Norália de Mello Castro (Mandacaru)

Sou montanhesa.

Um dia, o mandacaru entrou em minha vida.
Encontrei-o com seu desenho peculiar
a chamar todos os clamores do verde com espinhos.

Forma altiva,
singular,
soberbo
das raízes às suas pontas,
mesmo sem acalentar
qualquer galho, qualquer tronco.

Sangrei as mãos em feridas,
lambi o sangue
dos espinhos a tocar a capa das entranhas.

O mandacaru permaneceu.
Em beleza explodiu.
Joguei brancos e
matizei toda aquela planta.
Pintei.
Sintetizei o passado
no presente.
Deu uma saudade danada!
Joguei tudo ao chão.
Parti o mandacaru.
Não retirei a sua seiva.
Retirei da planta a água onde nasci.

O mandacaru esfacelado
jorra ainda a seiva do viver;
colhi de sua essência – o alimento.
***

A essência:

Mandacaru
verde,
palmilhado de branco,
ligeiros toques marrons.
Cor soberba
permanece na vitrine,
Sem perder seu frescor,
Sem perder sua mensagem,
Sem dizer uma palavra
a formar todo o texto.
***

A viagem:

Do mandacaru
às estradas dos eucaliptos:

lá onde bebem de sua seiva,
cá onde recolhem de sua lágrima,

Lá sem cheiros ou perfumes,
Cá os perfumes a embrenhar.

Lá onde o sol castiga.
Cá onde a sombra se faz.

Lá entre espinhos rasteiros.
Cá entre folhagens luzentes.

Lá onde o dia nasceu.
Cá onde a noite se fez.

Lá onde os passos foram dados.
Cá onde os sons se repetem.

Lá o sol e o fá.
Cá o carrilhão.

Entre lá e cá,
permanece a alma,
estranhamente,
a ditar: vivi,
não sonhei.
Amanheci encharcada.
***

A disciplina:

Disciplina. Disciplina.
Qualidade necessária
para desenvolver o talento.

Disciplina. Disciplina.
Receita dada por pensadores
aos jovens que querem vencer.

Disciplina. Disciplina.
Envolve ordem,
requer constância.

Disciplina. Disciplina.
Determinação.
Até virar obsessão

A obsessão deve ter módulos
até tornar dona de todos,
esgotando-se até chegar
à realização.
***

Tem-se de arrancar
os espinhos do mandacaru
com disciplina mágica,
para não se ferir as mãos,
muito menos o coração.
Sem feridas a sangrar,
descobre-se o ponto final
da disciplina disciplinada.
Cai-se na indisciplina ordenada.

É o jeito
da Dor virar prazer.
***

As travessias:

Passei pelas águas
– o rio caudaloso entornou.

Passei pelas montanhas
– aspirei junção do rio e terras.

Passei por ruas
– sombras encontrei.

Passei aqui e ali
– matutei:
Por onde andarei agora?
– a Mãe Terra me acolheu,
Assim. Aos montões:
terra e águas juntas,
terra e céu juntos.
Juntei tudo:
***
O encontro:

finalmente deixei
o coração mergulhar nas águas,
a transpor por montes.
Abri o coração do mandacaru,
Jorrei sua seiva sobre o papel.

Fonte:
Rede de Escritoras Brasileiras

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Arquivado em Minas Gerais, Poesias

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