Arquivo do mês: setembro 2013

Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 3 – O passarinho-ninho

A resposta foi um “Aqui!” vindo do pomar. Correndo no rumo da voz, a menina encontrou Emília tão entretida com um passarinho que nem sequer a olhou. Estava afundando as costas dum tico-tico. Todos os passarinhos têm costas “convexas”, isto é, arredondadas para cima. Emília estava fazendo um passarinho de costas “côncavas”, isto é, com um afundamento redondo nas costas. A Rã ficou a olhar para aquilo sem entender coisa nenhuma, até que Emília explicou.

– Estou fazendo o passarinho-ninho. A boba da Natureza arruma as coisas às tontas, sem raciocinar.

Os passarinhos, por exemplo. Ela os ensina a fazer ninhos nas árvores. Haverá maior perigo? Os ovos e os filhotes ficam sujeitos à chuva, às cobras, às formigas, às ventanias. O ano passado deu por aqui um pé–de-vento que derrubou o ninho deste tico-tico, ali da minha pitangueira – e lá se foram três ovos tão bonitinhos, todos sardentinhos. E mais uma vez me convenci da “tortura” das coisas. Comecei a reforma da Natureza por este passarinho.

A Rã não entendeu que reforma era aquela e perguntou:

– Para que esse afundamento aí nas costas do tico-tico?

– Pois é o ninho – respondeu Emília. – Faço o ninho dele aqui nas costas e pronto. Para onde ele for, lá vão também os ovos ou os filhotes – e não há perigo de cobra, nem de ventania, nem de chuva.

– De chuva há – disse a Rãzinha. – Nos ninhos em árvores a fêmea está sempre em cima dos ovos.

Mas aí…

Emília fez um muxoxo de superioridade.

– Já previ todas as hipóteses – disse ela. – Faço a caudinha dele bem móvel, de modo que possa virar para trás e cobrir os ovos quando for preciso, como se fosse um telhadinho.

A Rã deu-se por satisfeita e com a maior atenção acompanhou o preparo do primeiro passarinho ninho do mundo.

– Pronto! – exclamou Emília por fim. – Passam só os ovos. Corra ali e me traga o tico-tico fêmea que está na gaiola.

A Rã foi e trouxe o passarinho. Emília pegou-o com muito jeito e espremeu-o de modo que saíssem três ovinhos sardentos, os quais depositou com muito cuidado no ninho de penas feito nas costas do tico-tico macho – e soltou os dois, pelo ar.

Emília estava radiante.

– Lá se foram! – exclamou. – Acabaram-se as inquietações, os medos de cobra, formiga ou vento. E também se acabou o desaforo de todo o trabalho de botar e chocar os ovos caber só à fêmea. Os homens sempre abusaram das mulheres. Dona Benta diz que nos tempos antigos, e mesmo hoje entre os selvagens, os marmanjos ficam no macio, pitando nas redes, ou só se ocupam dos divertimentos da caça e da guerra, enquanto as pobres mulheres fazem toda a trabalheira, e passam a vida lavando e cozinhando e varrendo e aturando os filhos. E se não andam muito direitinhas, levam pau no lombo. Os machos sempre abusaram das fêmeas, mas agora as coisas vão mudar. Este tico tico, por exemplo, tem que tomar conta dos ovos. A fêmea fica com o trabalho de botá-los, mas o macho tem que tomar conta deles.

– Mas assim os ovos não chocam – objetou a Rãzinha.

– Para que choquem é preciso que as fêmeas fiquem uma porção de dias sentadas sobre eles. As galinhas levam 21 dias no choco.

– Já “previ a hipótese” – disse Emília – e reformei esse ponto. No meu sistema de passarinho ninho quem choca não é a fêmea e sim o sol, como acontece com os ovos dos jacarés, tartarugas, lagartixas e cobras.

– E quando não houver sol? Às vezes passam-se dias sem o sol aparecer.

– Nesse caso os ovos que tenham paciência e esperem que o sol apareça. Para que pressa?

A Rã não teve mais nada a dizer. Estava certo. Só então é que Emília se lembrou de cumprimentá-la e saber como iam todos lá da casa. Também lhe examinou as mãos para ver se as unhas estavam de luto.

E fê-la voltar-se de perfil e de costas, e dar três pulos. Era a primeira vez que as duas se encontravam pessoalmente.

– Estou gostando do seu físico – disse Emília no fim do exame. – Tive medo de que não correspondesse à idéia que fiz. Muitas vezes a gente imagina uma pessoa e sai o contrário.
–––––––––––-
continua…

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3.º Concurso de Quadras Populares do Clube da Simpatia/2013 (Prazo: 30 de novembro)

Ao concurso podem concorrer com quadras inéditas e obrigatoriamente escritas em língua portuguesa, todos os cidadãos, maiores de 16 anos, sócios ou não do Clube da Simpatia e que respeitem o “caráter” proposto.

O concurso é quadrimestral e só serão válidas as quadras enviadas pela Internet.

Será enviada só (1) uma quadra a qual terá de ser em redondilha maior, (sete sílabas) de rima ABAB (lírica ou filosófica).

Para este 3.º concurso de 2013 é válida a letra – ( M ) –

A palavra é escolhida pelo concorrente, mas tem que começar por ( M ), pode estar escrita em qualquer lugar dos quatro versos da quadra e ter qualquer forma gramatical, no entanto, não pode haver a repetição da palavra escolhida, nem mais nenhuma começada por ( M ).

Haverá 5 vencedores aos quais serão enviados, através da Internet, os respectivos diplomas que levam a quadra inscrita.

Haverá ainda 10 menções honrosas cujos poetas vão também receber os respectivos diplomas.

A quadra, onde constará o nome do autor, e-mail e morada, será enviada, para:

clubedasimpatia-algarve@sapo.pt

O prazo para o envio das quadras termina no dia 30 de novembro de 2013.

Os resultados serão publicados no último dia do mês de dezembro de 2013 no Blogue do Clube da Simpatia:

http://clubedasimpatia.blogspot.com

Os vencedores serão avisados por e-mail.

Fonte:
Clube da Simpatia

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XIII Concurso Nacional PoeArt de Literatura – 2013 (Prazo: 20 de Outubro)

HOMENAGEM A UM RENOME DE NOSSA LITERATURA
 
Inscrições até o dia 20 de outubro de 2013

(Preferencialmente pela INTERNET ou pelos Correios)

A PoeArt Editora institui o XIII Concurso Nacional PoeArt de Literatura – 2013 (depois do sucesso dos primeiros, que resultaram nas Antologias Poéticas de Diversos Autores, Vozes de Aço, do volume I ao volume XIV e das Coletâneas Século XXI, volumes I, II, III e IV – que homenageia a grande poeta Olga Savary pelos seus 80 anos de vida), para premiar autores de ambos os sexos, maiores de dezoito anos, amadores ou profissionais, somente residentes no país, nas categorias: Poesia Verso Livre e Soneto, em língua portuguesa, tendo como objetivo principal a descoberta de novos autores e o intercâmbio cultural entre os participantes.

Ao efetuar a sua inscrição, o autor estará concordando com as regras do Concurso, e, se selecionado, autorizando a publicação dos trabalhos no livro Vozes de Aço – XV Antologia Poética de Diversos Autores – 2013. Em caso de cópia indevida e demais crimes previstos na Lei do Direito Autoral, será responsabilizado judicialmente.

Tema e Apresentação:

– O tema é livre em ambas as categorias.

– Cada autor poderá inscrever até três OBRAS por categoria, cada uma em uma página, inéditas ou não, máximo de até 30 versos cada – as que se excederem e tiverem erros serão desclassificadas -, fonte Times New Roman, corpo 12, digitadas somente em um dos lados da folha, onde deverá constar o título de cada poesia. Não é necessário pseudônimo. Se for enviar pelos correios:

– Uma via de cada trabalho, no mesmo envelope, mais um CD com as poesias gravadas e uma foto de perfil recente em alta resolução.

– Em anexo um envelope menor, lacrado, sem qualquer identificação do lado de fora, contendo:

– Nome completo, nº do RG, nome do concurso, títulos dos trabalhos, endereço completo, dados biográficos

(no máximo dez linhas), telefone e e-mail.

– As obras que chegarem sem esses dados não serão consideradas inscritas.

– Todos os trabalhos enviados (selecionados ou não) serão incinerados, após a divulgação do resultado.

Forma de Inscrição:

As obras deverão ser enviadas (preferencialmente pela INTERNET para: poearteditora@gmail.com) ou pelos correios, para: PoeArt Editora: Caixa Postal: 83967 – Cep: 27255-970 – Volta Redonda – RJ.

Premiação:

Os cinco melhores poemas de cada categoria serão publicados sem qualquer ônus no livro Vozes de Aço – XV Antologia Poética de Diversos Autores – 2013 e cada um dos cinco autores de cada categoria premiados receberão 3 exemplares da obra pelos direitos autorais, diploma e sua foto no livro.

Os demais autores concorrentes serão convidados a participar do livro pelo sistema de cooperativismo.

APOIADORES CULTURAIS: Grêmio Barramansense de Letras, Academias de História e Letras de BM, TEATRO GACEMSS, A imprensa escrita e virtual, Vitor Contabilidade, Gráfica Drumond, Colégio Garra Vestibulares, Câmara Municipal de Volta Redonda, Reprográfica Barrense DENTRE OUTROS…

Jean Carlos Gomes / Organizador e Editor Contatos: 24 – 9993-0615 | 33457252
SOMENTE à Noite

E-mail: poearteditora@gmail.com http://poearteditora.blogspot.com
http://www.olhovivoca.com.br/colunistas/jean-carlos-gomes/

Fonte:
Clevane Pessoa

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Bernardo Guimarães (Poemas Humorísticos e Irônicos : Hino à Preguiça)

…     Viridi projectus in antro…
Virgilio

Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, aconchegado leito
Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d’água, que jorra
Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: — são as horas,
Que aos poucos lá se vão. —

Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
Do ímprobo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.
O que tens de comum com a soberba?…
E nem com a cobiça?…
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranqüila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!… que eflúvios vertes
De mórbida indolência!…

És discreta e calada como a noite;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.

Quando apareces, coroada a fronte
De roxas dormideiras,
Longe espancas cuidados importunos,
E agitações fragueiras;

Emudece do ríspido trabalho
A atroadora lida;
Repousa o corpo, o espírito se acalma,
E corre em paz a vida.

Até dos claustros pelas celas reinas
Em ar de santidade,
E no gordo toutiço te entronizas
De rechonchudo abade.

Quem, senão tu, os sonhos alimenta
Da cândida donzela,
Quando sozinha vago amor delira
Cismando na janela?…

Não é também, ao descair da tarde,
Que o vate nos teus braços
Deixa à vontade a fantasia ardente
Vagar pelos espaços?…

Maldigam-te outros; eu, na minha lira
Mil hinos cantarei
Em honra tua, e ao pé de teus altares
Sempre cochilarei.

Nasceste outrora em plaga americana
À luz de ardente sesta,
Junto de um manso arroio, que corria
À sombra da floresta.

Gentil cabocla de fagueiro rosto,
De índole indolente,
Sem dor te concebeu entre as delícias
De um sonho inconsciente.

E nessa hora as auras nem buliam
Nas ramas do arvoredo,
E o rio a deslizar de vagaroso
Quase que estava quedo.

Calou-se o sabiá, deixando em meio
O canto harmonioso,
E para o ninho junto da consorte
Voou silencioso.

A águia, que, adejando sobre as nuvens,
Dos ares é princesa,
Sentiu frouxas as asas, e do bico
Deixou cair a presa.

De murmurar, manando entre pedrinhas
A fonte se esqueceu,
E nos imóveis cálices das flores
A brisa adormeceu.

Por todo o mundo o manto do repouso
Então se desdobrou,
E até dizem, que o sol naquele dia
Seu giro retardou.
+
E eu também já vou sentindo agora
A mágica influência
De teu condão; os membros se entorpecem
Em branda sonolência.

Tudo a dormir convida; a mente e o corpo
Nesta hora tão serena
Lânguidos vergam; dos inertes dedos
Sinto cair-me a pena.

Mas ai!… dos braços teus hoje me arranca
Fatal necessidade!…
Preguiça, é tempo de dizer-te adeus,
Ó céus!… com que saudade!

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Vocabulário de termos e expressões regionais e populares do Centro Oeste (Mato Grosso e Goiás) F, G, H, I e J

FAISQUEIRO — Garimpeiro de ouro; catador de faíscas de ouro em lavras velhas.

FASES-DA-LUA — O sertanejo anda pelas fases da lua. Os barreiros das olarias são sangrados na minguante. Extrai-se madeiras, para não carunchar ou apodrecer, na minguante. Na nova faz-se plantações e muda-se de casa (se fôr dia de sexta-feira). Quatro dias depois de lua-nova, castram-se porcos e bois. Até remédios e negócios aguardam as determinadas fases da lua. .

FIÚZA — Confiança pouco justificável em alguém, ou em algo.

FOBA — Ruim: precipitado.

FÔLHA-DE-COUVE — Nota de quinhentos cruzeiros.

FOLIA — Bando de ociosos devotos que percorrem as roças pedindo esmolas para festas de igreja, levando consigo bandeira “benta” e charanga. “Folia do Divino…”

FORNALHA — Fornalha é mais usado como termo industrial: boca de forno.

FRUITA — Jabuticaba.

FULMINANTE — Espingarda de carregar pela boca.

FUNDURA — Profundidade. Também se usa em sentido extensivo. “Não me meto em tais funduras…”

FUZIL — Pedaço de aço, com que se fere a pedra de isqueiro para tirar fogo.

G

GAMBIRAR — Barganhar; fazer trocas. No sertão faz-se mais gambiras que mesmo negócios a dinheiro.

GÁS — Querosene.

GÁSTURA — Mal estar; perturbação gástrica; opressão do peito.

GAZO — Olho branco. “Cavalo gazo…” de olhos brancos.

GERAIS — Vegetação homogênea.

GIRAU — Cama, mesa, prateleira de paus roliços.

GODERAR — Olhar gulosseimas, cobiçando-as.

GODÓ, GODO — Água viscosa, lamacenta, ou coisa que se lhe assemelhe.

GOIACA — Cinta larga de couro, com diversas divisões para documentos e dinheiro; capa do revólver e baleira. A côr preferida pelos boiadeiros é sempre a amarela. Var. Guaiaca.

GORGULHO — Cascalho; particularmente seixos de tapio-canga decomposta.

GORINO — Lugarejo de romaria.

GRAXA — Engraxar o encarregado do negócio: soltar dinheiro por fora.

GRITALHADA — Gritaria.

GUAMPO — Copo feito de chifre, usado em viagem.

GUANXUME — O mesmo que coivara ou emaranhado de mato.

GUARIROBA — Espécie de coqueiro que fornece um palmito amargoso, muito apreciado.

GUATAMBU — Pequeno arbusto de tronco reto, especial para cabos de ferramentas, como enxada, enxadão, foice etc.

GUMERIM, GUAMIRIM — Fruta roxa que dá nos barrancos dos rios, caindo, quando madura, dentro d’água, cevando pacus e piaus. Tem o diâmetro de uma cereja de café.

H

HO — Marca de revólver muito usado no sertão. O Schmidt é mais afamado, mas poucos podem ter um Schmidt.

I

INDACAS — “Procurar inda-cas”: pretexto para arengar ou brigar.

INGÁ — Fruto do ingàzeiro, de gosto adocicado e muito apreciado pelas crianças; vende-se nas feiras. Serve para iscar anzol para peixes de escamas.

INZONAR — Ser moroso no trabalho; procurar pretexto fútil para se esquivar do trabalho.

INZONEIRO — Malandro; mole; que perde tempo em futilidades.

ISCA — Acendalha de algodão queimado, de que se enche a binga.

J

JACUBA — Farnel de rapadura e farinha, socadas em pilão.

JARDINEIRA — Ônibus, diligência, auto para transporte de passageiros.

JAÚ-DE-CAMA — Um dos maiores peixes de couro de agua doce mora enlocado nas pedras, onde faz a sua cama (de pedras).

JIRISA — Ojerisa.

JUÇARA — Pêlos finos, duros e espinhosos que cobrem frutos, folhas ou caules. “Juçaras de gravatas”.

Fonte:
Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. . Ed. Literat. 1962

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José Feldman (Universo de Versos n. 117)


Uma Trova do Paraná

VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba

Não se ata  pelas algemas,
mazelas ao cidadão,
que enfrenta  tantos dilemas
doando vida à  nação.
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Uma Trova sobre Saudade, do Rio de Janeiro

ANIS MURAD

Maria, só por maldade,    
deixou-me a casa vazia…  
Dentro da casa: saudade! 
E na saudade: Maria!       
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

Partir  é quase morrer…
é deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG

CEZÁRIO BRANDI FILHO

Se os elos de nossos braços,
não mais se unirem na vida,
seremos sempre pedaços
de uma corrente partida.
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Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

JAIME PINA DA SILVEIRA

Olha lá…não te machuques!
És rico, mas tens oitenta!
E…ela…vinte! Quais os truques?…
– Menti que tinha noventa!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN

Lágrimas, águas em fugas,
que num trajeto indolente,
deixam escritos nas rugas,
os sofrimentos da gente…
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Uma Trova Hispânica, do México

CRISTINA OLIVEIRA CHÁVEZ

 No es no querer perdonar
la deserción de mi padre,
es que no puedo olvidar
las lágrimas de mi madre…
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Uma Trova sobre Respeito, de Ribeirão Preto/SP

RITA MARCIANO MOURÃO

      No lar que me fez honrado,
     ante os conceitos de espaço,
     o respeito era sagrado,
     mesmo que o pão fosse escasso!
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Trovadores que deixaram Saudades

ROBERTO FARIA DE MEDEIROS
Juiz de Fora/MG (1923 – 1995)

Não há criança vadia …
E as que esmolam a teus pés
são anjos que Deus envia
para saber quem tu és.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

Não desejo nem capela
nem mármore em minha cova…
Apenas escrevam nela
pequenina e humilde Trova…
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Um Haicai de São Paulo/SP

JOSUÉ ROODER SALOMÃO

Manhã de geada
Sob o banco da pracinha
Cão todo enrolado
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

Para rimar com teu nome,
que é do céu a obra-prima,
mãe, não existe um vocábulo!
Nem mesmo Deus achou rima.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC

Glosando Aloísio Alves da Costa
RELÓGIO DO MEU PEITO

MOTE:
NÃO VENS… E A MINHA ANSIEDADE,
NUM TIQUE-TAQUE PERFEITO,
MEDE AS HORAS DA SAUDADE
NO RELÓGIO DO MEU PEITO!

GLOSA:
NÃO VENS… E A MINHA ANSIEDADE,
vai se agigantando em mim.
Onde estás felicidade?
Essa espera não tem fim!

Eu sinto o passar das horas
NUM TIQUE-TAQUE PERFEITO,
contando as tuas demoras…
Fico triste e insatisfeito!

Na minha realidade,
o relógio da emoção
MEDE AS HORAS DA SAUDADE
dentro do meu coração!

Os ponteiros, ternamente,
tento adiantar, com meu jeito,
para unir, pra sempre, a gente,
NO RELÓGIO DO MEU PEITO!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

Celeste amor que perdura
Atende a roteiro assim:
Ilimitada ternura
No entendimento sem fim.
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)

trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Gota d’água

Olha a paisagem que enlevado estudo!…
Olha este céu no centro! olha esta mata
E este horizonte ao lado! olha este rudo
Aspecto da montanha e da cascata!…

E o teu perfil aqui sereno e mudo!
Todo este quadro que a alma me arrebata,
Todo o infinito que nos cerca, tudo!
D’água esta gota ao mínimo retrata!…

Chega-te mais! Deixa lá fora o mundo!
Vê o firmamento sobre nós baixando;
Vê de que luz suavíssima me inundo!…

Vai teus braços, aos meus, entrelaçando,
Beija-me assim! vê deste azul no fundo,
Os nossos olhos mudos nos olhando!…
============================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Andança

Na rua morta move-se o meu passo
Seguindo errante em busca de um amor
Sob esse luar tristonho que há no espaço
Também vagueia a esmo a minha dor.

E neste acaso eu ando solitário,
Por onde passo eu passo descontente,
E vem comigo a dor desse calvário
No frágil  som de um coração fremente.

Se o seu olhar eu já perdi de vista
  Nele não vi meu sonho desejado
Então por que buscar essa conquista?

Mas a esperança é a última a morrer…
E adiante vou no sonho tão sonhado,
Buscar o amor que tanto quero ter!
============================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Discurso

 E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada,
porque as ervas cresceram
e as serpentes andaram.

Também procurei no céu
a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar
que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar
que venha alguém gostar de mim?
============================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Coragem De Cada Um De Nós
(CD O Mágico de Oz)

 Quanta coragem precisamos ter
Pra enfrentar o medo que trazemos em nós ?
Pra cruzar a ponte e o escuro,
Pra vencer seu inimigo mais feroz ,
Basta despertar dentro da gente a coragem adormecida ,
Escondida agora em cada um de nós

Quanta coragem precisamos ter
Pra enfrentar o medo que trazemos em nós ?
A coragem é tudo aquilo que voce precisa,
Acredite, voce pode mais, acorde o grande rei
Que há em ti pra descobrir que na verdade,
A coragem dorme em cada um de nós
============================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Noroeste

Dilaceramentos…
Pois tem espinhos também
A rosa-dos-ventos.
============================
O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Ao Poeta em mim

Ingenuamente movido por certezas
Pensas abrir sendas neste mundo
Quando apenas seguir podes correntezas
Que levaram a tantos para o fundo.

Mas além dentro de ti, algures
Se encontra a chave do Mistério
Que talvez nem saibas que procures
Pois até uma criança brinca a sério…

Repara à tua volta, meu amigo,
A vida solene e atarefada
Que gira em torno ao teu umbigo!

E já que és o centro do universo,
Cuida da precisão do teu destino
Que é só caber inteiro num teu verso…
============================
Uma Poesia de Pato Branco/PR

ELIZABETH MARIA CHEMIN BODANESE

Encanto

 Ipês cor-de-rosa…
 Pinheiros bem verdes…
 Violetas e amores-perfeitos
 De todas as cores alegram a vida
 Dos verdadeiros amores.

 Um beija-flor poliniza a flor…
 Uma bola voa de um lado a outro
 Nas mãozinhas  ágeis dos pimpolhos!
 Um balanço faz sonhar,
 No espaço o menino brincar…
 A Primavera está  chegando…
 Advento do florescer…
 A vida pulsa numa eterna busca
 De quem quer aprender,
 Saber, conhecer
 Antes de a outra vida transcender…

 Os galhos secos e a neve
 Não assustam mais nas janelas
 Da casa no alto do morro…
 A chuva e o frio se rendem
 Ao sol e ao calor…
 Flores exalam perfumes
 Nesse tempo de amor
 Na cidade sem preconceitos
 Pato Branco dos amores-perfeitos…
 Terra de amor, amizade e respeito.
============================
O Universo de Francisca

FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP – 1920, São Paulo/SP)

A um Velho

Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

A CASA DO JOÃO

Aqui está a casa
 Que fez o João.

Aqui está o saco do grão e feijão
Que estava na casa
 Que fez o João.

Aqui está o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

Aqui está o gato
Que comeu o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

Aqui está o cão
Que mordeu o gato
 Que comeu o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

(http://luso-livros.net/)
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O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia? 


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O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Ah! Os relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia em for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais um necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
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Uma Poesia de Portugal

Sophia de Mello Breyner Andresen
Porto (1919 – 2004) Lisboa

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
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O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Ciúme

Não brinques ao sol, menina!
É tão preto o teu cabelo,
Que exposto ao sol que ilumina,
Jamais, jamais quero vê-lo.

Não sabes por que, Maria?…
Do sol o brilhante açoite
Só vem à terra de dia
Porque não gosta da noite.

E eu temo que ao ver formoso
O teu cabelo, um tesouro!
O sol, que é tão invejoso,
Não queira torná-lo louro.

Louro, Maria! o repouso
Onde vacilo com a cruz,
O doce abrigo onde pouso
Meus olhos fartos de luz?

Não quero, flor de minh’alma,
Linda esperança em botão…
O dia não é que acalma
As mágoas do coração.

Quando a dor em fúria brusca
Lhe vem magoar o seio,
A treva da noite busca
Para chorar sem receio.

E a minha noite mais pura
No teu cabelo é que eu vejo;
Esqueço toda a amargura
Se a tua cabeça beijo!

E agora, santa, avalia
Que pena teria eu
Se chegasse a ver um dia
O teu cabelo, Maria,
Da cor dos astros do céu!
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O Universo Triverso de Millôr

MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)

À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Amor… e Morte…

    O amor
é como a morte
ato banal de todo dia…

Emoção forte
de tristeza ou de alegria,
ele sempre nos surpreende, e a ele nunca nos acostumamos
talvez…

O amor é como a morte:
quando amamos
é sempre a primeira vez.
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Um Soneto

LUIZ CARLOS DE OLIVEIRA

A Dor da Perda

 Num dos quartos do Pronto Atendimento
 Adentra a mãe com a filha prematura,
 Não desfeito o negror da noite impura
 E o galo nem cantava no momento…

 Nenhum repórter dava cobertura:
 Era só mais um rotineiro evento…
 Logo o médico atesta o passamento
 E manda agilizar a sepultura.

 Um nódulo instalou-se na garganta
 Da mãe, como invisível funeral
 Da filha morta… O olhar, naquele exato

 Momento de estupor, que se agiganta,
 Perde-se num vazio sem igual:
 A sua dor é o próprio anonimato!
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O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia

PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

No repente, ninguém traça uma meta,
mas é bom que um roteiro a gente trace,
pois do nada, um improviso sempre nasce
e a beleza da vida se completa.
Não precisa que seja em linha reta,
pode ser por caminho tortuoso,
pois o verso sofrendo é mais famoso
aos primeiros suspiros da manhã,
quando o sol salpicando o morro e a chã
torna o verso mais belo e mais formoso!
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O Universo Poético de Lúcia Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Tenho Saudades

Tenho saudades do meu amor que te amava
vestido de silêncios e conflitos tão sinceros.
Um amor que era sol –  um amor tão belo
que até aos anjos a sonhar  ele ensinava.

Tenho saudades do amor que eu sentia,
momentos manuscritos dentro do coração.
Tinha linhagem aquele sonho que eu vivia.
Era uma luz passando a limpo a escuridão.

E onde estás? Não te encontro mais
e nesses meus sonhos, o que buscais
ó anjos?  –  a esperança já vencida?

Não entendo mais essa linguagem.
Sei que a dor muda toda paisagem
do livro interior, onde se escreve a vida.
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Uma Poesia Além Fronteiras

JOHN DONNE
Inglaterra (1572 – 1631)

A Isca

Vem viver comigo, sê o meu amor
E alguns novos prazeres provaremos
De areias douradas e regatos de cristal
Com linhas de seda e anzóis de prata.

Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Se, sendo vista assim, fores censurada
Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás;
E se me for dada licença para olhar
Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti.

Deixa que outros gelem com canas de pesca
E cortem as suas pernas em conchas e algas;
Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes
Com engodos sufocantes, ou redes de calado.

Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso
Arranquem os cardumes acamados em baixios;
Ou que traidores curiosos, com moscas de seda
Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes,

Porque tu não precisas de tais enganos,
Pois que tu própria és a tua própria isca,
E o peixe que não seja por ti apanhado,
Ah!, é muito mais sensato do que eu.

(Tradução de Helena Barbas)
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O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
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O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

A Madrugada

Os pássaros, que dormiam
Nas árvores orvalhadas,
Já a alvorada anunciam
No silêncio das estradas.

As estrelas, apagando
A luz com que resplandecem,
Vão tímidas vacilando
Até que desaparecem.

Deste lado do horizonte,
Numa névoa luminosa,
O céu, por cima do monte,
Fica todo cor-de-rosa;

Daí a pouco, inflamado
Numa claridade intensa,
Se desdobra avermelhado,
Como uma fogueira imensa.

Os galos, batendo as asas,
Madrugadores, já cantam;
Já há barulho nas casas,
Já os homens se levantam,

O lavrador pega a enxada,
Mugem os bois à porfia;
— É a hora da madrugada
Saudai o nascer do dia!
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O Universo de Carlos Drummond de Andrade

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Lembrança do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
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UniVersos Melodicos

Ataulfo Alves e Mário Lago

AI, QUE SAUDADES DA AMÉLIA
(samba, 1942)

“Ai Que Saudades da Amélia” tem três personagens: o protagonista, sua mulher e Amélia, a mulher que ele perdeu. O tema é um confronto dos defeitos da mulher atual com as qualidades da mulher anterior. A atual, a quem o protagonista se dirige, é exigente, egoísta, “Só pensa em luxo e riqueza”, enquanto a anterior é um exemplo de virtude e resignação – “Amélia não tinha a menor vaidade, (…) achava bonito não ter o que comer… ‘. Em suma, a primeira é o presente, a realidade incontestável; a segunda é o passado, uma saudade idealizada na figura da mulher perfeita, pelos padrões da época.

Este primoroso poema popular, coloquial espontâneo, escrito por Mário Lago , recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra. E o paradoxal é que não sendo carnavalesco, este samba fez estrondoso sucesso no carnaval.

Segundo Mário Lago, “Amélia nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que sempre que se falava em mulher costumava brincar – ‘Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava…”‘. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de “Ai Que Saudades da Amélia”. Brincadeiras à parte, a verdade é que a Amélia do Almeidinha existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças.

Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. “Isso é natural” – comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17.11.65 -, “as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações”. De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações.

Começou então a batalha da gravação. Ataulfo ofereceu “Amélia” em vão a vários cantores, inclusive a Orlando Silva. Como ninguém queria gravá-la, gravou-a ele mesmo na Odeon, no dia 27.11.41, acompanhado por um improvisado conjunto, batizado de Academia de Samba. Convidado na hora, Jacó do Bandolim participou dessa gravação, tocando cavaquinho, sendo sua a introdução.

Lançado no suplemento de janeiro de 1942, “Ai Que Saudades da Amélia” foi conquistando aos poucos a preferência do público, graças, principalmente, a uma intensa atuação de Ataulfo junto às rádios. Relembra Mário Lago que o locutor Júlio Louzada chegou a dedicar, na Rádio Educadora, uma tarde inteira de domingo a “Amélia”, com entrevistas e o disco tocando dezenas de vezes. O resultado é que às vésperas do carnaval, quando houve o concurso para escolher o melhor samba, “Ai Que Saudades da Amélia” dividia o favoritismo com “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo. Realizado no estádio do Fluminense, este concurso reuniu uma enorme platéia que, de acordo com o regulamento, elegeria por aplauso os vencedores.

Precedendo “Amélia”, apresentou-se “Praça Onze”, valorizada por um verdadeiro show, preparado por Herivelto. Primeiro foram mostrados os instrumentos, explicando-se as funções de cada um; em seguida, vieram as passistas, um grupo sensacional de mulatas rebolando; e, finalmente, cantou-se o samba, que levou a platéia ao delírio, dando a impressão de que o certame já estava decidido. Acontece, porém, que “Amélia” também tinha seus trunfos. Tim e Carreiro, amigos de Mário e craques do time do Fluminense, que acabara de ganhar o bicampeonato carioca de futebol, haviam feito um excelente trabalho junto à torcida tricolor.

Para completar, no momento da apresentação, Mário Lago subiu ao palco e, num rasgo de eloqüência e demagogia, fez um discurso emocionante, proclamando “Amélia” símbolo da mulher brasileira. Assim, quando Ataulfo e suas pastoras começaram a cantar o estádio veio abaixo, praticamente exigindo a vitória dos dois sambas. Sem a possibilidade de desempatar, o presidente do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça – por coincidência, casado com uma “Amélia”, a poeta Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça – autorizou o pagamento em dobro do prêmio de campeão a “Ai Que Saudades da Amélia” e “Praça Onze”, cada um recebendo como se tivesse ganho sozinho.

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Mas quando me via contrariado
Dizia: meu filho, o que se há de fazer ?

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era a mulher de verdade

Fonte:
(http://www.cifrantiga3.blogspot.com
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Uma Cantiga Infantil de Roda

CAI, CAI, BALÃO

Cai, cai, balão
Cai, cai, balão,
Na rua do sabão

Não cai não,
Não cai não,
Não cai não,
Cai aqui na minha mão
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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

À vista de ti

Nunca te vi, melhor que seja assim.
Teus cabelos seriam trinados ao vento?
Poderia eu dizer “treinados”, eles seriam – porque aí corre
o vento da tardinha – sempre me dizes
do vento.
Guardo teus papéis eu guardo.
Perco-os, justo que me percam!
Um cartãozinho…, teu, a te encontrar, azul…,
azul seria
a saia de sair?
Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela
e os olhos vagos de nenhuma palavra?
O que poderei dizer quando te encontrar?…, se.
Nestes tempos modernos, teria lugar para um
silêncio?

Falarias? De que nos diríamos? Melhor que teus cabelos fiquem
ao vento.
Ah, vento doce, da noite, como me perfumas o hálito desta noite cedo!
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

VÃO

Enquanto sonho esperanças vãs
desencontro o árduo caminho
além da curva derradeira

debruçado ao restante da paisagem
anoiteço sons desprestigiados

em sonhos determino o anárquico
senso dos encobrimentos.
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O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

VIDA DE EQUAÇÕES
Acróstico-filosófico nº 5354

V-Vida de soluções bem resolvidas
I-Inspiram alegrias alcançadas;
D-Das equações mal resolvidas
A-As decepções dão outras caminhadas;
 –
D-Dos vários quilômetros percorridos
E-Em estradas sem flores e perdões,
 –
E-Enfrentamentos dos pesos doloridos…
Q-Quedas pedem orações convincentes!
U-Um corpo que cai, precisa levantar!
A-As ferramentas próprias e eficientes,
Ç-Com vontade, fé e livre-arbítrio,
Õ-Oferecem o futuro, perto novamente;
E-Encontram lições nas feias lesões…
S-Sensações novas que dão força à mente.
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O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

  Queria ser sua música favorita

E eu apetecia ser aquela melodia
Que fluiu da alma na madrugada
Bateu a porta do peito em poesia

E se jogou entre notas; musicada.

Queria ser essa canção que te toca
E queria mil vezes que me ouvisse
Queria ser essa letra que te invoca

Que por todo sempre me repetisse.

Queria ser essa canção de saudade
Da grande ternura que em ti reside

Segundo em segundo em ti incide.

Enfim… Eu queria ser essa canção
Para saber de onde sua lágrima vem
Sinceramente só quero te fazer bem.

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A. A. de Assis (Poeminhas à moda de haicais) Parte 2, final

51.
Tão miudinha a avenca.
Ao lado um coqueiro enorme
súbito despenca.

52.
Fácil se define:
lá distante uma araponga
tine… tine… tine…

53.
Petit à petit,
pombinhos tecem seus ninhos.
Em Paris e aqui.

54.
Vós que, sobrevivos,
a mais que os demais amais,
uni-vos, uni-vos.

55.
Repicam os sinos.
Os mesmos de nós meninos,
na velha matriz.

56.
Colibri esvoaça.
Tem rosa nova, solteira,
no jardim da praça.

57.
Voa, voa, voa,
faz a cera, faz o mel,
abelhinha boa.

58.
Um cisco no chão.
Ah, não era cisco não.
Era uma esperança.

59.
Menino de rua.
Protege-o, Dindinha Lua,
dá-lhe colo, dá!

60.
Pião da saudade.
De uma era em que era franca
a felicidade.

61.
Um vaso de avenca.
Minimíssima floresta.
Mas é verde, é festa.

62
Chocados os ovos,
há o choque dos seres novos.
E a vida prossegue.

63.
Levantar cedinho.
Mens sana in corpore sano.
Ouvir passarinho.

64.
Curvam-se as roseiras.
Jogam as rosas, felizes,
beijos às raízes.

65.
Rola a Lua, rola.
Os mísseis zumbindo ao lado
e ela nem dá bola.

66.
De amor são seus uis.
As lágrimas que ela chora
devem ser azuis.

67.
Lua na montanha.
Me faz um favor, me faz:
sobe lá e apanha.

68.
Crianças na praça
cantando canções de roda.
Volta a paz à moda.

69.
Leio no jardim.
Idéias há e azaléias
em redor de mim.

70.
É um impasse e tanto:
trabalho, o canto atrapalho.
Nesse caso, canto.

71.
Olá, senhor Sol.
Bem-vindo ao nosso domingo.
Praia e futebol.

72.
Ah, havia o espaço.
Ave havia e havia ação.
Ave… avi…ão.

73.
Contam casos… súbito,
Negrinho do Pastoreio
passa bem no meio.

74.
Onda e sol… Floripa.
Tem lugar para mais a um.
Pega a prancha e… tchum!

75.
Trenzinho da serra…
Pa… Pa-ra-ná… Pa-ra-ná…
pra Paranaguá.

76.
De perder a voz.
Água, água, água, água.
Cataratas – Foz.

77.
Presépio do Sul.
Curitiba dos pinheiros
e da gralha azul.

78.
É chegar e amar.
Ri o Rio o ano inteiro.
Samba, sol e mar.

79.
Dim-dim-dão… dim-dão…
Os sinos de San-del-Rey
sempre em oração.

80
Bahia das festas.
De todos os sábios – tantos.
De todos os santos.

81
Aguinha de coco.
Areia, arara, caju.
Ah… é Aracaju.

82
Jangada ao luar.
Lagosta ao vinho depois.
Fortaleza a dois.

83.
Blem… Belém… blem-blem…
No Círio de Nazaré,
os sinos da fé.

84.
O tempo e a distância.
A festa de São Fidélis.
Transfusão de infância.

85
Armas e barões
muito além da Taprobana
ecoam Camões.

86.
Tela brasileira.
Um sabiá na palmeira
de Gonçalves Dias.

87.
Rosa, Rosa, Rosa,
ó Rosa das rosas ledas!
Dos sertões: veredas.

88.
Releio Pessoa.
Finjo tão completamente,
que a tristeza voa.

89.
Leoni, o poeta
da Petrópolis azul.
Alma azul. Raul.

90.
Luar no sertão.
Ah que falta faz Catulo
com seu violão!

91.
Bem-te-vi, Cecília,
nos ramos da madrugada.
Cantando, encantada.

92.
Mais do que Bandeira,
sobretudo Manuel.
Ou mais: man well.

93.
To you, tuiuiú.
Parabéns para você.
Happy bird are you.

94.
New York, New York,
make love, not work.
Ah, I love you!

95.
Passa a teoria
por debaixo do arco-íris.
Vira poesia.

96.
Pilhas de currículos.
Vencedor: o sabiá.
Sabia cantar.

97.
O sorriso é um dom.
Sorrindo você faz lindo
o seu lado bom.

98.
Aplainai as trilhas,
forrai-as de relva e flor.
Vai chegar o Amor.

99.
Brinquemos, irmãos.
Vamos dar as nossas mãos.
Brinquemos de paz.

100.
De braços abertos,
sobe o pinheiro. Subindo,
deixa o céu
m
a
i
s
l
i
n
d
o

Fonte:
A. A. de Assis. Poeminhas (à moda de haicais). Marinha Grande/Portugal: Biblioteca Virtual “Cá Estamos Nós”. Outubro de 2004

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