Oscar Nakasato (Homem no Sofá com os Sapatos Fora)

Ilustração: Rômolo D’Hipólito
Estou sozinho. Lembro-me de que esta manhã, quando os beijei, lamentei não poder ir junto. Fiquei parado na plataforma do terminal de ônibus, acenando, incapaz de perceber o que é ficar quando os outros se vão. Para mim, a ausência é uma experiência inédita.

Sozinho. E perplexo, com um copo na mão e Mozart no aparelho de som, descubro que não ter ido significou ficar com. Sexta-feira, quando pegar o carro e vencer os trezentos e tantos quilômetros que me separam de minha esposa e de meus filhos, estarei finalmente deixando-os para encontrá-los. Então poderei abraçá-los, beijá-los, sentir que existem além da ideia. Ou talvez telefone para a fazenda dizendo que não irei porque para sexta-feira faltam apenas dois dias e não sei aonde me levará a companhia da ausência.

Esta ausência que me preenche de forma ainda indefinida. Tento entender o que, aos poucos, sem ter buscado, surge. Sinto um leve temor de que transborde e não saiba o que fazer. Se transbordar, perderei o que estou ganhando sem conquistar? Preciso aprender a estar só sem transbordar. Essa será a minha conquista.

Beber uísque e ouvir Mozart é um requinte. Mesmo longe dos olhos do mundo, mantenho essa característica que me distingue dos ordinários. E da janela do apartamento decorado com quadros e móveis caros, vejo as luzes da cidade com certo fastio.

Longe, depois dos trilhos de trem, onde vejo poucas luzes, lá vivia a minha gente. Quando nasci, os anjos disseram amém. E caminhei bastante, dia após dia, ano após ano, e atravessei os trilhos. Continuei caminhando e cheguei a este apartamento, de onde não se ouvem os trens.

Beber uísque é um requinte, mas devo parar de beber porque quero estar absolutamente sóbrio para a minha conquista. Deixo a janela e coloco o copo na mesinha de centro. Deito-me no sofá sem o cuidado de deixar os sapatos fora. Dora sempre pede, mas se na sua presença é a minha que se impõe, na sua ausência é muito mais fácil ignorá-la. E ela pede tão pouco. Desde o namoro, como se temesse não ser atendida e então precisasse baixar os olhos, humilhada, incapaz de levantar a voz ou dizer pela segunda vez.

Eleodora, minha esposa, como a apresento aos amigos do escritório e do clube. E ela fica ao meu lado, bonita, calada, esposa. Ela distante, e assim a vejo, e sinto pena de sua beleza inexpressiva. Deve estar ocupada com os meninos, ajudando na cozinha e preocupada em ser gentil com a tia. E mais tarde, quando todos já tiverem se recolhido, ela estará em frente ao espelho, cansada, satisfeita.

Essa Eleodora que me faz companhia eu sempre a conheci? Casei-me com uma mulher bonita, mas todos os homens desejam as mulheres bonitas. E ela estava naquela mesa de bar como se estivesse esperando toda a vida. Suas companheiras falando muito, e ela, calada, esperando para que eu a tirasse daquele lugar, daquela cerveja que tomava sem gostar.

Mais tarde, quando todos já tiverem se recolhido, ela estará em frente ao espelho, cansada, satisfeita. E eu? Eu estarei aniquilado. Preciso desistir e ligar a televisão para assistir a algum filme e me salvar. Mas já é tarde. E amanhã preciso acordar às oito horas, tomar o meu banho, fazer a barba e ir ao meu escritório. Amanhã ainda serei um advogado? Encontrarei nas páginas do código civil, nos compromissos de minha agenda ou no meio de algum processo o que estou perdendo agora? … Perder é conhecer o que não pensávamos existir, perder é achar o que não procuramos.

Mas neste momento preciso permanecer assim, quieto, deitado no sofá, agora com os sapatos fora, porque algo inédito me transpõe para fora de mim e eu me vejo como Dora me vê: um homem no sofá com os sapatos fora. E ela ama o homem que descubro agora. Mudo um pouco a posição, fico meio de lado, como alguém que se arruma para uma fotografia. Sim, eu aprovo o homem que ela ama. Mas ele não é somente esse homem deitado no sofá com os sapatos fora, e eu preciso vê-lo em outros lugares. Ela ama todos os homens que ainda conhecerei esta noite?

Sinto fome. Olho o relógio da parede. Há vinte minutos eu pedi uma pizza. Saberei ainda comer uma pizza? Eu costumava levar Dora e os meninos à pizzaria quando morávamos no apartamento menor e não bebia uísque. As crianças ficavam sentadas naquelas cadeirinhas que toda pizzaria tem. O maior se divertia fazendo desenhos no prato com a mostarda. Às vezes, passávamos na casa da avó e a levávamos. Então a festa era maior para os meninos. Eu quase chegava a simpatizar com aquela senhora vestida de preto, circunspecta, que esquecia a solitária viuvez e brincava com os netos. Me odiava aquela mulher. Ela me via por trás daqueles óculos redondos e pensava numa maneira de me contrariar.

A avó está morta. No céu, com os anjos, diz Dora aos meninos. No inferno, com os diabinhos, penso em dizer a eles. E agora os seus olhos de sogra voltam a me censurar. Eu estou em todos os cantos do apartamento e ela pode me encontrar em qualquer um deles. Inútil dispensar um morto que volta. E muitos estão, agora, povoando o meu silêncio. Eles se desnudam à minha frente sem nenhum constrangimento porque sua condição os torna invulneráveis. É injusta essa relação de nudez porque na troca de olhares eu procuro as minhas roupas inutilmente. Mas se os mortos povoam o meu silêncio, os mortos sou eu.

Sim, os mortos sou eu. Não que eu seja eles, pois descubro que a minha maior qualidade é estar vivo, o que me fascina e me assusta. Estou diante de um precipício que não me revela o seu fundo. Devo pular?

Toca o interfone, e o porteiro me avisa que o rapaz da pizza chegou. Digo que ele pode subir e adio a minha decisão. Mas será que eu já não pulei?

Aguardo a campainha tocar tentando me lembrar se sobrou um pouco de suco de laranja do café da manhã.

A surpresa ao ver o rapaz da pizza é a surpresa de me ver no espelho e não me reconhecer. Porque o rapaz da pizza não é um rapaz, é um velho sorridente. E eu não sei como agir diante de um velho-sorridente-entregador de pizzas. Ele está parado na porta e me estende a embalagem de papelão. Ele se apresenta a mim como um logro, sabe que eu sei que é um logro, mas finge não saber que eu sei. Por isso me sinto duplamente logrado.

Pago a pizza e dou uma gorjeta ao velho. Ele agradece com um sorriso absolutamente sincero. Fico observando o entregador se dirigir ao elevador de serviço. Sorrio quando ele já não pode mais me ver. Ele não tem culpa se eu pulei e a desorganização me surpreende. Então eu já estou caindo. Quando eu pulei?

Estou caindo, e a agonia que sinto é a agonia de alguém que cai num poço sem fundo. Mas não é um pesadelo. Eu não tropecei, eu pulei. E, pelo menos por enquanto, eu não quero despertar.

Minha queda no meu precipício é lento, colorido e sonoro.

Eu não caio sozinho. Levo comigo minha esposa e meus filhos, meus pais e meus irmãos, meus amigos e Sônia Braga, a Gabriela dos meus devaneios. Eles são como asas que retardam minha descida, mas são incapazes de me levar para cima. Para cima nunca mais, porque os anos vividos me deram peso.

Cair assim como estou caindo me levará a mim. Sim, agora sei que desde o início — quando se deu o início? — estou a conquistar. Conquistar é também perder.

Estou sentado à mesa de tampo de vidro com um pedaço de pizza num prato e um copo de suco de laranja. Mozart se calou e agora ouço o movimento da avenida distante quinze andares.

Vejo através do vidro as minhas pernas de homem saudável. Foi por mim que comprei esta mesa? Uma mesa é somente uma mesa, posso tentar acreditar, mas eu não sou ingênuo. Estou caindo e a mesa me acompanha. Fui eu quem a escolheu na loja porque tinha um tampo de vidro bisotado de 16 milímetros e base de carvalho. Fui eu quem paguei por ela. Comprar algo faz o comprador pertencer àquilo que comprou.

Esta mesa me revela a mim. No canto direito vejo refletida a minha face de cidadão. Afinal, esta mesa sou eu. E agora a levo na minha queda com a culpa de quem possui.

Esta mesa me roubou a parte de mim que eu havia reservado para ser um homem que poderia viver com uma mesa qualquer.

Por fim, esta mesa tem os olhos da avó. Mas agora, por causa da mesa, sei que eu era responsável pelos olhos da avó. Jamais saberei como ela realmente me olhava. Eram meus aqueles olhos desafiadores, cheios de uma luz que eu conseguia ver tão bem, que eu definia tão sabiamente com a minha sabedoria de genro. Ah, como eu era genro! E dizia a todos, maldizia a avó, repetia piadas de sogra, eu, que sempre fora criativo.

Bela mesa que meus olhos não suportam mais. Vou ao sofá, que foi comprado por Dora, foi escolhido por Dora. Nos seus braços macios e silenciosos eu sempre encontro abrigo. Da vida que me persegue. Sua cor suave e seus traços simples me confortam. Mas eu derramo suco de laranja sobre ele. Vejo a mancha crescendo em círculo. Então sinto disparar o coração e me tremer os dedos e me formigar a face. O desespero me paralisa. Quando me ocorre ir à cozinha pegar um pano, a mancha já tem a sua forma definitiva, escura, ameaçadora. Corro, volto com o guardanapo, esfrego o sofá, a mancha clareia um pouco. Mas ela jamais deixará de existir. Ainda que eu a esfregue a noite inteira até eu não conseguir mais enxergá-la, ainda assim a mancha existirá. Não se pode manchar um sofá e querer se eximir da responsabilidade só porque a mancha não aparece mais.

Mas assim farei: esfregarei a mancha até que ela desapareça. E nada direi a ninguém. Não confessarei um crime que não deixará vestígios.

Fonte:
Jornal Cândido. Disponivel em http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=451#

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