Guilherme de Azevedo (Alma Nova)VI

foi mantida a grafia original.
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FLOR DA MODA

Alice, o turbilhão das salas elegantes,
Começa a entristecer; ninguém sabe porquê!
Aquela flor doente amava muito dantes
As festas, o ruído, as coisas deslumbrantes,
Agora é desolada e penso que descrê.

Que tédio se abrigou na vaga transparência
Dum todo tão subtil, aéreo, divinal,
— moderna criação da santa decadência,
Que alia gentilmente às pompas da regência
Os indecisos tons dum ar sentimental?!

Arcanjo por quem és! Desvenda esse mistério
Das vagas opressões da tua insónia má,
E diz-me o teu sonhar visão do baixo império,
Vestal que amas o gás e tens o fogo etéreo
Na conta duma cousa um tanto usada já!

No idílio pastoril das noites venturosas
Não sonhas tu decerto, e raro o hão de sonhar
Num mundo todo nosso, as belas desditosas
Que em trinta anos de fogo as suas velhas rosas
Nos grandes vendavais sentiram desbotar!

E quando a augusta voz do mar ou das florestas
Abala o coração dos justos e dos bons,
Bem sei que tu não vais, fugindo às grandes festas,
No amor das castelãs cismar entre giestas
Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
Abrasa a geração de lírios ideais
Que passam, como tu, galantes e doentes,
Dum amor desordenado às causas dissolventes,
Às vozes da guitarra e aos cantos sensuais!…

E tem de os consumir a grande nostalgia
Dum mundo mais à moda e menos trivial,
Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
E se possa esquecer a vil monotonia
De tudo que nos cerca: — Alice eis o teu mal!

No entanto eu sei que és boa: apenas das insónias
A febre, mãe cruel de estranhas sensações,
Na fria placidez do gás e das begónias
Constrói na tua mente as grandes babilónias
Dum mundo extraordinário e monstro de visões!

Tocou-te um mal galante: és ténue e caprichosa:
És boa e fazes gala em que te julguem má.
E sentes sobretudo uns tédios cor-de-rosa
E os êxtases cruéis duma mulher nervosa:
Se existe a mulher-flor, tu és a flor de chá!

E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
Aquela eterna luz, amor dos imortais,
Que tu amortalhada em rendas e escumilha
Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
O céu modesto um pouco e os anjos triviais!

Ó máquinas febris! Eu sinto a cada passo,
Nos silvos que soltais, aquele canto imenso,
Que a nova geração nos lábios traz suspenso
Como a estância viril duma epopeia de aço!
Enquanto o velho mundo arfando de cansaço

Prostrado cai na luta; em fumo negro e denso
Levanta-se a espiral desse moderno incenso
Que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

Vós sois as criações fulgentes, fabulosas,
Que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas,
Mordeis o pedestal da velha Majestade!

E as grandes combustões que sempre vos consomem
Começam, num cadinho, a refundir o homem
Fazendo ressurgir mais larga a Humanidade!

Fonte:
http://luso-livros.net/

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