José Feldman (Universo de Versos n. 113)


Uma Trova do Paraná

OLGA AGULHON
Maringá

Mil sonhos num embornal,
tantas pedras no caminho…
Era a sina do imortal
que nunca encontrou seu ninho.
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Uma Trova sobre Saudade, do Rio de Janeiro

DARIO DRUMOND

 

Saudade… Um mal persistente,
que um dia nos moí…
Uma dor que dói na gente,
mas não se sabe onde dói.
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Na cidadania existem
os deveres e os direitos,
e os “direitos” só  persistem
se os “deveres” forem feitos!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG

JOSÉ ANTONIO JACOB

Todo sonho é dolorido,
porque nele nós supomos,
que somos (sem termos sido)
o que pensamos que somos.
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Uma Trova Humorística, de Pindamonhangaba/SP

JOSÉ OUVERNEY

“Nada de truque, safado,
que eu vi a vizinha à espreita!”
E ele, agora, interessado:
“a da esquerda…ou da direita ?”
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Depois do beijo, um aceno,
e, sofrendo em demasia,
bebo doses de um veneno
que a sua ausência me envia.
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Uma Trova Hispânica, da Argentina

 NORA GRACIELA LANZIERI

Sol de mis días felices
que iluminan mis sentidos
brillan siempre tus matices,
tu luz marca mis caminos.
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Uma Trova sobre Respeito, de São Paulo/SP

CAMPOS SALES

Respeito, luz permanente,
que alumia a fronte erguida,
daquele que tem na mente
o respeito pela vida.
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Trovadores que deixaram Saudades

DURVAL MENDONÇA
Rio de Janeiro (1906 – 2001)

O Boto, no igarapé,
ao ver as cunhãs no banho,
se põe de “zoreia” em pé
e um “zóio” deste tamanho!
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Mediunidade esquisita
de duração muito breve:
– a Trova – é o povo quem dita,
o trovador… só escreve…
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Um Haicai Irati/PR

ELISSON THOMAZ SVEREDA

Lembro de meu pai
Debruçado na janela.
Noitinha de outono.
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Partiste … Ficou-me n’alma
tua voz suave e pura…
– Ave a cantar sobre a calma
da mais triste sepultura.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC

Glosando Flávio Roberto Stefani
MÁGOAS

MOTE:

MÁGOAS SÃO QUEIXAS QUE A GENTE,
SEM QUERER, PELAS JORNADAS,
DEIXA ESCORRER LENTAMENTE
NO ROSTO DAS MADRUGADAS.

GLOSA:

MÁGOAS SÃO QUEIXAS QUE A GENTE,
tenta esconder, é verdade,
mas o coração que as sente,
sofre e chora na saudade!

Essa alma triste e sofrida,
SEM QUERER, PELAS JORNADAS,
deixa, então, restos de vida
atrás de suas pegadas!

Perdida… assim… tão carente,
tão cheia de solidão,
DEIXA ESCORRER LENTAMENTE
as lágrimas da emoção!

O pranto vira poesia
lembrando as mágoas passadas,
e jorra, feito magia,
NO ROSTO DAS MADRUGADAS.
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


A inveja tem seu castigo,
Deus mesmo é quem retribui;
enquanto o invejado cresce,
o invejoso diminui…
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O Universo Triverso de Pellegrini

DOMINGOS PELLEGRINI
(Londrina/PR)


Que o mundo fique
longe do pedaço
onde faço piquenique
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Noite de Insônia

 Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto.
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito.
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!…

Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais.
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!…
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Alma

Quando a vida vem sussurrar baixinho
Dizendo coisas que se quer ouvir,
Deixe o recado chegar de mansinho,
Que toda a alma também quer sentir.

Prepare o peito para uma festa,
Faça um convite para ela entrar,
Reparta o resto todo que inda resta,
Pois dividir é muito mais que dar.

E deixe o amor enaltecer a vida
Dando guarida ao pobre coração.
Quando chegar a hora da partida,
Que nos sussurre a voz da emoção.

E que o acalanto de linda cantiga
Deixe que venha a paz que tanto acalma
Trazendo junto a esperança antiga
Que ainda vive dentro dessa alma.
============================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Balada das Dez Bailarinas do Cassino

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
  Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarins de mãos dadas.
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Além do Arco Íris

 
Certa vez eu ouvi alguém contar
Que além sobre o arco íris há um lugar
Onde o céu sempre azul nos faz sonhar
Onde a gente consegue os sonhos realizar

Por isso quando a chuva
Tamborila na vidraça da janela
Eu olho o arco íris na esperança
De encontrar a região tão bela
============================
O Universo Haicaista de Guilherme 

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Os Andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
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O Universo Sonetista de Alma 

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

A Câmara Escura

Há momentos em que nos despedaçamos
Contra as arestas do nosso próprio ser,
Então a duras penas nós juntamos
Nossos cacos num mosaico de viver.

Na imagem interior restam fissuras
Como fossem cicatrizes das batalhas
Que travamos não com outras criaturas
Mas conosco mesmo e nossas falhas.

“Mas então, onde é que entra o mundo
Nessa tua síntese autofágica,
Se consideras só teu ser profundo?”

Na câmara da alma é o contrário:
O mundo é o ser na caixa mágica
Como reflexo invertido num armário…
============================
Uma Poesia de Curitiba/PR

ALESSANDRA DOSSENA

Borboletas e rendas

Final de tarde ensolarada, céu carmim
 Borboletas pousavam nos jasmins
 E a lua chegando
 Para encantar com seu brilho
 O formidável jardim…

Nas suas asas cores alvas, delicadas
 Movimentavam-se agitadas
 Girando, brincando
 Para repousar com destreza
 Nas pétalas perfumadas…

Formosas companheiras, as borboletas
 Inventavam mais de mil facetas
 Examinando, observando
 Perceberam então certo ar de leveza
 Lá  bem perto das violetas…

Encontraram mais beleza, eternizada
 Nas folhas que o vento balançava
Planando, pairando
 Um pedaço do vestido da mocinha
 Linda composição rendada…
============================
O Universo de Francisca

FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP – 1920, São Paulo/SP)

Vênus

 
Branca e hercúlea, de pé, num bloco de Carrara,
Que lhe serve de trono, a formosa escultura,
Vênus, túmido o colo, em severa postura,
Com seus olhos de pedra o mundo inteiro encara.

Um sopro, um quê ele vida o gênio lhe insuflara;
E impassível, de pé, mostra em toda a brancura,
Desde as linhas da face ao talhe da cintura,
A majestade real de uma beleza rara.

Vendo-a nessa postura e nesse nobre entono
De Minerva marcial que pelo gládio arranca,
Julgo vê-la descer lentamente do trono,

E, na mesma atitude a que a insolência a obriga,
Postar-se à minha frente, impassível e branca,
Na régia perfeição da formosura antiga.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

COPO, COPO, JERICOPO

Outra “trava-línguas” para ser dito rapidamente e em voz alta

Copo, copo, jericopo
 Jericopo, copo cá.
 Quem não disser três vezes:
Copo, copo, jericopo
 Jericopo, copo cá,
Por este copo não beberá.

Fonte:
E-book da equipa do Luso-Livros
http://luso-livros.net/

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O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

O amor em paz

Eu amei
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz
============================
Uma Poesia de Portugal

ARY DOS SANTOS

Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
============================
O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Palavras Tristes

Quando eu deixar a terra, anjo inocente,
Ó meu formoso lírio perfumado!
Reza por mim, de joelhos, docemente,
Postas as mãos no seio imaculado,
Quando eu deixar a terra, anjo inocente!

És a estrela gentil das minhas noites,
Noites que mudas no mais claro dia.
Não tenho medo aos gélidos açoites
Da escuridão se a tua luz me guia,
Ó estrela gentil das minhas noites!

Quando eu deixar a terra, dá-me flores
Boiando à tona de um sorriso teu;
Que os risos das crianças são andores
Onde os anjos nos levam para o céu…
Quando eu deixar a terra, quero flores!

Flores e risos me tecendo o manto,
Manto celeste feito de esperanças…
Quando eu d’aqui me for, não quero pranto,
Só quero riso, preces de criança:
Flores e risos me tecendo um manto!

Anjo moreno de alma cor de lírio,
Mais branca do que a estrela da Alvorada…
Meu coração na hora do martírio
Pede o consolo de uma prece amada,
Anjo moreno de asas cor do lírio!

Quando eu deixar a terra, anjo inocente,
Ó meu formoso lírio perfumado!
Reza por mim, de joelhos, docemente,
Postas as mãos no seio imaculado,
Quando eu deixar a terra, anjo inocente!
============================
O Universo Triverso de Millôr 

MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


Eis o meu mal
A vida para mim
Já não é vital.
============================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Acabou

    Guardo a mágoa do fim.

Tudo não acabou como uma sinfonia, num crescendo,
ou um temporal, entre clarões
– (como um gemido dilacerante,
ou um lancinante adeus…).

Na verdade,
não saberíamos mesmo explicar como acabou.

Acabou.
============================
Um Soneto do Rio de Janeiro

GILSON FAUSTINO MAIA

À Minha Primeira Professora

Como eu faria a minha poesia,
escreveria neste meu caderno,
não fosse de Maria, o gesto terno,
pegar na minha mão com simpatia?

Do Carmo, paciente com mestria,
com as bênçãos do nosso Pai Eterno,
transformou minha vida, pôs no interno
do meu pobre existir, sabedoria.

A escola era na roça, na fazenda,
e Maria do Carmo, com ternura,
dividia o seu tempo, sua agenda.

Quatro turmas, coitada, a criatura,
do saber transformou-se em oferenda,
num celeiro de amor e de cultura.
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia

PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)


O carão canta triste em desvario
quando a chuva se ausenta e vai embora,
é a tristeza do canto de quem chora
no murmúrio de um grande desafio.
Sertanejo, sem chuva, é por um fio,
que ele escapa o rebanho da vivenda,
tudo quanto produz é uma oferenda
contra a fome feroz que se aproxima,
o campônio jamais se desanima
e é feliz no terreiro da fazenda!
============================
O Universo Poético de Lúcia Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Dimensão da Noite
 
Teu olhar mudo.
Uma sombra toma-me pelo pulso.
Réstias de luz são meus vultos,
meu país é o crepúsculo.

Derrubo os muros,
mendiga de sol e ventos
que tragam lá do futuro
fontes pro pensamento…

Cai a noite, noite inqueita…
suspeita de mil anjos adormecidos
Nenhum portal, nenhuma seta.
Só um silêncio vivo.

E a última estrela no céu
é acendedor dos esquecidos.
========================
O Universo de Silviah

SILVIAH CARVALHO
Curitiba/PR

Meu Amor Proibido…

No ímpeto de um devaneio, me pus a desejar-te
Como se eu pudesse! O só querer não me é permitido
Um surto poético me fez pensar que, talvez…
Pudesse ter um fruto que por si só, é proibido

Encontrá-lo foi como ver um Oasis no deserto
Ver somente! É só o que posso neste momento
Na verdade a vida me surpreende, quando penso
Que sei… Percebo faltar-me o discernimento

Temo não resistir, os motivos que me prendem a ti
São tantos, porém o que me afasta é muito forte
Agora, quase nos seus braços e desejando mais
Minha alma aflita espera ver o fim da minha sorte

A ponto de amar-te além do suportável
Silencio-me sozinha num canto qualquer
Sucumbindo ante suas palavras de carinho
Perdendo as forças procuro manter-me em pé.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras

CHARLES BAUDELAIRE
França (1821 – 1867)

Uma Gravura Fantástica

Um vulto singular, um fantasma faceto,
Ostenta na cabeça horrível de esqueleto
Um diadema de lata, – único enfeite a orná-lo
Sem espora ou ping’lim, monta um pobre cavalo,
Um espectro tambem, rocinante esquelético,
Em baba a desfazer-se como um epitético,
Atravessando o espaço, os dis lá vão levados,
O Infinito a sulcar, como dragões alados.

O Cavaleiro brande um gládio chamejante
Por sobre as multidões que pisa rocinante.
E como um gran-senhor, que seus reinos visite,
Percorre o cemitério enorme, sem limite,
Onde jazem, no alvor d’uma luz branca e terna,
Os povos da História antiga e da moderna.

(Tradução de Delfim Guimarães)
============================
O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Com Licença Poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado para mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

A Borboleta

 
Trazendo uma borboleta,
Volta Alfredo para casa.
Como é linda! é toda preta,
Com listas douradas na asa.
Tonta, nas mãos de criança,
Batendo as asas, num susto,
Quer fugir, porfia, cansa,
E treme, e respira a custo.
Contente, o menino grita:
“É a primeira que apanho,
Mamãe! vê como é bonita!
Que cores e que tamanho!
Como voava no mato!
Vou sem demora pregá-la
Por baixo do meu retrato,
Numa parede da sala.”
Mas a mamãe, com carinho,
Lhe diz: “Que mal te fazia,
Meu filho, esse animalzinho,
Que livre e alegre vivia?
Solta essa pobre coitada!
Larga-lhe as asas, Alfredo!
Vê como treme assustada…
Vê como treme de medo…
Para sem pena espetá-la
Numa parede, menino,
É necessário matá-la:
Queres ser um assassino?”
Pensa Alfredo… E, de repente,
Solta a borboleta… E ela
Abre as asas livremente,
E foge pela janela.
“Assim, meu filho! perdeste
A borboleta dourada,
Porém na estima cresceste
De tua mãe adorada…
Que cada um cumpra a sorte
Das mãos de Deus recebida:
Pois só pode dar a Morte
Aquele que dá a Vida.”
============================
O Universo de Drummond 


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Dificuldades do Namoro

Por força da lei mineira,
se te levar ao cinema
levo também tua irmã,
teu irmãozinho, tua mãe.
Porém a mesada é curta
e se eu levar ao cinema
a tua família inteira
como passarei o mês
depois dessa brincadeira?
Prefiro dizer que a fita
na opinião da Cena Muda
não vale dois caracóis,
(Esse Wallace Reid, coitado,
anda muito decadente.)
Outro programa não tenho
nem poderia outro haver
por força da lei mineira
durante as horas noturnas.
Proponho então que fiquemos
nesta sala de jantar
até dez horas em ponto,
(hora de a luz apagar
e todos se recolherem
a seus quartos e orações)
lendo, sentindo, libando
o literário licor
dos sonetos de Camões.
Eis no que dá namorar
o estudante sem meios
nesta década de 20
a doce, guardada filha
de uma dona de pensão.
============================
UniVersos Melodicos

Dorival Caymmi e Jorge Amado

É DOCE MORRER NO MAR
(canção, 1941)

Segundo Dorival Caymmi, “É Doce Morrer no Mar” nasceu durante uma reunião de amigos, em casa do coronel João Amado de Faria, pai de Jorge Amado. No calor da festa, o compositor criou a canção sobre um tema de “Mar Morto”, romance de Jorge sobre os mestres de saveiros: “É doce morrer no mar / nas ondas verdes do mar”.

Imediatamente, o romancista compôs mais alguns versos, completando a canção (“Nas ondas verdes do mar, meu bem / ele foi se afogar / fez sua cama de noivo / no colo de Iemanjá…”).
“Chegou a haver um concursinho entre os presentes (Érico Veríssimo, Clóvis Amorim e outros), mas acabaram prevalecendo os versos de Jorge”, relembra o compositor. “É Doce Morrer no Mar” foi gravado por Caymmi no mesmo disco que lançou “A Jangada Voltou Só”, outra de suas obras-primas.

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar

Saveiro partiu de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito sereia do mar levou
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar

Nas ondas verdes do mar meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de novo no colo de Iemanjá
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar meu bem
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar meu bem

(Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/04/doce-morrer-no-mar.html)
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

LAGARTA PINTADA

É uma roda de crianças, cada qual pegada na orelha da outra, cantando e dançando:

Lagarta pintada
Quem foi que te pintou
Foi uma velha
Que passou por aqui
A saia da velha
Fazia poeira
Puxa lagarta
No pé da orelha

Quando as meninas dizem – Puxa lagarta no pé da orelha – puxam realmente com força na orelha das outras

Outra versão:

Lagarta pintada quem foi que te pintou?
foi uma menina que aqui passou
por dentro das areias levanta poeira
pega esta menina pela ponta da orelha.

Lagarta pintada quem foi que te pintou?
Foi a velha cachimbeira por aqui passou.
No tempo da areia fazia poeira, Puxa
Lagarta nessa orelha… Orelha, orelha!

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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