Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 7: Os odres vivos e o peso

A Rã falou nos percevejos, uns bichinhos inexistentes ali no sítio, e teve de contar a história dos percevejos do Rio.

– São fedorentíssimos – disse ela. – Eu tenho verdadeiro horror a esses monstros noturnos. Chupam o sangue da gente durante o sono e ficam gordos que mal podem andar. E quando esmagamos um, Emília, ah, que cheiro! Empesta o ambiente. Eu, só de me lembrar, já sinto enjoo de estômago.

Emília teve uma ideia .

– Pois podemos reformar os tais percevejos dum modo muito simples: fazendo que em vez de mau cheiro eles tenham cheiros deliciosos, melhores que todas as essências das perfumarias. Desse modo eles ficarão importantíssimos no mundo. Serão pequenos odres vivos cheios de perfume. Sabe o que é odre?

A Rã sabia. Lembrou-se logo daqueles odres de vinho que D. Quixote espetou com a espada, derramando todo o vinho do estalajadeiro.

– Pois é – continuou Emília. – São vasilhas de pele ou couro que a gente de dantes usava. Dona Benta tem um pequeno odre de borracha que enche de água quente para aquecer os pés nos dias muitos frios – mas não diz odre – diz “a minha bolsa d’água. Quem tirou a minha bolsa d’água lá do banheiro? E é sempre Pedrinho quem mexe na bolsa, para certas reinações. Pois os percevejos poderão ficar odres vivos com perfumes dentro. E as perfumarias podem fazer criações de percevejos de todas as qualidades. As moças chegam e pedem: “Quero uma dúzia de percevejos Bouton d’or, ou Kananga do Japão, ou Heliotropo”, e quando quiserem perfumar-se basta que tirem um do chiqueirinho de cristal (que irão ter em seus toucadores) e o espremam no lenço, no peito, na nuca, na ponta das orelhas. E saem para a rua, todas vaidosas. E quando duas se encontram, uma pergunta para a outra: “Que percevejos você usa, Quinota? Dos nacionais ou estrangeiros?” E a Quinota, que é moça grã-fina, responderá orgulhosamente: “Só uso percevejos de Paris, da criação de Coty” – e lá se vai rebolando que nem uma cotia.

A Rãzinha aprovou a ideia – e de ideia em ideia as duas chegaram ao peso. Emília implicava-se com o peso das coisas.

Cada vez que queria mover um objeto, uma cadeira ou um pedaço de pau, tinha de chamar o Visconde ou tia Nastácia.

– Para que peso? – disse ela. – Se as coisas não tivessem peso o mundo seria muito mais interessante. Eu acho as cadeiras pesadíssimas, coitadas. Só gente grande pode com elas. Vamos reformar a cadeirinha de pernas serradas de Dona Benta?

Como essa famosa cadeira estivesse ali no quarto, fizeram imediatamente a reforma: suprimiram lhe o peso. Mas aconteceu uma coisa imprevista. A pobre cadeira ergueu-se no ar e ficou grudada ao forro. As duas reformadoras espantaram-se daquilo. Súbito, Emília compreendeu o fenômeno e berrou:

– Já sei! O Visconde me explicou isso. O peso é o que prende as coisas á superfície da terra. Ele diz que o peso vem duma tal força da gravidade, que puxa todas as coisas para o centro da terra. Essa força da gravidade é a atração, ou força centrípeta. Você não imagina. Rã, como o Visconde sabe coisas! Um danadinho! Ele disse também que o contrário da força centrípeta é a força centrífuga – que em vez de puxar as coisas para o centro da terra. Foi o que aconteceu com a cadeira de Dona Benta. Como nós destruímos o peso dela, a força centrípeta desapareceu, só ficando a força centrífuga – e lá foi a cadeira parar no forro. E se este quarto não tivesse forro, a pobre cadeira se sumiria para sempre no espaço infinito …

Aquela experiência fez que Emília respeitasse o peso de todas as outras coisas, pois do contrário o sítio ficaria mais nu de objetos do que a cabeça do Quindó da farmácia era nua de cabelos.

Nisto o cuco lá da sala de jantar começou a dizer as horas – hu-hu, hu-hu …

Emília contou dez.

– Dez horas já! Como é tarde … Por isso é que estou sentindo tanto sono. Está aí uma coisa. Rã, que podemos reformar: o sono – ah, ah, ah… e bocejou.

– Como? – quis saber a Rã.

– Podemos, por exemplo… – começou Emília, mas abriu a boca, soltou mais três “ahs” e foi fechando os olhinhos – e o sono das criaturas humanas escapou da reforma.

Emília dormiu – e que lindo soninho! Como ela sabia dormir bem! A Rã reclinou-se na cama; com a cabeça apoiada numa das mãos e o cotovelo fincado no travesseiro, ficou a contemplá-la e a imaginar mil coisas. – “Que pena as crianças do mundo não poderem ver o que estou vendo!” – pôs-se a pensar lá consigo. – “Emília dorme como um anjo. E quem sabe se Emília não é de fato um anjo do céu que anda pelo mundo disfarçado em gentinha?” – e examinou-lhe as costas para ver se não havia algum sinal de toco de asa.

Havia, sim, duas leves saliências com muito jeito de serem tocos de asas – e a Rã ficou na dúvida. Seria realmente um anjo disfarçado em gentinha”?

A Rã adorava a Emília. Sabia de cor todas as travessuras da Emília, todas as “piadas” da Emília, todas as asneirinhas da Emília, todas as mas criações da Emília, e agora considerava-se a menina mais feliz do mundo, porque entre todas as meninas do mundo só ela estava tendo o privilégio de ver a maravilha das maravilhas que era o soninho da Emília.

– Ah, quando as outras souberem! Quando souberem que eu estive aqui, falando com ela, brincando com ela, deitada na caminha dela, vendo-a dormir e sorrir…

Algum sonho lindo devia andar reinando na cabeça da Emília, a avaliar pelo sorriso de enlevo que animava o seu rostinho moreno – moreno claro. “Nem isso as outras meninas sabem”, pensou consigo a Rã, “que a Emília é moreninha cor de jambo. Nem sabem que tem cabelos castanhos – castanho escuro”, e aproveitou-se da ocasião para arrancar um daqueles fios, o que fez Emília trocar o sorriso do sonho por uma caretinha. A Rã enrolou o fio de cabelo, murmurando mentalmente; “Vou guardá-lo no meu exemplar das REINAÇÕES. Fica sendo o meu marcador de página.”

Longo tempo ficou a Rã a admirar aquela prodigiosa criaturinha que nasceu boneca de pano das mais ordinárias e foi evoluindo até tornar-se o que já era. E um pensamento lhe acudiu; “E se ela continua a evoluir e vira anjo de verdade, dos de asas, e foge para o céu? Qu se vira fada, como aquela fada Sininho do Peter Pan?” E a imaginação da Rã começou a cabriolar que nem cabritinho novo até que o primeiro “ah, ah, ah!” do sono veio, e depois veio um segundo – e afinal dormiu também.
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continua…
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