Guilherme de Azevedo (Alma Nova) X

foi mantida a grafia original.
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À NOITE
Eu gosto de velar a percorrer os mundos
Ó noite dos bons cânticos,
Aos lívidos clarões dos astros vagabundos
Nos êxtases românticos,

Enquanto a vil cidade, a cortesã devassa
Dos falsos ouropéis,
Com seus famintos cães, a sua lua baça
E os seus negros bordéis,

Ressona torpemente aos beijos deletérios
Dalguns velhos amantes;
— os longos hospitais e os tristes cemitérios
Que a afagam delirantes!

Contudo eu também sei que existe muito instante
De gelos, em que tu,
Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
No pobre seio nu!

Que há horas em que vens, nas húmidas cidades,
Nas choças, nos esgotos,
Cuspir cinicamente as frias tempestades
No seio vil dos rotos,

Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
Um dia sem ter pão,
Nem dessa esfarrapada e velha populaça
Que rosna como um cão!…

Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
O manto dos horrores,
E o gládio vingador das cóleras celestes
Ó noite dos amores,

Retomas o tom puro e santo do mistério
Da pálida mulher
Que vai colher, cismando, um lírio ao cemitério
E ao campo um malmequer!

Em horas de tormenta és a mulher colérica!
Até cospes na cruz!
E formam-te espirais na coma atmosférica
As víboras de luz!

Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
Em doce e plena paz,
É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
Depois das horas más,

E em lúcidos cristais há cintilantes vinhos;
Os casos mais galantes;
As lânguidas canções; os belos desalinhos
E os gestos provocantes!

Ó filha do silêncio! Aos puros alabastros
Dos ombros ideais,
Se Deus arremessasse a quantidade de astros
Que em ti brilham a mais,

As pálidas visões que passam doloridas,
E um tanto contristadas,
Haviam de surgir de estrelas revestidas
Em trajos de alvoradas!

Em ti cuida escutar uns sons inexprimíveis
De lânguidas canções,
O pobre sonhador de coisas impossíveis
Que adora as solidões!

E quando o resplendor de mundos luminosos
Na tua fronte cinges,
Os gatos sensuais, elétricos, nervosos
Repousam como esfinges;

Enquanto as combustões dos lívidos cometas,
Errantes e fatais,
Consomem lentamente as grandes borboletas
Dos nossos ideais!

A VALA

Trazei mortos à vala; a hidra está com fome
E deve ser-lhe longa a hora em que não come!
Olhai como ela mostra àqueles que a vão ver,
Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
A amargura cruel da boca desdentada
Que pede de comer!

Lançai ao monstro informe algum repasto novo!
Trazei-lhe carne humana; arremessai-lhe o povo,
Transido pelo frio ou morto pelo sol!
E visto haver na fera abismos insondáveis
Mandai-lhe as legiões dos grandes miseráveis
Que morrem sem lençol!
Eu quero vê-la farta, a lúgubre pantera,
Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
A presa que lhe inveja a gula dos chacais.
Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
Da triste procissão cruel e dolorosa
Que vem dos hospitais.

Um velho esquife chega: em duas tábuas toscas
Um pobre seminu coberto já de moscas,
Num riso deixa ver não sei que tons cruéis!
Enquanto nos sorria a luz das noites belas,
Talvez que ele varresse a lama das vielas
E o lixo dos bordéis!

E pôde, enfim, dormir no seio bom da morte!
Após, como se fora a lívida consorte
Daquele vil despojo, às mesmas horas vem,
Trazendo por sudário os seus vestidos rotos,
Uma triste mulher caída nos esgotos
Sem bênçãos de ninguém!

Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
Reúne-os em consórcio e dá-os de presente
À larva que partilha as ânsias do teu ser!
Aguça o teu desejo! — A garra infecta lança
Ao corpo tenro e nu duma gentil criança
Que a mãe te vem trazer!

Redobra de apetite! Alonga-se a teu lado
A fila tenebrosa! O espectro do soldado
A par do que vergou cansado de cavar:
E o mineiro sem luz, o mártir legendário;
E amparando-se a custo ao velho proletário
A flor do lupanar!

Mastiga a turba vil e alonga essa goela!
Bem vês que vem chegando um corpo de donzela
Que pela candidez recorda uma vestal!
Voou-lhe, num sorriso, o derradeiro arranco
E traz viçoso ainda um grande lírio branco
No seio virginal!

O monstro sensual na sombra tripudia!
Celebra no silêncio a tenebrosa orgia,
Que as Deusas vêm chegando ao lúbrico festim!
Num beijo os lábios cola à frígida epiderme
E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
Que viva e goze enfim!

Eu quero ver-te farta, em hálitos profundos,
Dormindo o sono vil dos animais imundos,
De ventre para o ar, serpente infecta e má!
E amanhã, na estação dos cândidos amores,
Veremos rebentar num tapete de flores
O lixo que em ti há!

E a santa mocidade; as lânguidas mulheres,
Virão depois colher os gratos malmequeres,
Pisando-te sem medo e cheias de desdém,
Em danças sensuais; o fato em desalinho;
Compondo-te canções; regando-te de vinho;
Sem pena de ninguém!

E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha;
Que não mostras pudor; que não sentes vergonha;
Que és a campa-monturo e não podes ser mais;
Cingida enfim, também, de rosas orvalhadas,
Terás dado um perfume às almas namoradas,
E pasto aos animais!

Ó vultos ideais, fantásticos e belos,
Que às vezes revoais nas salas deslumbrantes,
Num grande mar de tule, etéreas, flutuantes,
Aos suspiros fatais dos meigos violoncelos;

Que bom que era sonhar nos pálidos castelos,
À noite, à beira-mar, nas solidões distantes,
Nos tempos em que a flor dos tímidos amantes
À lua confiava os íntimos anelos! …

Agora sois gentis, dispépticas, vistosas;
Pagais por alto preço as esquisitas rosas;
Nos rápidos wagons correis o mundo em roda;
Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
Enquanto cai na rua a sonolenta chuva,
Cismais no Deus-Milhão — no Criador da moda!

Eu vejo em tua boca as pétalas vermelhas
Duma rosa de Logo aonde vão libar
O mel das ilusões, quais tímidas abelhas,
Uns velhos ideais que em vão tento expulsar.

Dizer-me podes tu de que óvulo espontâneo,
Tocado pelo sol, em mim pôde nascer
Este bando cruel que dentro do meu crânio
Não faz há muito já senão roer, roer?!

Às vezes voa ao largo; às serras, às campinas;
Remonta aos astros bons; torna a descer dos céus;
E volta a demolir as trémulas ruínas
Do templo onde crepita a luz dos dias meus!

Ó grande flor suave! E nisto se resume
A constante batalha, o sempiterno afã!
Aspira a minha essência ao teu grato perfume;
Soçobra o dia de hoje ao dia de amanhã!

Oh, volvamos à terra; aos plácidos lugares,
Aonde os himeneus fecundos e reais
Produzem, dia a dia, os fetos singulares
E as sãs vegetações dos cândidos rosais!

E o que há de etéreo em nós, que siga as breves fases
Dum fluido transitório, erguendo-se nos céus,
Nas grandes expansões dos fugitivos gases
Onde em línguas de fogo às vezes fala Deus.

Forçoso é separar os dois rivais antigos,
Na batalha cruel que em nós se reproduz.
Sorria o que é da terra aos vegetais amigos;
Rebrilhe o que é do céu nas refrações da luz!

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