Paulo Mendes Campos (O Despertar da Montanha)

Assim como há quem sofra de insônia, sofro de despertar. Meu sonho é tão nebuloso, tão viscoso, tão atravessado de assombrações e armadilhas, que me custa o indizível ter de me arrastar desse brejo ancestral para as obrigações do mundo urbano. Existe um poema de Henri Michaux que conta o angustioso renascimento do planeta gasoso em que certas pessoas se transformam depois da viagem noturna; dele e meu.

Enquanto pude, filho ou chefe de família, proíbi que me fosse feito qualquer pergunta durante minha primeira hora de vida cada manha.

Você vai hoje cedo para cidade? Uma questão à toa como essa, em vez de me puxar para frete, me empurra de novo para trás, para o pântano primeiro onde se conhece apenas o desconhecimento.

Quer um ovo quente? E eis-me outra vez cadáver que não morreu de todo, um morto ainda emaranhado no pesadelo de ter vivido.

Quando os pequenos foram crescendo (são dois, como no Plebiscito, um menino e uma menina), minha interdição começou a ser desmoralizada. Abro os olhos omissos e, como um cão que estranha o dono, tenho vontade de latir para o universo.

Venho de charnecas nevoentas, venho de violentos desencontros e nada quero. Sou só um pedaço de homem, sem forças para galgar os degraus do dia que se oferece. Já inclinado a regressar para sempre ao meu povoado de fantasmas, de horrores e êxtases selvagens, ouço uma voz a pronunciar palavras incompreensíveis e, decerto, sinistras. Faço um esforço sem direção. Uma faísca sonora articulou a palavra papai, estilhaçando a treva que vedava a face do abismo. Papai era eu. Abro os olhos idiotas e vejo uma carinha que não me é de todo estranha. Depois de sofrida reflexão, admito que pode ser minha filha. Mais terei uma filha? Desisto de saber. Fujo por um túnel, ando, ando, e reapareço do outro lado, onde a mesma carinha me espera com a sua condenação. Papai!

Papai sou o mesmo, digo para tranquilizar-me. Removo destroços, procuro espantar pelo menos o grosso do nevoeiro, agarro-me ao abajur, ao armário, á persiana, ao homem da caverna consegue afinal emitir uma palavra: Hã!

A menina, esperançada, repete a sentença ininteligível:

– Como é que eu distribuo 2.400 litros d’água por três reservatórios, de modo que o primeiro tenha 54 litros mais que o segundo, e este 63 litros mais que o terceiro?

Diante desse enigma repelente é muito melhor voltar á condição de ameba, mas já é tarde: estou grudado a uma zona intermediária, numa desolada terra de ninguém, entre dois mundos absurdos. Abre-se um pouco mais a réstia do entendimento, mas o impasse continua. Com timidez e ressentido orgulho, confesso: Não sei. A carinha não se afasta e compõe outro enigma, como se fosse possível a gente ignorar uma coisa e saber outra, como se os enigmas todos não constituíssem um único e esmagador enigma:

– Uma livraria manda pagar a uma casa editora de Paris uma fatura de 1.500 francos por intermédio de Banco de Londres…

Gemido e desespero. A esfinge continua implacável:

– Eu quero saber qual a quantia necessária, em moeda brasileira, se 30 fracos valem uma libra, e esta, 2 cruzeiros.

Aquela libra a 2 cruzeiros me funde e difunde outra vez :

– Não sei; pergunte á sua mãe que é inglesa.

Fecho os olhos. (Puxa, papai!) Abro os olhos. Reconheço com uma alegria de bicho inferior que a menina impertinente sumiu. Posso regressar aos meus pampas impalpáveis, ás minhas campinas eternas. Mas uma pata de urso me agarra pelos cabelos. Papai. Abra os olhos com relutância e vejo uma cara redonda e resolvida do menino.

– Pai, os músculos formam o que chamamos de carne?

– É claro – respondo sem convicção, só para ficar livre daquela cara de maçã.

– Quais são os símbolos da pátria?

– Que pátria?

– Da nossa pátria, ora bolas.

– Não me lembro de todos.

– Como eram constituídas as bandeiras?

– Mesma coisa de sempre: um pedaço de pano e um pedaço de pau.

– Deixa de ser burro, pai; essa até eu sei: as bandeiras eram constituídas de homens, mulheres, moços, velhos, índios amassados, padres, animais domésticos e bestas de carga.

– Se você sabe, por que está perguntando?

– Queria ver se você é mesmo ignorante.

– Vê se não chateia, Daniel.

Recebo uma patada no ombro e reconheço que perdi o combate: vou nascer de novo. A luz me machuca. Usando de todos os meus pseudópodos, rastejo até o chuveiro. A água faz bem aos animais.

Do outro lado da porta as perguntas também chovem: – Qual é o antônimo de fervor?

– O barulho do chuveiro não me deixa ouvir.

– Que consequências trágicas sofreu o Brasil na segunda Guerra Mundial por não possuir estradas?

– Hein? Depois eu conto.

– Movimento de translação é assim ou assim?

– Não posso ver pela porta, não é, Gabriela?

– Como Pedro Alves Cabral podia saber que tinha chegado na baía Cabrália?

– Engraçadinho!…

– Como era mesmo o nome direito do Caramuru?

– João Ramalho, menina.

– Que João Ramalho, pai?

– Uai, não é não?

– João Ramalho é aquele que ajudou Martim Afonso de Sousa na capitania de São Vicente.

– Ah, isso mesmo: o bacharel de Cananéia.

– Mas eu quero saber é o Caramuru.

– O de Caramuru eu não sei não.

Fonte:
Paulo Mendes Campos. Balé do Pato e outras cronicas. SP: Editora Ática, 2008.

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