Arquivo do mês: outubro 2013

Cantinho do Prof. Pedro Mello (Radiografia do Achado)

O que faz de uma trova um poema antológico, conhecido de cor por dezenas de trovadores (ou merecedor de tal), e de outra uma nulidade digna de cair no olvido?

Quase todos os trovadores conhecem esta trova de Durval Mendonça, que obteve o merecidíssimo primeiro lugar nos V Jogos Florais de Nova Friburgo em 1964:

Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu…

O que obra inesquecível? Pensemos, primeiramente, na incrível simplicidade estrutural. Para quem acha a poesia algo esotérico, hermético, eis aqui um contra-exemplo mais do que concreto: não estamos diante de uma linguagem sofisticada apesar do aspecto formal – uma trova. Os versos em redondilhas maiores, por outro lado, não a identificam com o cancioneiro popular, o que em princípio pode soar paradoxal: nem popular, nem sofisticada. Um equilíbrio “sui generis”: um poema simples sem ser simplório, ao mesmo tempo em faz desta trova uma que sua imagem é inusitada.

Pode alguém roubar, furtar, apropriar-se indevidamente… daquilo que já é seu? Ou, pelo menos, daquilo que ele julga ser seu? Estamos diante de um magnífico paradoxo, sem dúvida, o que a torna um poema digno de atenção. E, por falar em atenção, o detalhe das rimas – terminações comuns –ão e –eu, que não deixam margem para o emprego de formas exóticas ou impensadas: –ão, terminação típica de substantivos ou de adjetivos no grau aumentativo, evoca palavras de emprego comum, tais como as utilizadas pelo poeta: mão/sensação; –eu, terminação também abundante, é desinência marcadora da 3ª. pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos de 2ª. conjugação e também é a terminação dos pronomes possessivos meu, teu, seu, como de fato aparece nos versos 2 e 4: deu/meu.

Quando falo das rimas, não evoco a classificação tradicional de “ricas” ou “pobres”, porque isto não se sustenta em uma análise mais profunda – se pensarmos no nível discursivo do poema, não é a categoria gramatical das rimas um indicador de “riqueza” ou “pobreza”. Inclusive, “pobreza” e “riqueza” de quê? Ao contrário, como bem atesta a trova de Durval Mendonça, a categoria gramatical a que pertencem as rimas não quer dizer nada, seja pelo aspecto meramente fonético (não há terminação melhor do que outra ) seja pelo semântico (o significante não se sobrepõe ao significado). Refiro-me às rimas porque elas estão perfeitamente empregadas pelo autor: não há em nós uma sensação de palavras soltas ou de uma sonoridade artificial, forçada, como sói acontecer em versos medíocres.

Evidentemente, por ser uma forma fixa, a trova requer a metrificação e a rima. A tentação de um poeta sem talento é o emprego de rimas per si. Esse é o que eu chamaria de pecado original, o mau início para quem constrói um verso. Claro que a palavra “construção” pode causar calafrios em alguns, mas não é isto que a metrificação pressupõe? O ato de construir, edificar, dar acabamento, lapidar? Não pense um “modernoso” desavisado que a poesia moderna abdica destes valores, ao contrário. Leia João Cabral de Melo Neto e tire suas próprias conclusões.

Duas observações:

1. No monumento da Língua Portuguesa, que é o poema épico “Os Lusíadas”, Camões emprega centena de vezes a terminação –ADA. Acredito que ninguém, sem sã consciência, veja nisto um demérito para o autor… O que importa não é a rima em si, mas o que o autor faz com ela…

2. Emprego neste artigo dois termos da lingüística – significante e significado. Tais termos foram amplamente discutidos pelo lingüista suíço Ferdinand de Saussure, considerado o “pai” da Lingüística, enquanto o conjunto das Ciências da Linguagem. Em termos simples, significante é a parte material de um signo, no caso o signo lingüístico, se pensarmos em termos de “palavra” ou “vocábulo”. Significado é a idéia representada pelo significante. Este binômio proposto por Saussure é o que compõe um signo. Tomemos como exemplo a palavra maçã. A palavra “maçã”, m-a-ç-ã, é o significante. A imagem mental que fazemos da fruta constitui seu significado. O signo é o todo, é a junção do significante com o significado

Voltando à questão da rima, os dois pares – mão/sensação e deu/meu – estão logicamente concatenados entre si e entrelaçados à idéia de abandono e solidão a que aludem o poema. Visualizamos o cenário – o homem (porque é o homem quem beija a mão da mulher e não o oposto) reencontra a mulher amada e, gesto de amor incondicional, beija-lhe a mão mesmo que esta (a mão, metonimicamente a mulher) esteja com outro. Dizemos “esteja” porque a mulher (e sua mão!) pertencem ao enunciador, i.e., o eu-lírico, e não ao seu rival. Por que afirmamos que há um rival? Porque o Destino não lhe deu a mão da mulher amada, e a sensação de roubar algo só pode acometer quem não possui aquilo que supostamente rouba. Supostamente rouba, ao mesmo tempo em que, no íntimo, a tem como sua: roubar aquilo que é seu. Mas como pode roubar aquilo que é seu? Porque, no fundo, não é seu. E é nesta contradição que reside o achado desta trova.

A palavra “achado”, conforme empregada em nosso idioma para se referir a uma idéia ou expressão original, é tradução da palavra francesa “trouvaille”, que tem, na língua francesa, o mesmo sentido da equivalente portuguesa e remonta à Idade Média. Da mesma raiz de “trouvaille” vem trovador, trovadorismo, e, modernamente, trova.

Etimologicamente, portanto, trova por si só encerraria um “achado”, o que nem sempre é verdade. Mas o exemplo que analisamos contém um achado. Podemos inferir que “achado” é algo inusitado, diferente, original, diametralmente oposto ao clichê, chavão ou lugar-comum. Esse foi o “achado” de Durval Mendonça: uma idéia original, literalmente, “roubando o que é meu”. E sempre que qualquer um de nós se deparar com um achado saberá identificá-lo prontamente – um paradoxo, uma metáfora, uma hipérbole, uma metonímia, um eufemismo… enfim, um tropo ou figura de estilo, artisticamente bem empregado, que dá à trova o status de Poesia, na mais perfeita acepção do termo.

Outra Observação: Recomendo a leitura do poema “Catar feijão”, um dos mais conhecidos poemas de João Cabral, em que ele fala, metalinguisticamente, do processo da escrita. O primeiro verso “Catar feijão limita-se com escrever” é bastante sugestivo. Leia o poema!!!

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1610627

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Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel) (Sonetos Escolhidos 4)

OCEÂNICA

Na partida, um oceano de revolta
cala meu peito em descontentamento.
– Vais aonde? – eu pergunto – onda tão solta?
E ela me corta o coração por dentro.

Sou areia, sou rocha e, em meu tormento,
choro e declamo, e o fogo me devora;
qual vulcão que nos mostra o epicentro,
outro vulcão me nasce aqui por fora.

Na partida, eu prometo consolar-me
do vácuo que me tolhe. E, sem alarme,
no amor a Deus apenas me concentro.

Meu mundo é solidão, é só saudade
de quem levou minha tranqüilidade,
de quem partiu meu coração por dentro.

SOMBRA

Minha sombra soçobra no que flui,
No horizonte de um deus fendido em dois:
– O futuro, do qual se foge em “ui”!
E o passado das noites e dos sóis.

Aquele vem de pé, mas tão veloz
Quanto o outro não foge – e como influi!
Um é terrível santo e tão sem voz,
O outro, deus e o diabo… E a carne rui.

Já não banco o santinho nem o herói,
Embora herde, dos dois, olhos azuis
E haja chorado à treva e à cor que dói.

Já não tenho esperança numa foz
De doçura e de amor que a amor conduz.
Minha sombra soçobra em caracóis.

SENSITIVA

Nasci para sentir o mundo… E vivo
pelo meu, como as cores que resguardo.
Ai, flor sem nome, que à memória foge!
Tudo o que sinto é pele, estranho agrado.

Quanto mais me retraio mais me ativo,
quanto mais me esconder ou for me embora,
mais eu me amo por tudo o que em mim gosta
de sentir perto-e-longe e ser mais livre.

Sou como a sensitiva na floresta,
não fujo às agressões, me fecho e durmo,
os pirilampos que me façam festa.

Não é que eu sofra o sofrimento em calma,
é que conheço irônicas ternuras
das quais a vida nos consola ou salva.

SINGULAR

É singular criatura. Das pequenas
E grandes porque reina (não são teses),
A conduzir, no bucho, longos meses,
O filho – em seu olhar, carícias plenas.

Mais do que isto: a mãe limpa-lhe as fezes,
Ganha de tudo onde sofrer é estima,
Deusa, abaixo de Deus ela só rima
Na proteção do infante. E morre às vezes.

Pois que ela rege, em templo tão fecundo,
Um musical no ventre, o gineceu,
De onde viemos nós, não me confundo.

Depois de minha mãe, só eu, sou eu…
Mãe, o’ mães, porque há tantas neste mundo
Resiste a humanidade, e não morreu.

TERNURA MIÚDA

Pelas coisas serenas me contenho
se ternamente nasçam da vontade,
do amor e do carinho, da bondade
daquilo que mais prezo e pouco tenho.

Venham doces carícias pelo vento,
beijar-me a sutil nuca que me impele
a estremecer e subir do imo à pele,
e bem voar pelo espaço em movimento.

Os pequeninos vidros mais perfume
têm – que a filosofia não resume,
pois lhe falta ternura e tentação.

Nas invisíveis coisas me retiro,
nelas canto e me encanto e mais suspiro…
Todo o meu corpo é todo um coração.

ÚLTIMO OLHAR

Hora, afinal, de reconciliação
com os inimigos e os perseguidores,
sem alívio nenhum, trespassam dores…
Dos amigos? – O amor e a oração.

Como esquecer os gozos e a canção
da vida, o tempo em que teceu amores?
Vão colegas, vizinhos! Vãos clamores,
diante do horror dessa consternação.

Quero ligar-me a Deus, já na partida,
pra suportar o triste dos presentes,
numa clara humildade aborrecida…

Ah, recebo os divinos, santos óleos
e o pesar da mamãe e dos parentes,
com teu olhar por dentro dos meus olhos.

VELHAS PRAIAS

As velhas praias… Que saudade delas,
Do nosso idílio em dias juvenis:
– Uma moça e um rapaz banhando nelas,
Sem roupas, sem segredos, sem ardis.

Almas voando… Ai, como o tempo voa
Nas palmeiras cantando… Porque o vento
Entre arrepios no horizonte ecoa
Atento ao som, à luz, ao movimento.

Almas e corpos que amam tudo aquece,
São a chama, a pureza, são a prece
Que se eleva do mundo ao Criador.

No sul, no norte, as praias são lembranças
Do tempo em que conosco as esperanças
Eram certezas como o nosso Amor.

O ÚLTIMO BEIJO

Uma deusa te pega pela mão
contra inimigos e perseguidores,
abre o seio do leite dos amores,
e começa a tua fé no coração.

Os olhos dela encantam, na canção
da vida é tempo de tecer as cores,
e os amigos, e os campos e as flores,
diante dum palco de contradição.

O tempo vai passando em grande lida,
te envelheces, te cansas na subida,
e a glória alcançarás entre os escolhos.

A hora, enfim lhe chega, da partida,
banhado em pranto e d’alma recolhida,
um rosto de mulher beija teus olhos.

PERFUME E COR

Subi às ribanceiras desta via
sem nenhum fruto ou flor, uma que fosse,
mas fui andando e meu dia clareou-se,
e então me deslumbrei com o que via.

Era um jardim com flores tantas, belas,
de olores que não pude compreender.
E havia as donas desse alvorecer,
regando as outras flores, quais estrelas.

Cheiro de gente, de suor, de beijos,
das duas moças ouviam-se os solfejos,
e delas vinha um mundo de fragrância.

Ah, como é lindo se subir às ribas!
E é disto que se nutrem os escribas,
e que os poetas cantam sua infância.

MINHA LUZ

Muito gastei chorando… Eu era infante,
mas sorria também na idade mágica;
infância triste, sim, porém não trágica,
que me fazia um forte a cada instante.

Quando acordei do choro ante a verdade
e, enfim, por ver-me amado e não perdido,
risos mil fui construindo… E requerido
a subir, eu subi a tempestade

adolescente!.. E então rindo constante,
mudei de forma, alimentando a mente…
Eis-me, por fim, conquistador e amante.

E agora, bem melhor que antigamente,
sem sorrir nem chorar, vivo contente
a refletir-me em luz como um diamante.

LINGUAGEM VIVA

Tudo neste universo se transforma,
Já dizia Camões, poeta da gente;
O frio se derrete pelo quente,
O calor sobe, esfria e toma forma.

Os homens fazem guerra pela paz
Porque n’alma resfria o sentimento,
Como na dor se aplaca o sofrimento
Pelos remédios que a ciência faz.

O rio seca, a mata é só fumaça,
O verde se reduz à luz do dia,
Eis que assim tudo passa, tudo passa.

Mas não passa o caminho de quem ama
Na lembrança do amado, pois é chama
Como a linguagem viva da poesia.

Fonte:
O Autor

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Lenda Indiana (O Elefante Furioso)

Na floresta de Shaiva, na Índia, vivia um sábio que tinha vários discípulos, aos quais falava sempre sobre pontos obscuros de doutrinas e religiões.

Certo dia este sábio ensinou palavras que provinham das escrituras sagradas:

“Deus reside em tudo do universo. Tanto no homem quanto na víbora. Tanto no elefante quanto na pedra solta na estrada.”

Ajamila, o mais jovem dos discípulos, guardou fielmente os ensinamentos, profundos e filosóficos, ensinados pelo mestre.

E um dia, quando voltara de um monte onde fora buscar lenha, encontrou um homem que conduzia um elefante furioso.

O homem, que percebeu que não estava conseguindo dominar o animal, começou a gritar:

– Hei! Você, saia do caminho, o elefante está furioso!!

Em vez de fugir, o discípulo lembrou dos ensinamentos de seu mestre e pensou:

“Deus está naquele elefante.

Logo, não poderá me fazer mal, afinal, Deus não faz mal a ninguém.” Então não se afastou. O elefante então atacou o imprudente e deixou-o atirado ao solo, ferido e sem sentidos.

Dois lenhadores que passavam por ali levaram o jovem até onde vivia o sábio. Quando recuperou os sentidos, Ajamila contou ao sábio o ocorrido e o motivo pelo qual ele não se afastou do elefante.

– Meu filho – explicou o sábio – é verdade que Deus está em todas as coisas, inclusive num elefante furioso.

Mas se estava manifestado no elefante, não deixava de estar igualmente em seu condutor. Por que não prestastes atenção nos conselhos cautelosos do homem, então?

Fonte:
http://contosencantar.blogspot.com.br/2012/01/o-elefante-furioso.html

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) XV, final

foi mantida a grafia original.
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OS NOVOS LEVIATÃS

Dos antigos Titãs, o mar — fera indomável,
Agora verga o dorso ao peso colossal
Dos novos leviatãs que em bando formidável,
Nas grandes explosões da cólera insondável,
Já levam de vencida o abismo e o vendaval!

Eles seguem no mar, altivos no seu rumo,
Em hálitos de fogo, à nossa voz fiéis,
E como o combatente erguendo a lança a prumo,
Em turbilhões rompendo, as flâmulas de fumo
Ostentam sem cessar correndo entre os parcéis!

Que sopro criador, que força omnipotente
Os fez surgir do nada, os monstros colossais?
O novos leviatãs provindes tão-somente
Do fecundo himeneu, deste conúbio ardente
Do Génio e do Trabalho, amantes imortais!

Correis de mar em mar, altivos, triunfantes,
Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
E as sereias gentis não fazem como dantes,
Ao som da sua voz, perder os navegantes;
O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

Ó alma antiga dorme inerte no regaço
Dos velhos deuses vãos, que o homem criador
Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
Enquanto vai soprando em mil gigantes de aço
Outra alma inda mais larga — o novo Deus-Vapor!

Sua alteza real o pequenino infante
Matou, dum tiro só, dois gamos na carreira:
Um hino mais ao céu, pois era a vez primeira
Que sua alteza vinha à diversão galante!

O vergôntea gentil! Quando um tropel distante
De súbito acordar os ecos da clareira
E uma presa cansada, em rolos de poeira,
Varada, a nossos pés, cair agonizante,

Acercai-vos então da pobre fera exangue
Que estrebucha de dor num mar de lama e sangue
Sem que uni grito de dó nos corações acorde!

No entanto não fiqueis na doce glória absorto:
O velho javali parece às vezes morto
Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

VERSOS A *

Eu sou, mulher suave, aquele antigo louco,
O triste sonhador que o teu olhar cantou,
E que hoje vai sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
Fugir como o luar dum astro que expirou!

Que morra, porque, enfim, bem longo ele tem sido
E tempo é já, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido
E só da vida sai depois de me roubar!

Eu devera amarrá-lo à braga do forçado,
Como a Justiça faz aos desprezíveis réus,
E lançá-lo depois à vala do passado
Aonde o fulminasse a cólera dos céus.

Mas não; quero embalar-lhe os últimos momentos
Ao som duma canção das quadras juvenis,
E amortalhar depois — em doces pensamentos –
No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando ele seguir às regiões saudosas,
Aonde todos nós iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
Que dentro da minha alma houver por desfolhar!

Ninguém profanará seus restos adorados,
Que em paz irão dormir num fundo mausoléu;
E quando alguma vez já hirtos, regelados,
Acordem, porventura, à luz que vem do céu;

Em vão tu baterás, ó sonho, à fria porta
Que em breve hás de sentir fechada sobre ti,
Porque a tua Memória, enfim, já estará morta,
E não te escutarei… Porque também morri!

Ó pobres versos meus, lançai-vos pela estrada
Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
Da luta, encontrareis, meus ínfimos guerreiros,
Formando os batalhões da bélica avançada!

E o trajo em desalinho, a face iluminada,
Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
Que separam de nós os braços justiceiros
Da serena Verdade, a deusa idolatrada.

Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa,
Ao chão vergai sem pena a face semimorta,
Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

E tudo, enfim, esquecendo: os ódios e os desprezos;
Que de entre vós alguns, ao menos, fiquem presos
Como fios de luz, ao manto da Justiça!

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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Parte 3, final

Comédia Teatral
 
Ouve-se um barulho de queda de um corpo e o Capitão reentra no salão…

Capitão: Pouca sorte… Pouca sorte a minha… Não encontrei as calças e…

Sargento: Não me diga que o Capitão não encontrou nenhum Fantasma!

Capitão: Infelizmente acertou. Não encontrei nenhum Fantasma, nem sequer o espectro dele.

Coronel: Se não encontrou nenhum Fantasma, então o que é que fez ao martelo de orelhas? Sim, porque eu não o estou a ver…

Capitão: Pois claro que não o está ver… Nem o poderá ver… Pois os Fantasmas roubaram-mo!

Alferes: A situação cada vez está a tornar-se mais complicada e mais perigosa. Os Fantasmas já não se limitam a atacar a cozinha, como também já roubam martelos de orelhas, isto, acreditando naquilo que o Capitão nos conta e que eu, pessoalmente, acredito.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas! Não quero, e não posso, nem devo, passar a noite em cuecas. Ai, a minha reputação!

Coronel: Estou plenamente de acordo com aquilo que o Capitão diz, o que nem sempre acontece. Por isso, digamos que estou de acordo com ele, pelo menos, momentaneamente.

Sargento: Caro Capitão, conte-nos cá como é que os Fantasmas lhe tiraram o martelo de orelhas… Eles devem ser muito atrevidos, não são? Para lhe fazerem uma patifaria dessas.

Capitão: É simples. Subi as escadas que vão dar ao sótão e, quando já me encontrava lá em cima, empurraram-me e tiraram-me o martelo. Eu ainda resisti, e olhem, tenho esta mão toda esfolada…

Alferes: E com isto tudo, não conseguiu encontrar as suas riquinhas calças novas, como você diz!

Capitão: Pois é como diz, não as encontrei, não… Mas eu quero as minhas calças, as minhas riquinhas calças!… As minhas calcinhas!

Coronel: Meus caros amigos e convivas, escutem com muita atenção: esta estranha situação exige da nossa parte, uma acção activa e decidida, pois nesta casa, que por sinal é minha, estão a acontecer coisas muito estranhas. Assim, proponho que todos nós, homens valentes e destemidos, vamo-nos armar com unhas e dentes, para que possamos combater o nosso perigosíssimo e comum inimigo: os Fantasmas!

Augusta: Que horror, homem! Tu és um grande exagerado. Por favor, nem tentes matar nenhum Fantasma. Olha que eles são muito perigosos…

Coronel: Mulher! Lamento muito, mas o teu pedido não poderá ser aceite, pois, a partir deste momento, decreto aqui em casa, a Lei Marcial!

Capitão: Meu caro Coronel, decrete o que entender, mas por favor, não se esqueça que eu quero as minhas calças… As minhas riquinhas calças. Isto que fizeram comigo é uma grande indignidade!

Coronel: Meu caro Capitão, o desaparecimento das suas calças, pertencem já a um conjunto de circunstâncias. Não vamos, nem podemos, individualizar a questão!

Alferes: Muito bem, muito bem… Apoiado, apoiado… Uma grande salva de palmas ao nosso caro Coronel!

Sargento: Assim é que eu gosto de ouvir. Vamos já planear uma forte acção militar, contra todos os Fantasmas, Fantasmazinhos e seus similares!

Coronel: E assim, chegou a hora da ação, neste glorioso dia em que vamos libertar o Mundo de Fantasmas. Este bacamarte, do glorioso tempo das Invasões Francesas, carrega-se pela boca. E oxalá que o tiro não saia pela culatra… É para si, Alferes. Utilize bem esta nobre arma, nesta guerra sem quartel, contra todos os Fantasmas de todo o Mundo, e sobretudo, os cá de casa!

Alferes: Comovidamente, aceito esta nobre arma e quero agradecer a honra que me deu. Contra os Fantasmas, lutar, lutar até à morte!

Coronel: Esta pistola, das Campanhas Africanas do tempo de D. Carlos Iº, é aqui para o caro amigo e senhor Sargento. Para disparar, basta premir o gatilho. Não se esqueça de matar todos os Fantasmas possíveis e até os impossíveis!

Sargento: Caro Coronel, uma pistola nesta guerra implacável contra um inimigo tão perigoso e tão poderoso, como são os Fantasmas, será uma arma, quase insignificante. Praticamente obsoleta!

Coronel: Meu caro Sargento, faço-lhe notar que em tempo de guerra, não se olha a armas. Um bom soldado, quando é mesmo bom, nem precisa de armas, pois só a sua figura consegue atemorizar o inimigo! Esta nobre espada, ou melhor, esta gloriosa espada, será usada pelo comandante do pelotão, que neste caso serei eu. Se por acaso eu morrer nesta gloriosa missão, quero que esta espada me acompanhe na mortalha, bem junto ao meu frio e mutilado corpo!

Alferes: O que quer dizer que o Coronel, mesmo depois de morto, pensa continuar a combater os Fantasmas! É, e não me envergonho de o dizer, um verdadeiro herói do nosso tempo!

Coronel: Assim será, meu caro Alferes. Um soldado, mesmo depois de morto, deverá ainda valer por quatro… Vivos!

Capitão: E mais uma vez, os meus amigos estão a esquecer-se de mim. Eu quero as minhas calças – as minhas riquinhas calças… Isto é uma indignidade!

Coronel: Vamos já tratar de si, ou melhor, vamos dar-lhe uma arma. Caro Capitão, tome lá esta catana (grande facalhão) da Guerra Colonial. Mas tome bem atenção ao que vai fazer com ela: procure matar só Fantasmas.

Alferes: Sr. Coronel, o pelotão já está formado. Queira fazer o favor de passar revista às tropas.

Coronel: Agradeço, mas recuso tal honra, pois, em tempo de guerra, não se deve passar revista às tropas! Soldados, não se esqueçam que nós fazemos parte dos melhores soldados do Mundo. Por isso, a nossa missão terá de ser um enorme êxito. Soldados! Vamos a eles, aos Fantasmas, como “tarzões”, perdão, como comilões. Pelotão, em frente, marche… esquerdo…direito…opp…esquerdo…direito…opp…opp…

E o pelotão sai do salão a marchar. Passados poucos minutos…

Carmo: Dona Augusta, Dona Augusta, o Sr. Coronel e o seu pelotão, estão a regressar ao salão!

Augusta: Vamos a ver quantos Fantasmas conseguiram eles caçar…

Coronel: E assim, depois de uma grande sortida contra o inimigo, o nosso glorioso pelotão regressa à sua unidade. Alferes, o pelotão teve baixas?

Alferes: Saiba o meu Coronel que o pelotão não teve nenhuma baixa mortal nem sequer feridos.

Coronel: Soldados, direita volver – destroçar… Mas agora reparo: estamos às escuras, porque será? Ó Augusta, quem é que teve a infeliz ideia de tirar as lâmpadas dos candeeiros do salão?

Augusta: Não sei, homem, pois estou aqui no quarto, mas vou já sair.

Coronel: Sai depressa, e vem cá dizer-me quem é que se atreveu a tirar as lâmpadas dos candeeiros. Quando o pelotão saiu em missão, tive o cuidado de deixar as lâmpadas acesas para o nosso regresso, e agora está tudo às escuras!

Augusta: Olá, querido maridinho. Então os candeeiros não têm lâmpadas? Não sei, nem calculo quem as possa ter tirado… Não compreendo.

Coronel: Este candeeiro aqui ainda tem lâmpada. Também é o único…

Alferes: O que quer dizer que o inimigo atacou pela retaguarda. Cobardes!

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… As minhas riquinhas calças novas!… Isto é uma indignidade… eu sou um Capitão!

Sargento: Tenho a sensação que falta aqui qualquer coisa… Já sei o que falta: onde é que está o baralho de cartas, assim como as nossas carteiras e porta-moedas? As nossas canetas, etc., que ficaram em cima desta mesa?

Coronel: Tem toda a razão, meu caro Sargento: quem roubou todas estas coisas? Mistério…

Alferes: Isto é uma prova evidente que, enquanto andávamos em missão, o inimigo, traiçoeiramente, atacou e roubou os nossos pertences!

Capitão: Eu só gostava de saber quem é que se atreveu a roubar as minhas calças… As minhas queridinhas calças novas…

Coronel: O Alferes ainda tem dúvidas de quem foi? Ainda não compreendeu que foram os Fantasmas? Os malditos Fantasmas!

Capitão: Isto é inacreditável!… Além das minhas queridas calcinhas, também me roubaram a minha caneta de ouro! Aonde é que isto vai parar? E eu que tinha tantas e tão boas recordações daquela caneta de ouro…

Alferes: Lamento muito, pois a caneta devia ser muito valiosa e, pelo que me diz, também de muita estimação. Permite-me uma pergunta indiscreta, meu caro Capitão, por acaso, a caneta foi alguma oferta especial que lhe fizeram?

Capitão: Sim, uma recordação da minha querida sogra.

A criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Senhor Coronel!… Dona Augusta!… Ai que desgraça a minha… Acudam-me, acudam-me! Ai que vou desmaiar…

Augusta: Mas o que é que te aconteceu desta vez, Carmo?

Carmo: Fui roubada, minha senhora… Fui roubada… Que desgraça a minha!

Coronel: Mas… Foste roubada, como?

Carmo: Depois dos senhores terem descido do sótão, aproveitei e fui lá acima ao meu quarto. Qual o meu espanto quando vi que a minha mala tinha sido arrombada, e todos os valores que eu tinha dentro, roubados. Ai, ai que desgraça a minha, malditos Fantasmas!

Augusta: Carmo, diz-nos o que te roubaram.

Carmo: Ai, minha senhora, tiraram-me mais de setecentos euros que eu tinha no fundo da mala, assim como um fio e uma pulseira em ouro.

Augusta: Pois é, pois é… Então, mais de setecentos euros, mais o ouro… tudo somado, nem chega a metade para os dez mil e quinhentos euros…

Coronel: Olha lá, mulher, que conversa vem a ser essa de faltar “mais que metade”…

Augusta: Metade?! Eu disse metade? Ah! Já sei, mas não faças caso. Como deves calcular, ando muito nervosa com este caso dos Fantasmas cá em casa. É da minha cabeça!

Coronel: Mas tu falaste em “menos de metade”, e eu quero saber o que é “menos de metade” de quê. Confesso que já estou a achar isto muito estranho.

Augusta: Talvez eu quisesse referir-me a menos de metade… a cinquenta por cento… Do, do dinheiro e do ouro que roubaram à Carmo. Sei lá, quando uma pessoa está muito nervosa, não sabe muito bem o que faz e o que diz… Por favor, maridinho, tenta compreender.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… As minhas riquíssimas calças e a minha caneta… Isto é uma indignidade e uma desonra para quem se preze de ser Capitão.

Carmo: E eu quero de volta os meus ricos mais de setecentos euros, mais o fio e a pulseira em ouro!

Coronel: Camaradas de armas, temos de organizar outra expedição contra os Fantasmas. Pelotão, vamos formar na sala!

Alferes: Caros companheiros de armas, com certeza que ouviram o nosso comandante. Todos aos vossos lugares, todos em sentido, barrigas para dentro, peitos para fora, as orelhas e os olhos bem atentos, pois vamos partir novamente para outra importante missão de emergência, de capital importância para a nossa grande cruzada contra os Fantasmas!

Coronel: Como todos já verificámos, a situação terá de ser considerada de catastrófica e local. O inimigo não está a aceitar uma luta leal, uma luta frontal… Por isso, é um cobarde!

Sargento: O meu aplauso. Muito bem, muito bem! Queira continuar, meu Coronel.

Coronel: O nosso inimigo prefere a guerrilha, o que nos obriga a uma guerra total, sem quartel, sem local determinado e sem hora certa de atacar. O que deve merecer o nosso mais veemente repúdio.

Todos aplaudem e assobiam ao mesmo tempo …

Coronel: Eu, como vosso Comandante, estou disposto a aceitar todas as vossas sugestões. Quem quer começar? Mas, claro, só boas sugestões…

Carmo: Eu, por mim, vou para a cozinha fazer um delicioso bolo…

Alferes: E neste momento tão grave para a Humanidade, com ataques sucessivos, cruéis e cobardes dos Fantasmas, meus caros companheiros de armas, a Carmo, a criada, só pensa em ir para a cozinha fazer ou cozinhar, um delicioso bolo. Só por esta atitude, podemos imaginar o que são as mulheres!

Coronel: A sorte delas (mulheres) é a nossa Lei Marcial as poupar, senão…

Alferes: Depois deste gravíssimo incidente, vamos então ao que nos interessa mais. A minha sugestão é esta: dinamitar toda esta casa, para assim podermos acabar com estes Fantasmas!

Coronel: Alto lá, alto lá! O meu caro companheiro de armas quer dinamitar a minha casa?! Você não deve estar é bom da cabecinha!

Sargento: Eu também estou de acordo com o nosso caro Coronel. Devem existir outros processos, por ventura mais eficientes e menos violentos, como por exemplo: insecticidas em spray…

Coronel: Insecticidas?! Só se os Fantasmas fossem insectos, o que não acredito, sinceramente. Mas, em todo o caso, será um caso a considerar. Mas tudo será preferível ao dinamitar a minha casa. E você, meu caro Capitão, diga-nos também a sua opinião.

Capitão: Como sabem, eu sou uma pessoa muito ponderada, e como não tenho aqui o meu staff… Mas sou uma pessoa muito ponderada.

Sargento: Sim, muito ponderado e muito apreciador de whisky!

Capitão: Meu caro Sargento, aconselho-o que tenha boa educação e que se deixe de insinuações, impróprias de uma pessoa da sua categoria. Mas, voltando aos Fantasmas, em minha opinião, nem oito nem oitenta… O que quer dizer que não estou de acordo em dinamitar esta casa e, muito menos em utilizar insecticida, pois considero-o uma arma perigosíssima, pela sua química, e proibida pela Convenção de Genebra, pois, eventualmente, poderia causar efeitos devastadores nos próprios Fantasmas. Para mim, a situação mais viável ainda seria a de demolir este andar! Mas acima de tudo, o que mais me interessa são as minhas calças… As minhas riquíssimas calças. O que eu estou a passar, é uma situação indigna.

Coronel: Com todo o respeito, você deve de estar é maluco! O quê? Demolir o meu andar? Nem pensar!

Alferes: Pois é, se o Sr. Capitão não aceita as nossas sugestões, diga-nos então como é que podemos resolver este problema dos Fantasmas. Criticar é sempre mais fácil do que fazer.

Capitão: E, com isto tudo, estou a ver que ninguém pensa no meu problema, e eu não posso ficar toda a noite p’ra aqui em cuecas. Eu quero as minhas calças novas… As minhas riquíssimas calças, mais a minha caneta. Isto que me está a acontecer, é uma desonra para qualquer Capitão que se preze.

Carmo: E não se esqueçam que eu também quero o meu rico dinheiro e o ouro. A propósito, quando os senhores foram lá acima ao sótão, por acaso, não notaram nada de estranho no meu quarto? Como se devem recordar, vocês foram os últimos a entrar no meu quarto…

Coronel: Mulher! Cala-te, não estejas p’ra aí a insinuar nada – ouviste? Pelotão, vamos reunir mais uma vez. Formar…

Alferes: Companheiros de armas, mais uma vez, sentido… Barriguinhas p’ra dentro, assim estão bem… Agora, prestem muita atenção ao que o nosso comandante nos vai dizer. Comandante, assim que o entender, pode começar.

Coronel: A acusação que a criada, a Carmo, nos fez, é muito grave, pois o nosso glorioso pelotão, passou durante a sua última missão, por um local onde foi praticado um furto. A nossa honra exige um reparo!

Alferes: Agora, confesso que não compreendi nada do que foi aqui dito. Caro comandante, que conversa vem a ser essa?

Sargento: Eu também não estou a gostar nada disto, pois, segundo me lembro, nunca roubei nada a ninguém, ou, pelo menos, ainda ninguém se queixou.

Capitão: Eu, pelo menos descaradamente, também nunca roubei nada a ninguém. Ai a minha vida… Eu só quero as minhas calças e a caneta de ouro. Que indignidade eu estar p’ra aqui nesta lamentável figura. E eu, um Capitão!

Coronel: Silêncio! Vamos fazer uma revista ao nosso equipamento, para ver se encontramos do que a Carmo nos pretende acusar. Armas no chão… Camisas de fora… Bolsos para fora… Calças para baixo…

Capitão: Mas, caro Coronel, como é que eu posso tirar as calças? Está bem, só se for as cuecas…

Coronel: Se não tem calças, como é óbvio, não as pode deitar a baixo. Alto lá, alto lá, já lhe disse que não era preciso tirar as cuecas, para mais, hoje já vimos muita miséria!

Carmo: Senhor Coronel, que fique muito bem claro que eu não desconfio de ninguém em particular, nem sequer do seu pelotão.

Coronel: Sendo assim, dou o inquérito por concluído. A honra do nosso glorioso pelotão, mais uma vez, ficou imaculada! Pelotão, calças p’ra cima… bolsos para dentro… vestir camisas… apertar cintos… agarrar nas armas… descansar… Destroçar!

Alferes: Então, agora vamos trabalhar num plano de ataque aos famigerados Fantasmas?

Coronel: Pois vamos. Como já verificámos, precisamos de reforços, pois, embora a nossa acção até a este momento possa ser considerada de muito positiva, e até heróica, temos de admitir que não temos efectivos para controlar todas as zonas infestadas pelo nosso perigoso e traiçoeiro inimigo: os Fantasmas!

Sargento: Estou plenamente de acordo. Por mim, até pedia auxílio aos pára-quedistas…

Coronel: Pára-quedistas? Para quê?

Sargento: Então os Fantasmas não andam por cima de nós, no sótão?

Alferes: Eu antes pedia auxílio à aviação, mas pensando melhor, talvez optasse em pedir auxílio a uma escola de Karaté. Como eles treinam “sombra”, bem podiam acertar nos Fantasmas. Assim: zás… catrapás… zás…

Sargento: Olhe lá, cuidadinho com esses calcanhares no ar, meu caro Alferes!

Alferes: Sim, talvez o Karaté desse resultado…

A criada entra no salão toda eufórica …

Carmo: Meus senhores, quero dizer-vos que já terminei!

Coronel: Mas… mas o que é que já terminaste, Carmo?

Alferes: Não me digas que conseguiste apanhar algum Fantasma…

Sargento: Confesso que também estou muito curioso por saber o que é que a Carmo terminou.

Carmo: Tenham calma. Não, não apanhei nenhum Fantasma. Só terminei de fazer um bolo. Um delicioso bolo de ananás.

Coronel: Oh, sua tolinha, então é com bolos que tu queres apanhar os Fantasmas! Tem mas é juizinho nessa cabeça, pois já tens idade para isso. E para já, ficas terminantemente proibida de interromperes reuniões, só para dizeres parvoíces, em que nós, os Homens, estamos a planear a melhor maneira de podermos salvar a Humanidade, dessa praga imunda que são os Fantasmas!

Capitão: Muito bem, muito bem, caro Coronel!

Coronel: Por favor, ninguém me interrompa. Mas, continuando: para que isso possa acontecer, será necessário derrotar todos os Fantasmas que existam na Terra e, principalmente, os que estão cá em casa!

Capitão: Com essa conversa toda, por favor, não se esqueçam das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da minha caneta de ouro. Isto é uma grande indignidade para um Capitão que se preze. Isto de ter que andar em cuecas…

Alferes: Companheiros de armas, temos de chegar a um consenso generalizado, para combinarmos qual será a estratégia ideal, que leve à completa e total destruição de todos os Fantasmas!

Sargento: Para já, proponho que não façamos prisioneiros.

Coronel: Como ficou amplamente demonstrado, para operarmos uma acção eficaz contra o inimigo, precisamos de mais efectivos.

Capitão: Então, não hesite, caro Coronel. Arranje efectivos, porque eu quero de volta as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas e a caneta de ouro. Que indignação para um Capitão…

Coronel: Como devem calcular, estou a ponderar muito bem todas as vossas sugestões. A eventual vinda de reforços, poderá determinar a mudança de comando e, como devem calcular, não convém que a minha casa possa ser considerada zona militarizada.

Sargento: Estou a compreender perfeitamente o Coronel. Em nossas casas, quem deve mandar e comandar devemos ser sempre nós!

Capitão: Eu também compreendo muito bem os receios do Coronel. Mas eu quero, eu quero as minhas calças novas. Que indignação para um Capitão…

Alferes: Então, o que é que o caro Coronel sugere?

Coronel: Entre várias hipóteses, estou a pensar em dividir a casa em vários sectores, utilizando para o efeito, arame farpado.

Capitão: A ideia poderá não ser má de todo. Mas se os Fantasmas passarem por baixo do arame farpado, lá se vão as minhas ricas calcinhas!

Sargento: Temos de concordar que o Capitão não pode andar toda a noite em cuecas.

Coronel: Caros companheiros de armas, por favor, deixem-me continuar…

Alferes: Continue, continue caro Coronel, que nós até gostamos de o ouvir!

Coronel: Depois da colocação do arame farpado, podíamos acender várias fogueiras, na tentativa de que o fumo intoxique o inimigo.

Sargento: Mas antes de acenderem as fogueiras, aconselho-vos a apreciar este belo cheirinho que vem dos lados da cozinha.

Alferes: Tem razão, caro Sargento. O cheirinho do bolo que a Carmo está a fazer já chega aqui, e não engana ninguém: é um bolo de ananás!

Sargento: Estou cá a pensar numa coisa: e se os Fantasmas também roubassem este bolo?

Alferes: Tem toda a razão, pois até os Fantasmas podem gostar de bolo de ananás. Talvez fosse conveniente avisar a Carmo.

Coronel: Vou já avisá-la. – Carmo, estás a ouvir? Olha, desta vez toma o devido cuidado e não deixes que os Fantasmas roubem também esse bolo, que deve estar uma delícia!

Carmo: Os senhores estão a falar comigo? Eu já vou aí.

Coronel: Claro que estávamos a falar contigo. Olha lá, repito: desta vez não deixes que os Fantasmas roubem esse bolo!

Augusta: Tive uma ideia: talvez fosse melhor trazeres o bolo para a sala, pois se o deixares na cozinha, ainda o podem roubar, e assim nunca mais se vão embora.

A criada entra no salão e pede a todos os presentes que falem baixinho (chiuuuu)…

Carmo: Oxalá que os Fantasmas desta vez o roubem e o comam!
Augusta: Não te compreendo, Carmo. Deixa-te mas é de brincadeiras e traz o bolo para aqui.

Alferes: A Dona Augusta tem muita razão, o bolo deve vir para aqui. Talvez depois de o comermos, possamos pensar na melhor estratégia a seguir, para acabarmos de uma vez por todas com esses malfadados Fantasmas.

Sargento: Apoiado, apoiado. Venha lá depressa esse bolo para aqui.

Entretanto, a criada entra novamente no salão, e…

Carmo: Meus senhores, dão-me licença que entre e que fale?

Coronel: Olha, Carmo, tu estás a tornar-te muito chatinha. Mas… mas não nos venhas dizer que… que…

Carmo: Sim, venho solenemente comunicar-vos que o bolo de ananás DESAPARECEU!!!

Coronel: É impossível, impossível!… Desta vez não vou aceitar o facto como consumado. Desta vez, vou deitar tudo abaixo… Tudo abaixo!

Sargento: A Carmo deve estar enganada, ou então está a brincar…

Alferes: Isto é demais! Até parece um sonho mau, um pesadelo.

Carmo: Pois é, meus senhores, a partir deste momento, eu, a Carmo, criada às vossas ordens, é que vou resolver o caso dos Fantasmas cá em casa do Sr. Coronel!

Coronel: Tu não deves é estar boa da cabeça!

Alferes: Estou mesmo a ver que o teu nobre desejo era pertenceres ao nosso glorioso pelotão, mas…

Coronel: Protesto veementemente, pois o nosso pelotão não pode, de maneira nenhuma, ser constituído também por mulheres. O pelotão não é uma brigada mista… Mulheres, já p’ra cozinha… Mulheres, já p’ra a cozinha!

Carmo: Por favor, prestem muita atenção. Como já vos disse, sou eu quem vai resolver este problema dos Fantasmas, mesmo sem ter a honra de pertencer ao vosso glorioso pelotão.

Coronel: Nem posso acreditar no que estou a ouvir. Mas então, conta-nos lá como é que pensas que vais resolver este importante caso?

Carmo:  Para já, não vai ser preciso empreender nenhuma acção bélica.

Alferes: Pelos vistos, a Carmo quer dizer que a exterminação dos Fantasmas não passa por acções bélicas, mas sim, por acções políticas?

Carmo: De políticas é coisa que eu não percebo nada, mas também não importa.

Coronel: Carmo, já estou a perder a paciência. De uma vez por todas, diz-nos quais foram as acções que levaste a cabo.

Carmo: Digamos que fiz… uma acção de psicologia feminina.

Alferes: Atenção, atenção meus senhores! A Carmo descobriu uma nova fórmula para caçar Fantasmas. Imaginem só que para os caçar, basta aplicar um pouco de psicologia feminina!

Coronel: Esperem, não sei bem porquê, mas começo a estar quase de acordo com a Carmo. Sendo assim, o nosso glorioso pelotão poderá ficar ainda mais valorizado, se conseguirmos recrutar um elemento para a Psico. Por isso, vou convidar a Carmo.

Carmo: E eu terei muito prazer em aceitar essa missão!

Coronel: Sendo assim, companheiros de armas, a partir deste momento, tem a palavra a nossa novel, valente e destemida, Carmo!

Sargento: Apoiado, apoiado! Vivá  Carmo – a criada!

Carmo: Muito obrigado, muito obrigado a todos! Como é do conhecimento geral, e resumindo, eu fiz um bolo de ananás, que por acaso devia estar delicioso, mas que desapareceu…

Alferes: Ai que pena, até estou a ficar com água na boca.

Carmo: Mas, enfim, desapareceu…

Sargento: E, possivelmente, desapareceu nas bocas imundas de uns quaisquer Fantasmas!

Carmo: Mas… há sempre um “mas”. Ao amassar a massa do dito cujo bolo, adicionei uma certa porção de um produto que serve para exterminar ratos. Assim, os Fantasmas ao ingerirem o bolo, também ingeriram a tal porção de raticida. E agora, vamos esperar.

Coronel: Queres então dizer que…

Alferes: Os Fantasmas…

Capitão: Vão morrer…

Coronel: Envenenados?

Carmo: Mas, atenção… Desde já quero que fique muito bem esclarecido que eu não envenenei ninguém. Nem mesmo os Fantasmas. Limitei-me só a pôr uma certa porção de raticida num bolo de ananás. Nada mais…

Coronel: Podes estar descansada e em paz com a tua consciência, pois, somos todos testemunhas do que aconteceu. Se os Fantasmas estiverem envenenados, a culpa foi deles (só deles), pois não tinham o direito de comer o bolo de ananás, feito com todo o amor e competência, aqui pela Carmo… A nossa companheira de armas!

Alferes: Mas agora temos um grande problema: como é que vamos saber se os tais Fantasmas comeram ou não o bolo de ananás? Para mais, eles devem ser transparentes.

Capitão: Eu só quero saber das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da caneta de ouro. Que indignidades fizeram a um Capitão como eu!

Sargento: Se os Fantasmas morrerem, com certeza que devem começar a cheirar mal; mas como o Alferes diz, e com muita razão, eles devem ser transparentes. E sendo assim, como é que os podemos ver? Talvez através de uns óculos escuros. Bem, é só uma ideia…

Sargento: E depois, como é que os podemos deitar fora? Vocês ainda não pensaram nesse problema?

Capitão: E ninguém fala nas minhas queridas calcinhas, ninguém se importa de eu andar para aqui em cuecas; nunca, nunca hei-de perdoar aos Fantasmas, pois o que eles fizeram a um Capitão importante como eu, é indigno, é indigno. E se as calças também se tornaram transparentes? Ai, ai, que eu nem quero pensar nessa possibilidade; as minhas riquinhas calças!…

Carmo: Meus senhores, a título de curiosidade, vou ler-vos o que está aqui escrito na embalagem do raticida: “Perigo de Morte” – “Este produto é altamente tóxico. Em caso de ingestão, deve o acidentado ser transportado urgentemente à morgue mais próxima, pois o corpo começa logo a decompor-se”…

Coronel: Sendo assim, os Fantasmas já devem estar completamente mortos… E talvez, até bem mortos. Já me estou a arrepiar todo!

A porta do salão abre-se abruptamente e entra um homem e depois outro, ambos encapuzados, cambaleando, antes de caírem inimados no chão…

1º Encapuzado – Ai, ai… ai o meu rico estômago… Ai, que eu vou morrer… Mataram-me… Socorro… socor…

2º Encapuzado – Ai, ai, ai a minha barriguinha… Ai que vou rebentar… Socorro! Assassinos… assas…

Esta entrada e a posterior morte dos embuçados, deixou todos estupefactos. Valentes como eles eram, depressa reagiram…

Coronel: Mas … Mas quem são estes homens que invadiram a minha casa e estão mortos (pelo menos aparentemente)?

Alferes: Oh, caro Coronel, não me diga que não sabe quem são?

Sargento: O Sr. Coronel nem calcula quem são?!

Coronel: Não sei se me vou enganar, mas serão os Fantasmas?

Capitão: Fantasmas ou não, este aqui tem as minhas riquinhas calças novas. Vá, meu “menino” dá-me cá as calças; meu malandro, pois um Capitão como eu, nunca poderá andar p’ra aqui em cuecas. Dá cá as minhas calcinhas… upa… upa…upa… Custaram a sair, mas já cá estão nas minhas mãos! Estão muito sujas e amarrotadas, mas já são minhas novamente!

Augusta: Olha lá, Carmo, o que é que estás aí a procurar nesse sítio?

Carmo: Não se aflija, minha senhora, pois eu só estou a procurar o que é meu, ou seja, o dinheiro e o ouro. Para mais, eles já estão tão geladinhos…

Augusta: Ó Carmo, mas aí, nesse sítio?

Carmo: Sim, sim, minha senhora! Neste sítio é onde se encontram as minhas coisas. Olhe, está a ver, minha senhora? Neste saquinho de plástico estão os setecentos euros e naquele Fantasma ali ao lado já encontrei o meu fio e a minha pulseira. Como vê, Dona Augusta, eu fui logo ao sítio certo, enquanto a senhora só olhou…

Augusta: Carmo, como estás com a mão na massa, aproveita e vê se eles têm mais alguma coisa?

Carmo: Lá ter, têm, minha senhora, mas…

Augusta: Então, diz-me cá o que é que encontraste mais!

Carmo: O que os homens têm, ou melhor, deviam ter, mas estes já nem com uma lupa se pode ver qualquer coisa!

Augusta: Oh, oh, oh, que disparates estás para aí a dizer?

Carmo: Olhe, minha senhora, este aqui até tem umas fotografias, digamos, muito indecentes. A D. Augusta está interessada em vê-las?

Augusta: Estou sim, Carmo. Dá-mas cá, porque eu sempre gostei muito de ficar com velhas “recordações”.

Coronel: E onde está o baralho de cartas que também estava em cima da mesa?

Alferes – E também aonde estão a minha carteira, chaves do carro e o meu porta-moedas?

Sargento: E o meu bloco de notas, por acaso, também está por aí?

Carmo: Sim, sim, está tudo aqui. Os senhores também querem ver? Estejam à vontade.

Coronel: Não, não merece a pena, pois todos nós acreditamos em ti!

Alferes: A Carmo pode trazer tudo o que encontrou, para cima desta mesa.

Carmo: Tudo?! Ó companheiros de armas, o melhor é vocês virem cá buscar o que vos mais interessa, porque eu, mesmo sem querer, posso exagerar!

Coronel: Companheiros de armas! A nossa querida colega do “Psico”, que conseguiu resolver, e muito bem, este caso que derrotou completamente o inimigo comum, ou seja os Fantasmas, pelo facto e pelos relevantes serviços prestados à nossa comunidade, bem merece que lhe prestemos uma guarda de honra!

Alferes: Muito bem, muito bem. Como estamos todos completamente de acordo, vamos a isso: Pelotão!… Formar… Sentido!… Essas barriguinhas para dentro e peito para fora. Meu comandante, estamos às suas ordens!

Coronel: É p’ra já. Companheira de armas, queira fazer o favor de passar revista ao nosso glorioso pelotão!

Carmo: Muito bem… Muito bem… Muito… Olhe lá, senhor Capitão, pode dizer-me o que faz na formatura, com as calças na mão esquerda e a catana na mão direita?

Capitão: Perdão, perdão… É que perdi as calças e ainda não tive tempo de as voltar a vestir… Além disso, estão muito sujas…

Carmo – Ah, é isso? Então, saia imediatamente da formatura… Imediatamente, não ouviu? Depois de bem lavado e bem ataviado, apresente-se na cozinha. E p’ra já, conte com algumas guardas de castigo à porta deste salão. Senhor Comandante Ramalho, já passei revista ao nosso glorioso pelotão. Agora, vou para a cozinha  fazer o jantar: para os homens, vou fazer uma feijoada e para a sobremesa, um pudim de pinhões. Para mim e para a D. Augusta, vou fazer uma dobrada com uma sobremesa de torta de maçã!

Coronel: Carmo, nossa companheira de armas, antes de ir para a cozinha, queira fazer o favor de nos dizer o que é que vamos fazer aos corpos dos inimigos?

Carmo: O que é habitual fazer nestas situações: pô-los em vala comum, com a indicação “Desaparecido em combate”.

Coronel: Muito bem! As suas ordens serão rigorosamente cumpridas. Pelotão, em frente  marche… um… dois… esquerdo… direito… esquerdo… direito… opp… opp… opp …

Carmo: Pare, pare aí com essa marcha. Ordeno e mando publicar, na Ordem de Serviço do Dia, que de ora avante, não serei mais a Carmo.

Passarei a CARMINHO!!!

Siga a marcha…

F I M

Nota: Trabalho de ficção: qualquer situação ou personagem é pura invenção.

Texto de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

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Arquivado em Magia das Palavras, peça teatral

José Feldman (Trova Brasil n. 14 – out. 2013) A. A. de Assis

Lançamento da Trova Brasil n. 14, outubro de 2013, com o mestre paranaense A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), de Maringá.


Cerca de 500 trovas. Trovas em imagens. Biografia em suas 86 páginas.

Acesse o livreto e leia-o em: 
Se desejar fazer o download do e-book (em pdf, cerca de 8 mega), clique sobre Share, abaixo do livro no link acima, e escolha a opção download.

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Simone Borba Pinheiro (Ciranda da Amazonia) Parte 4

HIRAM CAMARA
Amazônia: verde,verde,verde

 Verde,verde,verde
 terra das mil ilhas
 água de mil brilhos
 sinuosas maravilhas
 filhas da mitologia
 de dez mil anos atrás.

 Verde, verde, verde
 negros igarapés
 e extensos igapós
 da estação chuvosa
 águas de tucunarés
 tambaquis, pirarucus.

 Verde,verde,verde
 meninos nus
 mergulhos mis
 águas de peixes-boi
 do boto que já se foi
 saudades ribeirinhas
 antes do sol nascer
 no horizonte fluvial:
 cristais brilhando
 no encanto das águas
 no encontro das mágoas.

 Desesperanças.
 Crianças na estrada
 da borracha
 seringueiras feridas
 latex-lágrimas.

 Verde,verde,verde
 à sombra da sapopemba,
 séculos de soberania
 debruçados no vale
 imenso, solimões,
 solidões espalhadas
 planície de amazonas
 ikamiabas guerreiras
 em um dabacuri
 saudando Buopé,
 Jurupari, Ceucy da terra
 na terra das mil ilhas
 na terra das mil ONG,
 mil cobiças, ameaças
 de novos donos e danos
 com o passar dos anos
 água já sem a vida
 de dez mil anos atrás
 o que fazer, Jurupari,
 deus do prazer e saber
 para manter a amazônia
 brasileira, soberana,
 pelo tempo que se alongue,
 salva da destruição?

 O que fazer, Jurupari,
 deus do prazer e saber,
 para que Yrurini
 não te roube Kukuy
 nem nos roubem daqui
 a terra das mil ilhas
 dos mil brilhos da riqueza
 que inspirou tua beleza
 por quanto resistirás?

 Verde,verde,verde
 onde ainda o acharás?
=================

HUMBERTO – POETA
Preito á natureza

 Ah… Natureza! Que cruel regime
 te impõe o homem, perdulário e ateu:
 agride fauna e flora, alheio ao crime
 de estragar o que Deus nos concedeu!

 O ar, o sol, o azul que esmalta o espaço,
 O homem faz réus de equívocos critérios;
 enche os céus desse trágico bagaço
 de pós mortais e gases deletérios!

 Quando se rouba à mata a ave inocente
 e polui-se a mercúrio a água dos rios,
 é nessas horas que o Senhor pressente
 o quanto somos maus e somos frios!

 Da árvore que estala, vindo ao chão,
 evola-se um lamento ao infinito,
 mas não o ouve o autor da infanda ação,
 pois só Deus é capaz de ouvir tal grito!

 Natureza: viemos de outras plagas
 pra crescer nos reencarnes sucessivos,
 mas te enchemos de pústulas e chagas,
 inda presos a instintos primitivos!

 Falhos que somos desde os cromossomos,
 de nós tirai, Senhor, machado e serra;
 lembrai-nos que, afinal, nada mais somos
 que meros forasteiros sobre a Terra!
========================

JOAQUIM SUSTELO
Amazônia

 Floresta que és pulmão da Natureza
 num espaço que parece um mundo à parte,
 não indo entanto o homem preservar-te
 não és só tu que morres… de certeza!

 Cavando a tua morte, (que dureza!)
 também irá a dele acompanhar-te.
 Então que saiba sempre ter a arte
 de ter por ti amor, sem mais leveza.

 A mancha verde-esperança no planeta
 é esperança que não pode ir prá valeta
 mas sim crescer e dar-nos a alegria

 de mais tarde afirmarmos bem contentes:
 “nós fomos quanto a ti inteligentes,
 o Mundo prosseguiu em harmonia!”
=====================

JOSE ANTONIO
Amazônia terra maravilhosa

 Por que destruir a Amazônia?
 Vamos todos enfrentar este problema
 De frente a frente contra os maliciosos
 que derrubam o nosso paraíso da Amazônia.
 O povo unido jamais será vencido.
 Amazônia é o paraíso de todos os que amam a natureza,
 por que derrubar o nosso maior Pulmão do mundo,
 com tanta natureza que tem?
 Vamos todos para frente para salvar
 a natureza,nossos animais,nossas arvores
 nossas maravilhosas aves etc.
 Vamos povo para frente é o caminho e vamos colocar
 um ponto final a todos esses malditos
 que estão destruindo a nossa Amazônia
====================

JOSÉ ERNESTO FERRARESSO
Amazônia… Nosso Chão

 Floresta de grandes primores,
 Pássaros variados cantores e tenores,
 Confundem os sons trinados de nosso amanhecer
 Até quase o anoitecer.

 Uma terra abençoada por Deus
 De matas virgens, grandes mistérios,
 Dela tudo se explora e se retira,
 Linda Floresta que tanto se admira .

 Nossa Amazônia agora faz parte,
 É tema polêmico de Fraternidade.
 Hoje por Deus, Mata escolhida
 Para salvar tantas vidas .

 Patrimônio diversificado de pobreza e riqueza
 Mas de extensa imensidão e beleza
 Sua flora, fauna e carente comunidade,
 Hoje é tema alusivo: Campanha da Fraternidade.

 Essa floresta não é minha e nem sua ,
 É de todo um povo, de toda nação,
 “Vida e Missão Neste Chão”
 Gera entre os povos devastação e a exploração.

 Habitada por povo humilde e carente.
 Conquistada e disputada por muita gente
 Terra de grandes seringais, arbustos imensos entrelaçados,
 Bela Amazônia, dos grandes mananciais .
=======================

LIGIA TOMARCHIO
Amazônia Deusa

 Perfeição e atitude
 de séqüitos, cépticos e sépticos.
 Proclamam salvação
 encontram solidão.

 Imagens distorcidas
 querem fazer crer
 num mundo desorientado
 preocupação não há em preservar.

 A fé no futuro é maior
 a realidade, imagem vã.
 Crer é vital arte
 de poetas e sonhadores…

 Há uma deusa entre as matas
 faz parte dela como o ar…
 Nos rios, riachos correm alaridos
 salvação premente e real
 da selva animal.

 Não serão homens a proteger
 qualquer ponto do planeta
 à sua volta só destruição…

 No âmago dos sons silvestres
 de pássaros e espíritos elementais
 presente, representa conservação
 a Deusa Amazônica!

 Não tenha pouca fé
 Amazônia Deusa
 Se auto preservará …

Fonte:
http://www.familiaborbapinheiro.com/ciranda_amazonia.htm

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Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 11, final – Nem tudo Emília perdeu

Dona Benta estava examinando o galo da testa da negra, quando ouviu umas batidinhas na porta.

Mandou que Narizinho abrisse. Eram as jabuticabas.

– Dona Benta – disseram elas muito zangadinhas – viemos queixar-nos da peça que a Emília nos pregou. Imagine que nos transferiu dos nossos galhos na mamãe-jabuticabeira para um pé de abóbora – uns talos molengões que andam pelo chão. E ficamos presas ali, encostadas à terra, a nos sujar de pó e ciscos. Ora, isso é um despropósito, porque somos frutas de galho e não do chão, como certos porcalhões que conhecemos.

(A Rãzinha cochichou para a Emília: “Isso deve ser indireta para os morangos.”)

– Vocês têm razão, jabuticabinhas – disse Dona Benta – e vou repô-las todas no lugar certo.

Impossível admitir que umas criaturas delicadas como vocês andem pelo chão. Chão é bom só para abóbora.

E voltando-se para Emília:

– Vá já desfazer o que fez! – ordenou rispidamente.

Emília fez beicinho e disse para a Rã: “Ela era democrática quando saiu daqui. Depois que lidou com os ditadores da Europa, voltou autoritária e cheia de “vás”. “Pois não vou” – e não foi! As abóboras e as jabuticabas tiveram de arrumar-se sozinhas.

Pedrinho veio dizer que as laranjas das laranjeiras estavam descascadas, e havia um milhão de passarinhos em cima, dando cabo de todas.

Dona Benta explicou:

– Emília, eu reconheço as suas boas intenções. Você tudo fez na certeza de estar agindo pelo melhor. Mas não calculou uma porção de inconveniências que podiam acontecer – e estão acontecendo. As laranjas, por exemplo: seria ótimo se pudessem vir já descascadas – mas se fosse assim tornava se impossível o comércio das laranjas, o transporte de um ponto para outro. E, além disso, descascadas elas ficam muito mais sujeitas aos ataques das aves e insetos. A casca é uma defesa indispensável. Assim também as abóboras na jabuticabeira. São frutas muito grandes para ficarem em árvores; a Natureza sabe o que faz. Põe as frutas grandes no chão e as pequenas em árvores.

– Isso não! – protestou Emília. – A maior fruta que eu conheço é a jaca, e a jaca é fruta de árvore, ah!

Dona Benta embatucou.

– Também fiz que as frutas das árvores dessem só nos galhos debaixo – continuou Emília, de modo a facilitar a colheita – e quero ver o que a senhora diz a isto.

Dona Benta declarou que essa reforma só era aceitável do ponto-de-vista humano, mas explicou que as frutas não existiam para que nós as apanhássemos e comêssemos – existiam para o bem da árvore, e apareciam em todos os galhos, tanto os debaixo como os de cima, porque assim ficavam mais bem distribuídas pela árvore inteira, podendo vir em maior quantidade.

– Os galhos debaixo serão só metade dos galhos da árvore toda – disse ela. – Fazendo que as frutas só apareçam nos galhos debaixo, você diminui de metade o número de frutas de uma árvore.

Emília concordou que havia errado, e em companhia da Rãzinha foi restabelecer o sistema antigo.

– Agora, sim – ia dizendo Emília – agora ela deu uma razão boa, clara, que me convenceu e por isso vou desmanchar o que fiz. Mas com aquele “Vá!” do começo, a coisa não ia, não! Vá o Hitler. Vá o Mussolini. Comigo, é ali na batata da convicção, do argumento científico!

E dessa maneira quase todas as reformas da Emília foram anuladas, mas nenhuma delas por imposição de Dona Benta. A boa senhora argumentava, provava o erro – e então a própria Emília se encarregava de restabelecer o velho sistema. Mas mesmo assim muitas das reformas ficaram, como, por exemplo, a dos livros.

– Sim, Emília, esta idéia do livro comestível me parece ótimo, um verdadeiro achado. Mas não para todos os livros. O bom é que haja o livro de papel e ao seu lado o livro comestível. Quem quiser comprar um, quem quiser compra outro. As coisas novas jamais substituem inteiramente as coisas velhas. Lembre-se de que em Nova Iorque, a cidade que tem mais automóveis no mundo, nós vimos as carroças que entregam leite de manhã puxadas por cavalos. Aprovo a idéia do Livro-Pão e hei de propor a um industrial meu conhecido que estude o problema e crie a nova indústria. Mas você me vai fazer o favor de deixar meus livros como eram, porque se não …

Nesse momento Pedrinho entrou correndo na sala, muito afobado.

– Vovó, imagine o que aconteceu! O Rabicó entrou na sua biblioteca e devorou a Ilíada de Homero e as obras completas de Shakespeare…

– Se não tivessem tirado do focinho dele a ratoeira, nada teria acontecido – disse a Rã. – Bem feito!

– Vê, Emília? – disse Dona Benta. – Nem todos os livros devem ser comestíveis, mas só os de importância secundária, meramente recreativos ou então os livros ruins. Um livro que não presta para ser lido, ao menos que preste para ser comido. E agora? Como vou passar sem a minha Ilíada e o meu Shakespeare?

Emília concordou que realmente nem todos os livros deviam ser comestíveis e indo ã biblioteca “descomestibilizou” a maior parte – menos os “ruins.”

E assim terminou a aventura emiliana da Reforma da Natureza. Emília aprendeu a planejar a fundo qualquer mudança nas coisas, por menor que fosse. Viu que isso de reformar às tontas, como fazem certos governos, acaba sempre produzindo mais males do que bens.

A Rãzinha ficou por lá uma semana, a ouvir as histórias que Dona Benta contava da Conferência da Paz. Depois, com muita dor de coração e com muito pesar de todos do sítio, cheirou o pó do fiun – e lá se foi para o Rio de Janeiro, onde encontrou sua pobre mãe de luto e de olhos vermelhos, certa de que sua querida filha tinha desaparecido para sempre.

– Perdoe, mamãe. Entusiasmei-me demais com o programa de reformas da Emília e fui para o Pica-pau Amarelo sem dizer nada à senhora. Nunca mais farei isso. Já me reformei nesse ponto.

– E que mais?

– Ah! Tia Nastácia gostou muito do leite que assobiava ao ferver e conservou o sistema.

– Era uma consumição este negócio do leite – disse ela. – Eu tinha de ficar de plantão ali na cozinha, se não ele fervia e derramava.

Agora, não. Ponho o leite no fogo e nem penso mais nisso. Uma gostosura. A Emília é mesmo uma danadinha. Outra coisa de que gostei muito foi o que ela fez com as pulgas. Entrei no meu quarto e vi uns pontinhos pretos parados no ar. Peguei um. Olhei. Era pulga, Sinhá, pulga parada no ar – e pulga mole, Sinhá, mole como qualquer bichinho mole! Essa reforma foi boa, porque quanto mais velha fico, mais me custa pegar uma pulga daquelas do sistema antigo …

Dona Benta aprovou a mudança das pulgas e também a das moscas e pernilongos. E com a sua grande sabedoria de filósofa, disse:

– Está bem, Emília. Vou examinar detidamente todas as reformas que você fez, porque estou vendo que há muita coisa aproveitável.

Emília piscou vitoriosamente para o Visconde.

FIM

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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Parte 2

Comédia Teatral

Carmo: Vou já, minha senhora. Olhe que já tenho alguns pastelinhos de bacalhau prontos. Quer que lhos traga?

Augusta: Depois trazes. Mas agora vai lá abrir a porta… Mas antes de abrires vê bem quem é.

Carmo: É o Sr. Coronel Ramalho. Boa noite, Sr. Coronel!

Coronel: Boa-noite, minha querida mulher. Desculpa o atraso, mas esta cabeça já não é o que era dantes. Vê lá tu que com a pressa de chegar a casa, me esqueci do molho das chaves no escritório!

Augusta: Não me digas que entre elas também lá deixaste as chaves do cofre?!

Coronel: Pois claro que também lá ficaram. Mas porque estás tão interessada nas chaves do cofre?

Augusta: Por nada, meu amor… Vê lá tu, sempre tão cuidadoso, esqueceres da chave do cofre no escritório… (baixando a voz) – Ai, Jesus… ai… A minha vida está em perigo…

Coronel: Não te compreendo, pois um esquecimento, qualquer pessoa pode ter. Olha, hoje calhou a mim…

Augusta: Eu nem quero acreditar… (baixando a voz) – arranjaste-me a bonita!… Ai… A minha vida a andar para trás…

A criada entra de rompante no salão, e…

Carmo: Minha senhora, minha senhora… Acuda-me! Ai que coisa tão esquisita que aconteceu!…

Augusta: Desembucha, e conta o que te aconteceu. Carmo, que aflição é essa?

Carmo: Os pastéis, os pastéis… Minha senhora…

Augusta: Sim, os pastéis, o que é que têm?! Não te entendo, vê lá se te explicas melhor, para que eu possa entender. O que é que aconteceu aos pastéis?

Carmo: Desapareceram, minha Senhora!

Augusta: Desapareceram?! Mas como é que isso foi possível?

Carmo: Não sei, minha senhora. Tinha-os numa travessa em cima da mesa da cozinha e, quando regressei, já não estavam lá.

Augusta: Mas essa situação é completamente impossível, pois cá em casa nunca desapareceu nada, mesmo nada. Carmo, procura bem os pastéis, sim, porque eles nem asas deviam ter, pois não? E ratos cá em casa não existem!

Carmo: Minha senhora, podia ter sido algum fantasma que tivesse passado por aqui.

Augusta: Credo mulher! “Abrenúncio pé-de-cabra à francesa”. Fantasmas cá em casa, nem pensar!

Toca a campainha da porta. O Senhor Coronel, embora admirado com o desaparecimento dos pastéis, vai abrir…

Coronel: Ah, é o Sr. Capitão Ribeiro, entre e parabéns, meu caro, pois hoje conseguiu não ser o último a chegar!

Capitão: Alguma vez tinha que ser o primeiro a chegar. Sabe, meu caro Coronel, curiosamente, o meu horóscopo indica que hoje vou ter uma noite fora do vulgar, mesmo fora do comum…

Coronel: Este Capitão Ribeiro, tem cada uma! Vejam bem o que o horóscopo lhe diz? Que ele vai ter uma noite fora do vulgar, fora do comum. Uma pessoa da sua categoria, a ler horóscopos, francamente que não lhe fica nada bem. O primeiro decénio do século XXI já passou, e como há ainda pessoas que acreditam nestas coisas!

Capitão: Meu caro Coronel, diga e pense o que quiser, mas eu acredito nessas “coisas”, como você diz, sem vergonha de o dizer. Cada qual, é como cada um.

Nesse momento a criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Minha senhora!

Augusta: O que é te aconteceu agora, Carmo?

Carmo: O bolo de laranja…o bolo de laranja… Percebe?

Augusta: Mau, mau… O que é que aconteceu ao bolo?!

Carmo: Minha senhora… Compreende? Não compreende… O bolo de laranja, que estava no fogão…

Augusta: Diz rapidamente… O que é que lhe aconteceu?…

Carmo – Desapareceu! Assim como desapareceram as lâmpadas do corredor e da cozinha. Minha senhora, não consigo compreender estas coisas estranhas, pois isto nunca tinha acontecido antes! Devem ser Fantasmas que andam por aqui… E confesso que já estou a ficar aterrada!

Augusta: Calma, mulher, calma. Tu deves estar com visões: primeiro desapareceram os pastéis de bacalhau, depois o bolo de laranja, e agora até as lâmpadas do corredor e da cozinha desapareceram?

Carmo: Isso tudo, como vê, deve ser obra de Fantasmas, ou de coisas do outro mundo… Estou toda arrepiadinha e cheia de medo, minha senhora !

Coronel: Ah, ah, medricas! Fantasmas? Coisas do outro mundo?! Ah, ah, ah … Essas ideias só podem sair da cabeça de uma criada! Ah, ah, ah … Onde é que isto já se viu?! De facto, este serão está a ter um princípio muito divertido!… Muito divertido mesmo! Ah, ah, ah!

Augusta: Querido, por favor não te rias. Não te rias pois eu já nem sei o que dizer, ou melhor, pensar… É que podem muito bem existir Fantasmas, e quem sabe, as tais coisas do outro mundo… Olha que também já estou a ficar como tu, Carmo: arrepiada e com… Bem, com algum medo.

Capitão: Meus caros, já notaram que neste salão cheira a pastéis de bacalhau e a bolo de laranja?! Ora cheirem, cheirem bem, que logo notarão…

Augusta: Confesso que não estou a cheirar nada. Deve ser impressão do Sr. Capitão… Olhe, por favor, não faça nem provoque mais confusões. Por favor, Capitão! Que confusão esta, que momento este!…

Capitão: Eu não quero provocar nenhumas confusões, longe de mim tal ideia! Mas pareceu-me ter ouvido um ruído estranho para os lados da cozinha. Como eu tenho um certo jeitinho natural para descobrir certos mistérios, peço-vos licença para ir investigar o que se está a passar por aquelas bandas… Posso? Dão-me licença?

Coronel: Meu caro Capitão, descubra tudo à sua inteira vontade. Mas tome muito cuidado com os Fantasmas, pois eles, por vezes, até são muito maus, violentos e muito cruéis… Ah, ah, ah, que vontade que eu tenho de rir!

Capitão: Saiba o meu caro Coronel que eu nunca, por nunca, tive medo de nada, e, muito menos de Fantasmas!

Coronel: Vá lá então e descubra alguma coisinha. Faça de conta que está em sua casa. Este Capitão…

Por momentos ouve-se um ruído estranho como uma pancada seca e…

Coronel: Mas, mas o que é que aconteceu ao Capitão? Capitão, responda…

O Capitão entra no salão, a cambalear, agarrado à cabeça e todo sujo…

Capitão: Ai, ai a minha rica cabecinha… Ai… Vejam só o que  aconteceu à minha cabecinha!

Augusta: Coitadinho do Sr. Capitão! Olhem que grande “galo” tem na cabeça!… Diga-nos lá o que é que lhe aconteceu… Vá lá, diga-nos…

Capitão: Ai, ai a minha riquinha cabecinha!… Ai, que me dói tanto, tanto. E também estou todo sujo… Veja: todo sujo… Ai, que me dói tanto a minha cabecinha!

Coronel: Não me diga, meu caro Capitão, que foi um Fantasma que lhe deu uma “toutiçada” (pancada) na cabeça e lhe fez esse “galo”, além de o sujar com farinha e ovo!… ah, ah, ah, que divertido eu estou!

A criada entra no salão com ar de pessoa comprometida …

Carmo: Meus senhores, peço-vos perdão a todos, em especial ao Sr. Capitão. Pois, a culpada do que aconteceu, sou eu!… É que o Sr. Capitão apareceu na cozinha e, como ia para destapar o tacho onde está a cozer uma galinha… Espero que compreendam… como a luz está muito fraca, pensei que fosse um Fantasma – e zá catrapus, dei-lhe com a colher de pau na cabeça e depois atirei-lhe com um ovo e farinha. Desculpem, mas como devem calcular, estou muito desorientada com estas coisas que estão acontecendo…

Coronel: Estão a ver o que é que o nosso Capitão arranjou com esta brincadeira de Fantasmas? “Os Fantasmas Bateram na Cabeça do Capitão” ah, ah, ah, até dava um bom título para um romance policial… ah, ah, ah !

Augusta: O Sr. Capitão não faça caso do que o meu marido diz, pois já sabe como é que ele é. Vamos já arranjar-lhe um banhinho e bem quentinho!

Capitão: Muito obrigado, Dona Augusta. Bem preciso de um banho. Este estúpido acidente… Olhem, que ainda me dói a cabeça, e tenho o fato todo sujo…

Augusta: Carmo, prepara já um banho para o Sr. Capitão. E com a água bem quentinha – ouviste?

Carmo: É para já, minha senhora. Um banho bem quentinho, e em especial para o Sr. Capitão!

A campainha da porta volta a tocar…

Augusta: Desta vez sou eu que vou abrir a porta, enquanto a Carmo prepara o banho para o Sr. Capitão… Olhem quem é que chegou, o Sr. Alferes Marques! Boa-noite, entre, entre…

Marques: Com sua licença, Dona Augusta. Boa-noite a todos. Mas, olha que engraçado, o senhor Capitão Ribeiro com o rosto e o fato cheio de farinha e ovo! Não me diga que virou pasteleiro?

Coronel: Meu caro Alferes, o nosso comum e querido amigo Capitão, quis ir caçar Fantasmas, e, imagine que lhe atiraram com farinha e um ovo! Eheheheh! E não apanhou nenhum dito cujo Fantasma! Que divertido que eu estou, ah, ah, ah!

Capitão: Deixe-se de brincadeiras, pois, quem me atirou com isto, não foi nenhum Fantasma, mas sim a Carmo, a criada! Este nosso amigo Coronel muito gosta de gozar comigo.

Augusta: Vocês por favor não me falem mais em Fantasmas… Ai que eu até me arrepio toda, todinhaaaa…

Alferes: Ó Dona Augusta, não me diga que a senhora ainda acredita em Fantasmas?! Já a minha avó contava o que lhe contou a avó dela…

Augusta: Por favor, Sr. Alferes, em Fantasmas, não acredito… Mas lá que eles existem… Existem!

Entretanto, a Dona Augusta dirige-se ao seu quarto, e…

Augusta: Olha…! Ó seus bandidos, o que é que vocês fazem aqui no meu quarto? Bandidos!

1º Encapuzado – Cala já o bico, mulher… Olha que será muito melhor para ti… Caladinha, disse eu… E juizinho nessa cabeça, e não te esqueças… Juizinho e muita calma, senão, pescoço cortado…

2º Encapuzado – Se tu não te calas, ainda te corto o pescoço – assimmmm!

Augusta: Credo, homem, por favor chegue para lá essa faca… Que nervos!…

1º Encapuzado – Pois é como o meu amigo diz. Muito juizinho, senão… Pescoço fora! Vamos lá ao que mais interessa: quando é que nos dás a massinha, ou seja, o dinheiro que combinámos ?

Augusta: Não sei, não sei. Mas por favor não me façam mal, pois eu não tenho culpa do meu marido, o Sr. Coronel Ramalho, ter-se esquecido das chaves no escritório. Assim, não poderei tirar o dinheiro do cofre, como vocês querem. Mas essas fotografias não são minhas…

2º Encapuzado – Cala-te mulher, pois senão já sabes o que te pode acontecer: pescocinho cortado! E tu até tens um pescocinho bem feitinho…

Augusta: Não sei como fazer ou que fazer! Como já vos disse… Olhem, escutem, tive uma ideia: podiam vir cá amanhã, ou mesmo noutro dia, mais ou menos a esta hora, buscarem o dinheiro que me querem extorquir? Compreendem e estão de acordo?

1º Encapuzado – Compreendemos até muito bem! És muito espertinha, mas nós não nos vamos embora sem a massinha (dinheiro)! Que espertinha me saíste!

2º Encapuzado – Com esta brincadeira toda (que não é nenhuma brincadeira, antes pelo contrário), até rasguei as minhas calças. Foi na cozinha ao fugir da maldita da criada…

Augusta: Então… Então foram vocês que comeram os pastéis de bacalhau e o bolo de laranja?!

1º Encapuzado – Pois claro que fomos! Olha lá, não podíamos matar a fome? E estavam deliciosos! Bem podia ter sido mais…

2º Encapuzado – Pois ainda ficámos com fome…

Augusta: Pois, pois… Agora é que estou a compreender: Vocês é que são os Fantasmas que a criada Carminho julga que são!

Fora do quarto, ouve-se a voz do marido:

Coronel: Augusta, ó mulher, nunca mais sais daí do quarto? Olha que o Sr. Sargento Neto, acabou mesmo agora de chegar. Vem servir-nos o Whisky, pois vamos começar o nosso habitual joguinho de cartas.

Augusta: Marido, eu vou já. Só estou a acabar de me arranjar…

1º Encapuzado – Vai lá, mas toma muita atenção, pois nós, os Fantasmas, (como tu dizes), só vamos embora depois de recebermos o dinheirinho todo. Repito: o dinheiro todoooo!

2º Encapuzado – Não te esqueças que são só dez mil e quinhentos reais!

Dona Augusta, abanando a cabeça e encolhendo os ombros, sai do quarto e entra no salão…

Augusta: Boa-noite, Sr. Sargento Neto. Vou já servir o whisky, e para o Sr. Sargento, uma dose muito especial, tome.

Sargento: Este líquido, aliás, este precioso líquido, hoje parece estar divinal! Que rico whisky. Que delícia mais deliciosa que o Sr. Coronel tem cá em casa! Whisky como este, só nos quartéis e só para oficiais superiores!

Alferes: Este Scotch é mesmo genuíno. O que não admira, pois estamos em casa do Sr. Coronel. Em nada se compara com aquele que no outro dia bebemos em sua casa… Ó Capitão Ribeiro, desculpe lá a franqueza! Mas o whisky que lá bebemos era uma má imitação!

Capitão: Sabe, meu caro Sargento, há dias em que o paladar dos amigos não se encontra tão apurado como o de hoje… Mas este whisky, é de facto muito bom, muito diferente daquela “má qualidade” que bebemos por aí em casa de certos amigos, como por exemplo na do Alferes Marques.

Alferes: Mas esse facto tem uma explicação: o whisky chamado de “Imitação de Sacavém, ou de outra terra qualquer” ainda não atingiu a perfeição desejada!…

O Sr. Capitão entra no salão, depois de sair do banheiro…

Coronel: Meus caros amigos e companheiros, o nosso querido e estimado amigo Capitão Ribeiro foi tomar banho.

Capitão: Claro que tive de ir tomar banho… depois daquele disparate que a Carmo me fez… Olhem lá, por acaso, alguém viu as minhas calças? As minhas calças novas?

Alferes: Ó Capitão, não me diga que perdeu as calças!!!

Capitão: Bem, não quero dizer que as tenha perdido… Mas, logo as calças novas, que me custaram quase uma fortuna!…

Coronel: Então, o Sr. Capitão não sabe onde deixou as calças? É esquisito… Olhe, o seu copo está aqui bem cheio de whisky, beba agora e procure depois as calças. Não é que lhe fique mal o toalhão envolto no corpo… mas compreende… Cá em minha casa… Compreende que não é nada decente…

Capitão: Dou-lhe toda a razão, pois eu também não gosto de andar, ou estar, nesta figura. Entretanto, Dona Augusta, por favor, encha-me outra vez o copo. Muito obrigado pela sua gentileza… está bem assim… assim. Que magnífico whisky este! Parece-me que já estou a ficar com os “copos”, ou seja, um pouco grosso, bêbedo… Mas eu quero as minhas calças, as minhas calças novas! Roubaram-mas… Isto deve ser uma manobra para me derrubarem psicologicamente!… Protesto, protesto, protesto… Quero as minhas calças novas… As minhas riquinhas calças novas!

Augusta: Tenha calma, Sr. Capitão, pois as calças vão aparecer. Sim, porque cá em casa, não há  (há…há…há?…) ladrões?… Fantasmas?

Coronel: Caro Capitão, antes de ir procurar as suas calças, beba mais um copo de whisky… Vá lá, não se faça esquisito. Depois de beber, vá procurar muito bem as calças, pois, como diz, e muito bem, minha mulher, cá em casa não há ladrões. Mas espere… Só se foi algum Fantasma que lhas roubou… Ah, ah, ah!… Teria sido um fantasma e, neste caso, fantasma e até ladrão?

Augusta: Ai, credo, marido… Cala-te por favor… Mas se foi… Algum Fan… Fantasma… Podemos pedir por favor que ele devolva as calças… Tive uma ideia: vamos todos gritar, assim: Ó Fantasmas!!! Ó senhores Fantasmas!!! Por favor devolvam as calças ao Senhor Capitão… – Vá lá, gritem todos comigo…

Coronel: Ó Augusta, tu também bebeste whisky? Mas o que é que te deu, para estares a gritar aí aos Fantasmas? Até parece que estás louca…

Sargento: Eu também estou de acordo em não gritarmos por Fantasmas, pois senão, daqui a pouco, ficamos inundados por eles, e lá se ia todo o whisky do nosso caro amigo Coronel. Pois devem existir Fantasmas apreciadores do bom whisky. Penso eu…

Coronel – Agora um pouco mais a sério: Carmo, vem cá depressa… Rápido, mulher… És cá uma vagarosa! Mas que mulher esta…

Carmo: Pronto, ao seu inteiro dispor, Sr. Coronel!

Coronel: Olha lá, vais aqui com o Sr. Capitão procurar as calças dele, as quais não devem andar por muito longe. Pelo menos penso que não…

Carmo: Sr. Coronel, eu não me importo de as ir procurar, mas… Mas o pior é a cozinha…

Coronel: E o que é que tem a cozinha a ver com as calças?!…

Carmo: Sabe, é que estou a cozinhar uma galinha de cabidela…

Coronel: E daí? Não me digas que estás com medo que a galinha levante voo e que fuja do tacho… Ficaste muito calada, diz qualquer coisa, ou estás com medo de qualquer coisa?

Carmo: Estou com medo dos Fantasmas, sim, Sr. Coronel, os Fantasmas podem voltar novamente e levarem com eles a galinha. Já vi que o Sr. Coronel não quer compreender, mas…

Coronel: Mau, mau. Deixa-te de brincadeiras e procura rapidamente as calças, pois o senhor Capitão não pode (nem deve) ficar em cuecas toda a noite!

Alferes: Confesso que eu próprio já estou a ficar com um certo receio dos Fantasmas! E pelos vistos, estes até são comilões! Ai, que horror: Fantasmas! Caro Capitão, não se vá embora, não procure ainda as calças, sem antes beber mais um copito de whisky, ao qual terei muito gosto, e prazer, em acompanhá-lo (a beber outro, claro…!).

Sargento: Ai que medo que eu sinto… Até sinto o corpo todo a tremer! Ah, ah, ah! Fantasmas! E se em vez de Fantasmas, fossem, fossem… Assim com estas formas… Formas femininas, compreendem?! Aí é que seria uma grande orgia! Perdão, Dona Augusta! Vejam lá que eu por causa dos Fantasmas, até me esqueci da senhora. Mais uma vez, as minhas desculpas…

Augusta: Aceito as suas desculpas, mas, Sr. Sargento, por favor não provoque mais confusões, pois já estou a ficar muito nervosa com este assunto. Ufff! Fantasmas…

Alferes: Tem toda a razão, em vez de Fantasmas, podiam ser, por exemplo, Lobisomens, Vampiros, ou mesmo Extraterrestres, enfim… sei lá que mais!

Coronel: Meus caros convidados, não podemos dar mais crédito a este assunto nem falar mais em Fantasmas! Sejamos racionais. Não existem Fantasmas! Não existem e ponto final.

Sargento: Pois é, mas nós estamos a dar crédito a essa parvoíce. Até parece um filme que vi há pouco tempo na televisão, com muitos fantasmas maus que até comiam…

Coronel: Bom. Vamos ao que mais interessa: Olha lá, Carmo, já encontraste as calças do Sr. Capitão? Eu quero este caso resolvido rapidamente, ouviste e compreendeste bem?

Carmo: Já as procurei por todo o lado que é sítio, mas não as encontrei.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… Eu quero as minhas calcinhas novas… As minhas ricas calcinhas… Um Capitão, nunca por nunca, pode, nem deve, andar em cuecas! É indigno para a sua categoria social e militar.

Sargento: Apoiado, apoiado! O caro Capitão tem toda a razão (mas não chore) e o seu protesto é pertinente… Embora já tenha bebido alguns copos de whisky!…

Alferes: O caro amigo Sargento, tem toda a razão, pois não deve tentar afogar o desgosto de ter perdido as calças, bebendo muito whisky. Olhe que eu conheço quem já tenha perdido as calças por muito menos!

Capitão: Mas eu quero, eu quero as minhas calcinhas novas. Por favor, compreendam-me, pois sinto-me muito infeliz sem elas… Imaginem só se os meus tropas me vissem neste estado!

A criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Sr. Coronel, Sr. Coronel… Dona Augusta!

Coronel: Que tens tu? O que é que te aconteceu, Carmo?

Augusta: Não chores, pequena, e diz o que aconteceu…

Carmo: Uma desgraça – uma grande desgraça! É que a galinha de cabidela que estava ao lume…

Coronel: Não me digas que a deixaste queimar?!

Carmo: Não a deixei queimar, não. Mas ela desapareceu!

Augusta: Ai aqueles bandidos!…

Coronel: Bandidos?! Augusta, o que é que tu disseste? Aqueles quê? Confesso que não te ouvi muito bem, por favor repete…

Augusta: O que eu disse? Olha, pois disse, ou devia de ter dito: Fantasmas. Ou seja lá o que for… Mas não sei se foram ou não os Fantasmas que levaram a galinha de cabidela… Olha, não sei se disse alguma coisa, ou pensei alto.

Alferes: Amigos, reparem: agora até começou a cair água do tecto… Vejam, vejam! Até parece que está a chover e a água cheira a líquido orgânico.

Sargento: Olha, pois está. E escutem, não ouvem o barulho de um autoclismo a descarregar?

Coronel: De facto, estou a ouvir. Estou cansado de dizer à Carmo que não utilize o banheiro do sótão. Mas ela é teimosa, e o canalizador ainda não apareceu para afinar o autoclismo.

Carmo: Perdão, senhor Coronel, eu não utilizo o banheiro lá de cima, há mais de um mês. Para mais, com o medo que tenho dos Fantasmas, ainda hoje não fui lá  acima ao meu quarto. Que medo!

Coronel: Então, então… Queres dizer que não foste tu que utilizaste o banheiro?

Carmo: Juro por tudo que não fui eu que utilizei aquele banheiro.

Alferes: Bem, meus senhores, vamos analisar os factos referentes a este assunto: primeiro, os Fantasmas comeram os pastéis de bacalhau, depois o bolo de laranja, e por fim a galinha de cabidela. Com uma certa lógica, depois de comerem isto tudo, com certeza que precisaram de ir à casa de banho (banheiro)…!

Augusta: Mas que lógica… tão lógica! Fantasmas a utilizarem um banheiro – onde é que isto já se viu?

Capitão: Com essa conversa toda, não se esqueçam que eu quero as minhas riquinhas calcinhas… As minhas calças novas. Pela minha dignidade de Capitão, eu nunca devia de sofrer o vexame de andar p’ra aqui em cuecas, e logo em casa do Sr. Coronel.

Sargento: O Sr. Capitão tem toda a razão e todo o meu apoio. Mas por favor deixe de chorar, pois, põe-me muito nervoso. Mas… um Capitão em cuecas, ou em slips, é demais!

Alferes: Pois é, mas por causa das calças que eventualmente perdeu, teve o pretexto de já ter bebido quase uma garrafa inteira. Neste contexto, eu também não me importaria de andar em cuecas!

Sargento: Olhe que ainda está a tempo, meu amigo, pois o nosso querido e Sr. Coronel, ainda tem, pelo menos, mais uma garrafa cheia.

Sargento: Olhem que está novamente a cair água lá de cima. E muito mal cheirosa. De certeza que não comeram sabonetes nem beberam perfume!

Sargento: E prestem atenção. Oiçam com atenção… Um ruído tão característico, pois os Fantasmas devem estar a desbeber, ou seja, devem estar a fazer chichi!

Capitão: Mas eu quero as minhas riquinhas calças novas… Como ninguém se incomoda com o assunto, eu vou lá acima e mato todos, todos os Fantasmas… todos… todos, um a um.

Alferes: Amigos, admirem a valentia do nosso Capitão. Que homem tão valente, um verdadeiro representante da valente raça lusitana!

Sargento: É assim mesmo, caro Capitão. Vá mostrar aos Fantasmas o que é ser um homem de barba rija!… E mais: um verdadeiro herói dos nossos dias!

Capitão: Só preciso de uma arma, para assim poder avançar. Vou matá-los todos, todos os Fantasmas que aparecerem à minha frente… À minha frente…

Alferes: Estou mesmo a ver que vai ser uma enorme mortandade! Ai, pobres Fantasmas, agora é que vão ser elas, com o Capitão no encalço deles!

Coronel: Tem toda a razão para proceder assim, meu caro Capitão. Aqui tem uma boa arma: um martelo de orelhas! E assim tão bem armado, não se esqueça de matar todos (mas todos) os Fantasmas que encontrar no seu caminho. Força, Capitão Ribeiro!

Sargento: Mas tenha muito cuidado, não os maltrate muito, pois eu tenho horror em ver sangue. Contente-se só em fazer-lhes umas nódoas negras!

Coronel: Mas que situação tão caricata: um Capitão em cuecas, com um martelo de orelhas na mão, à procura de uns Fantasmas… E tudo isto em pleno século XXI…

Alferes: Deixai ir o homem, que está muito bem temperado em whisky…
Coronel: Oxalá é que não caia pela escada abaixo… E, claro, que apanhe muitos Fantasmas!

CONTINUA

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Marciano Lopes e Silva (1965 – 2013)

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19 de outubro de 2013 · 15:52

Falecimento do Professor da UEM e Poeta, Marciano Lopes e Silva

O professor e poeta Marciano Lopes e Silva, do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, faleceu no início da noite desta quinta-feira (17/10/2013), no Hospital Metropolitano, em Sarandi.

Na semana passada ele contraiu uma broncopneumonia, foi para a UTI e por volta das 19h não resistiu. 


Seu corpo está sendo velado no Velório Prever, do Cemitério Municipal de Maringá, sendo encaminhado ao Cemitério Parque Maringá, onde será cremado amanhã, sábado, ás 11hs.
—————–
Marciano era conhecido por projetos e eventos culturais como “No meio do caminho” e “Sarau Outras Palavras” e estava na organização de um evento nacional na UEM, a V Jornada Inteartes Outras Palavras em conjunto ao Congresso Nacional de Educação Ambiental Literatura e Ecocrítica.

Marciano , que tinha um blog (http://marcianolopes.blogspot.com), era doutor e atuava na área de Teoria da Literatura e Literatura de Língua Portuguesa.

Marciano Lopes e Silva nasceu em Porto Alegre/RS.


Graduado em Oceanografia e Letras pela Fundação Universidade de Rio Grande (FURG, 1986, 1990), foi mestre e doutor em Letras (UFRGS/1994, Unesp/2005).

Foi professor da Universidade Estadual de Londrina (1995 a 1997) e, desde 1997, lecionava na Universidade Estadual de Maringá.

Suas linhas de pesquisa eram: Estudos sobre Relações Raciais; História e Cultura Afro-brasileiras; Literatura: teorias críticas e história

Como poeta, publicou dois livros, sendo que o segundo, intitulado “A contrapelo”, foi premiado pela Lei de Incentivo à Cultura em Maringá e é acompanhado por um CD que reúne dez compositores que residiam na cidade.
 

Em parceria com Fábio Freitas (Sansão), foi um dos fundadores do Movimento Artístico-Cultural “No Meio do Caminho” e um dos editores da extinta revista eletrônica “No Meio do Caminho” juntamente com Caetano Medeiros e Fábio Freitas.

O Projeto Outras Palavras (POP) surgiu como um projeto de extensão do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) idealizado e coordenado pelo professor Dr. Marciano Lopes e Silva desde abril de 2006. Atualmente, com a divisão do departamento ocorrida no primeiro semestre de 2013,  passou a ser lotado no Departamento de Teorias Literárias e Linguísticas. Para funcionar, tem a colaboração da Rádio UEM-FM 106,9.

Objetivos:
a) incentivar e divulgar a produção artística brasileira, especialmente de Maringá e região;
b)  proporcionar à comunidade um contato prazeroso, crítico e criativo com a arte,
c) produzir material pedagógico para o ensino de letras e artes;
d) proporcionar aos estudantes que dele participam adquirir experiência de pesquisa, locução radiofônica e organização de eventos.
Em sua organização, o  POP apresenta  as seguintes formas de interação com a comunidade:
1) Programa  Outras Palavras – programa radiofônico apresentado diariamente na Rádio UEM-FM 106,9, sem horário fixo;
2) Sarau Outras Palavras – evento anual que reúne música, poesia e performances dramáticas;
3) Dois sítios no Orkut:  Marciano Lopes – Projeto Outras Palavras e Marciano Lopes – Projeto Outras Palavras – 2 (inativos, porém disponíveis para visitação) ;
4) Revista Outras Palavras – um blog que é utilizado como revista de arte e educação;
5) Jornada Interartes Outras Palavras (JIOP) – evento de extensão realizado na UEM, com periodicidade anual;
6) Revista JIOP  – revista anual de literatura, arte e educação em mídia digital – lançada durante a 2ª JIOP, dia 7 de outubro de 2010

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Marciano Lopes e Silva (Poesias Avulsas)


O AMOR À SOMBRA DAS SIBIPIRUNAS
(um poema para as sibipirunas de Maringá)

Sibipirunas em flor
se  enlaçam
lado a lado nas calçadas.

Silêncio.
Frescor.

Pombos entre folhas.
Raios de luz.

Passo a passo
como noivos na catedral.

Amamos.

CHAMAVENTO

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
(“Rosa-dos-ventos”, Chico Buarque)

“Noite de vento, noite dos mortos.”
         (O Tempo e o Vento, Erico Verissimo)

Divino vento!
Não nasce nem morre.
Apenas existe.
Infinito como o tempo.
Divino vento
que faz as montanhas virarem pó
e faz o pó invadir minha alma
carregando o cheiro fétido da morte.
Divino vento que tudo arrasa e arrasta!
Divino vento que move moinhos!
Inflama a chama alastra o fogo
e revolta os mares em vagas colossais!
Divino vento
que penetra por todos os cantos
poros, narinas e frestas…
Divino vento que revolve a terra
seca e esquálida
que povoa a história com sussurros
e desenterra velhos sonhos adormecidos.
Vem!
Vem divino vento!
Vem vendaval!
Vocifera em meus olhos a ira dos deuses
na imensidão da noite!
Vem!
Enlouquece a natureza!
Que corujas lancem pios!
Cães ladrem nos terraços!
Vacas pastem em jardins!
Cavalos relinchem em hotéis!
Gatos uivem no céu!
E ratazanas invadam as ruas
numa gargalhada infernal!
Vem!
Divino vento!
Vem com toda a fúria!
Com a ira de todas as malditas gerações
amordaçadas!
Vem!
Arrebata a rosa-dos-ventos!
Divino e bendito vento!
_____________________________
Nota:
Reescritura de um antigo poema intitulado “As vozes do vento”, publicado no livro Concurso DCE-FURG – 15 anos de Contos e Poesias. Rio Grande/RS: FURG, 1987. p. 15-18.

=======================
SEMINAR

O amor da gente é como um grão.
(Drão – Gilberto Gil)

Quem disse que temos todo o tempo do mundo?!
Se assim fosse, por que amar as pessoas
como se não houvesse amanhã?!

Não, o tempo não pára
e o sonho é como um grão:
tem que morrer pra seminar.

SOUVENIR

Veja o sol dessa manhã tão cinza:
a tempestade que vem tem a cor dos teus olhos castanhos.
(Tempo perdido, Renato Russo)

Quando a dor te encontrar no fundo do calabouço,
lembra que a tempestade tem a cor dos teus olhos
e o frescor das fontes que brotam límpidas
do velho poço de pedras.
=======================

ÁGUAS VIVAS

ÁGUA-VIVA I

Nas madrugadas navego.
Oceano sem fim.

Imensa onda.
Jaz mim.

 ÁGUA-VIVA II

Fumaça blues.
Flor essência
de sândalo.

Dourados
no aquário.

ÁGUA-VIVA III

anêmonas
trêmulos
véus…

Divina Vênus
na cama…

ÁGUA-VIVA IV

Estrelas n’água.
Branca espuma
em teus lábios.

No firmamento
noctilucas pululam.

Astrolábios.

ÁGUA-VIVA V

Nas madrugadas bebo
águas vivas.

Resgato águas furtadas,
régias e marinhas.

Depois adormeço,
pálido de aurora.

ÁGUA VIVA VI

Mar remoto.

No fundo
(da concha)
naufrago.

ÁGUA-VIVA VII

as ondas
espumantes
(en) volvem

o doce nácar
das conchas

SINUCA 1: “PRETO BATE BRANCO BATE PRETO”

preto bate branco
bate preto
embola enrola esfola
assola
escarra escarra escarra
cuca luta dis-
puta
taco contra taco
sopapo
nuca noite coice
foice
bate bate bate
bola contra bola
bate
pelas ruas pelos guetos pelos panos
rola
bola contra bola
rola
……………………….

preto bate branco
bate preto
faca tapa coice
açoite
estala
bala contra bala
estala bala vala
desfia desafia afia
porfia
a faca o taco o troco
sufoco
cara contra cara
encara
caça contra caça
regaça
encara bate e cala
caçapa!

SINUCA 2: TACO CONTRA TACO
 

embola enrola volteia
bate
enrola esnoba floreia
bate
cuca luta bruta pura
disputa
taco troco truco traço
no braço
bola contra bola bate rebate
e gira
pelos cantos pelas beiras pelos panos
rola rola
bola contra bola bate rebate
estala
bola contra bola rela rala rinha risca
desliza
bola contra bola bate rebate reganha rebola
encaixa
taco a taco ferro fere firme forte
fácil

última bola:
cara a cara encara mira e cala
caçapa

DOM QUIXOTE DALI

Dom Quixote manchado,
cavaleiro das taças quebradas,
envolto em moinhos
de sonhos e mágoas,
avante!.. avante!…
Impávido
pelos trilhos utópicos
alucinado a rodar e a rodar e a rodar
em sonhos…
carrossel…
Atravessa os túneis,
penetra a terra,
move os céus e as montanhas,
estrela a brilhar em consternação…
Constrói o futuro
e cola os cacos da história!
Tu que és trapeiro doido da lua,
eternamente um louco salvador…
Tu que és trapeiro doido da lua,
eternamente salvador dali…
Dali, daqui, de lá, acolá…
Evoé!
Avante Quixote!
Ole!… Ole!… Ole!…

SER/VIDA

vida sobre/mesa
sobre/mesa vida
vida ser/vida

vida sobre/mesa
explícita

cadáver vivo?

natureza morta?

vida sobre/mesa
mesa sob(r)a vida
sobre/mesa vida

ser/vida
a/guarda
?

quem descubra
quem decifre
quem devore
?

faca
ques
pedaça
?

vida sobre/mesa
es/finge faminta

devora
ar/dente
mente
?

sente(?)

MIRANDO JANIS JOPLIN

É nessa cadeira, vejam, é nesta cadeira vazia
que ouço Janis Joplin
e converso com Bertold Brecht
sobre os absurdos do mundo.
É nessa cadeira, vejam, que ouvimos Neruda cantar
e converso com o mais estranho e eclíptico demente
que com os meus olhos meninos eu vi!
Ele se delicia com rainhas, balões, porcos e pedras rolantes,
grita berra e murmura baixinho
que não tem certeza de nada e que a ignorância também é sábia.
Fala de doidos amores
conta as mulheres que comeu e cuspiu
nos podres vasos da aurora
nos banheiros sujos em que deixou
o âmago quente do seu estômago
cansado da burra servidão do dia.
É nessa cadeira, vejam,
é nesta cadeira vazia que converso com Janis Joplin
sim! eu converso com Janis Joplin!
Nessa cadeira Neruda a cantar!
Bertold Brecht fala dos absurdos do mundo!
Sim! Eu ouço Janis! Janis Joplin!
nesta cadeira vazia.

Não, não assuste não! São somente máscaras
com que disfarçamos o medo
o vazio o vácuo a velocidade a voz
que vem do nada por todos os lugares
jorrando como sangue do coração
fazendo esgares nos espelhos espalhados pelo caminho!
Sim, é nesta cadeira, vejam, é nesta cadeira vazia
que miro Janis Joplin!

Canção apresentada durante o 1º Acorde Universitário – Festival de MPB.

MIGALHAS

bebia sua vida num gole gargalo
com jornal de lã na calçada-divã
vestia saída num beco soberbo
de fome subúrbia
travessa sacia sua sede de pão

meio-dia fomenta milhares de carros
com tal sede insana faminta de grana
pro gole final que deu ali mesmo
de magna angústia
tomou batida e encheu a cara de chão

encheu a esquina
de cena
agora é a vida

que
pinga
que
pena [1]

Milhões de migalhas
encobrem a mesa.

Milhões de migalhas
não fazem um pão.

Milhões de migalhas
não fazem nem mesmo
uma fatia.

Milhões de migalhas
são apenas mais sujeira
no dia a dia.
____________________
[1] O texto em itálico é um poema do amigo Sansão (Fábio Freitas), cujo título é “Pão e pinga (A fome e a embriaguez)” e foi gentilmente cedido para acompanhar meu poema “Migalhas”.
=========================
NO LIMITE

Num mundo videoestilhaçado
deve o poema também sê-lo?

Em canais latrinobabélicos
deve o poema signosilenciar?

Narcisopausterizado na massa
deve o poeta e(x)goelar-se?

Ou a saída seria dispará-lo à seco
cilada selada com muito desvelo?

DA DIFÍCIL TAREFA DE SER ATOR

Ser ator é moleza,
barra é ser professor.

Interpretar todo dia
sem ao menos ter um palco
por salvação
não é pra qualquer um

só para hipócritas
e ratinhos
de labotoratório.

Viver por tanto
então
nem se fale.

Somente louco
ou artista.
Tanto vale.

Fonte:

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Pedro Mello (Considerações sobre a Trova Humorística)

I

Já virou lugar-comum dizer que “humor é coisa séria”. De fato, apesar da propensão inata que temos de fazer piadas das coisas e das pessoas, a distinção entre o pastelão e o humorismo é tão evidente, que fica difícil tentar fazer uma definição propriamente dita.

Não que não se tenha tentado. O humorista Leon Eliachar, que se definia como um “carioca” da gema (nasceu no Cairo, capital do Egito, e se fixou na capital carioca!), disse certa vez que o verdadeiro humorismo faz cócegas na inteligência das pessoas. Fora isso, o resto seria apenas comédia.

Tenho pessoalmente minhas dúvidas quanto à rigidez da idéia do escritor, porque quando o assunto é riso, para as pessoas é indistinto se a questão é entreter ou fazer pensar. Na realidade, tudo é possível. Há momentos em que as pessoas querem apenas se divertir, e para isto riem com as personagens caricaturais dos programas “Zorra Total”, “Pânico na TV” ou “A Praça é Nossa”, assim como riam de “Os Trapalhões” na década de 80. Em outros momentos, as pessoas preferem o humor mais, digamos assim, “intelectualizado” de Jô Soares e de seu anedotário político. O “Casseta e Planeta”, por exemplo, oscila entre o pastelão e a sátira política, em momentos “felizes”. (Se bem que político brasileiro é matéria-prima indiscutível para a sátira…)

II

Quando o assunto é a “Trova”, a oscilação é parecida. A Trova Humorística (chamada por A. A. de Assis de “brincante”) oscila da incorporação de anedotas populares a ditos chistosos e trocadilhos lingüísticos.

Gritei: “- Pare, seu Joaquim”,
quando o trem apareceu…
Ele ainda olhou pra mim,
falou: “Ímpare!” e morreu…

A trova acima, de Therezinha Dieguez Brisolla, é um exemplo de como um trovador aproveita uma piada e a transforma em trova. Há quem não goste e considere falta de originalidade aproveitar uma piada em trova e prefira um trocadilho, um dito chistoso, uma sátira política ou de qualquer outra mazela brasileira.

Esse é um assunto que tem dividido os trovadores, pelo que percebi ao conversar com vários sobre o assunto. Parece que, quando se trata de humorismo, a idéia realmente original é difícil. Tudo é motivo de brincadeira e é difícil afirmar com precisão o que é anedótico ou não.

– Coragem!… Sua mulher
tem poucos dias… Lamento…
– Doutor, se o destino quer,
mais uns dias eu agüento…

A trova acima, de Vasques Filho, é de uma piada ou não? Quem sabe se Vasques Filho fez essa trova, já existisse a anedota e ele pessoalmente não soubesse?
José Maria Machado de Araújo fez um genial trocadilho entre um substantivo e uma interjeição nessa jóia do humorismo:

Feita a macumba, sisudo,
disse-me o velho orixá:
– Oxalá vai te dar tudo…
E eu respondi: – Oxalá…

Não se trata de uma anedota. Mas como sabemos disto? Também é difícil dizer com precisão. A trova humorística, geralmente, é um “microconto” de cunho brejeiro. As trovas de Therezinha Dieguez Brisolla e de Vasques Filho nos parecem mais plausíveis, mais “narrativas”, poderíamos dizer. A anedota transformada por Therezinha é conhecida. A trova de Vasques Filho, se não era uma anedota, poderia perfeitamente se transformar numa gag visual do “Casseta e Planeta”, por exemplo. A trova de José Maria Machado de Araújo não é “narrativa”, ou “teatralizável”, embora seja construída “narrativamente”. Difícil concebê-la como uma gag.

A velha soprava a vela,
quando o velho, de surpresa,
soprou no cangote dela…
e a velha ficou acesa!

Mais um “lance” de gênio, desta vez de Edmar Japiassú Maia. Assim como a trova de José Maria Machado de Araújo, a de Edmar não é tão “narrativa” ou “teatralizável”. A situação jocosa, o jogo de palavras entre “vela” e “velha” são ingredientes perfeitos de um “trouvaille”. Também seria difícil transformá-la em uma gag visual. Comparando as duas, vemos o elemento em comum: o trocadilho, o jogo de palavras que constitui o mote da idéia.

Para a criatividade dos trovadores, nem o céu é limite. Isto eu disse no texto sobre “folclore”. O humor é feito com elementos tão distintos, que é difícil elencar. Tudo é possível, desde anedotas de sogras, de lusitanos, de infidelidades conjugais, de bêbados, de vizinhas, passando pela sátira a políticos ou a suas “realizações” e chegando a trocadilhos verbais e a situações inusitadas… Não há limites.

Na praia, alguém grita: gente,
dois carecas se afogando !
– Outro diz: calma, é somente
um nudista mergulhando…

José Tavares de Lima

Há uma loura acompanhando
seu marido o dia inteiro…”
– Pois vai acabar cansando…
O meu marido é carteiro !

Alba Christina Campos Netto

Pediu o bobó bem quente
o turista distraído…
E a pimenta, a mais ardente,
deixou seu bobó ardido…

João Freire Filho

– Escolha a pessoa certa
para entregar-se, querida…
– Mamãe, quando a fome aperta
não dá pra escolher comida!

José Tavares de Lima

A noivinha vaporosa
fita o noivo e se atordoa:
– De um pijama cor-de-rosa
não vai sair coisa boa…

Antônio Carlos Teixeira Pinto

É claro que a referida “oscilação” (ou, talvez dizendo, diferença) entre os tipos de trova humorística não permite uma “formatação”. Embora isto resulte no efeito colateral de trovas “humorísticas” de chorar, por outro lado também impede que o trovador se veja cerceado, que se veja em meio a contingenciamentos. Há quem seja contrário às anedotas ou ao emprego de nomes próprios em trovas humorísticas. Outros preferem o “liberou geral”. Não podemos afirmar que haja necessidade de uma “corrente” ou de “reformas” nesse sentido. Tudo é uma questão de discernimento e de bom-gosto.

A trova humorística:

1. não é idiota;
2. se não faz rir a matéria, faz rir o espírito;
3. é bem construída;
4. quando é realmente boa reconhecemos à distância e quando é ruim, também.

Claro que qualquer critério de análise será subjetivo, mas podemos perceber que a trova humorística e a trova lírica/filosófica têm mais pontos em comum do que à primeira vista notamos:

Se rirmos da trova lírica e chorarmos com a trova humorística, alguma coisa certamente estará errada…

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1610628

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Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel) (Sonetos Escolhidos 3)

Imagem: Biblioteca Manuel Antonio Pina
DESENCONTRO (1)

Tomado de saudade e sofrimento,
um dia eu quis rever a terra amada.
sondei a posição varia do vento
e pus meus olhos e meus pés na estrada.

Noite ainda (acordei de madrugada),
tinha a lua por luz, por seguimento…
Nem sentia o cansaço da jornada,
pensando no ontem, no hoje, como alento.

Me alegrava pisar velhos caminhos!
Os pássaros contavam nos deus ninhos
e a natureza toda, então, sorria.

Ouvi tocar o sino em minha aldeia,
lembrei das orações na hora da ceia
e da casa que outrora me acolhia.

DESENCONTRO (2)

Fui devagar, pois, afinal, queria
gozar a sensação de uma beleza
que me ficara intacta, à alma presa,
bem distante da atual selvageria.

Meus olhos, percorrendo a redondeza,
iam matando as sombras sem valia,
cheio de força, o copo estremecia,
e de calor e luz… Longe a tristeza.

Era um quadro tão belo e tão feliz,
do qual jamais pudera ser juiz…
Porém, quando cheguei: – “Que coisa alheia!”

– exclamei. A montanha era mais baixa,
a igreja velha, o sino rouco, e a faixa
de rua era tão feia… Era tão feia!…

DESENCONTRO (3)

Vi que o tempo não poupa, tudo encaixa,
mexe na minha vida e faz sua teia…
O sangue virou gelo em minha veia,
a pressão, que me era alta, se rebaixa.

Luz se havia era pouca., e de candeia,
no breu da noite… E não havia caixa
de banco… Nem rapaz e nem muchacha…
Deserta de homem, de mulher, a aldeia.

Então, pergunto a mim: Qual o destino,
se vim buscar aqui meu ser menino
e menino nenhum aqui encontro?

Vim rever minha terra e meu passado.
Mas, o que vejo? – Um sonho naufragado…
E eu perdido num louco desencontro!

EM DUAS RIMAS

A vida nasce numa enorme festa,
Nasce do amor, no instante da folia
Do sexo, da paixão e da alegria.
Mas também chora, a vida é uma floresta.

Há confusões. Porém sobra uma fresta
Por onde socorrer-se na agonia,
Dá passagens na busca de harmonia.
Há morte e vida e luzes nessa gesta.

Há buscas ideais, filosofia…
Indagações: – Meu Deus, que coisa é esta?
O amor a transformar-se em poesia.

E assim morrer: – Cantando uma seresta,
Ou ir sorrindo para uma outra festa
É o fim que todo homem gostaria.

EMOÇÕES

Só tenho olhos pra aquilo que me nega,
só sinto o cheiro e a fala de outras vinhas,
mais me apetece o rosto que as covinhas,
e em mim a luz é sombra e se me integra.

Se há gosto em minha boca, não me pega,
mas se meu corpo alisam – coisa minha –,
meu passado sofrido se esfarinha
e a nuvem interior se desintegra.

A natureza, em mim, vem da floresta.
Gosto do vento a arrepiar a testa,
gosto de rir… Mas como rir primeiro?

Vivo tão sério! Não, de mim não riam,
se as emoções mais tolas me aliviam:
– São pérolas que dôo ao mundo inteiro!

GOZO EXTENSO

Gozo os segundos todos, ano a ano,
do que ainda me resta por saúde,
não me entristece olhar o que não pude
ser. E dos meus achaques não me ufano.

No que fiz e refiz, por ser humano,
injetei muitas gotas de bondade.
Pela essência da calma que me invade,
sou a esperança no que não me engano.

E em tudo a fortaleza me aclareia
como os gozos de outrora… Tão intenso
é o meu prazer e minha nova messe.

No momento outro sonho é que me enleia:
– O encanto de saber que estou imenso,
num coração que, enfim, rejuvenesce.

MÁRTIR

De que serve contar já tantos anos
de vida, se a verdade foge e foge,
o ontem nunca mais tornando ao hoje,
e o amanhã tão perto, e seus enganos?

Não me valeram experiência e danos
que as primaveras fúteis produziram,
se, em lugar de saudades, me surgiram
só lembranças inúteis, desenganos…

De que posso, vaidoso, me gabar
senão da arte, em saber ouvi-la e vê-la,
embora não me leve a qualquer parte?

Ora, bem! Zombarei do grande azar
de ter nascido em Vênus, bela estrela,
pra fazer vida no planeta Marte.

MINUTO ETERNO

Deitada é bela, e, se levanta, estua:
Sinal de cio… Fecha os olhos, pensa…
Como, então, me darei a recompensa
de mais de perto vê-la inda mais nua?

Voar ao prédio em frente desta rua
e surpreendê-la em sua displicência?
Perder todo este medo e a paciência
de anjo sem paz que sabe e não flutua?

Vou morrer de ciúme aqui, de longe,
por não tê-la sequer um só segundo,
por delirar, na posição de monge.

Se fosse minha um só minuto – eterno–­,
zombaria das glórias deste mundo
e trocaria os céus por todo o inferno.

VOYEUR
(Segunda versão de “Minuto Eterno”)

Seminua, deitada, insone e quente,
no sofá, fecha os olhos, pestaneja…
Ah, eu queria ter cometimentos
pra mais de perto vê-la, vê-la, vê-la!

Voar deste meu prédio lá, na frente,
tocar seu corpo em toda a displicência…
Ai, não posso! E com isto me entristeço
como um anjo incapaz, louco e doente.

Tenho ciúmes, sim, no longe-e-perto.
Vejo um inseto pousado no seu peito
quando aqui morro em posição de feto.

Se fosse minha por um dia apenas
seria o homem mais feliz do mundo,
renegaria os deuses do universo.

O FANTASMA

Quem lhe matou a vida de menino
e a tão sonhada vida de rapaz?
Não sabe, está perdido e vai atrás
do perdido nos becos do destino.

Entre os deuses e o diabo, oh desatino!
de desistir ninguém o fez capaz.
Foi buscando vitória sem ter paz,
sem vislumbrar seu ser em pequenino.

Mesmo assim, sob os gritos de revolta,
luta fria e ferozmente atrasado…
Só que um dia o fantasma a si se volta.

E renasce uma imagem tão candente
que o leva a gargalhar de toda gente,
no sorriso feliz de um só pecado.

O QUE MORRE

Casa e caminhos morrem desamados,
esquecidos, na solidão do amém.
Os segredos falecem de guardados,
e amores morrem quando morre alguém.

O porto morre, a onda se esvazia,
e o sonho esvai-se quando acorrentado,
e treva nasce do morrer do dia.
Vão-se o rico, o feliz e o desgraçado.

Nada é perene, pois quem nasce vibra
somente um instante para a queda enorme,
eis que essa lei fatal tudo equilibra.

Morrem lembranças, fruto do passado,
e o presente e o futuro quando dorme
o homem sem fé, sem luz, abandonado.

Fonte:
O Autor

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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Comédia Teatral – Parte 1

Como era habitual às quintas-feiras, em casa do Sr. Coronel Ramalho (grande herói das campanhas do tempo em que os ventos lutavam contra os moinhos),reunia-se um grupo de amigos para um animado e silencioso serão a jogar às cartas.

O salão onde esses serões se realizavam era amplo, tendo ao centro uma mesa rectangular, e em sua volta, seis cadeiras também do estilo Luís XV, assim como o aparador e a cristaleira que a ladeavam. No tecto, um lustre de metal e vidro, do mesmo modelo dos quatro apliques situados em paredes diferentes, assim como várias molduras com fotografias de familiares, destacando-se entre elas, uma enorme fotografia do austero pai do Sr. Coronel Ramalho, conhecido na época como comerciante de vinhos a granel, com os seus grandes e torcidos bigodes, situada em frente onde habitualmente a Dona Augusta, a esposa do Sr. Coronel Ramalho, fazia a sua renda (ou malha), junto a uma das duas janelas do salão. Ao fundo colocado ao meio da parede, situava-se um enorme e barulhento relógio que marcava até os quartos de hora, ficando por baixo uma vitrina onde o Sr. Coronel conservava orgulhosamente as suas condecorações e algumas armas antigas, algumas das quais das guerra napoleónicas.

Este salão tinha três portas: uma com acesso às escadas que, descendo, davam para a rua; subindo, davam para o sótão onde a criada tinha o seu quarto, junto à sua casa de banho e despensa da casa; outra porta dava para um corredor que ligava à cozinha; e uma terceira para o quarto do casal.

Os convidados para o serão desse dia (que por sinal eram sempre os mesmos), ou seja, o Sr. Capitão Ribeiro, o Sr. Alferes Marques e o Sr. Sargento Humberto, ainda não tinham chegado.

Mais tarde apareceram dois encapuzados, completamente desconhecidos, nem se chegando a saber de onde vieram…

Entretanto, a criada, a Carmo (uma jovem lisboeta que dizia ter vinte cinco anos) aproximou- se da patroa, de nome Augusta…

Carmo: Minha senhora, por favor… Dona Augusta, dá-me licença?

Augusta: Levantando os olhos de um bordado que estava a fazer, por fim, respondeu para a criada: Entra, entra Carmo. Diz lá o que queres?

Carmo: Minha Senhora, tenho de ir ao supermercado fazer umas compras, pois, são quase vinte horas e depois eles fecham. A senhora quer que pague a dinheiro?

Augusta: Ai não!… pois… não tenho dinheiro trocado… Eles que assentem na minha conta, que depois pago. Mas, Carmo, não te demores, e não te esqueças que hoje é quinta-feira, e os convidados não tardam aí a chegar…

Carmo: Eu não vou demorar mesmo nada, Dona Augusta, fique tranquila.

Augusta: Então vai lá, pequena…

Pouco depois da criada ter saído, toca a campainha da porta…

Augusta: Quem será que está a tocar à porta? A Carmo não deve ser. Só se esqueceu alguma coisa…

A campainha volta a tocar, desta vez mais prolongadamente…

Augusta: – Não toque mais, pois eu vou já abrir…

Ao abrir a porta, a Dona Augusta teve uma grande surpresa, pois à sua frente estavam três homens encapuçados.

Augusta: Mas…mas quem são os senhores, o que me querem? Por favor não me empurrem, estou em minha casa. Não me empurrem…!

1º Encapuzado – Mulher, está caladinha, senão… olha esta faca. Deixa-nos passar e senta-te aí nessa cadeira, sossegadinha…

2º Encapuzado – Raio da mulher não está quieta. Rápido, amigo, amarra depressa esta “fera” aí a essa cadeira…

Augusta: Ah, mas quem são os senhores?!…

2º Encapuzado – Está quieta e cala-te! Tem muita calma, pois só queremos falar um pouco contigo. Está sossegada, mulher… Tem juizinho nessa cabeça, senão…

1º Encapuzado – Já te dissemos para estares quieta e deixares de chorar! Nós só queremos falar contigo… Olha que é um assunto que te interessa muito…

Augusta: Eu vou estar quietinha, mas por favor não me empurrem, nem me agarrem… Por favor…

2º Encapuzado – E ela não se cala nem está sossegada, hei… Ó mulher, ainda te mato. Ouviste bem? Ainda te mato!

Augusta: – Mas quem são vocês? Por favor, digam-me… O que é vocês querem de mim?!…

1º Encapuzado – Assim está bem. Continua calminha, pois, só queremos mostrar-te umas fotografiazinhas que temos aqui…

2º Encapuzado – E são fotografias de uma pessoa que tu deves conhecer muito bem… Vá lá, não vires a cara para o lado… Não te armes em pudica! Olha! Olha!…

1º Encapuzado – Abre, abre, não feches os olhinhos… Vê, vê… Por acaso, não conheces esta mulher que está toda nua… Deitada na cama com este homem?!… Não me digas que a não conheces? Vá lá, faz um esforçozinho de memória!…

Augusta: Mas… Mas eu não conheço essa mulher… juro por tudo que não a conheço ! Juro que a não conheço, mas larguem-me, larguem-me…

2º Encapuzado – Não nos tentes enganar, pois esta mulher é mesmo tu – tu, ouviste bem? Ou será que não te conheces a ti própria?!…

1º Encapuzado – Não te faças de tolinha, pois connosco, isso não pega – espertinha!

2º Encapuzado – Ó mulher, deixa-te de tretas, pois é melhor entrares em acordo connosco. Pensa bem e rapidamente, e não queiras fazer nenhuma asneira…

Augusta: Mas eu já vos disse que esta mulher que está nesta fotografia toda nua, não sou eu!… Volto a jurar por tudo, que não sou eu que, está aí toda nua!

2º Encapuzado – Ah, ah… És tu, és, não me consegues enganar, e por favor não me faças perder a paciência. Senão, daqui a pouco corto-te o pescoço… Assim…!!!

1º Encapuzado – Tem calma, amigo, pois deves ter uma certa paciência com esta mulher… E tu aí, mulher, para não ficares com o teu pescocinho cortado, é melhor resolveres entrares em acordo connosco. Senão, como deves calcular, o teu maridinho, o Sr. Coronel, vai saber tudo, tim-tim por tim-tim!!!…

2º Encapuzado – Como já deves calcular, a nós, não nos custa nada… Mas mesmo nada, fazer isso! Amigo, talvez seja melhor mostrar-lhe novamente as fotografias…

Augusta: Eu não sei como é que vos hei-de fazer crer que esta mulher que está aqui, nesta fotografia, não sou eu!!! Juro que não sou eu! Só se for… Só se for… A minha irmã – gémea, que se chama Liza. Já há muitos anos que a não vejo. Só se for ela.

2º Encapuzado – Já te disse que não venhas com essa mentira! És tu, tu, e só tu – e está tudo dito !!! Percebeste?

Augusta: Ai que vida a minha! Já vi que não adianta discutir com vocês… Mas, finalmente, o que é que vocês querem de mim? Mais uma vez vos digo que não sou eu…

1º Encapuzado – Já te disse para estares quieta e cala-te… Como já vimos que és boa mulher, vamos fazer umas continhas, e assim, por estas fotografias… sim, por estas fotografias só te vamos levar…

2º Encapuzado – Digamos… Dez mil e quinhentos euros!

1º Encapuzado – Como vês, é uma verdadeira pechincha: só dez mil e quinhentos euros. Até devia ser mais qualquer coisinha…

Augusta: Mas o que é que vocês estão p’ra aí a dizer? Dez mil e quinhentos euros, é pouco dinheiro? Olhem que eu nunca tive tanto dinheiro junto e em meu poder! Vocês são uns escroques, uns chantagistas…

2º Encapuzado – Toma mas é cuidadinho com essa língua, pois senão já sabes que te corto o teu lindo pescoço.

Augusta: Ai credo, homem!… Que aflição… Tire-me essa faca daqui do meu pescoço!… Ai o meu coração…

1º Encapuzado – Não te enerves, mulher, olha o teu coração… Nós não desejamos que você morra, antes de nos dar o dinheiro…

Augusta: Ai, o meu pobre coração até parece que vai rebentar!… Ai…

1º Encapuzado – Deixa lá o coração e vamos lá ao que mais interessa: tens ou não os dez mil e quinhentos euros? Se não tens, vai ao cofre do teu marido, o Sr. Coronel, pois ele deve ter lá muito dinheiro…

Augusta: Mas não é possível, pois eu nunca roubei nada a ninguém, e muito menos ao meu marido. Vocês estão doidos…

2º Encapuzado – Não me venhas cá com esses argumentos, pois para nós não pega. Vai depressa ao cofre e traz rapidamente o dinheiro. Vá lá, rápido!…

1º Encapuzado – E para tua orientação, enquanto não nos entregares o dinheiro, ficaremos cá em casa a fazer distúrbios. E tu nem calculas os distúrbios que somos capazes de fazer…

Augusta: O que vocês estão p’ra aí a dizer? Que ficam cá em casa? Mas onde?…

1º Encapuzado – Onde não interessa. Mas podes ter a certeza que ficaremos cá até recebermos a massinha toda. Não faças essa cara de espantada e nem tentes brincar connosco…

2º Encapuzado – E toma bem atenção: se por acaso tentares denunciar-nos, já sabes o que te vai acontecer: pescoço fora!

Neste momento toca novamente a campainha da porta …

1º Encapuzado – Amigo, espreita aí pelo óculo da porta… O que é que vês?

2º Encapuzado – É a criada. Olha que a «mamífera» tem cá um “cabedal” de género avião… Ai que bom… bonzinho… Ai… Que gatinha! Estou a ficar cheio de comichões…

1º Encapuzado – Deixa-te de parvoíces. Vamos esconder-nos atrás daquele sofá… Rápido e sem barulho. Cuidado não tropeces nesse fio… Esconde-te… Rapidamente…

2º Encapuzado – E tu aí “menina”… Olha para aqui para mim… Assim… Se não colaborares connosco, já sabes o que te acontece aos teu lindo pescoço… Olha que não somos para brincadeiras…

1º Encapuzado – E toma atenção: diz à criada que faça qualquer coisa que se coma, pois estamos esfomeados! Ela que faça um bom petisco para nós… Não te esqueças!

2º Encapuzado – Agora “menina”, vai lá abrir a porta, mas com juizinho…
Augusta: É inacreditável o que me está a acontecer… Eu nem quero acreditar!… Deve ser um sonho mau…

Falando um pouco mais alto, prepara-se para abrir a porta…

Augusta: Quem é?… Quem é que está aí a bater à portaaa?…

Carmo: Sou eu, minha senhora, a Carmo.

Augusta: Até que enfim que chegaste! Sempre que vais fazer compras, até parece que levas uma cadeirinha atras de ti… Deves dar um grande desgaste à tua língua ao falares tanto com as vizinhas…

Carmo: Mas, a senhora deve de estar enganada, pois desta vez quase que não me demorei nada. Fui num pé e vim noutro.

Augusta: Olha que não me parece. A mim, pareceu que demoraste quase uma eternidade. Olha, vai para a cozinha e prepara… Deixa cá ver…talvez uns pastelitos de bacalhau e, bem fritinhos…

Carmo: Pastéis de bacalhau a esta hora?…

Augusta: Não compreendo a tua observação, pois, a qualquer hora, podemos ter vontade de comer pastéis de bacalhau!

Carmo: A senhora é que manda. Vou já preparar meia dúzia de pastéis…

Augusta: Só meia dúzia?! São poucos! Nem calculas a fome que eu tenho. Prepara pelo menos uma dúzia e meia ou mesmo duas dúzias, de pastelinhos e bem fritinhos, não te esqueças.

Carmo: Não sabia que a senhora tinha deixado de fazer dieta para o tal regime de emagrecimento, que tanto falava! Isto de ser criada, tem muito que se lhe diga!

Quando a criada já se encontrava na cozinha, toca novamente a campainha da porta.

Augusta: Carmo, vai abrir a porta; ainda não ouviste a campainha?
====================
continua…

Fonte:
O Autor

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Simone Borba Pinheiro (Ciranda da Amazonia) Parte 3

DUDU CRUZ
Eu não tenho nada a ver com a Amazônia…


 Quem diz que não tem nada a ver com a Amazônia hoje
 Com certeza amanhã não terá nada para ver em toda a Terra.
 A natureza não renasce das cinzas…
 Precisamos parar de criar cinzas!
 Precisamos cuidar da natureza como uma Senhora querida que cai.
 Naturalmente, devemos esticar o braço dar a mão para ajudar a Natureza a se levantar!
 Ela, com certeza, agradecerá por nossa atitude nos dando a sua beleza!
 E nós, agradeceremos por tê-la novamente de pé, com toda sua Graça!
 A Natureza é Graça de Deus materializada!
 Pessoas que não acreditam em Deus, acreditam que a Natureza seja uma Senhora a ser amada.
 Por isso, você tem que ver hoje como fazer para salvar a Amazônia, para não admitir amanhã, que não há mais nada a fazer para ver a Natureza viva.

EFIGÊNIA COUTINHO
Prece Da Paz Ambiental


 É nesta Floresta aqui, onde me
 ajoelho, e para me unir, também
 eu, modesta criatura do meu
 Planeta, edificando minha
 Prece Universal. Onde calco
 com meus joelhos todas essas
 folhas mortas, que se acumulam,
 de geração em geração, umas
 sobre as outras, para servirem de
 humidade sobre a terra, cedendo
 lugar ás suas novas e majestosas
 folhas. São as folhas verdes do
 alto de seus ramos, que cantam
 a canção da vida, que não repousa nunca!

 E as folhas secas debaixo, e sobre as
 quais pousam os meus pés e os meus
 joelhos, murmuram ao meu ouvido a
 PRECE DA PAZ AMBIENTAL…

SILVIA GIOVATTO
Pulmão do Mundo

 SOS, queremos respirar!
 o pulmão do mundo está ameaçado,
 estão destruindo a nossa floresta amazônica,
 como se não bastasse a poluição do ar, estão tirando
 a nossa chance de vida que vem das matas.
 Pouco a pouco a Amazônia vai se a acabando,
 destruída pelas mão de seres humanos… será?
 Fica aqui o meu pedido de socorro.
 alguém tem de acordar e resolver esse problema
 que afeta o mundo.
 Não precisamos encher nosso pulmão de ar,
 com substancias medicamentosas através de inalação,
 precisamos de ar puro, vindo das árvores, das matas….e
 isso nós tínhamos, quando a ganância do homem não existia.
 O homem está se destruindo e tirando das nossas crianças
 a chance de respirar, de viver…
 Não cortem as nossas árvores, não queimem as nossas matas,
 por caridade, não destruam o nosso planeta…
 você pode ter vantagens com isso, mas está destruindo a sua vida,
 a nossa vida, a vida dos nossos animaizinhos…
 Não destrua, construa!
 Não derrube, plante!
 Não mate, dê chance de vida a quem quer viver!
 Nós precisamos de ar puro…você também precisa!
 Não use suas mãos para destruir, elas serão mais úteis na construção.
 Pense nisso… e por favor…
 Pare agora, com essa destruição.

FERNANDO REIS COSTA
Mãe Natureza

 Ó estirpes que se extinguem da beleza
 Que a mãe Natureza ao homem deu!
 Vemos hoje que a própria Natureza
 Está sendo destruída… e se perdeu!

 E o homem, ambicioso e com frieza,
 Quer mais e muito mais em cada dia:
 Destrói cada vez mais a Natureza
 Buscando tostões na tecnologia!

 Lembremos a paisagem, outrora linda;
 Hoje… terra de cinzas, tão queimada;
 No ar, o oxigénio quase finda…

 E se a destruição continuar ainda
 No ritmo que leva, acelerada…
 O homem-suicida fica “nada”!
––––

GLADYS OVADILLA
Amazônia

 Amanecía en la amazónica,
 Con sus tintes de colores,
 Mirando en silencio,
 En la orilla azotaba el agua,
 Color león con fuerza,
 Meditando escuche el
 Bullicio de las aves,
 Prolongando su vuelo,
 Recuerdo caminar en redomona,
 Mis pies parecían quebrarse,
 En medio del lodazal,
 Quede petrificada, no veía más
 Que árboles y pastos,
 Tacita quede hasta el hartazgo,
 La claridad deteniéndome asustada,
 Los maravillosos árboles talados,
 ¡Señor de los cielos! no puede ser,
 Tedioso en el paseo vi. árboles caer,
 Sin retaceo temí lo peor, lo encontré,
 La tierra vacía sin quejas,
 Se robaron el monte Mister,
 Desigualando el clima y al indígena,
 Su habitad infalible de tanto siglos,
 Osadía, los verdugos traficantes,
 Los montes con sañas se llevaron,
 ¡Vuelven por más! A cegarlos todos,
 El obraje oscurecido secuestro el aire,
 Cambio el clima, los vientos, y el agua misma,
 No son nubes pasajeras, son aguacero,
 Torrentosos interminables, que corren por
 Las ciudades incalculables,
 Al mundo globalizado, estamos perdiendo,
 Por culpa de la amazona que esta muriendo,
=============
HERMES JOSÉ NOVAKOSKI
Amazônia! Quem Te Ama?

 Te destruímos, queimamos
 Derrubamos tua riqueza
 Nós não mais te amamos
 Queremos apenas tua nobreza

 Teus rios nós os poluímos
 As fontes estão secando
 As aves nós as matamos
 Com os animais acabamos

 Tua grandeza e imensidão
 Ainda não entendemos
 O bem que tu nos fazes
 Ainda não percebemos

 Nem os teus filhos te amam
 Destroem o que vêem pela frente
 Eles não sabem ainda
 Que te destruindo, destroem muita gente

 Deixamos as marcas da destruição
 Porque queremos enriquecer
 Tua morte não será em vão
 Contigo vamos perecer

 Perdoa-nos Amazônia! Não te amamos como mereces
 Em vez de te tratar como um rei, uma rainha
 Te fazemos sofrer para que seques e desapareças
 Não nos importa a vida, mas as riquezas que tinhas

 Os que te amam contigo choram
 São poucos, mas são nossos amigos
 Lutam para te defender do malvado e imploram
 Que tu tenhas piedade e não envies castigos

 Seguirás o teu ciclo
 Nós sofremos as consequências
 O homem é o pior dos bichos
 Que destrói por prepotência

 Os que te amam pensam em ti e em si
 Pois sabem que sem o ar, a água, a biodiversidade
 A vida vai aos poucos se extinguir
 Marcas do capitalismo e egoísmo: a infelicidade

 Pensar em ti é pensar no futuro
 Que tu nos garantirás
 Uma vida livre, sem muros
 A liberdade em fim reinará.

Fonte:
http://www.familiaborbapinheiro.com/ciranda_amazonia.htm

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Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 10 – A volta de Dona Benta

No dia marcado, ali pelas dez horas da manhã, Emília e a Rãzinha ouviram rumor de automóvel na estrada. Correram à varanda. Vinha vindo uma porção de carros, com Dona Benta, tia Nastácia e os meninos no da frente.

Ao entrarem no terreiro Emília adiantou-se para recebê-los. Os homens da Comissão apearam e despediram-se de Dona Benta com muitas palavras de agradecimento e amabilidades.

– Pois é isso – disse-lhes a boa velha. – Sigam lá na Europa as minhas instruções que tudo dará certo. Adeus, adeus! Mil recomendações ao Rei Carol e ao Duque e à Duquesa de Windsor – gostei muito dela. E digam ao Mussolini e ao Hitler que apareçam quando puderem, para um passeio no Quindim. Adeus, adeus!

Os automóveis da Comissão partiram na voada.

Depois que desapareceram lá na curva, Dona Benta entrou para a saleta com os meninos e tia Nastácia foi para a cozinha. Mas …     que era aquilo? Não estavam reconhecendo a velha saleta da entrada.

Tudo esquisito, tudo diferente.

– Que é isto, Emília? Que significam estas mudanças?

Emília contou tudo.

– Eu reformei a Natureza – disse ela. – Sempre tive a idéia de que o mundo por aqui estava tão torto como a Europa, e enquanto a senhora consertava a Europa eu consertei o sítio.

– Consertou o sítio?!… – repetiu Dona Benta sem entender coisa nenhuma. – Que história é essa?

Narizinho interveio:

– Eu bem disse, vovó, que ela queria ficar sozinha para fazer coisas malucas. Fui lá ao meu quarto e encontrei a cama pendurada no forro, imagine ! …

– E eu – disse Pedrinho entrando – fui á biblioteca e encontrei os seus livros cheirando a alho e cebola. Abri um, provei; gosto de sopa; páginas adiante, gosto de carne assada …

O assombro de Dona Benta não tinha limites e por mais que Emília explicasse ela ficava na mesma.

Súbito, deu com a Rãzinha.

– Quem é esta menina? – perguntou.

– É a Rã.

– Que rã?

– A Rãzinha da Silva, minha amiga do Rio, que veio ajudar-me na reforma da Natureza.

O assombro de Dona Benta crescia, e cresceu ainda mais quando tia Nastácia apareceu aos berros.

– Sinhá, Sinhá, está tudo esquisito lá na cozinha ! Pus o leite no fogo; assim que começou a ferver, assobiou!…

– Assobiou, o leite, Nastácia?

– Sim, Sinhá, assobiou, e o fogo no mesmo instantinho apagou por si mesmo. Aquilo está com feitiçaria, Sinhá. Andou alguma bruxa por aqui…

– A bruxa é ela – disse Narizinho apontando para Emília. – Diz que reformou a Natureza …    

Dona Benta não voltava a si do espanto.

– Mas que absurdo, Emília, reformar a Natureza! Quem somos nós para corrigir qualquer coisa do que existe? E quando reformamos qualquer coisa, aparecem logo muitas conseqüências que não previmos. A obra da Natureza é muito sábia, não pode sofrer reformas de pobres criaturas como nós. Tudo quanto existe levou milhões de anos a formar-se, a adaptar-se; e se está no ponto em que está, existem mil razões para isso.

– Não acho! – contestou Emília cruzando os braços. – A obra da Natureza está tão cheia de “bissurdos” como a obra dos homens. A Natureza vive experimentando e errando. Dá cem pés á centopéia e nem um para as minhocas – por que tanta injustiça? Faz um pêssego tão bonito e deixa que as moscas ponham ovos lá dentro e dos ovos saiam bichos que apodrecem a linda carne dos pêssegos – não é uma judiação? Veste os besouros com uma casca grossa demais e deixa as minhocas mais nuas do que a careca do Quindó – isso é erro. Quanto mais observo as coisas mais acho tudo torto e errado.

Mas sem demora começou a ser desmentida. Um tico-tico entrou na sala e disse com muito desespero para Dona Benta:

– Minha boa senhora, livrai-me do que a Emília fez em mim. Transformou-me em passarinho ninho, com ovos às costas, e isso tem sido uma atrapalhação medonha, porque não me deixa voar com desembaraço, e desse modo não consigo escapar aos meus perseguidores.

– Que história de passarinho-ninho é essa? – perguntou Dona Benta, e quando soube de tudo abriu a boca. Era demais a ousadia da Emília. Alterar daquele modo a Natureza! Mudar as coisas que levaram milhões de anos para se equilibrarem …     E agarrando o tico-tico desfez-lhe o ninho das costas e guardou os três ovos para pô-los no ninho natural que ele fizesse pêlo sistema antigo.

Estava ainda a lidar com a pobre ave, quando Pedrinho apareceu de novo, muito assustado.

– Vovó, o que aconteceu aqui no sítio parece até um sonho! Encontrei Quindim completamente transformado, com couro de palhinha, a Branca de Neve com os anões pintados no casco, quatro pernas diferentes, cem rabos, e em vez de chifre uma seta de Cupido com um coração na ponta. Imagine! Não dá a menor idéia dum bicho possível !…

A boca de Dona Benta abriu de caber dentro uma laranja.

– E o Rabicó, então? – continuou Pedrinho.

– Está com cauda de cachorro lulu, toda frisadinha, e só com dois pés – e pés de tartaruga. E com uma ratoeira no focinho e um lenço automático no nariz!…

– Sinhá! Sinhá! – voltou tia Nastácia berrando. – O mundo está perdido. Já não entendo mais nada. Fui ver a Mocha e sabe o que encontrei? Um bicho sem propósito, com a cauda no meio do lombo, chifre de saca-rôlha com bola de borracha na ponta, e as tetas fora do lugar, com duas torneirinhas, Sinhá, imagine! E o chão anda cheio de moscas sem asa. E um pernilongo cantou no meu ouvido uma música tal e qual aquela que lá na Conferência sêo “Churche” mandou os músicos tocarem para a senhora ouvir – direitinho! Eu não fico mais nesta casa nem um minuto. Isto virou “hospiço” de feiticeiros, Sinhá! Tudo atrapalhado, sem jeito. Ninguém entende nada de nada. Fui encontrar a sua cadeirinha, Sinhá, pregada lá no forro! Subi na escadinha de lavar vidraça, peguei a cadeira pela perna e puxei – e quem disse da cadeira descer? Parece que está pregada no forro com elástico. A gente larga dela e ela sobe outra vez.

– É a força centrípeta – explicou a Rã.

– Centrífuga – corrigiu Emília – e contou a história da supressão do peso.

Tia Nastácia passava a mão num galo que tinha na testa. A negra estava verdadeiramente zonza.

– E ainda tem mais, Sinhá – disse ela. – Imagine que me sentei debaixo da jabuticabeira, e sabe o que aconteceu? De repente uma coisa enorme caiu lá do alto em cima da minha cabeça. Era uma abóbora, Sinhá! Uma abóbora deste tamanho! Fiquei tonta uma porção de tempo, nem sei como não morri. As abóboras andam agora nas jabuticabeiras, Sinhá. Veja que “bissurdo.”

——-
continua…

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Folclore dos Estados Unidos (Lenda Indígena Abenaki: História da Criação e A Importância de Sonhar)

Grande Espírito, em um tempo não conhecido por nós olhou aproximadamente e não viu nada. Sem cores, sem beleza. Tempo ficou em silêncio na trevas. Não havia nenhum som. Nada poderia ser visto ou sentido. O Grande Espírito decidiu preencher esse espaço com luz e vida.

De seu grande poder, ele comandou as faíscas da criação. Ele ordenou Tolba, o grande da tartaruga para vir das águas e tornar-se a terra. O Grande Espírito moldou as montanhas e os vales nas costas de tartaruga. Ele colocou as nuvens brancas no céu azul. Ele ficou muito feliz e disse: “Tudo está pronto agora. encherei este lugar com o movimento feliz da vida. “Ele pensou e pensou sobre que tipo de criaturas que ele faria.

Onde é que eles vivem? O que eles fariam? Qual seria o seu propósito ser? Ele queria um plano perfeito. Ele pensou tanto que ficou tão  cansado e adormeceu.

Seu sono foi cheio de sonhos de sua criação. Ele viu estranhas coisas em seu sonho. Ele viu animais rastejando sobre quatro patas, alguns em duas. Algumas criaturas voando com asas, alguns nadavam com barbatanas. Lá  haviam plantas de todas as cores, cobrindo o chão por toda parte. Insetos zumbiam ao redor, os cachorros latiam, os pássaros cantavam, e os seres humanos chamados uns aos outros. Tudo parecia fora do lugar. O Grande Espírito pensou que ele estava tendo um sonho ruim. E pensou que nada poderia ser este imperfeito.

Quando o Grande Espírito despertou, viu um castor mordiscando um ramo. E percebeu o mundo de seu sonho tornou-se sua criação. Tudo ele sonhou havia se tornado realidade. Quando ele viu o castor fazer a sua casa, e uma represa para fornecer uma lagoa para a sua família  nadar, então ele sabia que cada coisa tem o seu lugar, e fim no tempo.

Tem sido dito entre o nosso povo de geração em geração. Não devemos questionar nossos sonhos. Eles são a nossa criação.

Fonte:
Toca da Morgana

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) XIV

foi mantida a grafia original.
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OS PALHAÇOS

Heróis da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
Eu gosto de vocês,
Porque amo as expansões dos grandes risos francos
E os gestos de entremez,

E prezo, sobretudo, as grandes ironias
Das farsas joviais.
Que em visagens cruéis, imperturbáveis, frias.
À turba arremessais!

Alegres histriões dos circos e das praças,
Ah, sim, gosto de vos ver
Nas grandes contorções, a rir, a dizer graças
De o povo enlouquecer,

Ungidos pela luta heroica, descambada,
De giz e de carmim,
Nas mímicas sem par, heróis da bofetada,
Titãs do trampolim!

Correi, subi, voai num turbilhão fantástico
Por entre as saudações
Da turba que festeja o semideus elástico
Nas grandes ascensões,

E no curso veloz, vertiginoso, aéreo,
Fazei por disparar
Na face trivial do mundo egoísta e sério
A gargalhada alvar!

Depois, mais perto ainda, a voltear no espaço,
Pregai-lhe, se podeis,
Um pontapé furtivo, ó lívidos palhaços,
Luzentes como reis!

Eu rio sempre, ao ver aquela majestade,
Os trágicos desdéns
Com que nos divertis, cobertos de alvaiade,
A troco duns vinténs!

Mas rio ainda mais dos histriões burgueses,
Cobertos de ouropéis,
Que tomam neste mundo, em longos entremezes,
A sério os seus papéis.

São eles, almas vãs, consciências rebocadas,
Que enfim merecem mais
O comentário atroz das rijas gargalhadas
Que às vezes disparais!

Portanto, é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
Nas cómicas funções,
Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
De riso as multidões!

E eu, que amo as expansões dos grandes risos francos
E os gestos de entremez,
Deixai-me dizer isto, ó nobres saltimbancos:
Eu gosto de vocês!

A HIDRA

Há muito que desceu das orientais montanhas
A hidra singular que espalha nas ardências
Duma luta febril cintilações estranhas!

Ela galga, rugindo, às grandes eminências,
E enquanto vai soltando o silvo pelo espaço
Engrossa à luz do sol na seiva das consciências.

Tem rijezas sem par, como de roscas de aço
E corre descrevendo em giros caprichosos
Na leiva popular um indefinido traço.

Prefere aos antros vis os focos luminosos
E em mil voltas cruéis aperta dia a dia,
Numa longa espiral, os tronos carunchosos.

Passou pelo país da cândida Utopia:
Nos míticos rosais viveu dum vago aroma
Ao pálido fulgor da aurora que rompia.

Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
E sem temer sequer a lúgubre viseira
Há muito que transpôs os pórticos de Roma.

E os Papas mais os reis sentindo-a na carreira
Do seu longo triunfo, um tanto apavorados,
Trataram de acender a lívida fogueira.

E ao galope lançando os esquadrões cerrados
Começaram depois, na terra, a persegui-la,
A cúmplice fatal dos lívidos Pecados!

Mas ela sem temor, nos cérberos tranquila,
Derrama cada vez mais belos e fecundos
Os intensos clarões da lúcida pupila,

E enquanto a imprecação de tantos moribundos,
Os déspotas cruéis, acolhem com desdém,
A hidra imensa — a Ideia — a farejar nos mundos
Ainda a garra adunca afia contra alguém!

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Marciano Lopes (A Poética do Solarium, de Rodrigo Garcia Lopes)

Solarium, primeiro livro individual de Rodrigo García Lopes, reúne o fruto de mais de dez anos de caminhada poética, o que explica a variedade de influências e identidades literárias muitas vezes contraditórias – entre as quais se encontram poetas ingleses e americanos, incluindo a geração beatnik e autores mais contemporâneos, como Sylvia Plath (de quem é tradutor); os poetas fundadores da modernidade, tais como Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud (de quem também é tradutor); o concretismo brasileiro e a poesia oriental, representada principalmente pela poética do haicai. E na alquimia resultante de todas estas leituras, duas grandes vertentes temáticas se sobressaem em seu livro de estréia: por um lado, uma poesia que tematiza o caos da modernidade, trazendo à tona os conflitos e a barbárie do mundo urbano, massificado pela tecnologia e pelo mercado; por outro, uma poesia que recusa a massificação e o narcisismo comuns ao homem moderno, buscando na filosofia do zen-budismo o caminho reto para a iluminação e a ascese. Nas próprias palavras de Rodrigo Garcia Lopes (1996, p. 139-140), é possível afirmarmos que a tensão dominante em sua poética resulta, em parte, do “diálogo entre o impulso apolínio à forma-objeto de Mallarmé e o impulso dionisíaco à imagem-música de Rimbaud”, nos quais se encontram dois dos principais procedimentos (não antagônicos, em sua opinião) da poética contemporânea.
  
Dioramas e Polaróides

Nas duas primeiras partes de Solarium – intituladas “Dioramas” e “Polaróides” – predomina uma poesia sintética e racionalmente elaborada que busca uma linguagem poética autônoma, pois regida por uma sintaxe própria que valoriza principalmente o espaço em branco da página – conforme a lição pioneira que Mallarmé nos deu com seu poema Un coup de dés jamais n’abolira le hasard.

Em vários poemas, como Phanums, Outro outono, Zen Breakfast Club, Morning Glory e Tempestade invisível, encontramos a eleição de uma sintaxe espacial resultante de diferentes direções, sentidos e configurações da composição tipográfica no branco da página; e associado a esse primeiro passo rumo à desintegração do verso e da sintaxe linear através de uma “subdivisão prismática das idéias”, também encontramos o recurso da desintegração e do recorte das palavras, que e. e. cummings utilizava de maneira a ampliar-lhes o potencial significativo – conforme se vê no poema Não minto.

O predomínio da visualidade que estamos apontando na utilização de diversos recursos gráficos e espaciais em substituição à linearidade discursiva também nos remete ao concretismo, presença marcante nestas duas primeiras partes que compõem Solarium e que encontra uma bela realização artística no poema snow here. Nele, as letras da palavra neve (snows) são dispostas na página de maneira a representar visualmente o movimento de queda dos flocos de neve. À medida que se aproximam do solo/pé da página, os flocos maiores, que são as palavras, vão se desintegrando e assumindo novas formas-flocos que geram novas palavras e significados, pois as letras, soltas no branco da página, dançam um balé, ora se separando, ora se juntando, de modo a produzir novas e conflitantes palavras e significações. Paradoxalmente, a neve (snows) que cai agora (now), cai aqui e em algum/nenhum lugar (nowhere).
  
Seguindo a trilha que privilegia a significação através da imagem em detrimento da lógica linear, também é recorrente na poesia de Rodrigo G. Lopes o recurso ao ideograma. Um bom exemplo é o poema peônias negras, formado por sete haicais que, seguindo a  tradição oriental, desenvolvem seus temas a partir de imagens da natureza. Imagens que, nesse caso, constituem metáforas da transitoriedade da vida e das coisas:

peônias negras
serenas
quase secas

(…)

o inverno
furta a flor
a cor da fruta

(…)

a tarde passa
arrasta e deixa
um rastro prata.
                 (peônias negras)

É importante ressaltar que a importância dada à imagem e à utilização dos recursos espaciais e gráficos não ocorre em detrimento da sonoridade, pois a preocupação com a melopéia encontra-se presente em todo o livro. Dois exemplos são os poemas Cet obscur objet du désir e Montanhas:

no café del prado
em barcelona
um bando de pombas
rebolam pelas ramblas
                (Cet obscur objet du désir)

não são nuvens
mas tão brancas

solitárias
(mas são tantas)
                  (Montanhas)

Ainda considerando a melopéia, são dignos de nota o leminskiano tudo tem sentido, onde o poeta joga com os diferentes sentidos da palavra “sentido”; e os poemas você me toca e somos, nos quais reencontramos o tema da ausência do Eu e a conseqüente solidão que permanece existindo, mesmo quando estamos lado a lado com alguém que desejamos ou no meio da multidão, conforme se vê no poema você me toca. Nele, parodiando Baudelaire, o poeta deseja uma passante que se perde na multidão, inacessível ao seu desejo. A diferença com o poema de Baudelaire fica por conta da mudança de tom. No poema dele, esse é marcado pelo tormento resultante da efemeridade das relações e pela insatisfação do desejo; no poema de Rodrigo, é marcado pela aceitação da efemeridade e do caos da vida moderna que, ao invés de atormentar o flaneur/vouyer, docemente o entretém nas horas vagas. O desejo que antes expressava a angústia da solidão e do vazio em meio ao caos e à multidão do mundo moderno torna-se um sentimento tão passageiro e supérfluo quanto a sedutora passante:

você me toca

você me toca
como quem troca
de roupa

você me provoca
e troça
dessa minha doce
distração

pra que tanta pressa
você
mulher na multidão?

Solarium

Na terceira parte, intitulada “Solarium”, a busca de uma nova linguagem se faz principalmente através da vertente dionisíaca. Diversamente do que vimos nas duas primeiras partes, o autor deixa de privilegiar o planejamento racional e objetivo, que caracteriza o concretismo e a poesia de Mallarmé, em favor dos impulsos e divagações, nem sempre conscientes, que caracterizam uma dicção muito próxima daquela que marcou a poesia de Rimbaud e da geração beatnik. Nela, predominam longos poemas de versos livres, em que o texto, aparentemente linear, se desenrola de modo fragmentário como em um fluxo de consciência, sem que haja um único fio condutor do discurso e, portanto, sem maior coesão e coerência.

A menção ao uso de drogas, como acontece no poema Phanopium, cujo título pode ser interpretado como a aglutinação de phanus e/ou phanopéia mais opium = ópio, constitui um outro índice de afinidade com a poesia de Rimbaud e dos Beatniks. Na busca de uma nova linguagem, Rodrigo Garcia Lopes procura despersonalizar a linguagem através da negação de qualquer centro discursivo, de modo que a representação ocorra através de uma sintaxe descontínua e fragmentada – o que resulta em um processo esquizofrênico de captação alegórica, sinestésica e ideogrâmica do que costumeiramente chamamos de mundo real (o que é claramente tematizado no metapoema Processo). Com tais procedimentos, perde-se a noção de tempo e espaço, os sentidos se misturam e se espera que a personalidade desapareça.

Em vários poemas desta parte do livro, também encontramos a tematização da cidade como caos e a negação do consumismo, da mecanização, da violência e da exploração presentes na sociedade burguesa. A América urbana e tecnológica, massificada e violenta, é comparada à cidade de “Roma em chamas” (América # 2). Nas megalópolis – representadas no poema New York – não há mais espaço para a reflexão, o sentimento e a utopia. Nelas, “a serpente das ruas arrasta seus ruídos, raps & neons / devora um real que acumula seus pós / sobre nós, camadas / de civilização sem fim e sem saída”.
 

Caos urbano digno do cenário de filmes como Blade Runner, a cidade de New York representa a demência e a desumanização de uma sociedade regida pela racionalidade pragmática, pela idéia do progresso material e técnico que leva o homem à escravidão dos relógios. Nesse mundo fragmentado e sem sentido, que também encontramos no poema “M”, os seres humanos são reduzidos ao estado de mercadoria, cujas relações são medidas pelo moderno desing do corpo e pela produtividade do prazer tecnológico.

Em busca de phanus

 A constância dos temas da dissolução da realidade e do Eu não deve ser vista apenas como uma crítica ao padrão de vida moderno que, regido pela incessante produção de novas mercadorias e valores, dissolve e pluraliza as identidades em um caleidoscópio de máscaras. Outro importante aspecto que envolve o motivo da despersonalização  também se encontra na afirmação da primeira das quatro grandes verdades da mundividência budista, que perpassa todo o conjunto da obra.

Segundo a filosofia do budismo tudo é sofrimento, pois “não há coisa alguma que não esteja submetida a incessantes mudanças. E quanto mais o homem se esfalfa, procurando alguma coisa permanente a qual se possa apegar neste mundo efêmero, tanto mais sofre” (Gira, 1992:53). A verdade está no karma, que leva o homem ao infinito ciclo de renascimentos e mortes neste plano cósmico marcado pela imperfeição e pelo sofrimento. E outra não parece ser a lição que encontramos em tantos poemas de Rodrigo Garcia Lopes. A transitoriedade que marca a existência dos seres também se estende ao Eu do indivíduo, pois para o budismo esse não possui unidade e permanência, o que nega a idéia de uma essência humana. Para Buda, a busca de um Eu permanente, ou seja, da realidade interior e do Absoluto, “não era diferente da procura da Fonte da Eterna Juventude. (…) E na mesma proporção em que um homem gasta suas energias em uma busca dessa espécie, se afasta da possibilidade real que teria de se libertar do samsãra” (Gira, 1994:55). Daí resulta a constância dos temas da busca infrutífera do Eu e da sua ausência, assim como da solidão e da estranheza entre os seres, mesmo quando eles estão lado a lado, numa cama ou na multidão.

(…) O que
carregamos são espelhos que refletem sempre
o diferente, enquanto nós, eu e você
mudamos juntos. Nuvens
                                               (Outras praias).

Na caminhada em busca da libertação, de acordo com as outras três nobres verdades, deve o homem abrir mão dos seus desejos e ouvir o que o “(…) outono / tem pra nos dizer: / tempo de se desfolhar / – cores, peles, percepções”, conforme lemos em Um poema para o deserto.

Na busca da iluminação, deve-se renunciar ao desejo de possuir um Eu permanente através de um comportamento reto, de uma disciplina mental em que a concentração constitui o caminho para a “eliminação de tudo aquilo que alimenta a ignorância do homem” (Gira, 1994:91). Daí a necessidade de se eliminar os “cinco agregados” que constituem aquilo que percebemos como um indivíduo: a matéria, as sensações, as percepções, os desejos e a consciência, em suma, todos os vínculos que ligam o homem ao mundo material. Somente assim, por esse processo de ascese e meditação, em que “(…) é preferível / eliminar este pensamento e deixá-lo livre” (Improvisos), é possível o encontro com a sabedoria, com a iluminação que caracteriza o nirvãna.

É devido ao diálogo com a filosofia do zen-budismo que encontramos constantemente, nas três partes da obra, a presença das imagens do outono e das folhas secas que o vento leva e que sempre se renovam, revelando em sua alegoria o eterno movimento cíclico da vida – conforme vemos em O eterno renovo do mesmo (poema concreto e metalingüístico pertencente a Dioramas). Desta forma também se explica a obsessão pelo deserto “com seus rios secos desde o começo / com sua sede sonora / com o sal que não pergunta / do sentido / deste paraíso perfeito” (Um poema para o deserto) em que não há “nenhum milagre a não ser / as coisas como são” (Sedona), onde “tudo é phanus” (O fotógrafo), ou seja: templo, iluminação – conforme o significado grego.

 Como vemos, o orientalismo e especialmente o zen-budismo atravessam o livro inteiro, convivendo com a racionalidade ocidental – tão bem representada por Mallarmé e pelo concretismo –, com a contracultura do movimento beatnik, e com a fragmentação alegórica de um mundo moderno (ou pós-moderno?) em ruínas. Em meio a este caos e à esquizofrenia geral, fica, no fim, a sensação de que o poeta luta entre ser um zen-fotógrafo – procurando congelar em suas iluminuras o tempo eternamente cíclico da existência – ou então ser um câmera-zen, almejando registrar o fluxo ininterrupto e fragmentário da existência.
_________________________
Referências Bibliográficas
GIRA, Dennis. Budismo: história e doutrina. São Paulo: Vozes, 1992.
LOPES, Rodrigo Garcia; MENDONÇA, Maurício Arruda. Iluminuras: poesia em transe. In: Rimbaud, Arthur.  Iluminuras: Gravuras Coloridas (Tradução de Rodrigo Garcia Lopes & Maurício Arruda Mendonça). São Paulo: Iluminuras, 1996.

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 Nota:  
Texto escrito originalmente para a saudosa revista eletrônica No Meio do Caminho, em Maio/2004.

Fonte:
MetAArte http://marcianolopes.blogspot.com.br/

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José Feldman (Universo de Versos n. 126 )


Uma Trova do Paraná

SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa


Ante os golpes do destino
jamais curve sua fronte,
note o pinheiro, menino,
tão altivo no horizonte!…
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Uma Trova sobre Ecologia, de Juiz de Fora/MG

JOSÉ TAVARES DE LIMA

Com revolta e desalento
vejo a queimada funesta
transformar em chão cinzento
o verdor de uma floresta…
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Última fonte de luz
entre as trevas da saudade,
a esperança ainda produz
um pouco de claridade…
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Nova Friburgo/RJ

RODOLPHO ABBUD


Em segredo, mas felizes,
na modéstia que arrebata,
do trabalho das raízes
surge a imponência da mata!…
============================
Uma Trova Humorística, de São João de Meriti/RJ

CLÉBER ROBERTO DE OLIVEIRA


Quanta coisa – minha nossa!-
leva a engano deprimente!…
-Vi que “casinha”, na roça,                                      
é banheiro… e tinha gente!                                         
============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Não tem ateu que me cale
pregando o que fez Caim,
e nem desgosto que abale
a Fé em Deus, que há em mim!
============================
Uma Trova Hispânica, da Espanha

ROSANA J. VERA VIDAL


Donde expira el nuevo mundo
dulce sueño se ha creado,
en un despertar fecundo
al viejo mundo versado.
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Niterói/RJ

ÉLEN DE NOVAIS FÉLIX


Há na queimada que enlaça
a floresta em fogaréu,
escura nuvem que embaça
os olhos azuis do céu.
============================
Trovadores que deixaram Saudades

MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ


Sombra da nuvem no monte,
sombra do monte no mar.
Água do mar em teus olhos
tão cansados de chorar!
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Mar inconstante e profundo,
de tristezas e alegrias!
– É berço para Raymundo
e mata a Gonçalves Dias…
============================
Um Haicai de São Paulo/SP

BÁRBARA VIEIRA BATISTA


Caminhada matinal
Geada por todo lado
Na praça vazia
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


O mar que geme e palpita
no seu tormento profundo,
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo.
============================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Flávio Roberto Stefani
*Glosa sem verbos*
Só Nós Dois


MOTE:

Meia luz… noite… a vidraça…
a cama… o beijo… e depois…
um brinde… o champanhe… a taça…
o amor… o sonho… nós dois…

GLOSA:

Meia luz… noite… a vidraça…
a lua… o céu… o luar…
o encanto… o vento com graça…
o sereno… a flor… o lar…

O quarto… lençóis… cetim…
a cama…o beijo… e depois…
volúpia… desejo enfim…
eu e você juntos… pois…

Beleza… as flores… a praça…
brisa… seresta… canção…
um brinde… o champanhe… a taça…
magia… vida… afeição…

O enlace… a paixão… o verso…
hoje… amanhã… o depois…
o infinito… o universo…
o amor… o sonho… nós dois!…
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Neste mundo, a certas vidas,
a morte seria um bem,
mas até a própria morte
se esquece delas também.
============================
O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


canta bem-te-vi
sol por todo o lado
natureza sorri
============================
Galáxia Poética do Francisco Pessoa

FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS
Fortaleza/CE

Queira Conversar com Deus
Faça Deus seu inquilino
Mas não lhe cobre aluguel
Nem mande assinar papel
Pois o contrato é divino
Se quer mudar seu destino
Para amenizar a dor
Nas veredas colha flor
Mas uma flor de verdade
Peça força de vontade
Ao Poder Superior.

Como revela a ciência
E eu mesmo comprovei
Só Deus sabe o que passei
Com a crise de abstinência
Percebi minha impotência
Perante aquela assassina
Sedutora messalina
Fez-me sua dependente
Uma paixão tão ardente
Pela tal da nicotina.

Tomei uma decisão
Fortaleci a vontade
Falei com sinceridade
Com meu frágil coração
Deus, a nós, nunca diz não
Se o pedido é salutar…
Queres experimentar?
Peça a ele como fiz
Sou hoje um homem feliz
Pois já deixei de fumar!!!
======================================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

As sereias


Fui pelo mar em fora. A recurva trirreme
Ampla, em prata estendendo um rastilho de espuma,
Leva, léguas além, a áurea canção que geme
E canra, d’harpa, e ri, nas cordas, uma a uma.

Vibra sempre a canção; adelgaça-se a bruma;
Surge a lua, e ao luar, a superfície treme
Do mar que a essa canção em colo a vaga apruma,
Extreme de paixões, de cóleras extreme.

Tão sugestivo é o canto, e entre as vagas do oceano
Os golfins e dragões sorvem-lhe o eco em tal dose,
Que pouco a pouco vão tomando o aspecto humano.

Súbito, cessa o canto e as sereias em rima,
Mudas pasmam de ver esta metamorfose:
– Monstros do ventre abaixo e deusas ventre acima.
============================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Astro Rei


O sol nasceu nesta manhã cinzenta,
Quase sem cor, sem luz e sem destino,
Quase perdido como nau sem porto
E mais disperso que alguém sem tino.

O sol nasceu nesta manhã de inverno,
Quase sem céu, sem terra e sem mar,
Como um errante louco e alucinado,
Quase sem nada para iluminar.

O sol nasceu nesta manhã tão pobre
Para um tão nobre astro que é o Rei
Que traz a luz a vida e o calor
E tantas coisas que ainda não sei.

O sol nasceu numa manhã sem nada,
Como uma estrada na escuridão,
Sem ter a luz que brilha e acalenta
Os passos firmes de nossos irmãos.

O sol se pôs numa tarde cinzenta,
Como nasceu no alvorecer do dia,
Quase sem cor, sem luz e sem destino
E mais disperso que alguém sem tino…

O sol morreu numa tarde cinzenta…
============================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Suavíssima


Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .   
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .

Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . .  No fim da tarde . . .  além da bruma . . .

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
============================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Velho Novo Amor


todos os dias acordo pensando
naquelas canções
que fiz um dia só pra contar da solidão
que ficou dentro de mim, será que você
não pode escutar
todas aquelas canções, todo o nosso amor

meu coração é só teu e você vive
sempre em mim
além de tudo, acima de qualquer razão
mesmo que você ainda não saiba
mesmo que nada saia do lugar
o sol ainda brilha pra nós, juntos ou
se estivermos tão só

lá, lá, lá …

aquelas velhas canções
aquele nosso velho novo amor
o sol ainda brilha pra nós
juntos ou se estivermos tão sós
============================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


céu de primavera –
as fendas para o azul
no branco das nuvens
============================
O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Soneto do Fim e do Medo


Quando chegar o fim, que sei e espero,
Não me assalte o desamparo e medo,
Mas seja grande encontro com o vero
Que deixa o moribundo mudo e quedo.

Tenho medo do medo, é o que tenho.
O desespero é a grande ameaça,
Que na hora do fogo sob o lenho
Até santo bendizer faz à fumaça.

O Medo e a Dor são quase unos,
Nascidos com minutos de distância
Entre os seus partos importunos.

E esses gêmeos tristes e inquietos
Convivem com a Vida e sua ânsia
De alegria sob o céu e sob os tetos…
============================
Uma Poesia de Belo Horizonte/MG

CLEVANE PESSOA

Mulher mulheres


Mulher é você, que tem
estrelas nos olhos
(mesmo na
chuva do pranto)
que faz
espaços de
flores
(até no deserto
ardente)
Você de quem
disseram outrora
não valer
quase nada,
mas que vale
tanto…
Mulheres são
vocês, feitas de fitas,
nuvens e encanto,
gosto de mar,
de vento,
cristal de luz
feito encantado
dentro da terra,
formando
pedras preciosas,
brilhantes
Geodi, Ágata,
Água
liquefeita em
sangue:
sorriso, defesa,
entrega, posse…
============================
Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Aquela aranha paciente,
que tece despercebida,
lembra o destino da gente
e as armadilhas, da vida!
==================================
Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Lua-de-mel


Eu e você, deitados lado-a-lado,
vamos chegando à mesma conclusão:
não existe futuro nem passado,
apenas um momento de ilusão.

Respirando uma só respiração,
não existindo certo nem errado,
compartilhamos de uma só emoção:
o casamento, em seu mais puro estado!

Em nosso momento único e infinito,
vamos lendo o que nunca foi escrito,
e cada qual cumprindo o seu papel.

Envolto pelo laço mais profundo,
vou penetrando aos poucos em teu mundo,
e o mundo cabe num quarto de hotel!

Cada instante do dia-a dia,

Cada instante do dia-a dia,
doce ou amargo,
recheado de fatos e sensações,
coberto com feitos,
é a vida ou a vivência
de uma história à parte.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

BICHO DA CONTA


Estas lengalengas dirigidas a insetos, eram ensinadas ás crianças para elas dizerem quando encontravam um deles nos campos. Era uma maneira de as ensinar a ter respeito pela natureza.

Debaixo da pedra
 Mora um bichinho
 De corpo cinzento
Muito redondinho

Tem medo do sol
Tem medo de andar
Bichinho de conta
Não sabe contar

Muito redondinho
Rebola, no chão
Rebola, na erva
E na minha mão

http://luso-livros.net/
============================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio…
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí…
como um salso chorando
na beira do rio…
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)
============================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Só um dia?


eternamente indecisa
rainha do lar
ou serva da vida?
================
O Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Cântico


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
============================
Uma Poesia de Portugal

CESÁRIO VERDE
Lisboa (1855 – 1886)

Cabelos


Ó vagas de cabelos esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal do hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um pobre sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direcção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e enlanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de Verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos,
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.
……………………………….

Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.
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O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Caridade verdadeira,
Em todos os seus caminhos,
Quando oferece uma rosa
Sabe tirar os espinhos.
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Gestação do arco-íris
Leveza atestando o efêmero
— Bolha de sabão.
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

De  Mãos  Dadas

Ando na vida de mãos dadas
com a tua lembrança…

– E para que falar em esperança?

Não sei onde me levará esta ansiedade,
ou esta melancolia
cheia de umidade,
a me envolver como uma cerração…

Para a loucura?
Para a felicidade?
Ou para este morrer de cada dia
de quem vai tateando em noite escura …
cego do coração?

Que fazer?  Ando na vida
como quem anda
– perdido, andando em vão…

Ando na vida de mãos dadas
com a tua lembrança,
a fazer roda em silêncio… numa triste ciranda
sem canção…
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Aqui tudo pode
Até a cabra
fica de bode
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Um Soneto de Indaiatuba/SP

LUCAS MUNHOZ

O espelho do mar


 Olha-me, pelo espelho… Os meus poderes!
 Lembro-me, se cessar os teus fulgores;
 Lembro-me, ao meu olhar dos ditadores
 Ao luar poderoso, sem tolheres!…

 D´água que chora o Deus, pelos colheres!
 A lua primorosa, e os teus rigores
 Dos ares perfumosos, pelas flores
 Tens os entes perfeitos dos cozeres.

 Quanto a ti, pelos sonhos desejáveis!
 Lua, e os meus corações que me conheces
 São os deuses amáveis e adoráveis.

 Ao mar dos corações, pelo carinho!
 Amo-te, agora foste o mar que teces…
 Olho-te, pelo véu limpo, sozinho.
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O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Deus me deu cinco filhos e, feliz,
eu cumpri para os céus essa missão;
sinto neles a minha própria vida
como os dedos que toco, em cada mão,
quando rezo por todos, de hora em hora…
São pedaços de mim que vejo fora
porém nunca tirei do coração.
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O Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Quem Te Olhou nos Olhos


Quem Te olhou nos Olhos,
ouviu a canção das nuvens,
executada nas cordas solares.
E viu os lírios do coração se abrirem.
E naquele momento, sentiu
os justos se perderem de suas angústias
e as astúcias dos pensamentos
se converterem em serenos faróis.

Decifrou ele, em Teu Olhar,
os veios profundos
que no infinito desenham as estrelas,
teto de um mundo
que ainda vale a pena,
quando há no Ser o sonho
de reencontrar o verdadeiro lar.

Quem Te olhou nos Olhos,
sabia que estava diante do manancial solar,
maestro da lua, do mar
e de todos os vales profundos
onde ainda respiram os náufragos
e os insensatos passos dos absurdos.

Ao fitar Teus Olhos,
com certeza alimentou-se dessa aurora
e vestiu-se de gente pela primeira vez,
estreando a vida,
sentindo-se sagrada e ascendida criatura,
seiva da terra remida.

Aquele que Te fitou os Olhos
fez de si mesmo uma candeia eterna,
consciente de que ao olhar o próprio céu,
humanamente auto-gerou luz à sua hora
e enfim, se reconheceu.

Quem Te olhou nos Olhos
recebeu asas para a caminhada
ao longo dos séculos.

Nasceu.
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Uma Poesia Além Fronteiras

CÂNDIDO DA VELHA
Angola (1933)

As Idades da Pedra 1


É do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.

Este permanente arfar marinho
desperta a ressonância de oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.

Cheiros de primeira pâtria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira o corpo na fronteira do mar.

Reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vermos,
na babugem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.
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O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

A Serenata


Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

As ondas


Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto mar anima as ondas.
Sobem das fundas úmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:

Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.

Coxas de vago ônix, ventres polidos
De alabatro, quadris de argêntea espuma,
Seios de dúbia opala ardem na treva;

E bocas verdes, cheias de gemidos,
Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma,
Soluçam beijos vãos que o vento leva…
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema da Necessidade


É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
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UniVersos Melodicos

Wilson Batista e Sílvio Caldas

MEUS VINTE ANOS

(samba, 1942)

Neste samba, Wilson Batista vive um bom momento de sua carreira como letrista. Em versos simples, ele focaliza um problema existencial: o inconformismo do homem diante da velhice. Essa realidade indesejada é pressentida pelo protagonista “Nos olhos das mulheres” e confirmada no “Retrato da sala”, que “Faz lembrar com saudade” a sua mocidade.

Surpreendentemente, Wilson tinha apenas 29 anos na época em que fez a composição. Autor da melodia, Sílvio Caldas é também o intérprete de “Meus Vinte Anos” num disco que, lançado no final de 42, estendeu seu sucesso a todo o ano seguinte.

Nos olhos das mulheres
No espelho do meu quarto
É que eu vejo a minha idade
O retrato na sala
Faz lembrar com saudade
A minha mocidade

A vida para mim tem sido tão ruim
Só desenganos
Ai, eu daria tudo
Para poder voltar
Aos meus vinte anos.

Deixaste minha vida
A sombra colorida
De uma saudade imensa
Deixando-me ficaste
Mostrando-me o contraste
Matando a minha crença

E hoje desiludido
Muito tenho sofrido
Cheio de desenganos
Ai, eu daria tudo
Para poder voltar
Aos meus vinte anos.
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Uma Cantiga Infantil de Roda

PASSARINHO DA LAGOA

(cateretê/toada, 1949)

É uma roda de meninas, cantando:

Passarinho da lagoa
Se tu queres avoar
Avoa, avoa
Avoa já

O biquinho pelo chão
As asinhas pelo ar
Avoa, avoa
Avoa já

Quando dizem — O biquinho pelo chão — todas se curvam, imitando o passarinho. Quando cantam — As asinhas pelo ar — todas levantam os braços e balançam, imitando o bater das asas dos pássaros

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Gatas de Boa Viagem


Ao passeio matinal,
raios do sol mediterrâneo,
já me indaguei sobre mistérios
e à presença súbita de um anjo
foi-me dito,
pela boca sagrada do anjo: – É mais fácil secar este mar
com este pequeno balde…
Desta vez,
o inconsúltil mar-oceano,
um pequeno buraco, de areia,
uma pequena mulher,
angela da manhã,
uma pequena vasilha,
aos raios deste sol do equinócio,
brilham as águas verdes,
brilham-me, na memória, teus olhos verdes,
verdes campos, verdes matos;
azuis, os céus que também brilham…,
e ………………………………………………. de joelhos,
consulto o horizonte
à procura
do teu rastro, amor!

Testemunha-me a brisa da manhã,
certificam-me as algas marinhas
volutas conchinhas me dizem: ela está longe, meu poeta!
estamos longe, milhas e milhas,
miríades de passos – espaço –
muito longe…
Rastejo outra vez o horizonte
e à minha frente a mesma mulher,
de todos os dias,
a mesma vasilha, de todas as manhãs:

– Afinal, minha senhora, bons dias,
esse balde de areia…
algum aterro?
Sou um poeta, meio sonâmbulo,
desculpe, bons dias,
por favor?!

– Este balde de areia,
eu o levo todos os dias,
é a minha penitência,
a minha saudade;
quando eu era menina,
li a história de um rei,
um travesseiro,
também de areia…
– Quem repousava no meu travesseiro
[e fez o gesto: era regaço]
em viagem,
e aí eu busco esta areia
e espero…
mesmo sabendo que não…,
[e fez o gesto: era infinito]
mesmo assim, todos os dias,
um balde bem cheio. São histórias do mistério,
mistérios da areia,
mistério trino, Agostinho;
são histórias da saudade,
saudade ímpar, minha senhora:
Bom dia, até amanhã!
Um instantim,
senhor poeta,
esta areia que colho,
esta penitência que recolho
é para as minhas gatas…

Três,
lindas…
Uma está de gatinhos…

[…] O senhor quer um? Sim, eu quero!
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Ter


Tem o motivo: livro marcado
na página do meio. Metade
devorada em traço. O sinal
sublinhando a frase. Eu te amo
diz o personagem. E tu morres
em mim. Desnorteado tem o ensejo
de se fazer longe no estático
monumento aos mortos. O amor
avança páginas de palavras
na dominação dos personagens.
Tem a razão elencada em cisma.
Sismo: a gradação da tragédia.
=============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Sem Ter Amor É Difícil Viver

(Acróstico-poético nº 5075)

S-Se eu pudesse, tudo te dizer…
E-Entrelinhas do meu sofrer,
M-Marcadas pela despedida…
 –
T-Tomei-te aos belos braços
E-E trocamos fortes abraços
R-Revivendo um tempo de vida!
 –
A-Amamos sim, por tantos anos!
M-Matamos tantos sonhos insanos:
O-Os atrasos e a ausência dolorida
R-Revelaram enorme mágoa sentida!
 –
É-É tão difícil viver sem amor!
 –
D-Dia tornou-se longo e triste!
I-Infausta decepção com sabor
F-Fatídico de culpa que não existe.
Í-Inadimplência ao juramento sem efeito,
C-Contratado com plano inadequado?
I-Inacreditável como é que o amor acaba!
L-Lutar contra quem não quer mais nada?
 –
V-Vale a pena calar ao ver que a casa desaba
I-Inteira diante da imputação sem solução…
V-Voto vencido sem direito à declaração:
E-Enfado da culpa silenciosa que não agride
R-Repete à mente:-Faz falta a relação amorosa!
==========================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG


E você traz a luz do dia seguinte

A noite chega e impresso você vem
O carinho registrado, em mim é selo
Nessa cela meu corpo quer um bem
E sinto os seus dedos em meu cabelo.

É concreto, sinto, presencio e penso:
É tão forte, conheço esse sentimento
A alma berra o quer, e o corpo tenso
E ondas me trazem a sua voz ao vento.

Nada me rouba, já sou sua por direito
É um merecimento dual, e necessário
Palpita inexplicável chama no peito.

O sol a virar a esquina, já se anuncia
Quebro a sua voz em uma despedida
Na fresta da janela a clareza é poesia.
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

MINHA MÃE

(Imitação de COWPER)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera
Viver feliz com minha mãe também!
C. A. De Sá


QUEM Foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança
Dourou: – é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor – anjo do bem
Minha fronte infantil – encheu de rosas
De mimosos sorrisos? – Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe.
Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? – Minha mãe’
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso
Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: – minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma
Para ter minha mãe!
==========================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Amor imaginário


É maravilhoso, quando pela manhã,
encontro seu sorriso sereno à meu lado,
e com seus beijos exploradores, me delicio,
e o amor se faz, ao cantar dos pássaros.
E assim, nosso dia começa:
Com o café na cama, a seguir,
recheado de muito amor.

Quando você, para o trabalho sai,
com um ardente beijo, nos despedimos,
e é como se o mundo, nesse momento, parasse,
pois, apaixonados estamos, cegos de amor,
como no primeiro dia em que nos vimos,
naquele baile em que você,
para dançar, me convidou, alegremente.

Vivo hoje esse amor assim, intensamente
pois, à Deus pertence, o amanhã.
E ao final da tarde, quando para casa você volta,
trazendo nas mãos um bouquet de rosas,
vermelhas e perfumadas para mim,
não tenho dúvidas de que, esse amor,
apesar de ser imaginário, me faz feliz!…
===========================================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Sonho


Todos sabem que o sonho é passageiro,
e que nele tudo finda ao despertar,
mas quero mesmo assim ser o primeiro
a poder fechar os olhos e sonhar.

Quero me ver em algum lugar distante,
ver coisas novas, gente diferente,
outros sons e sensações trazer bastante
para lembrar-me depois de consciente.

Quero poder ofertar ao coração cansado
o sonho de também sentir-se apaixonado
e  tendo enfim ao lado a mulher amada.

Porque sonhar é realizar o que queremos
é ter aquilo que acordados não tivemos,
pois sonhar é dar um tudo a quem tem nada.
=================================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Lua Cheia


A velha mandinga contava à sua neta
sobre os sortilégios da Mãe Lua,
lá na boa noite, lá na noite quieta:

“Para a deusa nunca vais olhar,
porque se te mira quando tu a miras,
o Pássaro Prata ouvirás cantar.

E ao canto da ave o ventre se alua

e do bom marido, saberás das iras”.
================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se d’uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio
Que d’uns e d’outros olhos derivadas
S’acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.
================================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

O Anel de Vidro


Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
– Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste
===========================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 12


Quando conto as horas que passam no relógio,
E a noite medonha vem naufragar o dia;
Quando vejo a violeta esmaecida,
E minguar seu viço pelo tempo embranquecida;

Quando vejo a alta copa de folhagens despida,
Que protegiam o rebanho do calor com sua sombra,
E a relva do verão atada em feixes
Ser carregada em fardos em viagem;

Então, questiono tua beleza,
Que deve fenecer com o vagar dos anos,
Como a doçura e a beleza se abandonam,

E morrem tão rápido enquanto outras crescem;
Nada detém a foice do Tempo,
A não ser os filhos, para perpetuá-lo após tua partida.

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Trovas (Dia do Professor)

A. A. DE ASSIS
Maringá/PR


Professor, amigo e mestre,
quanta luz você irradia,
desde a escolinha campestre
à mais douta academia!
======================

ALBA HELENA CORRÊA
Niterói/RJ


Honra e glória ao professor
com seu trabalho fecundo,
é, da pátria, o construtor,
em qualquer nação do mundo!
=====================

ALBERTINA MOREIRA PEDRO
Rio de Janeiro/RJ


Professor, tu és a tocha
que tira da escuridão
a mente que desabrocha
à procura da instrução!
===================

ALDA CORRÊA MENDES MOREIRA

Niterói/RJ

Agora que envelhecemos,
percebemos a jazida:
cada mestre que tivemos
pelos caminhos da vida!

Na agenda da minha vida
o nome Mestre é sagrado;
eu sempre lhe dou guarida,
pois o quero respeitado.

Professor, tua riqueza
não são as aulas que dás
mas é a tua nobreza
quando conosco tu estás.
======================

ALFREDO DE CASTRO
Pouso Alegre/MG

Por seu labor missionário,
Deus concedeu um troféu
ao professor do primário:
entrada livre no céu!
=========================

ALOÍSIO BEZERRA
Fortaleza/CE


Deus, que me fez trovador,
aos meus ais nunca foi mudo:
fez-me, também, professor.
Que sorte! Deus me deu tudo!

Se as ofensas tu perdoas,
se rejeitas as vaidades,
se ao mundo o bem apregoas,
és professor das verdades!
==========================

CÉLIA G. SANTANA
Sete Lagoas/MG


Professor é simplesmente
a mão amiga estendida
de gente ensinando a gente
a ser mais gente na vida!
======================

CIDINHA FRIGERI
Maringá/PR


A professora, oferenda,
por deuses santificada,
professor, guarda-a na tenda
para não ser imolada.
==========================

DARLY BARROS
São Paulo/SP


Foi meu guia e conselheiro,
e hoje eu venho agradecer
àquele mestre – o primeiro -,
que, um dia, ensinou-me a ler…
======================

DJALDA WINTER SANTOS
Rio de Janeiro/RJ


É mister que uma nação
fundamente a sociedade,
dando ao povo… educação
e ao professor… dignidade!
======================

DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
Juiz de Fora/MG


Repartindo o amor profundo
na missão de tantos brilhos,
ser professora no mundo
é ser mãe de muitos filhos.
==========================

EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ


Professor, pelo profundo
amor que o saber enverga,
abriste os olhos do mundo,
e, enfim, o mundo te enxerga!

Ser professor compreende
ser exemplo ao aprendiz,
que educação não se aprende
apenas com quadro e giz…
====================

ELIANA RUIZ JIMENEZ
Balneário Camboriú/SC


Todos têm um professor
na memória bem guardado,
que ensinava com amor,
mesmo mal remunerado.
================

ERNESTO TAVARES DE SOUZA
Pindamonhangaba/SP

Professor, eu te bendigo
por tanta benfeitoria;
és a semente de trigo
do pão da sabedoria.

Quando o povo, com certeza,
do saber perde a noção,
professor é vela acesa
nas trevas da escuridão!
==========================

FERNANDO LOPES DE ALMEIDA
Belo Horizonte/MG


A vela queima e ilumina
em holocausto de amor;
tal como faz quem ensina,
desperta botões de flor.
=====================

GIOVANELLI 
Nova Friburgo/RJ


Dedicação, é uma crença
que, regida com amor,
é o que faz a diferença
em todo bom professor…
======================

GLÓRIA TABET MARSON
São José dos Campos/SP


Quando há talento divino,
compromisso e bem querer,
o professor faz do ensino
a razão do seu viver!
=====================

JOÃO PAULO OUVERNEY
Pindamonhangaba/SP


Muitas palavras busquei
que rimassem com “amor”,
e a mais bonita que achei
foi uma só… “Professor”!

Professores são abelhas
distribuindo, em seu afã,
os polens que são centelhas
das flores de um amanhã!
==============

MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ


Levada pela saudade,
volto à infância e, com amor,
lembro os gestos de bondade
do meu velho professor!
===================

NEI GARCEZ
Curitiba/PR


Todo dia é da criança,
e também do professor:
ela aprende com confiança,
e ele ensina com amor.
=====================

OLIVALDO JUNIOR
Moji-Guaçu/SP


Professor das criancinhas,
professor dos “cavalões”,
ambos viram “figurinhas”
num “albinho” de ilusões.

Um menino, desde cedo,
“teve peito” de ensinar,
sem jamais ter tido medo
da missão de lecionar.
======================

PAULO DE TARSO
Fortaleza/CE


Professor, o grande mestre
Desse nosso conhecer
Pro praciano ou campestre
Ele transmite saber!
==========================
RELVA DO EGIPTO REZENDE SILVEIRA
Belo Horizonte/MG


Luzeiro da humanidade,
o professor, em missão,
é pilar da sociedade,
promovendo a educação.

Professor em sua trilha,
iluminando outro ser,
cultiva o dom da partilha
na partilha do saber.
===============

ROSA SILVA
Portugal


Professor nos dá ensino
e nos tira da cegueira,
começa de pequenino
pra servir a vida inteira.
==============================

SANTOS TEODÓSIO
Brumadinho/SC


De imensurável valor
por seu trabalho fecundo,
o incansável professor
eleva o nível do mundo.
==================

SELMA PATTI SPINELLI
São Paulo/SP


A Professora parece
um lavrador a colher
ouro puro em sua messe
no garimpo do Saber!
=========================

SIMÃO ELANE MARQUES RANGEL
Rio de Janeiro/RJ


Professor, por vocação,
tem prazer em ensinar;
repete sempre a lição,
não se cansa de explicar.
========================

SÔNIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR


Põe na voz o coração
e saúde o Professor
que cumpre sua missão
com carinho e muito amor !…
==========================
TARCÍSIO FERNANDES
Brasília/DF


Dentre as muitas profissões,
eu destaco o PROFESSOR
que fez, com suas lições,
alguém ser, hoje, um doutor.
===========================

THEREZINHA ZANONI FERREIRA
Rio de Janeiro/RJ


Dando apoio e segurança…
Apontando os erros meus…
Aos meus olhos de criança,
professor, eras um Deus!
====================

WAGNER MARQUES LOPES
Pedro Leopoldo/MG


Ao levar o barco à frente,
embora o peso do remo,
o educador paciente
recebe o laurel supremo.

Fontes:
http://falandodetrova.com.br/XVencontropetropolis
http://poesiaemtrovas.blogspot.com.br/p/tema-deus-trovas-liricas-ou-filosoficas.html
E-mails recebidos de trovadores

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Oldney Lopes (Homenagem ao Professor)

Se os livros alimentam o saber
O mestre proporciona-lhes sabor
Se são enigmas a resolver
O educador é o codificador.

Que seria do livro e do leitor
Sem orientador a despertar
Ideias e sentidos, corpo e cor,
Na relevante ação de mediar?

Se há na escola uma qualquer contenda
O docente é o reconciliador
Se há conflito que obstrua a senda
O mestre mostra-se apaziguador.

Que seria de uma escola sem docentes?
Salas vazias e paredes nuas
Prédio deserto, árido e silente
Portal do nada, a esmaecer nas ruas.

É que a jornada, sem apoio e guia
É trilha escura, sem norte e sem destino,
Pois falta o rumo da sabedoria,
Facho de luz, clarão para o ensino.

Sendo os alunos pássaros que tentam
Os seus primeiros voos do saber
É pelas mãos dos mestres que alimentam
A fome insaciável de aprender.

Se, entretanto, as agruras são gaiolas
Que encarceram o aluno em estupor,
A porta que liberta é a escola
E a chave que a destranca é o professor!

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Jussára C Godinho (Homenagem aos Professores)

Educador por opção, por vocação
És  mola propulsora da descoberta do saber
Deixa em cada um pedacinhos do coração
Divide todos os dias grande parte do teu ser

Aprender e ensinar
Ensinar e aprender…
Mestre!
Ensina e aprende a amar
Aprende e ensina a viver
Descortina sombras
Ilumina mentes
Descobre caminhos
Mostra horizontes

Emociona e se emociona
Ajuda a crescer
Sofre, ri, lamenta, se alegra
Mas sempre se entrega
Ao prazer e a dor de ensinar
De aprender, de viver, de Amar!

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Lilian (Ser Professor)

É despertar a magia do saber
é abrir caminhos de esperança
desvendar o mistério do cálculo
da fala e da escrita.
É criar o real desejo de ser.

É promover o saber universal
especializar políticos,
médicos, cientistas,
técnicos, administradores, artistas…
É participar profundamente do crescimento social…

É trabalhar em grande mutirão
lançando as primeiras bases
que transformarão ideias em projetos
executados em terra firme ou em imensidão.

É não se dar conta da amplitude
de um trabalho que é missão
mover o mundo através
do operário ou presidente
que um dia passou por sua mão.

Feliz Dia do Professor!

Fonte:
http://www.lilianpoesias.net/dia_do_professor.htm

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Autor Desconhecido (Dia do Professor)

Não sei o que combina mais contigo,
Uma poesia, um livro, uma pintura,
Sinceramente fico pensando
No que deve dar alegria
A alguém que é objeto da alegria de tantos.

Na verdade, o professor de verdade,
É aquele que prefere dividir o que possui,
Do que ter somente para si.

O verdadeiro mestre, sente-se feliz
Quando percebe que o caminho que
Ele abriu tem sido trilhado por muitos.

O mestre tem a sua realização no aprendizado
Do pupilo, da passagem da experiência.
É por isso que meras palavras
Não podem recompensar
A alguém que optou por esta carreira
Que muitas vezes é dolorosa e cheia de espinhos.

Chamo-te somente mestre, abnegado coração
Que se sensibiliza com os olhos sedentos
Por uma vida menos escura, mas cheia de luz.
E essa luz, está em suas mãos,
Em seu coração, em seu olhar.

Que bom que existe um dia
Reservado só para você!
Obrigado por sua obstinação incontida,
Pois graças a ela, você nunca desiste.

Você é muito importante,
Espero que você seja sempre assim.

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Ringo Star (Professor, amigo e educador)

Ringo é de Agua Nova/RN

Você é de toda a nação
Sabedoria e essência,
Você tem sido amigo
E uma grande excelência,
Parabenizo você,
“O símbolo da inteligência”.

O valor que a escola tem,
É graças a sua bravura
Você! Amigo tem demonstrado
Sabedoria e ternura,
Por isso você é um exemplo
De educação e cultura.

O professor não é visto
Nos rádios, nem na tv,
Mas devemos a ele,
Herança de receber,
Com amor e esperança,
A maior de todas as heranças
Que nos leva a crescer.

Sim! é a inteligência
Que ele tem nos dedicado,
Desde os primeiros passos
Que o mundo foi civilizado
E passou a ser escola,
E um eterno aprendizado.

Você sempre será para todos,
A maior satisfação,
Sempre contribuindo,
Para crescer a educação,
Trazendo nova Ciência
Mostrando Experiência,
E conquistando a nação.

“Este 15 de outubro,
Será com muita alegria
De realizar um sonho,
E buscar no dia-a-dia
Ser um grande professor,
E demonstrar meu valor,
Graças a sabedoria.

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Pausa para o Café (Informações do Blog)

Fonte: Toca da Morgana
Prezado Leitor

Segue algumas informações sobre o blog e suas postagens:

1 – Trova Falada
A partir da data de ontem, foi colocado acima um gatinho declamando 5 trovas do trovador paranaense Assis. Periodicamente serão trocados para 5 trovas de outro trovador, de outro estado. Infelizmente esta trova falada só estará disponível a quem entrar aqui no blog, e não será enviada aos e-mails dos assinantes.

2 – Universo de Versos
No início deste ano faleceu o grande poeta Ademar Macedo (RN), elaborador do Mensagens Poéticas. Para dar continuidade a este belíssimo trabalho, criei o Universo de Versos. Ademar enviava todas as manhãs suas Mensagens, para mim já não é possível tal feito, e como o blog não se compõe só de poesias, dividi em: um dia são contos,cronicas, algumas poesias, e diversos tipos de textos, e no outro o Universo de Versos. A princípio eram todos os dias, mas como sou um tanto quanto perfeccionista e não me contento com pouco, o Universo iniciou-se com 10 poetas e trovadores. Novas ideias foram brotando (minha cabeça parece um carrossel), e atualmente existem 54 poetas, entre trovas, sonetos, haicais, poetrix, poesias, setilhas, indrisos, etc. Cerca de 25 páginas em documento word.

3 – Naturalidade do Poeta
Alguns poetas coloco apenas o estado, pois sendo de uma cidade e se radicando em outra, às vezes fica difícil saber qual deveria colocar realmente. Portanto fica o estado. Já recebi reclamação de poeta que odiava a cidade onde nascera e como se radicara em outra, era esta que devia prevalecer.
4 – Poesias, sonetos
Os poetas que me enviam seus trabalhos que me perdoem, mas soneto segue algumas regras, e apesar do autor colocar a palavra soneto, mas para não perder a beleza de seus versos, classifico como poesia, que é algo mais amplo e não se prende em regras.

5 – Trovas
Alguns trovadores, como diziamos “das antigas”, faziam as suas trovas onde só rimava o segundo com o quarto verso (ABCB), mas mantinha-se os versos setessilábicos como o é atualmente. A UBT adota o sistema ABAB (primeiro com terceiro e segundo com o quarto).

6 – Formas Poéticas
Indrisos. Trovas. Poetrix. Setilhas. Martelo e outras formas poéticas, para o leitor que não conhece no próprio blog há definições sobre estas formas. Caso não consiga localizar, por favor envie-me e-mail solicitando, que te indico os links. pavilhaoliterario@gmail.com.

7 – Colaborações
Colaborações dos literatos estão sempre abertas, contudo sinto-me no direito de preservar a integridade do blog como literatura propriamente dita, por avaliação do texto enviado, pois não aceito textos de ataques a políticos, times de futebol, religiões, que contenham pornografia, enfim tudo que vá contra a moral e bons costumes.
Para estes casos, existem sites e blogs especializados nisto.
Também peço que me perdoem, se não puder postar imediatamente alguma colaboração. Recebo centenas por dia, e quando me afasto por motivos outros, geralmente se acumulam. Conto ainda com cerca de mil e quinhentos e-mails para selecionar da vez que me afastei (em julho). Mas agradeço, se puderem me dar um toque caso não haja nada publicado.

8 – E-Books
Assim como o Trova Brasil e Coleção Memória Viva, pretendo lançar em e-book o Universo de Versos que já possui 800 páginas.

Agradeço a atenção, a colaboração e continuem prestigiando o blog
José Feldman

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José Feldman (Universo de Versos n. 125 )


Uma Trova do Paraná

LUCILIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes


Nossos pinheiros, brillhantes,
sobre a serra e em meio ao ar,
lembram taças borbulhantes
fazendo um brinde ao luar!
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Belo Horizonte/MG

WANDA DE PAULA MOURTHÉ


Entulhos causam desvios
das águas, gerando enchente
e, ao sufocarem os rios
matam peixes, matam gente!
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Zé Pescador não sossega,
mente tanto que dá gosto,
só que os peixes que ele… “pega”
têm carimbo do entreposto.
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Saquarema/RJ

JOÃO COSTA


 Lá vou eu, de verso em verso
– seja suave ou dura a lida -,
compondo pelo Universo
o poema da minha vida!…
============================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro

LEILA MICCOLIS


Quando o marido se agrada
de empregada muito boa,
faz a mulher de criada,
e a criada de patroa…
============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Não se estresse nem me agrida,
ouça a voz do coração.
Deixe que o Tempo decida
quem de nós dois tem razão!…
============================
Uma Trova Hispânica, da Argentina

MARÍA ROSA RZEPKA


Sueña la luna redonda
sobre la punta del pino.
Llorando voy por la fronda
mis amores peregrinos.
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Juiz de Fora/MG

JOSÉ TAVARES DE LIMA


Sem entender a queimada
de efeito atroz e daninho,
a juriti, desolada,
chora a falta do seu ninho…
============================
Trovadores que deixaram Saudades

CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA (1863 — 1946) Rio de Janeiro/RJ


Morto, peço-te uma esmola,
peço a ti, que és minha luz,
que, partindo esta viola,
faças dela a minha cruz.
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Este amor envolto em pranto
é tão grande, tão profundo
e é tão puro o seu encanto,
que não cabe neste mundo!…
============================
Um Haicai de Brasília/DF

CARLOS VIEGAS


Ando entre sorrisos
E o murmurinho bilíngue —
Festival do Japão
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Se ouvisse o homem da terra,
de Deus o conselho amigo,
em vez de campos de guerra
faria campos de trigo.
============================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
============================
  Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Delcy Canalles
A Criança em Mim

MOTE:

A criança que eu trazia
dentro de mim escondida,
hoje, vive na poesia,
chorando restos de vida.

GLOSA:

A criança que eu trazia
guardada em minha lembrança,
esqueceu-se que a alegria
mora junto da esperança!

Enrolada em solidão,
dentro de mim escondida,
sem conhecer afeição,
ficava inda mais perdida!

Veio o sonho…uma utopia,
e com ele, muitos versos!
Hoje, vive na poesia,
cantando seus universos!

É o canto mais lindo e triste,
dessa criança crescida,
que, em sua canção, resiste,
chorando restos de vida!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Não quero ouvir o teu nome,
nunca mais te quero ver!
– E passo a vida pensando,
a forma de te esquecer.
============================
Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


língua pendente
cachorro com sede
sol ardente
============================
Galáxia Poética do Francisco Pessoa

FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS
Fortaleza/CE

Minha Pedra


Minha pedra, pedra minha
No ir e voltar te vejo
Não sabes que meu desejo
É te colocar na linha
Do meu leito que caminha
Para um futuro indeciso
Ah! Pedra de ti preciso
Vivas em mim aos pouquinhos
Pois nem só de rosa e espinhos
Se reveste o chão que piso.
===============
Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Candeia Viva


Que não se alegrem os maus
Porque a vida é transitória;
Nós todos estamos presos
Na candeia da memória.
============================
Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Sem título


Amo, e por este amor verto o meu próprio sangue;
E sei que deste amor o que de bom me resta,
É que por te provar eu te irrite, eu te zangue
Pois entraste da intriga a embrenhada floresta.

Mas que importa que o luar importune a avantesma
E que a suspeita gire em torno de uma estima,
Quando essa estima tem a mesma força e a mesma
Vida eterna de um sol que outros astros em cima?

Gravitem em redor satélites mesquinhos
Os bastardos da luz, os espúrios da glória.
Que importa! Se este amor por tortuosos caminhos
Beijo a beijo nos leva à suprema vitória?

Os espinhos cruéis se transformam em louros
E a mulher que os teceu vai à imortalidade;
Tira ao Dante Beatriz os egrégios tesouros,
Ou com ele deslumbra ainda hoje a humanidade?

Porventura a nobreza e os brasões de Eleonora
Tinham vida e grandeza iguais ao tempo e o espaço?
Não, que o esquecimento a asa desoladora
Sobre ela vinha abrir – não fora o amor de Tasso!

Que o ódio impotente e vil se definhe e se exaura
No seu esforço vão, – rabugento heresiarca –
Que seria de ti, ora aureolada Laura
Se te não perpetuasse o plectro de Petrarca?

Se esses amores, tu, velho gênio da intriga,
Não chegaste a queimar na pira do teu culto
Quando eles tinham só por companheira e amiga
A musa do poeta a perpetuar-lhe o vulto,

Quanto mais destruir este em que duas almas,
Filhas da mesma luz, filhas do mesmo gênio,
Se unem para a conquista ideal das mesmas palmas,
À luz do mesmo teatro e do mesmo proscênio?

Vem! que clamam por ti as vozes do meu verso,
Náufragos a pedir socorro entre os escolhos
Para que em mim concentre e resuma o universo
Basta a constelação que vive nos teus olhos!
============================
Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Assim Será


Foi você quem quis assim
Assim será!
Não vou mais me aborrecer
Nem me atormentar,
Não vou mais mandar e-mail,
Vou te deletar…

Dei meu afago, afeto, carinho,
Dei o meu colo pra você deitar,
Na noite de frio dei aconchego
E todo amor que se pode sonhar.

Dei o frescor da brisa suave
Que sopra na aurora bem de mansinho
Dei a cadência do vôo da ave
Que voa cadente em busca do ninho.

Dei pra você o meu mundo encantado
Um céu salpicado de constelações,
Dei o amor que tinha guardado,
Junto aos acordes de lindas canções.

Dei o apego de um homem apegado,
Afeito as coisas quem em vida vivi,
Dei o consolo e tive o cuidado,
De dar a você tudo o que você quis.

Tudo te dei em troca de nada,
Até os meus sonhos que um dia sonhei,
Dei pra você meus contos de fadas,
Mas vejo agora o quanto errei!

E é na presença de um homem presente,
Feliz e contente sem lamentar,
É que eu digo com todas as letras:
Você quis assim – e é assim que será.
============================
Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Encomenda

 –
Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
============================
Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Voz do Tempo


minha palavra se cala
vai na calada do tempo
a fala que não se cala
nem quando a gente consente em calar
escorre entre os dedos
escapam velhos segredos
desvendam mistérios
traçados na palma da mão
não tape os ouvidos, escute
aquilo que repercute da voz que gira com o mundo
e dirá quantas voltas do mundo é preciso
preciso, é urgente e te digo no momento em que calo
minha emoção incendeia o estopim da canção
falo do vento que leva palavras no ar
falo do fogo queimando pra clarear
arde em meu canto o que tanto me deixa a pensar
queima no tempo o que tenho pra te falar
============================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


a letra bonita
no cartão de Natal lembra
a amizade antiga
============================
Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Eterno Cavaleiro

(sobre uma litogravura do Guilherme de Faria)

Sob um certo e negro timbre da visão
Se pode ver o Eterno Cavaleiro
Sobre o campo entulhado em confusão
De corpos ceifados, sem celeiro,

Lançados sobre a face do planeta
Em terrível multidão de destroçados
Nem sequer semeados em valeta
Sem a cruz ou crescentes inclinados.

É o Triunfo daquele “miglior fabro” *
Que Deus deixou por conta do terror,
Pelo amor que tem pelo macabro

Que O fez caprichar na estrutura:
Branca ossada risonha ao seu dispor
Por mais tempo do que nossa carne dura…
––––––––––––
Nota de Lúcia Welt
* Il miglior fabro” – como Dante Alighieri se referiu ao poeta Guido Cavalcanti, preconizando o Poeta como o Melhor Fazedor ( ou fabricante, de imagens). Quem teorizou sobre isso foi o grande poeta e ensaista de poesia, Ezra Pound.

============================
Uma Poesia

CÉLIA LAMOUNIER

Grinalda de trovas


Minha família querida
Sorrisos distribuía
Dizendo: por toda a vida
SORRIA SEMPRE, SORRIA!

Sorria sempre, sorria
Mude sua vida, é hora
Passe a sorrir todo dia
QUE O SORRISO REVIGORA.

Que o sorriso revigora
Na minha infância eu ouvia.
Assim, vivi vida afora
NO DOMÍNIO DA ALEGRIA.

No domínio da alegria
Vivi eu sempre e, agora,
No meu templo de euforia
A TRISTEZA NUNCA MORA.
============================
Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


A neblina sobre a mata,
antes que o sol doure a terra,
parece um manto de prata
nos ombros verdes da serra.
===================================
Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Limite


Por que adiarmos tanto
a felicidade que nos aguarda?
Por que esperarmos tanto
pelo que sempre foi nosso?
Anos eu te esperei,
amor,
mas agora,
cada segundo a mais
já se torna insuportável.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

O RÉU

 –
Réu, réu,
Vai ao céu,
Vai buscar
O meu chapéu.

Se está novo,
Traz-mo cá.
Se está velho,
 Deixa-o lá.

Nota:
Ouvem-se hoje em dia versões desta lengalenga substituindo a palavra “réu” por “béu”, talvez para suavizar a morbidade que está associada à rima, porque um réu para ir ao céu é porque foi julgado e condenado á morte. Se virmos o contexto histórico em que eram criadas as lengalengas de antigamente, veremos que esta rima está cheia de ironia.


http://luso-livros.net/
============================
Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Canção da Garoa


Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater;
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê…
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin…
============================
Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
=======================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Menina de Rua


o homem dormia, em seu ninho
e o coração dela
esmolando um carinho
============================
Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Canção para a Amiga Dormindo

Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem…
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.
Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
Na minha poesia
De um sono sem fim…
============================
Uma Poesia de Portugal

ALMEIDA GARRETT
Porto (1799 – 1854) Lisboa

Não te amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d’alma.
E eu n’alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
============================
Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Arte nobre, ativa e bela
Venha de crentes ou ateus,
E sempre luz que revela
A Providência de Deus.
============================
Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Pássaros canoros
Energia em expansão
Almas projetadas…
============================
Universo Poético de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Curiosidade

    –
Gostaria de saber como e onde me encontras
agora que há tanto tempo não existimos…
…………………………………

(por um momento ficam turvos
teus olhos,
te ausentarás do mundo que te cerca
sem saberes dizer se és feliz ou infeliz?…

Ou me encontras, e passas…
Passas, e cumprimentas, e te vais,
e sorris?…)
============================
Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Esta vida é um mistério
Perto da maternidade
também tem um cemitério
===============================
Um Soneto de Montanha/ES

LINDA LACERDA

Soneto da flor da infância


 Eu me lembro, eu me lembro, doce perfume da flor!
 Brancas gotas perfumadas e tinham cheiro de amor…
 Inebriavam as noites, da minha infância perdida,
 Uma cascata verde e branca no verde da minha vida…

 Lua serena no céu, a embranquecer minha ruazinha,
 Sem saber que o jasmineiro por me ver assim sozinha,
 Eu menina inocente, a me embalar em seus galhos,
 Flores lançava aos meus pés, qual fina colcha de retalhos… s.

 Foram-se meus verdes anos, cirandas e brincadeiras,
 A doce lembrança da infância, da juventude que passou…
 Joia que o tempo levou em leves asas ligeiras…

 De menina me fiz mulher, mas na memória ainda há dor
 Da doce lembrança dos dias, das minhas tardes trigueiras
 Quantas saudades eu sinto, meu jasmineiro em flor!
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Quando, há muitos janeiros, vim à luz,
foi chorando nos braços da parteira;
minha mãe, entre lágrimas e risos,
me beijava na face a vez primeira…
Dessa forma nasceu um trovador,
desprovido de bens, mas com amor
pra doar, neste mundo, a vida inteira.

Fonte:
Debate em Setilha Agalopada entre os potiguares Zé Lucas, Prof.Garcia e Ademar Macedo)

============================
Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Asilo ou Exílio?


Os chinelos não produzem som.
Nem o rádio tocando baixinho.
Mas a respiração se ouve do lado de fora.
E o sonho de ainda poder tocar as estrelas
talvez chegue até Deus.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras

OLIVER FRIGGIERI
Floriana/Malta (1947)

Uma Estrofe sem Titulo


Dá-me as palavras de teus olhos, a noite escreve
Uma estrofe purpúrea sobre teu bonito rosto,
Brilha o orvalho, tuas bochechas um branco universo
De onde nada dá um passo descalço sem dor,
Toca estas mãos e sente o despedaçado coração
E nota o sangue quente, o pranto solene.
Pomba, não voes distante  come de minhas mãos,
Este é o grão que não mata, água pura.
Monótono o sino que dá a hora
Para que te vás desta janela entreaberta
Por mim para ti, monótono o suspiro
Gravado como ilusão que vem e vai.
Não voes distante, e diga comigo esta oração:
“Há raios de luz de lanterna enfocados em mim,
Há uma humilde estrela que brilha só para mim,
Há uma flor selvagem que se abre em meu peito,
Há uma chama de vela vacilante só para mim.”

(tradução: José Feldman)
============================
Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Sedução


A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
============================
Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Língua Portuguesa


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”!
E em que Camões chorou, exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
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Universo Poético de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
============================
UniVersos Melodicos

Laurindo de Almeida e Junquilho Lourival

MEU CABOCLO
(canção, 1942)


Caboclo ligeiro, valente, cismado
Tostado do sol
Que és destro na flecha
No tiro, no laço, na rede, no anzol
Caboclo que avanças nas curvas enganosas
Dos igarapés
Que as onças ferozes
Brincando intimidas
Caboclo, quem és?

Caboclo que em cima de frágil jangada
Por mares além, navegas cantando
Saudades profundas dos olhos de alguém
Caboclo que afrontas os mares bravios
O duro revés, caboclo responde
Teu nome ligeiro, caboclo, quem és?

Caboclo que em plena cochilha distante
Nos pagos ao luar, que saltas no lombo
De um potro rebelde, risonho a cantar
E danças o samba batido ao compasso
Dos teus próprios pés, caboclo responde
Teu nome ligeiro, caboclo, quem és?

E o forte caboclo, fitando o horizonte
Responde viril :
Meu nome é o mais lindo dos nomes do mundo
Meu nome é Brasil!
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

Marcha soldado


Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo,
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional.
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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Fascínio


Ela – que morava no fascínio,
subitamente se instalou no ódio.
Quando o perfume das cartas…,
ah, as cartas, ridículas, que jamais foram;
ridículas essas outras, as de comprar, as de vender; […],
ou, nem me escreves –
(os procuradores):

“Ilmo. Sr.:”
Uma promessa vã:
na última hora, de todas as horas,
da nossa hora, amém,

[…]
num átimo, e, dos meus olhos cegos,
se…, à lembrança do teu nome:
[mesmo as palavras duras] o relâmpago,
a brisa. Só o fascínio!
Assim.
– Condições?

Aquém.
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Você


Rasgo a página não inscrita que da perda
não ficarão registros
do passado lavado
em novos passos imundos
de soberbos ataques
na chuva miúda
intermitente
sobre guarda-chuvas
abertos em proteção
e escudo: raios e trovões
não acontecidos na sequência
do desencontro

sim
você estava ali
seu perfume permanece
sobre o cheiro dos temperos e alguém cita
seu nome
e me volto em incertezas

página rasgada do que não escrevi no dia
que seria da chegada e não houve o tempo
seco das histórias de memórias difundidas
lendas sacramentadas em perdões e profecias

a chuva miúda aos poucos alaga a rua
em descaminhos
como os fins e os meios
repetidos em sangue não doado

sim
você esteve lá
seu perfume oferta
temperados pratos
insossos para sempre.
============================
Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Um grande amor só se faz com amor

Acróstico-especial nº 5076

U-Um grande amor tem seu valor:
M-Marcado pela ousadia e alegria!
 –
G-Guarde as regras para depois. O porquê da
R-Relação não se pergunta; não há resposta!
A-Atração, entre quatro paredes, dirá a você!
N-No momento certo, descubra a motivação!
D-Determine se quiser curtir o romantismo
E-E se conhece todas as fases preliminares…
 –
Á-Área distintas e exógenas são interessantes!
M-Mulheres e homens gostam de fazer charme!
O-O NÃO pode significar a fortaleza do SIM!
R-Recitar versos poéticos são excitantes, tente!
 –
S– Sapatos,unhas,meias,cabelos são avaliados!
Ó-O ambiente também responde pelas emoções!
 –
S-Suas roupas devem ser as mais confortáveis
E-E jamais vá a um encontro sem preparação…
 –
F-Faz parte da educação e da higiene pessoal!
A-Antecedência dá segurança ao casal enamorado!
Z-Zelosos amantes ensaiam mínimas palavras…
 –
C-Com certeza, o primeiro encontro é marcante e
O-O último também! Vale evitar os deslizes!
M-Muito cuidado para não trocar os nomes!
 –
A-Amar exige dedicação, atenção, compromisso!
M-Marcado o encontro, não falte e nem se atrase!
O-O que é mentira, em breve será descoberto!
R-Recomendação: Cuide do amor e não conheça a dor!
==========================
Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

A saudade é sem noção


Descrita é um mero sentimento e tão poética
Nem é como pinta na foto, é um falso retrato.
Mas sentida muda-nos totalmente a estética
Faz-nos tão necessitados de algo, isso é fato.

Descrita é apenas palavras amontoadas, sei
Com rimas ou sem rimas, e isso não importa.
Sentida é inesperada, porém eu já a esperei
Multíplice, com outra cara faz da alma torta.

E se descrita não é mais que um poema triste
E é assim que todo o mundo insiste em dizer.
Sentida: algo bom que a memória vem trazer.

Saudade abraça forte e ninguém pode negar
É um abraço de olhos fechados de algo vivido.
Descrever é simples, difícil é o ato do sentido.
===============================
Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Cognac! …


VEM, MEU COGNAC, meu licor d’amores!…
Ê longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!…

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração – da vida esmalte,
Quem há que te não ame?
Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!

Cognac! – inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor – de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m’inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!
==========================
Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Amor de verão


Quando o teu olhar cruzou com o meu
naquela linda noite de verão,
senti naquele instante uma emoção
indescritível em meu coração

Apaixonei-me e quis acreditar
que o teu amor ao meu correspondia,
e entreguei-me assim sem pensar
nos braços teus… que covardia!…

Você zombou de mim e de meus sentimentos
e eu não quis ver, não percebia…

E agora aqui estou, neste momento,
deitada nesta cama vazia
chorando lágrimas de arrependimento,
por um amor que só eu sentia …
===============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

O Tempo…


Dizem que o tempo é o melhor remédio,
que tudo põe em seu lugar e tudo cura.
Cura a doença, paixão e mesmo o tédio;
tudo aquilo que nos mata enquanto dura.

Mas o tempo tem também outra virtude
que há muito pouco acabei de descobrir,
depois de não te ver o quanto eu pude
e o quanto conseguisse o coração fugir.

É que hoje, sem querer, nos encontramos
e ao te olhar, a emoção tomou-me ainda
como estivesse te vendo a vez primeira.

Todo o tempo que passou, e foram anos,
o que fez foi conseguir deixar mais linda
a mulher por quem sonhei a vida inteira.
============================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Lua crescente


Tenra Vênus, com quinze primaveras
modos indicava: os pastores,
seus adoradores nos estábulos já eram

e nos campos de Chipre lavradores;
as feras se acoplaram com as feras
lá nas selvas, as flores com as flores;

e os deuses deveras a temeram:

morrer foi novo, e ver-se, por amores.
===============================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
=======================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Andorinha


Andorinha lá fora está dizendo:
– “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…

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Varal de Trovas n. 48 – Elton Carvalho (RJ) e Apollo Taborda França (PR)

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Cantinho do Prof. Pedro Mello (A Falácia da Classificação das Rimas)

Quando se fala em versificação, os compêndios de que logo nos lembramos são as gramáticas da língua portuguesa; alguns autores são familiares a muitos de nós: Evanildo Bechara, Domingos Paschoal Cegalla, Celso Cunha, Rocha Lima, Napoleão Mendes de Almeida, apenas para citarmos os mais conhecidos. Exceção talvez seja o famoso “Tratado de Versificação”, de Olavo Bilac e Guimarães Passos, publicado em 1910. Obra mais recente é a monumental “Teoria Literária”, de Hênio Tavares, publicada na década de 70 pela Editora Itatiaia.

De maneira geral, nos deparamos com os mesmos conceitos e, na maioria da vezes, até com os mesmos exemplos… Indício de que talvez nossos gramáticos não sejam muito criativos na parte de Estilística e que simplesmente repetem o que foi sistematizado num passado razoavelmente distante.

Um desses conceitos é o de “classificação das rimas” quanto ao vocabulário: “pobres”, “ricas”, “raras” e “preciosas”. Um conceito problemático e que pretendemos discutir brevemente aqui neste espaço.

Deparamo-nos com um critério dúbio, o que torna a classificação questionável. Dois pesos e duas medidas: um critério para “pobres” e “ricas” e outro critério para “raras” e “preciosas”. Hênio Tavares excepcionalmente não adota a classificação “preciosas”, mantendo, porém, a tipologia de duplo critério.

Vemos este conceito ainda hoje porque os estudos de Poética da Língua Portuguesa não evoluíram no século XX por causa do Modernismo. Os estudos científicos que se realizaram e ainda se realizam no campo da Morfologia e da Sintaxe não abarcam elementos de poética e versificação. Parece que há uma certa contaminação ideológica: o advento da Semana de 22 tornou “desnecessário” estudar a versificação da língua…

O movimento da Trova, embora ignorado pelas grandes universidades brasileiras, logrou por gerar uma produção poética tão grande e de tamanha qualidade, que tal produção nos permite olhar a questão da rima sob outro ângulo. Na realidade, “rica” ou “pobre” não é a rima, mas a trova, o soneto, ou qualquer outro tipo de poema.

Podemos exemplificar comparando duas trovas, uma de Antônio Salomão, publicada em “A Trova no Brasil”, de Aparício Fernandes, à página 127, sob o número 101, e outra de Pedro Ornellas, premiada com o 5º. lugar nos Jogos Florais de Nova Friburgo em 1995, tema “Poeta”:

Amo as mulheres bonitas
com muito amor e carinho,
até as cruéis senhoritas
que me deixaram sozinho!

Se canto a felicidade,
sou poeta imaginando…
Mas quando falo em saudade,
eu sei do que estou falando!

A primeira trova possui rimas tradicionalmente classificadas como “ricas”. Em bonitas/senhoritas temos um adjetivo e um substantivo. Em carinho/sozinho temos um substantivo e um adjetivo.

A segunda trova possui rimas tradicionalmente classificadas como “pobres”: dois substantivos felicidade/saudade e dois verbos (no gerúndio) imaginando/falando.

Entretanto… a primeira trova é, simplesmente, muuuuito ruim. Não há uma ideia original nem um achado poético. As rimas não valorizam nada, porque a trova é chinfrim, sofrível e muito ordinária.

A trova de Pedro Ornellas, por outro lado, é de uma beleza transcendente. Embora vazada em uma estrutura gramatical bastante simples e sem sofisticação, seu conteúdo é excepcional. Contém aquilo que chamamos de “achado”: um modo inovador de falar de um assunto comum.

Pode acontecer que grandes trovas apresentem uma construção gramatical mais “sofisticada”, que as rimas sejam “ricas”, mas não é isto que as torna grandes trovas. A famosa trova de Nidia Iaggi Martins – “No dia em que tu quiseres…” – é antológica e muito bonita não por causa das suas rimas ricas, mas por causa do seu achado, devido ao que Luiz Otávio chamava poeticamente de “arrepio”.

A rima faz parte da estrutura da trova porque a trova é um poema de forma fixa. A rima não é, portanto, um elemento acessório e condicionador do que é dito, mas o que é dito é que deve condicionar a rima! Nas trovas ordinárias como a primeira, a rima não tem uma significação poética. Está ali apenas para formar a estrutura fixa. Em trovas que são exemplos de grande poesia notamos que as palavras são carregadas de significado e nos transportam a uma atmosfera sensorial. Não importa a terminação das palavras ou a que categoria gramatical pertencem.

É isto o que notamos nas duas trovas que lemos acima. O que “sobra” na segunda trova “falta” na primeira.

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1610632

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Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel) (Sonetos Escolhidos 2)

Libreria Fogola Pisa
A CASA E O POETA

A casa do poeta tem por via
a fala dos irmãos com outro irmão;
de uma vida coberta de paixão,
as confissões: tristeza ou alegria.

É um menino pequeno (como não?)
no que quis e jamais pôde alcançar,
que sofre tantas vezes por amar,
quantas vezes num choro sem razão.

De medo, treme à vista do vizinho,
pois no quintal dos fundos grita e freme
um diabo nu, barrando o seu caminho.

Diante de Deus e de Nossa Senhora,
pede conformação para quem geme…
E não terá sua casa onde não mora.

AMOR, SEMPRE AMOR (1)

Eras tu a mais linda da cidade.
E eu cheguei, um matuto impertinente,
apelidado até de inteligente
por colegas, amigos na verdade.

Teus sorrisos me enchiam de vaidade
e àqueles que te tinham de inocente,
e a mim me enfeitiçaram de repente,
como ninguém calcula. Ninguém há de

saber o que lutei para ganhar-te,
para querer-me ali, e em qualquer parte,
e, enfim, nos enlaçarmos com ardor.

Fogo em que conservamos, te asseguro,
a minha felicidade e o teu futuro
para viver tão puro e santo amor.

AMOR, SEMPRE AMOR (2)

Mudam-se tempos, vidas e pesares,
mas, como outrora, a amar continuaremos.
Amo-te mais, não queiras nem saber,
amas-me mais agora e como sempre.

Se outrora caminhamos de mãos dadas,
era o medo do mundo e suas garras.
Já hoje nos soltamos pra andar juntos,
pra mais amar, que o nossa amor se aclara.

Teu corpo de menina e de mulher
Que tanto outrora já me deu ciúmes,
Hoje é prazer e graça como nunca.

Sendo eu feio, invulgar, e tu, tão bela
formamos lindo par por toda a vida
e abraçaremos outras se inda houver.

DEUSA

Era uma deusa humanamente bela,
de olhos molhados a deitarem luz,
sobre perdidos corações sem cores.
Desprendia paixões nos seus encantos.

Da carne, o cheiro, a tepidez, o orvalho
eram pingos da tarde… E a noite vinha.
Mas o brilho dos olhos tão intenso
iluminava todos os caminhos.

E eu disse – “tolo”! – à blusa desdobrada
à brisa, que assanhava as mentes frias,
cheia da graça dos recantos da alma.

De repente, nas asas dos seus braços
levado vi-me e, pelos céus abertos,
caírem penas pelos meus pecados.

DESCIDA

Quantos anos que gente sobe a vida
pensando que subiu, cresceu, mudou,
a enganar-se na festa e na bebida,
pra ignorar o mundo – este robô!

Vive-se o tempo. E as horas consumidas
em vãos gozos e gulas, sem fronteiras,
desconhecem as dores pressentidas,
e o fumo das batalhas derradeiras.

Ninguém espreita a onda dos mistérios,
da velhice, da doença e o conteúdo
de mascarados e sutis impérios.

A lei da morte apaga amor, carinhos,
porque o tempo de Deus ficou desnudo
na cruel desesperança dos caminhos.

A DEUSA NUA

Vi uma deusa solitária e nua,
a correr pelas praias. Seu segredo
era o silêncio. Eu quase senti medo
daquela cor de prata, cor de lua.

Corri para apanhá-la, ainda era cedo!
Com vergonha de mim, vindo da rua
tão faminto e cansado. E ela recua…
“Se deusa for”, gritei, “vou ficar quedo”.

E ela correu de novo… E, atrás, perdido,
desesperado, eu, louco e comovido,
queria o mel dos lábios cor de beijos.

Cego e surdo, ante aquela formosura,
seio pulsante, o’ estranha criatura!…
Caí morrendo a morte dos desejos.

A PARTIDA

Na partida os adeuses, gume e corte
dos prazeres do amor, quanto tormento!
Cada qual que demonstre quanto é forte,
lábios secos mordendo o sentimento.

Do ser brotam soluços a toda hora,
as faces no calor do perdimento,
olhos no chão, no ar, por dentro e fora,
pedem aos céus a força e o alimento.

Ninguém vai, ninguém fica. Oh! se reparte
no transporte que liga e que desliga!
Confusão de saber quem fica ou parte.

Não se explica tamanha intensidade
Amarga, e doce, e errante, que interliga
os corações perdidos de saudade.

EX-ANIMAL

Impossível falar à alma de um
dos viventes de Deus sobre esta lida,
sobretudo o que vai na alma ferida,
ou na lembrança que não é comum.

Somos ilhas cercadas por nenhum
outro ser dito irmão. Nada o convida
a um mínimo de esforço que dê vida
ou assunção de problemas, seja algum

conselho, bate-papo ou sofrimento
sobre ações, pensamentos e palavras,
salvo se se tratar do testamento.

O desumano egoísmo é sem limite,
do prazer de si só faz suas lavras,
e o mundo inteiro que se dinamite.

AS COISAS QUE…

Passo a limpo os guardados, vejo a capa
de um livro de poemas que me roeu
por ter nele o meu rosto!… Olho-o, à socapa,
tentando deslembrar quem era eu.

O mundo é diferente em cada etapa,
e a gente nem percebe que sofreu.
Já não quero sequer buscar, no mapa,
a alma, o sonho onde ela se perdeu.

Como senti-me mal naquele dia!
Mas me guardei daquela coisa fria
pra me esquecer, enfim, que fui um jovem.

Por que perder meu tempo em desmazelo?
Se o passado morreu já não é belo,
quero o presente e as coisas que nos movem.

CAMINHANTE

No início, para trás eram meus passos,
mesmo assim alcancei quem se atrasou
mais do que eu, quem nada me escutou.
Meus pés doíam presos a alguns laços…

De rosto, a olhar em volta do ocidente,
jamais ouvi um som de voz alheia,
sem ver minhas pegadas pela areia,
a curtir um passado inconseqüente.

Fiz pecados tão poucos, rezei tudo.
Cansado de falar me tornei mudo,
de tanto acreditar fiquei descrente.

Atrasei-me de amor pelo vizinho,
mas descobri, agora, que sozinho
ainda posso dar passos para frente.

DA VIDA E DA MORTE

Há quem busque esta vida noutra vida,
e são felizes recriação da morte.
E quem encontre a vida na antemorte,
e são felizes plenamente em vida.

Por que preocupar-se com a tal morte,
se ela vem no seu tempo como a vida,
ou depois. E se o ente está sem vida,
logo o engana e faz dele vida e morte?

Há quem, afadigado pela vida,
transforme a vida-vida em vida-morte
e passe uma existência sem ter vida.

E os que só vivem dissecando a morte
pra saber se depois da vida há vida,
ou se depois da morte tudo é morte.

Fonte:
O Autor

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Francisco Miguel de Moura (1933)

Chico Miguel nasceu na cidade de Francisco Santos-PI (outrora povoado “Jenipapeiro”, município de Picos), aos 16/06/1933. Estudos primários com seu pai; ginasial e contabilidade, em Picos, onde casou e residiu alguns anos. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduado na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, onde residiu cerca de 3 anos. Funcionário aposentado do Banco do Brasil. Mestre-escola como seu pai, funcionário público municipal (escrivão de Polícia), radialista, professor de língua e literatura, cujas atividades não mais exerce. Dedica-se exclusivamente a ler, escrever, fazer palestras e brincar com os netos. Já ganhou prêmios em todos os gêneros que pratica, até em trovas no Ano do Sesquicentenário.

Colabora nos diversos jornais de seu Estado, entre os quais “O Dia”, “Diário do Povo” e “Meio Norte”; nas revistas “Literatura”, de Brasília (hoje editada em Fortaleza), “Poesia para todos”, do Rio; “LB – revista da literatura brasileira”, São Paulo; “Almanaque da Parnaíba”, “Cirandinha”, “De Repente”, “Revista da Academia Piauiense de Letras”, “Cadernos de Teresina” e “Presença”, de Teresina. É também colaborador permanente dos jornais “Correio do Sul”, Varginha, MG; “Diário dos Açores”, das Ilhas dos Açores e “O Primeiro de Janeiro” (Suplemento Cultural “das Artes das Letras”), de Porto, Portugal. Ultimamente, vem sendo editado pelas revistas “Lea” e “Clarín”, editadas na Espanha; “Pomezia-Notizie”, Itália; e “Jalons”, na França.

É sócio efetivo da União Brasileira dos Escritores e da Academia Piauiense de Letras, e membro-correspondente da Academia Mineira de Letras e da Academia Catarinense de Letras.

Por força de sua atividade como funcionário do Banco do Brasil, além de na cidade de Picos, morou na Bahia (Capital e interior) e no Rio, e por último em Teresina, onde concebeu e publicou a maioria de suas obras.

A obra de Francisco Miguel de Moura recebeu enorme manifestação da crítica, vinda de escritores de todo o país, inclusive críticos literários como João Felício dos Santos, Fábio Lucas, Nelly Novaes Coelho, Rejane Machado, Olga Savary, cujo material quase todo foi reunido em dois volumes já publicados: “Um Canto de Amor à Terra e ao Homem” (Editora da Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2007) e “Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura” (Edições Cirandinha, Teresina-PI, 2008).

Chico Miguel ama as artes, a poesia (literatura) especialmente – pelo trabalho que realiza com a palavra; ama o ser humano (o “eu” e o “outro”) e a natureza, quase como se fosse uma religião sem dogmas. Enquanto as religiões e a ciência são, de certa forma, indiscutíveis, incontestáveis, despóticas, portanto, a arte é humilde e trabalha em torno da humanização do homem, que ainda está bem longe. Talvez essas sejam as razões do seu agnosticismo.

POESIA:

“Areias”, editora Correio de Timon Ltda. Timon – MA, 1966. “Pedra em Sobressalto”, Pongetti, Rio, 1972;
“Universo das Águas”, Grupo Cirandinha,Teresina, 1979;
“Bar Carnaúba”, Universidade Federal do Piauí,Teresina, 1983;
“Quinteto em mi(m)”, Editora do Escritor, Rio, 1986;
“Sonetos da Paixão”, Ed. Ciradinha,Teresina, 1988;
“Poemas Ou/tonais”, Ed. e Gráfica Júnior Ltda.,Teresina, 1991; “Poemas Traduzidos”,Gráfica e Ed. Júnior Ltda., Teresina, 1993; “Poesia in Completa”, Ed. Fundação “Mons. Chaves”,Teresina, 1998 (comemorando os 30 anos de poesia);
“Vir@gens”, Editora Galo Branco, Rio, 2001:
“Sonetos Escolhidos”, Editora Galo Branco, Rio Rio, 2003;
“Porta Folio: 40 Sonetos”, Editora Guararapes, Recife-PE, 2003;
“Antologia”, Edições Cirandinha, Teresina, 2006;
“Tempo contra Tempo”, Edições Cirandinha, Teresina, 2007 (este em co-autoria com Hardi Filho);
“A®fogo – Romance da Revolução”, Paco Editorial, São Paulo, 2010;
“Cinquenta Sonetos” – Editora Guararapes – EGM, Recife – PE
Inéditos:
“Itinerário de Passar a Tarde”, “O Coração do Instante”, “A Casa do Poeta”, “Lindes do Caminho”, “As Cores a Cor”, “A Sombra do Silêncio, “A Jóia Rara” , “50 Poemas Escolhidos pelo Autor”, “Testemunho” e “Novos Poemas”.

ROMANCES:

“Os Estigmas” Ed. do Escritor, SP, (1984), reeditado em 2004, Ed. Cirandinha);
“Laços de Poder”, Projeto Petrônio Portela, Teresina (1991); premiado, 1º lugar (prêmio Fontes Ibiapina, da Fundação Cultural do Piauí;
“Ternura”, Ed Univ. Federal do Piauí, 1993 – reeditado em 2011-Ed. Livro Pronto – SP),
“D. Xicote”, Ed. do Governo do Estado do Piauí, 2005, em conj.com outros. Com este ganhou 2º lugar do prêmio Fontes Ibiapina em 2003;

Inédito:
“O Crime Perfeito”- terminado de escrever em julho de 1991, na praia da Atalaia,Luís Correia – PI.

CONTOS:

“Eu e meu Amigo Charles Brown”, Fundação Petrônio Portela, 1986,
“Por que Petrônio não Ganhou o Céu”, Companhia Editora do Piauí, 1999;
“Rebelião das Almas”, Academia Piauiense de Letras/Banco do Nordeste, Teresina, 2001.

CRÔNICAS:

“Eu e meu Amigo Charles Brown”, Projeto Petrônio Portela, Gráfica e Editora Júnior, Teresina, 1996;
“A Graça de cada Dia”, Edições do Autor/SIEC, Teresina, 2009;
“O Menino quase Perdido” – que não se enquadra bem na categoria de crônicas, assim chamei-o de “memorial” – Projeto A. Tito Filho/Fundação Culural Mons. Chaves, Teresina, 2009.

CRÍTICA LITERÁRIA:

“Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, 1972/1997, 1ª e 2ª edições, respectivamente, a primeira pela Editora Artenova, Rio; a segunda pela Universidade Federal do Piauí;
“A Poesia Social de Castro Alves”, Editora do Escritor, São Paulo, 1979;
“Um Depoimento Pós-Moderno” , Ed. Cirandinha, Teresina, PI, 1989; (este depoimento teve ma 2ª ed. em Goiânia – GO);
“Assis Brasil” (em conjunto com Edmilson Caminha), Projeto Petrônio Portela, Teresina, PI, 1989;
“Castro Aves e a Poesia Dramática”, Academia Piauiense de Letras, Teresina, 1998;
“Moura Lima: Do Romance ao Conto”, Ed. da Universidade de Tocantis, Araguaina-TO, 2002.

NOTA: – Além disto, devem ser considerados na mesma área:
“Piauí: Terra, História e Literatura” (cr[itica e antologia), Ed.do Escritor, São Paulo, 1980;
“Literatura do Piauí”, Academia Piauiense de Letras, Teresina, 2001;
“Miguel Guarani, Mestre e Violeiro”(biografia), Edições Cirandinha/FUNCOR, Teresina, 2005.
________________
site: http://www.usinadeletras.com.br
blogs: http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
http:// cirandinhapiaui.blogspot.com
http://abodegadocamelo.blogspot.com


Fonte:
O Autor

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Simone Borba Pinheiro (Ciranda da Amazonia) Parte 2

ARLETE PIEDADE
 Amazónia – Pulmão verde e rubro


 És verde e rubro, o pulmão deste planeta azul e branco!
 – Verde das florestas em extensão, rubro das queimadas,
 estendendo longos dedos negros em direção ao flanco,
 da mãe ignorada pelos filhos, de quem devia ser amada!

 Noutros tempos eras verde, azul, claro, limpo e puro,
 no teu seio criavas belos seres, de alma transparente!
 um belo e imponente rio atravessava teu corpo e juro…
 eras a mais preciosa jóia, deste planeta de alma doente!

 Mas os homens de distantes terras, foram chegando,
 de teu sadio, fértil, bravio e belo corpo se apossando,
 para seu deleite, prazer, sendo a riqueza fácil, o tema…

 teus tesouros foram furtando, teus rios conspurcando,
 teus habitantes foram corrompendo, mulheres violando,
 ainda será tempo de te salvar, sendo esse nosso lema?
====================

ARMANDO SOUZA
As cores da Amazônia

 Verde de mil e um verdes, vida a subir.
 Agarrando o sol
 Planície do verde olhando o céu, a florir.
 Casa e mesa das mariposas de mil cores a casar
 Beleza de diferentes pássaros a voar
 Subindo às alturas, para do verde sair.
 Amazônia, pulmão que a natureza nos deu.
 Folhas são ventoinhas purificando o ar do céu
 Dentro de seu verde tanta vida
 Beleza para nós desconhecida
 Tantos sonhos selvagens, frutos esquisitos.
 Podem ser de amor ou de morte da Amazônia gritos
 Numa certa clareira, moças deitadas.
 Cobrindo suas vergonhas
 São cores, muitas cores, tom garridas, pintadas.
 Cabanas construídas de folhas de bananeira
 Quando chove, é ali que se realiza toda a brincadeira.
 Macacos voam fugidios
 Mil qualidade de peixes e piranhas nos rios
 Debaixo de tanta frescura, vive gente primitiva sorrindo.
 Mas a civilização vai seu lar destruindo
 Com enormes queimadas
 Deixando as cores da Amazônia desbotadas
 Debaixo dos mil verdes, nossa saúde nas flores.
 As raízes são venenos da nossa doença
 Tudo isto pode fazer passar nossas dores
 Aumentar no viver nossa Crença
 Debaixo do verde repuxos ou lanças de pau
 Dão vida a vida com o cacau
 Névoa respiram chuva torrencial
 Não queiras conhecer os segredos dos fluviais
 Formam oceanos de espuma amarela
 Deixado os verdes aveludados
 Em linda aquarela
 O sol raia, grande alegria.
 Ouve-se o batuque, musica de poesia.
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BEATRIZ KAPPKE
Amazônia e a responsabilidade ambiental.


 Assunto da atualidade
 Que enfronha religiosos
 E pessoas de qualquer idade
 De todas as profissões e também os ociosos.

 Denunciados todo os dias com tristeza
 Abusos de toda sorte
 Crimes contra a frágil natureza
 Prevendo para o nosso planeta a morte!

 Tímidas porém são
 O vislumbrar de saídas eficazes
 Para resolver a tal questão
 Com ações realmente pertinazes.

 Leis editar, acordos firmar
 A Amazônia proteger
 A humanidade amedrontar
 Irá da imprudência humana os desmandos resolver?

 Sobre utilização dos recursos naturais
 São louváveis as campanhas
 Os diferentes e respeitáveis pontos de vista
 Denotam uma preocupação tamanha.

 Mas a atual situação, melhorar ou piorar
 O ser humano tem em suas mãos
 Porém urge a consciência mudar
 E ao comportamento dar outra direção.

 Meio ambiente exige atitude, visão e percepção
 Respeito à vida pessoal, à vida do outro e da natureza
 Não só na Amazônia mas em todo este torrão
 De tanta grandeza e singular beleza!

 Só então teremos neste mundo
 De seis bilhões de indivíduos
 Menos miseráveis num submundo
 Clamando para viverem mais dignos!

 Será o grande passo
 Que a humanidade precisa dar
 Enlaçar-se num grande abraço
 E a paz social alcançar!
==================

BILL SHALDERS
Pegar-te no colo


 Minha Amazônia Querida
 Pulmão do meu lar Terra
 Grandeza verde do planeta Azul
 Dói meu espírito ver sua devastação
 Dói minha alma ver sua agonia

 Ah, que vontade de pegar-te no colo
 Embalar-te até te curares
 Da maldade da serra
 Da maldade do homem
 Da maldade do ignorante

 Ah, que vontade de pegar-te no colo
 Embalar-te até adormecermos juntos
 E sonhar com uma nova Terra
 E sonhar com um novo planeta
 Que entenda e acolha a tua formosura

 Ah, que vontade de te pegar no colo
 Embalar-te até adormecermos juntos
 E acordar somente no despertar da humanidade
 Pois se morreres, morreremos junto
 Morreremos todos, queiramos ou não

 Cada ser que vive em tuas entranhas
 Cada pedacinho do teu chão
 Cada pedacinho de tua copa
 Representa um pedacinho do meu coração
 Representa um pedacinho do meu Ser

 Cada ser teu que morre, morro junto
 Cada ser teu que parte, parto junto
 Cada gota a menos de orvalho
 Uma lágrima minha a mais
 Ah, que vontade de pegar-te no colo

 Embalar-te até podermos fugir desta sanha
 Pois se um dia morreres
 Morrerei por ti, morrerei junto a ti
 Somos ligados pelo amor
 Ah, que vontade de pegar-te no colo.
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DENISE SEVERGNINI
Floresta Amazônica


 Brasil, sai desta insônia
 E salva a tua Amazônia.

 Desmatamento e erosão…
 Demanda de carvão…
 Animais em extinção…

 Brasil, sai desta insônia
 E salva a tua Amazônia.

 Assoreamento e erosão…
 Garimpo e contaminação…
 Culturas em destruição…

 Brasil, sai desta insônia
 E salva a tua Amazônia.

 Paisagem em degradação…
 Provocada pela mineração…
 E a droga da poluição…

 Brasil, sai desta insônia
 E salva a tua Amazônia.

Fonte:
http://www.familiaborbapinheiro.com/ciranda_amazonia.htm

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Folclore dos Estados Unidos (Lenda Abenaki: Estória do Tambor)

Diz-se que, quando Tunkashila (o Avô Universo), estava a dar um lugar a todos os espíritos que habitam e tomam parte da habitabilidade da Mãe Terra, se escutou um som, uma forte explosão à distância.

Tunkashila escutou o som a aproximar-se cada vez mais até estar mesmo à sua frente.

-Quem és tu?- perguntou o Criador

-Eu sou o Espírito do Tambor- foi a resposta- e venho pedir-te que me permitas
participar nestas coisas maravilhosa que estás a criar.

– E como queres tu participar?

-Gostava de acompanhar o canto das gentes, quando se cante desde o coração eu próprio vou cantar como se fosse o bater do grande coração da Mãe Terra. Desta maneira toda a criação cantará em harmonia!

Tunkashila atendeu ao pedido e a partir de então o tambor tem acompanhado as vozes que cantam desde o coração. Para todos os primeiros povos do mundo (indígenas), o tambor constitui o centro das canções e é o catalisador para o espírito destas se elevar até ao Criador de modo a que as orações cheguem aonde estão destinadas a ir. O som do tambor traz integridade, respeito, entusiasmo, solenidade, força, coragem e cumprimento das próprias canções. Trata-se do bater do grande coração da Mãe Terra concedendo aprovação a todos os que nela habitam. A águia abraça esta medicina e conduz a sua mensagem ao Criador e aí se transforma a vida das gentes.

Para os índios, (Pajés e Xamãs), o tambor é o ‘cavalo ou canoa’ que os transporta para outras dimensões da realidade. Sua vibração é extremamente forte, capaz de propiciar a cura e a ampliação da consciência por ressonância vibratória. Quando o tambor é tocado, sua vibração é sentida dentro do corpo, criando um efeito purificante. Através das ondas sonoras, entramos em ressonância e ativamos a memória ancestral do homem como espécie e indivíduo.

Instrumento de cura e manifestação.

As vibrações do tambor mudam as ondas cerebrais de beta para ALFA, as ondas cerebrais alfa são as ondas do estado de meditação, as ondas que abrem o portal da genialidade, o lado direito do cérebro, o lado direito do cérebro é a nossa parte feminina, é a energia criativa individual e ao mesmo tempo a energia criativa de ‘Tudo que Existe”, o eu quântico onde não há mais a noção do ego linear que diz (Como a energia criativa pode ser minha e do Universo inteiro ao mesmo tempo?) essa noção diz respeito apenas as leis dessa dimensão linear, egóica, ao transcender essa dimensão Tu é Individual e TUDO QUE EXISTE ao mesmo tempo, sentir o que É ISSO é meditação, é a iluminação, é dizer “É ISSO” é dizer ao Universo “EU SOU” e assim perceber a irmandade de todas as coisas, portando, as vibrações do tambor são um instrumento quântico de cura interior, de autoconhecimento, de magia, a real magia..

Fonte:
Grupo Xamanismo

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) XIII

foi mantida a grafia original.
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A MÃE

Eu canto-vos, mulher, porque vos tenho visto
Na pálpebra vermelha a lágrima de amor,
Que vem de Eva a Maria — a doce mãe de Cristo –
Formando a estalactite imensa duma dor!

Oh, quantas vezes já na aldeia miserável
Nas tristezas do campo, às portas dos casais,
Vos tenho surpreendido, em êxtase adorável,
Enquanto os filhos nus ao peito conchegais!

A fria noite chega. Os maus, de boca cheia,
Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
Com eles repartis a vossa parca ceia;
E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

De inverno quase sempre as noites são mordentes.
Uivam lobos na serra: o vento uiva também:
Mas eles vão dormindo os longos sonos quentes,
Enquanto a vil insónia oprime a pobre mãe!

Tendes sustos cruéis. Temendo que lhes caia
A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
Podeis então dormir um tanto mais feliz.

Mulher quanto é suave e longo esse poema
Quanto é preciso ó mãe, no trânsito cruel,
Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
A pálida mulher que rompe a multidão,
Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

Nos frios do lajedo, às vezes, pede esmola
Às portas dos cafés: ninguém a quer ouvir:
E a ela qualquer côdea a farta e a consola
Contanto que sem fome os filhos vão dormir!

E enquanto à luz do gás a turba prazenteira
No fumo dos festins revoa em turbilhão,
Quantos dramas cruéis nas húmidas trapeiras;
Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

E sempre a mesma lenda, a mesma história antiga:
Do palácio à cabana o vosso doce olhar,
Nas insónias cruéis, na fome ou na fadiga,
Dum raio criador o berço a iluminar!

No entanto à doce mãe, se aquele amor sem termo,
Da moda traja agora os novos ouropéis,
E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
Sofrendo se dilui nos ideais cruéis;

Nas vagas pulsações dumas recentes ânsias,
Se aquela santa flor das grandes comoções,
Apenas tem lugar nas vossas elegâncias,
Como um enfeite de mimo amado nos salões;

Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
Se o vosso grande afeto intenta erguer-se mais,
Sonhando a sagração dos heroísmos novos,
Resplendente de luz; vistosa de metais:

Aos reflexos do gás, ó mãe, abri passagem
Por entre a saudação das alas cortesãs,
Levando as seduções da vossa doce imagem
Aos delírios da noite, às ceias das manhãs!

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
Palpita ingénuo e bom na paz da solidão,
E o vosso amor levai à ópera e ao passeio
A fim de que ele arranque um bravo à multidão!

E eu hei de rir ao ver que o peito onde um tesouro
Maior do que nenhum podemos encontrar,
Intenta seduzir pela medalha de ouro
Que aos pequenos heróis os reis costumam dar!

Arcanjo vai-te embora: é tarde: em nossas casas
Talvez alguém se aflija; é tão deserta a rua!…
Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas:
Dá saudades à lua.

Um beijo em cada estrela! … Espera que eu sou louco!
Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céus!
Agora tem cuidado; o céu escorrega um pouco:
Boas noites adeus!

SANTA SIMPLICIDADE

Na serena missão de paz que tu cumpriste
Ó suave Jesus, ó doce galileu,
Que santa singeleza e que perfume triste
Do Teu casto perfil no mundo rescendeu!

Havia no Teu verbo aquela unção divina
Que a velha harpa de Job soltou nas solidões,
E o belo, o puro sol da antiga Palestina
Suave contornou, de luz, Tuas feições!

Compunham-Te o cortejo uns pobres pescadores
Almas retas e sãs; marchavas por Teu pé,
E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
Sentado nos portais da pobre Nazaré.

Da Tua Galileia os vales percorrias
Levando um bom quinhão de afeto a cada lar,
E o grande olhar suave e terno das judias
Turbaste muita vez, decerto, sem pensar!

E mais simples na morte, apenas a Tua alma
Transpunha as regiões puríssimas do sol,
Tu que havias colhido a imorredoura palma
Não tinhas para o corpo as galas dum lençol!

Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto
Que sobre a Terra, agora, ao Teu nome fiéis,
Os que se dizem ser apóstolos de Cristo
Não precisam trajar os ínfimos buréis.

Não maceram seus pés! Não vão pobres e rotos
Envoltos na estamenha, apedrejados, sós,
Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
Convertendo o gentio ao som da sua voz.

Ante eles, ao contrário, alargam-se os batentes
Dos palácios reais, nas grandes receções,
E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
Atrás dos quais se bate um trote de esquadrões!

Cobrindo-lhes, depois, de insígnias as roupetas,
A fim de honrar melhor a primitiva fé,
Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
Polvilham-se melhor os homens da libré!

E dão-se-lhes festins onde há grandes baixelas,
Fatais cintilações de vinhos e rubins,
Gargantas ideais, grandes espáduas belas,
Lampejo de cristais, insídias de cetins!

Oh! Temo bem Jesus que tantas pedrarias
Façam peso de mais na barca do Senhor,
Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
Mal podem segurar o leme salvador!

Por isso quando avisto o espaço que negreja
E o mar que se encapela, eu temo que amanhã
Do fendido baixel da Tua velha Igreja
Apenas reste, à proa, uma ficção pagã!

O velho Olimpo dorme o bom sono comprido
Que prostra o lutador no fim duma batalha,
E os Deuses doutro tempo, em lívida mortalha,
Descansam no torpor dum mundo corrompido.

No puro céu cristão, de estrelas revestido,
No entanto há muito já que chora e que trabalha,
Por nós o Cristo bom sem que seu Pai lhe valha,
A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

Justiça, traça o manto alvíssimo e estrelado
E senta-te, mulher, no trono abandonado
Pelos vultos gentis de tantos deuses velhos!

Depois inda maior, mais pura e mais serena,
No sangue de Jesus molhando a tua pena
Explica a nova lei no fim dos evangelhos!

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Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 9 – O livro comestível

A maior parte das ideias da Rã eram desse tipo. Pareciam brincadeiras, e isso irritava Emília, que estava tomando muito a sério o seu programa de reforma do mundo. Emília sempre foi uma criaturinha muito séria e convencida. Não fazia nada de brincadeira.

– Parece incrível, Rã! – disse ela. – Chamei você para me ajudar com ideia na reforma, mas até agora não saiu dessa cabecinha uma só coisa aproveitável – só “desmoralizações …”

– Isso não! A idéia das tetas com torneiras na Mocha foi minha e você gostou muito. A da pulga também.

– Só essas. Todas as outras eu tive de jogar no lixo. Vamos ver mais uma coisa. Que acha que devemos fazer para a reforma dos livros?

A Rãzinha pensou, pensou e não se lembrou de nada.

– Não sei. Parecem-me bem como estão.

– Pois eu tenho uma ideia muito boa – disse Emília. – Fazer o livro comestível.

– Que história é essa?

– Muito simples. Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pêlos químicos – uma tinta que não faça mal para o estômago. Q leitor vai lendo o livro e comendo as
folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal?

A Rãzinha gostou tanto da idéia que até lambeu os beiços.

– Ótimo, Emília! Isto é mais que uma ideia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos. As últimas serão as da sobremesa – gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.

– E as folhas do índice – disse Emília – terão gosto de café – serão o cafezinho final do leitor. Dizem que o livro é o pão do espírito. Por que não ser também pão do corpo? As vantagens seriam imensas. Poderiam ser vendidos nas padarias e confeitarias, ou entregues de manhã pelas carrocinhas, juntamente com o pão e o leite.

– Nem precisaria mais pão, Emília! O velho pão viraria livro. O Livro-Pão, o Pão-Livro. Quem soube ler, lê o livro e depois come; quem não souber ler come-o só, sem ler. Desse modo o livro pode ter entrada em todas as casas, seja dos sábios, seja dos analfabetos. Otimíssima ideia , Emília!

– Sim – disse esta muito satisfeita com o entusiasmo da Rã. – Porque, afinal de contas, isso de fazer os livros só comíveis para o caruncho é bobagem – podemos fazê-los comíveis para nós também.

– E quem deu a você essa ideia , Emília?

– Foi o raciocínio. O livro existe para ser lido, não é? Mas depois que o lemos e ficamos com toda a história na cabeça, o livro se torna uma inutilidade na casa. Ora, tornando se comestível, diminuímos uma inutilidade.

– E quando a gente quiser reler um livro?

– Compra outro, do mesmo modo que compramos outro pão todos os dias.

A ideia, depois de discutida em todos os seus aspectos, foi aprovada, e Emília reformou toda a biblioteca de Dona Benta. Fez um papel gostosíssimo e de muito fácil digestão, com sabor e cheiro bastante variados, de modo que todos os paladares se satisfizessem. Só não reformou os dicionários e outros livros de consulta. Emília pensava em tudo.

Também reformou muita coisa na casa. Por meio de cordas e carretilhas as camas subiam para o forro de manhã, depois de desocupadas, a fim de aumentar o espaço dos cômodos. As fechaduras não precisavam de chaves; bastava que as pessoas pusessem a boca no buraco e dissessem: “Sésamo, abre-te” e elas se abriam por si mesmas.

– E os mudos? – perguntou a Rãzinha. – Como vão arrumar-se? Só se eles andarem com uma vitrola no bolso, que pronuncie por eles a palavra Sésamo.

Emília atrapalhou-se com o caso dos mudos e deixou-o para resolver depois. O leite a ferver ao fogo dava um assobio quando chegava no ponto, de modo a avisar ao fogo, o qual imediatamente parava de agir. Q mesmo com todas as comidas – e dessa maneira acabou-se a desagradável história do “feijão com bispo.”

E tanta e tanta coisa as duas fizeram, que se fôssemos contar metade teríamos de encher dois volumes. Lá pelo fim da semana o Sítio do Pica-pau estava totalmente transformado, não dando a menor idéia do antigo. Foi por essa ocasião que chegou carta de Dona Benta anunciando a volta.

– “Já concluímos o nosso serviço na Europa” – dizia ela. – “Deixamos o continente transformado num perfeito sítio – com tudo direitinho e todos contentes e felizes. A Comissão que nos trouxe vai reconduzir-nos para aí novamente. Devemos chegar na próxima segunda-feira e espero encontrar tudo em ordem.”

Emília leu a carta para a Rãzinha, dizendo:

“É uma danada, esta velha! Foi lá e fez o que todos aqueles ditadores e reis não conseguiram. Temos agora de preparar a casa para recebê-la.”
================

continua

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Ana Maria Zanini e Ruth Ceccon Barreiros (Ler como e o que – Ler para quê?)

RESUMO: A queixa de professores de que os estudantes não sabem ler e escrever, e de que não se mostram capazes de produzir textos de acordo com as exigências necessárias para caracterizá-lo, é relativamente antiga e tem suscitado inúmeras pesquisas na busca de encontrar quais os entraves na formação proficiente de leitura e, consequentemente, de escrita. Dentre os caminhos indicados nas práticas de leitura, dois se destacam: ou reproduzem modelos já ultrapassados ou se inspiram nas propostas de promoção de leitura em que se valoriza o espontaneísmo. Contudo, é preciso reconhecer que a questão do domínio lingüístico e da capacidade de ler e escrever transcende as formas de ensino e de formação individual, residindo, em grande parte, nos modos como se distribuem e se transmitem os bens culturais na sociedade contemporânea. Em outras palavras, o problema se relaciona com os processos de produção e circulação da cultura escrita, isto é, com as formas de letramento.

1 – Introdução

Com o desenvolvimento da escrita e da leitura o homem tornou-se capaz de transmitir conhecimentos e fatos. A leitura, como ação de decifrar signos e descobrir sentidos, pode ser empreendida como um ato de fruição e enlevo ou para estudo, com a intenção de agregar e difundir saberes. Para tanto, o hábito de leitura deve ser desenvolvido de forma que o leitor possa apreender os sentidos do texto, deixando de ser um mero decifrador de signos, e que possa a partir dessas experiências tornar-se também um produtor de novos textos.

A leitura é uma característica da sociedade urbano-industrial moderna. Saber e poder ler e escrever é uma condição tão básica de participação na vida econômica, cultural e política que a educação escolar tornou-se um dos direitos fundamentais do ser humano, assim como a saúde. Os índices de alfabetização da população é um dos critérios para a avaliação do desenvolvimento e da qualidade de vida.

Entretanto, os estudos e debates sobre leitura têm privilegiado as formas de ler em que prevalece o investimento subjetivo, livre e autônomo. Daí porque se fala e se escreve tanto sobre o prazer de ler, a formação do gosto pela leitura, valorizando-se as motivações de ordem pessoal, para que haja leitores efetivos e não apenas sujeitos que decoraram signos linguísticos. Ainda que não se afirme categoricamente, acredita-se nesse movimento espontâneo de formação pessoal, do qual a leitura seria um fundamento básico.

Porém, é preciso reconhecer que a questão do domínio linguístico e da capacidade de ler e escrever transcende às formas de ensino e de formação individual, residindo, em grande parte, nos modos como se distribuem e se transmitem os bens culturais na sociedade contemporânea. Em outras palavras, o problema relaciona-se com os processos de produção e circulação da cultura escrita, isto é, com a maneira que é feito o letramento.

De acordo com Barros, “assim concebido, o texto encontra seu lugar entre os objetos culturais, inserido numa sociedade (de classes) e determinado por formações ideológicas específicas.” (2007, p. 7). Dentro dessa concepção, além dos expressos linguísticamente (oral ou escrito), os textos também pode ser visuais – gestos, dança, fotografia, placas sinalizadoras ou o modo de se vestir – ou apresentar um sincretismo de expressões: história em quadrinhos, filmes, peça publicitária ou música.

Diante da imensa gama de textos a serem lidos, presentes no cotidiano de qualquer indivíduo podemos afirmar, portanto, que há leituras diferentes e que uma política de formação do leitor não pode se limitar à premissa única de que “ler é bom”. O fato é que o uso da escrita passou a ser de tal modo imperativo que o indivíduo que não lê e não escreve torna-se um pesado ônus para o sistema. Pois, como disse Castello-Pereira (2003, p. 13), “precisamos formar cidadãos que possam ler bem, porque o sujeito que não tem um bom domínio da leitura tem em grande parte a sua possibilidade de participação social limitada”.

Há certamente uma dimensão pragmática, em que saber ler importa para a produção de valores hegemônicos e para a organização da vida diária. É fato também que a leitura é uma forma de consumo, em torno do qual se constitui, em grande parte, a indústria da informação e a indústria editorial.

Trazer à tona esse debate é imprescindível no atual momento da educação brasileira, que vem incorporando em ritmo acelerado novos segmentos sociais, cujas experiências culturais e vivência com os discursos escolares parecem não corresponder às expectativas da sociedade.

2 – Desenvolvimento

É inegável a importância da leitura na formação dos indivíduos, no seu aperfeiçoamento e no exercício pleno da cidadania. Mas o que é leitura?

2.1 – O que é leitura

Segundo o dicionário eletrônico Houaiss, leitura é, entre outras acepções

s.f. (1382 cf. SintHist) ação ou efeito de ler 1 ato de decifrar signos gráficos que traduzem a linguagem oral; arte de ler 2 ato de ler em voz alta 3 ação de tomar conhecimento do conteúdo de um texto escrito, para se distrair ou se informar 4 o hábito, o gosto de ler 5 o que se lê; material a ser lido; texto, livro 5.1 LITUR.CAT texto lido ou cantado por uma só pessoa, ger. extraído da Bíblia <é tradicional a l. nos refeitórios dos conventos e colégios religiosos> 6 conjunto de obras já lidas 7 fig. maneira de compreender, de interpretar um texto, uma mensagem, um acontecimento 8 matéria de ensino elementar . (HOUAISS, 2002)

Indo além da simples definição de interpretação mecânica de sinais gráficos, a leitura pode ser definida, dentro de uma visão mais ampla, como “um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, não importando por meio de que linguagem.” (MARTINS, 1991, p. 30).

Desse modo, compreende-se que ler significa perceber a intenção de uma peça publicitária, captar a expressão corporal do interlocutor ou assimilar a história de um filme. A leitura é um processo de construção de sentidos realizado entre o emissor e o receptor. Pode-se dizer que ocorre um diálogo entre aquele que lê e aquilo que é lido. Consequentemente, desenvolver a leitura “significa também aprender a ler o mundo, dar sentido a ele e a nós próprios.” (MARTINS, 1991, p.34).

A leitura, de acordo com Sole (1998, p. 92-99), deve seguir alguns objetivos. São eles que determinam a postura do leitor diante do texto, a forma como esse leitor vai compreender o que foi lido. Em uma situação de ensino, o professor deve ter em mente esses objetivos antes de aplicar um texto em sala de aula.

A autora enumera, entre outros, os objetivos de ler para obter informação precisa, para seguir instruções, para obter uma informação de caráter geral, para aprender, para revisar um texto próprio, por prazer, para comunicar um texto a um auditório, para praticar leitura em voz alta, para verificar o que se compreendeu. Esses não são os únicos propósitos de um leitor diante de um texto, mas são alguns dos que podem ser trabalhados dentro do contexto escolar. Assim, sob essa perspectiva esses objetivos podem ser assim descritos:

a) Ler para obter uma informação precisa é uma leitura seletiva, em que o leitor procura apenas uma informação, rejeitando outras. É o caso de consultas em dicionários ou enciclopédias ou em uma lista telefônica.

b) Ler para seguir instruções nos permite fazer algo concreto. É uma leitura completamente funcional, como no caso anterior ocorre durante a leitura uma seleção de informações, ou seja, o leitor escolhe o que é importante ou não, deixando de lado tópicos que não interessam ao objetivo. São exemplos textos de receitas culinárias, regras de um jogo ou editais de concursos.

c) Ler para obter uma informação geral é quando a leitura é feita para se obter uma visão ampla do assunto do texto, não há pressão para encontrar qualquer informação mais detalhada. É o caso do leitor que navega aleatoriamente na internet.

d) Ler para revisar um texto próprio ocorre normalmente com as pessoas que utilizam a escrita como instrumento de trabalho, jornalistas, por exemplo. É uma leitura crítica, em que o autor procura colocar-se no lugar do leitor. No ambiente escolar é um importante instrumento para o desenvolvimento da produção textual.

e) Ler para aprender. É uma leitura mais focada. Nela o objetivo é ampliar conhecimentos, para tanto o leitor aprofunda-se mais no texto, anota dúvidas, registra termos desconhecidos, relaciona as novas informações com as já adquiridas.

f) Ler por prazer. A leitura nesse caso é uma questão pessoal, depende de como cada leitor frui o texto. Normalmente é um objetivo relacionado com textos literários. O discurso poético não precisa seguir as normas da língua, é de teor subjetivo e, portanto, plurissignificativo. Como o texto literário é basicamente ficção, o leitor pode fugir da lógica sistemática e do pensamento analítico, da realidade, e participar de um mundo imaginário. “Através de uma história inventada e de personagens que nunca existiram, é
possível levantar e discutir […] assuntos humanos relevantes […] evitados pelo discurso
didático-informativo […] por serem considerados subjetivos, ambíguos e imensuráveis.”
(AZEVEDO, in SOUZA, 2004, p. 40). A afirmação do autor reitera a importância do processo de introdução à leitura e de apreciação do texto literário em sala de aula.

g) Ler para comunicar um texto a um auditório produz uma leitura em que o leitor necessita utilizar vários recursos para que a mensagem chegue corretamente a seu destinatário: entoação, pausas, ênfase, etc. Como essa é uma leitura em que os aspectos formais são importantes, o leitor deve ter contato prévio com o texto antes de ser apresentado ao público.

h) A leitura em voz alta é uma prática tipicamente escolar, em que se exerce a dicção, entonação e normas de pontuação. É precedida, normalmente, de uma leitura silenciosa.

i) Ler para verificar o que se compreendeu. Após a leitura de um texto, faz-se a recapitulação    ou responde-se a um questionário para se constatar o que foi compreendido.

Solé também afirma que partindo do objetivo determinado para a leitura, e tendo em mente que leitura é um processo de interação, é que o leitor constrói os significados do texto lido. E não apenas isso, para ler necessitamos, simultaneamente, manejar com destreza as habilidades de decodificação e aportar ao texto nossos objetivos, ideias e experiências prévias; precisamos nos envolver em um processo de previsão e inferência contínua, que se apoia na informação proporcionada pelo texto e na sua própria bagagem, e em um processo que permita encontrar evidência ou rejeitar as previsões e inferências antes mencionadas. (SOLÉ, 1998, p.23).

Assim, segundo Solé, ao ser apresentado a um texto, o leitor deve ser capaz de decodificar seus signos e, indo além, de formular hipóteses que levem à construção da compreensão do texto.

2.2 – Os parâmetros curriculares

A educação é um direito garantido pela Constituição de 1988 a todo cidadão brasileiro e é dever do Estado promover o acesso ao ensino básico, pois somente a educação preserva a democracia. Além da Carta Magna, o direito à educação é garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990; e pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), de 1996.

O ensino de língua e literatura percorreu um longo caminho antes de chegar a esse ponto. Inicialmente, logo após o descobrimento, o ensino não era institucionalizado e visava tão somente à alfabetização pura simples. Mais tarde, nas últimas décadas do século 19, a disciplina de língua portuguesa passou a integrar os currículos escolares brasileiros. Mas foi somente em meados do século 20 que o ensino de língua portuguesa
perdeu seu status elitista.

Dentro desse contexto de expansão da escolarização, em que aumentou expressivamente o número de alunos, surgiu a necessidade de estabelecer propostas pedagógicas adequadas aos novos tempos e necessidades. No caso específico do ensino de língua materna e literatura brasileira, dever-se-ia levar em conta “a presença de registros linguísticos e padrões culturais diferentes dos até então admitidos na escola.”
(GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p. 43).

Com o estabelecimento da LDB, em 1996, técnicos do Ministério de Educação elaboraram os Parâmetros Curriculares Nacionais que passariam a servir de referenciais
às propostas curriculares dos sistemas de ensino. A partir dessa premissa foram criadas as Diretrizes Curriculares Estaduais a fim de estabelecer novas atitudes frente às práticas de ensino, “numa proposta que dá ênfase à língua viva, dialógica, em constante movimentação, permanentemente reflexiva e produtiva.” (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p. 48).

2.2.1 – As Diretrizes Curriculares

As Diretrizes Curriculares da Educação Básica do Estado do Paraná, elaboradas pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná, compreendem a leitura como “um ato dialógico, interlocutivo, que envolve demandas    sociais, históricas,  políticas, econômicas, pedagógicas e ideológicas de determinado momento.” (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p. 56). Sob esse aspecto, o processo de ensino da prática leitora leva o aluno a desenvolver aptidões não apenas linguísticas, mas também cognitivas e de cidadania, em uma dimensão mais ampla, que o encaminha à construção
de significados.

As diretrizes curriculares direcionam um olhar mais específico ao estudo da literatura, propondo que o ensino da literatura procure formar um leitor que seja capaz de sentir e expressar o que sentiu, com condições de reconhecer, nas aulas de literatura, um envolvimento de subjetividades que se expressam pela tríade obra/autor/leitor, por meio de uma interação que está presente na prática de leitura. (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p.58).

Assim sendo, cabe ao professor utilizar textos variados, de diferentes gêneros, em linguagem verbal e    não–verbal,    incluindo-se    também o    meio    digital. Essa diversidade familiariza os alunos com todos os suportes de leitura, permitindo-lhes que reflitam sobre o que foi lido e desenvolvam o senso crítico. Além disso, o professor  deve “propiciar ao educando a prática, a discussão, a leitura de textos de diferentes esferas sociais…” (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p.50).

2.2.2 – As Diretrizes e Bakhtin

As Diretrizes Curriculares da Educação Básica do Estado do Paraná indicam que o professor deve propiciar aos seus alunos a oportunidade de leitura de textos de diferentes linhas – jornalísticos, literários, publicitários, digitais, etc.

O texto visto como uma articulação de discursos, já que não é um objeto fixo em um determinado momento – há a produção do texto e sua recepção por parte do leitor – decorre do fato que “a utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana”. (Bakhtin, 1997, p. 280).

Esses enunciados, ainda segundo Bakhtin, em cada esfera de utilização, são elaborados de forma estável. Dentro dessa concepção são denominados gêneros do discurso. O autor afirma que a riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa. (Bakhtin, 1997, p. 280).

Bakhtin divide os gêneros discursivos em primários, usuais em situações do cotidiano, e secundários, que contemplam situações de enunciação mais complexas, caso de    textos acadêmicos,    literários ou científicos. Os enunciados refletem a individualidade de quem os propõe e o gênero mais adequado a apresentar o estilo individual é o literário, nele o estilo individual faz parte do empreendimento enunciativo enquanto tal e constitui uma das suas linhas diretrizes -; se bem que, no âmbito da literatura, a diversidade dos gêneros ofereça uma ampla gama de possibilidades variadas de expressão à individualidade, provendo à diversidade de suas necessidades. (BAKHTIN, 1997, p. 284).

Tomando por base esse pressuposto, “o aprimoramento da competência linguística do aluno acontecerá com maior propriedade se lhe for dado conhecer, nas suas práticas de leitura, escrita e oralidade, o caráter dinâmico dos gêneros discursivos”. (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008. p. 53). Assim, as Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná defende a posição de que “o trabalho com os gêneros […] deverá levar em conta que a língua é um instrumento de poder e que o acesso ao poder, ou sua crítica, é legítimo e é direito para todos os cidadãos”. (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p. 53).

2.3 – Prática de leitura

As diretrizes curriculares, dentro da concepção bakhtiniana adotada, referem-se à leitura como a familiarização do aluno com “diferentes textos produzidos em diversas esferas sociais”. (GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ, 2008, p. 71). O professor deve atuar como um mediador, visando ao desenvolvimento de seres críticos, e programar estratégias de acordo com o tipo de texto escolhido para a reflexão. Ainda segundo orientação das diretrizes, o professor ao selecionar textos para a prática de leitura em sala de aula deve levar em conta o contexto escolar, a experiência anterior dos alunos bem como suas expectativas.

2.4 – Texto literário

Para além do texto didático encontrado nos livros escolares, que transmitem conhecimento e informações, é imprescindível também que os alunos entrem em contato com narrativas de cunho literário. Em contraponto a um discurso objetivo impessoal e sistemático do livro didático, o texto literário

pode e deve ser subjetivo; pode inventar palavras; pode transgredir as normas oficiais da língua; pode criar ritmos inesperados e explorar sonoridades entre as palavras; pode brincar com trocadilhos e duplos sentidos, pode recorrer a metáforas, metonímias, sinédoques e ironias; pode ser simbólico; pode ser propositalmente ambíguo e até mesmo obscuro. (AZEVEDO, in SOUZA, 2004, p. 40).

Essas características do discurso poético provocam e estimulam os leitores, que acabam por elaborar múltiplas leituras a partir de um mesmo texto dado, enriquecendo e ampliando a visão de mundo. Assim, a leitura de textos literários “permite a identificação emocional entre a pessoa que lê e o texto e [..] pode representar […] um precioso espaço para que certas especulações vitais […] possam florescer.” (AZEVEDO, in SOUZA, 2004, p. 40).

Assim, para a prática de leitura em sala de aula, o professor deve nortear-se pela escolha de textos autênticos. Como autênticos, Antunes compreende os textos “em que há claramente uma função comunicativa, um objeto interativo qualquer”. (ANTUNES, 2003, p. 79). São textos reais, autorais, com data de publicação e que foram divulgados em algum suporte de comunicação social (jornal, revista, livro, etc.). Dentro dessa concepção, e também pensando no contexto em sala de aula, os gêneros selecionados devem estar adaptados aos propósitos almejados.

3 – Considerações finais

Ao focar a atenção nos procedimentos de estudos presentes no ato de ler, enfatiza-se    uma dimensão fundamental do processo de formação intelectual do estudante, exatamente aquela que supõe que certas leituras implicam procedimentos cognitivos específicos que não se adquirem necessariamente com a leitura espontânea.

A leitura de estudo, em livros didáticos, por exemplo, é um modo de ler que implica procedimentos metacognitivos e linguísticos distintos    daqueles que    se constituem em torno das atividades da vida diária. Nos procedimentos metacognitivos “o leitor reflete sobre o seu próprio conhecimento, o seu modo de saber”. (CALIXTO, Benedito José, 2001, p. 70). Já os procedimentos linguísticos refletem a decodificação dos sinais que representam a linguagem.

A leitura, portanto, demanda diversos tipos de tarefas cognitivas, nas quais regras e princípios de classificação, análise e síntese, inferências, são mais relevantes do que critérios contextualizados mais diretamente relacionados à experiência vivida. De acordo com Castello-Pereira (2003, p. 17), “aprender a estudar um texto não é apenas uma questão de aprender uma técnica, implica aprender a operar com referenciais culturais, sociais e políticas.”

Dentro dessa perspectiva, o leitor passa a ser um sujeito ativo no processo de leitura, seja de um romance ou notícia de jornal, uma música ou de um comercial de televisão, pois toda sua bagagem de conhecimentos – linguístico, enciclopédico ou de mundo – interfere na interpretação do que está codificado no texto. Segundo Ingedore Villaça Koch, a concepção de um leitor predeterminado pelo sistema, um ente passivo, que seja apenas um mero decodificador de signos, passou a ser a de um leitor interativo, um sujeito produtor de sentidos.

Apesar da grande quantidade de pesquisa sobre o tema, ainda não se desvendou completamente os mistérios da leitura e a diversidade de fatores que nela interferem. Porém, o presente estudo    sobre    leitura    possibilitou o    enriquecimento e instrumentalizou um possível debate pelos professores de Língua Portuguesa sobre o assunto. Tal estudo constitui-se ainda uma necessidade e um desafio, se o objetivo for desenvolver comportamentos leitores nos alunos.

Ler é uma atividade complexa que exige reconhecer, identificar, unir, associar, relacionar, abstrair, comparar, generalizar, deduzir, inferir, hierarquizar. Não significa apenas decodificar símbolos, mas apreender informações explícitas e implícitas e demais sentidos. Construir sentidos que depende de conhecimentos prévios a respeito da língua, das práticas sociais de interação, dos gêneros, dos estilos, das formas variadas de organização textual.

Mas é preciso garantir o acesso à diversidade textual, proporcionando atividades que possibilitem elaborar a leitura em suas variadas funções, gêneros e estilos, conhecendo e explorando seus diversos suportes.

São os usos sociais da leitura que devem balizar o trabalho da escola e cabe aos professores formar leitores, antes discutindo propostas de pensadores, suas concepções, definindo seu conceito, sistematizando e ampliando os conhecimentos necessários ao domínio da execução de uma prática pedagógica ampliada e dinamizada, favorecendo o seu ensino.

Lidamos com leitura o tempo todo, pois a escrita é parte constitutiva das mais diversas atividades do cotidiano. Assim, é relevante ressaltar, também, que a leitura é fundamental para o desenvolvimento de outras áreas do conhecimento e para o consequente exercício da cidadania

Entre livros e leitores há um importante mediador: o professor. Mas é necessário que a leitura seja para este a ferramenta essencial para a prática do seu trabalho, revelando-se um leitor dedicado e uma forte referência para seus alunos. Cabe a ele, também, o papel de desenvolver nos alunos o gosto pela leitura a partir de uma aproximação significativa com textos, efetivando uma leitura estimulante, reflexiva, diversificada, crítica, ensinando-os a usarem-na para viverem melhor.

É preciso que o professor recupere em sua vida a leitura como uma atividade de múltiplas funções para poder partilhar com as pessoas o prazer e a necessidade de ler.

Referências

ANTUNES, Irandé. Aula de português encontro & interação. 3. imp. São Paulo: Parábola, 2003. (Série Aula).

AZEVEDO, Ricardo. Formação de leitores e razões para a literatura. In: SOUZA, Renata Junqueira. Caminhos para a formação do leitor. São Paulo: DCL, 2004.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria Semiótica do texto. 4. ed. São Paulo: Ática, 2007.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacional. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: . Acesso em: 14 jan. 2010.

CALIXTO, Benedito José. Aspectos cognitivos da leitura. In: DAMKE, Ciro (Org.). Anais da 3ª Jell – jornada de estudos linguísticos e literários: língua, sociedade e identidade. Cascavel: Edunioste, 2001.

CASTELLO-PEREIRA, Leda Tessari. Leitura de estudo: ler para aprender a estudar e estudar para aprender a ler. Campinas: Alínea, 2003.

HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. Versão 1.0.5ª. 1 CD-ROM.

INSTITUTO PRÓ-LIVRO; OBSERVATÓRIO DO LIVRO E DA LEITURA. Retratos da Leitura no Brasil. 2. ed. 2008. Disponível em:
. Acesso em: 14 abr. 2010.

KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender os sentidos do texto. 2. ed. 1 reimp. São Paulo: Contexto, 2007.

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. (Coleção Primeiros passos).

GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Departamento de Educação Básica. Diretrizes Curriculares da Educação Básica. Paraná, 2008.

SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Tradução Cláudia Schilling. 6. ed. São Paulo: Artmed. 1998.

Fonte:
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade, Ensino e Linguagem. UNIOESTE – Cascavel / PR, 2010.

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José Feldman (Universo de Versos n. 124 )

Uma Trova do Paraná

ADÍLSON DE PAULA
Joaquim Távora


Pôr do sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece …
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Taubaté/SP

JUDITE DE OLIVEIRA


Vendo o fogo que a devora
e toda a fauna enlutada,
a linda floresta chora,
antes de morrer queimada.
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Se a tua ausência magoa,
magoa mais a saudade…
Muitas vezes a garoa
molha mais que a tempestade.
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, do Rio de Janeiro

JOSIAS ALCÂNTARA


Felicidade sem brilho,
em tão pouco se resume…
 como a ausência de um filho,
ou ter a flor sem perfume!
============================
Uma Trova Humorística, de São Gonçalo/RJ

JANE PIRES PALUMA


Desmaiou em plena missa
o padre da freguesia,
quando viu tanta cobiça
no decote da Maria…
============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Não acredito em trapaça,
o livre arbítrio eu imponho;
não há destino que faça
eu desistir do meu sonho.
============================
Uma Trova Hispânica, da Argentina

NELLY NOEMI NICOLOSI


Milagros sueña su vida
soñando llegue el amor.
En sueños jamás olvida
que amando, le dan amor.
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Pouso Alegre/MG

ALFREDO DE CASTRO


Sem uma luta acirrada,
sem punições com firmeza,
não se põe fim à queimada
da nossa mãe natureza!
============================
Trovadores que deixaram Saudades

JOÃO FIGUEIREDO
Rio de Janeiro/RJ


Irmão é quem, na medida,
provê sempre em hora certa,
e nas borrascas da vida
nos deixa uma porta aberta.
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto!…
============================
Um Haicai de São Paulo

DARLY O. BARROS


Mais além, a mata
e um azulão na gaiola,
cabisbaixo, mudo…
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Eu não bebia… te juro!
Beijei-te, então, podes crer:
foi teu beijo, vinho impuro,
que me ensinou a beber.
============================
Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


Se tudo existe
para acabar num livro,
se tudo enigma
a alma de quem ama.
============================
Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando ADEMAR MACEDO
Shopping Center de Trovas


MOTE:

Se a inspiração me emitir
todo dia, idéias novas
brevemente irei abrir
um Shopping Center de Trovas!

GLOSA:

Se a inspiração me emitir
o que eu mais gosto de ter,
eu vou, das musas, ouvir
sobre o que, devo escrever!

É bom ganhar de presente,
todo dia, idéias novas,
pois isso, faz bem à gente,
nos lançando a belas provas!

Não vou mesmo resistir…
Sendo assim, então garanto,
brevemente irei abrir
um novo e belo recanto!

Quero o seu consentimento:
Diga, amigo, se me aprovas!
Abrirei com sentimento,
um Shopping Center de Trovas!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Ó quaresmeira viuvinha,
toda coberta de flor!
Quando a viuvinha se enfeita
é que pressente outro amor.
============================
Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


areia quente
pés descalços
corrida para o mar
============================
Galáxia Poética do Francisco Pessoa

FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS
Fortaleza/CE

Excesso de Bagagem (Maringá/PR) *


Se promessas são dívidas ou não
Eis-me aqui, são e salvo neste frio,
Vindo do norte de um calor bravio
Para provar a minha gratidão.
Pus poesia no meu matulão**
Mandei o Haroldo*** reservar passagem
Viemos juntos para esta viagem
Trazendo tanto, tanto, tanto amor
Que no check-in, acredite o senhor,
Foi registrado EXCESSO DE BAGAGEM.

Mas eu paguei feliz o tal imposto
E pagaria tudo uma outra vez
Só pelo fato de estar com vocês
E poder abraçá-los rosto a rosto.
Falar ao vivo tem um outro gosto
Participar dessa camaradagem
Amizade fiel, sem maquiagem,
E de tanta afeição, tenho certeza
No check-in ao voltar pra Fortaleza,
Vou pagar outro EXCESSO DE BAGAGEM!

Nota:
* Este poema foi declamado por Pessoa nos Jogos Florais de Maringá.
** Matulão: Saco onde os retirantes nordestinos carregavam seus pertences.
*** Haroldo a que o poeta se refere, é outro poeta, Haroldo Lyra.

============================
Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Salto do Guaíra


Largo, oceânico, azul, ora margeando
Campina extensa, ora frondosa mata,
Léguas e léguas marulhoso e brando
O rio enorme todo o céu retrata.

Súbito, as águas, brusco, represando
Em torvelins de espuma se desata;
Vertiginoso, indômito, raivando
Ruge, fracassa e tomba em catarata.

Tomba, e de novo em arco se levanta.
Nada a brancura esplêndida lhe turva,
Em tanto resplendor e glória tanta.
============================
Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Beneficência

Caridade que não busca
Ver os outros como estão,
Não promove sindicância,
Nem exige gratidão.
===============
Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Arre!…


Aroeira, arataca, arapuca,
Araponga, ariranha, ururau,
Sol a pino queimando na nuca,
Araruta no fogo é mingau…

Arruela, artimanha, arruaça,
Assa-peixe, assai, açafrão,
Cala-boca de pobre é mordaça,
Todo amor que machuca é paixão.

Arretado, arremesso, arraial,
Arraigado, arrepio, arrastão,
Milho seco enchendo o paiol,
Peixe grande fisgado no anzol
Na panela o fubá do pirão…

Arrebate, arrebique, arrebento,
Arrebol, arredio, arremate,
Gente pobre jogada ao relento,
Erva pura, erva-doce, erva-mate!

Armadilha, armazém, armarinho,
Arquiteto, arquivista, artesão,
Coração implorando carinho,
A saudade chorando baixinho
E o juízo perdendo a razão…
============================
Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Interlúdio

 –
 As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente – claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
============================
Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Casa Vazia


Falar de amor não é mistério
Nem tão difícil de explicar
A gente nunca faz por mal
Meu coração praia deserta
Morre de medo do inverno
E da solidão que me devora
Agora, a casa vazia,
Eu grito seu nome,
Só o silêncio me responde
Pensar que o amor é sempre eterno
Que é impossível ele se acabar,
Você bem que podia tentar, mas não, não, não…..
Então quero falar por um momento (só por um momento)
Da tua ausência no meu corpo
E dessa lágrima no meu rosto
Agora, a casa vazia,
Eu grito seu nome,
Só o silêncio me responde
O fogo arde sob o nosso chão
Nada é tão fácil assim
Eu ando sozinho, no olho do furacão
Você nem lembra mais de mim
Agora, a casa vazia,
Eu grito seu nome,
Só o silêncio me responde
============================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


a cássia florida –
o que foi mesmo que vim
fazer no jardim?
=================================
Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Empíreo


A morte é o Mal, eis a verdade,
O próprio Demônio sobre o Mundo;
A ele Deus deixou uma metade
Do seu reino e justo o lado imundo.

Senão, reparem, vejam: treme
A natureza diante da ameaça…
Ao menor perigo grita e geme
E todo dia e só dia de caça.

Por isso entre os gregos só havia
O Hades para todos os mortais,
Embora para poucos outra via:

O Empíreo ou Ilhas Bem-Aventuradas
A que alguns chegavam sem os ais,
Que dos heróis as almas são aladas…
============================
Uma Poesia de Curitiba/PR

CELITO MEDEIROS

Eu juro


Que importam os riscos que vou correr
Afinal sabemos que não vamos morrer
Mas é melhor riscos se poder arriscar
Do que riscar a morte sem poder amar.

Se de risadas é parecer um tolo
Se chorar parecer sentimental
Estendo minha mão e me envolvo
Vou mostrar que sou muito real.

Minhas idéias defendo sempre
Pois eu sei que atrás vem gente
Mesmo incompreendido vou amar
Ainda é tempo de também inovar.

Morrer um corpo não é mistério
Viver como espírito é o importante
Um corpo pode ir para o cemitério
Um espírito é o meu comprovante.

Se arriscar pode gerar um fracasso
Não me importo sou mesmo de aço
Estou aqui é para as experiências
Buscar as mais novas tendências.

Busquei a liberdade e já era tempo
Tudo do passado fazer na soma
Opressão que não mais aguento
Meu determinismo que assoma.

Importante é lutar, vencer nem tanto,
Encontrei há tempo meu porto seguro
Juntos seremos cobertos pelo manto
Daqueles que nos esperam…, eu juro!
============================
Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


A Morte vem tarde ou cedo
– com brumas no fim da estrada.
São as neblinas do medo…
– Talvez tudo… – Talvez nada
=================================
Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Feitiço


Se eu tivesse os poderes de uma fada,
estaria contigo o tempo inteiro,
iluminando tua madrugada
como se fosse a luz de um candeeiro.

Seria teu bordel e teu mosteiro,
seria teu refúgio e tua estrada,
do nascer ao momento derradeiro,
da hora da partida até a chegada.

Eu te seduziria qual sereia.
Então, nos amaríamos na areia;
depois te afogaria com meus beijos.

E no final eu me transformaria
numa estrela repleta de magia
que pudesse atender aos teus desejos!
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

HORAS DE SONO
 –

 Esta lengalenga é também provérbio/adágio, cantada no século XVIII.
 –
 Quatro horas dorme o santo,
 Cinco o que não é tanto,
Seis o caminhante
Sete o estudante,
Oito o preguiçoso,
Nove o porco,
Mais só o morto.

http://luso-livros.net/
============================
Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

O Baú


Como estranhas lembranças de outras vidas,
Que outros viveram, num estranho mundo,
Quantas coisas perdidas e esquecidas
No teu baú de espantos… Bem no fundo,
Uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino…
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino
te traz de súbito uma idéia louca:
é ela, sim! Só pode ser aquela,
a jamais esquecida Bem-Amada.
E em vão tentas lembrar o nome dela…
E em vão ela te fita… e a sua boca
Tenta sorrir-te mas está quebrada!
============================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Relógio da Alma


do fundo do chão
gêiser de alento
a busca do ouro no jorro do tempo
=======================
Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Sou o Espírito da treva


Sou o Espírito da treva,
A Noite me traz e leva;

Moro à beira irreal da Vida,
Sua onda indefinida

Refresca-me a alma de espuma…
Pra além do mar há a bruma…

E pra aquém? há Cousa ou Fim?
Nunca olhei para trás de mim…
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Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Canção


Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, incruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
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Uma Poesia de Portugal

EUGÉNIO DE ANDRADE
Castelo Branco (1923 – 2005) Porto

A boca


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
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Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Ama e serve, sofre e luta…
Sem lâmina que a sublima,
a pedra largada e bruta
nunca seria obra-prima.
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Os risos das crianças:
No cristal, bolas de gude
— luzes trepidantes ­
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Uma dúvida virou poema
O menino perguntou à mãe
se o sol é feito de gema
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Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Culpado

–   
Não consigo chegar. Estou sempre partindo.

Absolutamente incapaz para a felicidade,
vou inutilizando cada amor, tão de pronto
o sinto meu…

Não protesto, nem reclamo: é um simples reconhecimento
da verdade,
o culpado sou eu.
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Um Soneto de Vila Velha/ES

ISRAEL ROSÁRIO

Sodoma


 Mudar em pejo o quanto fez natura
 Assume à luz do dia o vil desvio
 Tomado por escolha dum covil
 Em tudo dado a enganos só loucura.

 O acinte vem de muito longe e dura
 Por falta grave em tempos dum vazio
 Exato a alma fina e o etéreo brio
 Divino faz-se em nada em vão sem cura.

 Errar é humano quando não molesta
 Razão, Consciência e senso a mentes poucas
 À austera margem quando segue a festa.

 Sodoma agora espera as vozes roucas
 Tomadas por luxúria a nada honesta
 Agenda infâmia alegre em marchas loucas.
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Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Quem matou o Divino Galileu
deu um passo infeliz e negativo,
fez o mundo cobrir-se de amargura
por um crime covarde e sem motivo,
e jamais esperou que, após três dias,
Deus mostrasse a grandeza do Messias,
levantando-o da cova redivivo!

Fonte:
Debate em Setilha Agalopada entre os potiguares Zé Lucas, Prof.Garcia e Ademar Macedo)

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Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Tempo de Existir


Ainda recordo meu tempo de fé:
O movimento das horas
cinzelando meus sonhos.
As palavras sem travas,
as ossadas das lembranças
mergulhadas nas sombras.
Um canteiro de cânfora
perfumando as mãos.

Meu tempo de esperança
não era essa caricatura de estrelas
que borram o céu dos sentidos.
Era um rosto organizando a vida.
Era um culto velando o sono,
um oráculo em vestes amarelas,
fomentando o divino,
nas pequeninas coisas.
Uma semente, um sorriso,
uma palavra dispersa que nutria.

Medito sobre estes restos de caminhos
que me chegam,
sobre esse tempo que se estende
diante da colina:
um tempo inanimado em seu degredo,
mas que, vez ou outra, acende uma luz
a serviço dessa minha noite
de vigília eterna.
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Uma Poesia Além Fronteiras

WILLIAM CARLOS WILLIAMS
Estados Unidos (1883 – 1963)

Os pobres


É a anarquia da pobreza
que me encanta, a velha
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo

Ou uma sacada de ferro fundido
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças

que refletem cada período e
estilo da necessidade –
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa é

poucas em cercas delimitando quase
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada

-os seus três metros de calçada
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir
tomar conta da cidade inteira

Tradução: José Paulo Paes
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Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Pranto para Comover Jonathan


Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
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Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Dualismo


“Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, entre maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando mum vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.”
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Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Parolagem da vida


Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
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UniVersos Melodicos

Ary Barroso

ISTO AQUI, O QUE É?
(samba, 1942)


Isto aqui ô ô
É um pouquinho de Brasil, Iaiá
Deste Brasil que canta e é feliz
Feliz, feliz
É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça ai, ai
E não se entrega não
Olha o jeito nas cadeiras que ela sabe dar
Olha só o remelexo que ela sabe dar
Olha o jeito nas cadeiras que ela sabe dar
Morena boa que me faz penar
Bota a sandália de prata
E vem pro samba sambar
Morena boa que me faz penar
Bota a sandália de prata
E vem pro samba sambar
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

EU ERA ASSIM


Quando eu era nenê, nenê, nenezinho,
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era menina, menina, menina,
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era mocinha, mocinha, mocinha,
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era casada, casada, casada
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era mamãe, mamãe, mamãe
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era vovó, vovó, vovó,
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era caduca, caduca, caduca,
Eu era assim… Eu era assim…

Quando eu era caveira, caveira, caveira
Eu era assim… Eu era assim…
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Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

E era


Porque, amor, o amor é de abismos.

Absoluta certeza de que não:
emparelhara,
e como se tivesse visto,
ou como se nem,
e arrancou!
Ah, esses cavalos modernos,
só tropel e pó,
já num fôlego contra a montanha.
Como se fosse o mar,
e o mar defronte, profundos,
os olhos navegavam – pra onde?
Eram de ir, eram de vir?
Porque, amor, o amor é de abismos.
Ah, o mar, de explodir nas pedras,
ora marulho, doutras só espelho,
espelhavam
porque os meus, sumidos,
inteiramente nos teus e eram fundos:
seriam de ir, seriam de vir? – os teus olhos,
e eram fundos.
Vontade e desencontro:
Foi por ali,
ela teria dobrado?
Voltaria?
Por que não me disseste logo:
amor, aqui não, neste alpendre tosco,
os passantes, essas pessoas que nada;
vamos, vem, vamos, às maresias, lá me contaram,
duns passarinhos, sempre o mar,
saltitam a areia… eles são de ir, seriam de vir,
de tão branquinhos?
Disparou:
Um relincho súbito,
seria o coche da rainha
voltando e os arautos
seriam de ir, seriam de vir, aonde foram?
Não, não era ninguém!
É muito simples:
o desamor não tem disfarces.
É muito simples:
uma moto rapidíssima,
a moto, uma firmeza de flecha e aço,
as manoplas frementes, os joelhos em transe;
ah, essas motos modernas,
como gostaria de apalpá-las!,
de uns fios negros, mais uns de ouro;
outros, sanguíneos; na curva, tudo!,
uma inclinação bem funda,
vruuuummmmmm,
(a recusa!)
engolfando o horizonte.

Vem, amor, este o teu mar,
a ti, inteiro,
todo o meu naufrágio.
==========================
Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Repetição


Repetidos os dias
e as noites

em que acerto
e erro

na repetição
do tempo
de perdas
das mesmas coisas

ou

no acerto da vida
em pedidos de repetição.
=============================
Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Coração Ferido Sofre


Acróstico realista nº 5080

C-Cromeu, sei que [o coração clama amor]
O-Observa entristecido quando há desamor.
R-[Raciocínio em protesto] sempre cala
A-Às vezes, prefere arrumar sua mala…
Ç-Criado para explodir perfeito no peito!
Ã-[A sensação da dúvida] não esclarece
O-O que traz na mágoa.[Charme desaparece].
 –
F-[Ferido, o coração sofre] sem ter colo
E-E, [vencido, chora] com lágrimas ao solo.
R-Riscos são assumidos durante a conquista,
I-Infelizmente, erros marcam à primeira vista
D-Diante da [distante realidade do sonho]
O-Os pés no chão, escolho e me proponho
 –
S-Seguir de alma lavada pela dádiva do perdão:
O-O que não deu certo por descaso ou ingratidão
F-Faz-me medir e [pensar nas consequências]
R-Reveladas nas dificuldade das experiências:
E-É difícil manter um coração ferido…sofrido!!!
==========================
Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Andando nas nuvens 


E o vento traz consigo uma mistura de perfumes
Nem que eu gaste uma resma de papel definiria
Nessa combinação de aromas que é feito lumes
Ateia chama nos paladares das narinas, eu diria!

Flores e mais flores em todos os cheiros e cores
É assim o desejo da primavera que se estaciona
Andando nas nuvens da formosura e dos olores
Até o solstício de inverno permanece e emociona.

Primavera, primavera; temporada que canta beleza.
É tempo dos jardins, canções em plenas varandas.
É estação de espetáculo, é a estação da nobreza.

E andando nas nuvens de flores, belas paisagens.
Mares e marés de pétalas em aquarelas espalhadas
Marcante, admirável em todas as suas passagens.
===============================
Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Minha Musa


A MUSA, que inspira meus tímidos cantos,
É doce e risonha, se amor lhe sorri;
É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.
Saudades carpindo, que sinto por ti.

A Musa, que inspira-me os versos nascidos
De mágoas que sinto no peito a pungir,
Sufoca-me os tristes e longos gemidos
Que as dores que oculto me fazem trair.

A Musa, que inspira-me os cantos de prece,
Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.
Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece
Ao último arranco de esp’ranças de amor

A Musa, que o ramo das glórias enlaça,
Da terra gigante – meu berço infantil,
De afetos um nome na idéia me traça,
Que o eco no peito repete: – Brasil!

A Musa, que inspira meus cantos é livre,
Detesta os preceitos da vil opressão,
O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,
Na lira engrandece, dizendo: – Catão!

O aroma de esp’rança, que n’alma recende,
É ela que aspira, no cálix da flor;
É ela que o estro na fronte me acende,
A Musa que inspira meus versos de amor!
============================
Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Amor cego
 

Você cruzou o meu caminho
em um lindo dia de verão.
E quando meu olhar bateu no seu,
senti aprisionar meu coração.

Com gestos e palavras carinhosas,
você aos poucos, me conquistou.
E me deixei levar no doce embalo,
dos abraços e beijos que me ofertou

E eu vivia tão alegremente
à esperar pelos carinhos teus.
Nunca passou pela minha mente,
que esses carinhos já não eram meus.

Vivia assim, sonhando acordada,
por longos anos à lhe desculpar.
Sempre dizendo que eu era amada,
a quem à mim viesse perguntar.

E a cada ano que recomeçava,
mais forte ainda meu amor ficava.
Um amor cego, que não enxergava,
que em seu coração, o meu já não morava.
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Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Musa Proibida


Às vezes, se eu evito te olhar
e posso até ser mal interpretado,
eu quero na verdade é evitar
ficar ainda mais apaixonado.

Podem pensar que é presunção,
e que não quero dar intimidade,
mas só eu sei quanto o coração
quase me mata de ansiedade.

Quando disfarço, olho de relance,
e até avalio mesmo a chance
que poderia haver entre nós dois.

Mas logo me recuso, sinto medo,
e prefiro continuar o meu segredo
adiando esse momento pra depois.
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Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Lua Minguante

 O centauro se assoma à janela
e a mulher adormecida está falando em sonhos.
Chora e ri, porque um centauro a rapta.

Cavalga em seus sonhos a mulher adormecida,
Cavalga em seus sonhos, e é cavalgada.
Na selva, ninguém a escuta quando grita.

Chora e ri como nunca em sua vigília.

O centauro a observa… pela janela.
=============================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

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Cantinho do Prof. Pedro Mello* (O Subversivo)

Eugenio Coseriu (1921-2002) foi um professor romeno, que dedicou sua vida ao estudo dos fenômenos da linguagem. Sua teoria, embora não seja única nem definitiva, coloca luz sobre algumas questões que nos interessam muito. Para Coseriu, a língua (qualquer uma) se realiza em três instâncias: o Sistema, a Norma e o Uso.

O Sistema é o conjunto de todos os recursos de que a língua dispõe, semelhante a um baú sem fundo. A língua oferece infinitas possibilidades, embora não seja caótica. No caso da língua portuguesa, por exemplo, só formamos sílabas com consoantes e vogais. Não é possível a nós, falantes do português, um monossílabo como o inglês “stop”, com uma vogal envolta por três consoantes. Não existe em nosso sistema, assim como no espanhol não existe “nh”. O som de “nh” em espanhol é representado por “ñ”, o que não existe em português, que só admite o til sobre as vogais “a” e “o”. Cada língua tem o seu sistema peculiar.

Dentro do Sistema, figura a Norma. A norma, como o próprio nome sugere, é o conjunto de regras do que é “lícito” ou não dentro do idioma. Quando se diz, por exemplo, que sujeito no plural exige verbo no plural, está se falando de “norma”.

A concretização da Norma é o Uso. Uso é o emprego que cada falante, dentro de um contexto específico, fará de sua língua. Se alguém disser em um bar “por obséquio” ou disser a um juiz “meu chegado” estará usando expressões que existem no sistema, mas que ferem a norma porque estão em contextos inadequados. É como usar tênis em uma formatura ou paletó na praia. Cada situação exige um uso distinto.

Aliás, essa questão de Sistema/Norma/Uso é pertinente aos que escrevem literatura, em especial Poesia. O poeta é um grande subversivo, no sentido de que implode a norma. Rasga-a, subverte-a, traspassa-a a seu bel-prazer e para o prazer do seu leitor. Entretanto, por mais que o escritor seja subversivo, jamais implodirá o sistema. Tudo o que ele criar só fará sentido porque o sistema admite. Se um prosador, registrando um uso popular, escrever “os ômi chegou”, por exemplo, será perfeitamente inteligível. Foge da norma, mas não foge do sistema. Aliás, é justificável dentro de um contexto específico. O que nunca poderá fazer é escrever “homem o chegou”, “azul o é céu”. Tais construções são impossíveis e ininteligíveis para o Português.

Mas o poeta é subversivo em outro sentido: ele reveste as palavras de novos significados, quebra os contextos em que as palavras são normalmente usadas, cria imagens incomuns, estraçalha as expectativas e constrói um mundo paralelo, uma língua dentro da língua. Aí reside a grandeza de um autor: a capacidade de subverter a língua, fazendo-se compreender e alargando as fronteiras da Norma, aliás, implodindo-a com o que existe dentro do Sistema.

Nesse aspecto, devo fazer uma referência ao nome inesquecível de Waldir Neves. Waldir foi nosso melhor subversivo, dada a quantidade espantosamente grande de trovas que legou.
Rasga-se papel, tecido, mas rasgar… a vida? Para ele, sim:

Saudade!… Foto em pedaços
que eu colei com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!

Nós, que militamos na União Brasileira de Trovadores, aprendemos a amar a trova e a admirar diversos trovadores, entre eles Waldir Neves. Mas o que destaca Waldir de todos os demais, é que tudo o que ele escrevia era subversivo, transgressor, sui generis em matéria de língua. Waldir era magistral em criar novos contextos, em combinar as palavras de maneira ímpar, criando poesia no melhor sentido do termo. Pensando em mitologia, podemos dizer que Waldir tinha um toque de Midas com as palavras. Nada nem ninguém é unânime, mas Waldir é uma honrosa exceção. Lendo-se as trovas de Waldir, não há como negar que é impressionante o requinte de seu estilo. É possível não se impressionar com a sofisticação linguística que transborda de sua lavra?

Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!

Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…

O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…

Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!

Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….

O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…

Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
– É uma estrela embriagada
que volta da boemia!

Selecionei apenas uma pequena amostragem do valor de Waldir Neves. No site “Falando de Trova” há muito mais a ser usufruído.

Quando surgirá um novo Waldir Neves? Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: ele deixou a pista do ABC da Poesia: é preciso ler muito, adquirir uma bagagem intelectual sólida e inquebrável. Ler muita literatura, muita mesmo. Ler os clássicos, sorver seu estilo, absorver o que a Língua oferece. Só quem conhece as palavras a fundo é capaz de perscrutar seu mundo com sucesso, como Waldir conseguiu fazer. Suas trovas deixam o rastro do repertório linguístico de que Waldir era dono. E mesmo assim, Waldir que é bom… só houve um.
===============================

* PEDRO MELLO nasceu em Santo André, SP, em 11 de abril de 1977. Em 1997 conheceu a Casa do Poeta “Lampião de Gás” e a União Brasileira de Trovadores, em São Paulo, sendo esta última uma entidade poética que se dedica ao cultivo da Trova.  Na UBT aprendeu a metrificar e a compor Trovas e Sonetos.  Graduou-se em Letras no ano 2000, mas já lecionava em 1996. Magnífico Trovador em Nova Friburgo/RJ,em 2010.
Imagem = formatação do Prof.Pedro sobre imagem obtida na internet

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Eliana Jimenez (Trova-Legenda: Namorados na Chuva)

Pela suprema alegria
de tê-la em meu colo e ao lado,
dia e noite, noite e dia,
digo aos céus: – Muito obrigado!
A. A. de Assis – Maringá/PR

Felizes e sorridentes,
Trocando carinho e agrado,
De tanto que estão contentes
Não vêem mais nada ao lado.
Agostinho Rodrigues – Campos/RJ

A chuva encharcando o chão,
não atrapalha meus passos,
porque é grande a emoção
de carregar-te em meus braços!
Alberto Paco – Maringá/PR

Da lida esqueço os cansaços,
supero qualquer revés;
tendo você nos meus braços,
nem sinto o mundo aos meus pés!
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Eu desconheço o valor
maior que a “felicidade”.
É Deus em forma de amor
mostrando sua igualdade.
Ari Santos de Campos – Itajaí/SC

Esta paixão indomável
de emoções tão incontidas
é uma força incontrolável
que controla nossas vidas.
Arlindo Tadeu Hagen – Belo Horizonte/MG
Diz-me o bom Deus: “Não abusa!”,
mas, como gosta de mim,
coloca em meu colo a musa
mais bela do seu jardim.
Bruno P. Torres – Niterói/RJ
Vão juntinhos…sem desgosto
nem guarda-chuva, na calma…
– não sente a chuva no rosto,
quem leva o sol dentro da alma!
Carolina Ramos – Santos/SP

Eu perco o chão dos meus pés
num rodopio em teus braços!…
Em degradê ou viés
o amor vai tecendo laços.
Dáguima Verônica – Santa Juliana/MG

Que a todos o amor sorria
e, por esse bem guiados,
seja ampliada a magia
do Dia dos Namorados!
Darly O. Barros – São Paulo/SP
Sou, com você em meus braços
um rei expondo um lauréu.
Parece que em meu regaço,
conquistaremos o céu!
Dilva Moraes – Nova Friburgo/RJ

Que a imensa felicidade
que enlaça tão bem nós dois,
seja sempre realidade
hoje… amanhã… e depois!
Dorothy Jansson Moretti – Sorocaba/SP

Um casal apaixonado
faz da vida um carrossel
de emoções, desgovernado,
rodopiando rumo ao céu.
Eliana Jimenez – Balneário Camboriú/SC
Para o homem subir na vida
e manter firmes seus passos,
mais leve fica a subida
tendo a mulher nos seus braços!
Francisco José Pessoa – Fortaleza/CE

Nos lábios, sorriso infindo;
nas mãos, o seu corpo doce…
Desejo sempre bem-vindo,
que para sempre assim fosse!
Geraldo Trombin – Americana/SP

Sob forte chuva que cai,
ele, com um lindo olhar,
e um sorriso que me atrai,
faz convite para amar.
Glória Tabet Marson – S. J. dos Campos/ SP

Cai a chuva sobre a terra
em queda fenomenal;
quanta alegria que encerra
até banhando o casal.
Haroldo Lyra – Fortaleza/CE

Teu corpo leve em meus braços
levo à chuva, tão airosa,
para sentir nos meus passos
a ternura de uma rosa!
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP

Não teriam nossos traços?
Não seriam como nós?
Eu te levando em meus braços
e te dizendo: – Enfim sós!
José Fabiano – Belo Horizonte/MG

Siga arreciando la lluvia
mientras los dos nos amamos
que aunque por fuera diluvia
por dentro nos calentamos.
Libia Beatriz Carciofetti – Argentina

Naquela serra subimos
com nuvens negras formando;
cada momento curtimos…
na chuva rodopiando.
Maria Conceição de Paula (Conceitita)/SP

O calor de uma paixão
nem chuva fria arrefece,
e o ardor do coração
num arroubo transparece.
Marina Valente – Bragança Paulista/SP

Chuva fina acaricia,
nos acolhe com amor
e nos cobre de energia
dando-nos maior vigor.
Mifori –  São José dos Campos/SP

Dois jovens enamorados,
felizes por se encontrar…
Abraçados e ensopados,
sem com a chuva se importar!
Myrthes Masiero – Atibaia/SP

Na chuva tão perfumada,
me aconchego nos teus braços,
sou feliz por ser amada,
sem a pressa dos teus passos.
Nadir Giovanelli – São José dos Campos /SP

Com você sempre extrapolo
minha alegria e emoção:
– Cada momento em seu colo
põe-me em festa o coração!
Neiva de Souza Fernandes – Campos/RJ
Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!
Nemésio Prata – Fortaleza/CE

Ao ver a chuva cair,
de manso, sobre nós dois,
sinto minha alma sorrir,
num presente sem depois…
Olga Maria Dias Ferreira – Pelotas/RS

Quem faz do amor, sonho amigo,
na vida não tem fracassos
e leva sempre consigo
o amigo sonho em seus braços!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Ontem levei-te em meus braços
aos ardores da paixão!…
E hoje levo meus cansaços
à paz do teu coração.
Thalma Tavares – São Simão/SP

Quando em seus braços me enlaça,
nessas chuvas tropicais,
nosso amor ganha mais graça…
enfrentando os temporais.
Vanda Alves da Silva – Curitiba/PR
Chuva a molhar nosso riso,
riso feliz e molhado…
qualquer tempo é paraíso,
quando o amor é partilhado.
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

Se a tristeza está no ar
e a saudade se aproxima,
nosso amor mais a brilhar
faz rolar um outro clima.
Wagner Marques Lopes – Pedro Leopoldo/MG


Fonte:

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Adriana Falcão (Ramsés Terceiro)

O nome dele era Ramsés Terceiro Gonçalves de Souza, mas quando o povo chamava “Zé”, ele vinha na hora. É que lá em São Miguel dos Milagres não havia quem decorasse nome tão qualificado,”Ramsés de quê, menino?”.

Cresceu subindo no coqueiro e escutando conversa de turista: isso aqui sim é o paraíso. Achava uma grande besteira. Qualquer lugar é o paraíso com essa lourinha ao lado, moço, me desculpe.

Parou de estudar na quinta, ou foi na sexta, mesmo assim ainda lembrava o nome das capitais de cada estado brasileiro, de Mato Grosso do Sul inclusive.

Um belo dia irritou-se, saiu de São Miguel e foi pra Maceió, ele mais seu primo Neílson. Desse, nunca mais ouviu falar, se não morreu, esqueceu-se dele. Vai ver foi isso.

O problema de Maceió é que lá era grande mas era pequeno, portanto veio morar no Rio de Janeiro.

Foi em 1994, não havia de esquecer, no dia em que o Brasil ganhou o título. O italiano lá errou o gol, ele tomou mais uma, comprou a passagem e quando acordou já estava naquele Itapemirim amarelo assim, “Maceió — Rio de Janeiro”.

No que chegou, ligou logo para a mãe, “adivinha onde é que eu tou?”, ela não havia de adivinhar era nunca. “Só não me diga que é no manicômio”, ô mulher pessimista, dona Maria do Socorro.

Arranjou um bico aqui, outro ali, acabou ajudante de pedreiro num prédio enorme de tão grande, emprego certo que durou vários meses. De lá pra cá não parou mais. Foi porteiro, eletricista, camelô, ladrão de carro, motoboy, evangélico e balconista de loja, só não lembra em que ordem exatamente. Mandava dinheiro para casa, quando dava, e ainda conseguiu juntar novecentos e cinquenta.

Quando ia completar vinte e nove anos, tempos atrás, resolveu passar o aniversário em casa. Era saudade da família. Foi pra São Miguel sem avisar, mas quem levou o susto foi ele.

Descobriu que não tinha vinte e nove, tinha trinta e quatro, e que seu aniversário não era aquele dia.

Dona Socorro contou tudinho com a maior sinceridade. Esqueceu de registrar o menino, passaram-se anos, mais cinco nasceram, e ela acabou perdendo a lembrança do dia exato do seu nascimento.

— Acho que foi lá pro fim do mês, só não me lembro de qual mês — disse. — Se não me engano, você é filho de Seu Tabosa da venda, e como eu fiquei com ele por três anos, de 64 a 67, portanto você nasceu em 65.

— Em 70 não era melhor não, mãe? — pelo menos era o ano da Copa, mas como dona Socorro já tinha tomado oito cervejas, não adiantava perguntar mais nada. Conformou-se.

Desde então procura seu horóscopo em todos os signos e aquele que parecer mais, ele acredita. Muitas vezes dá Sagitário, geralmente. No dia que leu “clima propício para o amor”, conheceu uma moreninha na Central-Rodoviária que despertou seu interesse, parece até mentira.

Montaram casa, compraram colchão, mesa, cadeira, e até almoço ela fazia. Era amor pra duzentos anos, ele dizia. Engano seu. Oito meses depois ela foi-se.

Rodou foi tudo procurando a peste, de casa em casa, de bar em bar, não é que ela já estava com outro? Encontrou os dois na parada de ônibus.

Não tinha a intenção de agredir ninguém, o miserável é que veio pra cima dele.

Fugiu com a ideia concentrada apenas em não ficar louco, coisa que se tornava cada vez mais difícil com aquele inferno na lembrança, a cabeça do miserável na pedra, o sangue correndo e uma velha gritando: “Meu Pai, Nosso Senhor!”. Pra que tanta gritaria?

Esse negócio de complexo de culpa é complicado mesmo, realmente. Ela é que arranjou outro, o outro é que partiu pra cima dele, e quem se arrependeu foi ele próprio, vê se pode, porque o tal do miserável ficou um pouco abaixo do juízo depois de todo o acontecido.

Desse dia pra cá não encontrou mais nenhum dos dois, graças a Deus. Parece que depois ela conheceu um gringo e hoje está pros lados da Alemanha, ou coisa parecida, isso é problema lá dela.

Nunca mais ligou pra mãe, nem arrumou emprego certo, nem quis saber de mulher fixa. Em compensação passou a comemorar seu aniversário todos os dias do ano, de segunda a domingo.

Tomava conta de um carro aqui, arranjava uma coisa ali, vendia lá, deixou o cabelo crescer, voltou a fumar e a beber, tinha um batimento cardíaco triste, até que deu pra conversar com cachorro vira-lata, conversa besta. Não é que o infeliz do cachorro era tão sem esperança que chegou a lhe convencer que a vida não prestava?

Atualmente, Zé tem a impressão de que está com trinta e sete anos completos. Desde abril está no manicômio. Toda noite reza pra São Miguel dos Milagres. Está só esperando.

Quando fala que seu nome é Ramsés Terceiro, comentam que ele é doido.

Fonte:
Adriana Falcão. O Doido da garrafa.

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Folclore dos Estados Unidos (Lenda Ojibwa: Como o Morcego Veio a Ser o Que É)

Nota:
Os ojibwas foram um povo indígena da América do Norte, igualmente divididos entre os Estados Unidos e o Canadá. Habitavam a região a oeste e em volta do lago Superior.
–––––––––––––––––-
Há muito tempo atrás, enquanto o sol se levantava pela manhã, ele chegou perto demais da Terra e ficou preso nos galhos mais altos de uma grande árvore.

Quanto mais o Sol tentava escapar mais ele ficava preso. Então, chegou a noite.

Logo, logo, todos as aves e animais notaram. Alguns acordaram, então voltaram a dormir pensando que tinham se enganado e não era hora de levantar.

Outros animais, que amavam a noite, como a pantera e a coruja, estavam realmente contentes porque permanecia escuro, assim ele podiam continuar a caçar.

Mas após um certo período, tanto tempo havia se passado que as aves e animais souberam que havia algo errado.

Ele se reuniram em Conselho na escuridão.

“O Sol se perdeu,” disse a águia.

“Devemos procurar por ele” disse o urso.

Assim, todos os pássaros e animais foram procurar pelo Sol.

Eles olharam em cavernas e nas profundezas da floresta e no topo das montanhas e nos pântanos.

Mas, o Sol não estava lá. Nenhum dos pássaros ou animais pôde encontrá-lo.

Então, um dos animais, um pequeno esquilo marrom teve uma idéia. “Talvez o Sol esteja preso em uma árvore alta,” ele disse.

Então, o pequeno esquilo marrom começou a pular de árvore em árvore, indo cada vez mais para o leste. Enfim, no topo de uma árvore muito alta, ele viu um raio de luz.

Ele escalou e viu que era o Sol. A luz do Sol estava pálida e ele parecia fraco.

“Ajude-me Pequeno Irmão!,” disse o Sol.

O pequeno esquilo marrom chegou mais perto e começou a mastigar os ramos que prendiam o Sol. Quanto mais perto ele chegava, mais quente ficava. Quanto mais galhos ele mastigava, mais brilhante o Sol se tornava.

“Eu tenho de parar agora!” disse o pequeno esquilo marrom. “Meu pelo está queimando. Ele estava ficando todo preto!”

“Ajude-me!,” implorou o Sol. “Não pare agora”

O pequeno esquilo continuou o trabalho, mas o calor do Sol estava muito quente e ele estava muito mais brilhante. “Minha cauda está se queimando!” disse o pequeno esquilo marrom. “Não posso fazer mais que isso!”

“Ajude-me!,” disse o Sol. “Logo eu vou estar livre!”

Assim, o pequeno esquilo marrom continuou a mastigar. Mas a luz do Sol estava brilhante demais agora.

“Estou ficando cego!,” disse o esquilinho. “Preciso parar!”

“Só um pouquinho mais!,” disse o Sol. “Eu estou quase livre!”

Finalmente, o pequeno esquilo marrom soltou o último dos ramos.

Logo que ele fez isso, o Sol se libertou e subiu para o céu.

A escuridão desapareceu sobre a Terra e era dia novamente. Por todo o mundo pássaros e animais ficaram felizes.

Mas, o pequeno esquilo marrom não estava feliz. Ele foi cegado pela claridade do Sol. Sua longa cauda tinha sido queimada até o fim e o que ele tinha de pêlo agora estava preto.

Sua pele tinha se esticado por causa do calor e ele estava suspenso no topo da árvore, incapaz de se mover…

Lá em cima no céu, o Sol olhou e sentiu pena do pequeno esquilo marrom. Ele tinha sofrido muito para salvá-lo.

“Pequeno Irmão,” disse o Sol. “Você me ajudou. Agora, eu vou de dar algo. Há algo que você sempre tenha desejado?”

“Eu sempre quis voar,” disse o pequeno esquilo. “Mas eu estou cego agora, e minha cauda se queimou.”

O Sol sorriu “Pequeno Irmão,” ele disse, “de agora em diante você voará melhor que as aves. Porque você veio tão perto de mim, minha luz sempre estará brilhando para você, e além disso você enxergará no escuro e ouvirá tudo ao seu redor enquanto voa.

“De agora em diante, você dormirá quando eu levantar nos céus e quando eu disser adeus para o mundo, você acordará.”

Então o pequeno animal que uma vez foi um esquilo caiu do galho, esticou suas asas de pele e começou a voar.

Ele não mais sentiu falta de sua cauda e de seu pêlo marrom e ele sabia que quando a noite chegasse novamente, seria sua hora. Ele não mais poderia olhar para o Sol, mas ele reteve a alegria do Sol dentro de seu pequeno coração.

E assim foi, há muito tempo atrás, o Sol mostrou sua gratidão para o pequeno esquilo marrom, que  não era mais um esquilo, mas o primeiro de todos os morcegos.

fonte:
http://www.firstpeople.us/FP-Html-Legends/HowTheBatCameToBe-Ojibwa.html
Texto em português http://casadecha.wordpress.com

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Simone Borba Pinheiro (Ciranda da Amazonia) Parte 1

SIMONE BORBA PINHEIRO
Vamos salvar a Amazônia

No coração do mundo,
 nas profundezas do centro da terra,
 emerge o mais precioso dos tesouros:
 Uma Floresta Encantada!…

 Os espíritos da floresta, à noite,
 entoam hinos de louvor á sua existência.
 A mata verdejante e misteriosa,
 derrama lágrimas peroladas quando ceifada.

 Aves assustadas tingem o céu de negro.
 Jacarés e vitórias-régias formam lindos tapetes aquáticos.
 E o povo que ali habita, pede socorro,
 bordando anéis de fumaça no céu da mata.

 Pois a floresta, aos poucos, vai desencantando,
 perdendo o brilho, a cor, a vida…
 O homem mau abriu caminho floresta adentro
 empunhando nas mãos a mortal arma
 de lâminas frias e afiadas,
 matando a vida na Floresta Encantada.

 Os seres da floresta pedem socorro.
 Vamos salvar a Amazônia
 da derrubada indiscriminada da mata,
 da matança descabida e gananciosa
 dos animais que ali habitam,
 das doenças do povo da floresta
 que indefesos tombam sem auxílio.

 Rios e igarapés choram lágrimas poluídas.
 É a morte chegando lentamente
 ao coração verde do planeta…
 Uni-vos com braços fortes,
 em brados retumbantes…
 Vamos salvar a Amazônia,
 a Floresta Encantada.
=====================

O Grito da Amazônia
ALBERTO PEYRANO

 Amazônia, mãe amada!
 Grito vital da terra
 Que clama sua grande dor.
 Hoje a onça agonizante
 O rosto do índio lambeu
 E se abraçaram as árvores
 Chorando por teu martírio.
 De Manaus a Porto Velho,
 De Macapá ao Xacurí
 Surge uma voz entre sombras
 Que alerta a Humanidade:
 “Filho, estou dolorida”!
 “Filho meu, cuida de mim”!
 Só a metade consciente
 Dos teus filhos, escutou.
 Só a metade que sente
 Tua tristeza e teu penar.
 A outra metade, arrasa
 Tua riqueza natural.
 A outra metade só escuta
 A música material.
 A noite traz a Lua
 O rio se põe a dormir,
 A selva vela em silêncio
 Esperando o que há por vir…
 Enquanto o índio e a onça,
 Irmãos no sofrer,
 Secam suas lágrimas vãs,
 Abrindo as veias da alma
 E regam teu velho solo
 Com dor, sangue e amor.
================================

O Sabiá Chorou
ANTONIO CÍCERO DA SILVA

 O sábia tristemente chorou
 A árvore com o seu ninho caiu
 O homem a árvore cerrou
 E contente ainda sorriu.

 O sabiá se entristeceu
 No ninho estavam seus filhos
 Da região se locomoveu
 Emudeceu-se, perdeu seu brilho.

 Lá longe triste a cantar
 Queixava-se muito do homem
 Que a natureza veio a danificar
 Ao que não é dele, o humano consome.

 O sabiá clamava por ajuda
 À mãe natureza
 Que também sofria, quase desnuda
 Ela também, o homem perseguia.

 O sabiá da natureza era membro
 E não prejudicavas a ninguém
 Viviam alegres a contento
 Até serem prejudicadas por alguém…
================================

Amazônia
ANTÓNIO ZUMAIA

 Um Paraíso verde na terra…
 De múltiplas cores é destino
 e Deus sabe a riqueza que encerra;
 Loucura dos homens… é desatino.

 Mas destruir o que Deus plantou,
 é pecado contra a humanidade;
 As cores lindas que ELE pintou.
 Devastar assim é crueldade.

 Brasil de pérolas carregado;
 Mil cores e amores é tua terra.
 Por isso és dos teus filhos amado,
 na alegria que teu povo encerra.

 O povo que é maravilha a cantar;
 Alegre e corajoso vai lutar.
 Amazônia terra para sonhar,
 foi uma prenda, que Deus lhe quis dar.

 É por isso que o povo Brasileiro,
 o sonho de encantar… Vai preservar!
 Porque o Paraíso, é do mundo inteiro
 e o Brasil… cioso o vai guardar.

 Paraíso de mil ilhas… Encanto!
 São mil caminhos de água a percorrer.
 Contraste de cores, que são o espanto,
 dos felizes… que o podem conhecer.
 Povos que o habitam são felicidade,
 porque a natureza… é a VERDADE.
================================

Chamas
ARLETE PIEDADE

 Línguas de fogo serpenteantes e gigantescas.
 sobem lambendo copas de árvores impotentes,
 rastejantes se insinuam, titânicas e dantescas,
 consumindo vorazmente, em todas as frentes.

 O descuido criminoso do homem pelo ambiente,
 cruel ganância de ganhos, imediatos e lucrativos,
 o desprezo pelas gerações futuras, são somente,
 alguns dos evidentes e mais falados dos motivos!

 Mas não esqueçam esses covardes incendiários,
 que ainda, mesmo neste mundo, são necessários,
 tempo, oportunidade e do castigo não escaparão…

 pois que se a justiça dos homens é ineficaz e lenta,
 da de Deus, não se livrarão, e na sua alma a tormenta,
 diáriamente, lhe fará desejar a morte, como expiação!

Fonte:
http://www.familiaborbapinheiro.com/ciranda_amazonia.htm

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Stanislaw Ponte Preta (Conto de mistério)

Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.

Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou:

Siga-me! – foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele – a uma distância de uns dez a doze passos – entrou também.

Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.

Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou – porém – quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: “É este”.

O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali.

Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:

– Julieta! Ó Julieta… consegui.

A mulher veio lá de dentro euxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão.

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Nilto Maciel (Passeio)

Se a escada parasse de súbito, eu rolava e levava de roldão todo o mundo. Talvez fosse mais engraçado do que la­mentável. Não, não posso cair nem machucar essa gatinha. É mesmo um amor de garota. E por que chamar as mocinhas de gatinhas? E nós de gatos, gatinhos, gatões? Eu, um gato? Qual nada! Sou antes um macaco, um bicho qualquer. Vou me olhar direito. Mas aqui não tem espelho. A não ser os vidros das vitrines. É isso mesmo. Faço de conta que estou olhando os calçados, os preços, como um possível comprador. Que tal uns sapatos pretos? Ou marrons? Uma ruguinha aqui, uns pés de galinha. Que sapato mais gaiato! E caro.

— Diga, freguês.

— Estou só olhando.

Sujeito mais chato! Então não se pode mais olhar uma vitrine? Ui! Quase atropelo o menininho. Ele e a mãe. Deve ser a mãe, apesar de ser ainda muito nova. Ou então irmã. Até que se parecem. Bem parecidos, sim. Ela então é uma gatinha. De novo o assunto dos bichos. Não importa, é uma fofura. No mínimo, come bem, dorme bem, vive bem. Se passasse fome, morasse nos buracos da Ceilândia, do Gama, do Paranoá, eu nem reparava nela. Eu e ninguém. Mudava de vista. Mas deve morar aqui mesmo. Nas quadras mais nobres. Quem sabe, no Lago. Numa daquelas mansões. Não, madame do Lago não deve andar pelo Conjunto Nacional. Ainda mais arrastando um filho pelo braço. Cansando, suando à toa. Podia estar em casa, na beira da piscina, tomando suco. Deve estar com sede. Não sei. Eu estou. Que tal um chopinho? Ali adian­te tem uma pizzaria. Um chope e só. Nada de ficar sentado por muito tempo. Já basta o serviço. É bom passear, andar, olhar as pessoas. Quem sabe, encontro um conhecido, um velho amigo, um conterrâneo. Então a gente toma dois chopes. Ou quatro. Enquanto conversa. Assuntos variados: futebol, mulher, política, trabalho. “E Brasília, você gosta daqui, doutor Lima?” “Não; mas para que isso de doutor? Aqui eu sou apenas o Lima. Deixe de cerimônias”.

— Um chope, por favor.

— Sim, senhor.

Acho que estive aqui um dia desses. Sim, no mês passado. Não, foi noutro lugar. Mas aqui mesmo no Conjunto Nacional. Havia um desenhista bebendo e retratando os fregueses. Um velho, meio desarrumado, com cara de quem vive bêbado. Na parede, uns retratos expostos. Tudo feito a lápis ou coisa parecida. Desenho é uma coisa, pintura outra, não é? Pintura é aquilo dos quadros da Torre. Ruelas do interior, casarões, paisagens. Tudo colorido, pintado, artístico. Obras de arte finalizadas. Está geladinho. Para matar a sede e passar o tempo. Depois peço outro. Não, eu disse que ia tomar só um. Olhe, conheço aquele sujeito. Pelo menos tem a mesma cara, as mes­mas feições do… Quem é mesmo? Deixe ver. Do Ministério da Justiça. É ou não é? Não, é só parecido. Uma vez, no Beirute, aconteceu um caso assim. Eu pensava que era a Martinha, cheguei a falar com a pessoa e tive a maior decepção. A garota devia estar cheia de maconha. E a Martinha nem de chope gostava. Essa juventude de hoje só quer saber disso. Filhinhos-de­-papai, de deputados, ministros, juízes. Eu, não, fico no meu chopinho e não tem perigo de nada. É legal e ajuda. Embora seja droga também.

— Garçom, por favor.

Esse parece que não comeu nada hoje.

— Fique com o troco.

Fique com o troco ou fique com o troço? Troçar é bom. Quem acha ruim é quem é troçado. “Olhando para mim, bele­za? Não quer me conhecer? Que tal tomarmos um chopinho? Com pizza. Pago com o maior prazer. Quer não, é? Orgulhosa! Não importa, tem muitas por aí”. Aqui deve estar circulando agora umas duas mil pessoas. E eu talvez não conheça nenhuma. Todo mundo vivendo sua vidinha, comprando, pagando, passeando. Será que há alguém como eu? Não, todos têm um rumo certo, horário de voltar para casa, família, tudo. Mais hora, menos hora, pegam o carro ou o ônibus e voltam para os seus. A mãe para o filho, o marido para a mulher, a mocinha para os pais. Deixa esse povo para lá. Que tal subir outra escada? Pode ser que em cima encon­tre algum conhecido. Ou conheça alguém. Aquela deve ser excelente garota. Bonita é. Mas nem olha para mim. E os fil­mes de hoje? Como sempre, mulheres e homens nus. A maior sacanagem do mundo. Talvez fosse bom assistir. Passar o tempo. Não, é melhor passear, olhar as pessoas. Tantas mulheres sós. E todas lindas. Muito mais do que as do filme. Aquela ali então nem se compara com aquelas depravadas. E olhou para mim. “Que tal irmos agora para o meu apartamento? Fica na Asa Norte. Garanto que você vai gostar. Você e eu. Quem sabe até a gente leva adiante essa aventura. Casamento, filhos, um lar. Ou só uma união mais ou menos passageira. Todo dia a gente vem passear pelo Conjunto Nacional. Ou então viaja para o litoral, de férias. Lua-de-mel em Guara­pari. Ou aqui mesmo no Hotel Nacional”.

— Como é seu nome, gatinha?

Fez que nem ouviu, a cadela. Deve se julgar intocável. Ih! está falando com o guarda. Mas eu não sou um peão qualquer. Além do mais, estou só passeando comigo mesmo. Pacificamente.

Fonte:
Nilto Maciel. As Insolentes patas do Cão.

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Ialmar Pio Schneider (Mensagem ao Poeta)

Vai em frente, segue a estrada
sem muito esperar da glória;
vida simples, devotada…
Se alguém ouvir tua estória,
nostálgica e merencória,
canta sempre, até por nada !…

Faze como o passarinho
que saúda a natureza,
enquanto busca um raminho,
com afã e singeleza,
p’ra construir o seu ninho:
– maior prova de beleza.

Sejam teus versos cantigas
que a gente escuta na rua;
pobres canções, mas amigas
como as estrelas e a lua;
pois a terra será tua,
longe de dor e fadigas…

Não temas crítica austera
e nem te afastes do tema,
sempre alcança quem espera…
Prosseguir ! seja o teu lema
e verás a primavera
cingir-te com seu diadema !…

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Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 8 – No dia seguinte

No dia seguinte pularam da cama muito cedo e retomaram a obra de reforma da Natureza. Tudo era examinado e reformado no que à elas parecia torto. A Rãzinha continuava com as ideias mais absurdas, de verdadeira maluca.

A reforma do Quindim, por exemplo, que a Rã fez sozinha, era a coisa mais esquisita que se possa imaginar. Em vez do famoso chifre sobre o nariz, que é característico de todos os rinocerontes, a Rã botou uma flecha de Cupido com um coração assado na ponta. Assado, imaginem! E ornamentou os cascos de Quindim com pinturas: Branca de Neve com todos os seus anões. E trocou as quatro pernas do rinoceronte por quatro pernas diferentes – uma de veado, outra de ganso, outra de jacaré, outra de pau. E substituiu aquele couro duríssimo por um revestimento muito bem trançado de palhinha de cadeira. Cauda, botou duas; depois três, depois dez, depois cem; deixou-o com um verdadeiro varal de caudas dando volta inteira em redor do pobre animal.

A reforma do Quindim saiu um tal disparate que nem andar ele podia – uma perninha não acompanhava a outra, e havia a tremenda atrapalhação de tantas caudas, todas diferentes, umas com bolas na ponta, outras com espinhos de ouriço, outras com campainhas.

Quando Emília foi ver a “obra”, não pôde deixar de rir se. Aquilo era o “bissurdo dos bissurdos.” Quindim estava transformado num verdadeiro destampatório.

– Isso não é reformar, Rãzinha! – disse ela. – Isso é escangalhar com uma pobre criatura. Ele já não é rinoceronte, nem nenhum bicho possível. Virou quarto de badulaques, baú de mascate. Que judiação!…

– E você deixa que ele fique assim? – implorou a Rã, com medo que Emília desmanchasse aquela obra-prima do disparate humano.

– Deixo por enquanto – respondeu Emília – como castigo da preguiça, da velhice e neurastenia que ele anda mostrando duns tempos para cá. No dia do plebiscito sobre o tamanho Quindim me traiu – recusou-se a votar. A falta desse voto deu vitória ao Tamanho e eu saí lograda. Agora que aguente. Mais tarde vou reformá-lo de novo, mas com critério científico …

A Rã ou era mesmo maluca ou estava “sabotando” a obra reformatória da Emília. Todas as ideia s que apresentava eram tontas, como aquela da mudança dos morros. A Rã tomou um lápis e traçou um desenho assim:

– Que é isso? – perguntou Emília.

– Ah, isto é uma das reformas que acho mais necessárias: as reformas dos morros. Sempre que tenho de subir um morro, fico cansada e sem fôlego. E então imaginei uma coisa assim: os picos serão para baixo, em vez de serem para cima, de modo que quando a gente tem de ir ao pico dum morro, desce, em vez de subir…

Emília ficou a olhar, ora para a Rã ora para o desenho. Era uma reforma que deixava tudo na mesma.

Quando alguém que descesse ao pico do morro tivesse de voltar, teria de subir para o vale…

– Não. Essa ideia está boba. Muito melhor fazermos os morros bem baixinhos, de modo que não canse a gente; ou então deixarmos os morros em paz. Para que subir morro?
––––––––––-
continua…

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) XII

foi mantida a grafia original.
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O ÚLTIMO D. JUAN

Daquele de quem falo, as sossegadas lousas
Podiam-vos contar as violações brutais!
A gula com que morde as mais sagradas cousas
De horror faz recuar os trémulos chacais.

Não descanta à viola, à noite, os seus enleios:
Ele vive na sombra e eu sei também que vós,
Gentis belezas de hoje, á astros dos Passeios,
Lhe não lançais, a furto, a escada de retrós.

Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
As monjas virginais, uns pudicos dragões;
Fechai o níveo colo aos vendavais dos beijos,
E às noites de luar os vossos corações;

Um dia há de chegar em que ele, informe, tosco,
Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
Nas grandes solidões irá dormir convosco,
Mordendo em cada seio o lírio mais gentil!

E o que ele adora muito ó virgens romanescas
Não é o que abrigais de etéreo e virginal:
Adora os corpos nus; as belas carnes frescas;
Deixando o resto a vós danados do ideal!

Não vive como nós de cândidas mentiras:
Não comunga do amor esse ilusório pão:
Devora com fervor as pálidas Elviras
E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

Tem palácios na sombra e fazem-lhe um tesouro
Maior do que o dos reis; adora as solidões:
Não usa de espadim; não traz esporas de ouro;
Mas vive como os reis das grandes corrupções!

Flores sentimentais! Treinei do paladino,
Do velho D. Juan, feroz conquistador,
A quem da vossa boca um hálito divino,
Em vida, faz fugir talvez cheio de horror;

Mas que um dia virá, na cândida epiderme,
Na sagrada nudez dos colos virginais,
Em hinos de triunfo — o grande César-Verme! –
Colher o que ficou de tantos ideais!

Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
A aérea multidão de fadas quebradiças,
Gentis aparições dos bailes e das missas,
Desliza no fulgor das pompas sedutoras.

No arfar da casimira há frases tentadoras
E maciezas tais nas lânguidas peliças,
Que as tristes comoções, decrépitas, mortiças,
Ressurgem do letargo á pálidas senhoras!

E muitos hão de ter uns êxtases divinos
Ouvindo soluçar, à noite, aos violinos,
A vaga introdução duma balada aérea;

Enquanto, do futuro, ao toque da alvorada,
Se escuta, a martelar na sua barricada,
Sinistra, rota e fria, a lívida Miséria.
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ANTIGO TEMA

Passai larvas gentis na rua da cidade
Aonde se atropela a turba folgazã;
A noite é um tanto agreste e cheia de humidade
Mas o tédio mortal precisa a claridade
Que em vosso olhar trazeis, visões do macadame!

Estátuas sem calor! Vós sois das grandes vasas
Dum corrompido mar as Deusas menos vis!
Se à noite abandonais, voando, as pobres casas,
E vindes pela rua enlamear as asas,
Quem sabe a fome oculta, as sedes que sentis!

A pálida Miséria em seu triste cortejo
Precisa as contrações de muitos ombros nus:
E vós ides sorrindo ao lúbrico desejo,
Do carro da desgraça arremessando um beijo
Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

Embora! Caminhai deixando um grande rastro
De estranhas emoções, de aromas sensuais:
E ao pobre que mendiga a palidez dum astro;
Ao que sonha visões e arcanjos de alabastro
Fazei por despenhar nos longos tremedais!

Do velho idílio, a musa, há muito já que dorme,
E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés!
A grande multidão — a vaga, a onda enorme,
Que oscila sem cessar, e gira multiforme
Às corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

Talvez ao pressentir que tudo, enfim, declina,
Adore a imensa luz, em vós, constelações,
Que não baixais do céu; que vindes duma esquina,
Vagando no rumor da aérea musselina,
Em plena bacanal fingindo de visões?

Oh, sois do nosso tempo! A lânguida existência
De tédios se consome e sente febres más!
Aspira ao que é bizarro: a uma esquisita essência
Que exala aquela flor que vem na decadência
E quando a toda a luz sucede a luz do gás!

Do século a voz rude apenas diz — trabalha! –
Ao poste vil amarra o lúbrico ideal
Que expira, enfim, talhando a fúnebre mortalha
Na vossa trança gasta, ó musas da canalha
Que apenas revoais do olimpo ao hospital!

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Eça de Queirós (No moinho)

D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como “uma senhora modelo”. O velho Nunes, diretor do correio, sempre que se falava nela, dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:

A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele ebúrnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa, curvada sobre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria.

Poucas vezes saía. O marido, mais velho que ela, era um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que não descia à rua; avistavam-no às vezes também à janela murcho e trôpego, agarrado à bengala, encolhido na robe-de-chambre, com uma face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de seda enterrado melancolicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram também doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre.

Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe davam as insônias, irritava-se com o menor rumor; havia sobre as cômodas alguma garrafada da botica, alguma malga com papas de linhaça; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no seu gosto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sobre a orelha, ou a um canto do canapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de hospital.

Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em casa dos pais, a sua existência fora triste. A mãe era uma criatura desagradável e azeda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, já velho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, apesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quase com reconhecimento, para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o marido, decerto; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fosse pertencer ao Joãozinho Coutinho, que desde rapaz fora sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai, ficara rico; e ela, acostumada por fim àquele marido rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a alcova, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Mas aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas existências hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, apesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a sua costura, corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como uma névoa que lhe escurecia a alma.

Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face tranquila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar a outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esforço lhe era fácil quando era para os contentar: apesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: durante as insônias do marido não dormia também, sentada ao pé da cama, conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caindo em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda correta no seu vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua única distração era à tarde sentar-se à janela com a sua costura, e a pequenada em roda aninhada no chão, brincando tristemente. A mesma paisagem que ela via da janela era tão monótona como a sua vida: embaixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra magra plantada aqui e além de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma colina triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.

Vendo-a assim tão resignada e tão sujeita, algumas senhoras da vila afirmavam que ela era beata; todavia ninguém a avistava na igreja, a não ser ao domingo, com o pequerrucho mais velho pela mão, todo pálido no seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações do Céu: naquele dever de boa mãe, cumprido com amor, encontrava uma satisfação suficiente à sua sensibilidade; não necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao Pai do Céu, todo o tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do oratório, seria uma diminuição cruel do seu cuidado de enfermeira: a sua maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama, todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para amar toda uma humanidade pronta. Além disso, nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa de doentes, de ser ela o centro, a força, o amparo daqueles inválidos, tornara-a terna, mas prática: e assim era ela que administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afeição dirigira, uma solicitude de mãe pró-vida. Tais ocupações bastavam para entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de caras saudáveis, as comiserações de cerimônia; e passavam-se meses sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família, a não ser a do Dr. Abílio — que a adorava, e que dizia dela com os olhos esgazeados:

É uma fada! É uma fada!…

Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu uma carta de seu primo Adrião, que lhe anunciava que em duas ou três semanas ia chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido da Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinara mesmo um jornal de Lisboa, só para ver o seu nome nas locais e na crítica. Adrião era um romancista: e o seu último livro, Madalena, um estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e sutil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara até à vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante, um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado a uma alta situação no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho.

D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade de fazer mais toilette, de alterar a hora do jantar, de conversar com um literato, e tantos outros esforços cruéis!… E a brusca invasão daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria de são, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada duma profanação. Foi por isso um alívio, quase um reconhecimento, quando Adrião chegou e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio André, à outra extremidade da vila. João Coutinho escandalizou-se:
tinha já o quarto do hóspede preparado, com lençóis de rendas, uma colcha de damasco, pratas sobre a cômoda, e queria-o todo para si, o primo, o homem célebre, o grande autor…

Adrião porém recusou:
Eu tenho os meus hábitos, vocês têm os seus… Não nos contrariemos, hem?… o que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio André… Vejo da janela um moinho e uma represa que são um quadrozinho delicioso… E ficamos amigos, não é verdade?

Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador por quem choravam mulheres, aquele poeta que os jornais glorificavam, era um  sujeito extremamente simples, – muito menos complicado, menos espetaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chapéu desabado sobre uma face cheia e barbuda, a quinzena de flanela caindo à larga num corpo robusto e pequeno, os seus sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia que às vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro lado do rio. Além disso não fazia frases; e a primeira vez que veio jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por eles. Da fortuna do pai, a única terra que não estava devorada, ou abominàvelmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila, que andava além disso mal arrendada… o que ele desejava era vendê-la.

Mas isso parecia-lhe a ele tão difícil como fazer a Ilíada!… E lamentava sinceramente ver o primo ali, inútil sobre uma cama, sem o poder ajudar nesses passos a dar com os proprietários da vila. Foi por isso, com grande alegria, que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e hábil nestas questões como um antigo rábula!… Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo… E na questão de preço, deixa-a a ela!…

Mas que superioridade, prima! — exclamou Adrião maravilhado. — Um anjo que entende de cifras!

Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo…

No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de março fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, Acanhada por aquela companhia de um leão, a pobre senhora caminhava junto dele com o ar de um pássaro assustado: apesar de ele ser tão simples, havia na sua figura enérgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos, nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava. Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido um galho de silvado, e como ele se abaixara para o desprender delicadamente, o contato daquela mão branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente. Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o negócio com o Teles e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada estendia-se, branca e longa, sob o sol tépido – e a conversa de Adrião foi-a lentamente acostumando à sua presença.

Ele parecia desolado daquela tristeza da casa. Deu-lhe alguns bons conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida diversa daquele abafamento de alcova… Ela também assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe falava de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrivelmente: tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quase desmaiar; tornara-se um ser artificial, encafuado entre os cortinados da cama… Ele então lamentou-a. decerto poderia haver alguma satisfação num dever tão santamente cumprido… Mas, enfim, ela devia ter momentos em que desejasse alguma outra coisa além daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo de doença…

Que hei-de eu desejar mais? — disse ela.

Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supor que ela desejasse, realmente, o Chiado ou o Teatro da Trindade… No que ele pensava era noutros apetites, nas ambições do coração insatisfeito… Mas isto pareceu-lhe tão delicado, tão grave de dizer àquela criatura virginal e séria — que falou da paisagem…

Já viu o moinho? — perguntou-lhe ela.

Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima. Hoje é tarde.

Combinaram logo ir visitar esse recanto de verdura, que era o idílio da vila. Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de aldeã punha entre eles como que um interesse comum. Ela falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dele, dum respeito tocante, uma atração que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falara tanto a ninguém: a ninguém jamais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sobre a mesma dor – a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves… E vinha-lhe por ele uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter sempre presente, desde que ele se tornava assim depositário das suas tristezas.

Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado, interessado por aquela criatura tão triste e tão doce. Ela destacava sobre o mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de ano gótico entre fisionomias da mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o ouro do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados preso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sopro para o fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade…

Achava absurdo e infame fazer a corte à prima… Mas involuntariamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava deformado pelo espartilho, e de pôr enfim os seus lábios numa face onde não houvesse pós de arroz… E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela linha de corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida… Era uma ocasião que não voltava.

O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de Corot, sobretudo à hora do meio-dia em que eles lá foram, com a frescura da verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de murmúrios  de água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua velha edificação de pedra secular, a sua roda enorme, quase podre, coberta de ervas, imóvel sobre a gelada limpidez da água escura. Adrião achou-o digno duma cena de romance, ou, melhor, da morada duma fada. Maria da Piedade não dizia nada, achando extraordinária aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água da represa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tão branca, tão loura, duma linha tão pura, sobre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gosto, o seu mantelete antiquado, mas ele achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silêncio dos campos em redor isolava-os – e, insensivelmente, ele começou a falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira… Ela escutava-o de olhos baixos, pasmada de se achar ali tão só com aquele homem tão robusto, toda receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio… Houve um momento em que ele falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.

Ficar aqui? Para quê? — perguntou ela, sorrindo.

Para quê? Para isto, para estar sempre ao pé de si…

Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:

Pois não era delicioso?… Eu podia alugar este moinho, fazer-me moleiro… A prima havia de me dar a sua freguesia…

Isto fê-la rir; era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a pele, a cor do cabelo. Ele continuou gracejando, com o seu plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha.

E eu venho ajudá-lo, primo! – disse ela, animada pelo seu próprio riso, pela alegria daquele homem a seu lado.

Vem? — exclamou ele. — Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso, nós aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, e ouvindo cantar esses melros!

Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se ele fosse já arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idéia, pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade idílica, naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, para o trabalho; depois o jantar na relva à beira da água; e à noite as boas palestras ali sentados, à claridade das estrelas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão…

E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sobre os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era assim tão dolorosa e fraca, que ele soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dele, com o beicinho a tremer, murmurando:

É malfeito… É malfeito…

Ele mesmo estava tão perturbado – que a deixou descer para o caminho: e daí a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem que ele
pensou:

Fui um tolo!

Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi à casa dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em água de malva as feridas que ele tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe…

A venda da fazenda estava concluída. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: encontrou-a na sala, à janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas saias… Ouviu que ele partia, sem lhe mudar a cor, sem lhe arfar o peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tão fria como um mármore: e quando ele saiu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela escondendo a face dos pequenos, olhando abstratamente a paisagem que escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caindo-lhe na costura…

Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz tão grave e tão rica; e antevia, para além da sua existência ligada a um inválido, outras existências possíveis, em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios. Era como uma rajada de ar impregnado de todas as forças vivas da natureza que atravessava, sùbitamente, a sua alcova abafada: e ela respirava-a deliciosamente… Depois, tinha ouvido aquelas conversas em que ele se mostrava tão bom, tão sério, tão delicado: e à força do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um coração terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar… Esse amor latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idéia, esta visão: – Se ele fosse meu marido! Toda ela estremeceu, apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua força… Depois ele deu–lhe aquele beijo no moinho.

E partira!

Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de repente em volta dela – a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do seu dia, a sua costura – lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha desses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sobre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:

Quando se acabará isto?

Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dele e da sua lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não quis que nada do que era dele ou vinha dele lhe fosse alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela Madalena que também amara, e morrera dum abandono. Essas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às suas.

Lentamente, essa necessidade de encher a imaginação desses lances de amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite romântica…

O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a força. Porque era isto que admirava, que queria, por que ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir – dois braços fortes como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica.

Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de lhe apressar a morte…

E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram fraquezas súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas… À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo morno da terra aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de choro.

A Santa tornava-se Vênus.

E o romanticismo mórbido tinha penetrado naquele ser, e desmoralizara-o tão profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços: – e foi o que sucedeu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.

Por causa dele escandalizou toda a vila. E agora, deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcova, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe — para andar atrás do homem, um maganão odioso e sebento, de cara balofa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha e bonezinho de seda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obesa, a quem chamam na vila a bola de unto.

FIM

Fonte:
http:\\www.nead.unama.com.br

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