Bernardo Guimarães (Poemas Humorísticos e Irônicos : À Saia Balão)

Balão, balão, balão! cúpula errante,
Atrevido cometa de ampla roda,
Que invades triunfante
Os horizontes frívolos da moda;
Tenho afinado já para cantar-te
Meu rude rabecão;
Vou teu nome espalhar por toda parte,
Balão, balão, balão!

E para que não vá tua memória
Do esquecimento ao pélago sinistro,
Teu nome hoje registro
Da poesia nos galantes fastos,
E para receber teu nome e glória,
Do porvir te franqueio os campos vastos.

Em torno ao cinto de gentil beldade
Desdobrando o teu âmbito estupendo,
As ruas da cidade
Co’a longa cauda ao longe vais varrendo;
E nessas vastas roçagantes pregas
De teu túmido bojo,
Nesse ardor de conquistas em que ofegas,
O que encontras, levando vais de rojo,
Qual máquina de guerra,
Que inda os mais fortes corações aterra.

Quantas vezes rendido e fulminado
Um pobre coração,
Não vai por essas ruas arrastado
Na cauda de um balão.
Mal despontas, a turba numerosa
À direita e à esquerda,
De tempo sem mais perda
Amplo caminho te abre respeitosa;
E com esses requebros sedutores
Com que saracoteias,
A chama dos amores
Em mais de um coração a furto ateias.

Sexo lindo e gentil, — foco de enigmas! —
Quanto és ambicioso,
Que o círculo espaçoso
De teus domínios inda em pouco estimas;
Queres mostrar a força onipotente
De teu mimoso braço;
De render corações já não contente,
Inda pretendes conquistar o espaço!…

Outrora já c’os atrevidos pentes
E as toucas alterosas,
As regiões buscavas eminentes,
Onde giram as nuvens tormentosas;
Como para vingar-te da natura,
Que assim te fez pequena de estatura.

Mudaste enfim de norte,
E aumentando o diâmetro pretendes
Avantajar-te agora de outra sorte
Na cauda do balão, que tanto estendes.
Queres em torno espaço,
Té onde possas desdobrar teu braço.

Assim com tuas artes engenhosas
Sem medo de estourar tu vais inchando,
E os reinos teus co’as vestes volumosas
Ao longe sem limites dilatando,
Conquistas na largura
O que não podes conseguir na altura.

Mas ah! por que o meneio gracioso
De teu airoso porte
Sepultas por tal sorte
Nesse mundo de saias portentoso?
Por que razão cuidados mil não poupas
Pra ver tua beleza tão prezada
Sumir-se-te afogada
Nesse pesado pélago de roupas?

Sim, de que serve ver as crespas ondas
De túrgido balão
A rugirem bojudas e redondas
Movendo-se em contínua oscilação;
— Vasto sepulcro, onde a beleza cega
Seus encantos sepulta sem piedade,
— Empavezada nau, em que navega
A todo pano a feminil vaidade? —
De que serve enfeitar da vasta roda
Os estufados flancos ilusórios
Com esses infinitos acessórios,
Que vai criando a inesgotável moda,
De babados, de gregas, fitas, rendas,
De franjas, de vidrilhos,
E outros mil badulaques e fazendas,
Que os olhos enchem de importunos brilhos.
Se no seio de tão tofuda mouta
Mal se pode saber que ente se acouta?!

De uma palmeira à graciosa imagem,
Que flácida se arqueia
Ao sopro d’aura, quando lhe meneia
A trêmula ramagem,
Comparam os poetas
As virgens de seus sonhos mais diletas.
Mas hoje onde achar pode a poesia
Imagem, que as bem pinte e as enobreça,
Depois que deu-lhes singular mania
De atufarem-se em roupa tão espessa;
Se eram antes esbeltas qual palmeiras,
Hoje podem chamar-se — gameleiras.

Também o cisne, que garboso fende
De manso lago as ondas azuladas,
E o níveo colo estende
Por sobre as águas dele enamoradas,
Dos poetas na vívida linguagem
De uma bela retrata a pura imagem.

Mas hoje a moça, que se traja à moda,
Só se pode chamar peru de roda.

Quais entre densas nuvens conglobadas
Em hórrido bulcão
Vão perder-se as estrelas afogadas
Em funda escuridão,
Tal da beleza a sedutora imagem
Some-se envolta em túmida roupagem.

Balão, balão, balão! — fatal presente,
Com que brindou das belas a inconstância
A caprichosa moda impertinente,
Sepulcro da elegância,
Tirano do bom gosto, horror das graças,
Render-te os cultos meus não posso, não;
Roam-te sem cessar ratos e traças,
Balão, balão, balão.

***

Ó tu, que eu amaria, se na vida
De amor feliz restasse-me esperança,
E cuja linda imagem tão querida
Eu trago de contínuo na lembrança,
Tu, que no rosto e no ademã singelo
Das filhas de Helen és vivo modelo;

Nunca escondas teu gesto peregrino,
E da estreita cintura o airoso talhe,
E as graças desse teu porte divino,
Nesse amplo detalhe
De roupas, que destroem-te a beleza
Dos dons de que adornou-te a natureza.

De que serve entre véus, toucas e fitas,
Ao peso dos vestidos varredores,
De marabouts, de rendas e de flores
Tuas formas trazer gemendo aflitas,
A ti, que no teu rosto tão viçosas
De tua primavera tens as rosas?…

Pudesse eu ver-te das belezas gregas,
Quais as figuram mármores divinos,
Na túnica gentil, não farta em pregas,
Envolver teus contornos peregrinos;
E ver dessa figura, que me encanta,
O altivo porte desdobrando a aragem
De Diana, de Hero, ou de Atalanta
A clássica roupagem!…

Em simples trança no alto da cabeça,
As fúlgidas madeixas apanhadas;
E a veste pouco espessa
Desenhando-te as formas delicadas,
Ao sopro das aragens ondulando,
Teus puros membros mórbida beijando.

E as nobres linhas do perfil correto
De importunos ornatos destoucadas,
Em toda a luz de seu formoso aspecto
Fulgindo iluminadas
Por sob a curva dessa fronte bela,
Em que tanto esmerou-se a natureza;
E o braço nu, e a túnica singela
Com broche de ouro aos alvos ombros presa

Mas não o quer o mundo, onde hoje impera
A moda soberana; —
Esquivar-se p’ra sempre, oh! quem pudera
À sua lei tirana!…

Balão, balão, balão! — fatal presente,
Com que brindou das belas a inconstância
A caprichosa moda impertinente,
Sepulcro da elegância,
Tirano do bom gosto, horror das graças!…
Render-te os cultos meus não posso, não;
Roam-te sem cessar ratos e traças,
Balão, balão, balão.

Rio de Janeiro, 18 de julho de 1859

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