Arquivo do mês: outubro 2013

Cantinho do Prof. Pedro Mello (Radiografia do Achado)

O que faz de uma trova um poema antológico, conhecido de cor por dezenas de trovadores (ou merecedor de tal), e de outra uma nulidade digna de cair no olvido?

Quase todos os trovadores conhecem esta trova de Durval Mendonça, que obteve o merecidíssimo primeiro lugar nos V Jogos Florais de Nova Friburgo em 1964:

Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu…

O que obra inesquecível? Pensemos, primeiramente, na incrível simplicidade estrutural. Para quem acha a poesia algo esotérico, hermético, eis aqui um contra-exemplo mais do que concreto: não estamos diante de uma linguagem sofisticada apesar do aspecto formal – uma trova. Os versos em redondilhas maiores, por outro lado, não a identificam com o cancioneiro popular, o que em princípio pode soar paradoxal: nem popular, nem sofisticada. Um equilíbrio “sui generis”: um poema simples sem ser simplório, ao mesmo tempo em faz desta trova uma que sua imagem é inusitada.

Pode alguém roubar, furtar, apropriar-se indevidamente… daquilo que já é seu? Ou, pelo menos, daquilo que ele julga ser seu? Estamos diante de um magnífico paradoxo, sem dúvida, o que a torna um poema digno de atenção. E, por falar em atenção, o detalhe das rimas – terminações comuns –ão e –eu, que não deixam margem para o emprego de formas exóticas ou impensadas: –ão, terminação típica de substantivos ou de adjetivos no grau aumentativo, evoca palavras de emprego comum, tais como as utilizadas pelo poeta: mão/sensação; –eu, terminação também abundante, é desinência marcadora da 3ª. pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos de 2ª. conjugação e também é a terminação dos pronomes possessivos meu, teu, seu, como de fato aparece nos versos 2 e 4: deu/meu.

Quando falo das rimas, não evoco a classificação tradicional de “ricas” ou “pobres”, porque isto não se sustenta em uma análise mais profunda – se pensarmos no nível discursivo do poema, não é a categoria gramatical das rimas um indicador de “riqueza” ou “pobreza”. Inclusive, “pobreza” e “riqueza” de quê? Ao contrário, como bem atesta a trova de Durval Mendonça, a categoria gramatical a que pertencem as rimas não quer dizer nada, seja pelo aspecto meramente fonético (não há terminação melhor do que outra ) seja pelo semântico (o significante não se sobrepõe ao significado). Refiro-me às rimas porque elas estão perfeitamente empregadas pelo autor: não há em nós uma sensação de palavras soltas ou de uma sonoridade artificial, forçada, como sói acontecer em versos medíocres.

Evidentemente, por ser uma forma fixa, a trova requer a metrificação e a rima. A tentação de um poeta sem talento é o emprego de rimas per si. Esse é o que eu chamaria de pecado original, o mau início para quem constrói um verso. Claro que a palavra “construção” pode causar calafrios em alguns, mas não é isto que a metrificação pressupõe? O ato de construir, edificar, dar acabamento, lapidar? Não pense um “modernoso” desavisado que a poesia moderna abdica destes valores, ao contrário. Leia João Cabral de Melo Neto e tire suas próprias conclusões.

Duas observações:

1. No monumento da Língua Portuguesa, que é o poema épico “Os Lusíadas”, Camões emprega centena de vezes a terminação –ADA. Acredito que ninguém, sem sã consciência, veja nisto um demérito para o autor… O que importa não é a rima em si, mas o que o autor faz com ela…

2. Emprego neste artigo dois termos da lingüística – significante e significado. Tais termos foram amplamente discutidos pelo lingüista suíço Ferdinand de Saussure, considerado o “pai” da Lingüística, enquanto o conjunto das Ciências da Linguagem. Em termos simples, significante é a parte material de um signo, no caso o signo lingüístico, se pensarmos em termos de “palavra” ou “vocábulo”. Significado é a idéia representada pelo significante. Este binômio proposto por Saussure é o que compõe um signo. Tomemos como exemplo a palavra maçã. A palavra “maçã”, m-a-ç-ã, é o significante. A imagem mental que fazemos da fruta constitui seu significado. O signo é o todo, é a junção do significante com o significado

Voltando à questão da rima, os dois pares – mão/sensação e deu/meu – estão logicamente concatenados entre si e entrelaçados à idéia de abandono e solidão a que aludem o poema. Visualizamos o cenário – o homem (porque é o homem quem beija a mão da mulher e não o oposto) reencontra a mulher amada e, gesto de amor incondicional, beija-lhe a mão mesmo que esta (a mão, metonimicamente a mulher) esteja com outro. Dizemos “esteja” porque a mulher (e sua mão!) pertencem ao enunciador, i.e., o eu-lírico, e não ao seu rival. Por que afirmamos que há um rival? Porque o Destino não lhe deu a mão da mulher amada, e a sensação de roubar algo só pode acometer quem não possui aquilo que supostamente rouba. Supostamente rouba, ao mesmo tempo em que, no íntimo, a tem como sua: roubar aquilo que é seu. Mas como pode roubar aquilo que é seu? Porque, no fundo, não é seu. E é nesta contradição que reside o achado desta trova.

A palavra “achado”, conforme empregada em nosso idioma para se referir a uma idéia ou expressão original, é tradução da palavra francesa “trouvaille”, que tem, na língua francesa, o mesmo sentido da equivalente portuguesa e remonta à Idade Média. Da mesma raiz de “trouvaille” vem trovador, trovadorismo, e, modernamente, trova.

Etimologicamente, portanto, trova por si só encerraria um “achado”, o que nem sempre é verdade. Mas o exemplo que analisamos contém um achado. Podemos inferir que “achado” é algo inusitado, diferente, original, diametralmente oposto ao clichê, chavão ou lugar-comum. Esse foi o “achado” de Durval Mendonça: uma idéia original, literalmente, “roubando o que é meu”. E sempre que qualquer um de nós se deparar com um achado saberá identificá-lo prontamente – um paradoxo, uma metáfora, uma hipérbole, uma metonímia, um eufemismo… enfim, um tropo ou figura de estilo, artisticamente bem empregado, que dá à trova o status de Poesia, na mais perfeita acepção do termo.

Outra Observação: Recomendo a leitura do poema “Catar feijão”, um dos mais conhecidos poemas de João Cabral, em que ele fala, metalinguisticamente, do processo da escrita. O primeiro verso “Catar feijão limita-se com escrever” é bastante sugestivo. Leia o poema!!!

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1610627

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Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel) (Sonetos Escolhidos 4)

OCEÂNICA

Na partida, um oceano de revolta
cala meu peito em descontentamento.
– Vais aonde? – eu pergunto – onda tão solta?
E ela me corta o coração por dentro.

Sou areia, sou rocha e, em meu tormento,
choro e declamo, e o fogo me devora;
qual vulcão que nos mostra o epicentro,
outro vulcão me nasce aqui por fora.

Na partida, eu prometo consolar-me
do vácuo que me tolhe. E, sem alarme,
no amor a Deus apenas me concentro.

Meu mundo é solidão, é só saudade
de quem levou minha tranqüilidade,
de quem partiu meu coração por dentro.

SOMBRA

Minha sombra soçobra no que flui,
No horizonte de um deus fendido em dois:
– O futuro, do qual se foge em “ui”!
E o passado das noites e dos sóis.

Aquele vem de pé, mas tão veloz
Quanto o outro não foge – e como influi!
Um é terrível santo e tão sem voz,
O outro, deus e o diabo… E a carne rui.

Já não banco o santinho nem o herói,
Embora herde, dos dois, olhos azuis
E haja chorado à treva e à cor que dói.

Já não tenho esperança numa foz
De doçura e de amor que a amor conduz.
Minha sombra soçobra em caracóis.

SENSITIVA

Nasci para sentir o mundo… E vivo
pelo meu, como as cores que resguardo.
Ai, flor sem nome, que à memória foge!
Tudo o que sinto é pele, estranho agrado.

Quanto mais me retraio mais me ativo,
quanto mais me esconder ou for me embora,
mais eu me amo por tudo o que em mim gosta
de sentir perto-e-longe e ser mais livre.

Sou como a sensitiva na floresta,
não fujo às agressões, me fecho e durmo,
os pirilampos que me façam festa.

Não é que eu sofra o sofrimento em calma,
é que conheço irônicas ternuras
das quais a vida nos consola ou salva.

SINGULAR

É singular criatura. Das pequenas
E grandes porque reina (não são teses),
A conduzir, no bucho, longos meses,
O filho – em seu olhar, carícias plenas.

Mais do que isto: a mãe limpa-lhe as fezes,
Ganha de tudo onde sofrer é estima,
Deusa, abaixo de Deus ela só rima
Na proteção do infante. E morre às vezes.

Pois que ela rege, em templo tão fecundo,
Um musical no ventre, o gineceu,
De onde viemos nós, não me confundo.

Depois de minha mãe, só eu, sou eu…
Mãe, o’ mães, porque há tantas neste mundo
Resiste a humanidade, e não morreu.

TERNURA MIÚDA

Pelas coisas serenas me contenho
se ternamente nasçam da vontade,
do amor e do carinho, da bondade
daquilo que mais prezo e pouco tenho.

Venham doces carícias pelo vento,
beijar-me a sutil nuca que me impele
a estremecer e subir do imo à pele,
e bem voar pelo espaço em movimento.

Os pequeninos vidros mais perfume
têm – que a filosofia não resume,
pois lhe falta ternura e tentação.

Nas invisíveis coisas me retiro,
nelas canto e me encanto e mais suspiro…
Todo o meu corpo é todo um coração.

ÚLTIMO OLHAR

Hora, afinal, de reconciliação
com os inimigos e os perseguidores,
sem alívio nenhum, trespassam dores…
Dos amigos? – O amor e a oração.

Como esquecer os gozos e a canção
da vida, o tempo em que teceu amores?
Vão colegas, vizinhos! Vãos clamores,
diante do horror dessa consternação.

Quero ligar-me a Deus, já na partida,
pra suportar o triste dos presentes,
numa clara humildade aborrecida…

Ah, recebo os divinos, santos óleos
e o pesar da mamãe e dos parentes,
com teu olhar por dentro dos meus olhos.

VELHAS PRAIAS

As velhas praias… Que saudade delas,
Do nosso idílio em dias juvenis:
– Uma moça e um rapaz banhando nelas,
Sem roupas, sem segredos, sem ardis.

Almas voando… Ai, como o tempo voa
Nas palmeiras cantando… Porque o vento
Entre arrepios no horizonte ecoa
Atento ao som, à luz, ao movimento.

Almas e corpos que amam tudo aquece,
São a chama, a pureza, são a prece
Que se eleva do mundo ao Criador.

No sul, no norte, as praias são lembranças
Do tempo em que conosco as esperanças
Eram certezas como o nosso Amor.

O ÚLTIMO BEIJO

Uma deusa te pega pela mão
contra inimigos e perseguidores,
abre o seio do leite dos amores,
e começa a tua fé no coração.

Os olhos dela encantam, na canção
da vida é tempo de tecer as cores,
e os amigos, e os campos e as flores,
diante dum palco de contradição.

O tempo vai passando em grande lida,
te envelheces, te cansas na subida,
e a glória alcançarás entre os escolhos.

A hora, enfim lhe chega, da partida,
banhado em pranto e d’alma recolhida,
um rosto de mulher beija teus olhos.

PERFUME E COR

Subi às ribanceiras desta via
sem nenhum fruto ou flor, uma que fosse,
mas fui andando e meu dia clareou-se,
e então me deslumbrei com o que via.

Era um jardim com flores tantas, belas,
de olores que não pude compreender.
E havia as donas desse alvorecer,
regando as outras flores, quais estrelas.

Cheiro de gente, de suor, de beijos,
das duas moças ouviam-se os solfejos,
e delas vinha um mundo de fragrância.

Ah, como é lindo se subir às ribas!
E é disto que se nutrem os escribas,
e que os poetas cantam sua infância.

MINHA LUZ

Muito gastei chorando… Eu era infante,
mas sorria também na idade mágica;
infância triste, sim, porém não trágica,
que me fazia um forte a cada instante.

Quando acordei do choro ante a verdade
e, enfim, por ver-me amado e não perdido,
risos mil fui construindo… E requerido
a subir, eu subi a tempestade

adolescente!.. E então rindo constante,
mudei de forma, alimentando a mente…
Eis-me, por fim, conquistador e amante.

E agora, bem melhor que antigamente,
sem sorrir nem chorar, vivo contente
a refletir-me em luz como um diamante.

LINGUAGEM VIVA

Tudo neste universo se transforma,
Já dizia Camões, poeta da gente;
O frio se derrete pelo quente,
O calor sobe, esfria e toma forma.

Os homens fazem guerra pela paz
Porque n’alma resfria o sentimento,
Como na dor se aplaca o sofrimento
Pelos remédios que a ciência faz.

O rio seca, a mata é só fumaça,
O verde se reduz à luz do dia,
Eis que assim tudo passa, tudo passa.

Mas não passa o caminho de quem ama
Na lembrança do amado, pois é chama
Como a linguagem viva da poesia.

Fonte:
O Autor

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Lenda Indiana (O Elefante Furioso)

Na floresta de Shaiva, na Índia, vivia um sábio que tinha vários discípulos, aos quais falava sempre sobre pontos obscuros de doutrinas e religiões.

Certo dia este sábio ensinou palavras que provinham das escrituras sagradas:

“Deus reside em tudo do universo. Tanto no homem quanto na víbora. Tanto no elefante quanto na pedra solta na estrada.”

Ajamila, o mais jovem dos discípulos, guardou fielmente os ensinamentos, profundos e filosóficos, ensinados pelo mestre.

E um dia, quando voltara de um monte onde fora buscar lenha, encontrou um homem que conduzia um elefante furioso.

O homem, que percebeu que não estava conseguindo dominar o animal, começou a gritar:

– Hei! Você, saia do caminho, o elefante está furioso!!

Em vez de fugir, o discípulo lembrou dos ensinamentos de seu mestre e pensou:

“Deus está naquele elefante.

Logo, não poderá me fazer mal, afinal, Deus não faz mal a ninguém.” Então não se afastou. O elefante então atacou o imprudente e deixou-o atirado ao solo, ferido e sem sentidos.

Dois lenhadores que passavam por ali levaram o jovem até onde vivia o sábio. Quando recuperou os sentidos, Ajamila contou ao sábio o ocorrido e o motivo pelo qual ele não se afastou do elefante.

– Meu filho – explicou o sábio – é verdade que Deus está em todas as coisas, inclusive num elefante furioso.

Mas se estava manifestado no elefante, não deixava de estar igualmente em seu condutor. Por que não prestastes atenção nos conselhos cautelosos do homem, então?

Fonte:
http://contosencantar.blogspot.com.br/2012/01/o-elefante-furioso.html

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) XV, final

foi mantida a grafia original.
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OS NOVOS LEVIATÃS

Dos antigos Titãs, o mar — fera indomável,
Agora verga o dorso ao peso colossal
Dos novos leviatãs que em bando formidável,
Nas grandes explosões da cólera insondável,
Já levam de vencida o abismo e o vendaval!

Eles seguem no mar, altivos no seu rumo,
Em hálitos de fogo, à nossa voz fiéis,
E como o combatente erguendo a lança a prumo,
Em turbilhões rompendo, as flâmulas de fumo
Ostentam sem cessar correndo entre os parcéis!

Que sopro criador, que força omnipotente
Os fez surgir do nada, os monstros colossais?
O novos leviatãs provindes tão-somente
Do fecundo himeneu, deste conúbio ardente
Do Génio e do Trabalho, amantes imortais!

Correis de mar em mar, altivos, triunfantes,
Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
E as sereias gentis não fazem como dantes,
Ao som da sua voz, perder os navegantes;
O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

Ó alma antiga dorme inerte no regaço
Dos velhos deuses vãos, que o homem criador
Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
Enquanto vai soprando em mil gigantes de aço
Outra alma inda mais larga — o novo Deus-Vapor!

Sua alteza real o pequenino infante
Matou, dum tiro só, dois gamos na carreira:
Um hino mais ao céu, pois era a vez primeira
Que sua alteza vinha à diversão galante!

O vergôntea gentil! Quando um tropel distante
De súbito acordar os ecos da clareira
E uma presa cansada, em rolos de poeira,
Varada, a nossos pés, cair agonizante,

Acercai-vos então da pobre fera exangue
Que estrebucha de dor num mar de lama e sangue
Sem que uni grito de dó nos corações acorde!

No entanto não fiqueis na doce glória absorto:
O velho javali parece às vezes morto
Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

VERSOS A *

Eu sou, mulher suave, aquele antigo louco,
O triste sonhador que o teu olhar cantou,
E que hoje vai sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
Fugir como o luar dum astro que expirou!

Que morra, porque, enfim, bem longo ele tem sido
E tempo é já, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido
E só da vida sai depois de me roubar!

Eu devera amarrá-lo à braga do forçado,
Como a Justiça faz aos desprezíveis réus,
E lançá-lo depois à vala do passado
Aonde o fulminasse a cólera dos céus.

Mas não; quero embalar-lhe os últimos momentos
Ao som duma canção das quadras juvenis,
E amortalhar depois — em doces pensamentos –
No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando ele seguir às regiões saudosas,
Aonde todos nós iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
Que dentro da minha alma houver por desfolhar!

Ninguém profanará seus restos adorados,
Que em paz irão dormir num fundo mausoléu;
E quando alguma vez já hirtos, regelados,
Acordem, porventura, à luz que vem do céu;

Em vão tu baterás, ó sonho, à fria porta
Que em breve hás de sentir fechada sobre ti,
Porque a tua Memória, enfim, já estará morta,
E não te escutarei… Porque também morri!

Ó pobres versos meus, lançai-vos pela estrada
Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
Da luta, encontrareis, meus ínfimos guerreiros,
Formando os batalhões da bélica avançada!

E o trajo em desalinho, a face iluminada,
Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
Que separam de nós os braços justiceiros
Da serena Verdade, a deusa idolatrada.

Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa,
Ao chão vergai sem pena a face semimorta,
Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

E tudo, enfim, esquecendo: os ódios e os desprezos;
Que de entre vós alguns, ao menos, fiquem presos
Como fios de luz, ao manto da Justiça!

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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Parte 3, final

Comédia Teatral
 
Ouve-se um barulho de queda de um corpo e o Capitão reentra no salão…

Capitão: Pouca sorte… Pouca sorte a minha… Não encontrei as calças e…

Sargento: Não me diga que o Capitão não encontrou nenhum Fantasma!

Capitão: Infelizmente acertou. Não encontrei nenhum Fantasma, nem sequer o espectro dele.

Coronel: Se não encontrou nenhum Fantasma, então o que é que fez ao martelo de orelhas? Sim, porque eu não o estou a ver…

Capitão: Pois claro que não o está ver… Nem o poderá ver… Pois os Fantasmas roubaram-mo!

Alferes: A situação cada vez está a tornar-se mais complicada e mais perigosa. Os Fantasmas já não se limitam a atacar a cozinha, como também já roubam martelos de orelhas, isto, acreditando naquilo que o Capitão nos conta e que eu, pessoalmente, acredito.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas! Não quero, e não posso, nem devo, passar a noite em cuecas. Ai, a minha reputação!

Coronel: Estou plenamente de acordo com aquilo que o Capitão diz, o que nem sempre acontece. Por isso, digamos que estou de acordo com ele, pelo menos, momentaneamente.

Sargento: Caro Capitão, conte-nos cá como é que os Fantasmas lhe tiraram o martelo de orelhas… Eles devem ser muito atrevidos, não são? Para lhe fazerem uma patifaria dessas.

Capitão: É simples. Subi as escadas que vão dar ao sótão e, quando já me encontrava lá em cima, empurraram-me e tiraram-me o martelo. Eu ainda resisti, e olhem, tenho esta mão toda esfolada…

Alferes: E com isto tudo, não conseguiu encontrar as suas riquinhas calças novas, como você diz!

Capitão: Pois é como diz, não as encontrei, não… Mas eu quero as minhas calças, as minhas riquinhas calças!… As minhas calcinhas!

Coronel: Meus caros amigos e convivas, escutem com muita atenção: esta estranha situação exige da nossa parte, uma acção activa e decidida, pois nesta casa, que por sinal é minha, estão a acontecer coisas muito estranhas. Assim, proponho que todos nós, homens valentes e destemidos, vamo-nos armar com unhas e dentes, para que possamos combater o nosso perigosíssimo e comum inimigo: os Fantasmas!

Augusta: Que horror, homem! Tu és um grande exagerado. Por favor, nem tentes matar nenhum Fantasma. Olha que eles são muito perigosos…

Coronel: Mulher! Lamento muito, mas o teu pedido não poderá ser aceite, pois, a partir deste momento, decreto aqui em casa, a Lei Marcial!

Capitão: Meu caro Coronel, decrete o que entender, mas por favor, não se esqueça que eu quero as minhas calças… As minhas riquinhas calças. Isto que fizeram comigo é uma grande indignidade!

Coronel: Meu caro Capitão, o desaparecimento das suas calças, pertencem já a um conjunto de circunstâncias. Não vamos, nem podemos, individualizar a questão!

Alferes: Muito bem, muito bem… Apoiado, apoiado… Uma grande salva de palmas ao nosso caro Coronel!

Sargento: Assim é que eu gosto de ouvir. Vamos já planear uma forte acção militar, contra todos os Fantasmas, Fantasmazinhos e seus similares!

Coronel: E assim, chegou a hora da ação, neste glorioso dia em que vamos libertar o Mundo de Fantasmas. Este bacamarte, do glorioso tempo das Invasões Francesas, carrega-se pela boca. E oxalá que o tiro não saia pela culatra… É para si, Alferes. Utilize bem esta nobre arma, nesta guerra sem quartel, contra todos os Fantasmas de todo o Mundo, e sobretudo, os cá de casa!

Alferes: Comovidamente, aceito esta nobre arma e quero agradecer a honra que me deu. Contra os Fantasmas, lutar, lutar até à morte!

Coronel: Esta pistola, das Campanhas Africanas do tempo de D. Carlos Iº, é aqui para o caro amigo e senhor Sargento. Para disparar, basta premir o gatilho. Não se esqueça de matar todos os Fantasmas possíveis e até os impossíveis!

Sargento: Caro Coronel, uma pistola nesta guerra implacável contra um inimigo tão perigoso e tão poderoso, como são os Fantasmas, será uma arma, quase insignificante. Praticamente obsoleta!

Coronel: Meu caro Sargento, faço-lhe notar que em tempo de guerra, não se olha a armas. Um bom soldado, quando é mesmo bom, nem precisa de armas, pois só a sua figura consegue atemorizar o inimigo! Esta nobre espada, ou melhor, esta gloriosa espada, será usada pelo comandante do pelotão, que neste caso serei eu. Se por acaso eu morrer nesta gloriosa missão, quero que esta espada me acompanhe na mortalha, bem junto ao meu frio e mutilado corpo!

Alferes: O que quer dizer que o Coronel, mesmo depois de morto, pensa continuar a combater os Fantasmas! É, e não me envergonho de o dizer, um verdadeiro herói do nosso tempo!

Coronel: Assim será, meu caro Alferes. Um soldado, mesmo depois de morto, deverá ainda valer por quatro… Vivos!

Capitão: E mais uma vez, os meus amigos estão a esquecer-se de mim. Eu quero as minhas calças – as minhas riquinhas calças… Isto é uma indignidade!

Coronel: Vamos já tratar de si, ou melhor, vamos dar-lhe uma arma. Caro Capitão, tome lá esta catana (grande facalhão) da Guerra Colonial. Mas tome bem atenção ao que vai fazer com ela: procure matar só Fantasmas.

Alferes: Sr. Coronel, o pelotão já está formado. Queira fazer o favor de passar revista às tropas.

Coronel: Agradeço, mas recuso tal honra, pois, em tempo de guerra, não se deve passar revista às tropas! Soldados, não se esqueçam que nós fazemos parte dos melhores soldados do Mundo. Por isso, a nossa missão terá de ser um enorme êxito. Soldados! Vamos a eles, aos Fantasmas, como “tarzões”, perdão, como comilões. Pelotão, em frente, marche… esquerdo…direito…opp…esquerdo…direito…opp…opp…

E o pelotão sai do salão a marchar. Passados poucos minutos…

Carmo: Dona Augusta, Dona Augusta, o Sr. Coronel e o seu pelotão, estão a regressar ao salão!

Augusta: Vamos a ver quantos Fantasmas conseguiram eles caçar…

Coronel: E assim, depois de uma grande sortida contra o inimigo, o nosso glorioso pelotão regressa à sua unidade. Alferes, o pelotão teve baixas?

Alferes: Saiba o meu Coronel que o pelotão não teve nenhuma baixa mortal nem sequer feridos.

Coronel: Soldados, direita volver – destroçar… Mas agora reparo: estamos às escuras, porque será? Ó Augusta, quem é que teve a infeliz ideia de tirar as lâmpadas dos candeeiros do salão?

Augusta: Não sei, homem, pois estou aqui no quarto, mas vou já sair.

Coronel: Sai depressa, e vem cá dizer-me quem é que se atreveu a tirar as lâmpadas dos candeeiros. Quando o pelotão saiu em missão, tive o cuidado de deixar as lâmpadas acesas para o nosso regresso, e agora está tudo às escuras!

Augusta: Olá, querido maridinho. Então os candeeiros não têm lâmpadas? Não sei, nem calculo quem as possa ter tirado… Não compreendo.

Coronel: Este candeeiro aqui ainda tem lâmpada. Também é o único…

Alferes: O que quer dizer que o inimigo atacou pela retaguarda. Cobardes!

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… As minhas riquinhas calças novas!… Isto é uma indignidade… eu sou um Capitão!

Sargento: Tenho a sensação que falta aqui qualquer coisa… Já sei o que falta: onde é que está o baralho de cartas, assim como as nossas carteiras e porta-moedas? As nossas canetas, etc., que ficaram em cima desta mesa?

Coronel: Tem toda a razão, meu caro Sargento: quem roubou todas estas coisas? Mistério…

Alferes: Isto é uma prova evidente que, enquanto andávamos em missão, o inimigo, traiçoeiramente, atacou e roubou os nossos pertences!

Capitão: Eu só gostava de saber quem é que se atreveu a roubar as minhas calças… As minhas queridinhas calças novas…

Coronel: O Alferes ainda tem dúvidas de quem foi? Ainda não compreendeu que foram os Fantasmas? Os malditos Fantasmas!

Capitão: Isto é inacreditável!… Além das minhas queridas calcinhas, também me roubaram a minha caneta de ouro! Aonde é que isto vai parar? E eu que tinha tantas e tão boas recordações daquela caneta de ouro…

Alferes: Lamento muito, pois a caneta devia ser muito valiosa e, pelo que me diz, também de muita estimação. Permite-me uma pergunta indiscreta, meu caro Capitão, por acaso, a caneta foi alguma oferta especial que lhe fizeram?

Capitão: Sim, uma recordação da minha querida sogra.

A criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Senhor Coronel!… Dona Augusta!… Ai que desgraça a minha… Acudam-me, acudam-me! Ai que vou desmaiar…

Augusta: Mas o que é que te aconteceu desta vez, Carmo?

Carmo: Fui roubada, minha senhora… Fui roubada… Que desgraça a minha!

Coronel: Mas… Foste roubada, como?

Carmo: Depois dos senhores terem descido do sótão, aproveitei e fui lá acima ao meu quarto. Qual o meu espanto quando vi que a minha mala tinha sido arrombada, e todos os valores que eu tinha dentro, roubados. Ai, ai que desgraça a minha, malditos Fantasmas!

Augusta: Carmo, diz-nos o que te roubaram.

Carmo: Ai, minha senhora, tiraram-me mais de setecentos euros que eu tinha no fundo da mala, assim como um fio e uma pulseira em ouro.

Augusta: Pois é, pois é… Então, mais de setecentos euros, mais o ouro… tudo somado, nem chega a metade para os dez mil e quinhentos euros…

Coronel: Olha lá, mulher, que conversa vem a ser essa de faltar “mais que metade”…

Augusta: Metade?! Eu disse metade? Ah! Já sei, mas não faças caso. Como deves calcular, ando muito nervosa com este caso dos Fantasmas cá em casa. É da minha cabeça!

Coronel: Mas tu falaste em “menos de metade”, e eu quero saber o que é “menos de metade” de quê. Confesso que já estou a achar isto muito estranho.

Augusta: Talvez eu quisesse referir-me a menos de metade… a cinquenta por cento… Do, do dinheiro e do ouro que roubaram à Carmo. Sei lá, quando uma pessoa está muito nervosa, não sabe muito bem o que faz e o que diz… Por favor, maridinho, tenta compreender.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… As minhas riquíssimas calças e a minha caneta… Isto é uma indignidade e uma desonra para quem se preze de ser Capitão.

Carmo: E eu quero de volta os meus ricos mais de setecentos euros, mais o fio e a pulseira em ouro!

Coronel: Camaradas de armas, temos de organizar outra expedição contra os Fantasmas. Pelotão, vamos formar na sala!

Alferes: Caros companheiros de armas, com certeza que ouviram o nosso comandante. Todos aos vossos lugares, todos em sentido, barrigas para dentro, peitos para fora, as orelhas e os olhos bem atentos, pois vamos partir novamente para outra importante missão de emergência, de capital importância para a nossa grande cruzada contra os Fantasmas!

Coronel: Como todos já verificámos, a situação terá de ser considerada de catastrófica e local. O inimigo não está a aceitar uma luta leal, uma luta frontal… Por isso, é um cobarde!

Sargento: O meu aplauso. Muito bem, muito bem! Queira continuar, meu Coronel.

Coronel: O nosso inimigo prefere a guerrilha, o que nos obriga a uma guerra total, sem quartel, sem local determinado e sem hora certa de atacar. O que deve merecer o nosso mais veemente repúdio.

Todos aplaudem e assobiam ao mesmo tempo …

Coronel: Eu, como vosso Comandante, estou disposto a aceitar todas as vossas sugestões. Quem quer começar? Mas, claro, só boas sugestões…

Carmo: Eu, por mim, vou para a cozinha fazer um delicioso bolo…

Alferes: E neste momento tão grave para a Humanidade, com ataques sucessivos, cruéis e cobardes dos Fantasmas, meus caros companheiros de armas, a Carmo, a criada, só pensa em ir para a cozinha fazer ou cozinhar, um delicioso bolo. Só por esta atitude, podemos imaginar o que são as mulheres!

Coronel: A sorte delas (mulheres) é a nossa Lei Marcial as poupar, senão…

Alferes: Depois deste gravíssimo incidente, vamos então ao que nos interessa mais. A minha sugestão é esta: dinamitar toda esta casa, para assim podermos acabar com estes Fantasmas!

Coronel: Alto lá, alto lá! O meu caro companheiro de armas quer dinamitar a minha casa?! Você não deve estar é bom da cabecinha!

Sargento: Eu também estou de acordo com o nosso caro Coronel. Devem existir outros processos, por ventura mais eficientes e menos violentos, como por exemplo: insecticidas em spray…

Coronel: Insecticidas?! Só se os Fantasmas fossem insectos, o que não acredito, sinceramente. Mas, em todo o caso, será um caso a considerar. Mas tudo será preferível ao dinamitar a minha casa. E você, meu caro Capitão, diga-nos também a sua opinião.

Capitão: Como sabem, eu sou uma pessoa muito ponderada, e como não tenho aqui o meu staff… Mas sou uma pessoa muito ponderada.

Sargento: Sim, muito ponderado e muito apreciador de whisky!

Capitão: Meu caro Sargento, aconselho-o que tenha boa educação e que se deixe de insinuações, impróprias de uma pessoa da sua categoria. Mas, voltando aos Fantasmas, em minha opinião, nem oito nem oitenta… O que quer dizer que não estou de acordo em dinamitar esta casa e, muito menos em utilizar insecticida, pois considero-o uma arma perigosíssima, pela sua química, e proibida pela Convenção de Genebra, pois, eventualmente, poderia causar efeitos devastadores nos próprios Fantasmas. Para mim, a situação mais viável ainda seria a de demolir este andar! Mas acima de tudo, o que mais me interessa são as minhas calças… As minhas riquíssimas calças. O que eu estou a passar, é uma situação indigna.

Coronel: Com todo o respeito, você deve de estar é maluco! O quê? Demolir o meu andar? Nem pensar!

Alferes: Pois é, se o Sr. Capitão não aceita as nossas sugestões, diga-nos então como é que podemos resolver este problema dos Fantasmas. Criticar é sempre mais fácil do que fazer.

Capitão: E, com isto tudo, estou a ver que ninguém pensa no meu problema, e eu não posso ficar toda a noite p’ra aqui em cuecas. Eu quero as minhas calças novas… As minhas riquíssimas calças, mais a minha caneta. Isto que me está a acontecer, é uma desonra para qualquer Capitão que se preze.

Carmo: E não se esqueçam que eu também quero o meu rico dinheiro e o ouro. A propósito, quando os senhores foram lá acima ao sótão, por acaso, não notaram nada de estranho no meu quarto? Como se devem recordar, vocês foram os últimos a entrar no meu quarto…

Coronel: Mulher! Cala-te, não estejas p’ra aí a insinuar nada – ouviste? Pelotão, vamos reunir mais uma vez. Formar…

Alferes: Companheiros de armas, mais uma vez, sentido… Barriguinhas p’ra dentro, assim estão bem… Agora, prestem muita atenção ao que o nosso comandante nos vai dizer. Comandante, assim que o entender, pode começar.

Coronel: A acusação que a criada, a Carmo, nos fez, é muito grave, pois o nosso glorioso pelotão, passou durante a sua última missão, por um local onde foi praticado um furto. A nossa honra exige um reparo!

Alferes: Agora, confesso que não compreendi nada do que foi aqui dito. Caro comandante, que conversa vem a ser essa?

Sargento: Eu também não estou a gostar nada disto, pois, segundo me lembro, nunca roubei nada a ninguém, ou, pelo menos, ainda ninguém se queixou.

Capitão: Eu, pelo menos descaradamente, também nunca roubei nada a ninguém. Ai a minha vida… Eu só quero as minhas calças e a caneta de ouro. Que indignidade eu estar p’ra aqui nesta lamentável figura. E eu, um Capitão!

Coronel: Silêncio! Vamos fazer uma revista ao nosso equipamento, para ver se encontramos do que a Carmo nos pretende acusar. Armas no chão… Camisas de fora… Bolsos para fora… Calças para baixo…

Capitão: Mas, caro Coronel, como é que eu posso tirar as calças? Está bem, só se for as cuecas…

Coronel: Se não tem calças, como é óbvio, não as pode deitar a baixo. Alto lá, alto lá, já lhe disse que não era preciso tirar as cuecas, para mais, hoje já vimos muita miséria!

Carmo: Senhor Coronel, que fique muito bem claro que eu não desconfio de ninguém em particular, nem sequer do seu pelotão.

Coronel: Sendo assim, dou o inquérito por concluído. A honra do nosso glorioso pelotão, mais uma vez, ficou imaculada! Pelotão, calças p’ra cima… bolsos para dentro… vestir camisas… apertar cintos… agarrar nas armas… descansar… Destroçar!

Alferes: Então, agora vamos trabalhar num plano de ataque aos famigerados Fantasmas?

Coronel: Pois vamos. Como já verificámos, precisamos de reforços, pois, embora a nossa acção até a este momento possa ser considerada de muito positiva, e até heróica, temos de admitir que não temos efectivos para controlar todas as zonas infestadas pelo nosso perigoso e traiçoeiro inimigo: os Fantasmas!

Sargento: Estou plenamente de acordo. Por mim, até pedia auxílio aos pára-quedistas…

Coronel: Pára-quedistas? Para quê?

Sargento: Então os Fantasmas não andam por cima de nós, no sótão?

Alferes: Eu antes pedia auxílio à aviação, mas pensando melhor, talvez optasse em pedir auxílio a uma escola de Karaté. Como eles treinam “sombra”, bem podiam acertar nos Fantasmas. Assim: zás… catrapás… zás…

Sargento: Olhe lá, cuidadinho com esses calcanhares no ar, meu caro Alferes!

Alferes: Sim, talvez o Karaté desse resultado…

A criada entra no salão toda eufórica …

Carmo: Meus senhores, quero dizer-vos que já terminei!

Coronel: Mas… mas o que é que já terminaste, Carmo?

Alferes: Não me digas que conseguiste apanhar algum Fantasma…

Sargento: Confesso que também estou muito curioso por saber o que é que a Carmo terminou.

Carmo: Tenham calma. Não, não apanhei nenhum Fantasma. Só terminei de fazer um bolo. Um delicioso bolo de ananás.

Coronel: Oh, sua tolinha, então é com bolos que tu queres apanhar os Fantasmas! Tem mas é juizinho nessa cabeça, pois já tens idade para isso. E para já, ficas terminantemente proibida de interromperes reuniões, só para dizeres parvoíces, em que nós, os Homens, estamos a planear a melhor maneira de podermos salvar a Humanidade, dessa praga imunda que são os Fantasmas!

Capitão: Muito bem, muito bem, caro Coronel!

Coronel: Por favor, ninguém me interrompa. Mas, continuando: para que isso possa acontecer, será necessário derrotar todos os Fantasmas que existam na Terra e, principalmente, os que estão cá em casa!

Capitão: Com essa conversa toda, por favor, não se esqueçam das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da minha caneta de ouro. Isto é uma grande indignidade para um Capitão que se preze. Isto de ter que andar em cuecas…

Alferes: Companheiros de armas, temos de chegar a um consenso generalizado, para combinarmos qual será a estratégia ideal, que leve à completa e total destruição de todos os Fantasmas!

Sargento: Para já, proponho que não façamos prisioneiros.

Coronel: Como ficou amplamente demonstrado, para operarmos uma acção eficaz contra o inimigo, precisamos de mais efectivos.

Capitão: Então, não hesite, caro Coronel. Arranje efectivos, porque eu quero de volta as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas e a caneta de ouro. Que indignação para um Capitão…

Coronel: Como devem calcular, estou a ponderar muito bem todas as vossas sugestões. A eventual vinda de reforços, poderá determinar a mudança de comando e, como devem calcular, não convém que a minha casa possa ser considerada zona militarizada.

Sargento: Estou a compreender perfeitamente o Coronel. Em nossas casas, quem deve mandar e comandar devemos ser sempre nós!

Capitão: Eu também compreendo muito bem os receios do Coronel. Mas eu quero, eu quero as minhas calças novas. Que indignação para um Capitão…

Alferes: Então, o que é que o caro Coronel sugere?

Coronel: Entre várias hipóteses, estou a pensar em dividir a casa em vários sectores, utilizando para o efeito, arame farpado.

Capitão: A ideia poderá não ser má de todo. Mas se os Fantasmas passarem por baixo do arame farpado, lá se vão as minhas ricas calcinhas!

Sargento: Temos de concordar que o Capitão não pode andar toda a noite em cuecas.

Coronel: Caros companheiros de armas, por favor, deixem-me continuar…

Alferes: Continue, continue caro Coronel, que nós até gostamos de o ouvir!

Coronel: Depois da colocação do arame farpado, podíamos acender várias fogueiras, na tentativa de que o fumo intoxique o inimigo.

Sargento: Mas antes de acenderem as fogueiras, aconselho-vos a apreciar este belo cheirinho que vem dos lados da cozinha.

Alferes: Tem razão, caro Sargento. O cheirinho do bolo que a Carmo está a fazer já chega aqui, e não engana ninguém: é um bolo de ananás!

Sargento: Estou cá a pensar numa coisa: e se os Fantasmas também roubassem este bolo?

Alferes: Tem toda a razão, pois até os Fantasmas podem gostar de bolo de ananás. Talvez fosse conveniente avisar a Carmo.

Coronel: Vou já avisá-la. – Carmo, estás a ouvir? Olha, desta vez toma o devido cuidado e não deixes que os Fantasmas roubem também esse bolo, que deve estar uma delícia!

Carmo: Os senhores estão a falar comigo? Eu já vou aí.

Coronel: Claro que estávamos a falar contigo. Olha lá, repito: desta vez não deixes que os Fantasmas roubem esse bolo!

Augusta: Tive uma ideia: talvez fosse melhor trazeres o bolo para a sala, pois se o deixares na cozinha, ainda o podem roubar, e assim nunca mais se vão embora.

A criada entra no salão e pede a todos os presentes que falem baixinho (chiuuuu)…

Carmo: Oxalá que os Fantasmas desta vez o roubem e o comam!
Augusta: Não te compreendo, Carmo. Deixa-te mas é de brincadeiras e traz o bolo para aqui.

Alferes: A Dona Augusta tem muita razão, o bolo deve vir para aqui. Talvez depois de o comermos, possamos pensar na melhor estratégia a seguir, para acabarmos de uma vez por todas com esses malfadados Fantasmas.

Sargento: Apoiado, apoiado. Venha lá depressa esse bolo para aqui.

Entretanto, a criada entra novamente no salão, e…

Carmo: Meus senhores, dão-me licença que entre e que fale?

Coronel: Olha, Carmo, tu estás a tornar-te muito chatinha. Mas… mas não nos venhas dizer que… que…

Carmo: Sim, venho solenemente comunicar-vos que o bolo de ananás DESAPARECEU!!!

Coronel: É impossível, impossível!… Desta vez não vou aceitar o facto como consumado. Desta vez, vou deitar tudo abaixo… Tudo abaixo!

Sargento: A Carmo deve estar enganada, ou então está a brincar…

Alferes: Isto é demais! Até parece um sonho mau, um pesadelo.

Carmo: Pois é, meus senhores, a partir deste momento, eu, a Carmo, criada às vossas ordens, é que vou resolver o caso dos Fantasmas cá em casa do Sr. Coronel!

Coronel: Tu não deves é estar boa da cabeça!

Alferes: Estou mesmo a ver que o teu nobre desejo era pertenceres ao nosso glorioso pelotão, mas…

Coronel: Protesto veementemente, pois o nosso pelotão não pode, de maneira nenhuma, ser constituído também por mulheres. O pelotão não é uma brigada mista… Mulheres, já p’ra cozinha… Mulheres, já p’ra a cozinha!

Carmo: Por favor, prestem muita atenção. Como já vos disse, sou eu quem vai resolver este problema dos Fantasmas, mesmo sem ter a honra de pertencer ao vosso glorioso pelotão.

Coronel: Nem posso acreditar no que estou a ouvir. Mas então, conta-nos lá como é que pensas que vais resolver este importante caso?

Carmo:  Para já, não vai ser preciso empreender nenhuma acção bélica.

Alferes: Pelos vistos, a Carmo quer dizer que a exterminação dos Fantasmas não passa por acções bélicas, mas sim, por acções políticas?

Carmo: De políticas é coisa que eu não percebo nada, mas também não importa.

Coronel: Carmo, já estou a perder a paciência. De uma vez por todas, diz-nos quais foram as acções que levaste a cabo.

Carmo: Digamos que fiz… uma acção de psicologia feminina.

Alferes: Atenção, atenção meus senhores! A Carmo descobriu uma nova fórmula para caçar Fantasmas. Imaginem só que para os caçar, basta aplicar um pouco de psicologia feminina!

Coronel: Esperem, não sei bem porquê, mas começo a estar quase de acordo com a Carmo. Sendo assim, o nosso glorioso pelotão poderá ficar ainda mais valorizado, se conseguirmos recrutar um elemento para a Psico. Por isso, vou convidar a Carmo.

Carmo: E eu terei muito prazer em aceitar essa missão!

Coronel: Sendo assim, companheiros de armas, a partir deste momento, tem a palavra a nossa novel, valente e destemida, Carmo!

Sargento: Apoiado, apoiado! Vivá  Carmo – a criada!

Carmo: Muito obrigado, muito obrigado a todos! Como é do conhecimento geral, e resumindo, eu fiz um bolo de ananás, que por acaso devia estar delicioso, mas que desapareceu…

Alferes: Ai que pena, até estou a ficar com água na boca.

Carmo: Mas, enfim, desapareceu…

Sargento: E, possivelmente, desapareceu nas bocas imundas de uns quaisquer Fantasmas!

Carmo: Mas… há sempre um “mas”. Ao amassar a massa do dito cujo bolo, adicionei uma certa porção de um produto que serve para exterminar ratos. Assim, os Fantasmas ao ingerirem o bolo, também ingeriram a tal porção de raticida. E agora, vamos esperar.

Coronel: Queres então dizer que…

Alferes: Os Fantasmas…

Capitão: Vão morrer…

Coronel: Envenenados?

Carmo: Mas, atenção… Desde já quero que fique muito bem esclarecido que eu não envenenei ninguém. Nem mesmo os Fantasmas. Limitei-me só a pôr uma certa porção de raticida num bolo de ananás. Nada mais…

Coronel: Podes estar descansada e em paz com a tua consciência, pois, somos todos testemunhas do que aconteceu. Se os Fantasmas estiverem envenenados, a culpa foi deles (só deles), pois não tinham o direito de comer o bolo de ananás, feito com todo o amor e competência, aqui pela Carmo… A nossa companheira de armas!

Alferes: Mas agora temos um grande problema: como é que vamos saber se os tais Fantasmas comeram ou não o bolo de ananás? Para mais, eles devem ser transparentes.

Capitão: Eu só quero saber das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da caneta de ouro. Que indignidades fizeram a um Capitão como eu!

Sargento: Se os Fantasmas morrerem, com certeza que devem começar a cheirar mal; mas como o Alferes diz, e com muita razão, eles devem ser transparentes. E sendo assim, como é que os podemos ver? Talvez através de uns óculos escuros. Bem, é só uma ideia…

Sargento: E depois, como é que os podemos deitar fora? Vocês ainda não pensaram nesse problema?

Capitão: E ninguém fala nas minhas queridas calcinhas, ninguém se importa de eu andar para aqui em cuecas; nunca, nunca hei-de perdoar aos Fantasmas, pois o que eles fizeram a um Capitão importante como eu, é indigno, é indigno. E se as calças também se tornaram transparentes? Ai, ai, que eu nem quero pensar nessa possibilidade; as minhas riquinhas calças!…

Carmo: Meus senhores, a título de curiosidade, vou ler-vos o que está aqui escrito na embalagem do raticida: “Perigo de Morte” – “Este produto é altamente tóxico. Em caso de ingestão, deve o acidentado ser transportado urgentemente à morgue mais próxima, pois o corpo começa logo a decompor-se”…

Coronel: Sendo assim, os Fantasmas já devem estar completamente mortos… E talvez, até bem mortos. Já me estou a arrepiar todo!

A porta do salão abre-se abruptamente e entra um homem e depois outro, ambos encapuzados, cambaleando, antes de caírem inimados no chão…

1º Encapuzado – Ai, ai… ai o meu rico estômago… Ai, que eu vou morrer… Mataram-me… Socorro… socor…

2º Encapuzado – Ai, ai, ai a minha barriguinha… Ai que vou rebentar… Socorro! Assassinos… assas…

Esta entrada e a posterior morte dos embuçados, deixou todos estupefactos. Valentes como eles eram, depressa reagiram…

Coronel: Mas … Mas quem são estes homens que invadiram a minha casa e estão mortos (pelo menos aparentemente)?

Alferes: Oh, caro Coronel, não me diga que não sabe quem são?

Sargento: O Sr. Coronel nem calcula quem são?!

Coronel: Não sei se me vou enganar, mas serão os Fantasmas?

Capitão: Fantasmas ou não, este aqui tem as minhas riquinhas calças novas. Vá, meu “menino” dá-me cá as calças; meu malandro, pois um Capitão como eu, nunca poderá andar p’ra aqui em cuecas. Dá cá as minhas calcinhas… upa… upa…upa… Custaram a sair, mas já cá estão nas minhas mãos! Estão muito sujas e amarrotadas, mas já são minhas novamente!

Augusta: Olha lá, Carmo, o que é que estás aí a procurar nesse sítio?

Carmo: Não se aflija, minha senhora, pois eu só estou a procurar o que é meu, ou seja, o dinheiro e o ouro. Para mais, eles já estão tão geladinhos…

Augusta: Ó Carmo, mas aí, nesse sítio?

Carmo: Sim, sim, minha senhora! Neste sítio é onde se encontram as minhas coisas. Olhe, está a ver, minha senhora? Neste saquinho de plástico estão os setecentos euros e naquele Fantasma ali ao lado já encontrei o meu fio e a minha pulseira. Como vê, Dona Augusta, eu fui logo ao sítio certo, enquanto a senhora só olhou…

Augusta: Carmo, como estás com a mão na massa, aproveita e vê se eles têm mais alguma coisa?

Carmo: Lá ter, têm, minha senhora, mas…

Augusta: Então, diz-me cá o que é que encontraste mais!

Carmo: O que os homens têm, ou melhor, deviam ter, mas estes já nem com uma lupa se pode ver qualquer coisa!

Augusta: Oh, oh, oh, que disparates estás para aí a dizer?

Carmo: Olhe, minha senhora, este aqui até tem umas fotografias, digamos, muito indecentes. A D. Augusta está interessada em vê-las?

Augusta: Estou sim, Carmo. Dá-mas cá, porque eu sempre gostei muito de ficar com velhas “recordações”.

Coronel: E onde está o baralho de cartas que também estava em cima da mesa?

Alferes – E também aonde estão a minha carteira, chaves do carro e o meu porta-moedas?

Sargento: E o meu bloco de notas, por acaso, também está por aí?

Carmo: Sim, sim, está tudo aqui. Os senhores também querem ver? Estejam à vontade.

Coronel: Não, não merece a pena, pois todos nós acreditamos em ti!

Alferes: A Carmo pode trazer tudo o que encontrou, para cima desta mesa.

Carmo: Tudo?! Ó companheiros de armas, o melhor é vocês virem cá buscar o que vos mais interessa, porque eu, mesmo sem querer, posso exagerar!

Coronel: Companheiros de armas! A nossa querida colega do “Psico”, que conseguiu resolver, e muito bem, este caso que derrotou completamente o inimigo comum, ou seja os Fantasmas, pelo facto e pelos relevantes serviços prestados à nossa comunidade, bem merece que lhe prestemos uma guarda de honra!

Alferes: Muito bem, muito bem. Como estamos todos completamente de acordo, vamos a isso: Pelotão!… Formar… Sentido!… Essas barriguinhas para dentro e peito para fora. Meu comandante, estamos às suas ordens!

Coronel: É p’ra já. Companheira de armas, queira fazer o favor de passar revista ao nosso glorioso pelotão!

Carmo: Muito bem… Muito bem… Muito… Olhe lá, senhor Capitão, pode dizer-me o que faz na formatura, com as calças na mão esquerda e a catana na mão direita?

Capitão: Perdão, perdão… É que perdi as calças e ainda não tive tempo de as voltar a vestir… Além disso, estão muito sujas…

Carmo – Ah, é isso? Então, saia imediatamente da formatura… Imediatamente, não ouviu? Depois de bem lavado e bem ataviado, apresente-se na cozinha. E p’ra já, conte com algumas guardas de castigo à porta deste salão. Senhor Comandante Ramalho, já passei revista ao nosso glorioso pelotão. Agora, vou para a cozinha  fazer o jantar: para os homens, vou fazer uma feijoada e para a sobremesa, um pudim de pinhões. Para mim e para a D. Augusta, vou fazer uma dobrada com uma sobremesa de torta de maçã!

Coronel: Carmo, nossa companheira de armas, antes de ir para a cozinha, queira fazer o favor de nos dizer o que é que vamos fazer aos corpos dos inimigos?

Carmo: O que é habitual fazer nestas situações: pô-los em vala comum, com a indicação “Desaparecido em combate”.

Coronel: Muito bem! As suas ordens serão rigorosamente cumpridas. Pelotão, em frente  marche… um… dois… esquerdo… direito… esquerdo… direito… opp… opp… opp …

Carmo: Pare, pare aí com essa marcha. Ordeno e mando publicar, na Ordem de Serviço do Dia, que de ora avante, não serei mais a Carmo.

Passarei a CARMINHO!!!

Siga a marcha…

F I M

Nota: Trabalho de ficção: qualquer situação ou personagem é pura invenção.

Texto de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

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Arquivado em Magia das Palavras, peça teatral

José Feldman (Trova Brasil n. 14 – out. 2013) A. A. de Assis

Lançamento da Trova Brasil n. 14, outubro de 2013, com o mestre paranaense A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), de Maringá.


Cerca de 500 trovas. Trovas em imagens. Biografia em suas 86 páginas.

Acesse o livreto e leia-o em: 
Se desejar fazer o download do e-book (em pdf, cerca de 8 mega), clique sobre Share, abaixo do livro no link acima, e escolha a opção download.

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Arquivado em Lançamento, Trova Brasil

Simone Borba Pinheiro (Ciranda da Amazonia) Parte 4

HIRAM CAMARA
Amazônia: verde,verde,verde

 Verde,verde,verde
 terra das mil ilhas
 água de mil brilhos
 sinuosas maravilhas
 filhas da mitologia
 de dez mil anos atrás.

 Verde, verde, verde
 negros igarapés
 e extensos igapós
 da estação chuvosa
 águas de tucunarés
 tambaquis, pirarucus.

 Verde,verde,verde
 meninos nus
 mergulhos mis
 águas de peixes-boi
 do boto que já se foi
 saudades ribeirinhas
 antes do sol nascer
 no horizonte fluvial:
 cristais brilhando
 no encanto das águas
 no encontro das mágoas.

 Desesperanças.
 Crianças na estrada
 da borracha
 seringueiras feridas
 latex-lágrimas.

 Verde,verde,verde
 à sombra da sapopemba,
 séculos de soberania
 debruçados no vale
 imenso, solimões,
 solidões espalhadas
 planície de amazonas
 ikamiabas guerreiras
 em um dabacuri
 saudando Buopé,
 Jurupari, Ceucy da terra
 na terra das mil ilhas
 na terra das mil ONG,
 mil cobiças, ameaças
 de novos donos e danos
 com o passar dos anos
 água já sem a vida
 de dez mil anos atrás
 o que fazer, Jurupari,
 deus do prazer e saber
 para manter a amazônia
 brasileira, soberana,
 pelo tempo que se alongue,
 salva da destruição?

 O que fazer, Jurupari,
 deus do prazer e saber,
 para que Yrurini
 não te roube Kukuy
 nem nos roubem daqui
 a terra das mil ilhas
 dos mil brilhos da riqueza
 que inspirou tua beleza
 por quanto resistirás?

 Verde,verde,verde
 onde ainda o acharás?
=================

HUMBERTO – POETA
Preito á natureza

 Ah… Natureza! Que cruel regime
 te impõe o homem, perdulário e ateu:
 agride fauna e flora, alheio ao crime
 de estragar o que Deus nos concedeu!

 O ar, o sol, o azul que esmalta o espaço,
 O homem faz réus de equívocos critérios;
 enche os céus desse trágico bagaço
 de pós mortais e gases deletérios!

 Quando se rouba à mata a ave inocente
 e polui-se a mercúrio a água dos rios,
 é nessas horas que o Senhor pressente
 o quanto somos maus e somos frios!

 Da árvore que estala, vindo ao chão,
 evola-se um lamento ao infinito,
 mas não o ouve o autor da infanda ação,
 pois só Deus é capaz de ouvir tal grito!

 Natureza: viemos de outras plagas
 pra crescer nos reencarnes sucessivos,
 mas te enchemos de pústulas e chagas,
 inda presos a instintos primitivos!

 Falhos que somos desde os cromossomos,
 de nós tirai, Senhor, machado e serra;
 lembrai-nos que, afinal, nada mais somos
 que meros forasteiros sobre a Terra!
========================

JOAQUIM SUSTELO
Amazônia

 Floresta que és pulmão da Natureza
 num espaço que parece um mundo à parte,
 não indo entanto o homem preservar-te
 não és só tu que morres… de certeza!

 Cavando a tua morte, (que dureza!)
 também irá a dele acompanhar-te.
 Então que saiba sempre ter a arte
 de ter por ti amor, sem mais leveza.

 A mancha verde-esperança no planeta
 é esperança que não pode ir prá valeta
 mas sim crescer e dar-nos a alegria

 de mais tarde afirmarmos bem contentes:
 “nós fomos quanto a ti inteligentes,
 o Mundo prosseguiu em harmonia!”
=====================

JOSE ANTONIO
Amazônia terra maravilhosa

 Por que destruir a Amazônia?
 Vamos todos enfrentar este problema
 De frente a frente contra os maliciosos
 que derrubam o nosso paraíso da Amazônia.
 O povo unido jamais será vencido.
 Amazônia é o paraíso de todos os que amam a natureza,
 por que derrubar o nosso maior Pulmão do mundo,
 com tanta natureza que tem?
 Vamos todos para frente para salvar
 a natureza,nossos animais,nossas arvores
 nossas maravilhosas aves etc.
 Vamos povo para frente é o caminho e vamos colocar
 um ponto final a todos esses malditos
 que estão destruindo a nossa Amazônia
====================

JOSÉ ERNESTO FERRARESSO
Amazônia… Nosso Chão

 Floresta de grandes primores,
 Pássaros variados cantores e tenores,
 Confundem os sons trinados de nosso amanhecer
 Até quase o anoitecer.

 Uma terra abençoada por Deus
 De matas virgens, grandes mistérios,
 Dela tudo se explora e se retira,
 Linda Floresta que tanto se admira .

 Nossa Amazônia agora faz parte,
 É tema polêmico de Fraternidade.
 Hoje por Deus, Mata escolhida
 Para salvar tantas vidas .

 Patrimônio diversificado de pobreza e riqueza
 Mas de extensa imensidão e beleza
 Sua flora, fauna e carente comunidade,
 Hoje é tema alusivo: Campanha da Fraternidade.

 Essa floresta não é minha e nem sua ,
 É de todo um povo, de toda nação,
 “Vida e Missão Neste Chão”
 Gera entre os povos devastação e a exploração.

 Habitada por povo humilde e carente.
 Conquistada e disputada por muita gente
 Terra de grandes seringais, arbustos imensos entrelaçados,
 Bela Amazônia, dos grandes mananciais .
=======================

LIGIA TOMARCHIO
Amazônia Deusa

 Perfeição e atitude
 de séqüitos, cépticos e sépticos.
 Proclamam salvação
 encontram solidão.

 Imagens distorcidas
 querem fazer crer
 num mundo desorientado
 preocupação não há em preservar.

 A fé no futuro é maior
 a realidade, imagem vã.
 Crer é vital arte
 de poetas e sonhadores…

 Há uma deusa entre as matas
 faz parte dela como o ar…
 Nos rios, riachos correm alaridos
 salvação premente e real
 da selva animal.

 Não serão homens a proteger
 qualquer ponto do planeta
 à sua volta só destruição…

 No âmago dos sons silvestres
 de pássaros e espíritos elementais
 presente, representa conservação
 a Deusa Amazônica!

 Não tenha pouca fé
 Amazônia Deusa
 Se auto preservará …

Fonte:
http://www.familiaborbapinheiro.com/ciranda_amazonia.htm

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