Arquivo do mês: julho 2013

A. A. de Assis (Revista Virtual de Trovas "Trovia" – n.164 – agosto de 2013)


Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim!
Izo Goldman
 

Nascemos irmãos comuns,
mas a ambição e os engodos
puseram nas mãos de alguns
o mundo que era de todos!
José Maria M. de Araújo

Digo tudo sem receio…
Sei, amor, que não aprovas.
Meu coração retalhei-o
e, dos pedaços, fiz trovas…
Luiz Otávio

É tanto o amor que me invade
quando em teus braços estou,
que cada instante é saudade
do instante que já passou!
Newton Meyer
 
Dona Saudade, velhinha,
bordadeira paciente,
não tem agulha nem linha,
mas borda os sonhos da gente!
Onildo de Campos

Meu coração, hoje em dia,
desfeito, cansado e mudo,
lembra uma feira vazia,
depois que venderam tudo!
Pe. Celso de Carvalho

Parabéns Olga Agulhon, Eliana Palma e Ademar Schiavone pelo grande sucesso e beleza do VI Encontro Literário de Maringá
 


Tem muita trova que choca,
e é natural que aborreça…
Exemplo: a trova-minhoca,
que não tem pé nem cabeça!
Antônio da Serra – PR

No verão ela anuncia
que o nudismo é a sensação
e o que só o marido via,
agora todos verão!
Arlindo Tadeu Hagen – MG

“Há fantasma”, alguém dizia,
“neste beco”, e com razão.
– Era contramão de dia,
mas à noite… quanta mão!
Clenir Neves Ribeiro – Austrália

Chaminelar… chaminilo!
Você lembra o que é que é?
É poder fazer aquilo
em cima da chaminé!
Gislaine Canales – RS

Chega da farra na boa,
como quem acha que pode.
No escuro, beija a “patroa”…
sente na boca um bigode…
Jaime Pina da Silveira – SP

Ao homem muito ciumento
há um dilema que aperreia:
ou esquece o casamento,
ou casa com mulher feia!
Josa Jásper – RJ

Para os jovens, de ordinário,
este é um problema somenos:
o velho, no aniversário,
comemora um ano a menos…
José Fabiano – MG

Certa mocinha atrevida,
com seus namoros no mato,
sempre aparece mordida
por “dentes” de carrapato…
Thereza Costa Val
 

Dentre os bens que o filho espera
receber por transmissão,
tesouro nenhum supera
o exemplo que os pais lhe dão.
A. A. de Assis – PR

Esta lágrima que escorre,
deixando marcas no rosto,
é água que me socorre,
purificando o desgosto.
Adélia Woelllner – PR
 
Num jogo de sombra e luz
fui tomado de emoção,
ante a porta que conduz
o meu ao teu coração.
Agostinho Rodrigues – RJ

Por diferentes caminhos,
chegamos à encruzilhada,
depois seguimos juntinhos
através de nova estrada.
Alberto Paco – PR
 
Tuas recusas sem jeito
mostram, de modo evidente,
que tens meu corpo em teu leito,
com outra imagem na mente.
Almerinda Liporage – RJ

Entre as escolhas que fiz,
eu sofri e sei por quê:
uma só me fez feliz,
foi essa de amar você!
Almir Pinto de Azevedo – RJ

Há um farol em teu olhar
que ilumina a minha vida;
sem ele (estou a cismar),
ficarei cego, querida!
Amilton Maciel – SP

Uma vida de alegria
eu precisava buscar;
e encontrei na poesia
meu eterno e doce lar.
Angela Stefanelli – RJ
 
Quero, por tudo e por nada,
esquecer-te a qualquer preço
mas a distância danada
já sabe o meu endereço!
Antonio Colavite Filho – SP
 

Se receber uma ofensa
só tente ficar calado…
Terá como recompensa
nosso respeito dobrado!
Arlene Lima – PR

Não se faz mais amizade
como dantes se fazia…
– Hoje até felicidade
anda assim: meio vazia.
Ari Santos de Campos – SC

Não há guarda no portão
nenhum trinco ou cadeado;
mas não me faça invasão,
só entre se for chamado.
Cida Vilhena – PB

Por te amar, tenho sofrido,
mas não me arrependo: Vem!
– Quem ama as rosas, querido,
ama os espinhos também!
Carolina Ramos – SP
 
A vida é dura, renhida,
porém tem muita poesia.
Faço parte da torcida
da esperança a cada dia.
Cônego Telles – PR

No silêncio do meu grito
ouço a voz da solidão…
Nos meus versos deixo escrito
como está meu coração.
Dáguima Verônica – MG

Sem vitupérios e afrontas,
cerra às ofensas teus lábios,
que, em muito acerto de contas,
vence o silêncio dos sábios!
Darly O. Barros – SP
 
Cem vezes tu repetiste
que me amavas loucamente…
Cem vezes tu me mentiste
e cem vezes eu fui crente!
Delcy Canalles – RS
 

Na mesma rede embalados…
Porém a vida é tão dura!
– No que pensam namorados
se não na vida futura?!
Diamantino Ferreira – RJ

Desamarrando a fitinha
das lembranças, tenho medo
de que dentro da caixinha
não seja eu… teu segredo!
Dilva Moraes – RJ

Foste embora e, na saudade,
a ofensa se fez lição:
descobri que o amor-verdade
se alicerça no perdão!
Domitilla B. Beltrame – SP

Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!
Dorothy Jansson Moretti – SP

Corre o rio em harmonia,
sem saber que mais à frente
a ganância humana, fria,
devasta o meio ambiente.
Eliana Jimenez – SC

Tataravó dos poemas,
a toda hora se inova.
– Não importa quais os temas,
todos cabem numa trova.
Eliana Palma – PR

Minhas mãos… venho trazê-las,
até parecem vazias,
mas são repletas de estrelas
que eu colho todos os dias…
Elisabeth Souza Cruz – RJ
 
Memória é um caderno aberto
aos olhos do coração,
com registros que, por certo,
nunca mais se apagarão…
Ercy Marques de Faria – SP

Toda tarde o passarinho
bate as asas, quando canta.
Quanto mais longe do ninho,
mais afinada a garganta!
Francisco Garcia – RN

Em nossas carícias quentes,
não pesa a idade, nem nada,
porque somos dois poentes
que explodem numa alvorada!
Héron Patrício – SP
 
As flores que o ipê espalha
refletem a luz da lua.
Beleza não atrapalha;
ao contrário: enfeita a rua.
Hulda Ramos – PR
 

A beleza da poesia
– eu vou contar pra você –
não vem da mente que cria
e,sim, d’alma de quem lê!
JB Xavier – SP
 

Por mais poder e dinheiro,
muitos homens, desalmados,
expõem Jesus no madeiro…
e escondem bolsos recheados…
Jeanette De Cnop – PR

Terra de tanta riqueza,
fertilidade, alimento;
eu canto tua beleza,
choro teu desmatamento.
Jessé Nascimento – RJ
 
Pensamento ao mar, areia,
tarde sonora, quimera…
em leves ondas vagueia
na solidão de uma espera!
João Batista X. Oliveira – SP
 

Depois de arrastar a cruz,
que pesa mais na subida,
feliz de quem vê a luz
no fim do túnel da vida!
José Lucas de Barros – RN

Pôr do sol… em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
Jessé Nascimento – RJ
 
Cultivemos o jardim
do amor, com perseverança,
para que seja o estopim
de um futuro de esperança.
José Feldman – PR
 

Naquela noite de lua
o balde subiu chorando;
no poço não a viu nua,
mas o luar se espelhando.
José Marins – PR

Ante a dor que me espezinha,
a esperança se evapora…
Até a saudade que eu tinha
não quis ficar… foi embora!
José Messias Braz – MG
Que saudade, Mestre Izo Goldman. Você será sempre reverenciado pelas suas belas trovas e por tudo de bom que pela trova fez.

No sótão da alma vazia,
com tanta saudade em jogo,
se a ausência atira água fria,
a lembrança aviva o fogo!
José Ouverney – SP

Nada consigo de graça,
mas batalho pra valer,
pois somente a vida abraça
quem gostar de seu viver.
José Roberto P. de Souza – SP

Jamais busco o falso atalho
da glória não merecida…
É no suor do trabalho
que se constrói uma vida!
José Valdez – SP

Sou guerreira, sou versada,
venha a luta que vier;
minha paz é conquistada
na força de ser mulher.
Karla Bitencourt – PR

Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
Luiz Carlos Abritta – MG
 
Quisera que o mundo visse
meu ar de felicidade
assim que você me disse:
“Namoro” – e não: “Amizade”.
Luiz Hélio Friedrich – PR
 

Árvore… da terra abrigo,
que insensato o homem destrói,
pondo a vida ao desabrigo…
desatino, que corrói.
Mª Conceição Fagundes – PR

Meu bem, chegue aqui pertinho,
tenho um segredo a contar:
o teu amor e carinho,
lamento, não vou guardar!
Mª Luiza Walendowsky – SC

Num lugar do coração
habita sempre o menino
que faz bolhas de sabão
para iludir seu destino…
Mª Thereza Cavalheiro – SP
A trova é muito mais que um poema de quatro versos; principalmente quando traz mensagem útil no seu bojo.

Sonho um mundo colorido,
flores perfumando a estrada,
sem um ai, sem um gemido
de criança abandonada.
Marina Valente – SP
 
A grande, a maior virtude
é de quem pode mostrar
que sendo apenas açude
tem a grandeza do mar!
Marta Paes de Barros – SP

As medalhas com que cobre
o seu peito de vaidade
mostram que falta a mais nobre:
– a medalha da humildade.
Maurício Cavalheiro – SP

Plácido, corres no leito,
às margens, onde nasci;
ó Iguaçu, trago em meu peito
a água que é parte de ti.
Maurício Friedrich – PR
 
Numa insônia persistente
sinto a alma espedaçada,
a imprimir na noite em frente
fria e longa madrugada.
Mifori – SP
 

Ao buscar o que ela quer,
na luta por seu direito,
é no labor que a mulher
vence qualquer preconceito.
Nei Garcez – PR

O maior dos desamparos
que se impõe a um trovador
é ver seus versos tão caros
julgados por amador.
Nilsa Melo – PR

Viajei pelo mundo inteiro
e nunca mais pude achar
o que no instante primeiro
encontrei em seu olhar.
Olga Agulhon – PR
 
Planto o grão com uma meta:
 – gerar vida em profusão…
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
Renato Alves – RJ

Mais fraternidade. Mais criatividade. Menos competição.

Cada vez em que é agredida
na sua obra e beleza,
cai uma gota, sofrida,
dos olhos da natureza.
Roberto Acruche – RJ
 
A natureza hoje chora
a cruel devastação
que faz o verde ir embora
e veste de cinza o chão !…
Sônia Ditzel Martelo – PR
 

Bravura é viver sorrindo
embora seja evidente
que a vida é dor insistindo
em ser mais forte que a gente.
Thalma Tavares – SP
 

Por mágoas que me consomem,
hoje eu culpo os erros meus.
Ele era apenas um homem…
fui eu que fiz dele um deus!
Therezinha Dieguez Brisolla – SP.

O mendigo solitário,
perambula pela rua.
Ao redor só o cenário
de uma imensa e fria lua.
Vanda Alves da Silva – PR
 
A minha alma adolescente,
de braços dados com a vida,
parece nem ser parente
desta face envelhecida.
Vanda Fagundes Queiroz – PR

Água límpida é preciosa
para o planeta, vital;
pura, líquida ou gasosa,
tesouro fundamental.
Vânia Ennes – PR
 
Lago azul – trecho do céu,
encravado na vertente:
os cisnes – nuvens ao léu;
a barca – lua crescente.
Wagner Marques Lopes – MG
 

A realidade transponho
e vivo em mundo ideal…
Quero as mentiras do sonho,
não as da vida real!
Wanda Mourthé – MG
 

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Varal de Trovas n 29 – Helena Kolody (Curitiba/ PR) e Soares da Cunha (Governador Valadares/ MG)

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José Feldman (Universo de Versos n. 95)


Uma Trova do Paraná

MARIA DA CONCEIÇÃO FAGUNDES
Curitiba


Tesoura a vida do alheio
E age de modo imparcial
E ela afirma, sem receio:
– É “terapia social”!!!
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

COLBERT RANGEL COELHO


Esperança: o nosso ninho,
pobre, sim… mas com bonança.
Eu e tu… Nosso filhinho…
Ah, meu Deus, quanta esperança!

========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Quando pergunta o burrinho,
diz a mula envergonhada:
– “Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma…burrada!…”
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Simão/SP

THALMA TAVARES


– És meu príncipe! – dizia
vovó com seu jeito doce…
Tão doce que eu me sentia
como se príncipe fosse.
=======================
Uma Trova Humorística, de Pitangui/MG

JOSÉ ANTONIO DE FREITAS


O palhaço, sem mistério,
segredou-me, um dia, assim:
– Levo o meu trabalho a sério,
mas o povo ri de mim!…
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Entre os atos de bonança
e meus pecados mortais,
quando eu botar na balança,
Deus sabe quais pesam mais!…
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina

LIBIA BEATRIZ CARCIOFETTI

Pido a Dios mucha templanza
al vivir en estos días
su presencia es la esperanza
de alejar mis agonías.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Nova Friburgo/RJ

THEREZINHA TAVARES


O jeito de viver bem
com equilíbrio, com paz,
na vida consegue quem
de temperança é capaz!
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ÉLTON CARVALHO

Rio de Janeiro (1916- 1994)

Vem, palhaço, sem tardança,
 com teus trejeitos, teus chistes,
 e acorda a alegre criança
 que dorme nos homens tristes…
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Quando a Trova é mesmo boa,
é sempre assim que acontece:
– o dono fica esquecido,
mas a Trova não se esquece…
========================
Um Haicai de Manaus/AM

ANIBAL BEÇA


Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Velho em trajes de rapaz
dá a impressão, diz o povo,
de um livro antigo demais
encadernado de novo.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Uma vez que a gente cante
dizendo o que o povo diz,
a trova fica contente,
a trova fica feliz. . .
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Princesa Desalento


Minh’alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento!

É fágil como o sonho dum momento;
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria:
Minh’alma é a Princesa Desalento…

Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve minh’alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Noturno


Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.
==============================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

ESTER FIGUEIREDO

Um Sonho de Vida

Lua que me olha à distância
sabe bem da inconstância
deste enamorado coração:
incauto…ansioso…vivendo de ilusão

Busca e não encontra lenitivo…
para esta dor tem motivo
e que só ELE sabe o segredo.

Vou caminhando pela vida
a passos lentos, sem guarida…
Até quando?-Não sei!

Sei apenas que a sorte
não pode driblar a morte
nem o sonho que eu sonhei!
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

De Joelhos

“Bendita seja a mãe que te gerou”
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
a tua ama , pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
da tua vida o doce alvorecer
Bendita seja a Lua que inundou
de luz a terra só pra te ver….

Benditos sejam todos que te amarem,
as que em volta de ti ajoelharem
numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher
Bendito seja o beijo dessa boca
=====================
Uma Poesia do Pernambuco

GERALDO FALCÃO

Referência do Sonho


Não sei se vão os meus olhos,
não sei se vem a paisagem.
Quero a luz absoluta
mãe das águas do tempo:
quero deter o seu curso
no eterno presente.
Com unção aproximo-me do altar invertido
de um deus embriagado pelo sangue
de homens acusados de morte.
Tateando nas trevas vou buscando
a primordial pureza, o primordial sentido,
a primordial palavra liturgicamente expressa.
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per’las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
========================
Uma Poesia de Portugal

ALMEIDA GARRETT

(João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett) 
Porto (1799 – 1854) Lisboa
 Anjo és

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua frente anuviada
Não vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d’amor.
Teus olhos têm negra a cor,
cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. – Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… Lágrima? – Escaldou-me…
Queima, abrasa, ulcera… Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá… De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Ah, o Amor…


Me lembro, ah, se me lembro… Eu lembraria
por mil anos ainda o que sofri;
era angústia, era dor, era agonia,
era… meu Deus! Como sobrevivi?

Ainda ouço a tua voz – cruel e fria –
renegar todo o amor que havia em ti,
ou pelo menos, que eu julguei que havia,
até… aquele instante em que te ouvi.

Depois, depois… E só eu sei o quanto
cego e faminto atropelei meus passos,
e quanta vez me vi no próprio espanto;

só eu sei… Mas voltaste… Ah, a mulher…
Ah, o amor… Fecho os olhos, abro os braços!
… Que seja tudo como Deus quiser!
============================
Um Soneto do Rio de Janeiro

MARIA NASCIMENTO

Súplica

Jurei não lhe falar mais de ternura,
nem dar sinais de angústia nem de dor,
mas sinto as cicatrizes da censura
bem menos doloridas que as do amor…

Assim, movida pela desventura,
vivendo um sentimento embriagador,
tento afogar meu sonho na amargura,
e volto a lhe falar do meu amor.

Deixe que eu ame intensa e livremente,
sem censurar o meu comportamento,
sem ter pena das penas que padeço,

que eu sofro, por você, conscientemente,
e, por maior que seja o meu tormento,
estou sofrendo menos que mereço…
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)


Na doçura do lirismo
nossos poemas são hinos
que viram salmos de amor,
e os poetas são meninos
de imaginários castelos,
cantando versos tão belos
como notas de violinos.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

JUAN LUIS MARTINEZ
Viña del Mar/Chile (1942 – 1993)Villa Alemana/Chile

Não só ser outro, como escrever a obra de outro

A grande impostura
o grande impostor
resvalado
nunca revelado
o nome verdadeiro
seu nome
o mesmo nome
tantas vezes escutado
imputado
tantas vezes repetido
tantas esquecido.

O eu tão desnecessário
maltratado
incinerado
ausente involuntário
habituado a estar só.

Dizer versos
que foram do outro
que foste
quando já não eras.

Constrói o teu não-eu:
sua ausência: a tua.

Para não ser
é necessário
que antes construas
a ausência
desse eu, que não
serás nunca

o espaço vazio
do não-eu.
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Americana/SP

GERALDO TROMBIN

Elas por Elas


Sheilas, Tanias, Pierinas ou Mirelas;
Brancas, Negras, Vermelhas, Amarelas;
Cheinhas, esbeltas, esguias, magricelas;
Na direção, no mouse ou nas panelas;
De salto alto, sandálias ou chinelas;
Tricotando, escrevendo, pintando a vida em aquarelas;
Adormecidas ou despertas como sentinelas;
Pagando caro ou simplesmente bagatelas;
Maçãs, morangos, cenouras, berinjelas;
Atentas a documentários, filmes ou novelas;
Cuidando de maridos, namorados, filhos ou mesmo delas;
São sempre insinuantes, apaixonadas e singelas;
Supermulheres, superprotetoras, superbelas.

Apesar das preocupações, não dão a mínima a chorumelas,
Nem deixam nada pelas tabelas,
Até quando os homens pisam feio no calo delas.

Se de verdade os amam, perdoam as piores mazelas,
Expondo inclusive suas almas pelas janelas.
E, nem romântico jantar à luz de velas,
Regado com vinho, olhares, beijos e abraços nas paralelas,
Reconsideram tudo, ficando muito bem, ficando elas por elas.

Exemplos de perseverança, força e amor, só mesmo vindo delas.

(1o. Lugar no I Concurso Literário “Maria Mariá” 2013, modalidade Poema Livre, em Maringá/PR)
=====================
Um Poetrix da Bahia

JUSSARA MIDLEJ

Palavras

Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

F


Forma
forma
forma

que se esquiva
por isso mesmo viva
no morto que a procura

a cor não pousa
nem a densidade habita
nessa que antes de ser

deixou de ser
não será
mas é

forma
festa
fonte
flama
filme

e não encontrar-te é nenhum desgosto
pois abarrotas o largo armazém do factível
onde a realidade é maior do que a realidade
========================
UniVersos Melodicos

René Bittencourt
 

SERTANEJA
(canção, 1939)


De uma simplicidade comovente, este bucólico canto de amor à mulher sertaneja seria uma das composições mais cantadas em todo o Brasil nos anos seguintes ao seu lançamento, em julho de 39. Todo amador com pretensões a se tornar um novo “cantor das multidões”, inscrevia-se num programa de calouros (que na época vivia o auge da popularidade) para cantar: “Sertaneja se eu pudesse / se Papai do Céu me desse / o espaço pra voar / eu corria a natureza / acabava com a tristeza / só pra não te ver chorar…”.

Incluída entre os maiores sucessos de Orlando Silva, “Sertaneja” seria superada em popularidade apenas por três ou quatro canções de seu repertório, como “Carinhoso” e “Lábios Que Beijei”. Curiosamente, seu autor, o compositor, jornalista e empresário artístico, René Bittencourt, não era do sertão, tendo nascido na Ilha de Paquetá e vivido no Rio de Janeiro.

Sertaneja se eu pudesse
Se Nosso Senhor me desse
O espaço pra voar
Eu corria a natureza
Acabava com a tristeza
Só prá não te ver chorar

Na ilusão deste poema
Eu roubava um diadema
Lá do céu pra te ofertar
E onde a fonte rumoreja
Eu erguia tua igreja
Dentro dela o teu altar

Sertaneja
Porque choras quando eu canto ?
Sertaneja
Se este canto é todo teu . . . .
Sertaneja
Prá secar os teus olhinhos
Vá ouvir os passarinhos
Que cantam mais do que eu

A tristeza do seu pranto
É mais triste quando eu canto
A canção que eu te escrevi
E os teus olhos neste instante
Brilham mais que a mais brilhante
das estrelas que eu já vi.

Sertaneja vou me embora
A saudade vem agora
A alegria vem depois
——–Vou subir por essas serras
Construir lá noutras terras
Um ranchinho prá nós dois.

(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

MARCHA SOLDADO


Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo,
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional.

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 18

CAPÍTULO X

Só no dia seguinte, as 2 horas da tarde, foi que ele saiu da casa de Leonília. Sentia-se aborrecido e como que importunado por uma espécie de remorso: afigurava-se-lhe que em torno daquele seu desleixo pela vida girava um mundo de atividade dos que trabalham para comer, dos que labutam desde pela manhã.

Pungia-lhe a idéia de haver-se deixado arrastar por uma mulher, cujo amor seria para ela uma virtude, mas para ele nada menos do que uma depravação moral. Ao chegar ao centro da cidade, o movimento comercial das ruas, o vaivém das classes laboriosas, ainda mais lhe agravaram a consciência da sua inutilidade e da sua inércia.

— Por que, perguntava consigo, não pertenço ao número desses que trabalham, desses que sabem ganhar a vida?

E arrependia-se de ter ido ao Lírico, de haver oferecido de beber a Leonília, em vez de a tratar com frieza, o que afinal seria digno de sua parte. E vinham-lhe de novo os ímpetos de reação e um grande desejo de atirar-se a qualquer trabalho produtivo e honesto.

— Mas, por onde principiar? Onde e em que descobrir ocupação? Fazer-se professor? Isso, porém, era tão precário, tão maçante e tão subalterno… Empregar-se na redação de um jornal? Mas em qual? E como? A quem devia dirigir-se?

E daí não passavam as íntimas reclamações do seu caráter.

Às vezes, à mesa dos cafés, dizia ele aos companheiros:

— Homem! Vejam se me arranjam um emprego!… Eu preciso trabalhar! É preciso viver, que diabo!

Mas estas palavras caiam por terra, sem aparecer quem as erguesse. O que aparecia eram novos e novos convites para tomar alguma coisa — para jantar em companhia de mulheres suspeitas e para assistir a espetáculos bufos. O Aguiar, principalmente nunca o a abandonara com as suas franquezas de moço rico e com os seus eternos protestos de estima e admiração.

E Teobaldo topava a tudo, considerando interior mente, para se desculpar, “que não seria metido em casa que ele havia de descobrir arranjo; precisava furar, ir de um lado para outro, até achar o que desejava”.

E, visto que aceitava esses obséquios, apressava-se a retribui-los, quando porventura lhe caía de Minas algum dinheiro, sem reservar nenhum para os seus credores.

Por várias vezes, em ceias fora de horas, depois de enxutas algumas garrafinhas de Chiante e Malvasia, que eram os seus vinhos prediletos, os amigos de Teobaldo, na febre dos brindes, faziam-lhe grandes elogios ao talento e à educação; e ele, coitado ouvia tudo isso já com uma certa amargura, porque ia cada vez mais se convencendo de que lhe faltava a competência para ganhar a vida. E, quando, pelas três ou quatro da manhã conseguia chegar à casa tinha a cabeça em vertigem e o coração estrangulado por um desgosto profundo.

A casa! Que suplício para ele… Como tudo aquilo que respirava a presença do Coruja lhe exprobrava silenciosamente as suas culpas. Era aí que Teobaldo mais sentia o  peso brutal de própria nulidade; era aí, já recolhido aos lençóis, que ele considerava, um por um, todos os seus passos na vida. E excitado, cheio de revolta contra si mesmo, levava longo tempo a virar-se de um para outro lado da cama, antes de conseguir pegar no sono.

Na manhã seguinte acordava muito prostrado, sem ânimo de deixar o colchão e, ainda de olhos fechados, chamava pelo moleque. Quase sempre, em vez do Sabino, era o fiel Caetano quem acudia ao seu primeiro chamado, e, enquanto Teobaldo se preparava defronte do toucador, o pobre velho o observava com um profundo olhar de comiseração. Depois, meneava a cabeça, suspirando, e punha-se a escovar a roupa que o rapaz tinha de vestir.

Teobaldo às vezes batia-lhe carinhosamente ao ombro, dizendo:

— Como tudo isto mudou, hein, meu velho amigo?… Como tudo isto é tão diverso dos nossos bons tempos!…

O criado então levava os olhos à manga de sua velha libré, que nunca mais fora reformada depois da morte do barão e entre lágrimas falava neste para desabafar.

Teobaldo perguntava sempre a que horas saíra o Coruja.

— Às seis da manhã, respondia invariavelmente o criado.

E os dois conversavam um pouco; depois Teobaldo descia ao banheiro, que era no primeiro andar. Banho, café, vestir e leitura dos jornais nunca se liquidava antes do meio-dia. Por almoço tomava em geral dois ovos quentes, um cálice de vinho; feito o que, saia logo, sem destino, à procura de tal colocação.

No dia imediato ao em que ele esteve com Leonília, acordou mais cedo do que de costume, vestiu-se com certa presteza, foi à secretária e escreveu a seguinte carta:

“Querida — Não voltarei a ter contigo e peço-te que não dês o menor passo com o fim de fazer-me mudar de resolução, porque perderias o tempo. Aceita a insignificante lembrança que com esta te envio, e esquece-te, para sempre, do mais infeliz Teobaldo que há no mundo.”

Fechada a carta, meteu-a no bolso e saiu.

Na véspera, antes de dormir, havia deliberado o que agora punha em prática. Era preciso, era indispensável, não tornar à casa de Leonília, ainda que para isso fosse necessário que ele se fizesse mal e grosseiro. E, neste propósito, chegou à rua dos Ourives, à loja de um joalheiro, a quem vendera as jóias de Santa, escolheu uma medalha de ouro, com um pequeno brilhante no centro e perguntou quanto custava.

— Cem mil réis, respondeu o joalheiro.

— Do que tenho comigo posso apenas dispor de cinqüenta. Consente que lhe fique devendo o resto?

O dono da casa fez um ligeiro ar de hesitação, mas disse em seguida:

— Pois leve.

— Já não quero! Exclamou Teobaldo, empurrando de defronte de si o escrínio onde estava a jóia. Pode guardá-la!

— Não, doutor, leve-a! Peço-lhe que a leve!

E, por suas próprias mãos, introduziu o estojo no bolso do rapaz.

Este passou-lhe os cinqüenta mil réis e correu logo para a casa de Leonília. Entrou, bateu, entregou ao criado a carta e mais o estojo e, sem esperar pela resposta, saiu apressado.

À noite desse mesmo dia, atravessava a rua do Ouvidor, quando o Aguiar foi ao encontro dele e disse-lhe, estendendo-lhe o braço pelas costas:

— Amanhã faço anos e quero que jantes comigo. Serás o único rapaz que terei ao meu lado! Prometes ir?

— Pois bem, respondeu Teobaldo. Mas onde é o jantar?

— No Pharaoux.

— A que horas?

— Às cinco…

— Lá estarei.

No outro dia, quando Teobaldo chegou ao hotel, não lhe passou despercebido certo cupê, que estacionava à porta; mas não fez caso e subiu a escada.

— É aqui, disse-lhe um criado discretamente, mal o viu, e fê-lo entrar para um gabinete particular.

Teobaldo ficou surpreso ao dar com Leonília, que estava à cabeceira da mesa.

— Ah! Fez o Aguiar, como em resposta ao gesto do amigo, convidei esta dama para te ser agradável, sabendo que a companhia dela só poderia dar-te gosto…

— Oh! Certamente, certamente! Exclamou o filho do barão, puxando uma cadeira e assentando-se ao lado de Leonília, a quem cercou de galanteios.

— E esta outra senhora?… Perguntou ele depois, apertando a mão a uma rapariga de pouca idade, que se quedava assentada à esquerda de Leonília.

— Ah! Essa convidei para ser agradável a mim mesmo, respondeu o Aguiar, por sua vez tomando assento junto da tal rapariga.

— É uma amiga das minhas, explicou a outra, que parecia muito empenhada no jantar.

E, voltando-se diretamente para Teobaldo:

— Só desta forma conseguiríamos pilhá-lo hoje! Com efeito! O senhor faz-se agora de manto de seda!…

— É que às vezes a gente pretende dar valor às coisas, exigindo por elas muito mais do que valem…

— Bravo! Gritou Aguiar. Eis uma teoria comercial na boca de Teobaldo! Estou encantado! Não te fazia capaz de tanto!…

— Ah! Respondeu o outro, a rir; o comércio é toda a minha vocação!…

— E não digas brincando… Quem sabe se algum dia não serás meu colega no comércio?…

— Pode ser! E que todo o meu mal fosse esse!…

— Eu… Queres que te diga?… Eu, pelo menos, continuou o Aguiar, derramando Madeira nos cálices, nunca me arrependi de haver entrado para o comércio. Verdade é que nada fiz por mim e que não estaria na posição em que me acho, se não fosse meu pai, mas nem por isso sou menos feliz, verdadeiramente feliz! Que diabo! Ganhar sem sentir, às vezes sem trabalhar!… Pode haver coisa melhor? Passo semanas e semanas inteiras na pândega, gasto por vinte e, quando julgo que os negócios vão mal, diz-me o guarda-livros que ganhei mais do que nunca! Ah! Nada há como o comércio para fazer dinheiro! E hoje, deixem falar quem fala, o dinheiro é tudo! Com ele tudo se obtém: — Glórias, honras, prazeres, consideração, amor! Tudo! Tudo!

— É exato! Confirmou Teobaldo, sorrindo amargamente e no íntimo arrependido de ter aceitado o convite do Aguiar. É exato!

— Ah! Disse a rapariga, que este convidara para ser agradável a si mesmo. Quem pode negar a grande superioridade do dinheiro sobre todas as coisas?

— Eu! Acudiu Leonília, que acabava de observar os gestos de Teobaldo. Protesto contra as teorias de Aguiar e juro que o dinheiro não representa para mim a menor sedução… Gosto dele, não nego, mas nos outros, não por ele, mas pelo gostinho de o extrair gota a gota, beijo a beijo, e tanto assim que, mal o apanho, lanço-o à rua pela primeira janela que encontro aberta. Nunca depenei um ricaço por amor ao seu dinheiro, mas tão somente pelo gostinho de o deixar depenado. É uma paixão comparável à dos jogadores ricos, uma paixão de glória, uma febre de querer vencer, de querer derrotar, ainda com o sacrifício dos próprios interesses.

E erguendo o copo:

— Dinheiro! Dinheiro! Rio-me dele! O dinheiro, quanto a mim, é a mais triste recomendação que um homem pode ter! Quais seriam os milhões que valeriam, por exemplo, o amor deste demônio?

E, dizendo isto, levava as mãos ao cabelo de Teobaldo e chamava a atenção dos outros para a cabeça dele, como quem mostra um objeto de arte.

— Que dinheiro vale a doçura aveludada destes olhos mais belos que os diamantes?… Que dinheiro vale toda esta riqueza? esta boca, este sorriso desdenhoso, estes dentes, esta palidez de estátua e este ar de senhor que mata de amores as suas escravas? Sim! Que me digam as mulheres qual é o dinheiro que paga tudo isto, sem contar ainda com o que há escondido neste tesouro — O talento, o caráter, a educação e a energia!

— Olha a Leonília apaixonada! Exclamou o Aguiar rindo muito.

— E por que não? Perguntou ele a encará-lo firme. Por que não? Julgas que sou incapaz de um sentimento nobre e desinteressado?… Pois olha, filho, queres que te diga? No dia em que abandonei o meu banqueiro estava em véspera de receber das mãos dele alguma coisa que eqüivale a tanto como o que possuis, e não foi por isso que não o mandei passear, logo que entendi que o devia fazer!

— Ah! Todos sabem que tu és mulher caprichosa…

— Caprichosa, não! Sou apenas mulher! Tenho coração, tenho nervos! Quando adoro um homem, sou capaz de tudo por ele, de tudo! Compreendem? De tudo! Ainda que tivesse de quebrar todas as conveniências como quem quebra isto!

Assim dizendo, tinha arrancado do pescoço o seu colar e arremessava-o partido sobre a mesa.

Teobaldo compreendeu a intenção com que isso fora feito, e lançou sobre ela um olhar de ameaça.

— Que significa esse olhar? Perguntou a cortesã. Não o compreendo.

— Tanto melhor para mim! Disse o moço esvaziando o copo — porque não tenho a menor necessidade de ser compreendido por quem não o merece!

— Sempre o mesmo orgulho e a mesma vaidade! Replicou Leonília.

— Ah! Volveu aquele, rindo com desprezo. Estás à beira da praia e julgas-te em pleno oceano! Meu orgulho! Conhecê-lo-ás depois, se te passar pela fantasia a idéia de experimentá-lo!

— Então! Então! Reclamou o Aguiar, nós não estamos aqui para discutir questões dessa ordem. Perante a pândega somos todos iguais. Faço anos e exijo que se lembrem um pouco de mim! Ainda não me fizeram um só brinde!

Leonília soltou uma risada e disse voltando-se para o festejado:

— Desculpa, filho, mas já não me lembrava que te devo o obséquio de teres feito anos hoje.

— Não repares, acrescentou Teobaldo, batendo com o seu copo no do outro rapaz. E — Bebamos à tua saúde! — Para que nunca te arrependas de tuas teorias sobre o dinheiro!…

— Obrigado! Respondeu Aguiar, mas consente que eu te diga uma coisa com franqueza: Eu não faço anos hoje!

— Como assim?

— Perdoa-me, mais tarde o saberás!

Teobaldo olhou para o amigo, depois para Leonília e afinal sacudiu os ombros.

Já haviam comido a sobremesa e dispunham-se a tomar café, quando aquele deu por falta do Aguiar e da rapariga que este convidara para seu recreio.

— Para onde teriam ido? Perguntou ele a Leonília.

— Foram-se embora. Chega-te mais para mim e ouve o que te vou dizer.

Teobaldo obedeceu.

— Sabes? Disse da. Este jantar foi uma cilada que te armei; eu, só eu, podia fazer com que o Aguiar se achasse na intimidade em que o viste com aquela rapariga; em troca, ele empregou os meios para te arrastar até aqui.

— De sorte que eu servi de divertimento a vocês ambos?… Servi para objeto de especulação, fui negociado!

— É exato, respondeu ela, e creio que não levarás a tua birra ao ponto de me deixares aqui sozinha, em um hotel!…

— Mas por que não procederam de outro modo?

— Porque já te conheço e tenho plena certeza de que só assim havias de vir.

— E, se por gosto eu não teria vindo, para que obrigar-me então a vir à força?

— Porque antes assim do que nada. Para o amor todos os meios são bons.

— Pois saiba que errou nos seus cálculos, disse Teobaldo, indo buscar o chapéu; estou disposto a acompanhá-la até à casa, mas não subirei um só degrau de sua escada.

— Por quê?

— Porque, para fazer da senhora a minha amante — Sou pobre demais, e para ser o seu amant de coeur — Sou muito rico e muito orgulhoso.

— Eu então só posso pertencer a um homem rico?

— De certo, porque é preciso muito dinheiro para comprar o luxo com que a senhora se habituou.

— Bem, volveu ela; já não precisa vir comigo. Adeus, Só lhe peço um obséquio…

— Qual?

— Vá amanhã à minha casa depois do meio-dia

— Fazer o que?

— Buscar a resposta do que acabou de me dizer agora. Vai?

— Vou. Adeus.

Leonília saiu. meteu-se no carro e Teobaldo ainda ficou no hotel, a fumar charutos e a beber, multo enfastiado de sua vida.
–––––––-
continua…

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Varal de Trovas n 28 – Geraldo Trombin (Americana/ SP) e Clevane Pessoa (Belo Horizonte/ MG)

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José Feldman (Universo de Versos n. 94)

Uma Trova do Paraná

A. A. de ASSIS
Maringá/PR

Cumprem a Lua e as estrelas
o ofício de serem belas…
E, no entanto, para vê-las,
só o poeta abre as janelas!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Fortaleza/Ceará

OCTACÍLIO DE AZEVEDO
1892 – 1978

Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
========================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

É nos momentos tristonhos
que eu peço à minha lembrança
que traga de volta os sonhos,
no aconchego da esperança…
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo/SP

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Na noite escura, eu componho
e mal consigo enxergar…
Fecho os olhos e, no sonho,
minha noite…é de luar!
=======================
Uma Trova Humorística, de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL
Nesse comércio bizarro
de promoção de viés.
Ainda venderão carro
dando de brinde mais dez.
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Eu já velho, semimorto,
para me manter de pé,
fiz de Deus meu próprio porto
onde ancorei minha fé!
========================
Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos

LEONARDO HUERTA

De los soles que he mirado
ninguno me gusta más…
que el de tu verso adorado
¡lleno de amor y de paz!
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Balneário Camboriú/SC

ELIANA RUIZ JIMENEZ

É preciso uma aliança
entre o querer e o poder,
pois é só com temperança
que se alcança o bem-viver.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

J. G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Neste dia alegre e doce,
de festas, sentimental,
queria que você fosse
meu presente de Natal!
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Retrato de tua sorte
podes nisto contemplar:
todo rio, por mais forte,
encontra a morte no mar…
========================
Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ

HERMOCLYDES S. FRANCO

A maré alta devolve
plásticos e pneus,
mas não devolve a “vergonha”!
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

A aurora corou de pejo
naquele claro arrebol,
sentindo na face o beijo
da boca rubra do Sol.
====================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

noite alta   lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Nunca vi dizer ser pobre
quem come em paz o seu pão,
quem toca sua viola
sem peso no coração
======================
Uma Décima do Nemésio

NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO
Fortaleza/CE

Solidariedade!

Oh! Deus meu, que estás no céu,
diga-me, qual o destino
desta menina (ou menino!),
que vive jogada ao léu
sem solado e sem chapéu?
Que Tu me dês, de verdade,
um pingo de caridade
pra que eu leve à esta criança
uma nesga de esperança.
Isto é: Solidariedade!
======================
O Universo de Florbela

FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
ă igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
======================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.
==============================
Uma Poesia de Canoas/RS

NEIDA ROCHA

Retrato de Família
(9º lugar no X Concurso Literário virArte)

Solitários,
na parede pálida,
os sorrisos perpétuos
insistem em relembrar
a alegria do momento.
Os olhares perdidos,
na lente,
revivem cada segundo
pela eternidade.
O segredo de cada coração
ficou no limbo da mudez,
enquanto a moldura
aconchega
as traças da saudade.
Hoje,
o retrato vela o sono
do semblante sereno
da maturidade.
=================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Caravelas

Cheguei ao meio da vida já cansado
De tanto caminhar já me perdi
Num estranho país que nunca vi,
Sou neste mundo imenso o exilado

Tanto tenho aprendido e não sei nada
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadado

Se eu sempre fui assim esse mar morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem portos
Onde velas de sonhos se rasgaram

Caravelas douradas a bailar
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar
As que lancei à vida e não voltaram, não voltaram…
=====================
Uma Poesia do Fortaleza/CE

VICENTE ALENCAR

Vida

O contorno do teu corpo
dá-me a medida maravilhosa da vida.
– E o que é a vida?
Um momento,
um beijo,
um afago.
Um corpo abraçado e amado.
A vida é um sonho
de momento,
uma chama.
Um minuto de felicidade.
A vida é um encontro
de sentimentos.
========================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
========================
Uma Poesia de Portugal

EUGÉNIO DE ANDRADE
(José Fontinhas)
Distrito de Castelo Branco(1923 – 2005)Porto
 

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

A Lua e Conselho

A Lua
Com receio talvez
de ser quadrada
a lua vai surgindo… devagarinho

Conselho
Fica em silêncio,
Olha e ouve. O mundo escuta
cada vez menos. Cada vez menos
os olhos vêem.
============================
Um Soneto de Piracicaba/SP

LINO VITTI

Ser Namorado !

Ser namorado! Aurora esperançosa e linda
na gôndola do sonho em lago iluminado!
Manhã sentimental que pensas santa e infinda,
Alma em festa total, coração transtornado!

Quando se esfolha o amor é a vez do namorado,
doce e divina é sempre a sua ansiosa vinda.
O amor primeiro é egoísta, indomável, sagrado,
fogo eterno que nunca arrefece ou se finda.

Ser namorado! Oh! céus que maravilha imensa
Que futuro, que glória – o namorado pensa!
Viver a dois, cantando um hino de amorzinho!

Mas cuidado, os que andais em busca desse sonho
pois o amor, como flor, que se abre ao sol risonho,
é efêmero e fugaz, é encanto, é vida…é espinho!
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)

Discórdia e perversidade
já vêm do tempo de Adão,
quando Caim, por inveja,
tirou a vida do irmão;
apesar disso, acredito
que um futuro mais bonito
inda nos estende a mão.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras

ELISABETH DOS SANTOS COLUMA
Los Angeles/EUA

Ia Escrever um Poema
 Ia escrever um poema
Mas foi ele quem me escreveu.
Foi só olhar pela janela,
Pra colorir o papel.
E pintar a lua de verde,
Pensando que era folhagem
E imitar o farfalhar dela
Com um sopro bem suave
Lá no canto do meu quarto…
Pra ninguém pensar que escrevo
Sem papel e sem pincel.
Foi o poema que me escreveu.
E que me fez assim desse jeito.
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Nova Friburgo/RJ

ANTONIO ROSALVO R. ACCIOLY

A Costureira

Cansei de discursos humanos
prefiro escutar minha máquina
costurando meus panos.

A geografia dos bordados
não me causa danos
e no tempo que me resta
vou costurando meus planos.

Pela quadra da janela
chove uma chuva verde
e um bem-te-vi grita
de cima duma palmeira.

Hoje é dia de remendos
ontem preguei mil botões
tem vezes que a vista embaça
o tempo escurece
e eu fico observando
na quietude branca da parede
uma velha aranha
no labor paciente da sua teia.
E tanto quanto meus bordados
hoje a vida já não
me causa danos.

(5o. Lugar no VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013, modalidade Poema Livre)
=====================
Um Poetrix de Curitiba/PR

MARILDA CONFORTIN
A outra
hoje, uva
amanhã, passa
Eu, vinha.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Estrambote Melancólico

Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.
========================
UniVersos Melodicos

Sílvio Caldas e Orestes Barbosa
SUBURBANA
(valsa-canção, 1939)

Olhando o céu me demoro
Num verso triste é que choro
Ninguém vê o pranto meu
Há muita lágrima triste
Que em seu sorriso consiste
Como o poeta escreveu

Minha linda suburbana
Por trás da veneziana
Vem sorrir nesta canção
Com teus lábios de doçuras
Que são tâmaras maduras
Da flora do coração

Zona norte da cidade
Residência da saudade
Onde nasceu o teu cantor
No teu cantor comovido
Que sonha com teu vestido
Que morre por teu amor

Olho as estrelas cansadas
Que são lágrimas doiradas
No lenço azul do céu
Estrelas são reticências
Estrelas são confidências
Do meu romance e do teu
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Uma Cantiga Infantil de Roda

EU FUI NO TORORÓ

Eu fui no Tororó beber água e não achei,
Achei bela morena, que no Tororó deixei
Aproveite, minha gente, que uma noite não é nada
Se não dormir agora, dormirá de madrugada

Oh, Dona Maria, oh, Mariazinha
Entrará na roda e ficará sozinha
– Sozinha eu não fico, nem hei de ficar
Porque tenho Chico para ser meu par

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Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 17

CAPÍTULO IX

Passadas as primeiras épocas depois da morte dos pais de Teobaldo, o verdadeiro temperamento deste, aquele temperamento herdado do velho cavalheiro português paraense, aquele temperamento mestiço agravado por uma educação de mimos e liberdades sem limites, começou a ressurgir como o sol depois de uma tempestade. Reapareceu-lhe o gênio alegre e petulante e com este voltaram também as suas propensões, os seus gostos, os seus hábitos e as suas amantes; só as antigas posses é que não voltaram.

A princípio, acordando pouco a pouco do desânimo em que caíra parecia resolvido a vencer, fosse como fosse, todos os obstáculos que se lhe antolhassem no caminho; dizia-se disposto a tudo suportar com energia; disposto a passar por cima dos maus modos e da impertinência dos ricos até galgar uma posição social. E já o inconsolável Caetano ouvia-o cantarolar ao descer de manhã para o banheiro, já procurava sorrir às suas pilhérias quando ele servia o almoço e já o via aprontar-se alegremente para sair, acender o charuto e ganhar a rua, muito ativo, em busca de um emprego. Mas Teobaldo, ao dobrar a primeira esquina, encontrava logo um conhecido dos bons tempos e, sem poder evitá-lo e sem coragem para lhe expor francamente a sua posição, fingia-se feliz e falava dos seus extintos prazeres como se ainda os desfrutasse.

O amigo convidava-o a beber, depois iam jantar a um hotel, depois metiamse no teatro, e afinal Teobaldo só voltava para casa às duas horas da manhã, arrependido daquele dia e fazendo protestos de regeneração para o dia seguinte. Mas no dia seguinte, quando dava por si, estava já em qualquer confeitaria, a beber, a conversar com os amigos, sem mais pensar nos seus protestos da véspera. E assim se foi habituando a essa fictícia existência, que no Rio de Janeiro levam muitos rapazes: entrada franca nos teatros, contas abertas em toda a parte, um amigo em cada canto e um credor a cada passo. Devia ao alfaiate, devia ao chapeleiro, ao sapateiro, ao hotel, mas andava sempre com a mesma elegância e bebia dos mesmos vinhos.

— Que diabo! As coisas haviam de endireitar, e ele então pagaria tudo!

De vez em quando recebia algum dinheiro de antigos devedores de seu pai; nessas ocasiões gastava como se ainda fosse rico; não porque não compreendesse o mal que fazia, mas por uma fatalidade de seu temperamento e de sua educação. Em uma dessas vezes, acabava ele de assentar-se à mesa do botequim do teatro lírico, quando sentiu baterem-lhe de leve com um leque nas costas. Voltou-se e viu Leonília defronte dele. Ela havia chegado da Europa dois ou três dias antes; fora passear em companhia de um banqueiro rico e voltara carregada de jóias e dinheiro. E só, livre; o banqueiro, depois de insistir em querer dete-la na Itália, ameaçou-a com uma separação, mas no dia seguinte, em vez da amante, encontrou sobre a cama este bilhete: “Meu caro banqueiro, a uma mulher de minha ordem, nunca se deve ameaçar com o abandono — Abandona-se logo, para não suceder como lhe acontece agora. — Fujo! Adeus, até outra vez!”

Tudo isso ela contou a Teobaldo em menos de três minutos, assentando-se defronte dele. Estava agora mais bonita e incontestavelmente mais elegante. Vestia-se cor de cana, tinha os ombros e os braços nus, a cabeça constelada de diamantes.

— Tomas alguma coisa? Perguntou-lhe o rapaz.

— Um gole de champanha.

Teobaldo pediu uma garrafa, e os dois antigos amantes continuaram a conversar, sem que durante toda a palestra se tocasse, nem de leve, no atual estado de pobreza a que se via aquele reduzido.

— Naturalmente ela ignora tudo… pensou ele. Afinal vieram de parte a parte as recordações; lembraram-se as cenas de ciúme, as tolices que os dois fizeram por tanto tempo.

— Recordas-te ainda aquela ceia que engendramos em casa do teu cocheiro? Perguntou Leonília, rindo.

— Quando voltávamos de um passeio à Cascatinha?… Reforçou ele; não, não me lembro, nem devo lembrar-me.

— E daquele baile carnavalesco, em que me obrigaste fingir um ataque de nervos por causa do velho Moscoso?…

— Bom tempo aquele!… Resmungou Teobaldo, ferrando o olhar no chão e tornando-se triste. Ah! Bom tempo!…

— Queres saber de urna coisa?… Segredou-lhe a moça, erguendo-se; vamos fugir para casa; tenho lá um marreco assado. Vai ao camarote buscar a minha capa, n. 8. primeira ordem.

Teobaldo quis recusar-se e confessar com franqueza a sua posição; mas, ou porque lhe faltasse a coragem para isso, ou porque aqueles ombros e aqueles braços lhe trouxessem irresistíveis lembranças. ou porque Leonília se mostrava tão empenhada em levá-lo consigo para casa ou porque os olhos dela o prendiam com tanto desejo e acordavam nele adormecidas paixões, ou porque depois de algumas taças de champanha ninguém resiste a uma mulher formosa, o fato é que o rapaz não o se deteve um segundo e correu ao camarote.

Ela, ao vê-lo tornar à mesa, entregou-lhe os ombros, e Teobaldo envolveu-a na capa, uma grande capa alvadia e orlada de arminhos; em seguida pagou a garrafa e conduziu a bela mulher para um cupê que a esperava à porta do teatro. Seriam onze e meia da noite quando chegavam os dois à casa dela. Veio recebe-los um criado inglês, que os fez entrar para uma pequena sala, caprichosamente mobiliada.

— Espera um pouco por mim, disse Leonília ao rapaz, fugindo para o interior da casa.

Teobaldo atirou-se em um divã e pôs-se a fazer íntimas considerações sobre o ato que acabava de praticar:

— Não seria uma baixeza de sua parte, interrogou a si mesmo, conservar aquela mulher no engano em que se achava a respeito dele?… Porventura seria possível deixar-se ficar ali nas circunstâncias precárias em que ele se via, sem com isso humilhar-se aos seus próprios olhos?… Poderia acaso sustentar aquelas relações no mesmo pé de superioridade em que as mantinha dantes?… E, uma vez que aceitasse qualquer concessão da parte daquela mulher, uma vez que não tivesse como qualquer de corresponder a peso de ouro com o amor que ela lhe dava, não ficaria ele obrigado a respeitá-la com a submissão de um obsequiado; não ficaria ele devendo em gratidão, em finezas e em considerações aquilo que não pudesse pagar a dinheiro?…

— Sim! Deliberou Teobaldo, nem por forma alguma devo iludir me a este respeito! Não posso ficar!

E, afastando do pensamento toda a idéia de hesitação, procurado arrancar da memória a imagem daqueles ombros e daqueles braços nus, ergueu-se resolutamente, tirou um cartão o do bolso e ia a escrever algumas palavras, com a intenção de retirar-se depois, quando se abriu uma porta, que comunicava com o interior da casa, e Leonília reapareceu já em trajes domésticos: um belo penteador de renda, os cabelos a meio despenteados e os pés em chinelas turcas.

Teobaldo suspendeu o seu movimento, franzindo ligeiramente o sobrolho.

— Que é isso? Perguntou ela. Ias escrever?…

— Sim, a tua presença poupa-me esse trabalho. Senta-te aqui comigo e ouve com atenção o que te vou dizer.

Leonília, com um gesto que a tornava mais engraçada, deixou-se cair ao lado dele no divã.

— Sabes? Eu não posso cear contigo e é natural que não volte à tua casa.

— Por quê?

— Porque tenho sérios motivos que mo impedem. Mais tarde sem que seja necessária a minha intervenção, hás de saber de tudo. É só esperar mais alguns dias.

— Não preciso esperar! Já sei: é porque estás pobre…

Teobaldo fez-se vermelho, como que se aquela última palavra fosse uma bofetada. Ergueu-se, sem dizer palavra, tomou o chapéu e estendeu a mão à rapariga:

— Adeus.

Ela, em vez de apertar-lhe a mão, passou-lhe os braços em volta do pescoço e alongou os lábios suplicando um beijo em silêncio.

E depois, em resposta a uma nova menção de Teobaldo:

— É inútil tentar sair, porque as portas estão fechadas… Dei ordem para que não as abrissem a ninguém.

O rapaz fez um gesto de contrariedade e disse, tornando-se sério:

— Creio que terás bastante espírito para não me colocares em uma posição ridícula…

— Ridículo serias tu se me abandonasses agora…

— Paciência. Dos males o menor!…

— Mas, nesse caso, ao menos ceia comigo. O fato de estares pobre não te desobriga dos teus deveres de cavalheiro. Serias o mais incivil dos homens se me obrigasse a ir sozinha para a mesa.

Ele respondeu largando o chapéu e o sobretudo, que tinha ido tomar.

— Ainda bem! Disse Leonília. Passemos para a sala de jantar.

E acrescentou, puxando-o pelo braço:

— Entra por aqui mesmo.

Os dois atravessaram uma pequena antecâmara, depois uma grande alcova, que Teobaldo considerou de relance, e afinal, tendo ainda atravessado um quarto de toucador, acharam-se na sala de jantar.

— Estamos completamente a sós, observou a rapariga, mostrando a ceia já servida; dei ordem ao copeiro que se recolhesse, e disse à criada que podia dormir à vontade.

— Está bom…

— Temos tudo à mão. Não precisamos de ninguém.

E, assentando-se ao lado de Teobaldo:

— Sabes? A primeira pessoa de quem pedi notícias, ao chegar aqui, foste tu…

— Muito obrigado.

 — Oh! Não calculas o prazer que tive quando me disseram que estavas totalmente arruinado!

— É bondade tua!

— E, olha, se não fosse isso, eu talvez não tivesse te prendido hoje.

— Orgulho! Compreende-se.

— E é exato. Nós, mulheres, quando gostamos deveras de um homem, sentimos dessa espécie de orgulho.

— Caprichos do amor… Queres uma fatia de presunto?

— Aceito. Vocês, homens, são os bichos mais pretensiosos que o céu cobre. Querem ter sobre as pobres das mulheres todas as superioridades!… Enquanto nós nos sentimos felizes em depender do homem que amamos, vocês, vaidosos, sentem-se humilhados em dar ternura em troca de ternura que lhe damos. Súcia de egoístas!

— Não, filha, isso depende também da qualidade da mulher.

— Que gentileza!

— Pois não! Há certas mulheres, cuja ternura não é lícito pagar só com ternura…

— Não. O amor só com o amor se paga! Passa a mostarda.

— Oh! Mas é que há tanta espécie de amor…

— Protesto! O amor, o verdadeiro amor, e um só, insolúvel e eterno! E por ele tudo se explica e tudo se perdoa! É preciso não enxovalhar esse nome sagrado emprestando-o a outro qualquer sentimento; eu quando te falo em amor, não me refiro ao amor fingido… Toma um pouco de Borgonha.

— Sim, mas também há mulheres, das quais seria tolice esperar o tal amor genuíno de que falas…

— Ora, dize-me uma coisa, Teobaldo; quantas espécies de mulheres conheces tu?

— Eu? Duas.

— Quais são elas?

— A mulher virtuosa e a mulher que não é virtuosa.

— Só?

— Só.

— Ora bem, dize-me ainda: que diabo entendes tu pela tal mulher virtuosa?

— A mulher casta.

— E pela outra entendes naturalmente a que não é casta. Para aquela tens tudo que há de bom em ti — o respeito, o amor, a confiança; e para esta, guardas o contrário de tudo isso: — desconfias dela, não a estimas sinceramente e não lhe dedicas a menor consideração, porque a infeliz nada te merece!

— Não é uma lei criada por mim…

— Bem sei, e nem tenho a pretensão de destruí-la com as minhas palavras; apenas quero provar-te que vocês, homens, no juízo que formam das mulheres, são os entes mais injustos e mais tolos que se pode imaginar!

— Vamos ver isso.

— Quero provar-te que esse desprezo a que condenam a mulher perdida é nada menos do que a condenação de todas as mulheres em geral.

— Como assim?

— Vou ver se me explico. Toda a mulher é capaz ser honesta ou deixar de ser, conforme as circunstâncias que determinam a sua vida; não é exato? Todas elas estão sujeitas às mesmas leis fisiológicas e aos mesmos irreparáveis descuidos, pelos quais, confessemos, são sempre as responsáveis e dos quais muito raras vezes tem a culpa. Apenas acontece que umas são espertas e outras são eternamente ingênuas. Daí a divisão da mulher em duas ordens — a mulher maliciosa e a mulher simples; pois bem, em casos de sedução — a maliciosa resiste, a inocente sucumbe. Não achas que é muito mais fácil perder uma menina verdadeiramente ingênua do que uma outra que não o seja?

— Sim, mas isso nada prova.

— Bem. Admitindo que é mais difícil seduzir a mulher velhaca do que a mulher inocente; e visto que a classe das perdidas compõe-se em geral destas últimas, segue-se que toda a mulher é má, umas por natureza e outras à força de circunstâncias; dai a condenação de todas elas!

— Isso é uma filosofia muito apaixonada!.

— Não, é simplesmente verdadeira. Ora, dize-me se, em vez de me teres agora ao teu lado, tivesses uma rapariga de minha idade, casada aí com qualquer sujeito e mãe de um pequeno que ela tivesse ao colo e de mais três que lhe subissem pelas pernas; dize-me, que impressão te produziria no espírito essa mulher?

— Uma impressão toda de respeito e acatamento.

— Pois bem; agora imagina tu por outro lado que essa mesma rapariga, antes de conhecer o homem que havia de casar com ela, era uma criatura inocente ao ponto de ignorar o valor da própria virgindade, e crédula ao ponto de não supor o seu noivo capaz de a enganar; imagina ainda que esse noivo é nada menos do que um sedutor; imagina que ele a abandona depois de desvirtuá-la e que à infeliz se fecham, como é de costume, todas as portas, menos, está claro, a de um sujeito que se propõe substituir o primeiro, não com o casamento, que vocês são incapazes disso, mas substitui-lo amancebando-se com ela…

— Bem.

— Pois, feito isto, meu amigo, está feita a grande viagem de perdição, porque depois desses dois degraus é só escorregar, e escorregar fatalmente, sem esperança de apoio. Se do primeiro ao segundo amante mediou um ano, do segundo ao terceiro vai só um mês, do terceiro ao quarto uma semana, e os outros contam-se pelos dias e afinal pelas horas. E agora, imagina tu, meu orgulhoso, que, em vez de mim, tivesses a teu lado uma dessas desgraçadas que tem amantes por hora, uma dessas mártires que, por inocência e por credulidade, se deixaram arrastar à última degradação; imagina essa mulher ao teu lado e dize-me depois que sentimentos ela te inspiraria.

— O da compaixão; está claro.

— O da compaixão! Mas que espécie de compaixão é essa, que só se veste de desprezo e desdém?… Para os entes que nos inspiram compaixão entendo que deve haver palavras consoladoras e cheias de caridade, deve haver ternura e carinhos e não o abandono e a maldição!

— Mas… Ia a dizer Teobaldo.

— Espera. Disseste ainda há pouco que só conheces duas espécies de mulheres E declaraste que uma te inspira respeito e outra compaixão; pois quero saber agora a qual dessas duas espécies pertenço eu.

— Ora, que exigência de mau gosto!… Voltaste do passeio à Europa com uma dialética bem esquisita!…

— Não! Responde!

— Mas, filha, não há que saber… Pertences à segunda espécie…

— E assim é… disse Leonília, meneando a cabeça. Todos nós merecemos ou devemos merecer compaixão. Ontem a inocência e a perseguição; hoje a vergonha e o desprezo; amanhã a miséria e talvez o hospital!

— Para que pensar nisso, observou Teobaldo, já aborrecido com as palavras da rapariga. Mudemos de assunto.

— Causo-te lástima, não é verdade? Dize-me com franqueza!

— É.

— E sabes, meu adorado, qual é o único meio de socorrer uma mulher que nos causa compaixão?

— Qual é?

— Amando-a.

— Oh!

— Não te sentes capaz de tanto?

— Não.

— Nem se eu para isso empregar todos os meios?… Se eu me fizer tua escrava, tua amiga e tua amante, só tua?

— Impossível.

— E se nisso estiver empenhada a minha vida, a minha felicidade e talvez a minha reabilitação?

— Paciência!

— É a tua última palavra!

— E peço-te licença para sair.

— Não dou.

— Mas é preciso.

— Não quero. Aqui mando eu!

Teobaldo experimentou as portas; estavam todas fechadas por fora.

— É então uma violência? Perguntou ele, afetando bom humor.

— É, respondeu a cortesã.

E, tornando a direção da alcova, acrescentou com um sorriso:

— Vem.
–––––––––––––––
continua…

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