Artur Azevedo (A Pele do Lobo)

Comédia em um ato
Escrita em 1875 e representada pela primeira vez no Rio de Janeiro, no Teatro Fênix Dramática, em 10 de abril de 1877

A ANTONIO FONTOURA XAVIER

PERSONAGENS
CARDOSO – subdelegado
AMÁLIA – sua mulher
APOLINÁRIO
PERDIGÃO
JERÔNIMO
MANUEL MARIA
VITORINO
O COMPADRE
UMA PARTE

Dois soldados da polícia

A cena passa-se no Rio de Janeiro

Atualidade.

Ato Único
Sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.

Cena I

CARDOSO, AMÁLIA (Vestidos para a cerimônia e prontos para sair.) UMA PARTE (Que logo sai, à porta do fundo.)

CARDOSO – Sim, senhor; sim,. senhor! Pode ir com Deus. Descanse, que hoje mesmo serão dadas as providências que o caso exige.

PARTE – Às ordens de Vossa Senhoria. (Retira-se.)

CARDOSO – Safa!

AMÁLIA (Erguendo-se.) – Deixar-te-ão desta vez?

CARDOSO- E metam-se!

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Para que aceitaste esta maldita subdelegacia?

CARDOSO (Ainda passeando.) – Eu não aceitei: pedi. Mas já tenho dito um milhão de vezes que os serviços prestados ao país e ao partido pesam muito no ânimo daqueles que me podem fazer galgar mais um degrau na escala social.

AMÁLIA – Deixa-te disso, Cardoso; um degrau dessa tão falada escala social, não vale decerto o sacrifício que te custa essa autoridade de ca-ca-ra-cá. São uns desfrutadores, eis o que são! Hás de ser pago com um pontapé. Verás!

CARDOSO – Hei de ser promovido na primeira vaga que aparecer. O Cantidiano está por pouco a bater a bota. Verás se o lugar é ou não é meu!

AMÁLIA – Fia-te na Virgem e não corras.

CARDOSO – E uma vez que aceitei o cargo…

AMÁLIA – A carga, deves dizer.

CARDOSO – Venha com ele o sacrifício. Antes de tudo o dever!

AMÁLIA – Estamos prontos para sair há duas horas.

CARDOSO (Consultando o relógio de mesa.) – Há duas horas e dois minutos.

AMÁLIA (Embonecando-se ao espelho.) – Creio que não chegamos a tempo para o batizado.

CARDOSO – Que remédio terão eles, senão esperar pelos padrinhos?

AMÁLIA – E o carro na porta há tanto tempo?

CARDOSO – Anda com isso, anda com isso! E metam-se!

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Vamos. Não percamos mais tempo.

CARDOSO – Vamos . (Vão saindo. Batem palmas.)

AMBOS – Bateram.

CARDOSO – Quem é?

APOLINÁRIO (Fora.) – Sou eu.

AMÁLIA – Eu quem?

APOLINÁRIO (No mesmo.) – Um criado de Vossa Senhoria.

CARDOSO – Entre quem é.

AMÁLIA – Temo-la travada! (Entra Apolinário. Pisa macio e fala descansado.)

Cena II
Os mesmos e Apolinário

APOLINÁRIO (À porta do fundo.) – Dá licença, senhor subdelegado?

CARDOSO – Entre, senhor. (Vai outra vez por o chapéu na secretária.)

APOLINÁRIO (Entrando e sentando-se em uma cadeira que deve estar no meio da cena.) – Não se incomode Vossa Senhoria. Estou muito bem. Vossa Senhoria como tem passado?

CARDOSO – Bem, obrigado. O que pretende o senhor?

APOLINÁRIO – Sua senhora tem passado bem, senhor subdelegado?

AMÁLIA – Bem, obrigada. O senhor o que pretende?

APOLINÁRIO – Ah! estava aí, minha senhora? Os meninos estão bons?

AMÁLIA – Que meninos, senhor?

APOLINÁRIO – Os seus filhos, minha senhora.

AMÁLIA – Não os tenho. E esta!
 

APOLINÁRIO – Pois levante as mãos pra o céu e dê graças a Nosso Senhor Jesus Cristo!(Sinais de impaciência em Cardoso e Amália.) Eu tenho três, três! Todos três machos, felizmente. Mas que consumição! Que canseira! Quando não está um doente, está outro; quando não está outro, está outro; quando não está nenhum, está a mãe; quando não está a mãe, está o pai. Às vezes estão, filhos e pais, todos doentes. É preciso chamar a vizinha para dar-nos qualquer coisa. É uma lida, minha rica senhora! Peça a Deus que lhe não dê filhos. Olhe…(Mostra a cabeça.) Não vê?

AMÁLIA – O quê? o quê?

APOLINÁRIO – Já estou pintando… Ainda anteontem… Anteontem não… Quando foi, Apolinário? Segunda… terça… Foi anteontem mesmo… Eu tinha acabado de tomar o meu banhinho e de ouvir minha missinha…

CARDOSO (Interrompe-o.) – Meu caro senhor, tomo a liberdade de preveni-lo que temos muita pressa e não, podemos perder tempo. Íamos saindo justamente quando o senhor entrou…

APOLINÁRIO (Erguendo-se.) – Nesse caso, senhor doutor…

CARDOSO – Perdão, não sou doutor.

APOLINÁRIO – Fica para outro dia… Eu vinha dar minha queixa, mas… (Cumprimenta.) Senhor doutor… minha senhora… (Vai saindo.)

CARDOSO – Venha cá, senhor: já agora diga o que pretende.

APOLINÁRIO (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, com força.) – Senhor subdelegado…

CARDOSO – Não é preciso gritar tanto…

APOLINÁRIO – Esta noite fui roubado.

CARDOSO – Diga.

APOLINÁRIO – Dezoito cabeças de criação… dezoito ou dezenove… Ontem esteve em nossa casa um cunhado meu, irmão de minha mulher, empregado no Arsenal de Guerra, e não tenho certeza de que ele levasse alguma galinha consigo, mas creio que não. Em todo caso, foram dezoito ou dezenove cabeças, não falando em um bonito galo de crista, que comprei no mercado, não há quinze dias.

CARDOSO – Muito bem. O senhor chama-se…

APOLINÁRIO – Apolinário, um criado de Vossa Senhoria.

CARDOSO – Apolinário de quê?

APOLINÁRIO – Apolinário da Rocha Reis Paraguaçu (Dando um cartão) Olhe, aqui tem Vossa Senhoria meu nome e morada.

CARDOSO – Bem; pode ir descansado, que serão dadas as providências que o caso exige.

APOLINÁRIO (Preparando-se outra vez para um discurso e elevando muito a voz.) – Ainda não fica nisso, senhor doutor!

CARDOSO – Já tive ocasião de dizer-lhe, primeiro, que não é preciso gritar tanto; segundo, que não sou doutor.

APOLINÁRIO (Com a mesma inflexão, porém baixinho.) – Não fica nisso. Eu conheço o gatuno!

CARDOSO – E por que estava calado?

AMÁLIA (Não se podendo conter.) – Com efeito, Senhor Paraguaçu!

APOLINÁRIO (Atarantado.) – Hein! (Falando com cada vez mais descanso.) Não conheço eu outra coisa! Chama-se Jerônimo de tal, um ilhéu, um vagabundo, que foi há tempo cocheiro de bondes e agora não sai da venda de seu Manuel Maria, ao qual dizem que vende por um precinho de amigo, o que …     (Ação de furtar.) Vossa Senhoria sabe qual é a venda de seu Manuel Maria? É a que fica mesmo em frente à casa do meu cunhado, do mesmo que esteve ontem em nossa casa, e sobre o qual estou em dúvida se levou ou não alguma galinha. (A Amália.) Mas que bonito galinho, senhora! Vossa Senhoria dava oito mil réis por ele com os olhos fechados… Era branco, branquinho, como aqueles patinhos do Passeio Público. Uma crista escarlate! Que bonito galo!

CARDOSO – Vamos! Não temos tempo a perder! Faça o favor de sentar-se naquela mesa e dar a queixa por escrito.

APOLINÁRIO – De muito bom gosto, senhor doutor. (Obedece.)

CARDOSO – E o senhor a dar-lhe! Já lhe disse que não sou doutor.

APOLINÁRIO – Isso é modéstia de Vossa Senhoria.

AMÁLIA – Parece de propósito, Senhor Paraguaçu.

CARDOSO – Deixa-o para lá. (Vai para junto de Amália.) Que maçador! E metam-se!

AMÁLIA – Não chegaremos a tempo.

APOLINÁRIO (À mesa.) – Esta pena está escarrapachada, senhor subdelegado…

CARDOSO – Vou dar-lhe outra… vou dar-lhe outra…

AMÁLIA – Anda… Tem paciência… Acaba com isso. (Cardoso vai abrir a secretaria e mudar a pena da caneta.)

APOLINÁRIO – Muito obrigado! Que incômodo tem tomado Vossa Senhoria! Mas também não há quem diga à boca cheia: “Aquilo é que é um subdelegado! Zelo até ali… É o pai das partes!”

CARDOSO – Faça o favor de escrever o que tem de escrever…

APOLINÁRIO – Às ordens de Vossa Senhoria . (Escreve.)

CARDOSO (Voltando para junto de Amália.) – Decididamente peço a demissão!

AMÁLIA – Isso já devias ter feito há muito tempo.

CARDOSO – Olha que é bem difícil suportar uma maçada assim… E metam-se!

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Pede demissão, Cardoso, pede demissão.

APOLINÁRIO (Da mesa.) – Senhor subdelegado, faça o favor de me dizer o modo por que devo principiar este requerimento… Em matéria de polícia sou completamente leigo… Diga-me só o cabeçalho… O cabeçalho! o resto vai…

CARDOSO – Aí, Senhor Paraguaçu! O senhor é maçante! Tenho estado a aturá-lo há meia hora!

AMÁLIA (Olhando o relógio.) – Há meia hora e sete minutos.

CARDOSO – Estamos muito apressados, meu caro senhor… não posso estar com isso…

APOLINÁRIO – Eu quis retirar-me quando Vossa Senhoria disse que …

CARDOSO – Vamos lá! Escreva no alto — Ilustríssimo Senhor .

APOLINÁRIO – O Ilustríssimo Senhor — já cá está.

CARDOSO – Bem (Ditando.) —“O abaixo assinado, morador nesta freguesia, à rua de tal , número tal…”

APOLINÁRIO (Escrevendo.) – …     número treze…

CARDOSO – “Queixa-se a Vossa Senhoria de que, ontem, às tantas horas da noite…”

APOLINÁRIO – “Queixa-se” é com x ou ch?

AMÁLIA – Ó céus! (Rindo-se.)

CARDOSO – Como quiser! Não faço questão de ortografia.

APOLINÁRIO – Vai com ch. (Acabando.) …     “da noite”…

CARDOSO – Como está?! (Vendo.) Fulano de tal, tal, tal. Ah! (Ditando.) “Furtaram-lhe tantas galinhas…”

APOLINÁRIO (Escrevendo.) – …”e um galo de crista”…

CARDOSO – “… as suspeitas de cujo furto faz recair em Fulano de Tal.” (Consultando o relógio.) E metam-se!

APOLINÁRIO (Escrevendo.) – “Fulano de tal, vulgo Barriga-cheia”. Pronto!

CARDOSO – Na outra linha: “Deus guarda a Vossa senhoria.”

APOLINÁRIO – …     “a Vossa Senhora”…

CARDOSO – Na outra linha: “Ilustríssimo Senhor Subdelegado de tal freguesia.”

APOLINÁRIO – Pronto.

CARDOSO – Assine.

APOLINÁRIO – …     “Apolinário da Rocha Reis Paraguaçu.” (Erguendo-se.) Pronto.

CARDOSO – Bem; agora pode ir descansado, que serão dadas as providências que o caso exige.

APOLINÁRIO – Com licença, senhor subdelegado… Às ordens de Vossa Senhoria…

CARDOSO – Passe bem.

APOLINÁRIO – Minha senhora…

AMÁLIA – Viva. (Volta-lhe as costas.)

APOLINÁRIO – Sem mais incômodo. (Saída falsa.)

CARDOSO – Safa!

AMÁLIA – Saiamos, saiamos quanto antes! pode vir outro… (Vão saindo.)

APOLINÁRIO (Voltando.) – Ia-me esquecendo, senhor subdelegado…

CARDOSO – Outra vez!

AMÁLIA – Assustou-me até!

CARDOSO – O que mais deseja?

APOLINÁRIO – Hoje, logo depois do almoço, encontrei-me cara a cara com o tal Jerônimo!

CARDOSO – Que Jerônimo, senhor?

APOLINÁRIO – O Barriga-cheia, o tal que me furtou as galinhas…

CARDOSO – E o que tenho eu com isso, não me dirá?

APOLINÁRIO – Direi, sim, senhor. Com licença. (Desce à cena e senta-se.) Chamei-o de ladrão! Disse-lhe assim: “Você é um ladrão!” — Com licença da senhora…

AMÁLIA – E o que tem meu marido com isso?

APOLINÁRIO – É que o sujeito tomou três testemunhas, e diz que me vai processar por crime de injúrias verbais.

CARDOSO – Mas, enfim, faz favor de me dizer para que voltou cá?

APOLINÁRIO – Vim prevenir a Vossa Senhoria de que…

CARDOSO – Vá prevenir ao diabo que o carregue!

APOLINÁRIO (levantando-se.) – Senhor doutor.

CARDOSO (Gritando.) – Já lhe disse que não sou doutor!

APOLINÁRIO (Imitando-o) – Isso é modéstia de Vossa senhoria!

CARDOSO – Saia! Ponha-se ao fresco! Supõe o senhor que sirvo de joguete?

APOLINÁRIO – Mas Vossa Senhoria…

CARDOSO – Saia!

APOLINÁRIO – É que …

AMÁLIA – Oh! senhor, já é a terceira vez que se lhe diz — saia.

APOLINÁRIO – Minha senhora, eu…(Tornando a sentar-se, com todo o sossego.) Com licença…

AMÁLIA – Oh! isto é demais!

CARDOSO – Então, não ouve!

APOLINÁRIO – Quero justificar-me!

CARDOSO (Ameaçador.) – Cuidado, Senhor Paraguaçu!

APOLINÁRIO – Bem, Vossa Senhoria está em sua casa: manda. (Levantando-se e cumprimentando.) Ás ordens de Vossa Senhoria.

CARDOSO – Viva! Há mais tempo! (Passeia agitado.)

APOLINÁRIO – Minha senhora…

AMÁLIA – Passe bem. (Saída falsa de Apolinário.) Que inferno! que inferno! E metam-se!

APOLINÁRIO (Voltando.) – Acredite senhor doutor, que eu não queria de forma alguma…

CARDOSO (Desesperado.) – Ah! ele é isso? (Agarra uma cadeira e levanta-a, correndo para Apolinário.)

AMÁLIA (Muito aflita.) – Ah! (Suspende o braço de Cardoso. Ficam todos numa posição dramática.)

APOLINÁRIO (Com todo o sangue frio.) — Tableau. (Desaparece.)

Cena III

Cardoso e Amália

CARDOSO – Vês, Sinhá, vês como um homem se deita a perder?

AMÁLIA – Sim, sim, mas vamos, anda daí!

CARDOSO (Caindo na cadeira que tinha nas mãos.) – E que dor de cabeça fez-me este bruto!… E metam-se.

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Espera… vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)

CARDOSO – Depressa… depressa, Sinhá! (Amália esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem…basta… está pronto… Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (Amália deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a seu marido.)

AMÁLIA – Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me do leque. (Entra à direita baixa.)

CARDOSO (Falando para dentro.) Que demora, Sinhá, que demora! Ainda há de vir alguém, verás! (Passeia.) Então não achas esse leque! Aí! minha cabeça! E metam-se! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)

AMÁLIA (Dentro.) – O meu frasco de água da Colônia!

CARDOSO (Dentro.) – Que pena!

AMÁLIA (Dentro.) – Ah! cá está o leque! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)

CARDOSO – Já estou suando. (Procura nos bolsos.) Não tenho lenço.

AMÁLIA – Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)

CARDOSO – E metam-se, hein! E metam-se a servir o país!

AMÁLIA (Voltando com um par de meias na mão.) – Toma, toma… Apre! (Dá-lho.)

CARDOSO – Isto é um par de meias, Sinhá! Estás a meter os pés pelas mãos! (Restitui-lho.)

AMÁLIA – Como está esta cabeça, meu Deus! (Sai e volta com um lenço.) Toma… Vamos… uf!

CARDOSO – Vamos! (Encaminham-se para a porta. Batem palmas.)

AMBOS – Ah!

CARDOSO (Fora de si.) – Não estou em casa!

JERÔNIMO (Aparecendo, de chapéu na cabeça.) – Licença para um…

Cena IV

Os mesmos e Jerônimo

CARDOSO – Então é assim que se entra em casa alheia?

JERÔNIMO (Sombrio.) – Assim como? A casa da autoridade é uma repartição pública. (Deita no chão a cinza de um cachimbo; e escarra na parede.)

CARDOSO – E que tal?

AMÁLIA – Vê o que ele quer, Cardoso?

JERÔNIMO – Venho preveni-lo de que é falso o que lhe veio hoje dizer um tal Paraguaçu, acerca de um furto de galinhas. É provável que ele lhe dissesse que eu, Jerônimo Linhares, vulgo Barriga-cheia, sou o autor desse furto, como andou por aí dizendo a quem quis ouvi-lo. É falso! (Cospe outra vez na parede.)

AMÁLIA (Empurrando um escarrador com o pé.) – Faz favor de não cuspir no chão… Aqui tem o escarrador… (Jerônimo nem olha para Amália.)

CARDOSO – Era só isso? Estou ciente.

JERÔNIMO – Não, senhor; por isto só não vinha eu cá, ora viva! Venho queixar-me do queixoso por crime de injúrias verbais. Chamou-me de ladrão, e se quiser o mais, mande aquela mulher para dentro. (Cospe outra vez na parede.)

CARDOSO – Pois apresente a queixa e as testemunhas.

JERÔNIMO – A queixa aqui está. (Apresenta um papel sujo, que Cardoso pega com repugnância. Vai à porta do fundo.) Ò compadre! Ó seu Manuel Maria! Ó seu Vitorino? podem entrar… Nada de cerimônias!

CARDOSO (A Amália.) – O tratante dispõe desta casa como se fosse sua!

Cena V

Os mesmos, Manuel Maria, depois O Compadre, depois Vitorino

MANUEL MARIA (Entrando.) – Aqui estou eu!

COMPADRE (Entrando.) – E eu…

VITORINO (Entrando.) – E eu…

AMÁLIA – Cardoso, dize-lhes que venham em outro dia… (À parte.) Como cheiram a cachaça!

CARDOSO – Meus senhores, tenham a bondade de voltar amanhã.

JERÔNIMO – Aí vem o maldito sistema da demora e do papelório.

CARDOSO – Cala-te daí, insolente, que não tens autoridade para fazer considerações neste lugar… Apareçam terça-feira ou mesmo amanhã! Mas terça-feira é melhor, porque é o dia da audiência. Não posso estar agora com isto… Estamos prontos para sair há muito tempo!

AMÁLIA – Há três horas!

CARDOSO (Consultando o relógio.) – Há três horas e três minutos!

JERÔNIMO (Cuspindo na parede.) – Então, podiam ter dito logo! Escusava a gente de estar aqui à espera! É isto sempre! A autoridade vai para a pândega, e o povo que sofra!

CARDOSO – Insolente! Espera que te ensino! (Agarra numa cadeira que está perto do toucador.)

AMÁLIA – Cardoso! O que vais fazer?!..

JERÔNIMO – Ah! Ele é isso? (Tira uma faca e deita a correr atrás de Cardoso. Amália fecha-se no quarto. As três testemunhas correm atrás de Jerônimo, para retê-lo. Cardoso apita.)

MANUEL MARIA – O que é isto, seu Jerônimo?!

COMPADRE – Compadre, tenha mão!

VITORINO – Não se deite a perder!

(Cardoso continua a apitar. Confusão.)

AMÁLIA (Grita de dentro.) – Aqui d’el-rei!

Cena VI

Os mesmos e Dois Soldados

SOLDADOS – O que é isto? o que é isto?…(Correm todos em redor da cena.)

CARDOSO – Prendam-no! prendam-no! (Jerônimo é afinal preso.) Levem-no! (Os soldados levam o preso, Saem também as testemunhas.)

Cena VII

Cardoso e depois Amália

CARDOSO (Caindo extenuado em uma cadeira.) – Uf!

AMÁLIA (Entrando.) – Feriu-te o maldito, feriu-te?

CARDOSO – Creio que não. (Apalpando-se.) Não feriu, não, Sinhá! Se não fossem as ordenanças que estavam na porta, a estas horas estavas viúva!

AMÁLIA – Credo! Viúva!

CARDOSO – Maldita subdelegacia! Maldita a hora em que aceitei semelhante cargo!

AMÁLIA – Como estás suando! Esta camisa é incapaz de aparecer no batizado…

CARDOSO – É verdade! O batizado! Vou mudar de camisa…

AMÁLIA – Mas isso depressa… depressa! (Saída falsa de Cardoso.) Ó Senhor Deus! Isto contado lá se acredita! É bem feito , senhor meu marido, é bem feito! Quem não quiser ser lobo, não lhe vista a pele.
(Rolo na rua. Apitos. Gritos. Pancadaria. Amália vai à janela.) Que vejo! Uma malta de capoeiras! Cardoso! Cardoso! Não tardam a entrar…

CARDOSO (Entra em mangas de camisa e com o fitão de subdelegado.) – O que é isto? (Espirra.)
Atxim! constipei-me… Atxim! O que é isto? Atxim! (Sai a correr pelo fundo.)

Cena VIII

Amália, depois Perdigão

AMÁLIA – Meu Deus! Hoje parece ser o dia de São Bartolomeu! Se não anda o diabo solto na cidade, ao menos nesta freguesia..

PERDIGÃO (Entra apressado pelo fundo, vestido para a cerimônia.) – Ó compadre! Ó comadre!

AMÁLIA – Mais uma parte!

PERDIGÃO – Deixe-se de partes!

AMÁLIA – Meu marido não está… (Reparando.) Ah! é o compadre!

PERDIGÃO – Estamos até estas horas à espera do padrinho e nada!

AMÁLIA – Queixe-se da maldita subdelegacia, compadre! Estamos vestidos há três horas…(Consultando o relógio.) Há três horas e um quarto…

PERDIGÃO – Ora! Para que foi o compadre buscar sarna para se coçar…

AMÁLIA – O compadre não imagina! Quantas vezes, alta noite, está ele sossegado a dormir, quando, de repente, é despertado pelas malditas partes…

PERDIGÃO – Por força!

AMÁLIA (Indo à janela.) – Já está aplacado o rolo… (Voltando.) Hoje quase o matam!

PERDIGÃO (Dando um salto.) – A quem?

AMÁLIA – Ao Cardoso.

PERDIGÃO – Ah! Ele descia a escada com tanta impetuosidade! Ia em mangas de camisa e de fitão… Olhem que figura! Espirrava, que era um Deus nos acuda! “Viva!” lhe disse eu; ele, porém, não me conheceu, apesar de responder: “Dominus tecum”, em vez de: ”Obrigado!”

Cena IX

Os mesmos e Cardoso

CARDOSO (Entra e cai espirrando em uma cadeira.) – Atxim!

PERDIGÃO – Viva!

CARDOSO – Dominus te… Quero dizer: Obrigado… Atxim! Ah! É o senhor, compadre? Desculpe.

PERDIGÃO – Já sei de tudo… Está mais que desculpado… Mas não perca tempo!

AMÁLIA – Sim, não percamos tempo!

CARDOSO – Vamos! (Ergue-se e deita o chapéu.) – Estou pronto!

PERDIGÃO – Em mangas de camisa, compadre?

CARDOSO – É verdade! (Corre ao quarto e volta vestindo a casaca.)

AMÁLIA – De fitão, Cardoso?

CARDOSO – É verdade! (Despedaça o fitão zangado.) Atxim!

PERDIGÃO – Já leu o que traz hoje o Jornal a seu respeito?

CARDOSO – Já: descompostura bravia! É o pago que dão a tantos sacrifícios.

PERDIGÃO – Diga antes: é o castigo que infligem ao erro de aceitá-los.
AMÁLIA (Impaciente.) – Vamos embora! (Vão todos saindo.)

Cena X

Os mesmos e um Soldado

SOLDADO (a Cardoso.) – Trouxeram este ofício e esta carta para Vossa Senhoria. (Entrega a carta e o ofício e sai.)

CARDOSO – De cá. (Abrindo a carta.) Com licença. (Lê.) É um bilhete em que o oficial do gabinete do ministro me participa haver sido outro nomeado para a vaga do Cantidiano… E metam-se!

PERDIGÃO – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país! (Abrindo o ofício.) Com licença! (Depois de ler o ofício.) Sabem o que é? Minha demissão.

PERDIGÃO E AMÁLIA – Demissão?

CARDOSO – Á vista do que a meu respeito tem aparecido na imprensa periódica!

PERDIGÃO – Não falemos mais nisso! Vamos embora.

CARDOSO – Poupou-me o trabalho de pedi-la.

AMÁLIA – Quem não quiser ser lobo…

PERDIGÃO – Mas o compadre acaba de despir a pele do lobo. (Apanhando o fitão.) Ei-la!

CARDOSO – Atxim! (Saem tos os três e cai o pano.)

[ Cai o pano]

Fonte:
AZEVEDO, Artur. Teatro de Artur Azevedo – Tomo 1. Instituto Nacional de Artes Cênicas-INACEN. V. 7: Coleção Clássicos do teatro Brasileiro.. In A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
Imagem = http://cemebturmaf.blogspot.com

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