Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 47 , final

CAPÍTULO XXVIII

Dadas as providências para o enterro do velho Caetano, Teobaldo tomou algumas colheres de caldo e meteu–se na cama, recomendando que não o chamassem.

Passou o dia inteiro na modorra da febre e à noite foi necessário buscar o médico, porque o seu incomodo recrudescia. O médico examinou-o e declarou que havia uma congestão de fígado. Era, pois, indispensável para o doente evitar todo e qualquer abalo moral e submeter-se a um rigoroso tratamento, sem o que podia sobrevir a hemoptise, e a coisa tornar-se então muito mais séria. Acudiu logo muita gente com a notícia da moléstia de S. Exa.; como, porém, o doutor havia proibido ao enfermo falar a alguém, contentavam-se todos com deixar o cartão de visita; só o Coruja não levou lá o seu nome, porque nunca passava do portão do jardim e entendia-se com os criados inferiores.

Hipólito e D. Geminiana achavam-se então na fazenda e por isso não deram sinal de si.
Todavia, e apesar dos afetados desvelos de tanta gente, a hepatite do senhor conselheiro progredia, agravada agora por uma lesão pulmonar, cujos sintomas já se denunciavam. Ele, muito abatido, o rosto cor-de-oca, a barba de quatro dias, os olhos fundos e tingidos de amarelo, mostrava-se muito desanimado e com um grande medo de morrer.

O médico ia vê-lo três vezes ao dia e de todas lhe recomendava a mais completa tranqüilidade de espírito. O doente sorria ao ouvir estas palavras. Uma noite mandou chamar a mulher. Ela não se fez esperar e correu ao quarto do marido. A enorme transformação, que lhe notara logo ao primeiro golpe de vista, impressionou-a vivamente; contudo quedou-se fria e contrafeita à porta da alcova, como se estivesse defronte de um estranho.

— Branca!… Murmurou ele, volvendo para a esposa os olhos já despidos do primitivo encanto.

— O médico recomendou que lhe não deixassem falar… Respondeu ela, sem sair do ponto em que se achava.

— Venha para junto de mim, pediu o infeliz; preciso do seu perdão.

Branca aproximou-se dele, recomendando de novo que se calasse. Teobaldo, quando a sentiu ao alcance de suas mãos, quis abraçá-la. Branca retraiu-se com um movimento espontâneo, no qual só transparecia repugnância. Ele fechou os olhos e deixou cair a cabeça sobre os travesseiros. Ela então adiantou-se, arrependida talvez de o haver contrariado, mas soltou logo um grito, porque o marido sentindo congestionar-se-lhe o sangue no pulmão, erguera-se de súbito, sufocado por uma golfada de sangue. Era a hemoptise.

O quarto encheu-se de estranhos; uma balbúrdia formou-se em torno de Teobaldo; todos queriam socorrê-lo, mas ninguém o conseguia; o sangue lhe golpejava pelas ventas e pela boca.

O médico, quando entrou daí a nada, declarou-o morto.

CAPÍTULO XXIX

O fato, mal caiu em circulação, abalou deveras o público. Desde as nove horas da manhã notou-se na cidade um movimento anormal de ordenanças a cavalo e de tílburis, que subiam e desciam a todo o trote a praia de Botafogo.

No dia subsequente cada folha das diárias, trouxe na sua parte editorial um artigo de fundo a propósito do ilustre morto. Tudo que se pode dizer sobre um político e sobre um homem de talento publicou-se a respeito de Teobaldo; publicou-se em tipo grande, entrelinhado e guarnecido das melhores flores de retórica de que dispunham as redações; mas, no que pareciam ajustadas, era em glorificar o falecido como um peregrino exemplo de honestidade e retidão.

“Ainda há bem pouco tempo, dizia um dos jornais mais acreditados, tinha o insubstituível cidadão que a morte acaba de arrebatar-nos, a seu cargo uma das pastas mais rendosas, do ministério, e talvez, afora a da Fazenda, a que melhor se presta a certos manejos de especulação e, no entanto bem ao contrário do que é de costume entre nós, ele morreu pobre, paupérrimo, a ponto de se lhe encontrar em casa apenas um pouco de dinheiro em papel e quase nenhum objeto de valor. Só este fato, pela sua raridade, é mais que o bastante para dar idéia de quem foi Teobaldo Henrique de Albuquerque colocar o seu nome entre os daqueles que figuram no Panteão da História, cercado de glória, abençoado pela sua geração e eternamente benquisto pela humanidade.”

Toda a imprensa se mostrou empenhada em que o governo estabelecesse imediatamente uma pensão à viúva de festejado defunto, e tal foi o entusiasmo que semelhante morte encontrou no público e até entre os colegas do morto que na câmara chegaram a falar em erigir-lhe uma estátua. Em uma subscrição para este fim aberta, figurava em primeiro lugar a assinatura de Afonso de Aguiar com a quantia de quinhentos mil réis.

Poucos, muito poucos dos enterros que têm havido no Brasil, poderiam rivalizar com o que ele teve. Parecia que se tratava da morte de um príncipe, tal era o acerto do gosto, a boa disposição artística; tal era a distinção, o luxo aristocrático daquelas cerimonias, que a gente tinha vontade de acreditar, que por ali andava o dedo do próprio Teobaldo e que tudo aquilo era obra dele. Dir-se-ia que de dentro do seu rico caixão, coberto de crepe e engenhosamente entretecido de fúnebres coroas, Teobaldo dirigia o solene préstito que o acompanhava à sepultura. Esperava-se ver a cada momento surgir entre as abas do caixão a cabeça do grande homem de gosto, exclamando para algum soldado que saíra da fileira:

— Mais para a direita! Para a direita! Em linha!

E, todo aquele reluzir de dragonas e comendas, e todo aquele deslumbramento de fardas bordadas, aquele cintilar de armas em funeral, e mais aquela marcha cadenciada da tropa; tudo se casava admiravelmente com a impressão gloriosa que Teobaldo deixava gravada na alma do povo, desse mesmo povo que ele dominou com a sua encantadora figura de fidalgo revolucionário e com o seu fino espírito de diplomata apaixonado pelas multidões.

Coruja estava na rua, quando lhe deram a notícia da morte do amigo. Ao contrário do que esperavam todos, ele a ouviu sem soltar uma palavra de dor ou derramar uma lágrima; apenas lhe notaram certa contração no rosto e um quase imperceptível sorriso de desdém. Contudo, atirou-se logo para Botafogo e, quando deu por si, estava defronte da casa do falecido, sem aliás sentir ânimo de levar àquelas magníficas salas em luto o seu pobre tipo farandolesco e miserável.

Acompanhou o enterro de longe, a pé, coxeando como um cão ferido que segue a carruagem do dono. Ao chegar ao cemitério já as formalidades do estilo estavam cumpridas. Um coveiro em mangas de camisas socava a sepultura de Teobaldo, e a multidão, que o acompanhara até aí, punha-se em retirada, com pressa, como quem volta de fazer uma obrigação e quer aproveitar ainda o resto do tempo.

Coruja parou cansado e encostou-se numa sepultura, a olhar estranhamente para tudo aquilo. O cemitério recaía aos poucos na sua pesada sonolência, enquanto os últimos clarões do dia descambavam no horizonte em um rico transbordamento de cores siderais. Já as montanhas ao fundo se cobriam de azul escuro e os ciprestes rumorejavam as primeiras horas da noite.

Ouviam-se rolar ao longo da rua as derradeiras carruagens que se retiravam e, de espaço a espaço, uma pancada surda e desdobrada pelo eco. Era a maceta do coveiro que socava a terra,

Coruja seguiu, coxeando, a direção dessas pancadas e, chegando à sepultura do amigo, ficou a contemplá-la em silêncio.

— Quer alguma coisa? Perguntou-lhe o coveiro.

— Nada, não senhor, respondeu André.

— Pois então é andar, meu caro, que são horas de fechar o cemitério!

Com efeito, quando os dois chegaram ao portão, já o guarda os esperava sacudindo as suas chaves.

Coruja, logo que se viu só, encostou-se ao muro do cemitério e começou a soluçar.

Chorou muito, até que um fundo cansaço se apoderou dele voluptuosamente. Sentia-se como que arrebatado por um sono delicioso; mas caiu logo em si, lembrando-se de que já se fazia tarde e naquele dia, distraído com a morte do amigo, descuidara-se da gente que tinha à sua conta.

E manquejando, a limpar os olhos com a manga do casaco, lá se foi, rua abaixo, perguntando a si mesmo “Onde diabo iria, àquelas horas, arranjar dinheiro para dar de comer ao seu povo?…”

FIM

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