Estrelas são reticências
Estrelas são confidências
Do meu romance e do teu
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

EU FUI NO TORORÓ

Eu fui no Tororó beber água e não achei,
Achei bela morena, que no Tororó deixei
Aproveite, minha gente, que uma noite não é nada
Se não dormir agora, dormirá de madrugada

Oh, Dona Maria, oh, Mariazinha
Entrará na roda e ficará sozinha
– Sozinha eu não fico, nem hei de ficar
Porque tenho Chico para ser meu par

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 17

CAPÍTULO IX

Passadas as primeiras épocas depois da morte dos pais de Teobaldo, o verdadeiro temperamento deste, aquele temperamento herdado do velho cavalheiro português paraense, aquele temperamento mestiço agravado por uma educação de mimos e liberdades sem limites, começou a ressurgir como o sol depois de uma tempestade. Reapareceu-lhe o gênio alegre e petulante e com este voltaram também as suas propensões, os seus gostos, os seus hábitos e as suas amantes; só as antigas posses é que não voltaram.

A princípio, acordando pouco a pouco do desânimo em que caíra parecia resolvido a vencer, fosse como fosse, todos os obstáculos que se lhe antolhassem no caminho; dizia-se disposto a tudo suportar com energia; disposto a passar por cima dos maus modos e da impertinência dos ricos até galgar uma posição social. E já o inconsolável Caetano ouvia-o cantarolar ao descer de manhã para o banheiro, já procurava sorrir às suas pilhérias quando ele servia o almoço e já o via aprontar-se alegremente para sair, acender o charuto e ganhar a rua, muito ativo, em busca de um emprego. Mas Teobaldo, ao dobrar a primeira esquina, encontrava logo um conhecido dos bons tempos e, sem poder evitá-lo e sem coragem para lhe expor francamente a sua posição, fingia-se feliz e falava dos seus extintos prazeres como se ainda os desfrutasse.

O amigo convidava-o a beber, depois iam jantar a um hotel, depois metiamse no teatro, e afinal Teobaldo só voltava para casa às duas horas da manhã, arrependido daquele dia e fazendo protestos de regeneração para o dia seguinte. Mas no dia seguinte, quando dava por si, estava já em qualquer confeitaria, a beber, a conversar com os amigos, sem mais pensar nos seus protestos da véspera. E assim se foi habituando a essa fictícia existência, que no Rio de Janeiro levam muitos rapazes: entrada franca nos teatros, contas abertas em toda a parte, um amigo em cada canto e um credor a cada passo. Devia ao alfaiate, devia ao chapeleiro, ao sapateiro, ao hotel, mas andava sempre com a mesma elegância e bebia dos mesmos vinhos.

— Que diabo! As coisas haviam de endireitar, e ele então pagaria tudo!

De vez em quando recebia algum dinheiro de antigos devedores de seu pai; nessas ocasiões gastava como se ainda fosse rico; não porque não compreendesse o mal que fazia, mas por uma fatalidade de seu temperamento e de sua educação. Em uma dessas vezes, acabava ele de assentar-se à mesa do botequim do teatro lírico, quando sentiu baterem-lhe de leve com um leque nas costas. Voltou-se e viu Leonília defronte dele. Ela havia chegado da Europa dois ou três dias antes; fora passear em companhia de um banqueiro rico e voltara carregada de jóias e dinheiro. E só, livre; o banqueiro, depois de insistir em querer dete-la na Itália, ameaçou-a com uma separação, mas no dia seguinte, em vez da amante, encontrou sobre a cama este bilhete: “Meu caro banqueiro, a uma mulher de minha ordem, nunca se deve ameaçar com o abandono — Abandona-se logo, para não suceder como lhe acontece agora. — Fujo! Adeus, até outra vez!”

Tudo isso ela contou a Teobaldo em menos de três minutos, assentando-se defronte dele. Estava agora mais bonita e incontestavelmente mais elegante. Vestia-se cor de cana, tinha os ombros e os braços nus, a cabeça constelada de diamantes.

— Tomas alguma coisa? Perguntou-lhe o rapaz.

— Um gole de champanha.

Teobaldo pediu uma garrafa, e os dois antigos amantes continuaram a conversar, sem que durante toda a palestra se tocasse, nem de leve, no atual estado de pobreza a que se via aquele reduzido.

— Naturalmente ela ignora tudo… pensou ele. Afinal vieram de parte a parte as recordações; lembraram-se as cenas de ciúme, as tolices que os dois fizeram por tanto tempo.

— Recordas-te ainda aquela ceia que engendramos em casa do teu cocheiro? Perguntou Leonília, rindo.

— Quando voltávamos de um passeio à Cascatinha?… Reforçou ele; não, não me lembro, nem devo lembrar-me.

— E daquele baile carnavalesco, em que me obrigaste fingir um ataque de nervos por causa do velho Moscoso?…

— Bom tempo aquele!… Resmungou Teobaldo, ferrando o olhar no chão e tornando-se triste. Ah! Bom tempo!…

— Queres saber de urna coisa?… Segredou-lhe a moça, erguendo-se; vamos fugir para casa; tenho lá um marreco assado. Vai ao camarote buscar a minha capa, n. 8. primeira ordem.

Teobaldo quis recusar-se e confessar com franqueza a sua posição; mas, ou porque lhe faltasse a coragem para isso, ou porque aqueles ombros e aqueles braços lhe trouxessem irresistíveis lembranças. ou porque Leonília se mostrava tão empenhada em levá-lo consigo para casa ou porque os olhos dela o prendiam com tanto desejo e acordavam nele adormecidas paixões, ou porque depois de algumas taças de champanha ninguém resiste a uma mulher formosa, o fato é que o rapaz não o se deteve um segundo e correu ao camarote.

Ela, ao vê-lo tornar à mesa, entregou-lhe os ombros, e Teobaldo envolveu-a na capa, uma grande capa alvadia e orlada de arminhos; em seguida pagou a garrafa e conduziu a bela mulher para um cupê que a esperava à porta do teatro. Seriam onze e meia da noite quando chegavam os dois à casa dela. Veio recebe-los um criado inglês, que os fez entrar para uma pequena sala, caprichosamente mobiliada.

— Espera um pouco por mim, disse Leonília ao rapaz, fugindo para o interior da casa.

Teobaldo atirou-se em um divã e pôs-se a fazer íntimas considerações sobre o ato que acabava de praticar:

— Não seria uma baixeza de sua parte, interrogou a si mesmo, conservar aquela mulher no engano em que se achava a respeito dele?… Porventura seria possível deixar-se ficar ali nas circunstâncias precárias em que ele se via, sem com isso humilhar-se aos seus próprios olhos?… Poderia acaso sustentar aquelas relações no mesmo pé de superioridade em que as mantinha dantes?… E, uma vez que aceitasse qualquer concessão da parte daquela mulher, uma vez que não tivesse como qualquer de corresponder a peso de ouro com o amor que ela lhe dava, não ficaria ele obrigado a respeitá-la com a submissão de um obsequiado; não ficaria ele devendo em gratidão, em finezas e em considerações aquilo que não pudesse pagar a dinheiro?…

— Sim! Deliberou Teobaldo, nem por forma alguma devo iludir me a este respeito! Não posso ficar!

E, afastando do pensamento toda a idéia de hesitação, procurado arrancar da memória a imagem daqueles ombros e daqueles braços nus, ergueu-se resolutamente, tirou um cartão o do bolso e ia a escrever algumas palavras, com a intenção de retirar-se depois, quando se abriu uma porta, que comunicava com o interior da casa, e Leonília reapareceu já em trajes domésticos: um belo penteador de renda, os cabelos a meio despenteados e os pés em chinelas turcas.

Teobaldo suspendeu o seu movimento, franzindo ligeiramente o sobrolho.

— Que é isso? Perguntou ela. Ias escrever?…

— Sim, a tua presença poupa-me esse trabalho. Senta-te aqui comigo e ouve com atenção o que te vou dizer.

Leonília, com um gesto que a tornava mais engraçada, deixou-se cair ao lado dele no divã.

— Sabes? Eu não posso cear contigo e é natural que não volte à tua casa.

— Por quê?

— Porque tenho sérios motivos que mo impedem. Mais tarde sem que seja necessária a minha intervenção, hás de saber de tudo. É só esperar mais alguns dias.

— Não preciso esperar! Já sei: é porque estás pobre…

Teobaldo fez-se vermelho, como que se aquela última palavra fosse uma bofetada. Ergueu-se, sem dizer palavra, tomou o chapéu e estendeu a mão à rapariga:

— Adeus.

Ela, em vez de apertar-lhe a mão, passou-lhe os braços em volta do pescoço e alongou os lábios suplicando um beijo em silêncio.

E depois, em resposta a uma nova menção de Teobaldo:

— É inútil tentar sair, porque as portas estão fechadas… Dei ordem para que não as abrissem a ninguém.

O rapaz fez um gesto de contrariedade e disse, tornando-se sério:

— Creio que terás bastante espírito para não me colocares em uma posição ridícula…

— Ridículo serias tu se me abandonasses agora…

— Paciência. Dos males o menor!…

— Mas, nesse caso, ao menos ceia comigo. O fato de estares pobre não te desobriga dos teus deveres de cavalheiro. Serias o mais incivil dos homens se me obrigasse a ir sozinha para a mesa.

Ele respondeu largando o chapéu e o sobretudo, que tinha ido tomar.

— Ainda bem! Disse Leonília. Passemos para a sala de jantar.

E acrescentou, puxando-o pelo braço:

— Entra por aqui mesmo.

Os dois atravessaram uma pequena antecâmara, depois uma grande alcova, que Teobaldo considerou de relance, e afinal, tendo ainda atravessado um quarto de toucador, acharam-se na sala de jantar.

— Estamos completamente a sós, observou a rapariga, mostrando a ceia já servida; dei ordem ao copeiro que se recolhesse, e disse à criada que podia dormir à vontade.

— Está bom…

— Temos tudo à mão. Não precisamos de ninguém.

E, assentando-se ao lado de Teobaldo:

— Sabes? A primeira pessoa de quem pedi notícias, ao chegar aqui, foste tu…

— Muito obrigado.

 — Oh! Não calculas o prazer que tive quando me disseram que estavas totalmente arruinado!

— É bondade tua!

— E, olha, se não fosse isso, eu talvez não tivesse te prendido hoje.

— Orgulho! Compreende-se.

— E é exato. Nós, mulheres, quando gostamos deveras de um homem, sentimos dessa espécie de orgulho.

— Caprichos do amor… Queres uma fatia de presunto?

— Aceito. Vocês, homens, são os bichos mais pretensiosos que o céu cobre. Querem ter sobre as pobres das mulheres todas as superioridades!… Enquanto nós nos sentimos felizes em depender do homem que amamos, vocês, vaidosos, sentem-se humilhados em dar ternura em troca de ternura que lhe damos. Súcia de egoístas!

— Não, filha, isso depende também da qualidade da mulher.

— Que gentileza!

— Pois não! Há certas mulheres, cuja ternura não é lícito pagar só com ternura…

— Não. O amor só com o amor se paga! Passa a mostarda.

— Oh! Mas é que há tanta espécie de amor…

— Protesto! O amor, o verdadeiro amor, e um só, insolúvel e eterno! E por ele tudo se explica e tudo se perdoa! É preciso não enxovalhar esse nome sagrado emprestando-o a outro qualquer sentimento; eu quando te falo em amor, não me refiro ao amor fingido… Toma um pouco de Borgonha.

— Sim, mas também há mulheres, das quais seria tolice esperar o tal amor genuíno de que falas…

— Ora, dize-me uma coisa, Teobaldo; quantas espécies de mulheres conheces tu?

— Eu? Duas.

— Quais são elas?

— A mulher virtuosa e a mulher que não é virtuosa.

— Só?

— Só.

— Ora bem, dize-me ainda: que diabo entendes tu pela tal mulher virtuosa?

— A mulher casta.

— E pela outra entendes naturalmente a que não é casta. Para aquela tens tudo que há de bom em ti — o respeito, o amor, a confiança; e para esta, guardas o contrário de tudo isso: — desconfias dela, não a estimas sinceramente e não lhe dedicas a menor consideração, porque a infeliz nada te merece!

— Não é uma lei criada por mim…

— Bem sei, e nem tenho a pretensão de destruí-la com as minhas palavras; apenas quero provar-te que vocês, homens, no juízo que formam das mulheres, são os entes mais injustos e mais tolos que se pode imaginar!

— Vamos ver isso.

— Quero provar-te que esse desprezo a que condenam a mulher perdida é nada menos do que a condenação de todas as mulheres em geral.

— Como assim?

— Vou ver se me explico. Toda a mulher é capaz ser honesta ou deixar de ser, conforme as circunstâncias que determinam a sua vida; não é exato? Todas elas estão sujeitas às mesmas leis fisiológicas e aos mesmos irreparáveis descuidos, pelos quais, confessemos, são sempre as responsáveis e dos quais muito raras vezes tem a culpa. Apenas acontece que umas são espertas e outras são eternamente ingênuas. Daí a divisão da mulher em duas ordens — a mulher maliciosa e a mulher simples; pois bem, em casos de sedução — a maliciosa resiste, a inocente sucumbe. Não achas que é muito mais fácil perder uma menina verdadeiramente ingênua do que uma outra que não o seja?

— Sim, mas isso nada prova.

— Bem. Admitindo que é mais difícil seduzir a mulher velhaca do que a mulher inocente; e visto que a classe das perdidas compõe-se em geral destas últimas, segue-se que toda a mulher é má, umas por natureza e outras à força de circunstâncias; dai a condenação de todas elas!

— Isso é uma filosofia muito apaixonada!.

— Não, é simplesmente verdadeira. Ora, dize-me se, em vez de me teres agora ao teu lado, tivesses uma rapariga de minha idade, casada aí com qualquer sujeito e mãe de um pequeno que ela tivesse ao colo e de mais três que lhe subissem pelas pernas; dize-me, que impressão te produziria no espírito essa mulher?

— Uma impressão toda de respeito e acatamento.

— Pois bem; agora imagina tu por outro lado que essa mesma rapariga, antes de conhecer o homem que havia de casar com ela, era uma criatura inocente ao ponto de ignorar o valor da própria virgindade, e crédula ao ponto de não supor o seu noivo capaz de a enganar; imagina ainda que esse noivo é nada menos do que um sedutor; imagina que ele a abandona depois de desvirtuá-la e que à infeliz se fecham, como é de costume, todas as portas, menos, está claro, a de um sujeito que se propõe substituir o primeiro, não com o casamento, que vocês são incapazes disso, mas substitui-lo amancebando-se com ela…

— Bem.

— Pois, feito isto, meu amigo, está feita a grande viagem de perdição, porque depois desses dois degraus é só escorregar, e escorregar fatalmente, sem esperança de apoio. Se do primeiro ao segundo amante mediou um ano, do segundo ao terceiro vai só um mês, do terceiro ao quarto uma semana, e os outros contam-se pelos dias e afinal pelas horas. E agora, imagina tu, meu orgulhoso, que, em vez de mim, tivesses a teu lado uma dessas desgraçadas que tem amantes por hora, uma dessas mártires que, por inocência e por credulidade, se deixaram arrastar à última degradação; imagina essa mulher ao teu lado e dize-me depois que sentimentos ela te inspiraria.

— O da compaixão; está claro.

— O da compaixão! Mas que espécie de compaixão é essa, que só se veste de desprezo e desdém?… Para os entes que nos inspiram compaixão entendo que deve haver palavras consoladoras e cheias de caridade, deve haver ternura e carinhos e não o abandono e a maldição!

— Mas… Ia a dizer Teobaldo.

— Espera. Disseste ainda há pouco que só conheces duas espécies de mulheres E declaraste que uma te inspira respeito e outra compaixão; pois quero saber agora a qual dessas duas espécies pertenço eu.

— Ora, que exigência de mau gosto!… Voltaste do passeio à Europa com uma dialética bem esquisita!…

— Não! Responde!

— Mas, filha, não há que saber… Pertences à segunda espécie…

— E assim é… disse Leonília, meneando a cabeça. Todos nós merecemos ou devemos merecer compaixão. Ontem a inocência e a perseguição; hoje a vergonha e o desprezo; amanhã a miséria e talvez o hospital!

— Para que pensar nisso, observou Teobaldo, já aborrecido com as palavras da rapariga. Mudemos de assunto.

— Causo-te lástima, não é verdade? Dize-me com franqueza!

— É.

— E sabes, meu adorado, qual é o único meio de socorrer uma mulher que nos causa compaixão?

— Qual é?

— Amando-a.

— Oh!

— Não te sentes capaz de tanto?

— Não.

— Nem se eu para isso empregar todos os meios?… Se eu me fizer tua escrava, tua amiga e tua amante, só tua?

— Impossível.

— E se nisso estiver empenhada a minha vida, a minha felicidade e talvez a minha reabilitação?

— Paciência!

— É a tua última palavra!

— E peço-te licença para sair.

— Não dou.

— Mas é preciso.

— Não quero. Aqui mando eu!

Teobaldo experimentou as portas; estavam todas fechadas por fora.

— É então uma violência? Perguntou ele, afetando bom humor.

— É, respondeu a cortesã.

E, tornando a direção da alcova, acrescentou com um sorriso:

— Vem.
–––––––––––––––
continua…

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Varal de Trovas n 27 – Alberto Paco (Maringá/PR) e Ademar Macedo (Natal/RN)

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José Feldman (Universo de Versos n. 93)


Uma Trova do Paraná

MARIA ELIANA PALMA – Maringá/PR

O verde em brasa estalando;
uivos doridos da mata:
gritos horrendos compondo
uma fúnebre sonata!
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAUJO

Ganhei a Felicidade                       
dividindo a minha herança:
– dei o Passado à Saudade,
– dei o Futuro à Esperança!     
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Eu, na vida, sou barqueiro
dos meus sonhos sem destino:
sonho bom é o passageiro,
sonho mau é o clandestino.
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Porto Alegre/RS

DELCY CANALLES

Quero luz de intenso brilho
Para aclarar as estradas,
Por onde passar meu filho,
Ao longo das madrugadas!
=======================
Uma Trova Humorística, de Cantagalo/RJ

RUTH FARAH NACIF LUTTERBACK

Tive um trabalho danado
com a vaca, hoje cedinho:
não deu leite empacotado
nem quis sentar no banquinho…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 

Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Eu, num desejo medonho,
quis tê-la, mas nunca pude…
Transformar desejo em sonho,
foi minha grande virtude!
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

LIBIA BEATRIZ CARCIOFETTI

Mientras florece un pimpollo
una rosa está muriendo,
su identidad no es escollo
aroma sigue esparciendo.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de São José dos Campos/SP

GLORIA MARSON

Não maltrate o coração:
você muito vai sofrer…
temperança na paixão
faz a gente emudecer.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ALICE ALVES NUNES
Rio de Janeiro/RJ (1896 – ????)

Que toda pedra que rola
não cria limo, é verdade.
Toda alma que a dor imola
perde o limo da maldade.
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Ao raiar da madrugada
eu vi o sol desenhar
uma lagoa dourada
na superfície do mar.
========================
Um Haicai de Belo Horizonte/MG

ANGELA TOGEIRO FERREIRA

O vento na rosa
Rouba-lhe o belo e o perfume,
ao tirar-lhe as pétalas.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

Se o bem não podes fazer,
o mal não faças também,
que o bem já faz sem saber,
quem não faz mal a ninguém.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

With the man

aqui
no oeste
todo homem tem um preço
uma cabeça a prêmio
índio bom é índio morto
sem emprego
referência
ou endereço
tenho toda a liberdade
pra traçar meu enredo

nasci
numa cidade pequena
cheia de buracos de balas
porres de uísque
grandes como o grand cayon
tiroteios noturnos
entre pistoleiros brilhantes
como o ouro da califórnia
me segue uma estrela
no peito do xerife de denver
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

As penas em que hoje estou,
disse-as ao Sol, – fez-se triste.
Disse-as à noite – chorou.
Disse-as a ti, e sorriste…
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
— E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
— E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Depois do Sol…

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério …

Tudo imóvel … Serenidades …
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho …
Velhas, velhas … Nem vivem mais …
As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho …

Seres e coisas vão-se embora …
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora
Pelos silêncios a sonhar …
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Filosofia

Lutar? Para quê?
De que vive a rosa? Em que
pensa? Faz o quê?
==============================
Uma Poesia, da Paraíba

R. C. LIMA

Preservação

Tudo estava preservado,
cada cor no mesmo tom.
O mesmo jarro quebrado,
o mesmo sofá marrom.
Mesmo tapete vermelho,
e aquele adeus no espelho
que ela “escreveu” com batom.
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Noite de Saudade

A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu ouço a noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
=====================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

GILSON FAUSTINO MAIA

Glosa sobre Mote de Ademar Macedo/RN

MOTE:

Mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.

GLOSA:

Eu busco a paz e a alegria
desde que o dia amanhece.
Após fazer uma prece,
mastigo um pão todo dia.
Rimo amor com harmonia
e evito o mundo perverso.
Só quero a luz do universo
e ofereço aos meus leitores
um prato cheio de amores
amanteigado de verso.
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

No dia de S. João
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
========================
Uma Poesia de Sintra/Portugal

ANTÓNIO CASTELBRANCO
 (António Manuel Mateus Castel-Branco Ribeiro)

A Outra Face

Esquece o teu passado, olha o presente,
instante que não mais consegues ter,
fugaz na transição do tempo ser,
futuro que se anseia e não se sente.

As lágrimas toldando a tua mente,
memórias agarradas de sofrer,
com agulhas de sangue vais coser
as mágoas desse tempo já ausente.

Da dor assim liberta, podes ver
quão rica te tornaste no viver,
quão forte transformaste a tua vida.

Nessa doce lembrança doutro amor,
anseias novamente por penhor…
com minh’alma não mais serás ferida.
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

A Flor

Entre os escombros
da última bomba atômica,

um dia, silenciosamente,
( e quem estará presente
para assistir ao milagre?)

nascerá outra flor.

A flor
desabrochará na fronte
cintila nos olhos,
estremece e se agita nas mãos,
se despetala em palavras
na boca.

Mas suas raízes, ah, suas raízes!
continuam enterradas no coração.
============================
Um Soneto de Alegrete/RS

MARIO QUINTANA

A Rua dos Cataventos

Dorme, ruazinha… E tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos.

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Devemos dar à criança
amor intenso e profundo,
sem negar-lhe a proteção
e o carinho, um só segundo,
além de crença e saber,
porquanto ela vai crescer
e um dia governa o mundo.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

NICANOR PARRA SANDOVAL
San Fabián de Alico/Chile (1914)

Cartas a uma desconhecida

 Quando passarem os anos, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou,
Um ser que se deteve um instante diante dos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos?
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Nova Friburgo/RJ

THEREZINHA TAVARES


(4o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Poema Livre)

O Dia, de Cada Dia

Ao alvorecer
um galo canta
no galinheiro,
tudo se agita
desperta o terreiro
é um novo dia, um renascer

na roça, na horta
ainda orvalhada
o trabalho espera.
Na casa agora
há fumaça então, na chaminé,
na cozinha animação:
leite fresquinho
broa, bolinho, a mesa farta…
o cheiro bom, de um bom café.

Muitas conversas
histórias diversas,
semear, plantar, colher
debulhar, vender!…
Suor em bica
mãos calejadas costas magoadas,
tantas tarefas inacabadas.
O almoço já foi.

O tempo corre
o dia escorre.
Hora de recolher
é a volta para casa,
no entardecer!…
=====================
Um Poetrix do Rio de Janeiro

JACQUES LEVIN

eu existo
CPF, RG, INSS,
IPTU, CPMF, IPVA,
RL, ISBN, DNA.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Eu, Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
========================
UniVersos Melodicos

Jorge Faraj e Newton Teixeira
DEUSA DA MINHA RUA
(valsa, 1939)

Na segunda metade dos anos trinta, o sucesso dos cantores românticos Orlando Silva, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo – os chamados quatro grandes – estimulou o surgimento da maior safra de canções de amor de nossa música popular.

Composta a maioria na forma ternária, essas canções são a versão moderna da modinha tradicional. Um dos melhores frutos dessa safra é a valsa “Deusa da Minha Rua”. Além de uma bela melodia de Newton Teixeira, a composição tem letra excepcional de Jorge Faraj.

Poeta dos amores impossíveis, em que a mulher é sempre adorada à distância, ignorando ser objeto de uma paixão, Faraj realiza sua melhor letra nesta valsa. Depois de descrever o contraste entre a beleza da musa e a pobreza da rua, ele estabelece um poético jogo de imagens, comparando a poça d’água, que “transporta o céu para o chão”, a seus próprios olhos, “espelhos de sua mágoa”, que sonham com o olhar da mulher inatingível.

Mas essa obra-prima do romantismo que imperava na música da época deu trabalho para chegar ao disco, permanecendo inédita por três anos. Primeiro Faraj não aprovou a melodia, obrigando Newton Teixeira a refazê-la.

Depois foi Sílvio Caldas que, escolhido para interpretá-la, mostrou-se desinteressado, achando sempre uma desculpa para adiar a gravação. “Até que um dia – contou Newton ao pesquisador Lauro Gomes de Araújo – perdendo a paciência, tive que tirar o Sílvio de uma roda no Nice e praticamente arrastá-lo ao estúdio”. Mas o importante é que o disco foi um sucesso, com ótima interpretação do cantor.
A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar

Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz 
A ruazinha modesta
É uma paisagem de festa
É uma cascata de luz

Na rua uma poça d’água
Espelho da minha mágoa
Transporta o céu    
Para o chão
Tal qual o chão de minha vida
Minh’alma comovida 
O meu pobre coração

Infeliz da minha mágoa
Meus olhos
São poças d’água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu
E ela é nobre 
Não vale a pena sonhar . . .

(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

SAPO CURURU

Sapo Cururu
Na beira do rio
Quando o sapo canta, oh maninha
É porque tem frio

A mulher do sapo
Dve estar tá lá dentro
Fazendo rendinha, oh maninha
Para o casamento.

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Varal de Trovas n 26 – Wilma Mello Cavalheiro (Pelotas/ RS) e Luiza Pontes Rosa (Curitiba/ PR)

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Carlos Lúcio Gontijo (Literariamente, a vida!)

Libreria Fogolla Pisa
Ando meio cansado, desgastado pelo tempo que a tudo leva e consome. Incomoda-me a ignorância, sempre atrevida e agressora. Para descansar, desejo uma esteira de vime, feita com fibras de versos do poeta Bueno de Rivera, mineiro de Santo Antônio do Monte.

Neste instante, ser-me-ia exponencial contar com um horizonte banhado na luz da sensualidade dos temas de Vinícius de Moraes. De bom alvitre, consolar-me-ia a aplicação de providencial argamassa nas paredes, pintadas com as cores da rica prosa brejeira de Guimarães Rosa.

As janelas da minha casa podem ser em madeira de lei, ao mesmo tempo rija e suave, como texto de Machado de Assis. A porta descorada deve ser repintada com leves tons de voo, ao sabor de palavras de Clarice Lispector, magicamente misturadas à metafórica tinta pé no chão de Cecília Meireles.

Vir-me-ia a calhar um teto na cor alinhavada no verdor de montanha, ao feitio de versos tecidos por Carlos Drummond de Andrade, para que eu possa rolar morro abaixo as pedras que atravancarem o caminho de liberdade dos meus sonhos, nos quais me cabe mergulhar de corpo inteiro e pessoalmente, sem os heterônimos de Fernando Pessoa.

Para dar-me segurança, ergam muros em formato de ponte – segundo a natureza humana coletada pelo olhar escafandrista de Sigmund Freud, sob cuja lente reveladora nos é permitido assistir ao eclodir tanto de homens de abraço e afago quanto de seres humanos de desabraço e punhal nas mãos –, utilizando a engenharia filosófica de Dostoievsky e Tolstói, com majestosa vista voltada para o som do mestre Cartola, ensinando-nos os moinhos deste mundo, que é povoado de jardins repletos de Vênus de Milo, onde em tudo falta um pedaço, em meio a rostos perdidos nos espinhos de gigantescos cactos, tornando realidade a arte de Tarsila do Amaral, estendida no varal de nossos corpos, à espera de um verso concreto e lapidar de Ferreira Gullar, a descrever o apagar da chama da vida de cada um de nós.

Fonte:
O Autor

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Thalma Tavares (O Trovador e a Trova)

           

O objetivo neste pequeno ensaio, que dedico aos novos irmãos Trovadores, não é tanto dizer trovas, quanto falar da Trova e daquele que a faz. 

            Se fôssemos buscar nos tratados a definição da palavra TROVADOR, certamente eles nos levariam de volta à Idade Média onde a figura daquele cavalheiro medieval pouco tem a haver com este cidadão de hoje, tão comum quanto qualquer de nós, mas que possui o dom poético de fazer Trovas. Daquele medieval cavalheiro, o Trovador de hoje herdou mais o nome do que o status e a condição. Ao nome acrescentou o seu talento pessoal, a sua capacidade criadora. Mas o seu relacionamento com a Trova, diferentemente daquele, não se resume apenas ao ato de compô-las e dizê-las publicamente. Os Trovadores de agora pensam, sentem e amam ao compasso da Trova. E quem nos confirma isto é LUIZ OTÁVIO quando nos diz:

            “Tirem-me tudo o que tenho,
            neguem-me todo o valor!…
            Numa glória só me empenho:
            – a de humilde Trovador!”

            Mas CAROLINA RAMOS também confirma nossa opinião com esta linda Trova:

             “Trovador, quando padece
            ao enfrentar duras provas,
            guarda a angústia numa prece
            e reza… fazendo Trovas.”

             No limite dos quatro versos de uma Trova, os Trovadores empreendem viagens maravilhosas ao nosso desconhecido mundo interior e a todos os imagináveis mundos da fantasia humana. Faz da Trova uma profissão de fé, um eloqüente atestado de suas crenças, de suas convicções, assim como faz SARA MARIANY KANTER nesta Trova:

            “Por ser poeta acredito
            em dias menos sombrios;
            Meu sonho, quase infinito,
            cabe em meus bolsos vazios.”

            Enquanto lá fora os poderosos se digladiam semeando a descrença, a violência, o ódio e o ceticismo no coração das criaturas, os Trovadores seguem destilando amor, acreditando no semelhante, sonhando e colocando o coração bem acima das torpezas humanas. E neste contexto insere-se perfeitamente esta Trova de nosso irmão da UBT-Belém do Pará, ANTÔNIO JURACY SIQUEIRA:

            “Canta Trovador! Teu canto
            alvissareiro e fecundo
            é uma canção de acalanto
ninando as mágoas do mundo!”

De fato, “ninar as mágoas do mundo” é atributo sublime e só poderia ser dado aos poetas. E assim dizendo, o autor os elege consoladores das queixas universais. Mas, para reforçar a idéia de Antônio Juracy, temos esta outra Trova de LUIZ OTÁVIO:

“Bendigo a Deus ter me dado
a sorte de Trovador.
Pois o mal quando é cantado,
diminui o seu rigor…”

Para o bom Trovador, em termos de criatividade, a Trova é sempre uma expectativa do inusitado e ele, Trovador, o intérprete das esperanças da humanidade, o paladino do amor, da paz, da justiça e da fraternidade. É também, quando necessário, o crítico, o cronista do cotidiano, o  humorista  alegre  e  refinado,  o  observador  arguto. E  trovas  existem  aos  milhares que nos mostram toda essa gama de virtudes. São incontáveis e passaríamos aqui um tempo enorme dizendo apenas diminuta parcela de um todo difícil de registrar. Nos limitaremos, pois, a dar apenas uma ligeira mostra do gênio dessa estirpe iluminada chamada TROVADORES. 

            Iniciaremos a mostra com uma observação triste de ABGAIL RIZZINI, nesta sua Trova do tema Esperança:

            “Olhar triste é o da criança
            que olha a vitrina, e em segredo,
            chora a morte da esperança
            ante o preço de um brinquedo!”

             Uma Trova de infância na saudade de NEY DAMASCENO:

             “Num velocípede antigo
            que tem quase a minha idade,
            passeia a infância comigo
            pelas ruas da saudade”

             Um alerta de CÉLIO GRUNEVALD nesta Trova do tema Justiça:

             “Quando a Justiça nos choca
            e a verdade é inconsistente,
            há sempre um sino que toca
            na consciência da gente…”

            Uma exaltação à Liberdade nesta vibrante Trova de WALDIR NEVES:

            “A glória dos homens brilha
            com fulgor de eternidade,
            toda vez que uma Bastilha
            tomba aos pés da Liberdade!”

            Uma dissertação sobre o amor e a morte nesta Trova de CLEÓMENES CAMPOS:

             “O amor e a morte, a rigor,
            são faces da mesma sorte:
            no fim da palavra amor
            começa a palavra morte!”

             Eis aqui uma Trova onde a ambigüidade de sentidos, inteligentemente arquitetada por CLÓVIS MAIA, enriquece o gênero humorístico:

             “Quando a Dinha está acamada
            eu agradeço à vizinha
            que passa a noite acordada
            e faz tudo pela Dinha…”

             Uma Trova em que o saudoso JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAUJO evoca, lírica e tristemente, a lembrança materna e se confessa publicamente:

             “Minha mãe chorou mais pranto
            que a mãe de Nosso Senhor.
            A Virgem chorou um Santo;
            Minha mãe – um pecador!”

    Uma constatação do mais puro lirismo nesta Trova de despedida de JOUBERT DE ARAUJO SILVA:

            “De  todas as despedidas,
            esta é a mais triste, suponho:
            – duas almas comovidas
            chorando a morte de um sonho!”

             Outra Trova de despedida na inteligente e fatalista conclusão do saudoso CARLOS GUIMARÃES:

             “De despedidas, apenas,
            compõe-se, afinal, a vida:
            – mil despedidas pequenas
            e uma Grande despedida!”

             O Trovador DIAS MONTEIRO, extasiado ante a beleza noturna do firmamento, nos faz uma ousada afirmação poética nesta Trova repleta de lirismo:

             “Duvidar ninguém se atreve,
            de que as estrelas que eu fito
            são Trovas que Deus escreve
            no livro azul do Infinito!…”

             E, por fim, do tema Tempestade, uma Trova em que CIPRIANO FERREIRA GOMES nos mostra o seu poder de criatividade na beleza desta comparação inusitada a qual se dá o nome de “ACHADO”:

             “Tempestade!… E o mar erguido
            é um cavalo em movimento
            que tendo o dorso ferido,
            desfere coices no vento!…”

             Habituado a trovar sobre qualquer tema, o bom Trovador desconhece assuntos que a Trova não consiga abordar de modo sutil e convincente, para não dizer inteligente e original. É o caso de palavras  e temas considerados esdrúxulos e antipoéticos. CAROLINA RAMOS nos dá o exemplo, utilizando numa Trova a palavra CEBOLA que muitos consideram poeticamente inaceitável. Provando o contrário, ela fez de improviso, durante uma reunião da UBT-São Paulo, a seguinte Trova lírica:

             “Na feirinha da amizade,
            de produtos desiguais,
            a CEBOLA da saudade
            já me fez chorar demais.”

             E eis aqui, também, como o Trovador IZO GOLDMAN, vencendo um desafio, encontrou saída para rimar numa Trova a palavra CINZA com a sua única rima natural:

             “Papai do Céu tá RANZINZA!
            – diz meu netinho assustado:
            Pintou todinho de CINZA
            o lindo céu azulado!”  

             E vejam o que fez o príncipe LUIZ OTÁVIO com as palavras RADAR e BISTURI nestas duas Trovas: 

 “O coração de mãe tem
            um RADAR de tal pujança,
            que vê melhor, vê além
            do que a própria vista alcança.”

             “O trem, cansado e sedento,
            subindo a nublada serra,
            é um BISTURI barulhento
            rasgando o seio da terra…”

             Mais do que um simples exercício intelectual ou um passatempo, como querem alguns, a Trova é um sentimento, é um estado de amor e muitas vezes uma bênção, porque acaba sempre por preencher lacunas existenciais na vida daqueles que a cultivam no seu cotidiano.

            E vale a pena a gente citar outras Trovas inteligentes que eu chamaria de produto do senso de oportunidade e que fazem parte também das chamadas Trovas Circunstanciais:

            Vejamos, por exemplo, como o Trovador ARLINDO TADEU HAGEN soube aproveitar com oportunismo e bom senso, a perfeita identidade de seus ideais com os ideais de um amigo, construindo uma Trova singela, significativa e convincente:

             “Existe tanta união,
            entre os meus sonhos e os teus,
            que só não és meu irmão
            por um descuido de Deus.”

             CONCHITA MOUTINHO DE ALMEIDA, saudosa Trovadora da UBT-São Paulo, referindo-se à sua alma de sonhadora e por extensão à alma de seus irmãos Trovadores, soube explorar com inteligência a dualidade quixotesca da natureza humana, enfocando as antíteses: sonho e realidade, corpo e espírito;  nesta Trova que nos enviou numa carta:

             “De sonhar jamais se cansa
            – este é o seu supremo dote –
            meu corpo de Sancho Pança
            tem alma de D. Quixote!”

             E de novo citamos WALDIR NEVES, para uma outra mostra de senso de oportunidade. Ele obteve menção honrosa no Concurso Paralelo aos XXXV Florais de Nova Friburgo, em homenagem à saudosíssima NYDIA IAGGI MARTINS, com esta Trova:

             “De esposa e mãe, nos misteres,
            de alma e corpo ela se deu
            e foi “todas as mulheres”
            na mulher que prometeu.”

             WALDIR soube aproveitar com oportunidade o “achado” primoroso desta conhecidíssima Trova de NYDIA:

             “No dia em que tu quiseres
            ser meu senhor e meu rei,
            serei todas as mulheres
            na mulher que te darei!”

             Vejam como DURVAL MENDONÇA, soube fugir do lugar comum nesta trova do tema “Farol”:

            “Noite escura!… De repente,
            dois faróis surgem na estrada…
            E a escuridão sai da frente
            como quem foge, assustada.” 

            O Trovador PEDRO ORNELLAS, satirizando uma situação crítica, venceu um concurso relâmpago da UBT-São Paulo, tema “Fumaça”, com esta ótima Trova humorística:

             “A situação tá tão feia,
            minha grana tão escassa,
            que o vizinho “churrasqueia”
            e eu passo o pão na fumaça.”

             O Trovador fluminense VILMAR LASSENCE, foi vencedor de um concurso com uma das mais belas trovas do tema “Luz”. Ei-la:

             “Da mais funda escuridão,
pergunta um cego: – O que é Luz?
E alguém, por definição,
lhe põe nas mãos uma cruz.”

           A origem da Trova perde-se na Idade Média. Serviu aos troveiros e trovadores provençais para comporem e cantarem, na língua d’oc e língua d’oil, as suas cantigas d’amigo, cantigas d’escarneo ou de maldizer. A Trova nem sempre teve a mesma forma. Ao longo do tempo, desde a França até a Península Ibérica, ela sofreu várias modificações até transformar-se na deliciosa “Quadrinha Popular Portuguesa” que, por sua vez, deu origem à Trova como hoje a conhecemos e como é praticada nos concursos da UBT e, atualmente, através da Internet. Tudo graças ao idealismo do fundador da UBT, LUIZ OTÁVIO, o Príncipe dos Trovadores Brasileiros.

 Para que a Trova continuasse como arte aprimorada, como veículo dos mais elevados sentimentos do homem, foi necessário o apoio e o patrocínio de entidades associativas, beneficentes e governamentais que, ao lado da UBT, têm contribuído para a sua divulgação em todo o país e no exterior, através de concursos e jogos florais que hoje somam mais de quarenta eventos anuais, considerando-se os realizados através da Internet. Não obstante esse apoio, a UBT e a Trova são ainda órfãs do interesse das entidades culturais do país e sobrevivem como fontes de cultura, graças à boa vontade, ao amor que alguns Trovadores, abnegados idealistas, têm pelo movimento trovadoresco.

 Assim, meus irmãos, o TROVADOR E A TROVA, apesar de todos os percalços que têm encontrado no curso dos acontecimentos, neste país que ainda não firmou idealmente suas raízes culturais e não aprendeu a valorizar a cultura, a Trova vem cumprindo o seu papel; vem alimentando os nossos sonhos, alavancando as nossas esperanças, reavivando a nossa fé e a nossa crença num mundo melhor. E enquanto houver no coração das pessoas sensíveis um espaço para a poesia, aí a Trova terá encontrado sua morada e jamais perderá o seu encanto. E, com esta certeza, eu posso lhes confiar um segredo:

 Se o destino desaprova
minha ilusão desmedida,
eu ponho ilusões na Trova
e sigo iludindo a vida…

Fonte:
Thalma Tavares, palestra aos novos trovadores, 1994.

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Joana D’arc da Veiga (Horinhas de Descuido)

Joana é de Nova Friburgo/RJ
(3o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Cronica, Troféu Lucilla Maria Simas de Assis)
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“Felicidade se acha é em horinhas de descuido”

    Atarefado leitor, que em sua horinha de descuido lê o meu texto: o labor é semelhante ao açúcar que tem de ser usado na medida; trabalhar demais, por uma ansiedade descabida, torna a vida enjoada, pois sufoca o gosto da alegria; entretanto, trabalhar de menos deixa a vida sem energia, o que pode provocar desgosto.

    Devo dizer-lhe que este pequeno, mas importante ensinamento entrou em mim através de uma conversa que ouvi, sem ser notada, entre dois refinados colaboradores que moram em nossa casa. Vou contar-lhe o diálogo na íntegra, mas não tome isto como fofoca, é apenas a ilustração da afirmativa inicial.

    – Hoje você parece mais frio e sem vontade para o trabalho, meu amigo pano!

    – Desculpe-me, vassoura, você sabe que não estou no comando, sou jogado na liquidez “baldeante” e forçado ao labor por mãos alheias; gostaria eu, neste momento, de estar ao relento, desdobrado de sentidos, com o sol a percorrer em raios, a trama do meu tecido e, então, adormecido, esticar-me em vida.

    – Entendo bem você e digo que gostaria, meu amigo, de espreguiçar-me no canto de um armário, ao sabor do descuido da patroa, plantar-me em bananeira tal qual uma criança em tempos de brincadeira. Seria isso felicidade, meu amigo pano?

    – Sim. E, ainda, enxugo o dito de João Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido”. E é verdade, pois nelas sinto melhor o meu trançado e, na falta delas, o cansaço encharcado da vida.

    – Com excessos de cuidados, continuou a vassoura, a vida nos impõe esta rotina de quase inutilidade, nos grãos de superfície, em farelos de vida, nas sobras de nada acumuladas no chão das coisas. Entretanto, meu amigo pano, eu poderia aos poucos juntar os grãos, recolher o pó sem desgastar-me demais.

    – Concordo, pois, embora retorcido, eu retiro gotas, elimino os líquidos que impedem o circular da vida e, então, penso ser o labor, neste momento, açucarado.

    Nesta altura da conversa, a minha esposa chegou, pegou a vassoura envolveu-a no pano, expulsou-me do meu canto, afastou de mim a horinha de descuido e interrompeu, num afã, a maravilhosa conversa daqueles que sabem adocicar o labor com colherinhas de descanso.

Fonte:
Livro dos Concursos

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) Problemas

Hoje, o bonde vinha cheio, e tive de ceder o meu lugar a uma senhora. Esta, ao invés de me agradecer, parece que ficou ligeiramente arrufada com a minha gentileza.

Creio que a ética do bonde manda que, ao ceder o lugar, o passageiro não dê a isso a mais ligeira aparência de um ato de cortesia faça-o friamente, como por uma obrigação regulamentar. Deve ser isso.

Mas será? Eis aí um dos inumeráveis problemas psicológicos que o bonde depara. O bonde é um saco de víspora: é só meter a mão, remexer, pegar, lá vem o problema psicológico.

Infelizmente, esses problemas vão ficando cada vez mais obscuros, à medida que cresce o número dos psicologistas, número infinito, hoje em dia, só comparável ao dos sociólogos. Se o futuro do Brasil dependesse da psicologia da sociologia, estava garantido; e só nos restava lamentar que não pudéssemos viver mais uns cinqüenta ou cem anos, para assistir ao grande fogo de vistas dos resultados. Estupenda coisa a ciência!

Há dias, vi o Sr. João Cesário a conversar atentamente com um mocinho sisudo e altivo. Este falava em coisas difíceis: mentalidade primitiva -formação alógena -metabolismo racial camadas de aluvião -idealismo hipocondríaco -teorias de Comte e Spencer -obras de Le Play, Fouillet, Tarde, Novicow, Pareto, memórias de Schwaartzemberg e Perikowski, de Astrinaieffe e Dragobsen. De repente, despediu-se e desapareceu veloz, como uma motocicleta.

Corria, provavelmente, a endireitar algum erro perigoso de técnica social, que estivesse para desabar sobre nós. Digno bombeiro da Ciência!

Neste ínterim, perguntei assombrado ao Sr. Cesário:

-“Quem é este menino? Que sábio!”

-“Nem tanto. Muito estudioso, isso sim. Especializou-se – não sabe? É apenas sociólogo”.

Senti-me absolutamente acalcanhando com ver um menino que, ainda longe dos trinta anos já havia conseguido ser um sociólogo, apenas. Senti necessidade de esquecer aquilo.

Montesquieu disse que não havia aborrecimentos que não lhe passassem com meia hora de leitura. Não sei se isto provará a virtude da leitura ou antes de Montesquieu. A mim, muitos aborrecimentos me desaparecem com a decifração de problemas ou com jogos de paciência. Armei logo uma série de dificuldades através dos miolos, e depois mergulhei em cogitações para as desmanchar uma por uma.

Foi o que fiz hoje. Não tendo mais em que me ocupar, comecei a extrair e remexer os problemas que o bonde me oferecia, abundante corno pedreira.

Por que é que os nossos conhecidos sempre nos aparecem nos bancos de trás à hora da cobrança das passagens?

Por que é que as senhoras apeiam voltadas para o lado traseiro do carro?

Por que é que os condutores, quando recebem as passagens, vêm com cara de cobradores de contas atrasadas?

Por que é que não se pode tirar um lenço ou abrir uma cigarreira sem despertar a atenção vigilante do vizinhos?

Por que é que, ao contrário, se a gente sofre e tosse com o fumo de um cigarro alheio isso não é percebido nem pelo vizinho fumante?

Por que é que, quando lemos, há sempre um passageiro a querer por força descobrir o que vamos lendo?

Por que é que os homens, quando pedem licença para passar, são mais atenciosos à entrada do que à saída?

Por que é que o lavador de pratos ou o vendedor de bananas trata os condutores como se estes fossem os trintanários de seus coches?

Por que é que o passageiro acha graça nas grosserias ou desaforos do condutor, desde que não são com ele?

Por que é que, encontrando um amigo distraído e pagando-lhe a passagem, ele imediatamente nos pergunta como vai a família?

Por que é que só assobiam no bonde indivíduos inteiramente desprovidos de memória musical?

Por que é que, se chove, há sempre, ao nosso lado ou à nossa frente, um passageiro que não tolera cortinas arriadas?

Por que é que tantas senhoras gordas, não permitindo que se lhes toque de leve com o dedo, não fazem contudo nenhuma cerimônia para se amesendar em cima de nossa perna?

Por que é que há tanta comoção no bonde, se este pega uma galinha, e não há nenhuma por causa do homem enfermo, aleijado e decrépito que vai no carro?

Por que é que os moços bonitos e os célebres ficam sentados de viés?

Por que é que temos tanta paciência para perder duas horas numa pane difícil de automóvel, e nenhuma para sofrer dois minutos de parada do bonde num desvio?

Por que é que as senhoras, ao pagar a passagem, custam tanto a encontrar o dinheiro na bolsa?

Por que é que o bonde estimula em certos indivíduos a vontade de comer amendoim torrado e tremoços?

Por que é que as pessoas mais desocupadas e mais pachorrentas se tomam de pressa e de nervos quando o bonde vai chegando ao ponto final?

Por que é que nos dói mais termos perdido o nosso bonde do que o ter um amigo perdido o trem – ou mesmo uma perna?

Fonte:
Domínio Público

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 16

CAPÍTULO VIII

 

Os últimos acontecimentos vieram perturbar de todo a vida dos dois rapazes. Coruja tinha de guardar um pouco mais a companhia de Teobaldo, cuja inquietação de espírito lhe trazia agora sérios receios. Cobertos ambos de luto, pareciam eternamente fechados a qualquer consolação mundana; Teobaldo caíra em uma espécie de abatimento moral, de cujo estado não conseguiam arrancá-lo as palavras do companheiro.

E preciso que também não te deixe levar assim pelo desgosto, dizia-lhe este, procurando meter-lhe ânimo. — A vida não se compõe só de coisas agradáveis! Concordo em que não estejas habituado a certas provações e que por isso as sintas mais do que qualquer; mas, valha-me Deus! Um homem deve antes de tudo ser um homem!

— Do que me serve a vida?… respondia o outro; do que me serve a vida, se já não tenho as pessoas que mais me amaram?…

— E então eu?! Reclamava André. — Eu não estou ainda a teu lado?… É uma injustiça o que acabas de dizer!…

— Tens razão, é uma injustiça não pensar em ti; mas imagina que será de mim agora, sem recurso e sem o hábito de trabalhar?…

— Ora! Deixa-te disso! Não pareces um rapaz de 20 anos… Que diabo! com o teu talento e com os teus recursos só quem de todo não quer subir!… Tens um enorme futuro diante de ti.

— Ah! Falas assim porque te coube em sorte a inestimável ventura de dar no mundo os teus primeiros passos pelo teu próprio pé e não tiveste, como eu, de entrar na vida carregado ao colo de meus pais! Ah! O trabalho é a alegria e a consolação dos filhos da pobreza, mas é também o castigo e o suplício dos que nasceram ricos e mais tarde se acham no estado em que me vejo!…

— Teobaldo! Essas idéias são indignas de ti!

— Não! Tudo que eu dissesse ao contrário disto, seria hipocrisia!

— É porque estão ainda muito abertos os dois tremendos golpes que acabas de receber tão em seguida um do outro; tenho plena certeza de que em breve a tua coragem se erguerá mais altiva e mais forte do que nunca e que, à força de talento, conseguirás uma invejável posição. Enquanto assim não suceder, cá estou eu ao teu lado para amparar-te; e com isto, não tens que te envergonhar, porque nada mais faço do que seguir os exemplos aprendidos em casa de teus pais, quando me socorreram. Eu te pertenço, meu amigo!

Teobaldo, sinceramente comovido, agradeceu aquela dedicação e prometeu que se faria digno dela. Mas pelo espaço de um ano quase inteiro a sua mágoa absorvia-lhe todos os instantes, não lhe deixando tempo nem forças para coisa alguma. Descuidou-se de obter os meios de ganhar a vida e, depois de comido o último dinheiro, teve de lançar mão de algumas jóias das que foram de sua mãe, para vender. Agora, com o correr do tempo por cima da sua desgraça, vinham-lhe já, de quando em quando, alguns rebotes de energia; então falava em trabalhar muito, fazer-se independente e forte por meio do próprio esforço. E neste delírio de boas intenções, lembrava-se de tudo conjuntamente e sonhava com o comércio, com as indústrias, com as artes e com a literatura.

Qual não foi, porém, a sua decepção, quando, levando trabalho a um jornal, ouvia essas palavras daqueles mesmos que dantes o elogiavam:

— Homem! Deixe ficar isso… Havemos de ver, mas o senhor bem sabe que o público vai e tornando exigente: é preciso dar-lhe coisas boas!.

Teobaldo compreendeu então o alcance de certas palavras de seu pai: “Esconde o mais que puderes a tua necessidade; ela só por si é o pior estorvo que se pede levantar defronte de ti, quando precisares de dinheiro…”

E com eleito: dantes, Teobaldo mal apresentava algum trabalho nas redações, só ouvia em torno de si elogios e palavras de entusiasmo. É que sabiam perfeitamente que ele não precisava ganhar a vida; agora era um necessitado como qualquer e então viravam-lhe as costas, porque a necessidade é sempre ridícula e importuna

O mesmo justamente lhe sucedera com os teatros. Dantes, quando Teobaldo freqüentava a caixa dos teatros nas horas de ensaio, pagando champanha aos artistas e levando-os depois do espetáculo a cear nos melhores hotéis; dantes, quando ele os presenteava nos benefícios e lhes emprestava dinheiro, muita vez perguntaram-lhe os empresários por que razão, dispondo de tanto talento e de tanto espírito, não escrevia ele alguma coisa para ser levada à cena. Havia por força de fazer sucesso!… Teobaldo que experimentasse!

E agora, quando a necessidade lhe invadira a casa, rapaz, lembrando-se de tão repetidas solicitações feitas ao seu talento, tornou de um romance inglês e extraiu daí um drama que, se não era um primor de arte, estava ao menos no gosto do público e podia dar lucro ,aqueles mesmos empresários o receberam com frieza, dizendo-lhe secamente que deixasse ficar o trabalho e aparecesse depois. E, mais tarde, talvez sem terem lido a obra, acrescentaram-lhe com meias palavras e dando-lhe o pretensioso tratamento de “filho” que ele fosse cuidar de outro ofício e perdesse as esperanças de arranjar alguma coisa por aquele modo.

Com o seu gênio altivo, com a educação que tivera, Teobaldo não podia insistir em tais pretensões. Era bastante perceber um gesto de má vontade ou de pouco caso para lhe subir o sangue às faces, e muito fazia já conseguindo reprimir a cólera que se assanhava dentro dele, sôfrega por escapar em frases violentas. Depois dessas lutas e dessas tentativas estéreis, voltava para casa desanimado e furioso contra tudo e contra todos, encerrando-se no quarto e fechando-se por dentro para chorar à vontade. Vinha-lhe então quase sempre a idéia do suicídio, mas não vinha com ela a resolução, e o desgraçado continuava a viver.

Todavia o tempo ia-se passando e o círculo das necessidades apertava-se cada vez mais.  Coruja era agora o único sustentáculo da casa, era quem pagava o aluguel, a pensão de comida para Teobaldo que ele continuava a almoçar e jantar no colégio, era quem lhe pagava a lavadeira, e quem lhe fornecia dinheiro. Mas tudo isso era feito com tamanha delicadeza, com tanto amor, que Teobaldo, quando lhe aparecia qualquer revolta do caráter, ficava mais envergonhado de seu orgulho do que com receber aqueles obséquios. E nunca o André andou tão satisfeito, tão alegre de sua vida; dir-se-ia que ele, praticando aqueles sacrifícios, alcançava enfim a realização dos seus melhores sonhos.

Era comum vê-lo chegar a casa com uma caixa de charutos debaixo do braço e depo-la ao lado do amigo, dizendo quase envergonhado:

— Olha! Como estavam a acabar estes charutos e sei que são dos que mais gostas, trouxe-os, porque depois quando fosses procurá-los, já não os encontrarias a venda.

E tinha sempre uma desculpa a apresentar, uma razão para disfarçar os seus benefícios. Teobaldo quis privar-se do vinho à mesa; Coruja, que aliás não bebia nunca, opôs-se-lhe fortemente.

— Não! Disse ele — Estás muito acostumado com o vinho à comida e, por uma miserável economia de alguns tostões, não vale a pena fazeres um sacrifício!.

A maior dificuldade era, porém, quando precisava passar-lhe dinheiro, sem lhe ferir, nem de leve, o amor próprio. A princípio tinha para isso uma boa desculpa — os quinhentos mil réis; mas esta quantia não podia durar eternamente e, já por último, dizia o Coruja:

— Sabes? Quando eu tinha em meu poder aquele teu dinheiro, servi-me de tanto e esqueci-me de repor o que tirei; por conseguinte, se precisares agora receber algum por conta, eu posso pagar.

Um dia ele apareceu em casa com um grande rolo de papéis, e disse ao companheiro que o diretor do colégio o havia encarregado de organizar uma seleta muito especial, destinada ao estudo da sintaxe portuguesa.

— A coisa não é má… Acrescentou o Coruja, abaixando a voz, como quem conspira. — Eles pagam 300$ pelo trabalho…

— Bom, fez Teobaldo.

— Eu estive a recusar, porque me falta talento; lembrei-me, porém, de que tu, se quisesses… Podias encarregar-te disso… A coisa é maçante, é, mas enfim… sempre é um achego… Além de que, eu te posso ajudar, sim, quer dizer que… — Ah! Para ajudar não te falta talento! Hipócrita! Respondeu Teobaldo abraçando-o.

— E se precisares durante a obra de algum dinheiro adiantado… É do contrato! Sabes!

Esta situação tinha para o Coruja apenas um ponto de desgosto e vinha a ser este, o seguinte: desde que D. Margarida lhe falou em casamento com a filha, André resolveu ir fazendo as suas economias para poder em breve realizá-lo; mas, com o amigo na difícil posição em que se achava, não lhe era permitido por de parte um só vintém, e o projeto ia ficando adiado para mais tarde.

E D. Margarida a perguntar-lhe como iam os negócios dele e a pedir-lhe com insistência que marcasse o dia das núpcias. Ora o Coruja, que era tão incapaz de mentir, quanto era incapaz de confessar o verdadeiro motivo da sua demora, via-se deveras atrapalhado e desculpava-se como melhor podia.

Entretanto, D. mezinha concluíra afinal os estudos, fizera exame e estava preparada para reger uma cadeira de primeiras letras.

A mãe resplandecia com isso.

— Assim desembuchasse por uma vez aquele demônio do Coruja!… Exclamava ela às amigas, quando lhe falavam na filha.

E tão impaciente se fez com as reservas e meias palavras do futuro genro, que afinal disparatou e disse-lhe às claras:

— Homem? Você se não tenciona casar com a pequena, é melhor dizer logo, porque não faltará quem a queira! Estas coisas, meu caro, quando não são ditas e feitas, servem apenas para atrapalhar o capítulo!

— Oh, minha senhora, respondeu André, se eu não tivesse a intenção de casar com sua filha, há muito tempo que já o teria declarado!…

— Pois então!?…

— Mas é que ainda não me é possível! Estas coisas não se realizam só com o desejo!

— Ora! Com boa vontade tudo se faz!

— Nem tudo; entretanto, se a senhora entende que sua filha não pode esperar por mim, é casá-la com outro; não serei eu quem a isso se oponha!…

Estimo-a muito, desejo fazer dela a minha esposa, mas não quero de forma alguma prejudicar-lhe o futuro. Se há mais quem a deseje, e se ela acha que deve aproveitar a ocasião, aproveite; porque eu me darei por muito feliz em vê-la satisfeita e contente de sua vida!.

— O senhor diz isso porque sabe que ela está disposta a esperar.

— Tanto melhor, porque nesse caso realizarei o que desejo.

— Mas, se o seu desejo é casar com ela, case-se logo por uma vez! Tanto vive o pobre como vive o rico!

E por este caminho a impertinência de D. Margarida foi subindo a tal ponto, que o Coruja, para tranqüilizá-la um pouco, deixou escapar um segredo que a ninguém tinha ainda revelado. Era a idéia de montar um colégio seu, perfeitamente seu, feito como ele entendia uma casa de educação; um colégio sem castigos corporais, sem terrores; um colégio enfim talhado por sua alma compassiva e casta; um colégio, onde as crianças bebessem instrução com a mesma voluptuosidade e com o mesmo gosto com que em pequeninas bebiam o leite materno.

Sem ser um espírito reformador, o Coruja sentiu, logo que tomou conta de seus discípulos, a necessidade urgente de substituir os velhos processos adotados no ensino primário do Brasil por um sistema todo baseado em observações psicológicas e que tratasse principalmente da educação moral das crianças; sistema como o entendeu Pestallozzi, a quem ele mal conhecia de nome.

Froebel foi quem veio afinal acentuar no seu espírito essas vagas idéias, que até aí não passavam de meros pressentimentos.

Mas não era essa a única preocupação de sua inteligência: ainda havia uma outra que não lhe parecia menos desvelos, a de fazer um epítome da história do Brasil, em que se expusessem os fatos pela sua ordem cronológica.

Nesse trabalho de paciente investigação revelava-se aquele mesmo cabeçudo organizador do catálogo do colégio; continuava o Coruja a pertencer a essa ordem de espíritos, incapazes de qualquer produção original, mas poderosíssimos para desenvolver e aperfeiçoar o que os outros inventam; espíritos formados de perseverança, de dedicação e de modéstia, e para os quais uma só idéia chega às vezes a encher toda a existência.
–––––––-
continua…

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Noite de Autógrafos e 1. Salão de Artes Plásticas (Desde 2 de Agosto, em Curitiba)

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27 de julho de 2013 · 21:33

Concurso de Poesia “Serra Serata” – 2013 (Prazo: 29 de agosto)

Festa Italiana de Petrópolis

REALIZAÇÃO:
CASA D’IITALIA ANITA GARIBALDI DE PETRÓPOLIS
ACADEMIA BRASILEIRA DE POESIA – CASA DE RAUL DE LEONI
PREFEITURA DE PETRÓPOLIS
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO
FUNDAÇÃO DE CULTURA E TURISMO DE PETRÓPOLIS
CLUBE DE POESIAS DO PETROPOLITANO F. C.

ORGANIZAÇÃO:
CATARINA MAUL

REGULAMENTO:

Em homenagem à realização da Festa Italiana de Petrópolis e para motivar a pesquisa e o registro literário, pela segunda vez será realizado o Concurso de Poesia “Serra Serata”, que pretende incentivar poetas de todas as idades a refletirem sobre o valor e a presença do povo italiano na construção das características de nossa cidade, já que um terço de nossos munícipes descendem de italianos.

As marcas podem ser observadas na alegria, no espírito empreendedor e arrojado, além da paixão contextualizada nos gestos largos e efusivos, marca registrada em tais indivíduos.

E essa paixão, por eles chamada de “PASSIONE”, é o tema desse concurso literário, já que tanto sucesso obteve na primeira edição.

1. Tema:

“Passione” (não é necessário utilizar a palavra, mas manter fidelidade ao tema, que retrata a paixão impressa nos hábitos dos italianos, assim definida na própria Língua Italiana como um entusiasmo amoroso ou um interesse vivo por qualquer coisa).

2. Categorias:

Infantil (até 12 anos), Juvenil (de 13 aos 18 anos), Adulto e Adultos-Outras Cidades

3. Inscrições realizadas através da entrega do trabalho:

aos cuidados de Catarina Maul na Secretaria de Educação – Divisão de Atividades Culturais e Artísticas (Casa Barão de Mauá) ou na Academia Brasileira de Poesia – Casa de Cláudio de Souza (Praça da Liberdade, 247. Ainda Catarina Maul – Caixa Postal 92030 – Petrópolis/ RJ – CEP: 25730- 970.

4. Prazo de inscrição:

até o dia 29 de agosto de 2013.

5. Apresentação dos trabalhos:

As poesias deverão ser apresentadas em 5 (cinco) vias, com o máximo de 30 versos e identificação, contendo nome completo, telefone, e-mail, categoria e, tratando-se de categorias escolares, ainda nome da escola e dados do professor responsável. Somente serão aceitas inscrições por e-mail dos poetas adultos de outras cidades ou com prévia autorização da coordenação.

6. Seleção:

Serão selecionados 10 (dez) trabalhos das categorias infantil, juvenil e adulto, para serem apresentados ao júri na noite da premiação. Os 3 vencedores da categoria “adultos de outras cidades” serão apresentados durante o evento de entrega da premiação.

7. Premiação:

Serão premiados com troféus os 3 (três) primeiros colocados e os melhores intérpretes de cada categoria, salvo os poetas adultos-outras cidades, que não disputam o troféu de Melhor Intérprete. A premiação acontecerá no Palácio de Cristal, em 19 de setembro, quinta-feira, às 18h.

8. Maiores detalhes poderão ser esclarecidos com a professora e poetisa Catarina Maul, através do e-mail catarinamaul@globo.com.


Catarina Maul
Bem Cultural Produções Artísticas
(24) 2243-6302
(24) 9266-8031
catarinamaul@globo.com
http://www.youtube.com/user/bemculturaltv

Fonte:
Dimythryus Padilha

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Projeto de Trovas Para Uma Vida Melhor (Prazo: 30 de Julho)

VENHAM PARTICIPAR DOS CONCURSOS DE TROVAS DA 4ª ETAPA DO PROJETO DE TROVAS PARA UMA VIDA MELHOR

Aqui a síntese do Projeto:

PROJETO DE TROVAS PARA UMA VIDA MELHOR

Autoria: MARIA INEZ FONTES RICCO

OBJETIVOS E FINALIDADE:

– Incentivar o gosto pela trova e pela participação em concursos culturais saudáveis;
– divulgar valores e princípios humanitários, religiosos e sociais;
– ousar querer uma vida melhor, despertando a capacidade de criação; por meio desta modalidade poética – TROVA;
– descobrir novos trovadores e publicar boas trovas.

Este projeto tem por fim difundir o conhecimento, para uma vida melhor, por meio de trovas, atingindo alunos do ensino básico(GR. 3), e todos os amantes desta modalidade poética. Grupo 1 – Trovadores Consagrados – que tem trovas premiadas(não considerar Menção Honrosa, nem Menção Especial); Grupo 2 – Trovadores iniciantes e/ou não Consagrados – não premiados ainda.

Serão realizados, bimestralmente, um concurso de trovas em nível Nacional e Internacional, por meio da Internet, em língua portuguesa e em espanhol.

Cada Etapa do Projeto é composta de seis Concursos

Apenas uma (01) trova, inédita, por tema e por autor, conforme cronograma.

Endereço de encaminhamento das trovas: mifori14@yahoo.com.br

Cada trova virá com o nome e endereço completo do autor

Já estamos na 4ª Etapa do Projeto.

4ª ETAPA DO PROJETO DE TROVAS PARA UMA VIDA MELHOR

1º CONCURSO DA 4ª ETAPA DO PROJETO: 

Tema – FAMÍLIA
de 01/06/2013 a 30/07/2013 – resultado em 20/08/2013
CONVIVENDO EM SOCIEDADE

Vamos desenvolver princípios e valores, por meio de trovas com… Temas sobre:

A família, primeira célula da sociedade, compete a semeadura dos valores e princípios universais, assim como a escola , por seu desenvolvimento, reforçando e aprimorando-os, a educação como um todo.

A tomada de atitude, a autenticidade e coerência, no convívio em sociedade, é de suma importância, alem de serem verdadeiros valores, contribuem para a formação dos princípios universais e humanitários.

Apenas uma trova inédita por trovador(a),via Internet, em Língua portuguesa ou em Língua Espanhola

O tema deverá constar da trova:

4 versos setessílabos, rimando o 1º com o 3º e o 2º verso com o 4º, tendo sentido completo.

Enviar para: mifori14@yahoo.com.br

trova:
Tema – FAMÍLIA
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———— ——— —
———— ——— —-
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail
(Rua,Av, nº – complementos)
Grupo:

Lembrem-se de colocar o grupo:

GR 1 – trovador consagrado(trova premiada – não contar Menção Honrosa nem M. especial)

GR 2 – trovador não consagrado (não premiado) e iniciante

GR 3 – Aluno da Educação Básica(ginásio e colégio; 1º e 2º grau) e Ensino Médio.

Nome:
Cidade:………SP – Brasil
Escola que estuda
Idade e série.
E-mail

GR 4 – Grupo de língua hispanica – Trovadores concorrendo em espanhol

Fonte:
MARIA INEZ FONTES RICCO

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Varal de Trovas n 25 – Sergio Ferreira da Silva (São Paulo/ SP) e Pedro Mello (São Paulo/ SP)

clique sobre a imagem para ampliar

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José Feldman (Universo de Versos n. 92)


Uma Trova do Paraná

LEÔNCIO CORREIA – Paranaguá

Se o beijo guarda o perfume
de estranha, esquisita flor
é porque o beijo resume
a vida e a glória do amor.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Brasília/DF

NATAL MACHADO

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Coitado do Zé Maria:
a mulher quase o esfola,
pois voltou da… pescaria…
co’um biquíni na sacola…
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Brusque/SC

MARIA LUIZA WALENDOWSKY

Volte agora com vontade,
ser o amor que me encantou
traga consigo a saudade,
que ao partir, você deixou!
=======================
Uma Trova Humorística, de Belo Horizonte/MG

ARLINDO TADEU HAGEN

Ladrão ao se aposentar
quer dar um golpe soturno:
por de noite “trabalhar”,
quer “adicional noturno”!…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Deus vendo que não tem fim
essa fé que me conduz,
deixou cair sobre mim
uma cascata de luz!
========================
Uma Trova Hispânica de Cuba

GISELA CUETO LACOMBA

Besos de miel y canela
te entregué con frenesí,
amores de roja estela
por vergeles de alhelí.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de São José dos Campos/SP

ADAMO PASQUARELI

A temperança consiste
em levar vida discreta:
mesmo numa fase triste,
cultuemos o poeta.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

FAUSTO PARANHOS
Rio de Janeiro (1910 – ????)

Em certos beijos se esconde
um demônio singular
que nos conduz não sei aonde,
donde é difícil recuar.
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Sou devoto, sou um crente!
Não zombes, não  rias não…
Trago um rosário de Trovas
no fundo do coração…
========================
Um Haicai de Curitiba/PR

ÂNGELO BATISTA

Fukushima chora
Terremoto mar bravio
Choramos todos
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

Todo amante, em sua lida,
o espinho chama de flor,
porque a verdade da vida
é a mentira do amor.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Só peço o dia em que eu morra,
faça uma noite de lua,
todo troveiro descante,
todo violão saia à rua!
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Mais Alto

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
========================
Uma Poesia de Porto Alegre/RS

IALMAR PIO SCHNEIDER

Ao Papa Francisco

Papa Francisco, rezai
Pra o bem de nossa Nação;
Que do Céu, o Eterno Pai
Nos livre da corrupção!

Enquanto transcorre a Jornada
Mundial da Juventude,
Daí à nossa Pátria Amada,
Mais Amor e mais Saúde.

Outrossim, não esqueçais
De nossa desesperança,
Para que tenhamos Paz,
Concedei-nos Segurança…

Pois, assim amenizada
A situação atual,
Será cumprida a Jornada
Da Juventude Mundial.
=====================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

    Canção II

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Quiriri

Calor. Nos tapetes
tranqüilos da noite, os grilos
fincam alfinetes.
==============================
Uma Poesia de Niterói/RJ

EVALDO DA VEIGA

Vida   Simples

Quem nasce simples, em lugar humilde,
tem maior chance de viver o amor.
A busca de início e de sempre,
é o encontro humano,
alegria espontânea que se regozija
no simples fato de viver…

Viver bem em dois, hum….
É assim na periferia,
onde se observa o que se tem
e o que falta se corre atrás.
Hoje está assim,
amanhã será melhor.

Embora a vida esteja sempre adversa,
mas como se observa o que se possui,
o que falta tem pouca importância,
principalmente quando se ama,
no momento de fazer amor.
Quem é pobre sabe fazer amor, sempre.

É esta compensação que muito vale,
inexiste neurose do poder.
Acumular o desnecessário,
é veneno que não atinge ao pobre.
Rico quer dinheiro, sempre…
Pobre quer amor, por toda vida…
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Se Tu Viesses Ver Me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…
=====================
Uma Poesia de Fluviópolis/PR

DÁRIA FARION

Ósculo Poético

Sutis emoções percorrem todo ser,
Despertando sonhos, estesiogenia.
E o poeta pinta em poesia.

Nos versos a emoção,
Nos verbos a expressão,
A essência nas entrelinhas se aninha.

O poeta reverberando estesia
Busca ponto isófoto entre o ósculo e a luz,
Faz-se arauto do amor.

É um entretecer de sonhos
Emanando eflúvios dos versos
Na elegância da mensagem velada.
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

 
Boca de romã perfeita
Quando a abres p’ra comer.
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
========================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ALEXANDRE O’NEILL
(Alexandre Manuel Vahía de Castro O’Neill de Bulhões)
1924 – 1986

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

A Festa Triste

Não, o Natal não é uma festa alegre,
é uma festa triste.

De repente
as crianças ( logo as crianças! )
separam o mundo em duas metades
desiguais:
– de um lado, a abastança, indiferente ou piedosa;
do outro, a necessidade, a mendigar seus restos
como há milênios faz…

As crianças ( logo as crianças! )
Algumas com presentes, brinquedos, esperanças,
e as puras alegrias que o bom Velhinho
lhes traz do céu;
outras, sem terem nada, e mesmo tendo pais,
são “órfãos do Natal”,
não tem Papai Noel…

Não. Neste mundo como está,
( neste mundo profano
que a um olhar mais humano
não resiste ),
o Natal pode ser uma festa,
( quem contesta? )
mas é uma festa triste…
============================
Um Soneto de Juiz de Fora/MG

JOSÉ TAVARES DE LIMA

Poesia, Meu Refúgio

Sinto a tua presença nos meus passos,
a tua sombra acompanhar a minha;
e nas horas de insônia e de cansaços,
que a tua mão furtiva me acarinha…

Quando curvado ao peso dos fracassos,
a dor dos desenganos me espezinha,
eu te chamo inquieto, abrindo os braços
como quem de loucura se avizinha!

E, se a chamar-te quase sempre vivo
é porque sabes ser o lenitivo
que suaviza aquela dor medonha…

E acho em ti, poesia benfazeja,
o refúgio feliz que o aflito almeja,
e o mundo alegre que o poeta sonha!…
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Somos do país do amor,
grande como um continente,
rico que só marajá,
pobre que só indigente;
tem corrupção como regra,
mas tem carnaval que alegra,
de ano em ano, nossa gente.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

SEBASTIÃO ALBA
(Dinis Albano Carneiro Gonçalves)
Freguesia da Cividade, Braga/Moçambique (1940 – 2000)

Como os Outros
                                                 ao Rui Knopfli

Como os outros discípulos da noite
frente ao quadro negro
que é exterior à música
dispo o reflexo Sou um
e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com as suas grutas sinfónicas
no mar.
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Tambaú/SP

(3o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Poema Livre)

SEBAS SUNDFELD

Louvação

Ó moço forte de chapéu de palha,
fizeste da enxada a espada,
para a luta do teu trabalho.
Vê agora, moço, a messe debruçada
sobre a extensão longínqua da seara,
onde tua mão marcou o aceiro,
acendeu a queimada,
rasgou o solo adormecido,
para despertar o sono da seiva
no ventre da terra.
Vê, ó moço de chapéu de palha,
a força dos teus braços,
a água do teu suor,
fizeram germinar
a encantada conquista
da gleba deserta.
E agora, enquanto tu descansas
da empreitada bruta,
tira o chapéu de palha, moço.
Contempla a imagem da tua Pátria
que se estende da leira
– verde e amarela –
Seara que germinou
e alcança o céu para além da serra,
e ondula ao vento,
como se a bandeira brasileira
estivesse aberta sobre o chão
que tua audácia plantou.
=====================
Um Poetrix de Palmeira das Missões/RS

CARLOS VILARINHO

fio da navalha

O fio da navalha,
Onde o verso se apóia,
O poeta se equilibra…
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Epitalâmio

Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.

Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.

Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,

sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;

o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:

o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.

Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.

Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.

O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes,
dos deuses conterá a pura essência.

Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.
========================
UniVersos Melodicos

Ary Barroso
CAMISA AMARELA
(samba, 1939)

Tal como “Camisa listrada”, “Camisa Amarela” é uma curiosa crônica de um episódio carnavalesco carioca. Na letra, uma das melhores de Ary Barroso, a protagonista narra as proezas do amante folião, que volta sempre aos seus braços, “passada a brincadeira”.

Procurando dar uma impressão de realidade à história, Ari chega a localizá-la no tempo e no espaço, com a citação de músicas do carnaval de 39 – “Florisbela” e “A jardineira” – e lugares do Rio – o Largo da Lapa, a Avenida (Rio Branco) e a Galeria (Cruzeiro).

Entregue no disco de estréia à sua intérprete ideal, Araci de Almeida, “Camisa Amarela” tem ainda uma gravação notável do próprio Ary Barroso, cantando e se acompanhando ao piano, em 1956.
Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela      
A Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
E desapareceu no turbilhão da galeria
Não estava nada bom o meu pedaço na verdade
Estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o réco-réco  na mão
Mais tarde
O encontrei num café zurrapa
No Largo da Lapa
Folião de raça
Bebendo o quinto copo de cachaça
     (isso não é chalaça)

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta feira
Cantando a Jardineira oi
A Jardineira
Me pediu um ainda às onze
Um copo dӇgua com bicarbonato
Meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama e não tirou nem o sapato

Roncou uma semana
Despertou mal humorado
Quis brigar comigo
Que perigo
Mas não ligo
Meu pedaço me domina
Me fascina
Ele é o tal
Por isso não levo a mal
Pegou a camisa
A camisa amarela
Botou fogo nela
Gosto dele assim
Passou a brincadeira 
E ele é pra mim.
(Meu Senhor do Bonfim)

(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

A CIDADE IDEAL
Chico Buarque

CACHORRO:

A cidade ideal dum cachorro
Tem um poste por metro quadrado
Não tem carro, não corro, não morro
E também nunca fico apertado

GALINHA:

A cidade ideal da galinha
Tem as ruas cheias de minhocas
A barriga fica tão quentinha
Que transforma milho em pipoca

CRIANÇAS:

Atenção porque nesta cidade
Corre-se à toda velocidade
E atenção que o negócio está preto
Restaurante assando galeto

TODOS:

Mas não, mas não
O sonho é meu e eu sonho que
Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
E o prefeito e os varredores
Fossem somente crianças
Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
E o prefeito e os varredores
E os pintores e os vendedores
Fossem somente crianças

GATA:

A cidade ideal duma gata
É um prato de tripa fresquinha
Tem sardinha num bonde de lata
Tem alcatra no final da linha

JUMENTO:

Jumento é velho, velho e sabido
E por isso já está prevenido
A cidade é uma estranha senhora
Que hoje sorri e amanhã te devora

CRIANÇAS:

Atenção que o jumento é sabido
É melhor ficar bem prevenido
E olha, gata, que a tua pelica
Vai virar uma bela cuíca.

TODOS:

Mas não, mas não
O sonho é meu e eu sonho que
Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
E o prefeito e os varredores
E os pintores e os vendedores
Fossem somente crianças
Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
E o prefeito e os varredores
E os pintores e os vendedores
As senhoras e os senhores
E os guardas e os inspetores
Fossem somente crianças

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Parabéns, Escritores

 
Congratulo todos os escritores, que com seus textos, sejam quais forem os gêneros, brasileiros ou não, fazem a diferença neste mundo de hoje tão conturbado. Um dia especial para mostrarmos ao mundo a nossa união e a importância que o escritor tem na evolução da humanidade. Hoje o estandarte das Letras tremula diante dos olhos de todos. 
“A verdade é que a pena, na mão de um excelente escritor, resulta por si só numa arma muito mais potente e terrível, e de efeito muito mais prolongado, do que jamais poderia ser qualquer outro cetro ou espada nas mãos de um príncipe.” (Vittorio Alfieri)
 
Paz, com Liberdade 

José Feldman
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Para este dia, deixo aos irmãos escritores este texto que Daniel Landim, nos presenteia para o Dia do Escritor;

É impossível descrever integralmente a importância e magnitude do trabalho do escritor em nossas vidas. Antes da criação da escrita silábica feita pelos Sumérios, e a escrita hieroglífica no Egito Antigo por volta de 3000 A.C, todo conhecimento humano era transmitido oralmente, e por conta disso sofria de grandes variações, mudanças, e erros naturais de interpretação.

São eles, os escritores, os grandes responsáveis pelo avanço no desenvolvimento da sociedade em todos os aspectos. A escrita é a forma mais pura e direta de se absorver conhecimento, e conhecimento é poder.

A escrita é tão corriqueira que acabamos por desperceber as pequenas utilizações diárias de extrema importância. Aprendemos a fazer aquela receita de lasanha através de um livro de culinária, descobrimos como utilizar o controle do “DVD player” através do manual de instruções, e tomamos corretamente um medicamento ao observar as orientações em sua bula. A escrita é um guia em meio às dúvidas e adversidades enfrentadas pela humanidade. Ela ensina e antecipa o conhecimento adquirido por milhares de vidas e bilhões de horas de aprendizado, informações que uma pessoa jamais obteria em apenas  uma única e ínfima vida.

Só esse aspecto isolado já seria o bastante para valorizar a figura do escritor como primordial na sociedade, mas o escritor vai adiante, além de transferir conhecimento, também compartilha emoção.

Através da leitura vivenciamos grandes romances e tragédias, viajamos por mundos e lugares desconhecidos, conhecemos personagens reais e imaginários, criamos vínculo com eles e sentimos suas dores e alegrias como se fossem nossas. Mudamos, evoluímos, somos transformados por essas aventuras. Quando é virada a última folha, o livro continua com o mesmo número de páginas, com a mesma capa, e com o mesmo conteúdo. Mas o leitor já não é o mesmo, ele ganhou algo a mais. E independente do que for, poderá mudar mínima ou vastamente toda a sua vida.

Por isso comemoramos o Dia do Escritor, por sua enorme importância em nossas vidas e na sociedade em geral. Parabéns a você escritor por permanecer nesse caminho. Por vezes é cansativo, sofrido, irritante e desvalorizado, mas sempre será gratificante. Afinal, és um dos pilares que sustentam a nossa sociedade.

Fonte:
Congratulo todos os escritores, que com seus textos, sejam quais forem os gêneros, brasileiros ou não, fazem a diferença neste mundo de hoje tão conturbado. Um dia especial para mostrarmos ao mundo a nossa união e a importância que o escritor tem na evolução da humanidade. Hoje o estandarte das Letras tremula diante dos olhos de todos. Paz, com Liberdade José Feldmancerveja artesanal

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Varal de Trovas n 24 – Carolina Ramos (Santos/ SP) e Nei Garcez (Curitiba/ PR)

 

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Lenda do Negrinho do Pastoreio

Era o tempo da escravidão e um menino negrinho, pretinho que nem carvão, humilde e raquítico era escravo de um fazendeiro muito rico, mas por demais avarento. Se alguém necessitasse de um favor, não se podia contar com este homem. Não dava um níquel a ninguém e seu coração era a morada de uma pedra, não nutria qualquer sentimento por ninguém, a não ser por seu filho, um menino tão malvado quanto seu pai, pois afinal, a fruta nunca cai muito longe da árvore. Este dois eram extremamente perversos e maltratavam o menino-escravo desde do raiar do dia, sem lhe dar trégua. Este jovenzinho não tinha nome, porque ninguém se deu sequer o trabalho de pensar algum para ele, assim respondia pelo apelido de “negrinho”.

Seus afazeres não eram condizentes com seu porte físico, não parava o dia inteiro. O Sol nascia e lá já estava ele ocupado com seus afazeres e mesmo ao se por, ainda se encontrava o negrinho trabalhando. Sua principal ocupação era pastorear. Depois de encerrar seu laborioso dia, juntava os trapos que lhe serviam de cama e recebia um mísero prato de comida, que não eram suficientes para repor as energias perdidas pelo sacrificado trabalho.

Mesmo sendo tão útil, considerado mestre do laço e o melhor peão-cavaleiro de toda a região, o menino era inúmeras vezes castigado sem piedade.

Certa vez, o estanceiro atou uma carreira com um vizinho que gabava-se de possuir um cavalo mais veloz que seu baio. Foi marcada a data da corrida e o negrinho ficou encarregado de treinar e montar o famoso baio, pois sabia seu patrão, não haver ninguém mais capaz que ele para tal tarefa.

Chegando o grande dia, todos os habitantes da cidade, vestindo suas roupas domingueiras, se alojaram na cancha da carreira. Palpites discutidos, apostas feitas, inicia-se a corrida.

Os dois cavalos saem emparelhados. Negrinho começa a suar frio. pois sabe o que lhe espera se não ganhar. Mas, aos poucos toma a dianteira e quase não há dúvida de que seria vencedor. Mas, eis que o inesperado acontece, algo assusta o cavalo, que para, empina e quase derruba Negrinho. Foi tempo suficiente para que seu adversário o ultrapasse e ganhe a corrida.

E agora? O outro cavalo venceu. Negrinho tremia feito “vara verde” ao ver a expressão de ódio nos olhos de seu patrão. Mas o fazendeiro, sem saída, deve cobrir as apostas e põe a mão no lugar que lhe mais caro: o bolso.

Ao retornarem à fazenda, o Negrinho tem pressa para chegar a estrebaria.

– Aonde pensa que vai? pergunta-lhe o patrão.

– Guardar o cavalo sinhô! Balbuciou bem baixinho.

– Nada feito! Você deverá passar trinta dias e trinta noites com ele no pasto e cuidará também de mais 30 cavalos. Será seu castigo pelo meu prejuízo. Mas, ainda tem mais, passe aqui que vou lhe aplicar o devido corretivo.

O homem apanhou seu chicote e foi em direção ao menino:

– Trinta quadras tinha a cancha da corrida, trinta chibatadas vais levar no lombo e depois trata de pastorear a minha tropilha.

Lá vai o pequeno escravo, doído até a alma levando o baio e os outros cavalos à caminho do pastoreio. Passou dia, passou noite, choveu, ventou e o sol torrou-lhe as feridas do corpo e do coração. Nem tinha mais lágrima para chorar e então resolveu rezar para a Nossa Senhora, pois como não lhe foi dado nome, dizia-se afilhado da Virgem. E, foi a “santa solução”, pois Negrinho aquietou-se e então cansado de carregar sua cruz tão pesada, adormeceu.

As estrelas subiram aos céus e a lua já tinha andado metade de seu caminho, quando algumas corujas curiosas resolveram chegar mais perto, pairando no ar para observar o menino. O farfalhar de suas asas assustou o baio, que soltou-se e fugiu, sendo acompanhado pelos outros cavalos. Negrinho acordou assustado, mas não podia fazer mais nada, pois ainda era noite e a cerração como um lençol branco cobria tudo. E, assim, o negrinho-escravo sentou-se e chorou…

O filho do fazendeiro, que andava pelas bandas, presenciou tudo e apressou-se em contar a novidade ao seu pai. O homem mandou dois escravos buscá-lo.

O menino até tentou explicar o acontecido para o seu senhor, mas de nada adiantou. Foi amarrado no tronco e novamente é açoitado pelo patrão, que depois ordenou que ele fosse buscar os cavalos. Ai dele que não os encontrasse!

Assim, Negrinho teve que retornar ao local do pastoreio e para ficar mais fácil sua procura, acendeu um toco de vela. A cada pingo dela, deitado sobre o chão, uma luz brilhante nascia em seu lugar, até que todo lugar ficou tão claro quanto o dia e lhe foi permitido, desta forma, achar a tropilha. Amarrou o baio e gemendo de dor, jogou-se ao solo desfalecido.

Danado como ele só e, não satisfeito com já fizera ao escravo, o filho do fazendeiro, aproveitou a oportunidade de praticar mais uma maldade dispersa os cavalos. Feito isso, correu novamente até seu pai e contou-lhe que Negrinho havia encontrado os cavalos e os deixara fugir de propósito. A história se repete e dois escravos vão buscá-lo, só que desta vez seu patrão está decidido em dar cabo dele. Amarrou-o pelos pulsos e surrou-o como nunca. O chicote subia e descia, dilacerando a carne e picoteando-a como guisado. Negrinho não agüentou tanta dor e desmaiou. Achando que o havia matado, seu senhor não sabia que destino dar ao corpo. Enterrá-lo lhe daria muito trabalho e avistando um enorme formigueiro jogou-o lá. As formigas acabariam com ele em pouco tempo, pensou.

No dia seguinte, o cruel fazendeiro, curioso para ver de que jeito estaria o corpo do menino, dirigiu-se até o formigueiro. Qual sua surpresa, quando o viu em pé, sorrindo e rodeado pelos cavalos e o baio perdido. O Negrinho montou-o e partiu a galope, acompanhado pelos trinta cavalos.

O milagre tomou o rumo dos ventos e alcançou o povoado que alegrou-se com a notícia. Desde aquele dia, muitos foram os relatos de quem viu o Negrinho passeando pelos pampas, montado em seu baio e sumindo em seguida por entre nuvens douradas. Ele anda sempre a procura das coisas perdidas e quem necessitar de seu ajutório, é só acender uma vela entre as ramas de uma árvore e dizer:

Foi aqui que eu perdi
Mas Negrinho vai me ajudar
Se ele não achar
Ninguém mais conseguirá!

Esta é a mais linda e popular lenda fraternal gaúcha. Ela representa um grito de repúdio aos maus-tratos com o ser humano. Reflete a consciência de um povo (gaúchos) que deliberadamente condenou a agressão e a brutalidade da escravidão. É uma lenda sem dono, sem cara, sem raça é a lenda de todos nós, que lutamos dia-a-dia nesta terra de excluídos.

O Negrinho do Pastoreio é a formatação de um arquétipo do inconsciente coletivo e podemos vê-lo como uma manifestação de uma consciência coletiva repleta de ideologias que são transmitidas pela cultura e linguagem que nós utilizamos quando estamos sujeitos a algo.

A escravidão ainda persiste, embora incógnita e camuflada, mostra sua terrível face nas sub-habitações circunvizinhas às metrópoles. Esta questão social, tem a cada dia afastado a classe média de uma consciência do real problema e que por medo ou omissão, mantêm-se afastada e enclausurada em suas fortalezas gradeadas.

A lenda do Negrinho do Pastoreio possui versões no Uruguai e na Argentina, lugares onde praticamente a escravidão inexistiu, portanto, aqui configura-se uma verdadeira “exportação” da lenda gaúcha. A sua versão mais antiga é a de propriedade de Apolinário Porto Alegre, “O Crioulo do Pastoreio” de 1875, quando ainda existia a escravidão no país. João Simões Lopes Neto, publicou em 1913 as “Lendas do Sul”, onde concretizou algumas alterações, introduzindo o baio, as corujas e a Nossa Senhora.

No Rio Grande do Sul, o Negrinho é símbolo da Caixa Econômica Estadual. É encontrada outra homenagem à ele na sede do Governo do Estado, no Salão Nobre que leva o seu nome. Lá encontramos afrescos do famoso pintor Aldo Locatelli que reconta sua história na versão de Lopes Neto.

Inúmeros poetas e trovadores, já cantaram e escreveram sobre esta lenda, sendo que o mais famoso dos poemas pertence à Barbosa Lessa (abaixo)

Negrinho do Pastoreio
Barbosa Lessa

“Negrinho do Pastoreio
Acendo essa vela pra ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi

Negrinho do Pastoreio
Traz a mim o meu rincão
Eu te acendo essa velinha
Nela está o meu coração

Quero rever o meu pago
Coloreado de pitanga
Quero ver a gauchinha
A brincar na água da sanga

E a trotear pelas coxilhas
Respirando a liberdade
Que eu perdi naquele dia
Que me embretei na cidade”.

Fonte:
http://www.rosanevolpatto.trd.br

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José Feldman (Universo de Versos n. 91)

(obs: Breve “Universo de Versos”, em e-book)

Uma Trova do Paraná

MARIA APARECIDA PIRES

Tesoura de sorte e azar
Corta tudo pela frente,
Só não consegue cortar
A língua de muita gente!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Parede/Portugal

ANTÓNIO JOSÉ BARRADAS BARROSO

Quem espera sempre alcança…
talvez possa acontecer,
pois dizem que é a esperança
a última coisa a morrer.
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Ele trouxe ao seu rebanho
muito amor e muita luz.
Barqueiro de um barco estranho,
talhado em forma de cruz!
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Belo Horizonte/MG

JOSÉ FABIANO

Mãe, se dor fosse julgada,
não sei qual a mais doída:
se a que te dei na chegada,
se a que me dás na partida…
=======================
Uma Trova Humorística, de Brasília/DF

ANTONIO C. T. PINTO

Se o trabalho dá saúde
e põe o cara valente,
eu não mudo de atitude:
– trabalhe… quem for doente!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Em inspirações, imerso,
fiz do sol o próprio guia
para conduzir meu verso
nos caminhos da poesia!
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

MARIA CRISTINA FERVIER

Luna que en la dicha o pena
a los poetas acompaña
que escriben sobre la arena
de las letras su hazaña.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Maringá/PR

A. A. DE ASSIS

A Saúde faz o alerta,
e o confirma a Segurança:
– Tudo é bom na dose certa,
como ensina a Temperança.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ALONSO ROCHA
Belém/ PA (1926 – 2011)

A igreja, as flores e o eleito,
ela de branco e eu tristonho;
foi o cenário perfeito
para o enterro de meu sonho.
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Houve uma bronca bacana
quando viram, certo dia,
que o noivo da Sebastiana
era o esposo da Luzia…
========================
Um Haicai de Manaus/AM

ANIBAL BEÇA
(1946-2009)

Abre o camponês
sulcos de arado na terra.
Em seu rosto rugas.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

A um cego alguém perguntou
vendo-o só: – Que é de teu guia?
E ele sorrindo mostrou
a cruz que ao peito trazia.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Quem ri do poeta, não sabe,
o consolo que ele tem.
E o dia em que fosse triste,
faria versos também.
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Amor que morre

O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Ou Isto ou Aquilo 

Ou se tem chuva e não se tem sol,
 ou se tem sol e não se tem chuva!
  Ou se calça a luva e não se põe o anel,
  ou se põe o anel e não se calça a luva!

 Quem sobe nos ares não fica no chão ,
  Quem fica no chão não sobe nos ares.
 É uma grande pena que não se possa 
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

 Ou guardo dinheiro e não compro o doce,
 ou compro o doce e não guardo o dinheiro. 
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
 e vivo escolhendo o dia inteiro!

 Não sei se brinco, não sei se estudo,
  se saio correndo ou fico tranqüilo.
 Mas não consegui entender ainda 
qual é melhor: se é isto ou aquilo.                    
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

O Sono

Um corpo que é um trapo.
Na cara, as pálpebras claras
são de esparadrapo.
==============================
Uma Poesia do Rio Grande do Norte

SERGIO SEVERO

Descaminhos. (Para Ela)

Por que teimo em dirigir
minha atenção a Você,
que em “contra marchas”, não vê,
todo o meu Amor fluir?

Que a Estrada do seu Porvir,
seja, quiçá, asfaltada,
e cada curva fechada,
bem lhe faça refletir.

Olhe a conversão na Via!
Não atropele a Poesia,
na contramão dos meus passos…

… e à margem da Compaixão,
deixar o meu Coração,
por inteiro, aos pedaços.
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Os Versos que te fiz
(do CD “A Flor de Florbela”)

Deixa dizer-te os lindos versos raros
que a minha boca tem pra te dizer
são talhados em mármores de Paros
cinzelados por mim pra te oferecer

Tem dolência de veludos caros,
são como sedas pálidas a arder…
deixa dizer-te os lindos versos raros
que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu amor, eu não vos digo ainda…
que a boca da mulher é sempre linda
se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
e nesse beijo, amor, que eu não te dei
guardo os versos mais lindos que te fiz!
=====================
Uma Poesia de Paranaguá/PR

Júlia da Costa
(1844 – 1911)

Sonhos ao Luar

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?…
Serás por acaso o eco
De meu triste cogitar?…

Eu também amo a saudade
Que me inspira a solidão;
Amo a lua que me fala
Do passado ao coração.

Como tu choro uma noite
De luar que se ocultou;
Como tu choro a esperança
De uma aurora que passou.

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?…
Quem és tu que na minh’alma
Vens de manso dedilhar?…

Serás inda a sombra errante
De uma noite que morreu?…
Meigo raio de ventura
Que em meu seio se escondeu?…

Quem és tu? Dize quem és
Branca sombra lá do céu!
Dize o nome do teu canto
Que eu dirte-ei quem sou eu!
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
========================
Uma Poesia de Portugal

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto (1919 – 2004) Lisboa

Retrato de uma princesa desconhecida

      Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
 Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
      Para que a sua espinha fosse tão direita
         E ela usasse a cabeça tão erguida
    Com uma tão simples claridade sobre a testa
 Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
     De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
     Servindo sucessivas gerações de príncipes
         Ainda um pouco toscos e grosseiros
            Ávidos cruéis e fraudulentos

         Foi um imenso desperdiçar de gente
        Para que ela fosse aquela perfeição
           Solitária exilada sem destino
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

 ” A Banda “

Meu verso será como a banda
tocará música para o povo.

Irá para o coreto da praça fazer retreta
passará pelas ruas com um carneirinho branco
– é a mascote -,
as mulheres virão de avental à janela,
os homens pararão o trabalho e atravessarão a rua,
e os garotos, – ah, os garotos! – acompanharão a banda.. .

Tocarei o Hino da Liberdade, tocarei a Marcha do Socialismo,
às vezes uma valsa – Danúbio Azul –
e a Protofonia do Guarani.

De qualquer forma todos me ouvirão:
estarei no coreto da praça – os instrumentos brilhando-
e os garotos me acompanharão pela rua
até o futuro.

Se preciso – se preciso – estarei à frente das tropas
abrindo passagem para a bandeira.
============================
Um Soneto de São Paulo

GLAUCO MATTOSO

Confessional

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.

Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.

Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.

Se serve de consolo, seja assim:
amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim…
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Muito já tenho aprendido
nesta longa caminhada,
que me mostra novos rumos
em cada idéia trocada,
e isso é tão estimulante,
que eu, sozinho, doravante
talvez me perca na estrada.
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Uma Poesia Além Fronteiras

CESARE PAVESE
Stefano Belbo/Italia (1908 – 1950) Turim/Italia
Figura de mulher

Tens rosto de pedra esculpida,
sangue de terra dura,
emergiste do mar.
Tudo acolhes e sondas,
e repeles de ti
como o oceano. Tens na alma
silêncio, tens palavras
tragadas. És turva.
A alva em ti é silêncio.

E pareces com as vozes
da terra – a pancada
do balde no poço,
o cântico do fogo,
um tombo de maçã,
as palavras resignadas
e escuras nas soleiras,
o grito do menino – as coisas
que não passam jamais.

Não mudas. És turva,
és a taberna fechada
com o chão de terra batida,
onde entrou certa vez
o garoto descalço
em que pensamos sempre.

Tu és a sala sombria
em que pensamos sempre
como no velho pátio
onde a aurora se abria.
(tradução: Martins Napoleão)
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Um Poema Livre Premiado, de Americana/SP

GERALDO TROMBIN

Labor.ação

É aqui que eu laboro, elaboro,
Que eu dilato todos os meus poros,
Me liquefaço, evaporo.

É aqui o meu laboratório,
Onde me manifesto, me testo,
Me gosto, me detesto;
Onde me atesto, faço elogio, faço protesto.
Sob qualquer pretexto,
Eu me escrevo, me descrevo,
Eu me transformo em texto!

É aqui a minha capela, o meu oratório,
A minha eloquente oratória,
Onde namoro, me adoro, me devoro;
Onde sorrio, onde sou rio e deságuo;
Onde ajudo, corro, peço socorro, oro,
Esculpindo orações de fé e desafeto
Sob o teto das minhas dúvidas e certezas.

É aqui o meu léu,
O meu manto sagrado, o meu véu e o meu céu.
É aqui o meu ambulatório, o meu sanatório,
O meu dormitório e o meu purgatório.

É aqui, na poesia,
Que eu me anestesio com as agulhas da sinestesia,
Que eu, enfim, POEMO-ME!

(2o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Poema Livre)
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Um Poetrix de Limeira/SP

CARLOS ALBERTO FIORE

pico

Sons, buzinas, neuroses.
Pressa predadora, desumana.
A rua enfrenta o dia.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Enigma

Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à-toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
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UniVersos Melodicos

Ary Barroso
AQUARELA DO BRASIL
(samba, 1939)

Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil no início de 1939, numa noite de chuva torrencial, que o obrigou a ficar em casa, contrariando seus hábitos. Antes que a chuva terminasse, ainda teve inspiração para compor outra obra prima, a valsa “Três lágrimas”.

Quase vinte anos depois, ele mesmo descreveria a criação de Aquarela do Brasil, em entrevista à jornalista Marisa Lira, do Diário de Notícias: “Senti iluminar-me uma idéia: a de libertar o samba das tragédias da vida, (…) do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor e a opulência de nossa terra. (…) Revivi, com orgulho, a tradição dos painéis nacionais e lancei os primeiros acordes, vibrantes, aliás. Foi um clangor de emoções. O ritmo original (…) cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos. O resto veio naturalmente, música e letra de uma só vez. Grafei logo (…) o samba que produzi, batizando de ‘Aquarela do Brasil’. Senti-me outro. De dentro de minh’alma extravasara um samba que eu há muito desejara. (…) Este samba divinizava, numa apoteose sonora, esse Brasil glorioso.”

Exageros à parte, “Aquarela do Brasil” é mais ou menos isso que Ary Barroso pretendeu fazer: uma declaração de amor ao Brasil, através de uma bela composição. É também a obra mais representativa da grande fase de sua carreira (1938-1943), em que ele completa um processo de refinamento de seu repertório, incorporando-lhe requintes até então inusitados em nossa música popular. E como foi preferencialmente um compositor de samba, é neste gênero que melhor empregará esses requintes, de forma especial nos chamados sambas-exaltação, um novo tipo de música do qual é inventor e “Aquarela do Brasil”, o paradigma. Já mostra no que o gênero ofereceria em qualidades e defeitos, esta composição sintetiza suas características fundamentais: os versos enaltecedores de nosso povo, sas paisagens, tradições e riquezas naturais, a melodia forte, sincopada, sonoridades brilhantes tudo isso mostrado num crescendo, do prólogo ao final apoteótico, que procura transmitir uma visão romântica e ufanista.

“Aquarela do Brasil” foi lançada por Araci Cortes em 10.06.39, na revista Entra na Faixa, de Ary e Luís Iglesias. Inadequada à voz da cantora, não fez sucesso. Um mês e meio depois, voltou a ser apresentada, desta vez de forma destacada, pelo barítono Cândido Botelho no espetáculo “Joujoux e Balangandãs”. Sua primeira gravação aconteceria em seguida (18.08) por Francisco Alves, acompanhado por orquestra que executava um arranjo de Radamés Gnattali, grandiloqüente como exigia a composição. Com esta gravação iniciava-se sua monumental discografia que incluiria figuras como Sílvio Caldas, Antônio Carlos Jobim, Radamés Gnattali, Elis Regina, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, o próprio Ary Barroso, as orquestras de Xavier Cugat, Morton Gould, Ray Conniff, Tommy e Jimmy Dorsey e os superastros Bing Crosby e Frank Sinatra.

A carreira internacional de “Aquarela do Brasil” começou por Hollywood em 1943, quando Walt Disney a incluiu no filme “Alô Amigos” (“Saludo Amigos”), com o título de “Brazil” e versos em inglês de S. K. Russell. No mesmo ano, gravada por Xavier Cugat, fez grande sucesso nos Estados Unidos, aonde chegou a ultrapassar a marca de um milhão de execuções. A partir de então, popular no Brasil e no exterior, se consagraria como uma espécie de segundo hino de nossa nacionalidade. Longe de prever todas essas glórias, Ary Barroso inscreveu “Aquarela do Brasil” no concurso de sambas para o carnaval de 1940, vencido por “Ò seu Oscar” (1°), “Despedida de Mangueira” (2°) e “Cai, cai” (3°). Considerando-se injustiçado, Ary rompeu com Villa-Lobos, presidente da comissão julgadora, com quem só se reconciliaria em 1955.

Brasil!
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ó Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil!   
Brasil!
Pra mim,   
pra mim

Ó abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do serrado
Bota o rei congo no congado
Brasil!
Brasil!

Deixa cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil!   
Brasil!
Pra mim,   
pra mim
Brasil!

Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiferente

O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ó Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil!   
Brasil!
Pra mim,   
pra mim

O
esse coqueiro que dá côco
Oi, onde amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil!
Brasil!

Oi
estas fontes murmurantes
Oi
onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
O,
esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil!
Brasil!
Pra mim,
pra mim
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

CHORA, MANÉ, NÃO CHORA

Uma roda de crianças, com uma menina no centro. Uma das meninas esconde um limão e vai passando às outras enquanto a do meio vai procurá-lo de mão em mão. Cantam as da roda:

Chora, Mané, não chora,
Chora porque não vê
O limão
O limão anda na roda,
Feito um bestaião
O limão.

Ele vai, ele vem
Ele aqui não passou
Chegou no caminho
Conselhos tomou.

Quando a menina do centro encontra o limão, vai para o meio a criança que o escondia. E o brinquedo continua

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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Sebas Sundfeld (Mãe)

Sebas é de Tambaú – SP 
(2o. Lugar no Concurso de Cronicas do Concurso Literário Cidade de Maringá, 2013)

––––––––––––

    Com a morte do marido, servidor braçal, sem Carteira de Trabalho, Letícia viu-se sozinha, com dois filhos menores e a mãe doente e idosa. Maior que o infortúnio, porém, foi a sua decisão de enfrentar um novo propósito de vida. Matriculou seus meninos na Creche Comunitária e com a mãe olhando pela casa, saiu em busca do que sabia fazer. Empregou-se como faxineira em domicílios, escritórios, onde houvesse necessidade de um balde e de uma vassoura. Dividia as horas do dia para cumprir suas obrigações sem descanso. Aliviava os temores rezando enquanto varria. Apesar da aparência mal tratada, revelava um certo quê a motivar inúteis convites maliciosos.
   
De volta à casa, já tardezinha, enfrentava ainda afazeres que dela dependiam, como a daquela vez em que mal chegara e fora direto para o tanque de lavar roupa. Concentrada em seu labor, não percebera a aproximação dos seus garotos, felizes com a alegria inocente de brincar com a bola, presente pelo último Natal. Sem hesitar e sorrindo pela surpresa, Letícia pôs de lado a roupa ensaboada na bacia e, de avental molhado, foi com os filhos jogar bola no fundo do quintal. E riram. E brincaram.

    A vizinha que chegara para um dedo de prosa e a tudo assistia, comentou: – A que hora você vai acabar de lavar esta roupa? De noite?

    A observação continha cabimento. Letícia, porém, explicou uma outra verdade: – Quando meus filhos crescerem não irão se lembrar de que a mãe deles lavava roupa… Mas sentirão saudade de quando brincaram comigo!

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XXXIII Concurso de Trovas da ATRN 2013 (Classificação Final)

QUADRO GERAL DE CLASSIFICAÇÕES
XXXIII CONCURSO ATRN 2013
CONCURSO NACIONAL 2013 – Tema AREIA:
1º LUGAR – Carolina Ramos –Santos/SP
2º – Ivone Taglialegna Prado/MG
3º – Renata Pacola/SP
4º – Edmar Japiassu Maia/RJ
5º – Marilucia Rezende/SP
6º – Edna Valente Ferracini/SP
7º – Edna Gallo/Santos/SP
8º – João Batista Vasconcellos/RJ
9º – Pedro Mello/SP
10º – José Valdez C. Moura/SP
11º – Dilva Maria de Moraes/RJ
12º – Relva do Egypto/MG
13º – Domitilla B. Beltrame/SP
14º – Jessé Nascimento/RJ
15º – Ailton Rodrigues/RJ
Coordenador: José Lucas de Barros

Comissão Julgadora:

José Lucas de Barros

Francisco Garcia de Araújo(Prof. Garcia)

Fabiano Wanderley
**************************************************
ATRN – CONCURSO P/SÓCIOS CORRESPONDENTES 2013 – Tema BÊNÇÃO:
1º LUGAR – Maria Madalena Ferreira/RJ
2º – Wanda de Paula Mourthé/MG
3º – Vanda Fagundes Queiroz/PR
4º – Antônio Augusto de Assis/PR
5º – Arlindo Tadeu Hagen/MG
6º – Eleandra Bonatto/RS
7º – Therezinha Dieguez Brisola/SP
8º – Wanda de Paula Mourthé/MG
9º – José Ouverney/SP
10º – Eleandra Bonatto/RS
11º – Maria Madalena Ferreira/RJ
12º – Vandira Fagundes Queiroz/PR
13º – Gislaine Canales/RS
14º- Therezinha Dieguez Brisola/SP
15º – Vanda Fagundes Queiroz/PR
Coordenador: Hélio Pedro Souza

Comissão Julgadora:

-Mara Melinni de A. Garcia

-Professor Garcia

-Hélio Alexandre

-Djalma Motta
****************************************
ATRN –CONCURSO ESTADUAL 2013 – Tema RASTRO:
1º LUGAR – Francisco Garcia de Araújo (Prof. Garcia)
2º – Paulo Roberto da Silva
3º – Mara Melinni A.Garcia
4º – José Lucas de Barros
5º – Fabiano Wanderley
6º – Paulo Roberto da Silva
7º – José Lucas de Barros
8º – Manoel Cavalcante S.Castro
9º – Fabiano Wanderley
10º – Eva Yanni A. Garcia
11º – Francisco Garcia de Araújo (Prof. Garcia)
12º – Hélio Pedro de Souza
13º – Manoel Cavalcante S.Castro         
Coordenador – Thalma Tavares/SP

Comissão julgadora:

Dorothy J. Moretti

Delcy Canalles

Lisete Johnson

Geraldo Nogueira
**********************************
ATRN – CONCURSO PARA SÓCIOS EFETIVOS 2013 – Tema MÃO:
  LUGAR-  Mara Melinni
2º – Manoel Cavalcante
3º – Manoel Cavalcante
4º – José Lucas De Barros
5º – Fabiano De Cristo Magalhães
6º – José Lucas De Barros
7º – Mara Melinni
8º – Francisco Garcia de Araujo (Prof. Garcia)
9º – Fabiano de Cristo Magalhães Wanderley
10º – Francisco Garcia de Araujo (Prof. Garcia)
11º – Helio Pedro Souza
Coordenadora: Eliana Ruiz Jimenez

Julgadores:

Antônio Augusto de Assis

Domitilla Borges Beltrame

Eliana Jimenez

 Fonte:
Zé Lucas

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Arquivado em concurso de trovas, Resultado Final

TROVADOR!!! Participe do Trova Legenda (Prazo: 31/07/2013)


Enviem suas trovas para Eliana Jimenez, sobre a imagem acima:

elianarjz@gmail.com

Prazo: 31/07/2013

Publicação: 01/08/2013
no http://poesiaemtrovas.blogspot.com.br

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) De Amicitia

Ia eu muito macambúzio, no meu banco de trás, e nem sabia porque.

Lembro-me de que, em casa, quando me aprontava para sair me havia irritado por causa de uns incidentes minúsculos. Ao vestir o colete, o relógio caíra-me do bolso, e ficara suspenso pela cadeia; e algumas moedas que estavam no outro bolsinho despencaram para o soalho, rolando em todas as direções, como expressamente para me fugir. Quando eu passava a escova pelo chapéu, ela deixara pegada à copa uma lanugem de felpas impalpáveis, de seda ou de algodão, que tive de extrair à unha, uma por uma.

Saí quase a correr, e o casaco se me enganchou pelo bolso à maçaneta da porta. Libertei-me, empurrei a porta com um safanão, e ela, voltando, soltou um relincho tão triste, que me senti subitamente envergonhado da minha estúpida impaciência.

Que covardia e que ingratidão ser bruto com as coisas! É preciso, ao contrário, amá-las, no recanto em que vivemos, como as boas protetoras e inalteráveis amigas. O aspecto ordenado, limpo, benévolo e tácito dos objetos que me rodeiam, no meu quarto, parece refletir às vezes algo que não é bem deste mundo: um ambiente de estampa, uma atmosfera de história, um casulo de intimidades intangíveis, uma ilusão de permanência e de espiritualidade -enfim, um sonho, uma doçura, um perfume.

Ao tomar o bonde, porém, já eu pensava em coisas muito diversas daqueles incidentes. De modo que não sei porque fiz metade da viagem tão sombrio, a olhar para o mundo com uma espécie de terror inerte. A estupidez e o mal da vida se me revelavam com a evidência de um acidente brutal, como um sinistro imenso que se acabasse de produzir, ali, de repente, sob meus olhos.

“Hei de consumir os anos que me restam, como tantos que já passaram, a fazer duas e quatro vezes por dia este mesmo trajeto, a percorrer estas mesmas ruas, estas mesmas esquinas, estes mesmos postes, entre as mesmas caras, as eternas caras indiferentes insidiosas, malignas, sornas, fátuas, soberbas, hostis.

Hei de ir todos os dias à repartição, ver a cara regulamentar do chefe, ver as caras dos meus cinco ou seis auxiliares, uma tola outra escarninha, outra fútil e finória, outra bovinamente resignada e mortiça. E não hei de topar muitas vezes na minha frente com alguma cara aberta e sincera, alguma cara iluminada e boa, desfranzida e cordial, que me olhe firme e de chapa com uns olhos direitos e claros como duas espadas, límpidos e quentes como duas chamas.

Meu Deus, como pude viver até hoje deste jeito! Meu Deus como é que hei de viver ainda, sabei-me lá até quando, nesta triturante estupidez e nesta abjeção ignominiosa! Matai-me, senhor, matai-me logo. Ou então, dai-me uma sorte na loteria, que me permita sair por esse mundo, sem cuidados, livre, errante, como o homem que perdeu a sombra, durante os primeiros momentos de sua peregrinação.”

Ia engolfado nestes pensamentos amarelos, quando subiu e veio sentar-se a meu lado o Aurélio de Moura. Cumprimentou-me com afabilidade mais larga do que a habitual. Acolhi-o com prônubos alvoroços.

Aurélio perguntou-me solícito pelas minhas coisas, passando-me o braço pelo ombro, com um sorriso de páscoa. Deixei-me abraçar, comovidamente, e conversamos.

Este rapaz é dos que parecem apostados a pensar, no miúdo e no grosso, de modo
radicalmente diverso do meu; mas esta circunstância, que em outras ocasiões me quizilava, então se me tornou mais um motivo de satisfação, como um bom molho ajuntado a um prato já de si excelente. Concedi tudo a Aurélio, pelo prazer de o ver trabalhar em liberdade. As coisas vulgares e as coisas estrambóticas que ele dizia, tudo me soava uma doce música.

“Fala, Aurélio! fala, fala tudo quanto quiseres. Agrada-me pensar que é para mim só que tu falas, que o teu espírito veio verter no meu a espuma generosa do seu mosto vivo -uma forma de confidência sem gravidade e sem segredo, mas indiretamente complexa e escancarada.

Fala Aurélio! Achas que os postes de fios elétricos deviam ser pintados de escarlate? Muito bem. Achas que o Brasil precisa urgentemente ser invadido pelo argentarismo estrangeiro, que é necessário matar todos os leprosos e que as mulheres não devem mais aprender a ler nem escrever? Continua, Aurélio; tens razão, porque me divertes e porque confias na minha tolerância. Continua sempre. Pensas que a música é a mais insignificante das artes e que a poesia deverá ser proibida por decreto? Fala, fala….

A mim tu tens a coragem de dizer tudo, e isto significa que tu avalias afetuosamente a minha capacidade de ouvir todos os destampatórios honestos e de levar a sério todas as tolices sinceras. Com efeito, nada mais interessante do que uma opinião, essa coisa rara, essa coisa inútil e preciosa.

Mas, na verdade, o que ora mais me interessa não são as tuas opiniões, é o fato de mas expores nessa confiança tranqüila e ridente, sem reservas e sem receios, à sombra da frondosa Amizade, -a bela, a santa, a benéfica Amizade, o único dom dos deuses desmemoriados, que nunca mais se lembrariam de nós, os pobres humanos, ou que, tendo-no-la dado, entenderam ter-nos feito a maior oferta compatível com o nosso egoísmo e a nossa ruindade”.

Entrementes, Aurélio discorria. Asseverava, por último, que higiene pública é apenas o negócio dos médicos higienistas e dos fabricantes de aparelhos higiênicos.

-“Sim, talvez tenhas razão”.

-“Bem, eu salto aqui, seu Felício. Mais uma vez, obrigado pela passagem”.

Eu tinha-lhe pago a passagem.

“Ora, ora!”

– “Não você nem sabe que favor me fez. Saí de casa sem um níquel. Mas, quando vi você neste bonde, lá da esquina da alameda, disse cá comigo, estou garantido. E eis aí por que você teve de me aturar todo esse tempo! Como sabe, esta linha não é a que mais me convém. Mas quem não tem cão… Obrigadinho. Ciao!”.

-“Té logo, Aurélio…”

Fonte:
Domínio Público

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 15

CAPÍTULO VII

Teobaldo viu pela primeira vez o seu nome em letra redonda, assinando uma produção original, graças a um amigo que fez publicar a balada no Diário do Rio.

Ah! Que contentamento o seu! Contentamento que triplicou, quando o rapaz recebeu da capital de sua província uma folha onde vinham as seguintes palavras:

“TEOBALDO HENRIQUE DE ALBUQUERQUE — Este jovem e talentoso mineiro, filho do Sr. Barão do Palmar e que se acha presentemente na corte cursando a Faculdade de Medicina, acaba de publicar aí a bela poesia que em seguida transcrevemos”.

“É sempre com o maior prazer que registramos fatos desta ordem, e fazemos votos para que o esperançoso poeta prossiga na carreira que tão brilhantemente encetou.”

Seguia-se a balada.

Desde então, começou Teobaldo a cultivar as letras com mais entusiasmo; não que o apaixonasse a arte de escrever, mas pelo simples gosto de ter seu nome em circulação. Fez contos, poemetos, artigos que, depois de apurados pelo Coruja, surgiam no primeiro jornal que os aceitasse.

O que lhe faltava em fôlego para as largas concepções do espírito, sobravam-lhe em habilidade para engendrar pechisbeques literários, muito ao sabor de certa ordem de leitores.

Mas um funesto acontecimento veio tarjar de preto os seus dias — a morte de Santa.
Teobaldo ficou fulminado com a notícia; subiu-lhe à cabeça, em ondas, um delírio de paixões que o teria sufocado se logo não se resolvesse em soluços. Foi a sua primeira idéia abandonar a corte e correr à casa do pai; este, porém, na mesma carta em que lhe dava a triste nova, participava-lhe que iria ao encontro dele.

Coruja, em prejuízo dos seus trabalhos, entendeu que não devia abandonar o amigo e passava ao seu lado grande parte do dia no Hotel de França.

Estavam juntos, quando chegou o barão. Teobaldo lançou-se nos braços do pai e, tanto este como o filho, abriram a chorar por longo tempo.

André, meio esquecido a um canto da sala, observava em silêncio o seu protetor, e surpreendia-se de vê-lo tão transformado. Emílio não parecia o mesmo homem; não dava idéia daquele fidalgo de bom humor, que a todos se impunha, quer pela energia do caráter, quer pela insinuação das suas maneiras à Pedro I. Agora estava sombrio, horrivelmente pálido, a fronte coberta de rugas, em cujas dobras se percebia todo o mistério dos seus últimos padecimentos.

Já não era a sombra do que fora; já não era aquela figura desempenada e ruidosa, mas um vulto sinistro, todo vergado para a terra, e em cujo olhar dorido e pertinaz se via transparecer o surdo desalento de uma dor sem tréguas. E aquele espectro lutuoso, descarnado e alto, inspirava compaixão e simpatia.

— Meu filho, disse ele, quando a comoção lhe permitiu falar, a perda de tua mãe é para nós muito mais grave do que podes supor. Com ela fugiu-me a coragem e tudo que me restava de esperanças… Só tu ficaste e só por tua causa viverei mais algum tempo.

Calou-se, depois chamou o Coruja com um gesto, apertou-o nos braços sem lhe dar uma palavra e acrescentou, dirigindo-se de novo ao filho:

— Preciso ter contigo uma larga conferencia, mas quero primeiro repousar um pouco, porque ao contrário não poderei ligar duas idéias…

Teobaldo chamou um criado, mandou servir um quarto ao pai e voltou para junto do Coruja, que à janela abafava os seus soluços com as duas mãos espalmadas sobre o rosto.

Horas depois, Emílio de Albuquerque mandava chamar o filho e, tendo-o feito assentar-se perto dele, começou a pintar-lhe francamente a triste posição em que se achava.

A sua primeira comunicação foi a respeito da hipoteca da fazenda, o que, em completa ignorância de Teobaldo, se realizara havia mais de dois anos. Levara-o a dar semelhante passo a esperança de poder à custa de certas especulações recuperar os bens perdidos e desembaraçar-se das dificuldades em que se via; mas, por desgraça, tudo falhou, e o que ele supunha uma tábua de Salvamento não foi mais do que a mortalha das suas ilusões. E desde então a roda da fortuna, como se recebera um grande impulso, começou a desandar freneticamente; quanto mais enérgicos eram os esforços e tentativas que ele fazia para suster a sua queda, tanto mais vertiginosa ela se tornava; a sorte, afinal, já não tendo do que lançar mão para lhe quebrar a coragem, arrebatou-lhe a última força que lhe restava, a esposa; e tão certeiro fora este último golpe, que o desgraçado sucumbiu de todo, para nunca mais se erguer.

— Dentro em pouco tempo, disse ele, tenho de entregar tudo aos credores; só nos restarão alguns contos de réis que se acham espalhados por aí nas mãos de vários amigos; fica-me, porém, a consolação de que em toda esta desgraça não cometi uma única baixeza; podia ter enganado os meus credores e assegurar-te, a ti, um futuro mais auspicioso; não quis todavia e não me arrependo disso! Creio que farias o mesmo no meu lugar…

— Honro-me de poder afiançar que sim! Respondeu Teobaldo com tal firmeza, que o pai lhe estendeu a mão exclamando:

— Obrigado, meu filho!

Emílio demorou-se na corte apenas dois dias mais; Teobaldo acompanhou-o até ao Porto da Estrela e voltou para o hotel muito impressionado e tolhido de estranhos pressentimentos.

Coruja vinha ao seu lado, caminhando de cabeça baixa, o ar concentrado e mudo de quem procura a solução de um problema.

O amigo acabava de lhe confiar tudo o que ouvira do pai.

— Que achas tu que eu devo fazer?… perguntava-lhe.

André respondeu depois de um silêncio:

— Em primeiro lugar deves sair daquele hotel; é muito dispendioso e, uma vez que estás pobre, precisas fazer economias…

— Tens razão, replicou o outro, mas para onde irei morar? Bem sabes que nunca me vi nestes apuros…

— Eu me encarrego de arranjar a casa. Queres tu morar outra vez comigo?

— Não poderia desejar melhor… Mas, e o colégio!…

— Dá-se-lhe um jeito. O colégio não precisa de mim à noite; é bastante que eu me apresente lá às seis horas da manhã.

— Quanto és meu amigo…

— Pudera!…

E os dois separaram-se daí há pouco concordes na mudança.

Teobaldo correu então à casa do seu correspondente.

— Espere! Disse-lhe o Sampaio com mau humor; .aquele mesmo Sampaio que dantes se mostrava tão atencioso com ele.

Teobaldo estranhou a grosseria do tratamento, mas teve ainda a generosidade de não acreditar que ela fosse já uma conseqüência de ruína de seu pai.

— Venho saber se… ia ele a dizer, quando o outro repetiu ainda mais forte:

— Espere!

O filho do barão mordeu os beiços e não retrucou, até que, meia hora depois, o negociante se dignou enfim de prestar-lhe atenção.

— Disse meu pai que eu tenho aqui algum dinheiro a receber. Quero saber quanto é.

— São quinhentos mil réis, e é o resto. Depois disso nada mais tenho a lhe dar; terminaram os negócios de pai com esta casa.

— Já sei.

— O senhor pode receber a quantia de uma só vez ou por partes, como quiser…

— Quero-a toda.

— Lembra-se de que é o resto… Despache-me.

— Mas por que não deixa alguma coisa de reserva? Porque não quero de novo aturar as suas grosserias.

— Obrigado. Vai ser servido.

— Mas ande com isso!

— Espere, se quiser.

À noite, Teobaldo depositava em poder do Coruja os últimos quinhentos mil réis.

— É o que resta, disse ele; guarda-os tu, que sempre tens mais juízo do que eu.

André obedeceu, e a mudança efetuou-se no dia seguinte.

Foram ocupar duas salas de uma casa de cômodos.

O Coruja escolheu logo a pior para si, dizendo ao entregar a outra ao amigo:

— Agora é preciso começar vida nova… Tens belos recursos e ainda estás muito em tempo de fazeres de ti o que lhes quiseres…

— Ah! Decerto! Respondeu Teobaldo, sempre com a mesma confiança na sua pessoa. É impossível que eu não encontre meios de ganhar a vida!

— Sim, mas convém não te descuidares.

— Não descansarei.

— E os teus estudos?

— Sei cá! Julgo que o melhor é deixar-me disso! Não tenho fé com as academias!

— Não sei se farás bem…

— Mas não vejo em ti mesmo um exemplo palpitante?…

— O meu caso é muito diverso; sou de poucas aspirações, não desejo ser mais do que um simples professor; tu, porém, tens direito a muito, e aqui em nossa terra a carta de doutor é a chave de todas as portas das boas posições sociais.

— Havemos de ver. Não posso agora pensar nisso, tenho a cabeça fora do lugar…

Pouco tempo depois, quando eles ainda estavam inteiramente possuídos pelo golpe que acabavam de sofrer com a morte de Santa, apareceu-lhes em casa, banhado de lágrimas, o velho Caetano, o fiel criado do Barão do Palmar.

Teobaldo estremecera com um pressentimento horrível e levou as mãos à cabeça, como para não ouvir o que seu coração já adivinhava. E depois, voltando-se rapidamente:

— Fala!

— Ele morreu, é exato!

E o velho servo começou a chorar, sem mais poder dizer uma palavra. Teobaldo arrancou-lhe das mãos uma carta que ele havia tirado da algibeira, e leu o seguinte:

Meu filho — Evoca toda a tua coragem e todos os conselhos que te dei durante a minha vida para poderes ler com resignação o que se segue. Escrevo estas linhas resolvido a meter uma bala nos miolos, quando as houver subscritado para ti. Será isso talvez unia fraqueza de minha parte, será talvez um crime, por que tens apenas vinte e um anos; eu, porém, no estado em que me acho, não posso continuar a viver sem aquela Santa a quem devemos: tu, a vida, e eu, a única felicidade que já não tenho.

Morro ainda mais pobre do que supunha, mas não deixo dívidas; perdoa-me e procura dirigir a tua existência melhor do que eu. O nosso velho procurador fica encarregado de remeter-te o que pagarem porventura os meus devedores, e Caetano entregar-te-á pessoalmente um cofre com as jóias que tua mãe possuía antes do casamento; as outros, as que eu lhe dei, foram já reduzidas a dinheiro.

E adeus, até à eternidade, se não me enganaram na religião que aprendi no berço.

Teu pai — Emílio.
––––––––––––-
continua…

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Varal de Trovas n 23 -Barreto Coutinho (Recife/ PE) e Cidoca da Silva Velho (Jundiaí/ SP)

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José Feldman (Universo de Versos n. 90)


Uma Trova do Paraná

JOSÉ WESTPHALEN CORRÊA
(Lapa)

Nas águas mansas do lago,
nas verdes ondas do mar,
nas delícias de um afago,
vejo a mão de Deus pairar.
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro/RJ

COLBERT RANGEL COELHO

 
“Perca a esperança”, – disseste.
Cegamente, obedeci.
e tu mesma me trouxeste
a esperança que perdi.
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

“Casamento… – alguém já disse –
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa…a criançada…”
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE

FERNANDO CÂNCIO

Adeus… e fostes saindo
dizendo que voltarias
e a saudade entrou sorrindo
da mentira que dizias.
=======================
Uma Trova Humorística, de Pindamonhangaba/SP

JOÃO PAULO OUVERNEY

Eu preciso ir ao velório
da minha sogra, patrão!
– Primeiro o trabalho, Honório,
e depois… a diversão!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Eu ouvi de um cidadão
brincalhão, sagaz, afoito:
-Melhor ser um cinquentão
do que morrer aos dezoito…!
========================
Uma Trova Hispânica do México

FREDDY RAMOS CARMONA

Justicia anhelantes claman
hambrientos de libertad;
los prisioneros la llaman
¡señora de la verdad!
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Pelotas/RS

ANA CLARA RIBEIRO

Encontro na temperança
o caminho mais seguro.
Assim não perco a esperança
de garantir bom futuro. 
========================
Trovadores que deixaram Saudades

LAURO SILVA
Pindamonhangaba/SP (1904 – 1978)

“Quem espera, sempre alcança!”
Oh! provérbio enganador!
– Já gastei toda a esperança,
à espera do teu amor.
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Digo tudo sem receio…
Sei amor que não aprovas.
Meu coração retalhei-o
e, de pedaços, fiz Trovas…
========================
Um Haicai de Taubaté/SP

ANA SUZUKI

 
Noite na praia…
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

Que eu tive felicidade,
minha saudade vos diz,
pois só pode ter saudade
quem já foi multo feliz!
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

longo o caminho
até uma flor
só de espinho
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Sou nesta tarde da vida,
cheio de saudades minhas,
como um telhado de igreja,
todo cheio de andorinhas.
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Leveza

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Poetas

Tive uma irmã gêmea.
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvenzinha boêmia.
==============================
Uma Poesia de Itapema/SC

PEDRO DU BOIS

Artes Plásticas
 
Na artificialidade do gesto
o corte impede a madeira
impele a pedra
interpela o metal
interpreta o papel

as transformações se completam.
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Poetas
(do CD A Flor de Florbela)

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Feitos as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!
=====================
Uma Poesia de Curitiba/PR

CHLORIS CASAGRANDE JUSTEN

Sons

Dobram sons impertinentes
Na escura noite do tempo.
Dançam palavras perdidas
Nas trevas, buscando luz.

Palavras, teias e tramas,
Na mágoa da incompreensão
Sem perdão seguem ao léu…
Dobram sons eternamente!
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Mas que grande disparate
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho minto, minto.
========================
Uma Poesia de Lisboa/ Portugal

ALEXANDRE O’NEILL
(Alexandre Manuel Vahía de Castro O’Neill de Bulhões)
1924 – 1986

Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Depois …

Há de ser desta vez… Dir-lhe-ei contente
todo este amor que no meu Ser se abriga,
e tomando-lhe as mãos bem docemente
relembrarei a nossa infância antiga…

E a dúvida que guardo e que a alma sente
hei de acabar dizendo: “minha amiga,
quero ouvi-la afinal sinceramente
sem recear ferir com o que me diga…”

Penso assim… E no entanto, quantas vezes
tenho-a encontrado, e inutilmente os meses
e os anos vão passando entre nós dois…

Basta vê-la… e em minha alma acovardada,
– já não sei nada, nem me lembro nada
e deixo tudo pra dizer depois!
============================
Um Soneto de Santo Amaro da Purificação/ BA

ERÁCLIO SALLES

Teu Presente

Pensei que a terra, por demais escura,
Manchasse o alvor de teus formosos braços.
E arrojei-me, quixótico, aos espaços,
Sorvendo aos tragos a amplidão da altura.

Penetrei mundos de celeste alvura,
Cansando o olhar, multiplicando os passos.
Venci desertos, esmaguei cansaços,
De um presente trazer-te, indo à procura.

Fiquei cego de ver tanta miragem,
Fitando estrelas, no ansiar profundo.
Nem só uma escolhi – tantos cuidados ! –

Nada te posso dar dessa viagem.
Mas sei, no entanto, que te trouxe um mundo
Na memória dos olhos apagados.
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

 
Nós damos nosso recado
na linguagem da poesia,
que fala a todos os povos
na mais clara sintonia:
tem a beleza da prece,
e o mundo inteiro conhece
a sua geografia.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

ANTONELLA ANEDDA
Roma/ Itália (1955)

Música

Não são nobres as coisas que nomeio na poesia:
permanecem sob o palato, atentas, apenas conscientes
do calor ignorante da língua.
Se escutassem, ouviriam o movimento, a onda de um eco
que repete letras vermelhas, destinos, e um turbilhão de vozes
perdidas – como sempre – em tudo o que é escuro e vazio.
Por isso digo outra vez: árvores – de fato – plátanos
atraídos para a água e suportados por pedras à volta.
É isto que é difícil: Cantar suavemente o milagre
do peso na luz, da sombra
que se cruza com o tempo e se espalha sobre o odor dos prados.

 Tudo é corpo onde a alma chega atrasada
mas o outono resplandece a um canto
e as palavras juntam-se
com o ritmo prescrito: amontoadas, entrecortadas,
iniciadas, ao longo dos séculos.
E não é de música que falam, mas do estrondo dum relâmpago,
do granizo que golpeia contra as paredes
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Pindamonhangaba/SP

ROSANA DALLE LEME CELIDONIO

A Receita Perfeita – Mãos à Obra
 
Um quilo de farinha, uma colher de açúcar,
Uma pitada de sal e água o quanto bastar…
– E MÃOS para misturar e sovar.

Um eito de terra, uma saca de fértil grão,
Uma enxada no chão, e chuva vinda do ar…
– E MÃOS para semear e plantar.

Um corte de pano, uma tesoura no fio,
Uma agulha e um botão, a linha a passar…
– E MÃOS para costurar e bordar.

Uma orquestra, um concerto,
Um instrumento perfeito, e o diapasão a marcar…
– E MÃOS para reger e orquestrar.

Uma família, um pai e uma mãe,
Uns irmãos, a confiança no olhar…
– E MÃOS para unir e segurar.

Um caderno, um lápis, uma régua,
Uma lição, alguém a orientar…
– E MÃOS para aprender e ensinar.

Uma igreja;
No altar redentor…
Um pedido ao criador:

– Dá-me MÃOS, Senhor!
Dá-me MÃOS, para o labor.

(1o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Poema Livre)
=====================
Um Poetrix de São Paulo/SP

BETO QUELHAS

águas do rio

passam com rapidez
como o amor que partiu
e a dor que se fez
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Em Face Dos Últimos Acontecimentos

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
========================
UniVersos Melodicos

Mário Lago e Custódio Mesquita
NADA ALÉM
(fox, 1938)

No dia 09 de julho de 1937, estreava no Teatro Recreio, no Rio de Janeiro, a revista Rumo ao Catete, título que aludia a uma eleição presidencial que Getúlio não deixou acontecer. Além de um elenco de primeira – Araci Cortes, Oscarito, Eva Tudor -, a peça tinha libreto e direção musical de dois grandes compositores, Custódio Mesquita e Mário Lago. Reunindo todos esses valores, “Rumo ao Catete” foi um sucesso, com mais de 300 representações e, de quebra, ainda enriqueceu a música popular com duas belas composições, o fox “Nada Além” e a valsa “Enquanto houver saudade”.

Maior sucesso da dupla Lago-Mesquita, “Nada Além” era motivo na peça de um quadro cômico-romântico: um homem de aparência simplória examinava, à porta de uma loja, várias mercadorias que lhe oferecia um vendedor. Vendo que o suposto freguês não se decidia, o vendedor o interpelava: “Afinal, o que deseja o cavalheiro?” ao que o sujeito respondia, cantando: “Nada além, nada além de uma ilusão…”.

Apesar de aprovarem a interpretação operística dada no palco pelo tenor Armando Nascimento, os autores achavam que as canções se adaptavam melhor a uma voz popular, como a de Orlando Silva, à época no auge da fama. Então Custódio, sempre vaidoso, usou de um expediente para induzi-lo a gravá-las, sem correr o risco de uma rejeição, convidando-o a assistir a peça. E deu certo, pois ao final da sessão o cantor, entusiasmado, exigiu: “Custódio, me dá agora mesmo as partes de piano dessas músicas que eu quero gravá-las, o mais rápido possível”. E assim o fez no início de 38.

Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem, 
É demais para o meu coração
Acreditando em tudo
Que o amor mentindo sempre diz
Eu vou vivendo assim feliz
Na ilusão  de   ser     feliz   

Se o amor  
Só nos causa sofrimento e dor
É melhor, bem melhor a ilusão do amor
Eu não quero e nem peço
Para o meu coração
Nada além    de uma linda ilusão ! 
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

TEREZINHA DE JESUS 

Terezinha de Jesus
De uma queda foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos três, chapéu na mão

O primeiro foi seu pai
O segundo, seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão

Terezinha de Jesus
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo:
– Eu te dou meu coração!

Da laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
Da morena mais bonita
Quero um beijo e um abraço

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Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) Um Homem Perfeito

O Sr. João Cesário da Costa é um homem sólido, solidamente refestelado na vida Tem rendas sofríveis, uma bela casa, uma saúde de ferro, um genro colocado na política. Suas ambições nada têm de temerárias nem de atormentadas: são plácidas; limitam-se, evidentemente, a poupar trabalhos e amofinações, a garantir e a entreter a aurea mediocritas ou o otium cum dignitate em que o Sr. Cesário vive desde mocinho.

Conversar com o Sr. Cesário é um exercício que reconforta e tonifica. A uma ausência absoluta de inquietações pensantes, reúne um otimismo tranqüilo. Quando alguma opinião, alguma frase, algum ato equivoco ou complicado cai no domínio de sua percepção, faz um gesto de quem lhe sentisse o mau cheiro, e afasta-o de si, num pudico movimento que não admite réplica.

É possível confabular com ele meia hora, uma hora, sem lhe ouvir outra cousa que considerações sobre o bom e o mau tempo, sobre a superioridade da roupa preta em relação à de cor, sobre a melhor maneira de preparar um molho de tomates, ou sobre as inconveniências de se viajar no estribo do bonde. Fala correntemente, com certa graça natural, acentuando, recortando, remexendo, saboreando com volúpia os ínfimos pormenores, como quem chupa os ossinhos de um frango assado.

O Sr. João Cesário faz-me, às vezes, o efeito de uma boa cadeira de balanço. Quando me sinto fatigado dos meus infindáveis solilóquios, que nada concluem, entreter um quarto de hora de conversação com este homem é o mesmo que trocar um cavalo aragano por uma cadeira fofa e embaladora. Não há senão o trabalho de fazer a cadeira balançar.

Tive ontem esse prazer. O Sr. João Cesário cumprimentou-me com a sua habitual bonomia temperada de autoridade:

-“Como vai o bom amigo?”

-“Bem, obrigado”.

-“Bem mesmo?”

-“Assim, assim…”

-“Por que?”

-“Nada. Vou bem.”

-“E a família?”

-“Bem.”

-“Sua irmã?”

-“Agora bem.”

-“Ah! Esteve doente?”

-“Coisa ligeira.”

-“Constipação, de certo.”

-“Justamente.”

-“O tempo é disso. Tudo por aí anda cheio de gripados. Em casa, todos mais ou menos
perrengues.”

-“Que maçada!”

-“Mas não há nenhum caso sério. Creio que o mais doente ainda sou eu.”

-“Não parece.”

-“As aparências. Tenho uma dorzinha de cabeça que não para, aqui, entre a fonte e a nunca, passando por cima da orelha, -vê neste ponto. Mas o pior é que o intestino anda funcionando meio à matroca, -de tudo, uma sensação de cansaço pelo corpo todo, essa sensaçãozinha amolante e gostosa de um corpo que está pedindo cama – ou rede, que é melhor… ah! ah!”

-“E o senhor sai, apesar de tudo?”

-“Ah! Não posso ficar preso -é inútil! -senão em último extremo. Acredito mesmo que a gripe, conseguindo resistir-se-lhe de pé, vai embora mais cedo. 8enti-lhe a visita há três dias, sábado. Sábado à tarde. Disse à minha velha: “Por sua culpa, estou gripado.” Ela ficou passada. “Por minha culpa, Cesário?” -“Sim, por sua culpa, porque me obrigou, ontem à noite, com aquele frio, a dar uma grande volta pelo bairro. Coitada, arranjou-me mais que depressa um escaldapés, uma camisa de flanela, umas meias de lá, um chá, e esteve a ponto de fazer promessa a Nossa Senhora da Penha. Mas eu exagerava. Gosto de brincar com a velha; nunca vi criatura mais medrosa, quando se trata de doenças em casa. Claro que apanhei porque tinha de apanhar…”

-“Não se sabe como é que ela chega”

-“Não, às vezes se sabe. Mas, no meu caso, não foi o tal passeio de noite. Digo que não foi porque, já antes de mim, o Alfredinho meu filho sentira a primeira bordoada. Só nos contou isso ontem à hora do chá. Demais, estou habituado a fazer voltas a pé, de noite, depois do jantar,quando não chove. É verdade que aquela noite tinha caído uma garoinha, coisinha de nada, ali pelas sete horas. Quando saímos às nove, o céu estava limpo como um prato. E que luar! Fomos até lá ao alto do morro, descemos pela avenida, passamos pela igreja…”

-“Sr. Cesário, leu a notícia daquele crime?”

-“Nem fale! Que coisa estúpida! Como se mata um homem pacato, trabalhador, boa pessoa! Aqui está um caso em que eu, jurado, não tinha contemplações. Então é assim? destrói-se um pai de família como quem acaba com uma cobra à-toa, por umas questõezinhas de nonada?”

-“Havia uma questão de honra, alega o assassino.”

-“Honra, honra! Pusesse a mulher para fora de casa.”

-“Mas, ele amava a mulher.”

-“Qual, nada. O seu dever era esse, e nunca matar. Ninguém pode matar. A vida, quem a dá é Deus, e quem a pode tirar é só Deus”.

-“Mas o senhor garantirá que não foi Deus quem a tirou à vítima por intermédio do assassino, como a podia tirar por meio do tifo ou do automóvel?”

O sr. João Cesário não respondeu; nem pestanejou sequer. Puxou do lenço de linho, que trazia dobrado no bolso da direita, escarafunchou as ventas, tornou a assoar-se, dobrou e guardou o lenço. Em seguida tirou um outro de fina cambraia, que trazia alequeado no bolsinho de cima, e passou-o pelos lábios e pelas fossas. Por fim, arrumou-o de novo, calcou-o, e, numa despreocupação satisfeita:

-“Pois é isso”.

Pouco adiante, disse-me adeus, esperou o carro parar bem parado, desceu, voltou-se para mim a fazer uma última cortesia, e partiu, muito apertado no seu terno azul de risquinhas brancas, sopesando com graça a bengala de castão de ouro.

E havia em redor dele um halo de perfeição.

Eis aí um homem feliz. Acompanhei-o com um olhar de inveja, enquanto pude; mas acabei por me resignar. Coisas que não se aprendem, não se adquirem. Que fazer? Limitarmo-nos a admirar.

Este indivíduo, como tantos outros aparentemente insignificantes, é uma verdadeira maravilha da humanidade. Que assombrosa obra de inteligência e de técnica magistral, a composição deste mecanismo físico-psíquico, tão perfeitamente adaptado a todas as condições médias de uma navegabilidade tranqüila!

Foi, sem dúvida, fabricado após uma série imensa de provas e após uma colheita e apreciação rigorosa de milhares de dados experimentais. Diga quem o quiser que é mero produto das forças inconscientes da natureza”.

Fonte:
Domínio Público

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 14

CAPÍTULO VI

Com efeito, Teobaldo, daí a dias mudava-se para o Hotel de França, abandonando a Ernestina todos os trastes que ele possuía no segundo andar… Foi então que lhe chegou às mãos uma carta do pai, a primeira que tratava de questões pecuniárias. O barão, a pesar seu, tinha de entrar nesse assunto e pedia ao filho que apertasse um pouco os cordéis da bolsa.

Não estamos no caso de fazer muitas larguezas, meu querido filho, dizia ele depois de confessar que sua vida achava-se um tanto complicada; ultimamente persegue-me um azar terrível: em nada do que empreendo me saio bem, e a continuarem as coisas deste modo teremos fatalmente a ruína pela proa! É preciso que desde já restrinjas as tuas despesas. No primeiro ano de Rio de Janeiro gastaste um conto de réis, no segundo quase três e ainda não findou o terceiro e já tens despendido neste muito mais do que nos outros dois reunidos. Acredita que não te falaria nisto se a tal não me obrigassem as circunstâncias. Acabo de ajustar contas com o meu correspondente, não lhe fiz recomendação nenhuma a teu respeito, porque entendo melhor fazê-la a ti próprio; tens bastante critério para avaliar o que aqui vai dito e tomares sérias medidas a respeito de tua vida!

Nada de envolver estranhos neste negócio; mais vale arruinado em segredo do que às claras, porque tudo perdoam à gente, menos a pobreza. Tua mãe continua cada vez mais incomodada; principio a ter sérios receios; os seus padecimentos agravam-se de um modo bem desconsolador. Vê se te aprontas o mais depressa possível e dá um pulo até cá: temos ansiedade de teus abraços.

Esta carta foi um choque terrível para Teobaldo; estava bem longe de contar com ela e, pela primeira vez, refletiu na possibilidade de ficar pobre de um momento para outro; e pensou também no muito que esbanjara desde que residia na corte e no muito que se descuidara dos seus estudos.

Não podia ser por menos com a vida que ele levava ultimamente: os seus dias eram em geral consumidos do seguinte modo: acordava às onze horas da manhã, descia ao tanque, onde durante meia hora se deliciava dentro de um banho perfumado; depois deixava-se enxugar pele Sabino, vestia-se com o auxílio deste e subia ao quarto, onde já o esperava o cabeleireiro com a sua navalha e os seus pentes. Acabada a toilette, passava ao salão do hotel e almoçava. Às vezes fazia duas horas de trote pela praia de Botafogo ou pela rua de Mata-cavalos; jantava à noite; ia quase sempre ao teatro ou à casa de alguma família conhecida ou então, o que era mais freqüente, entretinha-se a beber e a conversar com amigos em casa de mulheres do gênero de Leonília.

A respeito de escola — nada.

Quando se recolhia antes da meia-noite, ainda se entregava a qualquer leitura, literária ou científica, conforme o apetite do momento; outras vezes recorria ao piano e passava duas ou três horas a recordar o clássico repertório que aprendeu em casa da família.

É de notar que Teobaldo, no meio da sua espécie de boêmia aristocrática, não perdera o sentimento do belo, o amor às letras, o entusiasmo pelas coisas heróicas e o respeito às mulheres honestas; tão poderosos e salutares foram para ele os singelos conselhos de sua mãe. Apesar da egoística filosofia do Barão do Palmar, Teobaldo conservava ainda para com o Coruja a mesma sagrada amizade e a mesma dedicação da infância. Era tal o apreço em que tinha o amigo, que chegava a sentir remorsos de não proceder como ele. Instintivamente e a despeito dos seus dotes intelectuais e físicos, reconhecia em André uma certa superioridade moral, um certo privilégio de bondade que o tornava digno de inveja.

Aquele vulto modesto, feio mas sem vícios, trabalhador e honrado, bom e ao mesmo tempo antipático, às vezes até lhe parecia defronte da consciência como um juiz sobrenatural que tacitamente o condenava. E Teobaldo, quisesse ou não, via, através daquela rígida couraça de monstro, transparecer a alma imaculada de um herói.

Entretanto, não seria capaz de confessar a ninguém semelhante coisa e, quando falava do Coruja, aos seus companheiros de pândega, tinha na fisionomia, em vez da admiração9 um gesto frio de risonha condescendência. Às vezes, aos domingos, quando André tirava o dia a descansar, ia ter com Teobaldo muito cedo e arrancava-o da cama para uma excursão fora da cidade.

Aquele amor ao campo, despertado em seu coração pelas primeiras férias passadas na fazenda de Emílio, conservava-se inalterável; e esses passeios, prolongados até à Caixa d’água, aos Dois Irmãos ou à Tijuca, constituíam a grande distração, o luxo, a extravagância de sua vida.

Teobaldo, ou fosse porque estimava deveras o Coruja, ou porque um espírito fatigado da pândega precisa de Vez em quando remansear ao abrigo de um prazer tranqüilo o certo é que ele não acompanhava o outro por mera Condescendência, mas ao contrário punha nisso muito empenho.

Se o passeio era longo, preparavam de véspera o seu farnel, de cuja condução se encarregava o Sabino, e no dia seguinte partiam a cavalo, antes de surgir no horizonte o primeiro raio da aurora. Era nesses longos passeios de domingo, que entre si os dois amigos prestavam contas do que faziam na ausência um do outro. Passavam horas esquecidas a conversar: Teobaldo, sempre muito expansivo, não lhe escondia nenhum de seus atos, bons ou maus, e falava amargamente dos seus tédios e das contrariedade; o Coruja, sempre disposto a achar a vida melhor do que esperava, confessava-se agradecido à fortuna, falava da sua prosperidade e não tinha uma palavra de queixa contra ninguém.

Teobaldo uma vez lhe perguntou:

— A quantos discípulos ensinas tu de graça, ó Coruja?

— Em verdade a nenhum… Respondeu o professor, incomodado com a pergunta.

— Todos eles te pagam?

— Sim; os que não podem pagar já, pagarão mais tarde… Neste mundo a gente não deve olhar só para si… Uma mão lava a outra! Lembra-te de que eu nada seria no rol das coisas, se não fosses tu!

— Sim, mas eu ouvi dizer que até compravas livros, papel, penas e lápis para alguns discípulos.

— Ah! Isso é só quando são de todo muito pobres…

— E que até lhes davas dinheiro para levarem à família.

— Casos muito extraordinários! E o dinheiro não é dado, é emprestado… Hão de pagar, quando puderem…

E, receoso de que o outro insistisse no assunto, Coruja cortou a conversa, perguntando-lhe se tinha escrito mais alguma coisa depois que estiveram juntos.

— Fiz versos. Queres vê-los? Aí os tens.

André passou a ler com todo o cuidado os versos do amigo e logo depois travou-se entre eles a discussão natural entre um espírito que vive da fantasia e um outro que vive do estudo.

Coruja não admitia um galicismo, uma imperfeição de linguagem. Lido como era nos clássicos, queria o português puro e correto; além disso, com a sua memória mais do que privilegiada, poderia jogar facilmente com a velha terminologia da língua, no caso que lhe não faltasse a imaginação; e com Teobaldo sucedia o contrário justamente; — tinha idéias e não tinha a forma.

— Vê agora que tal achas esta balada, disse este, passando-lhe uma folha de papel.

O Coruja leu:

“Meu coveiro, já teu braço
Não te custa a levantar?
Não te pede do cansaço
O teu corpo descansar?
Não me custa, caminheiro,
Não me pesa trabalhar;
Ganho nisto meu dinheiro;
Tenho gente a sustentar.
Pois bem, coveiro, prossegue,
Mas de ti quero um favor;
Não é coisa que se negue,
Não é coisa de valor:
Trago aqui, agasalhada,
Minha amante, que morreu;
Tinha na terra morada
Mas sua pátria era no céu.
Quero apenas, meu coveiro.
Que sepultura lhe dês,
Porém me falta o dinheiro
Para pagar-te, bem vês…
Anda avante, caminheiro;
Já meia-noite bateu.
Não sepulto sem dinheiro,
Que dos mortos vivo eu!”

— Está assim, assim, disse o Coruja, depois de ler; e fez algumas alterações na construção das frases. Aquela rima em ar não devia ser repetida na segunda  estrofe, mas enfim pode passar.
––––––––
continua…

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Heloisa Zanconato e José Fabiano (A Aurora e o Poente – Versos Líricos)

artigo por Sérgio Ferreira da Silva

Lançado em 2001, o livro “A Aurora e o Poente – Versos Líricos” traz sonetos e trovas dos poetas mineiros Heloísa Zanconato e José Fabiano, em parceria anterior àquela da postagem anterior, com José Ouverney.

O meu destaque, desta vez, vai para dois sonetos, um de cada autor, que, de certa forma, “dessacralizam”, primeiramente, a figura do fazer poético, negando a aura da inspiração e da sensibilidade pura como forças motrizes do poeta. Num segundo momento, o foco está nos próprios sentimentos “motivadores”, digamos assim, do poeta.

Novamente, chamo a atenção do leitor para a construção de ambos os sonetos. Ambos têm detalhes que os fazem figurar, pelo menos em minha estante, como poemas especiais, pela diferenciação dos temas  e, principalmente, da retórica envolvida. Vamos a eles…

SONETO

Quando a tristeza me arrebata o pranto
ou a alegria, o coração, me assalta,
busco na rima o aprimorado encanto
que, às vezes, sobra em tudo o que me falta…

Não é preciso a proteção de um Santo,
nem mesmo a voz da inspiração mais alta;
tampouco, as notas magistraiss de um canto
ou o esplendor das luzes da ribalta…

Basta uma folha em branco… e um pena
e a alma transborda, de venturas, plena,
do primo verso ao último terceto…

E após o parto… e alcançada a meta,
sente-se um Semideus, este poeta
que deu a luz a um clássico SONETO!

(Heloísa Zanconato)

A elaboração de qualquer texto, ou de um poema em especial, pressupõe uma relação existente de emissão e recepção de uma mensagem, de utilização e compreensão de signos.

Não há poeta que não idealize seu leitor, seja ele um outro poeta, ou um interessado, cultor da poesia. De outra parte, tão ou mais idealizado ainda é o poeta, na concepção do leitor.

O leitor sempre espera que o poeta escancare sua alma, desnude-se perante a plateia muda e dispersa. Se amou, ou se perdeu seu amor; se venceu, ou foi derrotado. Tudo deve estar no papel.

Porém, um poeta que foi muitos outros, Fernando Pessoa, quebrou estas expectativas recíprocas, ao escrever que “O poeta é um fingidor”.

Mas este “fingidor” não é sinônimo de mentiroso ou falso. A palavra fingidor nasce no latim (fingo, fictum, fingere), no sentido de “moldar o barro”. Então, o poeta não mente, molda. Toma uma massa disforme, o barro das sensações e o transforma em um conceito, em uma sensação primeiro pensada, trabalhada, moldada, entendida e, talvez, depois, sentida. 

É exatamente isto que Heloísa dispõe em seu SONETO: no primeiro quarteto, ela relaciona alguns prováveis elementos motivadores de sua poesia, sua massa disforme (tristeza, pranto, alegria, rima); no segundo, elimina todas as possibilidades de influências mágicas, espirituais, artísticas e estéticas, para dizer que, o que a impulsiona é a razão.

No primeiro terceto, reduz toda a elaboração do poema às questões materiais: um papel em branco, algo para grafá-lo e, num verdadeiro impulso criativo, ela escreve “do primo verso ao último terceto”.

No segundo terceto, então, desincumbida do árduo trabalho criativo, o poema, aí sim, é sacralizado (semideus) e ganha vida (parto). Espírito e matéria são o próprio soneto.

Três observações finais sobre este soneto: 1) seu nome é SONETO, ou seja o nome da própria forma lírica adotada; 2) É um poema metalinguístico, ou seja, em si mesmo discute a própria criação literária e a produção do poema; e 3) o emprego magistral da circularidade, vez que SONETO é a primeira e a última palavra utilizada no soneto! Outro detalhe da circularidade é o estabelecimento de um ambiente fechado, que ao mesmo tempo é restrito e infinito. Marca de gênio e de talento.

Não é por menos que Heloísa é considerada, e com justiça, uma das grandes sonetistas da atualidade. Essa foi a Aurora.

Nosso amigo Poente não deixa por menos…

O LIXO

Pela manhã de certos dias, passa
o caminhão de lixo em minha porta
e para longe, rápido, transporta
aquilo que, imprestável, me embaraça.

Vai carregando como coisa morta
de serventia para mim escassa,
mimos onde antes via brilho e graça,
cujo destino já não mais importa.

As ilusões e sonhos juvenis
de que seria célebre e feliz
conservei longos anos, por capricho.

Ante a verdade da fatal velhice,
hoje os desprezo, como se pedisse
que a vida me liberte deste lixo…

(José Fabiano)

José Fabiano constrói seu soneto negando, aparentemente, a própria condição de texto poético.

Os dois quartetos iniciais remetem ao gênero crônica. A relação autor/leitor dá-se pela proximidade fixada entre as pessoas reais envolvidas (poeta e leitor) e não nos seus papéis no estabelecimento do vínculo da linguagem (emissor e receptor). Explico: autor e leitor são pessoas que moram em lugares onde, em dias pré-determinados da semana passa um caminhão de lixo, que leva o lixo, ou seja, tudo aquilo que não tem mais serventia, ou estragou: tudo o que seletivamente descartamos de nossas vidas, materialmente falando (técnica invariavelmente utilizada pelos cronistas, que costumam chamar a atenção do leitor para aspectos comuns do cotidiano de ambos).

Primeiro ponto em comum entre os dois autores, Aurora e Poente: o estabelecimento de parâmetros materiais de comparação para falar de sentimentos. Claro que o ato de moldar o sentimento a partir da reunião de elementos e organização da massa disforme, em Fabiano, passa, primeiro, pelo estabelecimento desse elo identitário com o leitor.

Disposto o conceito e pressupondo que ele corresponda à verdade literária que o autor estabelece, nos tercetos finais José Fabiano arremata brilhantemente seu soneto, ao dizer que as ilusões e sonhos (imateriais) que não conseguiu concretizar (tornar matéria) são como o lixo ao qual ele fez menção no início e dele merecem apenas o desprezo, embora deles não esteja liberto.

Ora, a visão romântica do poeta que vive de sonho, é quebrada pelo próprio poeta. Não há esperança. O tempo passou e aquilo que era meta, ou anseio, perdeu-se no tempo. Mas continuam preservados “por capricho”.

Dessa forma, em Fabiano, a dessacralização é a de si mesmo, enquanto autor, enquanto poeta. Mas sua negação, antes de produzir este efeito (com a eliminação do sonho e da ilusão), é, mais, uma afirmação da mantença da esperança, porque feita poeticamente, em forma de soneto.

A metalinguagem, em “O lixo” é subentendida. Permeia todo o soneto, mesmo os quartetos, pela adjetivação positiva emprestada ao lixo, propriamente dito (mimos, brilho, graça).

Por fim, também neste segundo soneto a circularidade fica estabelecida porque a palavra “lixo” é repetida no início e no encerramento do soneto. Coisas de quem sabe o que faz!

Não abordei propositadamente as questões mais comesinhas da arte poética, como rima, ritmo, emprego de pausas e do campo semântico, visto que procurei chamar a atenção para aspectos que, geralmente são mais “sentidos” do que vistos.

Faço ressalvas às minhas próprias análises: além de serem pontuais, no emprego da técnica do recorte, são, também, leituras como quaisquer outras. Li, gostei e comentei da melhor maneira que pude, para torná-las mais palatáveis, bem entendido, aqui, que o problema está na leitura, que é  sempre parcial, sectária, por depender, sempre, dos paralelos estabelecidos pelo “postador”. Os poemas, estes sim, devem ser lidos/relidos e você, leitor idealizado/idealizador, deve trazer novas conclusões à luz.

Além disto, os poemas estão publicados e existem independentemente da leitura que deles se faça, seja ela profunda, rasa, ou em nível acadêmico. Importam mais como arte e expressão literária. Permanecerão.

Sobre os dois poetas abordados, José Fabiano, um mestre dos encontros e Heloísa, tenho a dizer, apenas, que desde que comecei seriamente a pensar a poesia tenho por eles um carinho muito especial. Heloísa Zanconato, em meus primeiros anos na trova, antecipou algumas conquistas futuras, e indicou caminhos preciosos. Só tenho a agradecer e render-lhe este singelo mimo, em forma de postagem.

Fonte:
Trovasecia

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15º Encontro Internacional Literário aBrace (Belo Horizonte, 13 a 16 de novembro de 2013)

15º Encontro Internacional Literário aBrace, de 13 a 16 de novembro de 2013, na Cidade  de Belo Horizonte, Minas Gerais. O evento contará  com diversas atividades culturais: lançamentos  de livros, passeios, oficinas de arte,  saraus, recitais de música e poemas e visitas a centros culturais. Participarão vários países da América Latina e de outros continentes.

Para o 15º Encontro Internacional Literário aBrace convoca a Direção do Movimento Cultural aBrace, (ABRACECULTURA), com sede em Montevidéu- Uruguai,  e sua representação em Belo Horizonte, Clevane Pessoa  e Brenda Marques do Imersão Latina( IMEL). Conta ademais com a participação   de Veronica Bianchi (aBrace Representação e Serviços – Uruguai)  e o  apoio das entidades culturais: Marco Llobus (FEC/selo Catitu) , Ricardo Evangelista(Sarau Tropeiro , Lagoa do Nado) , Rogério Salgado e Virgilene Araújo (Belô Poético e Poesia na Praça Sete) ,Claudio Bento (ValeMais),  Iara Abreu (Projeto Aspectos Urbanos), Norália de Melo Castro (cidade de Brumadinho), Rodrigo Starling, e do Restaurante D. Preta.

Para coordenar sua participação e outras informações, solicitamos preencher  e enviar  a ficha de inscrição, até 30 de outubro de 2013, acompanhada do comprovante da taxa de inscrição correspondente.

Agradecendo antecipadamente a sua presença com os nossos melhores cumprimentos,
           Atenciosamente,
Nina Reis y Roberto Bianchi
Directores de aBraceCultura

Ficha de inscrição em português
 

COMO PARTICIPAR DO 15º ENCONTRO INTERNACIONAL LITERÁRIO aBrace
 
Até 31 de outubro de 2013: preencha a ficha de inscrição dentro deste prazo e envie o comprovante do depósito, por email, a abracept@abracecultura.com ou abrace@abracecultura.com  juntamente com os dados:
Nome:___________________________________Data de nascimento:___________________

Email:______________________________Endereço:____________________________

Cidade:______________________Estado:______________________País:____________________

Cep:_______________Telefones para Contato (importante, não deixar de preencher): ____________________

Profissão:____________________________Formação Acadêmica:______________

Nacionalidade:__________________(Envie fotografia)

Breve C.Vitae:(até 10 linhas

___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

MARQUE A(S) ATIVIDADE(S) QUE DESEJA REALIZAR /13 a 16 novembro 2013 (Encontro Literário)
Participação em livro da aBrace editora _____________________________

    Título do livro: _______________________________   
Apresentação de livro individual ___________________________________
Título do livro:____________________________________
Mostra de livros e/ou revistas no espaço do Encontro___________________
Participação em mostra de Literatura infantil _________________________
Leitura de textos e/ou performances no Café Literário__________________ 
Palestras (como palestrante) ______________________________________
(Tema: A integração cultural multilíngüe- Diversidade e Herança cultural – influências e contribuições na formação cultural dos países ibero-americanos a)Envio de texto completo,  até 2000 palavras  – via e-mail:   até 31 de agosto de 2013. b) Cada participante terá 15 minutos para apresentação do trabalho. Pelo número limitado de palestrantes será considerado a ordem de chegada dos textos. Somente será admitida uma palestra por pessoa)
Visitas com leituras, e intercâmbios culturais__________________________ 
 (locais: centros comunitários, bibliotecas, livrarias, escolas, oficinas literárias, etc.)

AS inscrições para o Encontro podem ser feitas através da conta do Banco do Brasil, Agencia 1503-2 / conta corrente: 853931-6 em nome de Rosângela Domingos Fernandes, no valor de R$200,00.
Inscrições para participantes, no local do evento – R$ 250,00. Acompanhantes -isentos da taxa de inscrição.
 Atenção: Em caso de desistência de participação a devolução de valores pagos como inscrição obedecerá ao seguinte critério:
– Até 10 dias antes do Evento, devolução de 50%,
– Após estas datas não será possível nenhuma devolução de valores

Fonte:
Clevane Pessoa

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Don Quijote de la Mancha (Evento em Curitiba, 14 de agosto)

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23 de julho de 2013 · 20:22

Semana dos Escritores de Maringá, no SESC (22 a 26 de Julho)

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Varal de Trovas n 22 – Ialmar Pio Schneider (Porto Alegre/ RS) e Jeanette De Cnop (Maringa/ PR)

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José Feldman (Universo de Versos n. 89)


Uma Trova do Paraná

ARIOSWALDO TRANCOSO CRUZ
Morretes

Se é certo que só quem ama
forma estrelinhas no olhar,
como nosso amor que se inflama
vamos um céu pontilhar.
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

FRAZÃO TEIXEIRA

 
A dor de tua partida,
que não sai da lembrança,
já me levou mais que a vida:
me toda esperança!
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Fui pirata, aventureiro,
no Mar da Felicidade;
hoje, a ferros, sou remeiro
na galera da saudade.
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São José do Mipibu/RN

GILBERTO G. BARBALHO

Coraçao é vida, é chama,
estranho e insondavel cofre,
sofre demais se não ama,
se ama demais, também sofre.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

HÉRON PATRÍCIO

O trabalho não me engana,
disto não arredo um pingo:
quero uma nova semana
só com sábado e domingo!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Eu sinto a brisa do vento
como se fosse magia,
soprando em meu pensamento
os versos que Deus me envia…
========================
Uma Trova Hispânica do Panamá

DIOSELINA IVALDY DE SEDAS

En esta vida tan dura
se debe actuar con templanza
y a quien la fe le perdura
muy pronto su meta alcanza.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Bragança Paulista/SP

MARINA GOMES DE SOUZA VALENTE

As paixões desenfreadas,
excessos de comilança,
mostram vidas desregradas
onde falta temperança.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

MARIA DOLORES PAIXÃO  LOPES
Belo Horizonte/MG  (1932 – 2001)

“Limpou” o supermercado
e desculpou-se ao ser presa:
– Não é roubo, delegado,
é mania de limpeza!
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

O Diabo que tudo logra
– dizem, num tom zombeteiro –
sem coragem de ter sogra
resolveu ficar solteiro…
========================
Um Haicai de São Paulo/SP

ALONSO ALVAREZ LOPES

amor de verão
pipa rompeu a linha
fugiu com o vento
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

 
A definição exata
do remorso, está patente:
fino punhal que não mata
mas tira a vida da gente.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

meiodia      três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

 
Por que, pela humanidade,
só o eu, soa e ressoa? …
– É que há um sapo agachado,
dentro de cada pessoa.
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Retrato Falante

Não há quem não se espante, quando
mostro o retrato desta sala,
que o dia inteiro está mirando,
e à meia-noite em ponto fala.

Cada um tem sua raridade:
selo, flor, dente de elefante.
Uns têm até felicidade!
Eu tenho o retrato falante.

Minha vida foi sempre cheia
de visitas inesperadas,
a quem eu me conservo alheia,
mas com as horas desperdiçadas.

Chegam, descrevem aventuras,
sonhos, mágoas, absurdas cenas.
Coisas de hoje, antigas, futuras…
(A maioria mente, apenas.)

E eu, fatigada e distraída,
digo sim, digo não – diversas
respostas de gente perdida
no labirinto das conversas.

Ouço, esqueço, livro-me – trato
de recompor o meu deserto.
Mas, à meia-noite, o retrato
tem um discurso pronto e certo.

Vejo então por que estranho mundo
andei, ferida e indiferente,
pois tudo fica no sem-fundo
dos seus olhos de eternamente.

Repete palavras esquivas
sublinha, pergunta, responde,
e apresenta, claras e vivas,
as intenções que o mundo esconde.

Na outra noite me disse: “A morte
leva a gente. Mas os retratos
são de natureza mais forte,
além de serem mais exatos.

Quem tiver tentado destruí-los,
por mais que os reduza a pedaços,
encontra os seus olhos tranqüilos
mesmo rotos, sobre os seus passos.

Depois que estejas morta, um dia,
tu, que és só desprezo e ternura,
saberás que ainda te vigia
meu olhar, nesta sala escura.

Em cada meia-noite em ponto,
direi o que viste e o que ouviste.
Que eu – mais que tu – conheço e aponto
quem e o que te deixou tão triste.”
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Bolha de Sabão

Dirás, quando a vires:
“A bola de vidro rola
debaixo do arco- íris”.
==============================
Uma Poesia de Curitiba/PR

CERES DE FERRANTE

Simples Geometria
 
Caminhamos em busca de um encontro…
Nossas vidas eram apenas paralelas.
A curva de nossos braços
não chegou a completar
seu círculo de ternura…
nem eram perpendiculares
nossos caminhos…
por isso permanecemos
dois pontos no infinito.
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

O teu carrinho de linha
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-te e tinha
Só em ti o meu sentido.
========================
Uma Poesia de Azinhaga/Portugal

JOSÉ DE SOUSA SARAMAGO
1922 – 2010

Dulcineia

Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Paraíso Perdido
 
Penso isto: penso que devemos fugir para nos mesmos.

Não são apenas os amigos que nos levam sem reação,
são os cinemas, os teatros, as horas que perdemos nas ruas
quando nosso quarto se fecha silencioso, sem tempo
e esperanças.

Não são apenas as horas que o trabalho me rouba
inapelavelmente, e que não me serão devolvidas.

É a nossa vida, feita sem tempo e de desencontros,
sem pausa para a criação, sem paz para o recolhimento,
sem silêncio para o pensamento, sempre ininterrupta,
passando por nós, enquanto nos deixamos ficar sem alcançá-la…

Penso isto : só a fuga para nos mesmos seria a salvação.
Conheço um amigo pintor que se encontrou em Itatiaia
e ouve o canto dos pássaros e das águas junto às Agulhas Negras.

Meu amor: sinto que vamos chegando à hora em que
devemos voltar ao Paraíso,
ou jamais o reconquistaremos.
============================
Um Soneto de Santos/SP

ORLANDO LOVECCHIO

Soneto da Eletricidade

De tudo, ao meu computador, serei atento,
antes e com tal zelo, e sempre, e de modo tão terno
que mesmo em face de um modelo mais moderno
dele serei sempre o tiete mais sedento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de pagar as contas da Light
que alimenta seus megabytes
sem nenhum pesar ou descontentamento.

E assim, quando mais tarde, num outro dia,
quem sabe a assistência técnica, angústia de quem vive,
pedir pelo seu conserto uns 800 paus,

eu possa dizer do computador que tive:
Que não seja imortal, posto que é fabricado em Manaus,
mas que seja infinito enquanto dure (a garantia)
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Quantas noites de emoção
embalaram meu viver!
Momentos que já vão longe
me fazem compreender
que, entre a luz da vida e a treva,
há coisas que o tempo leva
pra nunca mais devolver!
========================
Uma Poesia Além Fronteiras

BERTOLD BRECHT
Augsburg/Alemanha (1898 – 1956) Berlim Leste/Alemanha

Aos que vierem depois de nós

 Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais frequentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
(Tradução: Manuel Bandeira)
=====================
Um Soneto Premiado, de Niterói/RJ

ALBA HELENA CORRÊA

Meu Pai – Um Lavrador de Sonhos

Meu pai, beijo-te as mãos tão calejadas,
que são prova vivaz do teu labor,
deixavas nosso lar nas madrugadas,
para nos dar o pão do teu amor.

E nas frias manhãs, lembro as geadas…
jamais queixas ouvi de alguma dor,
eras um sonhador nas alvoradas:
mãos rudes, coração de trovador!

Nesse contraste, ao regressar da lida,
à luz da inspiração davas guarida
e te fazias lavrador de sonhos.

O valor do trabalho era exaltado
e, nas trovas singelas, decantado:
na pobreza feliz, rostos risonhos!!!

(5o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013)
==============================
Um Poetrix de São Paulo

ARGEMIRO GARCIA

perfume de mulher

Um sortilégio antigo
deixaste, displicente,
teu perfume comigo.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Elegia

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estela fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando,
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia, em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.
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UniVersos Melodicos

Noel Rosa
 

ÚLTIMO DESEJO
(samba, 1938)

Desmentindo os que subestimam o seu talento musical, Noel Rosa deixou mais de cem composições em que fez letra e música, das quais cerca de trinta têm melodia de ótima qualidade. Pertencem a esse repertório clássicos como “Palpite Infeliz”, “Pela Décima Vez”, “Três Apitos”, “O ‘x’ do Problema” e a obra-prima “Último Desejo”, que por si só lhe garantiria diploma de melodista.

Nessas composições, mostra como era capaz de criar a música exata para a sua própria poesia, da mesma forma que sabia fazer versos adequados para melodias alheias. “Último Desejo” foi escrita no período final de sua vida. Aliás, só seria passada para a pauta quando ele já se encontrava em seu leito de morte, mal podendo ditar a melodia ao amigo Vadico. É um samba autobiográfico, uma mensagem de despedida à amada Ceci (Juraci Correia de Morais), com quem viveu um atribulado caso sentimental e que lhe inspirou várias composições.

Um belo exemplo de canção popular, ao mesmo tempo simples e requintada, “Último Desejo” dá a impressão de que a carreira de Noel começava a evoluir para uma nova fase, mais elaborada. Sua composição mais conhecida, teve a primeira gravação, realizada por Araci de Almeida, em 01.07.37, sendo o disco lançado em março de 38. Morto em maio de 37, Noel não pôde ouvi-lo. Perdeu-se assim a oportunidade de se conhecer sua opinião, que por certo evitaria a longa polêmica sustentada por Araci e Marília Batista, possuidoras de versões diferentes de “Último Desejo”.

Nosso amor que eu não esqueço 
E que teve o seu começo
numa festa de São João
Morre hoje sem foguete,
sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo,
tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora,
que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto,
que meu lar é o botequim
E que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim
(Fonte: Cifrantiga)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

SENHORA DONA ARCANJILA

Todas ficam de cócoras. A menina do centro põe a mão nos olhos. As da roda miam. A do meio tem um pauzinho na mão e com ele vai batendo nas outras, até conhecê-las. Cantam as da roda:

Senhora dona Arcanjila
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua cara

Canta a do centro:

Que anjos são estes
Que estão me arrodiando
De noite e de dia
Padre Nosso, Ave Maria!

Cantam as da roda:

São filhos do rei
E netos do conde
Que eles já se escondem
Embaixo da pedra
Do anjo São Miguel

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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Wilame Prado (Loas ao Rei da Trova)

A.A. de Assis, 80 anos, autor de mais de 10 mil trovas, possivelmente o maior escritor maringaense, será, ao lado de Manuel Bandeira (seu patrono na Academia de Letras de Maringá), o grande homenageado da Semana dos Escritores Maringaenses, que começa amanhã e vai até sexta-feira no Sesc, com lançamentos de livros, mostra, varal de poesia e encontros, em alusão ao Dia do Escritor, comemorado em 25 de julho (próxima quinta-feira).

Laide Cecilia de Sousa, organizadora da semana e assistente administrativa do Sesc, diz que A. A. de Assis participa do evento literário desde sua primeira edição, em 1993, quando o Sesc ainda dialogava com a extinta União dos Escritores de Maringá, presidida pelo saudoso doutor Galdino Andrade. De lá para cá, conta, todos os anos Semana dos Escritores é realizada em julho e permite o encontro dos autores locais, troca de ideias e, consequentemente, divulgação da literatura maringaense.

Mais de 60 escritores da cidade confirmaram presença e serão citados na mostra de biografias e livros. Além disso, haverá varal de poesia, o espaço interativo “Construindo a Poesia” e o lançamento de dois livros infantis (veja nesta página). O jornalista e escritor Antonio Roberto de Paula, membro da Academia de Letras de Maringá e ex-cronista do D+, confirmou presença na semana. Para ele, é mais do que justa a singela homenagem para Manuel Bandeira e A. A. de Assis.

Bandeira dispensa comentários. Deveria ser levantada uma bandeira para ele em qualquer lugar deste País quando se falar de literatura. Quanto ao Assis, é um dos maiores trovadores do Brasil e que tem uma produção ininterrupta e de qualidade. Uma pessoa com 80 anos e que é um menino, de uma sensibilidade que emociona, de uma generosidade exemplar. Acho o Assis genial, ele brinca com as palavras com sutileza ímpar, um domador de letras. Assis é o senhor da trovas. Assis merece ser reverenciado sempre. Além de tudo, é um dos maiores divulgadores de Maringá“, ressalta De Paula.

“Amadores”

Assis precisava sair para um almoço, mas, com sua afabilidade de sempre, gentilmente demonstrou por telefone à reportagem o seu apreço pela Semana dos Escritores do Sesc. “O Sesc é uma das raras entidades que se lembram dos escritores amadores, até porque o escritor profissional vive sempre badalado por aí. A entidade nunca se esquece de prestigiar a prata da casa”, diz ele. Humilde, prefere dizer que foi “um carinho” da Laide a sua escolha como homenageado da semana. “Todo ano, ela se lembra de um de nós e tive a felicidade de ser escolhido este ano. Estou aqui desde 1955 e sempre lidei com isso. Deve ser por isso que me escolheram.”

Do alto do sétimo andar do seu apartamento no Centro, Assis conta que reserva um cantinho para escrever em seu computador – sua principal companhia após a aposentadoria, –  segundo ele , olhando para a imagem proporcionada pela janela aberta que permite ao poeta ver os prédios de uma cidade em crescimento constante. Quando precisa de um pouco de ar, o destino é curto: atravessa a rua e desce poucos metros até o Parque do Ingá, onde se encontra com o “ar verde”.

Assis ensina que a principal inspiração para um escritor deve ser, simplesmente, a vida. “A vida e o que está acontecendo no momento em volta dela. A coisa está acontecendo e aquilo entra em você, você se sente um ator dentro do palco da história, e, como a gente escreve, passa isso pro papel“, diz. Para o escritor homenageado pelo Sesc este ano, o fato de morar em Maringá facilita em muito as coisas para quem se arrisca nas mal traçadas linhas. “Maringá é uma cidade que vibra, a vida aqui é muita intensa, é só estar com antenas ligadas que você capta e transforma isso em texto.”

Fonte:
capa do caderno de cultura do O Diário do Norte do Paraná. Publicado em 20/07/2013 02:00

Montagem da imagem com imagens obtidas na Internet.

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Varal de Trovas n 21 – A A de Assis (Maringá/ PR) e Nemesio Prata Crisostomo (Fortaleza/ CE)

clique sobre a imagem para ampliar

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José Feldman (Universo de Versos n. 88)


Uma Trova do Paraná

FAHED DAHER
Apucarana

Mulher do tempo moderno,
seja lá o que você for,
não há nada mais eterno
que o fogo do seu amor.
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

LECTÍCIA PIRES RANGEL COELHO

Esperança e, simplesmente
um sentimento perjuro:
são mentiras no presente…       
desenganos no futuro…
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Belo Horizonte/ MG

HELOÍSA ZACONATO

Ofensas, busca evitá-las
que a palavra tem raízes;
tu és Senhor do que calas,
mas escravo do que dizes!
=======================
Uma Trova Humorística, de Caçapava/ SP

ÉLBEA PRISCILA S. E SILVA

– Homem que é homem dá duro,
procure um trabalho, diacho!
– Procurar até procuro,
mas, graças a Deus… não acho!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Essas gotas maculadas,
itinerantes no rosto,
são as lágrimas magoadas
que dão vida ao meu desgosto.
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

NORA GRACIELA LANZIERI

Sol de mis días felices
 que iluminan mis sentidos
 brillan siempre tus matices,
 tu luz marca mis caminos.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Lisboa/Portugal

ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO

Quem na vida é moderado
e mantém a confiança,
nos deixa pois um legado
de virtude e temperança…
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ALYDIO C. DA SILVA
Santa Cruz, distrito de Aracruz/ES, (1917 – 2001) Belo Horizonte/MG

Vi num jornal estampado
o perigo que há no beijo.
Antes ser contaminado
do que morrer de desejo!
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Não paras quase ao meu lado … !
e em cada tua partida,
eu sinto que sou roubado
num pouco da minha vida …
========================
Um Haicai de Curitiba/ PR

ALICE RUIZ

primavera
até a cadeira
olha pela janela
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

O tempo passa voando …
Mentira, posso jurar.
Se estou meu bem esperando,
como ele custa a passar!
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
  
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Quem dera que minhas trovas
andassem pelos caminhos,
consolando os desgraçados,
dando pão para os ceguinhos …
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

A Nossa Casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro – tão bom! – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Descrição

Amanheceu pela terra
um vento de estranha sombra,
que a tudo declarou guerra.

Paredes ficaram tortas,
animais enlouqueceram
e as plantas caíram mortas.

O pálido mar tão branco
levantava e desfazia
um verde-lívido flanco.

E pelo céu, tresmalhadas,
iam nuvens sem destino,
em fantásticas brigadas.

Dos linhos claros da areia
fez o vento retorcidas,
rotas, miseráveis teias.

Que sopro de ondas estranhas!
Que sopro nos cemitérios!
pelos campos e montanhas!
Que sopro forte e profundo!
Que sopro de acabamento!
Que sopro de fim de mundo!

Da varanda do colégio,
do pátio do sanatório,
miravam tal sortilégio
olhos quietos de meninos,
com esperanças humanas
e com terrores divinos.

A tardinha serenada
foi dormindo, foi dormindo,
despedaçada e calada.
Só numa ruiva amendoeira
uma cigarra de bronze,
por brio de cantadeira
girava em esquecimento
à sanha enorme do vento,
forjando o seu movimento
num grave cântico lento…
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Pernilongo

Funga, emaranhada
na trama que envolve a cama,
uma alma penada.
==============================
Uma Poesia de Paranavaí/PR

DINAIR LEITE

A Nascente

Ela procura o caminho sereno,
a vereda de menor resistência.
E vai morro abaixo com paciência,
decifrando as nuanças do terreno.

Dança pelas vias, com complacência,
contorna pedras, em correr ameno,
beija a florzinha de porte pequeno,
buscando sempre a sua independência.

Mas, vem de repente, tromba feroz,
de beleza terrível em descida…
Vem surda, jorrando e abrindo ferida.

Com saga suicida ela rola atroz,
a tudo encobre, veloz e bravia!
Mas passa… Sim, passa. De novo estia.
========================
O Universo de Pessoa

Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Dizes-me que nunca sonhas
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?
========================
Uma Poesia de Setúbal/Portugal

HUMBERTO VERÍSSIMO SOARES SANTA

A Sereia

Parei. Olhei o mar. Vi-te sereia.
O Sol ia fugindo em rósea cor,
Louco, corri e ávido de amor
Por ti, perdido, naufraguei na areia.

Do marulhar das ondas em rumor,
Ondulava a canção duma baleia.
Um navio, ao longe, era candeia
Acesa p’lo vermelho do sol-pôr.

Então pensei : morri !…. chegou a hora
De morrer entre os beijos que enlouquecem.
Senti que a minha alma se ia embora,

Subi ao céu !…mil estrelas me aparecem,
A tua boca, na minha se demora.
Teus lábios, nos meus lábios adormecem !
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

O Destino de Uma Flor

    Era um lindo botão
aquele, o do meu jardim…

Para enfeitar a jarra da tua vaidade
tu o cortaste da roseira
sem necessidade,
– a roseira de uma alma que floresce em mim…
…………………………………………………………………

E na jarra da tua vaidade
o botão foi se abrindo, e aos poucos se fez flor
ao sol de uma ilusão… e na felicidade
de enfeitar teu amor. , .

Foi assim,
que algum tempo viveu esplêndida e viçosa
a rosa,
até que foi cansando o teu olhar…

E ontem, quando a apanhaste para pôr uma outra,
– outro lindo botão no seu lugar,
depois que tanto tempo a deixaste esquecida:
– ao toque da tua mão
por encanto desfez-se em pétalas no chão
a flor da minha vida !
…………………………………………………………………..

E só tu, não soubeste ver naquela flor
o fim de um grande amor!
============================
Um Soneto de Natal/RN

FRANCISCO MACEDO
1948 – 2012

O Branco dos Meus Cabelos

Sinto orgulho dos meus cabelos brancos,
são traços biográficos reais.
Qual lágrimas de vela em castiçais,
metamorfoseando solavancos.

Fios itinerantes, saltimbancos,
refletindo paixões transcendentais.
São leituras de histórias colossais,
sempre escritas aos “trancos e barrancos”.

Eles são meu recado à juventude!…
Não fujam a qualquer vicissitude,
vivam intensamente e sem temor.

Este branco tingido em meus cabelos,
tem na longevidade, meus apelos,
em seus rastros deixado pelo amor!
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Quando chega a primavera,
cobrindo o mundo de flores,
parece que nossos versos
se vestem de novas cores,
e nós, de alma renascida,
cantamos o amor à vida
e a vida em nossos amores.
========================
Uma Poesia Indianista, de Santarém/ PA

TATIANE DA SILVA SANTOS

Filhos do Brasil
Eles já foram milhões
Os donos do chão brasileiro
Sem lutas, sem mortes, sem medo
De um mundo com explorações.

Hoje restou a história
E a preservação da cultura
Danças, comidas, pinturas
De um povo que anseia a vitória.

No meio do “descobrimento”
Na rota de uma viagem
À vista de muita coragem
Sem ter mais reconhecimento.

A tribo, a canoa, a oca
O arco, a flecha, o cocar
Tacape, brinco, colar
E o gosto da mandioca.

A força de uma tradição
Que vive para os animais
Perdeu o direito de paz
Pois não é “civilização”.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

FRANCO LOI
Gênova/ Itália1930

2 Poemas de Memória

Olhei o homem e dentro estava ainda
qualquer coisa que da sombra me espreitava.
Era um espelho, como um céu de noite
em que as estrelas são tantas e pesam sobre ti,
e te espiam e, de facto, não te vêem,
ficam no escuro como pedras sem lembranças,
mas estão lá, qual memória da vida,
e tu és um sopro do teu ser longínquo…
Procurei no espelho, e quase lá no fundo
estava outro qualquer que me buscava,
alguém que sofria a sua própria dor,
e eu já não era nada, era só a história
que não se via já atrás do espelho.
***

Eu era outro e via-me a morrer
como a dormir se vê a sombra.
Põe medo a morte dentro do coração
e foge atrás de um espelho, e lá estou eu.
Vejo a vida e a vontade morre:
façam o que quiserem, mas usai-me!
Chamai-me, chamai-me, não me deixeis dormir,
pois sinto que esqueço a minha história
e me torno o homem do meu morrer…
Amor que vem a mim da luz da lua,
alegria de água que passa entre os vivos!
=====================
Um Poetrix de Recife/PE

ANTONIO CARLOS MENEZES

Lisboa

uma guitarra que chora
de longe, um fado
que me toca a alma.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Duração

O tempo era bom? Não era.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
========================
UniVersos Melodicos

Noel Rosa e João de Barro
PASTORINHAS
(marcha/carnaval, 1938)

“Linda Pequena” era uma marchinha despretensiosa, que um dia saiu do anonimato para, repentinamente, tornar-se grande sucesso. A biografia dessa “Cinderela” de nossa música popular começa numa tarde, em fins de 1934, quando Braguinha propõe a Noel Rosa, numa mesa do Café Papagaio: “Noel, vamos fazer uma música com aquele ritmo das pastorinhas que desfilam em Vila Isabel na noite dos Santos Reis?” Proposta aceita, pediram lápis, papel e cafezinho e, em pouco mais de meia hora, compuseram “Linda Pequena”, com a participação dos dois tanto na letra como na melodia. Pouco tempo depois, a marcha seria gravada na Odeon por João Petra de Barros.
A matriz de “Linda Pequena”, não se sabe por quê, permaneceria então onze meses na “prateleira”, para ser lançada em disco em novembro de 35. Não obtendo êxito, a composição chegaria ao final de 37 praticamente desconhecida, ocasião em que Braguinha resolveu lançá-la como reforço à sua produção para o carnaval seguinte. Assim, sem mexer na melodia, mas substituindo duas palavras – “moreninhas” por “pastorinhas” e “pequena” por “pastora” – e o verso “pequena que tens a cor morena” por “morena da cor de Madalena”, ele daria como pronta a nova versão que Sílvio Caldas gravou com o título de “Pastorinhas”, em 13.12.37. Lançada no mês seguinte, logo começou a disputar a preferência do público com outras músicas, credenciando-se como forte concorrente ao prêmio de melhor marcha do carnaval de 38.

Na noite de sexta-feira, 25.02, véspera do carnaval, realizou-se no auditório da feira de amostras o concurso, promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro, que teve o seguinte resultado: marchas – 1°) “Touradas em Madri” (João de Barro e Alberto Ribeiro); 2°) “Pastorinhas”; 3°) “Sereia” (Alvarenga e Ranchinho); sambas – 1°) “Camisa listrada” (Assis Valente); 2°) “Olá, Seu Nicolau” (Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago); 3°) “Juro” (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira).
Somente por algumas horas, porém, valeria a dupla vitória de João de Barro. Já no domingo os jornais noticiavam a anulação do resultado “em virtude do não comparecimento” (ao julgamento) “do presidente da comissão nomeada no edital…”. Na realidade, essa absurda alegação escondia o verdadeiro e não menos absurdo motivo da anulação: o atendimento a um recurso de alguns perdedores, que sustentavam ser “Touradas em Madri” não uma marcha, mas um paso doble, gênero musical estrangeiro, o que a incompatibilizava com o regulamento da competição.
Realizou-se então novo concurso, na tarde de segunda-feira de carnaval (28.02), quando foram eleitas as seguintes composições: marchas – 1°) “Pastorinhas”; 2°) “O Cantar do Galo” (Benedito Lacerda e Darci de Oliveira); 3°) “Ali Babá” (Roberto Roberti e Arlindo Marques Júnior); sambas – 1°) “Juro”; 2°) “Sorrir” (Alcebíades Barcelos e Armando Marçal); 3°) “Camisa Listrada”. Estavam portanto “cassados” “Sereia” e “Olá, Seu Nicolau”, que nada tinham a ver com a briga e, naturalmente, “Touradas em Madri”. Em compensação, premiava-se “Pastorinhas”, resgatada do anonimato e consagrada, a partir de então, como um autêntico clássico de nossa música popular.

Mas, a história desse concurso ficaria incompleta se se omitisse o relato de dois episódios ocorridos durante o julgamento final, que dão uma idéia do clima reinante na ocasião. Primeiro, a súbita invasão do recinto por Mário Lago, à frente de numeroso grupo de foliões, cantando “Pastorinhas” e torcendo por sua vitória; depois, um desentendimento entre Nássara e Braguinha, entrevero de pesos-pluma, imediatamente apartado pelos colegas Ary Barroso e Roberto Martins.
Nássara, autor (com Sá Roris) de “Periquitinho Verde”, concorrente ignorada pela comissão julgadora, provocara Braguinha dizendo que “foi a alma de Noel que ganhou o concurso”. Produto da exaltação do momento, o incidente seria logo esquecido pelos contendores, tempos depois parceiros na marcha “Sereia d’areia”.

A estrela D’alva
No céu desponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor

E as pastorinhas
Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor

Linda pastora
Morena da cor de Madalena
Tu não tens pena
De mim
Que vivo tonto com o teu olhar

Linda criança
Tu não me sais da lembrança
Meu coração não se cansa
De sempre, sempre te amar
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

CACHORRINHO

Cachorrinho está latindo
lá no fundo do quintal
Cala a boca, Cachorrinho,
deixa o meu benzinho entrar

Ó esquindô lelê !
Ó esquindô lelê lá, lá !
Ó esquindô lelê !
Não sou eu quem caio lá ! (bis)

Atirei um cravo n’água
de pesado foi ao fundo
Os peixinhos responderam,
viva D. Pedro Segundo.

Ó esquindô lelê !
Ó esquindô lelê lá, lá !
Ó esquindô lelê !
Não sou eu quem caio lá ! (bis)

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Antonio Brás Constante (Meu Nariz, Sua Boca e um Cigarro entre Nós)

fonte: http://www.not1.com.br
SIM, eu fumo. Fumo através de outras bocas, cada vez que respiro o ar advindo de suas narinas, que exalam fumaças toscas. Fumo de forma passiva, indefesa. Fumo sem ver, sem muitas vezes saber. Fumo por ter que respirar um ar viciado, produzido por você.

Eu padeço de um suplício através de seu vício, perecendo um pouco a cada momento, por causa de suas baforadas desaforadas, desta doença disfarçada de indiferença, que atenta contra a própria vida que em ti se sustenta.

De tempos em tempos uma nova tragada, desta podre fumaça estragada, que viaja em suaves brumas para ser por mim inalada. Sinto-me um cinzeiro humano, contaminado por seus crônicos atos insensatos, que impregnam meus cabelos, minhas roupas, minha mente, com o cheiro que brota das cinzas de suas guinbas decadentes.

E você se acha uma pessoa bacana, sorvendo seu cigarro até a bagana. Soprando a morte aos ventos da própria sorte. Meu pior sortilégio é ser vítima casual de suas ações fugazes para tentar fugir do tédio.

Indivíduos movidos por uma ânsia que vai apagando o fogo de sua essência, queimando suas entranhas com todo tipo de moléstias estranhas. Alguns chegam a clamar por direitos equivocados de usufruir do funesto tabaco, por tantos outros execrado.

Quem cai nas garras desse frenesi, sabe o quanto é fácil começar e difícil parar de fumar. Onde o condenado ainda paga para poder se matar. Coloca na boca a arma e vai disparando para dentro de si mesmo atroz veneno, consumido em frascos tão pequenos. Atira uma, duas… Inúmeras vezes (e seus pulmões que se danem sofrendo a esmo).

Vão se matando aos poucos, e alguns ainda dizem que eu é que sou louco (talvez só um pouco). Mas acho que é porque quem respira tais toxinas às vezes desatina. Vai assassinando sua tênue existência todo santo dia, em troca da fútil nostalgia de soprar fumaça, imitando a chaminé de uma lareira nefasta.

Suicidas que se acham modernos. Fumam para espantar os seus demônios internos. Fumam pela rebeldia, ou para simular alegria. E eu sigo fumando com eles. Adoecemos, combalidos por essa desgraçada fuligem amaldiçoada. Agora se me derem licença vou tomar minha cachaça, pois já que é para se acabar, enfisema ou cirrose tanto faz. O importante é saber que no fim alguém vai acabar lucrando, enquanto vamos todos nos matando. Enfim, como para meio entendedor uma boa palavra basta, só posso deixar uma dica: fumar MATA.

***
A PROPÓSITO: Falando um pouco sobre a notícia de astronautas que perderam suas ferramentas no espaço, fica a pergunta: Afinal, perder coisas no espaço pode ser considerado um acontecimento sem gravidade?

Fonte:
O Autor

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Humberto Veríssimo Soares Santa (Árvore de Versos)

 A ÁRVORE

O vento assobiou soprando forte.
A árvore foi bailando, sacudida,
Enfrentando as rajadas, destemida,
Pra não vergar seu tronco, ao vento norte.

Desconhecia a triste, a triste sorte,
Teimando em defender a própria vida!…
Sem força, sem poder e sem saída,
Enfraquecida, foi perdendo o porte.

Exausta, a gigante soçobrou!…
Eu vi, quando a senti perder a fé
E a última rajada a empurrou.

O colosso vergou, caiu e até
Foi num choro de folhas, que tombou!…
…Há árvores que não morrem de pé!

A CARTA

Na carta, assinaste : Coração.
Em vermelho batom, colaste um beijo.
Ouço sons de violino… são o arpejo
Do suave dedilhar da tua mão !

No ar, sobem mil bolas de sabão
Levando para o espaço o meu desejo.
Procuro ao meu redor mas se te vejo,
Essa imagem não passa de ilusão.

Distante, viajante e perdulária
De gestos, de surpresas… nostalgia !
Sonho-te Vénus da antiga estatuária

Que ao espírito, em luz, dá alegria.
Dorme hoje no meu sono, ó solitária !…
Ah !…Veste-me de ti…. ó simpatia !!!…

DÁLIA NEGRA

Ó africana semente !…
…Quem te trouxe de além-mar
Rumo a outro continente,
Para terra tão diferente
Da terra do teu lugar ?

Rainha de mil amores !
Cor de ébano, menina,
No jardim, entre outras flores,
Cor perdida entre outras cores,
Negra flor que nos fascina !

Dália negra !… Qual o fim ? !…
Linda flor !… Que é da ventura ?
Que é de ti nesse jardim,
Sonhando com o jasmim
Que te roubou a frescura ?

A NUVEM

Sei não ter energia pra ser estrela
Mas tenho o meu lugar no infinito
Qual branca nuvem no azul bonito,
Alvo espelho de luz, que o Sol revela.

Essa nuvem, no céu vós ireis vê-la
De contorno indefinido, meio esquisito,
A parte do meu ser em que acredito,
Volátil, orgulhosa, informe e bela !

A nuvem… alma minha, ilusão !
Verá que o ser humano não melhora :
Só os poetas e os loucos sonharão.

A nuvem, correrá p’lo mundo fora
E as lágrimas que em chuva cairão
Serão da alma-nuvem que em mim chora !

A SOMBRA

A Sombra deslizou pelo salão
E parou frente ao trono do Poder :
– Tudo o que podes, não te vai valer
Porque o Poder não passa de ilusão.

Levantou-se o Poder com decisão :
– O que dizes…ó sombra deprimente ?!…
Como te atreves tu, que nem és gente,
A sentir o poder da minha mão ?!

– Não há força que valha, quando passo,
Sou eu, a Sombra, quem te dita a sorte.
Não há Poder que fuja ao meu abraço

Quando eu, a Sombra, o aperto forte.
Todo o Poder, aonde vou, desfaço !
Se tu néscio, és Poder, eu sou a Morte !

A TÚNICA

Levei o meu silêncio à catedral.
Ajoelhei entre os bancos alinhados
Sentindo em mim, o peso dos pecados,
Quedei-me ali, na nave principal.

O Sol abria cor num só vitral
Com Cristo e dois ladrões dependurados.
Guardas romanos que jogavam dados
Davam a cor do sangue àquele local.

Era jogado o espólio do inocente,
A túnica do próprio Redentor.
Senti-me a testemunha ali presente

E olhei a opulência ao meu redor.
Se nada fiz, nem quis mudar tal gente,
Fui eu que te matei… ó meu Senhor !

 A ÚLTIMA CENA

No palco, o velho actor fungou e disse :
– Escutem !… Hoje a máscara caiu !
Alguém roubou a peça e fugiu
Pra que o acto final não se cumprisse.

A cena principal era : “Velhice”.
O povo arrefeceu. Nunca se viu
Tanta gente a tremer, cheia de frio,
Para assistir à última tolice.

A multidão gritou horrorizada :
– O que foi ?!… O que foi que aconteceu ?!
Qual o final da peça aqui roubada ? !

O velho mascarou-se e olhou o céu.
Só uma voz se ouviu entusiasmada :
– Viva o actor !… – e o velho actor morreu.

A VIRGEM NEGRA

Sempre que a virgem negra ajoelha em prece
Em frente do altar-mor da catedral,
A súplica em silêncio acontece,
Pedindo o grande abraço universal.

Pelo negro da pele passeia a dor,
Em anseios de amor já transformada.
A alma é branca, não devendo a cor
Tornar a linda virgem, mal-amada.

Na arte da sagrada catedral,
São brancos… anjos, santos e cupidos.
Negros!… Só Satanás e anjos do mal.

Os santos de pele negra, estão esquecidos
Mas são raios da luz celestial
Que só p’la virgem negra, são sentidos !…

ABRAÇO DA SAUDADE

Sou fantasma na casa velha e triste !…
Na sala o tempo geme, sufocado.
Meus passos soam secos no sobrado…
Tudo o que foi aqui, já não existe.

Procuro em vão por ti mas tu sumiste.
Só a saudade abraça o meu passado,
Pai, diz-me aonde estás ?!… Para que lado
Fica o mundo de luz, pró qual partiste ?

Ao abrir portas na recordação
Preciso estar por ti acompanhado :
– Chega-te a mim, vem !… dá-me a tua mão !…

Vem pisar os caminhos da lembrança.
Quero ficar a ti aconchegado
E ao teu colo… voltar a ser criança !…

ABRAÇO

Junta o teu coração ao meu e agora
Os dois seremos um na caminhada,
Alma com alma, ambos de mão dada,
Serenos pela vida… vida fora.

Sempre que um estiver triste, o outro chora.
Se um rir, o outro solta a gargalhada.
A estrada dum, será do outro a estrada,
Quando um está perto, o outro não demora.

O nosso abraço, abraça a vida agora,
Protegendo na arena o nosso espaço,
Um dia um vai partir e ao ir-se embora

Levará deste amor algum pedaço.
Se for eu o primeiro… nessa hora,
No céu, fico esperando o teu regaço !

ALMA VESTIDA

Um vulto nu e só, dança na estrada
Lavando, com seus sonhos, corpo e alma.
Perdido, foi parar na encruzilhada
Onde nem no cansaço, sente a calma.

Quem és tu, dançarino do caminho ?…
Que fazes por aqui, bailando nu ?…
Que fazes neste mundo, tão sozinho ?…
Homem (que sou eu)… diz !… – Quem serás tu ?…

Pra seres o ditador da própria sorte
Nesta difícil dança que é a vida,
Terás que demonstrar que és o mais forte

Erguendo alto, a fé nunca perdida.
Só assim vencerás a própria morte,
Nu de corpo, porém de alma vestida !

AMANTES

Dançaste, deslizando, divertida.
Depois, foi em nácar que te tornaste
Quando só, quase nua, meio vestida,
Na relva do jardim te acomodaste.

Beijada pela luz, sob a ramagem,
Estes meus olhos viram-te princesa,
Tendo eu, logo ali, virado pagem,
Guardião dessa fonte de beleza.

O sol que abria o verde, distraído,
Penetrando seus raios entre a folhagem
Era um ramo dourado, que caído,
Punha pequenos sóis na tua imagem.

Ao longe um girassol virava lento
Seguindo a cor do Sol embevecido.
Um cisne, só, nadava pachorrento,
De branco e de elegância bem vestido.

Beijei nesses teus seios a beleza,
Bebendo em delírio a tua imagem
Que via no teu trono de princesa
Comigo a teus pés, nascido pagem.

Mais tarde, quando o Sol já se deitava,
Rebolámos p’lo chão mais uns instantes
Sentindo a brisa terna, que afagava
Os nossos corpos de eternos amantes.

Fonte:
Portal CEN.

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Humberto Veríssimo Soares Santa (1940)

Humberto Veríssimo Soares Santa – Nascido a 31 de Outubro de 1940, numa pequena aldeia do litoral português, Atalaia da Lourinhã, de onde saiu com dois anos.

Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Setúbal, tendo estado ligado à Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, onde foi responsável pelo Departamento de Coordenação de Operações, encontrando-se hoje na situação de aposentado.

É casado com Margarida Augusta Correia Pinto Soares Santa que alia à arte de desenhar uma elevada sensibilidade poética e lhe ilustra todos os poemas com magníficos desenhos a lápis ou a nanquim.

OBRA LITERÁRIA
POESIA :
MUNDO DE QUIMERA – Edição do autor 1999

COLECTÂNEAS :
POIESIS V e VI – Editorial Minerva – Lisboa – 2001
TEMPERA(MENTAL) – Editorial Minerva – Lisboa – 2002
PROSA & VERSO II – Projecto Palavras Azuis – Blumenau (BRASIL) – 2003
I ANTOLOGIA DO PORTAL CEN – Edição L.P. Baçan – P. R. – Londrina – BRASIL 2004
TERRA LUSÍADA – Edição Abrali – BRASIL – 2005

LIVROS VIRTUAIS :

REDENÇÃO
FRASCOS com gotas de poesia
SENTIMENTALMENTE
FANTASIA NO LAGO DOS SONHOS
O BERGANTIM DE CRISTAL
O OÁSIS DO AMOR
O PENSAR PROSAICO DE PEQUENOS POETAS
MUNDO DE QUIMERA I – II – III
ALMA PEREGRINA
O TEMPO E O VERBO

Participação em várias ANTOLOGIAS

Fontes:
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/ligia_amigos_humbertosoaressanta.htm

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Marcos Pasche (Assis Lima, de cântico e de corte)

Por vezes nos deparamos com uma assertiva a dizer que certos autores, ao desenvolverem sua bibliografia, estão escrevendo e reescrevendo sempre o mesmo livro. Alargando um pouco mais a ideia, muito me chama a atenção a hipótese de certos autores nordestinos formarem uma família antropoliterária, os quais traçam e trançam na mesma renda a inesgotável e árida epopeia da vida e da morte agrestes.

Vou omitir, por falta de lembrança ou de conhecimento, nomes importantes, mas penso que tal família tenha seu precursor em Augusto dos Anjos, sendo configurada por Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito e Daniel Mazza. Não se pode negligenciar as miríades de poetas cordelistas e cantadores espalhados pelas feiras e empalhados nas prateleiras do menoscabo da “alta cultura”.

Tais autores irmanam-se ao tomarem mutuamente os procedimentos formais e os temas constantes da obra de seus entes, sem que isso nos cause, admiravelmente, a sensação de previsibilidade ou mau epigonismo. Todos eles desautorizam a visão pitoresca do espaço sertanejo, encravam a caatinga em seus parágrafos e estrofes, tornando-a metáfora de espaços e tempos de todos os lugares e épocas, sejam as ágoras mitológicas da Grécia, sejam os bíblicos e empoeirados caminhos da Palestina. São eles xilos ou litogravadores da palavra, visto lançarem-se de encontro ao hiperbólico mosaico da linguagem para dele extrair ou nele imprimir, à mão de faca, a palavra certa e seca. Sublimadores da brutalidade, valem-se de mão de vaqueiro, que por um instante é capaz de domar a vida: domadores do discurso, penduram a encharcada escrita à cerca e ao sol para que se lhe retire toda a gordura, até que sobre apenas o substantivo couro. Alunos dos seixos, concebem a partir do vento quente e da areia seca, pois tanto o sopro como o barro têm uma saúde incoerente para esta gênese.

Assis Lima pertence à linhagem desses escritores, umbilicalmente ligados ao sertão e espiritualmente dados ao mundo. Nascido no Crato, interior do Ceará, Assis, médico de profissão, fixou residência na urbaníssima São Paulo. Nela desenvolveu o notável estudo Conto popular e comunidade narrativa, que a um só tempo registra e abraça a vocação do povo nordestino para a oralidade, a qual, de tão bem aprendida com os gregos, tornou-se invenção patrimonial sua. Como poeta, Assis presentificou os aspectos mais representativos de sua genealogia artística em Poemas arcanos, livro repleto de evocações locais e translocais, todas enoveladas em cantigas, “incelenças”, lendas e evangelhos.

E para perpetuar o movimento contínuo de ressurreição de sua família autoral e assinalar seu fio particular, Assis Lima dá ao primeiro texto do seu Marco misterioso o aqui infiltrado título de “Água”, com o qual diz não e sim à sua sina – “O deserto esteve fincado dentro de mim” (…) // “Que me cubra o nevoeiro!”. Essa peleja, típica do homem em apreço e repulsa pela matéria de que se constitui, tem presença cativa em diversas passagens do livro, e em textos como “Caleidoscópio” ganham a feição de arena onde duelam ser e transcender: “As pedras, uma extensão de mim. / E dentro das nuvens, a extensão de todas as pedras”.

Assis Lima é a assinatura literária de Francisco Assis de Sousa Lima (com o nome civil ele registrou sua tese acadêmica). Há nessa heteronímia o amálgama de símbolos próprios da literatura que o autor desenvolve e da casta à qual pertence. Francisco (de) Assis é nome de um dos mais expressivos personagens bíblicos, ao passo que “sousa” – registram os dicionários portugueses – é um tipo de pombo aguerrido, não por acaso tomado como imagem de brasões familiares. No Brasil, Sousa é uma cidade do sertão paraibano. Já então se vê o anelo do local e do universal, ao qual se liga a fusão da figura do santo e do bicho guerreiro, ambos imagens diletas da cultura nordestina. “Lima” é uma fruta cítrica, ácida, cortante, e mais ainda o é a lâmina com que o autor decepou sua identidade em consonância com o corte literário: os Poemas arcanos, da primeira para a segunda edição, foram reduzidos a quase metade, e este Marco misterioso já vem ao mundo com uma seção amputada, visto ser e não ser pertencente ao conjunto do que agora se publica. E não nos esqueçamos: o Rio São Francisco encrava-se gigantesco no solo e na sola do Nordeste, cercado de seco por todos os lados, cortando-o de ponta a ponta.

Mas a coisa não se fia por aqui: dentro deste volume a escrita se mostra mais muscular quanto mais se depura da carne das palavras, como se fosse (e é) possível enrijecer-se de ossos. É o que se observa no finamente geométrico engenho de “Ângelo Monteiro”, ou no obsessivamente talhado “Sem título”:

Pelo verso
e avesso
em teu colo
me teço.

Por teu vinho
e chama
minha sede
clama.

Em teu seio
redoma
me rendo
genoma.

Essa poética busca uma dicção quite em seus desacordos, e o poeta desgarra-se do parentesco a fim de tanger os próprios passos e o próprio canto. Por isso o leitor verá também um feito marcante do livro no caudaloso “Via Sacra pela morte do filho”. Trata-se de um poema de alta voltagem dramática, construído a partir do arranjo das vozes do pai consternado e do coro que se encarrega de verbalizar o roteiro fúnebre:
“Prepara-te, corpo
que chegou teu dia,
recebe esta roupa,
vai em boa companhia”.

E dentro do rio turvado de lágrimas brotam as teimosas águas de “Vida de violeiro”, poema nordestiníssimo por suas cores e sons. O ritmo cantante da redondilha heptassilábica embola na malha do texto a evocação de cantadores lendários, como Cego Aderaldo e Zé Limeira, quando toda a embolada ganha o tom de uma ciranda, viva porque cantada:
“‘Quem não canta neste mundo
no outro fica engasgado,
pois o nosso mundo é este,
que o outro, é do outro lado,
por isso cante com a alma
que a vida lhe deu de agrado
para alegrar quem não canta
e alegrar quem está calado!’”.

Foi o poeta-violeiro quem mandou. Que a sua leitura seja, portanto, a rima a unir poesia, alma, corpo e alegria.
=======================
    (Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)

Fonte:
8Oa. Leva da Revista Diversos Afins; entre caminhos e palavras, (http://diversosafins.com.br/), in Aperitivo da Palavra

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Dulce Rodrigues (Uma Enguia no Aquário)

Esta é mais uma estória verdadeira dos meus tempos de menina e moça e de um estranho animal de estimação que tive: uma enguia! Leram bem, tratava-se de uma enguia. Como talvez saibam, o ensopado de enguias é uma especialidade culinária muito apreciada em Portugal. Acontece que os meus pais sempre foram doidos por este petisco e, assim, um dia, a minha mãe e uma das suas amigas foram ao mercado e compraram enguias.

A minha amiga Graciete e eu tínhamos acompanhado as nossas mães e reparámos que das enguias compradas duas ainda estavam vivas. Chegadas a casa, apressámo-nos, pois, a ver o que era feito das duas bichezas. Elas continuavam vivas!

Pedimos então para ficarmos com elas, e cada uma das nossas caras enguias tomou lugar num aquário, esses pequenos aquários redondos usados muitas vezes para peixes encarnados. As enguias afinal também são peixes, não nos podemos esquecer disso.

Apesar de tudo, mesmo tratando-se de uma só enguia, não é coisa muito fácil de ter num aquário pequeno – o tamanho da nossa amiga enguia em breve tinha ultrapassado o de um peixinho encarnado!

Mudei-a então para um grande recipiente de vidro, que a minha mãe tinha entretanto comprado para o efeito, e a minha amiga seguiu em breve o meu exemplo. Dávamos-lhe comida para peixes, e as duas enguias estavam cada vez maiores, e bonitas que era um regalo!

Mas, o mais surpreendente de tudo, era a maneira como a minha amiga enguia reagia quando ouvia a minha voz. É difícil de imaginar que um peixe – seja ele uma enguia ou outro peixe qualquer próprio para aquário – possa reconhecer uma voz familiar e tirar a cabeça de fora de água como se nos quisesse cumprimentar.

Pois bem, era exatamente o que fazia essa malandra de enguia que eu tinha adotado! Mal eu chegava a casa e falava, eis que ela andava à roda dentro do aquário, com a cabeça fora da água, até que eu a viesse saudar. Ela não tinha este comportamento com mais ninguém. Era como se soubesse que eu lhe tinha salvo a vida!

Um dia, a minha amiga teve de se ausentar durante algum tempo, e pediu-me para me ocupar da sua enguia, que imediatamente tomou lugar no aquário, ao lado da minha.

Contudo, a recém-chegada não foi bem recebida! A minha amiga enguia, como uma filha única e mimada, teve ciúmes desta invasão de domicílio e quis mostrar quem era a dona da casa, mordendo a intrusa.

A pobre bicheza conservou para o resto da vida a marca desta mordidela, mas para grande felicidade de todos, elas acabaram mesmo assim por se entender e viver as duas em paz. O que foi ótimo, visto que a minha amiga já não podia tomar conta da sua enguia e tinha-me deixado.

Os anos passaram e as duas enguias tinham-se tornado enormes, o que provocava alguns problemas quando da mudança de água do aquário – o corpo alongado e escorregadio impedia-me de lhes pegar com a rede, como teria feito se se tratasse de um peixinho.

Mudava, pois, a água com elas lá dentro. Fazia com muito cuidado esta operação delicada, mas um dia, uma das enguias escapou-se para os esgotos.

Ao ver a minha tristeza, o meu pai tentou consolar-me dizendo-me que era a melhor coisa que lhe poderia ter sucedido, pois assim ela iria dar ao rio, que era o seu meio natural. O meu pai tinha razão, e compreendi que devia igualmente dar a liberdade à outra.

E assim o fiz. Alguns dias depois, lancei-a ao rio que corria a alguns quilômetros da nossa casa.

Mas recordar-me-ei sempre com ternura das minhas belas enguias! E espero que tu te recordarás também desta estória.

Fonte;
PORTAL CEN

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Dulce Rodrigues (1941) autobiografia

Lisboa, 29 de Abril de 1941.

O meu nome é Dulce Rodrigues e sou a autora de A Aventura do Barry e outros livros infanto-juvenis em português, francês, inglês e alemão, assim como do sítio multilingue para crianças e jovens http://www.barry4kids.net.

Nasci num dia de Primavera, já lá vão muitos anos… “Alfacinha” e portuguesa de nacionalidade e de coração, vivi grande parte da minha vida na cidade que me viu nascer. Mas embora traga Lisboa e o meu belo Portugal sempre no coração, a minha “aventura” profissional levou-me a outras cidades e países. Durante cerca de quarenta anos, reparti a minha vida profissional entre o meu país de origem – que adoro – e os países estrangeiros que adoptei e que me adoptaram. Isso tem-me permitido divulgar mais facilmente a enorme riqueza cultural do meu país e conhecer de perto novas gentes e mentalidades, o que inevitavelmente abriu o meu horizonte espiritual e influenciou a minha própria vivência.

Divido agora o meu tempo entre as viagens afectivas ou de lazer, e os livros – como leitora e como autora. Escrever, sobretudo para crianças, é fonte de grande prazer e realização pessoal.

E porque a língua é a alma de um povo, a melhor maneira que encontrei para compreender os outros foi aprender a língua deles. Sou poliglota, falo seis línguas vivas e escrevo regularmente pelo menos em três, o que me permitiu ganhar quatro prémios em concursos literários internacionais com contos para crianças em três línguas.

Os meus verdes anos passei-os no Bairro da Encarnação. Os meus pais mudaram-se para lá na véspera dos meus quatro anos. Ali frequentei a escola e encontrei os primeiros amigos e amigas, e muitas dessas amizades perduraram através do tempo; algumas, infelizmente, já nos deixaram prematuramente.

Fui uma adolescente como tantas outras, mas nesse período da minha vida começou a manifestar-se o meu interesse pela escrita, pela Ciência e pela História… Circunstâncias várias levaram-me, contudo, a seguir primeiramente o campo das Letras. Talvez porque comecei cedo a contactar com Alemães, uma vez que o meu pai praticamente sempre trabalhou na Siemens em Portugal, apaixonei-me pela língua alemã, e logo após ter terminado o meu curso do British Council, inscrevi-me no Goethe-Institut, que alguns anos mais tarde me ofereceu uma bolsa de estudos, o que me levou a viver pela primeira vez num país estrangeiro e a começar a tomar verdadeiramente gosto pelas viagens.

Regressei a Portugal, mas o apelo da Alemanha, que para uma jovem adulta da época representava a aventura e a liberdade, foi mais forte. Assim começou uma carreira professional internacional que interrompi para voltar de novo para Portugal. Mas alguns anos depois parti novamente. E como a vida às vezes nos prega partidas, embora eu seja contra a guerra e contra tudo o que é violência, a verdade é que as minhas vivências profissionais no entrangeiro me levaram sempre a trabalhar com organizações de carácter bélico. Nos anos 60, na Alemanha, fui tradutora de inglês/alemão junto do ENGCOMEUR, por outras palavras, do Comando de Engenharia das Forças Armadas Norte-americanas na Europa, entidade que pertencia ao Ministério da Defesa dos Estados Unidos. Anos mais tarde, já nos anos 80 e no Luxemburgo, fiz parte do pessoal internacional da NAMSA, ou seja, da agência que faz a manutenção e reparação de material bélico para os países que pertencem à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Foi esta organização que me ofereceu a minha segunda bolsa de estudos, quando paralelamente à minha actividade profissional me decidi a pisar de novo os campos universitários, desta vez com uma universidade inglesa, para finalmente realizar o meu sonho no campo da Ciência.

Tenho uma grande ânsia de aprender sempre e cada vez mais, e todos os assuntos me fascinam. A História é outra das minhas paixões, especialmente a de Portugal, e dela tenho feito o tema das minhas conferências. Adoro viajar e sou um pouco como o vento – sempre em constante deslocação. Mas aprecio igualmente o aconchego da minha casa, quer seja a de Portugal ou a da Bélgica. Sou uma apaixonada pela Natureza, pela sua grandeza e diversidade. Aprecio todas as formas de expressão artística, desde que elas nos transmitam Beleza, pelo que sinto uma grande tristeza quando penso na Arte – se é que podemos dar-lhe esse nome – que nos legou o final do século XX e com que se estreou o século XXI. E porque amo a Vida, ela também tem sabido amar-me.

Sou membro de várias associações, tanto em Portugal como no estrangeiro.

BIBLIOGRAFIA:
“Era Uma Vez Uma Casa”;
“Piloto e Lassie, uma outra estória de Romeu e Julieta”;
“Há Festa no Céu”;
“O Pai Natal está constipado”;
“A Aventura do Barry”; 
“Barry’s Adventure”;
“Father Christmas has the Flu”;
“Il était une fois une Maison   ;
“Le Ciel est en Fête” ;
“Le Théâtre des Animaux” ;
“Piloto und Lassie, Romeo und Julia einmal tierisch anders”;
“Der Weihnachtsmann ist verschnupft”;
“Travelogue – Egypt through the Eyes of a Western Woman”

Fonte:
http://www.dulcerodrigues.info/dulce/pt/bio_pt.html

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José Roberto Hofling (Ausência)

Ontem à noite, melancólico e saudoso, enquanto escrevia uma longa carta de amor à minha mulher viajante, olhei sem querer para a mão esquerda e comecei a achá-la enfadonha e irrelevante.

Ali parada sobre a tábua da mesa, sem função nenhuma, era um apêndice besta, carecido de utilidade, boba mesmo, comparada com a outra direita, esperta e próspera. Antes que este fato tomasse por demais minha atenção e, considerando que sou homem prático e decidido, resolvi então eliminá-la.

Sobre o cepo de rachar cavacos, depositei-a inerte, branca, unhas por fazer e, sacando da bainha o facão, tchooooomp.

Fora um golpe de mestre, digno mesmo da minha proverbial habilidade. Ao vê-la ali prostrada e sozinha, quase senti pena, mas nem um pingo de arrependimento. Afinal, exigia trabalho extra e a maior parte do tempo vivia encolhida e suada dentro do bolso, sempre a imaginar coisas.

Porém, previdente e parcimonioso que sou, a exemplo de meu avô marceneiro, diligente catador e colecionador de objetos inúteis, resolvi mantê-la guardada. Quem sabe um dia, um penduricalho de colo, um enfeite de mesa, peso de papéis, sei lá, farei uma bobagem qualquer. Bem feito! Não tangia serrote, não mexia panela, não tirava sapato, nem coçava, nem nada. Bem feito mesmo!
Hoje estou feliz, mais leve, menos preocupado com coisas inúteis.

Além disso, e mais por isso talvez, acabo de receber telegrama da minha mulher que inesperadamente retorna de sua longa viagem!

Apresso-me, calço-me de sapato novo e dirijo rápido como o vento, rumo à rodoviária.

Olhem só, lá está ela, linda como sempre com seu indefectível lenço de seda , dentes alvos à mostra, sorrindo aquele mesmo e delicioso sorriso, um pouco mais gorda talvez. Lá vem ela! Mala abandonada no chão, beija em minha boca, gruda em meu pescoço. Afastando-se um pouco, mãos sobre meus ombros, olha-me de alto a baixo e de repente empalidece. Uma sombra gigantesca ataca seu rosto e murcha sua boca. Sua ampla testa se enruga, os braços penduram-se no corpo voluptuoso.

A volta para casa é longa e silenciosa. Responde monossilabicamente à minha ansiedade de conhecer suas andanças, olha-me apenas de soslaio. A chegada em casa é pior ainda. Aos cães, há tempos sentindo sua falta, dirige apenas um afago breve e desprovido de entusiasmo, para em seguida trancar-se no quarto.

Que diabos é isso agora? Não posso compreender. É certo que estou um pouco mais velho, a barba longa demais, mas não considero motivos suficientes para tanto e tão prolongado constrangimento. Será que é o que eu estou pensando? Será que ela teria notado, em sua perspicácia, a falta daquele… Não é possível! Não é possível! Será?

Bem, pelo sim e pelo não, não me custará nada. Posso aproveitar seu banho e arrumação das roupas, para recolocar aquele traste de mão em sua posição original. Sim é isso mesmo! Uns pontos aqui, outro remendo ali, depressa! Pronto! Mais um serviço bem realizado. Na verdade uma obra de arte.

Entro sem ruídos. Na obscuridade vespertina do quarto ela vira-se para mim e, buscando ansiosamente com o olhar a mão reimplantada, fixa demoradamente seu olhar na aliança de ouro. Seu rosto resplandece como nunca visto antes. Então, esticando os braços abertos em minha direção e sorrindo novamente, cobre-me generosamente com sua magnífica e desejada nudez.

Fonte:
http://www.releituras.com/ne_jrhofling_ausencia.asp

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 13

CAPÍTULO V

Desde que André se mudou para o colégio, a casa de Teobaldo foi aos poucos perdendo o seu digno aspecto de asseio e de ordem, até se transformar em verdadeira república de estudantes.

A Ernestina ficou pasma.

— Como este rapaz tem mudado!… Exclamava ela a cada instante, sem atribuir sequer ao outro, ao feio, a alma da primitiva limpeza e do primitivo arranjo, que tanto a maravilharam.

Agora, Teobaldo já não tinha, como dantes, certo escrúpulo em conservar a casa decente. Os seus companheiros da pândega, que lhe pareciam com mais freqüência, já não lhe ouviam dizer em certas ocasiões: “Não; não façam isso, para não afligir o Coruja! Ele não gosta destas brincadeiras!…”

Ernestina suportava-lhe as estouvices porque não tinha outro remédio: adorava-o cada vez mais; sofria em vê-lo tão extravagante, tão sem correção e sem ,juízo, mas sofreria ainda pior se não o pudesse ver absolutamente.

Enquanto a não abandonara a esperança de conquistá-lo, empregou para isso todos os recursos de sua ternura; depois, certa de que nada conseguiria, resignou-se às migalhas do amor que ele lhe atirava de vez em quando, como para a esfaimar ainda mais.

A infeliz já se não queixava e já nem sequer procurava disfarçar o seu cativeiro; entretanto, um dia em que lhe apareceu na porta uma mulher alta, bonita, vestida com um certo exagero de moda, a perguntar muito desembaraçada se era ali que morava Teobaldo, ela disparatou:

— Pois até mulheres já queriam entrar também na patuscada? Era só o que faltava!

E, fechando-lhe a porta no nariz:

— Procure-o na rua, se quiser!

Depois, meteu-se no quarto e pôs-se a chorar, como uma desesperada. Às três horas, quando Teobaldo chegou de fora, ela foi-lhe ao encontro e, mais branca do que a cal da parede, os beiços trêmulos, as feições estranguladas de ciúme, disse-lhe quase sem poder falar:

— Isto não pode continuar assim!

— Assim, como?

— Nesta desordem em que vai tudo! O senhor está um perdido!

— E a senhora que tem a ver com isso?

— Quero desabafar!

— Pois desabafe, mas que saia longe daqui!

— Cínico!

— Não me aborreça!

E Teobaldo galgou a escada do segundo andar.

Ela seguiu atrás.

— O senhor precisa mudar de vida! Exclamou penetrando no quarto.

Ele com a certeza de quem é amado a ponto de lhe perdoarem tudo, pôs-se a cantarolar, tirou o paletó e estendeu-se sobre o divã.

— Até aqui, prosseguiu Ernestina, sem poder conter a cólera; até aqui suportei e suportei muito! O senhor transformou esta casa em uma república, mas agora a coisa é outra; agora até as mulheres querem entrar na pândega!

— Hein? Fez Teobaldo, voltando-se para ela.

— Sim, senhor! Veio aí uma mulher à sua procura.

Teobaldo deu um pulo da cama.

— Uma mulher? Exclamou. Ah! Eu bem contava que ela havia de vir!

E, voltando-se vivamente para a rapariga:

— Uma mulher alta, não é verdade? Pálida, de olhos pretos!…

— Vá para o diabo que o carregue! Respondeu Ernestina virando-lhe as costas e saindo do quarto furiosa.

— Então … Disse consigo Teobaldo, esfregando as mãos; voltou ou não voltou?… Ah! Logo vi que Leonília havia de voltar !…

Leonília era a mais formosa criatura que empunhava nesse tempo o cetro do amor boêmio. Teria então pouco menos de trinta anos e parecia não haver ainda orçado pelos vinte. No poema de sua vida, poema caprichoso e fantástico, escrito au jour le jour, ora com lágrimas, ora com champanha, Teobaldo representava talvez a página mais sentida e com certeza uma das mais recentes e palpitantes.

Mas, que diabo tinha consigo aquele rapaz para enfeitiçar desse modo as mulheres de toda a espécie? Que fluido misterioso espalhava ele em torno de si, com a ironia de seus risos, com o desdém de seus olhos, com a fidalguia de suas maneiras, para as render tão cativas e arrastá-las a seus pés, como Cristo antigamente?

Leonília vira-o uma noite, por acaso, no teatro, desejou-o logo e pediu a um amigo comum que lho apresentasse.

Teobaldo tratou-a com o mesmo sedutor e natural desinteresse que costumava usar para as mulheres desse gênero; mas depois, quando a conheceu mais de perto e teve ocasião de compulsar-lhe o espírito, principiou a distingui-la entre todas as outras com certa preferencia. Leonília, porém, no solipsismo da sua paixão, não se contentou com isso e quis amor, amor tão bom e tão ardente como o que ela lhe dava.

Louca! Teobaldo não era homem para essas transações e, à primeira cena de ciúmes que lhe fez a amante, tomou o chapéu e desertou da alcova dela, sem lhe atirar ao menos uma palavra de despedida. A loureira apanhou entredentes a afronta e resolveu lançá-lo à vala comum dos seus amores esquecidos; mas tal energia só durou enquanto durou a esperança de ver Teobaldo regressar aos seus braços; e, logo que se convenceu de que o ingrato não voltava, calcou no coração todos os reclamos do orgulho e foi ao encontro dele.

O adorado moço consentiu em tornar à abandonada alcova, mas consentiu friamente, como por mera condescendência, e fazendo-se rogar aos seus carinhos. Leonília submeteu-se. Precisava daquele demônio para a sua ventura; que diabo havia de fazer? Todavia, a uma palavra de ressentimento que lhe escapou uma ocasião ao jantar, Teobaldo soltou-lhe, em cheio no rosto, uma tremenda bofetada e desapareceu de novo.

Foi depois deste episódio que ela o procurou em casa pela primeira vez. E não o fez esperar muito, visto que já calculava com experiência que o rapaz não voltaria por motu próprio.

Ernestina, coitada, é que ficou brutalmente ferida no seu amor próprio. Ao sair do quarto ia tonta, estrangulada de raiva; mas, ferida por uma Idéia voltou logo ao segundo andar, fechou-se por dentro e disse a Teobaldo, que nessa ocasião se aprontava para sair de novo:

— Você não há de agora sair de casa!

— Por quê? Perguntou o rapaz, atando a gravata de fronte do espelho.

— Porque não quero!

— Não quer? Tem graça!

— Verá!

— Veremos!

E, quando ele deu por finda a sua toilette, aproximou-se de Ernestina:

— Vamos, filha, basta de tolice! Dá-me a chave.

— Não quero que saia, já disse!

— Dá-me a chave por bem ou eu te obrigo a dar-me à força!…

Ernestina passou-lhe os braços em volta do pescoço.

— Não sejas mau! Disse chorando; não judies comigo deste modo! Dá-me o diabo dessa chave! Berrou ele, soltando-lhe um empurrão.

A rapariga deixou-se cair por terra e começou a soluçar.

— Ora pílulas! Rosnou Teobaldo, avançando sobre a porta disposto a arrombá-la com um pontapé. Mas nesse momento alguém bateu pelo lado de fora e ele estacou, perguntando com um grito:

— Quem é?

— Abra! Respondeu uma voz.

— Estou perdida!… Gaguejou Ernestina. É o Almeida.

— Bonito! Pensou o estudante; vamos ter escândalo!…

E, voltando-se para a mulher:

— Abra a porta!

— Abrir? E onde me escondo?

— Em parte alguma. Fique!

Ernestina entregou a chave a Teobaldo, abriu a porta. Mas, enquanto ele fazia isto, ela, apanhando as saias, fugia para a alcova imediata.

— Entre! Disse o moço, empurrando com um movimento desembaraçado a folha da porta.

O Almeida entrou; estava mais vermelho cinqüenta por cento do que era de costume. O seu colete branco, boleado pelo grande abdome, arfava; os músculos faciais tremiam-lhe como as carnes de um bêbado velho. Pela primeira vez Teobaldo reparou bem para aquele tipo. Notou, obra de um segundo, que ele tinha na fisionomia e no feitio do corpo alguma coisa que lembrava uma foca; notou que as suíças do Almeida principiavam logo por debaixo dos olhos e perdiam-se por dentro do colarinho: notou que ele tinha uma cabeça quase quadrada, encalvecida pela face superior; notou que o nariz do homem não era grego, nem árabe, nem tampouco romano e que, se o separassem do rosto, ninguém seria capaz de dizer o que aquilo era, e tanto podiam supor que seria um legume ensopado, como um pólipo extraído ou um mexilhão fora da casca; e notou ainda que o Almeida constava de quatro pés de altura sobre outros tantos de largura e que as mãos dele eram tão papudas, tão escarlates e tão reluzentes de suor, que pareciam esfoladas.

— Exponha o que deseja! Ordenou secamente o rapaz, depois deste exame instantâneo.

— O senhor escusa de negar… Principiou o Almeida.

— Eu nunca nego o que faço!… Interrompeu Teobaldo…

— Escusa, porque eu sei que ela está aqui.

— Ela quem?

— A Ernestina.

— Está.

— Pois era disso que eu precisava me capacitar! Não me suponha tão tolo, que não tivesse há mais tempo desconfiado da marosca; quis, porém, ter uma certeza e agora posso proceder à vontade, sem me doer a consciência!

— Explique-se.

— Pois não: uma vez que ela o prefere a mim, cedo-lha!

— Hein? Como é lá isso?

— Cedo-lha, repito!

— Cede-ma?!

— Sim. Pode tomar conta dela. É sua!

E, dito Isto, o Almeida soprou com força, como quem se vê livre de uma carga pesada, e abicou para a saída.

Teobaldo deteve-o com um gesto.

— Espere, disse-lhe. Antes de tomar conta de um fardo, que eu estava longe de esperar, quero saber ao qual é o seu conteúdo e a sua procedência!

— Ela que lhe explique tudo!… Respondeu o velhote.

— Não; contradisse o outro; não quero trocar com ela uma palavra!… Ao senhor compete por tudo em pratos limpos. Em primeiro lugar, desejo saber ao certo que diabo vem a ser o senhor para D. Ernestina.

— Pois então o senhor não sabe?

— Se soubesse não perguntaria.

— Com franqueza?

— Não falo de outro modo.

— Pois então, ouça.

Teobaldo ofereceu uma cadeira ao Almeida e assentou-se em outra.

— Vamos lá disse.

— Haverá coisa de oito anos… Casei-me, principiou aquele.

— Muito bem.

— Casei-me, mas não fui feliz…

— Sua mulher traiu-o?

— Não; tinha mau gênio. Era uma víbora!

— Muito bem.

— Suportei-a durante três anos; empreguei todos os meios para quebrar-lhe a fúria.

— Quebrou?

— Foi tudo debalde. A megera ficava cada vez pior. Resolvi largar de mão o negócio!

— Abandonou-a?

— Justamente; mas…

— Que idade tinha sua mulher?

— Cinqüenta anos.

— Ah!

— E o senhor casou por amor?

— Sim, por amor… Dos seus interesses.

— Ah! Era rica…

— Nem por isso…

— Quanto possuía?

— Cinqüenta contos.

— Um conto por ano. Adiante!

— Mas bem, como eu lhe dizia…

— Como me dizia…

— Resolvi separar-me dela e, foi dito e feito, zás!

— Separou-se!

— Logo.

— Muito bem.

— Foi então que uma noite, voltando para a minha nova residência, encontrei, encostada à porta da rua, uma rapariga…

— Era D. Ernestina…

— Não; era uma mulatinha que me disse haver fugido de casa, porque o senhor estava muito bêbado e queria dar-lhe cabo da pele, depois de ter feito o mesmo à mulher. Perguntei onde ficava a tal casa, e como era perto, dei um pulo até lá. A mulatinha entrou adiante com toda a cautela e voltou pouco depois, declarando que a peste do patrão havia já pegado no sono. “E o cadáver?” Perguntei eu. “Deve estar na sala”, respondeu a mulatinha. Abrimos a porta, e vi então um corpo de mulher estendido no chão. Esta é que era D. Ernestina.

— Estava morta?

— Não, não estava morta, infelizmente, mas estava muito moída de bordoada! E, ainda bem não me tinha visto entrar na sala, começou a chorar com gana e disse-me então que o borracho do marido, além de que lhe não dava de comer, punha-a naquele estado. “Tem fome?” perguntei-lhe eu. “Muita” respondeu-me ela com a voz fraca. “Quer vir cear comigo?” “Onde?” “Em minha casa”. “E meu marido?…” “Mande-o plantar batatas!” Ela aceitou; pôs um xale sobre a cabeça, chamou a mulatinha e saímos todos três.

Quando o Almeida chegou a esse ponto da sua narração, ouviram-se fortes soluços dentro da alcova de Teobaldo. O Almeida sacudiu os ombros e prosseguiu:

— Desde essa noite ela ao meu lado substituiu minha mulher. Despedi a mulatinha, que era alugada, montei esta casa e…

— E o marido?

— Morreu pouco depois, no hospital.

— Não deixou filhos?

— Creio que não; pelo menos foi o que ela me disse.

— Bem! Fez Teobaldo, erguendo-se. De sorte que tudo isso que aí está no primeiro andar foi comprado pelo senhor?

— Tudo, e a casa também.

— Logo, tudo lhe pertence?

— Não, porque pertence àquela ingrata…

— E está sempre disposto a separar-se dela?…

— De certo.

— E quanto ela lhe custava em despesa por mês?

— Para que deseja saber?

— Para medir a altura do meu sacrifício.

— Dava-lhe oitenta mil réis por mês em dinheiro e comprava-lhe muitas coisas: roupa, calçado, chapéus, tudo que ela precisava.

— Bem. Pode ir quando quiser.

— Estamos então entendidos, não é verdade? Concluiu o Almeida, apertando a mão do estudante e ganhando a saída; fico ao seu serviço — Rua do Piolho, n.0 5.

— Seja feliz! Disse Teobaldo, sem lhe voltar o rosto. E, logo que o viu sair chamou por Ernestina.

— Ouviu o que eu acabo de praticar? Perguntou ele.

— Ouvi… Disse ela abaixando os olhos.

— E no entanto a senhora tem plena certeza de que eu nada fiz para merecer semelhante espiga!

— Por que não declarou enquanto era tempo?

— Porque nunca me desculpo comprometendo uma mulher, seja ela quem for, ainda que eu lhe vote a mais completa indiferença.

— Então o senhor não me tem amor?

— Não, digo-lhe agora com franqueza, já que assim o quis.

— Mas por que não disse isso mesmo ao Almeida? Por que consentiu que ele me abandonasse!… Por que não lhe pediu para…

— Eu não peço nada a ninguém…

E, enquanto ela soluçava:

— Pelo respeito que devo a mim mesmo, tive de comprometer-me a sustentá-la. Seja! Dar-lhe-ei uma mesada, mas nunca porei os pés nesta casa. Retiro-me hoje mesmo.

— O senhor também me abandona?

— Não a abandono, porque nunca a amparei!

— Sou muito desgraçada! Exclamou ela, deixando-se cair sobre uma cadeira, a soluçar. O senhor perdeu-me para sempre!

— Essa agora é melhor! Eu não a perdi! Não tenho culpa de que a senhora seja indiscreta! Quem lhe mandou vir ao meu quarto e fechar-se por dentro? Ora essa!

— Ai, meu rico Almeida! Como tu é que eu não encontrarei nenhum!

A esta exclamação de Ernestina a porta da sala abriu-se; o tipo do Almeida apareceu de novo, não com o aspecto de há pouco, mas risonho e ressumbrante de ventura.

— Oh! Ainda o senhor? Disse Teobaldo.

— Ouvi tudo, meu amigo…

— Ouviu ou escutou?

— Escutei, escutei por detrás da porta…

E estendendo-lhe a mão:

— Toque!

— Hein?…

— Toque! Desejo apertar a sua mão! Poucos homens tenho encontrado tão nobres como o senhor! Seu procedimento para com uma mulher, que o acaso comprometia, foi mais do que de um fidalgo, foi de um príncipe! Toque!

Teobaldo consentiu afinal que o Almeida lhe apertasse a mão, mas resolveu de si para si mudar-se quanto antes daquela casa.

— Nada! Refletia ele, enquanto os outros dois se abraçavam chorando. Isto não me convém! É sempre desagradável estar entre um tolo e uma mulher apaixonada! Safo-me!

—————–
continua…

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Gal Braga (Poesias Avulsas)

Gal Braga, natural de Salvador/BA, psicopedagoga, trabalhou com crianças da periferia, viu, de perto, a pobreza, a fraqueza humana diante das drogas e prostituição. Mas fazia o que gostava e com amor .————————
ONDE DEIXOU SEUS SONHOS?

Já não ouço de você seus planos,
já não mais compartilhamos
os momentos em que felizes
ríamos e chorávamos
vendo filmes na TV.
Já não dividimos na praia
o mesmo espaço na areia quente.
já não ouço o seu choro ao telefone,
quando sofria de amor.
E já não vejo seu sorriso aflorar
que nem no nascimento de seu filho.

Onde ficou seus sonhos, meu menino?

Aquela maneira carinhosa e cuidadosa
que me tratava, ah! saudade…
A importância da minha opinião
sobre a melhor roupa “de marca”,
o perfume que deveria usar…

Onde deixou seus sonhos, Menino?

Nos caminhos percorridos
nesse decorrer de anos,
nos planos interrompidos,
por obra do destino ou de Deus?
Ou por essa dúvida atroz
do caminho a ser escolhido.

Meu menino…

Faça um caminho de volta,
se preciso for,
e retome cada sonho perdido
e não os deixe mais escapar,
resgate um por um
e carregue essa sua bagagem
pela estrada da vida.

Pois, não quero ver mais
o meu menino parar de ter sonhos…

MEU REBENTO

És fera
És bela, celestial
És o trovão temeroso
Também um frágil cristal.

Te tenho no coração
E também no pensamento
Te amo por inteiro
Por seres o meu rebento.

Dedicado a minha filha Danielle com amor e carinho.

MENINO REI

Por que falhaste, menino?
Na lição que te ensinei
Por que não levaste à sério?
Sua idéia de ser “rei”.

Rei da bola, das garotas,
do reggae e até da folia.
Mas desististes dos sonhos,
que te ajudei com alegria,
De te tornares , ao menos,
rei de tuas fantasias…

Por que se esquivou de mim?
Por que nunca me fitavas?
Sua vida era fugir,
e a mim e aos seus evitavas.

A sua missão, menino!
terminou cedo demais.
O trono agora vazio
daquele menino-rei
que agora descansa em paz!

A minha homenagem as crianças que trabalhei
e que as drogas e a violência
foram mais forte que a minha luta de amor.
E em especial ao “menino rei” Allan Kardeck.

ESCUTA, PAI!

No meu coração sempre estarás,
embora não te fizesses presente,
só tenho a vaga lembrança,
de um homem frágil e doente

Por que não me procuraste
quando mais eu precisei?
talvez tivesses evitado
as dores que eu passei.

Marcas profundas,
amargas lembranças
cicatrizes doloridas,
sequelas da minha infância

Pai, junto a Deus, não esqueças:
teu rebento, tua criança!   

AH! QUERIA TANTO QUE…
 
Queria que…

Uma pena voasse, voasse
e que acariciasse
esse corpo só meu.

VIVA O SAPO!

Até que enfim ó sapinho
lembraram de te cantar
só podia ser um anjo
pra esta ciranda criar.

ANOS DOURADOS

Um perfume marcante
Uma música inesquecível
Um beijo roubado…

ABRAÇA-ME

Chegas bem perto, meu dengo
Abraça-me com amor
Sintas o cheiro de mato
Daquela que é tua Flor.

E A VIDA?

Vivo loucamente,
apaixonadamente.
Sem medos
para não recuar.
Sem tabus
para me completar.
Sem preconceito,
prá viver na igualdade.
Autenticidade
prá mostrar meu avesso.

Maravilhoso é viver…

SER MULHER

Sou mulher por inteira,
assumida, verdadeira
e em pleno descompasso.
Trago comigo , o legado
de MARIA, a pureza,
de Madalena, o pecado!

MINHA FANTASIA

Quero cair na folia,
tendo como fantasia:
Colombina estilizada.
Buscar o meu Arlequim,
te-lo bem junto de mim,
até romper a alvorada.

MANGA ROSA

Eu gosto da manga rosa,
chupo até me lambuzar.

E você que está me lendo,
de que fruta vai falar?

MINHAS MÃOS

Minhas mãos,
sempre unidas
oram por nosso amor.
Minhas mãos
unida às suas
num afago constante.
Minhas mãos
abençoadas por Deus.

Fonte:
Portal CEN

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