José Feldman (Universo de Versos n. 122)


Uma Trova do Paraná

ANITA THOMAZ FOLMAN
Ponta Grossa


O Pinheiro mais parece
lá no fundo do sertão
um colono em triste prece
pedindo a Deus proteção.
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Niterói/RJ

ÉLEN DE NOVAIS FÉLIX


Quando a queimada tirana
invade a mata indefesa,
há dor no pranto que emana
dos olhos da natureza.
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Queimadas… Devastação…
Natureza poluída…
e os homens, por ambição,
destroem a própria vida!
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, do Rio de Janeiro

EDMAR JAPIASSÚ MAIA


Por mais que o mundo distorça
 da Bíblia as sábias propostas,
 o Livro tem tanta força
 que leva o mundo nas costas.
============================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro

LEILA MICCOLIS


Conserta o cano que vaza,
encera o chão, lava a pia,
e aos amigos diz: “Lá em casa
eu uso muita energia…”
============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Muda-se a cor preferida,
troca-se a corda do sino,
muda-se tudo na vida…
Mas não se muda o destino.
============================
Uma Trova Hispânica, da Venezuela

ANGELA DESIRÉE PALACIOS


Te quiero siempre a mi lado
te quiero con el rocío,
te quiero porque me has dado
cobijo para mi frío…
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de São Paulo

ANALICE FEITOZA DE LIMA


Cai por terra qualquer festa
e minha alma triste chora,
quando vejo uma floresta
pela queimada indo embora…
============================
Trovadores que deixaram Saudades

ELIAS DOMINGOS
Pinhalão/PR (1917 – 1997)


Eu não sei se sois sombreiros,
ou árvores singulares,
só sei que sois os pinheiros
que cativam meus olhares.
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ (1916 -1977) Santos/SP


Lá no horizonte o barquinho,
mansamente, a velejar,
parece que de mansinho
sobe o céu… e deixa o mar…
============================
Um Haicai de São José dos Pinhais/PR

SÉRGIO FRANCISCO PICHORIM


Praça do Japão
Sob o olhar de um Buda
pássaros namoram.
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro (1891 – 1981
)

Tua ironia maldosa,
do amor não me, apaga o lume:
Procura esmagar a rosa,
vê se não fica o perfume.
============================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


Por mais prosas que eu perverta,
não permita Deus que eu perca
meu jeito de versejar.
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Carolina Ramos
   LAREIRA SAUDADE…


MOTE:

FIZ DA SAUDADE QUE AQUECE
A SOLIDÃO DOS MEUS DIAS,
A MENSAGEM QUE ENTERNECE
MINHAS HORAS TÃO VAZIAS.


GLOSA:

FIZ DA SAUDADE QUE AQUECE,
minha doce companheira,
peço, fique, quase em prece,
comigo, na noite inteira!

Eu preciso amenizar
A SOLIDÃO DOS MEUS DIAS,
minhas noites, a chorar,
são tristes, sem alegrias.

Quando o meu tempo anoitece
lanço em ecos pelo mundo
A MENSAGEM QUE ENTERNECE
desse meu sofrer profundo!

Saudade, lareira ardente,
vem, aquece as horas frias,
enche de amor, ternamente,
MINHAS NOITES TÃO VAZIAS.
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Não quero na minha morte,
nem pompa, nem mausoléu.
Quero uma covinha rasa,
que abra os braços para o céu. . .
============================
O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira
============================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Retorno


Olha! volto de novo, – Olha! de novo à crença.
Eu volto. É o mesmo templo. – O teu olhar traspassa
Rasga, ilumina em fogo, a abóbada suspensa
De onde pende do incenso a mesma nuvem baça.

Sinos rebadalando o glorioso repique…
Toda a massa dos fiéis pelos degraus do altar…
Deixa que suba a prece e que a esperança fique
À flor dos corações como algas sobre o mar.

É o mesmo ainda o canto invisível e crente,
O turíbulo de ouro o mesmo fumo evola,
E do órgão gemebundo o queixume plangente
É o mesmo que noss’alma embriaga e consola.

Aquece-me de novo o mesmo fogo interno,
Chora-me dentro d’alma o mesmo cantochão
Que no ouvido me entrou pelo lábio materno
Como um vinho de Cos num cérebro pagão.

Mas uma timidez de neófito me invade,
A alma se me conturba, a vista emarelece…
Sinto-me tropeçar a cada claridade
E a cada treva sinto um corpo em que tropece…

Por que em ti hão achar o desejado guia
Que o vacilante passo, estradas através,
Conduza onde não haja além da luz do dia
Outra luz que não seja a que vejo a teus pés?

Vem! que por tua voz de madrigais suaves,
Fanático, a pisar, enfebrecido e louco,
Eu descubra o caminho através estas naves
E me tires a venda aos olhos, pouco a pouco.

Aceita no agasalho ardente do teu beijo,
A alma cheia de medo e cheia de terror,
E nesta indecisão do primeiro desejo
Mata o dragão do ciúme e dá vida ao amor.

Faze do teu olhar o meu único teto,
A única inspiração me venha do teu riso,
Que eu não sei se haverá noutrem maior afeto,
Se igual dedicação neste mundo diviso.

Queira a fúria de mar que em teus olhos se mira,
Queira a calma de luar que o teu olhar contém,
Naufragar o temor que esta paixão me inspira
E a esperança banhar da alegria que vem!
============================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Aquele Abraço


Amar pela metade é não amar,
Querer só por falar não é querer.
A gente pode e deve até sonhar,
Mas só de sonho não dá pra viver…

Se o sonho é vivo, a vida se renova,
E, se ele é novo, tem que evoluir
Pois só o tempo mostra e tira a prova
Se vale a pena a gente persistir.

E no sonhar, vem sempre a esperança
De conquistar aquilo que se quer:
Louco desejo preso na lembrança
Daquele abraço ardente de mulher…
============================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Noções

 –
Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera…
============================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Trilha


Sei que em algum lugar, há alguém que me espera
Nos bares que ainda não fui, ou nas ruas desertas
Longe de mim há alguém, que eu ainda não vi
Pode ser que talvez algum dia, sua trilha eu vá seguir
Sei que em algum lugar, esse amor me completa
E posso sentir pelo ar, que esse alguém me desperta
Sei que um pedaço de mim mora longe daqui
E a falta que ele me faz, ninguém mais vai sentir
Tento seguir os seus passos pelas noites vazias
Em busca de abrigo ou talvez, me perder em seus braços
Sei que em algum lugar, esse amor me completa
E sonho um dia encontrar, sua trilha minha amada
============================
O Universo Haicaista de Guilherme

GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP (1890 – 1969) São Paulo/SP


Quimonos secando
ao sol. Ah! a manga pequena
do menino morto.
============================
O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Teatro de Sombras


Vou tentando descobrir o teu segredo,
Ó Morte, com as chaves que mal conto:
Razão e raciocínio… engano ledo;
Memória e intuição, avanço um ponto.

No coração, lá seja o que isto for,
Hei de descobrir o que é isso,
Para livrar-me a mim de tanto horror
E aceitar o Nada mesmo, se preciso…

Pois não é provável tanto escuro
Sem luz clara projetada na parede
Em que as sombras distorçam um futuro.

E se ao homem não é dado se saber,
Renego minha carne e minha sede
E já prefiro só na alma me caber…
––––––––––––
Nota
…Pois não é provável tanto escuro / Sem luz clara projetada na parede / Em que as sombras distorçam um futuro.

Percebe-se neste terceto uma alusão ao Mito da Caverna, de Platão…
============================
Uma Poesia de Curitiba/PR

ANDRÉA MOTTA

Anjo Negro


Sou a máscara
que te esconde

Sou o ébano
a desgraça

Persegui
os seus amores

Descartei-os
feito podres

Maculo com
sangue
os piores temores

Pois de mim
só há desgraça

E minha ira,
destilada em lábia

Convence,
destrói
e vai embora.
============================
O Universo de Francisca

FRANCISCA JÚLIA
 Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP (1871 – 1920) São Paulo/SP

Outra Vida

Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
Depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
De sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
Que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
Lei que me condenou à tortura constante;
Porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
Abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
Na minha solidão a sua voz escuto,
E sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
Que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio…
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

FUI A BELAS

 –
Fui a Belas para ver as velas, (*)
 Mas em Belas velas não vi;
 Porque as velas que para Belas iam
 Eram as velas que iam daqui.
=============
Nota:
[(*) Velas dos barcos. Nos séculos XVI, XVII e XVIII o rio Tejo estava sempre cheio de barcos. Quando vinha uns provenientes de sítios longínquos, como da India, África e Brasil, os portos enchiam-se se gente para verem a carga que estes traziam que podiam ser das mais variadas coisas, desde porcelana a animais exóticos. ]

http://luso-livros.net/
============================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Bilhete


Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…
============================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   (1888 – 1935
)

Vou com um passo como de ir parar
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-‘star
A vaga chuva fria…
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer …

Sim, tudo esqueço.
Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu vou,
Fantasma de magia.

No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anônimo persiste …

Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Bilhete a Baudelaire


Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud…

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!
============================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Portinari


mãos, pés, força
expressão de nossa gente
brasileiramente
===================
Uma Poesia de Portugal

AMÁLIA RODRIGUES
(Amália da Piedade Rodrigues)
Lisboa (1920/22 – 1999)

Silêncio


Do silêncio faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco
De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido
Ó céu
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás d’ ela
E eu
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora
Solidão
Que nem mesmo essa é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura
Ai solidão
Quem fora escorpião
Ai solidão
E se mordera a cabeça
Adeus
Já fui p’r’além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede
Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai como dói
A solidão quase loucura
============================
O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Obrigada!


… E tu rezas por mim! Como agradeço
Essa esmola gentil de teu carinho…
Como as torturas de minh’alma esqueço
Nessa tua oração, floco de arminho!

Eu te bendigo, ó santa que estremeço,
Alma tão pura como a flor do linho.
É tua prece à mágoa que padeço
Asa de pomba defendendo um ninho!

Reza, criança! Junta as mãos nevadas
E cerra as níveas pálpebras amadas
Sobre os teus olhos como um lindo véu…

Depois, nas asas de uma prece ardente,
Deixa cantar minh’alma docemente,
Deixa subir meu coração ao céu!
============================
O Universo Triverso de Millôr

MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


Diz-me de quem sais
Grito-te meus ais –
Somos hai-kais iguais.
============================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Conquista


Debruçado sobre teus olhos, ainda ofegante
de escalar alturas
e preso ainda aos teus cabelos para não cair,
eu me punha a falar como sonâmbulo
num deslumbramento de vertigem…

E então tu me apertavas contra o seio,
como se eu acabasse de ser salvo
em tua vida,
e me revelavas que aquelas palavras sem nexo
que eu, como um tonto, te repetia,
não eram palavras
era poesia…
============================
A Galáxia Haicaista de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Curitiba não nos poupa
Ontem eu tomei sorvete
Hoje eu tomo sopa
==================
Um Soneto de São Paulo

ALMIR SOBREIRA DE OLIVEIRA

Momentos Eternos


 Um olhar de poucos segundos pode ser eternizado
 Se os olhos de quem olha não quer o outro esquecer
 Se se deseja que esse olhar deva sempre permanecer
 Mas é preciso ter em ambos o mesmo desejo gerado.

 Beijo desejado será pra sempre no cérebro guardado
 Desde que quem beija e é beijado quis a boca oferecer
 Beijar a quem se ama causa palpitação e faz estremecer
 Será sempre revivido e com ternura e amor relembrado.

 Quem ama e é amado deseja mais que beijo ou abraço
 Quer conforto espiritual, ficar junto, com o outro conviver
 E juntos serem felizes, oferecendo um ao outro o regaço.

 Para descansar, se consolar e neste abrigo se proteger
 Só amor nos faz sentir da vida do ser amado um pedaço
 Completa um ao outro, encanta e nos dá sentido ao viver.
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia

PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)


Meu Brasil que mistura raça e cor,
fala o mesmo idioma sem problema,
cada praia que tem vira um poema
quando o sol rompe a aurora, abrasador.
Cada filho da terra é um sonhador,
e as belezas que tem, nunca têm fim;
é por isso que eu digo, mesmo assim:
aos poetas, aos crentes e aos ateus,
que este solo pertence às mãos de Deus
e um pedaço também pertence a mim!
============================
O Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR


… Me Encontrar em Ti

Tenho de Ti me esquecido
ao longo do caminho.
Às vezes tranco todas as portas
e nem ao menos espio pelas janelas
para ver se estás ao portão.
Quando dormem as estrelas
e a chuva cai dentro de minha alma,
anseio pelo ninho que criaste um dia
para me receber.

Sei que Teu verso reconhece o meu
ainda tão inútil no Teu templo da Palavra.
Mas o acolhes mesmo assim,
porque sabes que a relva também poder ser boa
para Tua incognoscível seara.

E quero tanto me encontrar em Ti…
Mas,à noite, quando pauso o coração
para ouvir minha alma
tenho a impressão de nela Te ouvir
…soluçar.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras

SYLVIA PLATH
Boston/EUA (1932 – 1963) Londres/Grã-Bretanha

Espelho


Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

Tradução de Vinicius Dantas
============================
O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Parâmetro


Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Criação


Há no amor um momento de grandeza,
que é de inconsciência e de êxtase bendito:
os dois corpos são toda a Natureza,
as duas almas são todo o Infinito.

É um mistério de força e de surpresa!
Estala o coração da terra aflito;
rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
e de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:
cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
e a Gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes,
rola todo o Universo, em harmonias
e em florificações, enchendo o espaço!
============================
O Universo de Carlos Drummond de Andrade

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

A Lebre


Apareceu não sei como.
Queria por toda lei
desaparecer num relâmpago.
Foi encurralada
e é recolhida,
orelhas em pânico,
ao pátio dos pavões estupefatos.
Lá está, infeliz, roendo o tempo.
Eu faço o mesmo.
============================
UniVersos Melodicos

Roberto Martins e Mário Rossi

DORME QUE EU VELO POR TI
(valsa, 1942)


Nos sonhos meus eu criei a canção
De um amor que perdi sem razão
A flor que nasceu
Floriu e morreu
No triste jardim
Do meu coração

Dorme que eu velo por ti
Sob o véu muito azul do céu
Sonha que eu quero beijar
O luar do teu olhar

Dorme que eu velo por ti
A sofrer sem rancor
E morrerei, se ela ao meu sonho
Pedindo um pouquinho de amor, amor
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

CONSTÂNCIA
(2 Versões)

Primeira Versão

É uma roda de crianças, com uma no meio, que é a Constância:

Constância, minha Constância,
Não sei o que de ti será;
São acasos da fortuna,
São voltas que o mundo dá.

No jardim das belas damas
Qual delas escolhereis;
Escolha a que tu quiseres,
A mais bela eu tirarei

Este último verso – A mais bela eu tirarei – é cantado pela criança que está no centro da roda. Escolhida a menina, esta passa a ser a Constância e vai para o meio da roda
 
Outra versão:

Constância, bela Constância !
Constância, bela será.
Será o cravo da fortuna
A volta que o mundo dá.
Entrei num jardim de flores,
Não sei qual escolherei;
Escolho a mais formosa,
Aquela que abraçarei.

Bis :
Dollin, dolelê !
Dollin, dolalá !
Tocando a viola
Para se dançar.

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

============================
O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Cumplicidade


para Dora Ferreira da Silva, Poeta.

Chamar pássaros
com alpiste de amá-los livres,
procuradores eles serão,
ad juditia,
ad negotia,
pleni,
plenipotenciários,
procuradores meus,
asas livres aos meus azuis.
Eles me pousam os parapeitos:
uma sombra,
tem que haver uma sombra cúmplice:
seja de aproximar,
seja de chegar bem perto,
parece que é. O que garante o medo
é o gesto das duas mãos,
as duas,
conchadas de pegar
em quase…
a alma do pássaro

– não, não:
“avoe, meu bichim”,
que não lhe devo…

– A intimidade é sutil,
(dos pássaros)
não só a deles:
é sutil
quando estremece
e pousa.
Sempre.
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Requerer


Requeiro
visto
de saída

em nova vida
me arrependo
na continuação da busca

requeiro visto de entrada
e regresso ao prazer atávico
do seio materno

saio em vida envelhecida
de reconhecimento e prodigalidade.
=============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Amor que Acolhe e Gera Amor


Acróstico para José Ma. Souza Costa Nº 5086

A-A nossa vida prova dádiva Divina!
M-Morte traz o passo à imortalidade!
O-O que o próprio Cristo nos ensina
R-Revigora em nós perdão e caridade.
 –
Q-Quantas vezes reclamamos da cruz
U-Unida ao sofrimento aqui na terra…
E-Esquecemos de que ela faz gerar luz,
 –
A-Aceitação dos Dez Mandamentos,
C-Concretização dos nobres sentimentos,
O-Ofertando o clarão da fraternidade:
L-Lugar comum da solidariedade.
H-Humanidade é que foi beneficiada
E-Em cumprimento à SAGRADA
 –
E-ESCRITURA dos Testamentos:
 –
G-Garantindo o Antigo e o Novo
E-Exemplo da vida de Jesus Cristo,
R-Ressuscitado e que foi visto de novo
A-Após sua Paixão e Morte na Cruz .
—AMOR que acolhe e gera AMOR!-–
==========================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

O meu primeiro Rondel


Vou tentar escrever, não caçoe.
Esse é meu primeiro rondel
Que o meu medo por aí voe
E que me desculpe o papel.

Com estrelas verei um céu
E que o vagalume voe
Vou tentar escrever, não caçoe.
Esse é meu primeiro rondel

Quero que Deus me abençoe
E faça comigo um anel
Que o meu leitor me perdoe
Não quero nenhum troféu
Vou tentar escrever, não caçoe.
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

A Uma Italiana


É sempre nos teus cantos sonorosos
Que eu bebo inspiração.
Do AUTOR [“Meu Anjo”.]

Tu És tão sublime
Qual rosa entre as flores
De odores
Suaves;

Teu canto é sonoro
Que excede ao encanto
Do canto
Das aves.

Eu sinto nest’alma,
Num meigo transporte,
Meu forte
Dulçor;
Se soltas teu canto
Quisera
Te dar;

Se um beijo eu pudesse
Que o peito me abala,
Que fala
De amor.

Se soltas as vozes
Que podem à calma,
Minh’alma
Volver;
Num gozo expansivo
De vivo
Prazer.

Donzela, esta vida
Se eu tanto pudera,
Ardente e fugace
Na face
Pousar.
===========================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Acesso negado


Fui chegando furtivamente,
tal qual ladrão, em noite de lua cheia.
Me aninhei em teus braços e,
como criança pedindo doce,
mendiguei um pouco do teu amor.

Com a mente fantasiando,
sabendo bem o que queria e,
o corpo ardendo em brasas,
incendiando meus pensamentos,
desabotoei tua camisa e,
deslizei a mão por essa trilha perigosa
que tão bem conheço.

E numa velocidade frenética,
lancei mão de todas as senhas,
para abrir a porta de teu coração,
que sempre encontrei trancado.
E na esperança de poder entrar,
decifrei todos os códigos…em vão.

Senti, de repente, um frio na espinha,
quando tua mão, a minha segurou,
com uma firmeza quase agressiva,
me impedindo assim, de continuar.

E em um segundo, minha mente esvaziou,
meu coração sangrou,
e as lágrimas começaram à rolar…
Senti, nesse momento, que,
minhas tentativas foram em vão, pois,
tive acesso negado, ao seu coração.
=======================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

A Felicidade Mora Ao Lado


Cruzamos nossos olhares nesta rua
onde somos, há muito, dois vizinhos,
ainda que sem ouvir uma palavra tua
nos tantos anos de comuns caminhos.

Nunca trocamos nenhum cumprimento
e nem nunca detivemos nosso passo.
Um pelo outro passamos, e o momento
se perde, num segundo, pelo espaço.

Mas hoje, ao te olhar, senti bem perto
uma voz a me dizer: “fala com ela”,
e ao teu encontro atravessei a rua.

O que eu fiz não podia ser mais certo:
da vida a sós abriram-se as janelas
e a minha enorme solidão beijou a tua.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Universo de Versos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s