José Feldman (Universo de Versos n. 120)


Uma Trova do Paraná

LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão


 A vida é o luzir veloz,
 encanto em  fugaz momento.
 Apenas um sonho atroz
 nas asas sutis do vento.
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Uma Trova sobre Ecologia, de Pouso Alegre/MG

ROBERTO RESENDE VILELA


Com belas coreografias
no chão e na imensidade,
as aves, todos os dias,
dão lições de liberdade!
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Poeta do cativeiro,
nos teus versos triunfantes,
eu vejo um “Navio Negreiro”,
sobre “Espumas Flutuantes”!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG

HEGEL PONTES


Não julgues pelo semblante
a honra alheia, meu filho:
– Na lua, a face brilhante
oculta a face sem brilho.
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Uma Trova Humorística, de Pindamonhangaba/SP

JOSÉ OUVERNEY


Seu “truque” rendeu-lhe vaia
ao furtar mamão da ceia:
– A fruta não é “papaia”?
Fiz o proposto; “papei-a” !!!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Mesmo que a paixão desabe
disto eu não sentirei medo,
o mundo inteiro já sabe
que eu sempre amei em segredo!
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Uma Trova Hispânica, do México

GISELLE ROSSAINZZ


Quiero una trova trovar
por qué soy un trovador,
mi trova quiere volar
ser gorrión declamador.
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Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Belo Horizonte/MG

THEREZA COSTA VAL


Pela queimada vencida,
fez-se a floresta em carvão…
Morreu o verde da vida,
deixando enlutado o chão!
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Trovadores que deixaram Saudades

IDÁLIA KRAU
Rio de Janeiro/RJ (1912 – ????)


Há ternura no teu rosto
e carícia em sua voz…
Foi pena o Tempo ter posto
tanta distância entre nós.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Nem sempre nós conseguimos
traduzir as nossas dores…
Quantas trovas ficam mortas
nas almas dos trovadores…
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Um Haicai de São Paulo/SP

JÉSSICA JACINTO DOS SANTOS


Flores de azaléia
No quintal da vizinha
Um ar de bom dia.
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Manhã. O Sol é um botão
de fina prata dourada,
abotoando o roupão
todo azul da madrugada.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


bateu na patente
batata
tem gente
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Ary Simões Coelho
   O LAGO E A BRISA…

MOTE:

QUANDO A CARÍCIA SENTIU
DA BRISA, QUE O ACORDOU,
O LAGO TREMELUZIU,
TODINHO SE ARREPIOU!

GLOSA:

QUANDO A CARÍCIA SENTIU
com tanta suavidade,
a roupa do amor vestiu
com a cor da claridade!

Recebeu esse carinho
DA BRISA, QUE O ACORDOU,
e iluminando o caminho
em luzes, o abraçou!

Estrelas brilhando viu,
nessa manhã que nascia,
O LAGO TREMELUZIU,
feliz, a tremer, sorria!

Nesse êxtase de amor,
com muito amor, se entregou,
e sentindo esse calor
TODINHO SE ARREPIOU!
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Eu falei da “flor morena”
e entrou a rir quem me ouviu.
– Quem nunca viu flor morena,
foi porque nunca te viu…
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


nuvem que passa,
o sol dorme um pouco –
a sombra descansa
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Noite de insônia


Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!. . .

Louco e só! Desvairado! – A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!. . . 
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Anseio


Na incerteza busco o atalho certo
E no horizonte ponto de partida
Navego no mar seco do deserto,
Fazendo das chegadas minhas idas…

Trago o meu peito cheio de saudade
Que por maldade ficará comigo;
Do inimigo quero toda amizade
Ter no relento meu fiel abrigo.

Buscarei na guerra a razão da paz
E na escuridão, o raio de luz,
Estrela-guia que do céu conduz
O irmão perdido que ficou pra trás!

Tentarei a trégua em todos conflitos,
Visarei no ódio a razão do amor;
Serei alívio na mais forte dor
E o consolo de todos os aflitos.

Quero apagar o fogo que consome,
Ser a esperança de um mundo inteiro,
Sentir repletos todos os celeiros
Sonhar que o mundo não mais passa fome!
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Fio

 –
No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão…

– Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Mágica Que Existe Em Você

(CD Mágico de Oz)

 Não é preciso mágica pra pensar
Pra descobrir que nenhuma força
É maior do que pensar só em coisas boas,
E que nada é melhor que abrir a janela
Todos os dias e dizer pro mundo
Que acreditar em sonhos sempre

Vale a pena.
Não é preciso mágica pra ter coragem
Pra descobrir que ela tá guardada
Dentro de cada um de nós
E que espantar seus medos e incertezas,
Bater no peito e dizer
Que o mundo lá fora te espera,
Também vale a pena

Não é preciso mágica pra ter um coração
Pra descobrir que o que bate dentro do peito
É a esperança e o amor
E que só eles podem mudar
O mundo e nos fazer sonhar
Porque o sonho é a mágica
Que existe em nós

Não é preciso mágica , basta abrir os olhos
E enxergar dentro de voce
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O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Sabedoria


Uma ave, pousada
no pára-raio, olha para
o céu. E há trovoada.
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Labirinto


Que a vida tem surpresas todos sabem,
Não podemos só com a lógica contar…
A seqüência dos fatos que nos cabem
Nunca nos leva para idêntico lugar…

A cada um destino próprio e inusitado,
Eis o mistério de estar vivo: não saber
Se o gato em nossa noite é todo pardo
Ou se brilhará no escuro o nosso ser.

A que viemos? Alguns temos certeza,
Quando somos poetas ou artistas,
Que isso basta para produzir clareza…

Pois se na grande noite afundaremos,
Que luminosas sejam as nossas vistas
Se o fio do labirinto não herdemos…
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Uma Poesia de Recife/PE

BETO ACIOLI

Rosa


 Pra ti que faço meus versos
 remetendo-os aos quatro cantos,
 por rotas aonde sopram os ventos.
 Pra que tu me tenhas perto
 sopro até ti este canto.

Deixo meu peito entreaberto
 pra ouvir o teu acalento,
 pra cessar o meu tormento
 e enxugar todo o meu pranto.

Pra reencontrar todo encanto
 irei para qualquer lado
 que mande a Rosa dos ventos,
 pois imerso na dor me encontro.

Irei até o teu abraço…
 Não deixes que eu sofra tanto.
 Quero-me em teu regaço
 pois és Rosa dos meus versos.
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O Universo de Francisca

FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP – 1920, São Paulo/SP)

Em Sonda


Quieta, enrolada a um tronco, ameaçadora e hedionda,
A boa espia … Em cima estende-se a folhagem
Que um vento manso faz oscilar, de onda em onda,
Com a sua noturna e amorosa bafagem.

Um luar mortiço banha a floresta de Sonda,
Desde a copa da faia à esplêndida pastagem;
O ofidiano, escondido, olhos abertos, sonda …
Vai passando, tranqüilo, um búfalo selvagem.

Segue o búfalo, só … mas suspende-lhe o passo
O ofidiano cruel que o ataca de repente,
E que o prende, a silvar, com suas roscas de aço.

Tenta o pobre lutar; os chavelhos enresta;
Mas tomba de cansaço e morre … Tristemente
No alto se esconde a lua, e cala-se a floresta …
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

O SAPATEIRO

– 
(Duas versões)

 Sapateiro
 Remendeiro
 Come tripas
 De carneiro.
 Bem lavadas,
 Mal lavadas
 Come tudo
 Às colheradas
 
***

Sapateiro
 Remendeiro
 Come tripas
 De carneiro.
 Bem lavadas,
 Mal lavadas
 Tudo vai para
O pandeiro.

(Obs: Pandeiro: barriga)

http://luso-livros.net/
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O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Amor é síntese


Por favor não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise profunda
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braço
E eu serei perfeito amor.
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O Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Morto, hei de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber…
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Balada do Enterrado Vivo


Na mais medonha das trevas
Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.
Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne
Os ossos que restarão!
Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!
Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!
Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!
Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão
Que nem a prece te ocorre
À louca imaginação!
Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!
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Uma Poesia de Portugal

CESÁRIO VERDE
Lisboa (1855 – 1886)

Vaidosa


Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
a déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor… muito “amor próprio”.
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O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

O Coração e o Beijo


Meu coração chorava e eu lhe dizia:
Por que choras assim, pobre criança?
E o triste, a soluçar, me respondia:
Ninguém pode viver sem Esperança.

Tu tens a Fé. – A Fé? Mas, o que é d’ela
Sem da Esperança as ilusões serenas?
Um céu à noite sem nenhuma estrela,
Um’alma em flor sem um sorriso apenas…

– Mas tens a Caridade. – A Caridade?
Ah, sim! o vinho que embriaga a dor.
Mas eu não amo… Pois, não é verdade
Que a Caridade é o que se chama – Amor?

Nisto passava uma criança linda,
Botão de lírio, imaculado e santo.
Meu coração que soluçava ainda
Sorriu ao ver o melindroso encanto.

E foi beijar-lhe os pequeninos lábios,
Folhas de rosa abrindo de manhã,
Onde adejavam místicos ressabíos
Dos beijos de uma mãe e de uma irmã…

Compreendeu, então, o desolado
A linguagem sublime d’esse harpejo:
Neste mundo de lágrimas povoado,
A Caridade pode estar num beijo!
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O Universo Triverso de Millôr

MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


O hai-kai
Descobri outro dia
É o orvalho da poesia.
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Cego


 I
A verdade
é que eu nada enxergava
até que encontrei teus olhos…

Ah, meu amor, se me deixares agora:
ficarei cego…

II
Amor com que sonho, amor que almejo!
Mata-me logo ou morre de vez…
Longe que estejas, sempre te vejo,
e eu ao teu lado, e tu nem me vês…

Amor que sofro, que em vão desejo,
vivendo em ânsias sem ter talvez…
De olhos cerrados, cego, te vejo,
de olhos abertos, tu não me vês…

Amor vivido, de carne e beijo,
amor perdido, em quem não crês…
Eu, ainda o sonho, ainda o sinto e vejo
tu, nem sequer na lembrança o vês…
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Um Soneto de Aparecida de Goiânia/GO

EDMAR RODRIGUES PIMENTEL

Tolerância


 Fizemos uma amizade desde criança,
 Era muito simples e singela,
 Tínhamos mais que algo em comum,
 As nossas idéias eram mais que bela.

 Porque pensávamos em sintonia,
 Discutíamos o sentido da vida
 E ouvindo sempre as mesmas canções
 Que era nossa inspiração atrevida.

 No auge da nossa terna hegemonia,
 Distanciamos um do outro
 Como um balão que voa em sintonia.

 Foi se passando o tempo em circunstância,
 Tudo que sentíamos foi se desfazendo
 E o vento deixando a nossa tolerância.
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O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia

PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)


Eu não posso esquecer de Jesuíno,
homem forte, disposto e valentão,
que lutou nas caatingas do sertão
contra a própria injustiça do destino.
Vingativo, mas nunca foi cretino,
foi mais um respeitado cangaceiro…
Todos dizem que foi mais justiceiro,
do que injusto, naquilo que fazia.
Jesuíno Brilhante procedia
ao contrário do injusto trapaceiro.
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O Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Irás Longe


Sete céus apascentam teus pés,
como as cores do arco-íris.
Irás longe carregando o manto de tua alma
para os querubins descalços
que contigo fizeram essa aliança de luz.
Na senda que percorres
tuas palavras hoje soam como fábulas.
Mas sob a chuva das quimeras humanas,
destilarás tua seiva para nutrir
as raízes dos desencontrados,
quando as noites transformam em pó
toda palavra que não foi pronunciada
dentro de nós.
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Uma Poesia Além Fronteiras

RUI KNOPFLI
(Rui Manuel Correia Knopfli)
Inhambane, Moçambique (1932 – 1997) Lisboa/Portugal

A pedra no caminho


Toma essa pedra em tua mão,
    toma esse poliedro imperfeito,
    duro e poeirento. Aperta em
    tua mão esse objecto frio,
    redondo aqui, acolá acerado.

    Segura com força esse granito
    bruto. Uma pedra, uma arma
    em tua mão. Uma coisa inócua,
    todavia poderosa, tensa,
    em sua coesão molecular,
    em suas linhas irregulares.

    Ao meio-dia em ponto, na avenida
    ensolarada, tu és um homem
    um pouco diferente. Ao meio-dia
    na avenida tu és um homem
    segurando uma pedra. Segurando-a
    com amor e raiva.
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O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

O intenso brilho


É impossível no mundo
estarmos juntos
ainda que do meu lado adormecesses.
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão
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O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

A um poeta


Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
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O Universo de Carlos Drummond de Andrade

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Quero me casar


Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.

Depressa, que o amor
não pode esperar!
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UniVersos Melodicos

Herivelto Martins

AVE MARIA DO MORRO

(samba, 1942)

Recém-chegado ao Rio, por volta de 1930, Herivelto Martins costumava freqüentar o Morro da Favela, onde havia uma singela capelinha. Por muito tempo ele guardou a imagem dessa capela, com a intenção de usá-la numa canção que descrevesse de forma mística o anoitecer no morro.

Um dia, estando num bilhar na Praça Tiradentes, despertou-lhe a atenção a algazarra de um bando de pardais, que se recolhia às arvores para dormir. Transportando os pardais para o morro, ele escreveu e musicou os seguintes versos: “Tem alvorada / tem passarada / alvorecer / sinfonia de pardais / anunciando o anoitecer” – que logo complementou, compondo o que viria a ser a segunda parte de “Ave Maria no Morro”. Entusiasmado com o esboço de samba que acabara de fazer, Herivelto resolveu mostrá-lo ao compadre Benedito Lacerda, na época seu vizinho na Ilha do Governador.

É ele próprio quem conta essa história, no depoimento que prestou para o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, em 18.08.83: “Eu me preparei para mostrar ao Benedito essa segunda parte. Ensaiei com a Dalva, bem ensaiadinho, e todo animado fui procurá-lo. ‘Ouve aqui, Benedito, este negócio que eu fiz.’ E então cantamos, cantamos, a Dalva com aquela voz bonita e eu, no violão, crente que estávamos agradando, pois estava mesmo uma beleza. Terminada a cantoria, uma decepção. O Benedito tirou os óculos, esfregou os olhos e disse com a maior frieza: ‘Meu compadre, isso é música de igreja. Vamos fazer música pra ganhar dinheiro, meu compadre’. E, para amenizar o meu desapontamento, acrescentou: ‘Tá bem, tá bem pra vocês cantarem no rádio, mas isso não é música pra dar dinheiro. Cadê aquele sambinha que você me mostrou outro dia?”‘.

Desiludido com a rejeição, Herivelto arquivou a composição, só a concluindo meses depois, quando aprontou a primeira parte ( “Barracão de zinco / sem telhado / sem pintura / lá no morro…”).

Gravada em junho de 42, “Ave Maria no Morro” foi o primeiro sucesso do Trio de Ouro na Odeon. A repercussão do disco, entretanto, trouxe um problema. O cardeal, Dom Sebastião Leme, considerou a canção uma heresia e pediu sua proibição, o que só não aconteceu porque o autor tinha pistolão no serviço de censura. Realmente, a posteridade provaria que Sua Excelência Reverendíssima não estava com a razão: a partir dos anos sessenta, “Ave Maria no Morro” tornou-se a composição que maiores dividendos renderia na obra de Herivelto, especialmente por sua execução em igrejas da Alemanha, Áustria, Suíça e outros países.

Barracão  de zinco
sem telhado  sem pintura  
lá no morro
barracão é bangalô
lá não existe 
felicidade  de arranha-céu
pois quem mora lá no morro
já vive  pertinho do céu

tem alvorada   
tem passarada  ao alvorecer
sinfonia de pardais
anunciando o anoitecer

e o morro inteiro     
no fim do dia
reza uma prece      
à ave Maria
e o morro inteiro   
no fim do dia
reza uma prece     
à ave Maria

ave Maria
ave

E quando o morro escurece
eleva a Deus uma prece
Ave Maria.
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Uma Cantiga Infantil de Roda

A MACHADINHA

Outra versão:

Ah! Ah! Ah! Minha Machadinha !
Ah! Ah! Ah! Minha Machadinha !
Quem te pos a mão, sabendo que és minha ?
Quem te pos a mão, sabendo que és minha ?

– Se tu és minha, eu também sou tua.
Se tu és minha, eu também sou tua.
– Pula, Machadinha, para o meio da rua.
Pula, Machadinha, para o meio da rua.

No meio da rua, não hei de ficar.
No meio da rua não hei de ficar.
– Pula, Machadinha, para o seu lugar.
Pula, machadinha, para o seu lugar.

Falando:

Esta é a rosa,
Este é o portão,
Esta é a chave
Do meu coração.

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Convite à flor


Ao dedilhar dos sonhos,
botão a botão,
rosa a rosa;
ao escandir das sílabas,
sob o gesto,
gesto a gesto;
ao perpassar dos lábios,
beijo a beijo:
peripécia do silêncio…
estrídulos e loquazes silêncios,
aposentem-se as palavras:
bastam flor,
olores,
feromônios e silhouettes…

Palavras –
peçam-nas aos senhores advogados, para requerer;
aos protocolos, para encrencar;
fórmulas, aos senhores engenheiros, peçam-nas;
letras, aos senhores médicos,
grafia ruim, dizem, que ninguém entenda;
ao poeta,
o gesto,
no máximo, a sílaba…
ou, melhor,
o silêncio,
explosivo e indisfarçável silêncio, amor.
Botão e rosa:
róseo ou rubro,
o convite à flor.
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

A Criação dos Filhos


Falamos sobre os desencontros
a água disposta
em consequência
da sede: respingos inundam
as folhas e pétalas
rebrilham em gotas

falamos sobre a melhor
maneira com que criamos
os filhos: a água lava
os corpos
indiferentes.
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O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Se Eu Pudesse Começaria Tudo Outra Vez

Acróstico especial nº 5101

S-Se eu pudesse falar
E-E traduzir seu olhar…
 –
E-Esqueceria da estrela
U-Única Dalva a vê-la.
 –
P-Pensando bem trago em luto
U-Um sentimento pleno e discuto:
D-Desde a nossa triste despedida
E-Eu nunca amei mais ninguém!
S-Sua lembrança faz minha vida
S-Sonhar, arrepender, compreender
E-E o desejo de aceitar viver…
—Começaria tudo outra vez!-–
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O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Ai de mim


Ai de mim se não fosse eu, só eu própria me aturo
Nas minhas contradições e nos sensos de humores
Em bruscas decisões, o meu ficar encima do muro
Ai de mim no meu silêncio se na alma há rumores.

Ai de mim se não fosse meu grau de alta paciência
O meu querer, o meu gostar e o meu absurdo amor
Se no convívio não resistisse um pouco a influência
Ai de mim se eu arrancasse por olho gordo uma flor.

E eu que me suporte, com tudo que há em meu ser
Com as minhas manias, com meu ser são e insano
Ai de mim, inda que eu ria há lágrimas em oceano.

Ai de mim, com todos esses meus ais; e ai de mim
Ai de mim quando há fator irrefreável que me afeta
E ai de mim se não pudesse desabafar como poeta!
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O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

A Palmeira


O.D.C.
A FRANCISCO GONÇALVES BRAGA

COMO É LINDA e verdejante
Esta palmeira gigante
Que se eleva sobre o monte!
Como seus galhos frondosos
S’elevam tão majestosos
Quase a tocar no horizonte!
Também amei com loucura

Ó palmeira, eu te saúdo,
Ó tronco valente e mudo,
Aqui te venho ofertar
Triste canto, que soltar
Vai meu triste coração.
Sim, bem triste, que pendida
Tenho a fronte amortecida,
Do pesar acabrunhada!
Sofro os rigores da sorte,

Das desgraças a mais forte
Nesta vida amargurada!

Como tu amas a terra
Que tua raiz encerra,
Com profunda discrição;
Também amei da donzela
Sua imagem meiga e bela,
Que alentava o coração.

Como ao brilho purpurino
Do crepúsculo matutino
Da manhã o doce albor;
Ess’alma toda ternura
Dei-lhe todo o meu amor!

Amei!… mas negra traição
Perverteu o coração
Dessa imagem da candura!
Sofri então dor cruel,
Sorvi da desgraça o fel,
Sorvi tragos d’amargura!

Adeus, palmeira! ao cantor
Guarda o segredo de amor;
Sim, cala os segredos meus!
Não reveles o meu canto
Esconde em ti o meu pranto
Adeus, ó palmeira! adeus.

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