José Feldman (Francisco Pessoa: “Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso”)

Esta semana recebi o livro de um brilhante escritor brasileiro, que devorei (metaforicamente falando… o livro) até hoje. Talvez eu seja meio suspeito por tal afirmação, pela amizade que vimos desenvolvendo no decorrer do tempo, desde que tivemos contato há poucos anos, atualmente irmãos de glicose.

O poeta português Fernando Pessoa (1888 – 1935) dizia: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.  Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Eu, como grande parte da população daqui do Paraná, sempre pelo pouco que estudamos e lemos, acreditamos que os grandes escritores além dos paranaenses, estivessem no eixo Rio-São Paulo, mas o Brasil é tão vasto, e nossa crença em nosso conhecimento ser enorme, é ledo engano. Vai muito além, e confesso que em minha ignorância de sulista, tomei conhecimento que o nordeste do Brasil possuía grandes escritores, no caso que especifico agora, os cearenses. Romancistas, contistas, cronistas, poetas, trovadores, uma lista de nomes que mostra que a literatura não é somente uma estrela, mas uma constelação enorme de pessoas que enobrecem as páginas da cultura brasileira. O fato é que simplesmente por falta de acesso, por falta de divulgação, enfim por diversos fatores que nos obstruem a ampliação de nossa consciência, ou em palavras mais tecnológicas, não são inseridos dados no HD de nosso cérebro.

Fernando Pessoa foi um grande poeta português que é do conhecimento de boa parte da população brasileira, mas sem querer desmerecer o nome deste poeta que sempre fez parte de minha biblioteca particular, também possuímos o nosso Pessoa. No caso, Francisco Pessoa, um cearense que no livro que lançou recentemente “Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso”, coloca-nos seja em trovas, poesias, décimas, cordéis, crônica e contos a sua arte, que divide conosco.

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, nos diz: Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és no mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.

Nosso Pessoa segue este poema, e se mostra grande no que faz, e faz com que o brilho do lago, seu reflexo se estenda muito além de si mesmo, de sua cidade (Fortaleza) e ilumine quem quiser ser iluminado.

Francisco, Chico para os amigos, nos diz : Meus sonhos por si navegam/ levando-me ao transcendente, / por mil estradas enxergam /bem mais do que enxerga a gente.

Nos mostra como na trova acima, que buscamos novos caminhos, mas tão enraizados que estamos em nossas visões, não vemos todos os caminhos que podemos seguir. Este é Chico, mostrando a sua arte de versejar, percorrendo o caminho entre o lírico/filosófico e o humorístico: Feliz da vida se logra/O Zeca exibe o caneco/que ele trocou pela sogra/  na feira do cacareco.

Sempre temos a visão do médico, aquela pessoa que de certo modo acredita ser Deus, arrogantes, contudo existem exceções. Chico é uma delas. Médico oftalmologista, uma pessoa simples, calma, alegre e sempre pronta a amizades, que com seu falar eloquente parece querer abraçar o mundo.

Segundo Alberto Caeiro (outro heterônimo de Fernando Pessoa): Sejamos simples e calmos, / Como os regatos e as árvores, / E Deus amar-nos-á fazendo de nós / Belos como as árvores e os regatos, / E dar-nos-á verdor na sua primavera, / E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

Somos o que somos, mas nem sempre o demonstramos para as pessoas que nos rodeiam. Muitas vezes usamos máscaras para disfarçar o que nos vêm no íntimo. E a cada situação, uma nova máscara, um novo eu, que não mostra a sua verdadeira face. Em seu livro, Chico em uma décima nos diz em “O Palhaço”: A vida se nos faz meros palhaços…/Sorriso solto num choro prendido, / Querer que é dado nunca agradecido / Saltar ao vento sem pisar os passos. / Tragar o fumo dos prazeres baços / Embebedar-se tanto pra esquecer, / Sentir-se ser alguém, mesmo sem ser, / No picadeiro, o aplauso, a falsa glória, / Imagem tão real quanto ilusória / Pranto da morte rindo pra viver!

Mais uma do Fernando Pessoa: “Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

Mas Chico vai além, ele vive e cria. Cria a vida e vive a criação, este é o ideal do verdadeiro artista. Faz que “Não há placa de chegada/na minha estrada da vida…/faço de cada parada/ novo ponto de partida.

Ele segue adiante, cria, sonha, deseja:
“Se eu fosse…
Um Malba Tahan, calcularia cm segundos as horas de alegria que a vida nos dá./ Um Einstein, criaria um antídoto para entibiar a bomba que certo dia flamejou o céu de Hiroshima./ Um Alexandre, o grande, teria conquistado o coração do incrédulo, fazendo-o crer no Grande Arquiteto./ Um Ataúlfo Alves, no meu arrependimento, diria como ele disse: aquilo sim, é que era mulher,/ Um Graham Bell, teria inventado um telefone que, pudesse eu, sentir o odor dos teus lábios, e que minhas frases ouvisse maviosas./ Um Braille, transportaria os dedos para uma zona do cérebro./ Um Barnard, só transplantaria coração de um homem bom para um homem de bem./ Um Bill Gates, tornaria virtual a violência que envolve os povos.
(…) Um Salomão, eu seria um sábio e teria trezentas mulheres?., acorda, Pessoinha!!!”

Um outro amigo, o poeta potiguar Ademar Macedo (1951 – 2013) : “De todos os sonhos meus,/ realizei o mais fecundo: /ser um Poeta de Deus / e mandar versos pra o mundo!

Isto é que faz nosso Pessoa, pinta a aquarela das palavras com sua magia.

Chico em “De Pessoa pra Pessoa”
Poesia é um sonho e, se sonhado,/ Sobre nuvens volutas, pictóricas,/ Rédeas soltas sem bridas, metafóricas,/ Faz do poeta um ser místico e alado./ Quem o lê, leia certo ou leia errado, / Sempre os versos encontram seu intento…/ Lamentar cada um com seu lamento, / E sorrir cada um com seu sorriso, / Coração de poeta é sem juízo/ E a razão de fingir é seu talento!


Aproveitando o se falar em Pessoas, Clevane Pessoa, de MG nos diz neste trecho de seu poema Pensares: Meus pensamentos são mares/ De muita profundidade, / Mas que rasantes nas areias / Lambem o calor que encintram, / Ajudam a esfriar as orlas / Com suas ondas agitadas… / Às vezes fazem redemoinhos / Em caldeirão perigoso … / Podem chegar a maremotos, / Em fenômenos encadeados, / Mas a maré esperada / Somente depende dos ciclos / Caprichosos das faces de dona lua…
Chico mostra através de suas trovas o caminho que escolhemos seguir. Cada qual faz o seu destino. “Toda colheita contém/ uma lição de moral:/ quem planta o bem colhe o bem/ quem planta o mal colhe o mal”
Outro grande amigo meu, já falecido há muitos anos, Artur da Távola (1936 – 2008) dizia: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender. E….nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são CAPAZES.”

Sem mais delongas, a pessoa que está na pessoa de Pessoa, FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Uma resposta para “José Feldman (Francisco Pessoa: “Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso”)

  1. ESTE PARANAENSE TRAZ UMA BONDADE TÃO GRANDE CONSIGO, QUE NÃO SEI COMO CABE NOS SEUS QUASE 02 METROS DE ALTURA. QUANTA HONRA TER MEU TRABALHO DISSECADO COM LÂMINAS DE AMOR NESTE ESPAÇO TÃO VISITADO.O QUE ME RESTA? AGRADECER COM MINHA FLOR DE LOTUS QUE HABITA NO MEU CORAÇÃO. TOME 1 BEIJO BEM GRANDE, DO SEU TAMANHO, MEU IRMÃO!CHICO PESSOA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s