Guilherme de Azevedo (Alma Nova)VII

foi mantida a grafia original.
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A CRISTO

Precisamos Jesus, se não Te sentes velho,
Que cinjas novamente o resplendor da luz
E venhas explicar a letra do evangelho
A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

Ainda não cessou, de todo, essa contenda
Que um dia, há muito já, tentaste debelar:
E aqueles que são bons e adoram Tua lenda
Desejavam também ouvir-Te hoje falar.

Apenas ressoasse o Teu verbo indignado,
O látego febril das grandes corrupções,
Iria atrás de Ti um mundo revoltado
Que sente na consciência a luz das redenções.

E embora não houvesse, aqui, outra alma gémea
Da Tua, e tão ungida em bálsamos dos céus,
Havias de encontrar essa alma de boémia
Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

Mas não, não voltes cá: Teu corpo combalido
Não pode suportar os gelos da manhã.
Precisavas de pão, de abrigo e de vestido
E a vida aqui é cara e longo o macadam!

Terias de encontrar, decerto, mil estorvos
No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
Se não fosses, enfim, comido pelos corvos
Talvez Te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

Serias apontado a dedo, muitas vezes,
Como um simples bandido, um agitador feroz,
E haviam de esconder seus ouros os burgueses
Apenas ressoasse, ao longe, a Tua voz!

Depois vinhas achar a par do proletário,
Ao pé do que se inunda em bagas de suor,
Aquele velho Pedro, agora milionário,
E triste por pensar que já esteve melhor!

E perto do ócio vil à sombra do qual medra
O egoísmo feroz que extingue o coração,
Lutando todo o dia o britador de pedra
A quem à noite espera, em casa, um negro pão;

E uns pequenos sem cor; talvez cheios de fome,
Com pouca luz no olhar; atrofiados, nus;
Abrindo os olhos muito à côdea que ele come
E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

Assim deixa-Te estar. O Teu cadáver triste
Recende uma fragrância etérea e divinal,
Enquanto o mundo segue e vai de lança em riste
Sem tréguas combatendo as legiões do Mal!

Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
Que falaste do amor, da paz e do perdão,
E o ferro que varou Teu corpo lado a lado
Contudo inda reluz altivo em muita mão!

Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
O gládio vingador das opressões cruéis,
Soltamos, num sorriso, o nome da Justiça,
E há quem saiba morrer sem bênçãos nem lauréis!

Descansa pois Jesus! Bem basta que Tu sintas,
Nesse velho sepulcro, o imenso vozear
Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

Mas que hão de enfim vencer, porque a suprema essência
A jorros cai do Céu nas mãos dos Prometeus,
E tanto vai subindo a vaga da consciência
Que um dia há de abismar-se em nós o próprio Deus!

Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizê-lo.
Era em praia deserta, em frente a um longo mar:
Nos céus havia a névoa, a mãe do Pesadelo,
E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscilar!

De súbito surgiu, na praia, uma criança
De olhar profundo e bom, de angélica expressão,
E o mar contemplou com tanta confiança
Que nem que visse nele o berço dum irmão!

Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
Levando ia consigo aquela flor dos céus!
E em breve só boiava um ténue vulto branco
No mar onde flutua o espírito de Deus!

Mais tarde à beira-mar chegava a pura imagem
Da mais casta mulher que em vida pude ver.
Detinha-se distante: — a espuma da voragem
Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer! –

O imenso mar, porém, crescia a cada instante
Mais turvo e mais veloz! Depois… Não quis ver mais.
Ergui-me e caminhei de vale em vale errante
Pensando tristemente em coisas ideais! –

Ao longe, muito além, na serra desviada
De súbito encontrei — ó estranha aparição! –
Uma pobre velhita enferma e desolada
Trazendo já no olhar a grande cerração!

Que ideia me assaltou não sei dizê-lo agora.
Aonde iria o espectro, aquela sombra vã?
Iria aonde vai o que ontem foi aurora
E aonde irão também as rosas de amanhã?…

Dos meus instantes bons, ó lúcida quimera,
Bem vês que os sonhos maus são fáceis de esquecer!
Que importa a grande noite em plena primavera,
Que importa o que tu foste, o que és, e o que hás de ser!!

O GRANDE TEMPLO

Eu não trajo o burel do magro cenobita
Nem me posso infligir cruéis macerações;
Mas não rio de alguém que busca a paz bendita
No seio casto e bom das grandes solidões.

Bem sei que há na montanha aromas penetrantes
E certas vibrações que podem fazer mal;
Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes
Amá-Lo com fervor no templo universal!

Enquanto sobre o altar das serras azuladas
Mil lâmpadas do céu derramam toda a luz,
Nas velhas catedrais, já meio arruinadas,
O tempo — o grande verme! — até devora a cruz!

Depois é fácil ver, por entre os arabescos,
Que a arte sensual traçou com tanto amor,
As vezes, o sorrir dos Sátiros grotescos
Pungindo cruelmente a face do Senhor.

Ou mais; podemos nós voar todos cativos
Do sereno ideal, daquele sumo bem,
Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
Olhando de revés a virgem nossa mãe?!

E ainda mil traições: as músicas, as flores,
Os lindos serafins voando todos nus;
Da seda que se arrasta os lânguidos rumores,
Do incenso as espirais; os turbilhões de luz!

Oh! Visto haver de tudo; aromas e decotes,
O vinho cintilante, a viva luz do gás;
Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
Não cante apenas Deus; que solte alguns hurras!

O fumo dessa festa, a mim, pouco me assusta.
Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar,
Eu tenho o vale profundo ou a floresta augusta,
As montanhas, os céus, e o belo, o vasto mar!

Da casta natureza ó templo gigantesco,
Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
O meigo e doce olhar do Cristo romanesco
A multidão gentil não chama aos teus umbrais.

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