Cantinho do Prof. Pedro Mello* (O Subversivo)

Eugenio Coseriu (1921-2002) foi um professor romeno, que dedicou sua vida ao estudo dos fenômenos da linguagem. Sua teoria, embora não seja única nem definitiva, coloca luz sobre algumas questões que nos interessam muito. Para Coseriu, a língua (qualquer uma) se realiza em três instâncias: o Sistema, a Norma e o Uso.

O Sistema é o conjunto de todos os recursos de que a língua dispõe, semelhante a um baú sem fundo. A língua oferece infinitas possibilidades, embora não seja caótica. No caso da língua portuguesa, por exemplo, só formamos sílabas com consoantes e vogais. Não é possível a nós, falantes do português, um monossílabo como o inglês “stop”, com uma vogal envolta por três consoantes. Não existe em nosso sistema, assim como no espanhol não existe “nh”. O som de “nh” em espanhol é representado por “ñ”, o que não existe em português, que só admite o til sobre as vogais “a” e “o”. Cada língua tem o seu sistema peculiar.

Dentro do Sistema, figura a Norma. A norma, como o próprio nome sugere, é o conjunto de regras do que é “lícito” ou não dentro do idioma. Quando se diz, por exemplo, que sujeito no plural exige verbo no plural, está se falando de “norma”.

A concretização da Norma é o Uso. Uso é o emprego que cada falante, dentro de um contexto específico, fará de sua língua. Se alguém disser em um bar “por obséquio” ou disser a um juiz “meu chegado” estará usando expressões que existem no sistema, mas que ferem a norma porque estão em contextos inadequados. É como usar tênis em uma formatura ou paletó na praia. Cada situação exige um uso distinto.

Aliás, essa questão de Sistema/Norma/Uso é pertinente aos que escrevem literatura, em especial Poesia. O poeta é um grande subversivo, no sentido de que implode a norma. Rasga-a, subverte-a, traspassa-a a seu bel-prazer e para o prazer do seu leitor. Entretanto, por mais que o escritor seja subversivo, jamais implodirá o sistema. Tudo o que ele criar só fará sentido porque o sistema admite. Se um prosador, registrando um uso popular, escrever “os ômi chegou”, por exemplo, será perfeitamente inteligível. Foge da norma, mas não foge do sistema. Aliás, é justificável dentro de um contexto específico. O que nunca poderá fazer é escrever “homem o chegou”, “azul o é céu”. Tais construções são impossíveis e ininteligíveis para o Português.

Mas o poeta é subversivo em outro sentido: ele reveste as palavras de novos significados, quebra os contextos em que as palavras são normalmente usadas, cria imagens incomuns, estraçalha as expectativas e constrói um mundo paralelo, uma língua dentro da língua. Aí reside a grandeza de um autor: a capacidade de subverter a língua, fazendo-se compreender e alargando as fronteiras da Norma, aliás, implodindo-a com o que existe dentro do Sistema.

Nesse aspecto, devo fazer uma referência ao nome inesquecível de Waldir Neves. Waldir foi nosso melhor subversivo, dada a quantidade espantosamente grande de trovas que legou.
Rasga-se papel, tecido, mas rasgar… a vida? Para ele, sim:

Saudade!… Foto em pedaços
que eu colei com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!

Nós, que militamos na União Brasileira de Trovadores, aprendemos a amar a trova e a admirar diversos trovadores, entre eles Waldir Neves. Mas o que destaca Waldir de todos os demais, é que tudo o que ele escrevia era subversivo, transgressor, sui generis em matéria de língua. Waldir era magistral em criar novos contextos, em combinar as palavras de maneira ímpar, criando poesia no melhor sentido do termo. Pensando em mitologia, podemos dizer que Waldir tinha um toque de Midas com as palavras. Nada nem ninguém é unânime, mas Waldir é uma honrosa exceção. Lendo-se as trovas de Waldir, não há como negar que é impressionante o requinte de seu estilo. É possível não se impressionar com a sofisticação linguística que transborda de sua lavra?

Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!

Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…

O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…

Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!

Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….

O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…

Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
– É uma estrela embriagada
que volta da boemia!

Selecionei apenas uma pequena amostragem do valor de Waldir Neves. No site “Falando de Trova” há muito mais a ser usufruído.

Quando surgirá um novo Waldir Neves? Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: ele deixou a pista do ABC da Poesia: é preciso ler muito, adquirir uma bagagem intelectual sólida e inquebrável. Ler muita literatura, muita mesmo. Ler os clássicos, sorver seu estilo, absorver o que a Língua oferece. Só quem conhece as palavras a fundo é capaz de perscrutar seu mundo com sucesso, como Waldir conseguiu fazer. Suas trovas deixam o rastro do repertório linguístico de que Waldir era dono. E mesmo assim, Waldir que é bom… só houve um.
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* PEDRO MELLO nasceu em Santo André, SP, em 11 de abril de 1977. Em 1997 conheceu a Casa do Poeta “Lampião de Gás” e a União Brasileira de Trovadores, em São Paulo, sendo esta última uma entidade poética que se dedica ao cultivo da Trova.  Na UBT aprendeu a metrificar e a compor Trovas e Sonetos.  Graduou-se em Letras no ano 2000, mas já lecionava em 1996. Magnífico Trovador em Nova Friburgo/RJ,em 2010.
Imagem = formatação do Prof.Pedro sobre imagem obtida na internet
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