José Feldman (Universo de Versos n. 112)

Uma Trova do Paraná

JOSÉ CORREIA FRANCISCO
Ponta Grossa

Dos tempos do nunca mais,
resta comigo a saudade
das lembranças imortais
dos tempos da mocidade.
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Uma Trova sobre Saudade, de Juiz de Fora/MG

GERALDA ARMOND

 
A Saudade  é  simplesmente
um claro espelho encantado:
    mira-se  nele  o  Presente 
    e  ele  reflete  o  Passado.
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


É no rosto da criança
que o sorriso  mais bonito:
– tem a força da Esperança
e o tamanho do Infinito!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG

CEZÁRIO BRANDI FILHO

Quanta gente gostaria
de ter a vida da gente,
sem saber que isto seria
trocar tristeza somente.
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Uma Trova Humorística, de Bandeirantes/PR

ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA

Não há truque que dê jeito
e ela fica tiririca…
digo com todo o respeito:
-quando enfeita pior fica!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


De maneira indefinida,
por amar e querer bem;
vou dividir minha vida
com a vida de outro alguém!
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Uma Trova Hispânica de Porto Rico

NIMIA PINTO

En un grito de armonía
en honor a playas calmas,
yo llevo en la piel mía
los gozos, placer y almas.
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Uma Trova sobre Respeito, de Juiz  de Fora/MG

ANAEL TAVARES DA SILVA

A  coisa ficou de um jeito
neste  mundo conturbado,
que até o próprio respeito
deixou de ser respeitado…
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Trovadores que deixaram Saudades

JORGE MURAD
Guanabara/RJ (1910 – 1998)

Só porque falo sozinho
chamam-me louco, – maldade!
é que eu converso baixinho
quando falo com a saudade…
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Longe de ti, triste eu passo,
se vivo mesmo, nem sei…
E, cada trova que faço
um beijo que não te dei…
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Um Haicai de Santos/SP

MAHELEN MADUREIRA

Manhã de sol –
Na praia os caminhantes
Também as libélulas.
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Quem não tem ouro disperso,
nem prata velha na mão,
paga com o níquel do verso
as contas do coração.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


tão
alta
a
torre

até
seu
tombo
virou
lenda
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC

Glosando Carolina Ramos
MANHÃ MENINA

MOTE:
MADRUGADA… E A LUZ DA AURORA,
BANINDO A NOITE QUE FINDA,
CONQUISTA O TEMPO QUE MORA
NO DIA QUE DORME AINDA.

GLOSA:
MADRUGADA… E A LUZ DA AURORA,
colorida, cintilante,
tingindo o céu nessa hora
torna tudo alucinante!

A linda policromia
BANINDO A NOITE QUE FINDA,
canta um hino de alegria
com uma harmonia infinda.

O pranto que a noite chora
sabendo que vai morrer,
CONQUISTA O TEMPO QUE MORA
no dia que vai nascer!

A manhã chega graciosa
feito uma menina linda,
se espreguiçando formosa
NO DIA QUE DORME AINDA.
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Aos que me foram ingratos,
eu grato lhes hei de ser,
pelo bem que me fizeram
no bem que eu pude fazer.
============================
O Universo Triverso de Pellegrini

DOMINGOS PELLEGRINI
(Londrina/PR)


Outono: vento
cheirando ainda a verão
mas já calafriento
============================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

A chegada

Noite de chuva tétrica e pressaga.
Da natureza ao íntimo recesso
Gritos de augúrio vão, praga por praga,
Cortando a treva e o matagal espesso.

Montes e vales, que a torrente alaga,
Venço e à alimáría o incerto passo apresso.
Da última estrela à réstia ínfima e vaga
Ínvios caminhos, trêmulo, atravesso.

Tudo me envolve em tenebroso cerco
D’alma a vida me foge, sonho a sonho,
E a esperança de vê-la quase perco.

Mas uma volta, súbito, da estrada
Surge, em auréola. o seu perfil risonho,
Ao clarão da varanda iluminada!
============================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Alambique

Do bagaço o fogo faço
Para tocar a caldeira
Que esquenta que nem chaleira
Soltando fumo no espaço

Coloco a cana no engenho,
Transformando-a em bagaço.
Do caldo faço o melaço
Que depois vira cachaça…

E assim sai a purinha
Que passarinho não bebe
Mas que desce redondinha
E só toma quem percebe
O segredo da branquinha…

E o engenho vai tocando
Fumaça na chaminé…
Cachaça é coisa nossa,
Pois agora virou bossa,
É produto brasileiro
Que agrada o mundo inteiro.
Uísque é pra Zé Mané…
============================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
com que vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe essa ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
============================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Trilha

Sei que em algum lugar, há alguém que me espera
Nos bares que ainda não fui, ou nas ruas desertas
Longe de mim há alguém, que eu ainda não vi

Pode ser que talvez algum dia, sua trilha eu vá seguir
Sei que em algum lugar, esse amor me completa
E posso sentir pelo ar, que esse alguém me desperta

Sei que um pedaço de mim mora longe daqui
E a falta que ele me faz, ninguém mais vai sentir
Tento seguir os seus passos pelas noites vazias

Em busca de abrigo ou talvez, me perder em seus braços
Sei que em algum lugar, esse amor me completa
E sonho um dia encontrar, sua trilha minha amada
============================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Cigarro

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acenda uma estrela.
============================
O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Sinopse

Os poentes me devolvem a guria
Reverente e humilde finalmente,
E preciso contemplá-los todo dia
Para ter um parâmetro na mente.

Testemunho de Deus em ato puro
Para nós se agraciados pela fé,
Para outros é o sol atrás do muro
Do horizonte como onda de maré.

Mas para mim é o ciclo eterno,
Ou da vida abreviada trajetória
De sua primavera ao seu inverno:

Se morro todo dia também nasço,
Como uma sinopse da estória
Cujo tema é só o Tempo-Espaço…
============================
Uma Poesia do Rio Grande do Sul

ADÃO WONS

Lua Insana

A lua insana incendeia
Os mais belos bosques
Clareando a imensidão
De folhas, flores e frutos.
Exausta…
Dorme na imensidão
No horizonte sem fim
Beijando a terra
Na aura da manhã
Deixando vagos e tardios
Pensamentos insanos
No céu sem limites.
============================
O Universo de Francisca

FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP – 1920, São Paulo/SP)

De Volta

Mais encanto que a mais populosa cidade,
Dentre tantas que viu, a sua aldeia encerra,
— Uma nesga de gleba e socalcos de serra
Sob um céu sempre azul, de ampla serenidade.

Por tudo o olhar derrama ungido de saudade,
E, evocando o passado, os tristes olhos cerra.
Neste instante feliz, nada há que mais lhe agrade
Que sentir-se entre os seus em sua própria terra.

Chega. O primeiro amigo a quem a mão aperta,
Quase à meiga pressão se esquiva, indiferente,
E de outras efusões mais vivas se liberta.

Nessa mão, que recua, outras, frias, pressente…
Antes exílio e dor, pão duro e vida incerta,
Que o desprezo arrostar da sua própria gente.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

O TEMPO

Esta lengalenga, repleto de significado, é também um “trava-línguas” – texto feito de modo a dificultar a dicção do mesmo. É suposto ser dito rapidamente.
***

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.

Fonte:
E-book da equipa do Luso-Livros
http://luso-livros.net/

============================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Quando me deste os bons dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Allegro

Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra

Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras

E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida

E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.
============================
Uma Poesia de Portugal

CESÁRIO VERDE

Lúbrica

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um papel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
============================
O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Pobre Flor

Deu-m’a um dia antiga companheira
De tempinho feliz de adolescente;
E os meus lábios roçaram docemente
Pelas folhas da nívea feiticeira.

Como se apaga uma ilusão primeira,
Um sonho estremecido e resplendente,
Eu beijei-lhe a corola, rescendente
Inda mais que a da flor da laranjeira.

E como amava o seu formoso brilho!
Tinha-lhe quase essa afeição sagrada
Da jovem mãe ao seu primeiro filho.

Dei-lhe no seio uma pousada franca…
Mas, ai! depressa ela murchou, coitada!
Doce e mísera flor, cheirosa e branca!
============================
O Universo Triverso de Millôr

MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


A alegria
É toda feita
De melancolia
============================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

A Terceira

   
A uma, que era alma, eu neguei o corpo.
A outra, corpo só, nunca lhe dei a alma.

– Vingança:

a terceira, a quem dei alma e corpo
– a realmente eleita, a amada –
deixou-me vazio,
sem nada
– sem esperança.

– Vingança.
============================
Um Soneto de Pindamonhangaba/SP

JOSÉ OUVERNEY

Frêmito

Se tu não existisses, meu amor,
meu despertar seria diferente;
talvez um abrir de olhos tão somente:
cena comum de um quadro sem valor…

Talvez sonhar perdesse o seu sabor
e, nos primórdios de uma tarde quente,
a vida se esvaísse lentamente
se tu não existisses, meu amor!

Poetas versariam sem paixão;
não se daria crédito à emoção;
não haveria o frêmito da espera.

E como iria eu falar de flor
se tu não existisses, meu amor?
Sem ti… nem haveria primavera!
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia

PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)


Quando eu vejo um sapinho acocorado
na lagoa bem cedo inflando o papo,
é porque da garganta desse sapo
vai sair um martelo agalopado.
Eu me ponho a pensar quase assustado,
como um sapo também tem voz tão boa,
pois percebo no canto que ele entoa
que há um feitiço que encanta a saparia,
cada verso que faz tem mais poesia
do que a voz do restante da lagoa!
============================
O Universo de Silviah

SILVIAH CARVALHO
Curitiba/PR

Surto poético

Revelo meu querer, numa variação!
… Eternas lembranças…
Sou menor, apenas o pó, poesia envolta
Gota no oceano de esperanças

A poesia sublimação voluntaria do ser
Jorra do poeta que ama… Que ama escrever
E fala de seus mistérios, segredos de sua alma
Do silêncio propício ao amor que lhe acalma

Não me negarei palavras, jogá-las-ei aos ventos
Que rebusquem meus pensamentos alados
Sem nunca os entender, de que valem os
Mistérios revelados?

Poesia vertente salutar…
Partículas de amor espalhadas pelo ar
Em cada gota desfaz-se um sentir
E por cada gota faz-se existir

Poesia, expande, eclode seus versos de amor
Eternize-se em mim, mera mortal indefesa
Que a ti me rendo coesa.
Para livrar-me de toda tristeza e dor.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras

WALTER BENJAMIM
Alemanha (1892 – 1940)

A Mão que a Seu Amigo Hesita em Dar-se

Perguntaste se eu amo o meu amigo?
como rompendo um demorado açude
na tua voz quis hausto que transmude
todo o cristal dos ímpetos consigo

Neste meu choro enevoado abrigo
pôs-me a palavra o peito em alaúde
que uma doce pergunta tua ajude
no sim furtivo que eu levei comigo

Mas a meu lábio lento em confessar-se
um mestre inda melhor o cunharia
A mão que a seu amigo hesita em dar-se

ele a tomou o que mais firme a guia
para que ao coração secreto amando
ao mundo todo em rimas o vá dando.

(Tradução de Vasco Graça Moura)
============================
O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
============================
O Universo Poético de Olavo

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Ano Bom

Ano bom. De madrugada,
Bebê desperta, e, assustada,
Avista um vulto na cama.
Que será? Que medo! E, tonta,
Eis que Bebê se amedronta,
Chora, grita, chama, chama…
Mas, quando se abre a cortina,
Quando o quarto se ilumina,
Bebê, de pasmo ferida,
Vê que o medo não é justo:
Pois a causa do seu susto
É uma boneca vestida.
Que linda! é gorda e corada,
Tem cabeleira dourada
E olhos cor do firmamento…
Põe-na no colo a criança,
E de olhá-la não se cansa,
Beijando-a a todo o momento.
Nisto a mamãe aparece.
Como Bebê lhe agradece,
Com beijos, risos e abraços!
— Porém, logo, de repente,
Diz à mamãe, tristemente,
Prendendo-a muito nos braços:
“Mamãe! como sou ingrata!
Com tantos mimos me trata,
Tão boa, tão delicada!
Dá-me vestidos e fitas,
Dá-me bonecas bonitas,
E eu, mamãe, não lhe dou nada!…”
“Tolinha! (A mãe diz, num beijo)
As festas que eu mais desejo,
Ó minha filha, são estas:
A tua meiga bondade
E a tua felicidade…
Não quero melhores festas!”
============================
O Universo de Carlos Drummond de Andrade

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia, aumentada/ diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
O Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca

(até que alguém se lembre de duplicar a Barra, pesadíssima).

Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a) mo (r) cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor de flor em cor e albor.
Um rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
============================
UniVersos Melodicos

Lamartine Babo e Francisco Matoso

EU SONHEI QUE TU ESTAVAS TÃO LINDA
(valsa, 1941)

Admirador da opereta, Lamartine Babo teria por certo se dedicado ao gênero se houvesse nascido na Europa no século XIX. Daí a presença, em sua obra, de composições como “Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda”, que ele pretendia incluir numa opereta inacabada, intitulada “Viva o Amor”. Compositor e letrista, como Lamartine, Francisco Matoso é o autor da bela melodia desta valsa.
Segundo Almirante, Matoso mostrou-a, ainda sem letra, a Lamartine, que se apaixonou pela canção. Convidado a concluí-la, modificou algumas notas, como era de seu feitio, e colocou uma letra tão adequada que a composição ficou parecendo ser de autoria de uma só pessoa. “Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda” foi lançada por Francisco Alves em outubro de 41. Na ocasião, Matoso se encontrava bastante enfermo (morreria em 14.12.41, aos 28 anos de idade), não chegando a conhecer o seu sucesso.

Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
A orquestra tocou uma valsa dolente
Tomei-te aos braços
Fomos dançando
Ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós
Diziam coisas
Trocavam juras
A meia voz
Violinos enchiam o ar de emoções
De mil desejos uma centena de corações
Pra despertar teu ciúme
Tentei flertar alguém
Mas tu não flertaste ninguém
Olhavas só para mim
Vitória de amor cantei
Mas foi tudo um sonho… acordei!
(Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/04/eu-sonhei-que-tu-estavas-to-linda.html)
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

CADÊ?

Cadê o toucinho que tava aqui? O gato comeu.
Cadê o gato? Foi pro mato.
Cadê o mato? O fogo queimou.
Cadê o fogo? A água apagou.
Cadê a água? O boi bebeu.
Cadê o boi? Tá amassando o trigo.
Cadê o trigo? A galinha ciscou.
Cadê a galinha? Tá botando o ovo.
Cadê o ovo? O padre comeu.
Cadê o padre? Tá rezando a missa.
Cadê a missa? Tá dentro do livrinho.
Cadê o livrinho? Foi pelo rio abaixo.
Vamos procurar o livrinho?

(Outra Versão):

Cadê o toucinho que tava aqui? O gato comeu.
Cadê o gato? Foi pro mato.
Cadê o mato? O fogo queimou.
Cadê o fogo? A água apagou.
Cadê a água? O boi bebeu.
Cadê o boi? Foi buscar o trigo.
Cadê o trigo? O padeiro fez pão.
Cadê o pão? O padre comeu.
Cadê o padre? Tá celebrando a missa.
Cadê a missa? Subiu pro céu.

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