José Feldman (Universo de Versos n. 125 )


Uma Trova do Paraná

LUCILIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes


Nossos pinheiros, brillhantes,
sobre a serra e em meio ao ar,
lembram taças borbulhantes
fazendo um brinde ao luar!
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Uma Trova sobre Ecologia, de Belo Horizonte/MG

WANDA DE PAULA MOURTHÉ


Entulhos causam desvios
das águas, gerando enchente
e, ao sufocarem os rios
matam peixes, matam gente!
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Zé Pescador não sossega,
mente tanto que dá gosto,
só que os peixes que ele… “pega”
têm carimbo do entreposto.
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Saquarema/RJ

JOÃO COSTA


 Lá vou eu, de verso em verso
– seja suave ou dura a lida -,
compondo pelo Universo
o poema da minha vida!…
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Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro

LEILA MICCOLIS


Quando o marido se agrada
de empregada muito boa,
faz a mulher de criada,
e a criada de patroa…
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Não se estresse nem me agrida,
ouça a voz do coração.
Deixe que o Tempo decida
quem de nós dois tem razão!…
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Uma Trova Hispânica, da Argentina

MARÍA ROSA RZEPKA


Sueña la luna redonda
sobre la punta del pino.
Llorando voy por la fronda
mis amores peregrinos.
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Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Juiz de Fora/MG

JOSÉ TAVARES DE LIMA


Sem entender a queimada
de efeito atroz e daninho,
a juriti, desolada,
chora a falta do seu ninho…
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Trovadores que deixaram Saudades

CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA (1863 — 1946) Rio de Janeiro/RJ


Morto, peço-te uma esmola,
peço a ti, que és minha luz,
que, partindo esta viola,
faças dela a minha cruz.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Este amor envolto em pranto
é tão grande, tão profundo
e é tão puro o seu encanto,
que não cabe neste mundo!…
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Um Haicai de Brasília/DF

CARLOS VIEGAS


Ando entre sorrisos
E o murmurinho bilíngue —
Festival do Japão
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Se ouvisse o homem da terra,
de Deus o conselho amigo,
em vez de campos de guerra
faria campos de trigo.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
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  Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Delcy Canalles
A Criança em Mim

MOTE:

A criança que eu trazia
dentro de mim escondida,
hoje, vive na poesia,
chorando restos de vida.

GLOSA:

A criança que eu trazia
guardada em minha lembrança,
esqueceu-se que a alegria
mora junto da esperança!

Enrolada em solidão,
dentro de mim escondida,
sem conhecer afeição,
ficava inda mais perdida!

Veio o sonho…uma utopia,
e com ele, muitos versos!
Hoje, vive na poesia,
cantando seus universos!

É o canto mais lindo e triste,
dessa criança crescida,
que, em sua canção, resiste,
chorando restos de vida!
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Não quero ouvir o teu nome,
nunca mais te quero ver!
– E passo a vida pensando,
a forma de te esquecer.
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Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


língua pendente
cachorro com sede
sol ardente
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Galáxia Poética do Francisco Pessoa

FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS
Fortaleza/CE

Minha Pedra


Minha pedra, pedra minha
No ir e voltar te vejo
Não sabes que meu desejo
É te colocar na linha
Do meu leito que caminha
Para um futuro indeciso
Ah! Pedra de ti preciso
Vivas em mim aos pouquinhos
Pois nem só de rosa e espinhos
Se reveste o chão que piso.
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Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Candeia Viva


Que não se alegrem os maus
Porque a vida é transitória;
Nós todos estamos presos
Na candeia da memória.
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Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Sem título


Amo, e por este amor verto o meu próprio sangue;
E sei que deste amor o que de bom me resta,
É que por te provar eu te irrite, eu te zangue
Pois entraste da intriga a embrenhada floresta.

Mas que importa que o luar importune a avantesma
E que a suspeita gire em torno de uma estima,
Quando essa estima tem a mesma força e a mesma
Vida eterna de um sol que outros astros em cima?

Gravitem em redor satélites mesquinhos
Os bastardos da luz, os espúrios da glória.
Que importa! Se este amor por tortuosos caminhos
Beijo a beijo nos leva à suprema vitória?

Os espinhos cruéis se transformam em louros
E a mulher que os teceu vai à imortalidade;
Tira ao Dante Beatriz os egrégios tesouros,
Ou com ele deslumbra ainda hoje a humanidade?

Porventura a nobreza e os brasões de Eleonora
Tinham vida e grandeza iguais ao tempo e o espaço?
Não, que o esquecimento a asa desoladora
Sobre ela vinha abrir – não fora o amor de Tasso!

Que o ódio impotente e vil se definhe e se exaura
No seu esforço vão, – rabugento heresiarca –
Que seria de ti, ora aureolada Laura
Se te não perpetuasse o plectro de Petrarca?

Se esses amores, tu, velho gênio da intriga,
Não chegaste a queimar na pira do teu culto
Quando eles tinham só por companheira e amiga
A musa do poeta a perpetuar-lhe o vulto,

Quanto mais destruir este em que duas almas,
Filhas da mesma luz, filhas do mesmo gênio,
Se unem para a conquista ideal das mesmas palmas,
À luz do mesmo teatro e do mesmo proscênio?

Vem! que clamam por ti as vozes do meu verso,
Náufragos a pedir socorro entre os escolhos
Para que em mim concentre e resuma o universo
Basta a constelação que vive nos teus olhos!
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Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Assim Será


Foi você quem quis assim
Assim será!
Não vou mais me aborrecer
Nem me atormentar,
Não vou mais mandar e-mail,
Vou te deletar…

Dei meu afago, afeto, carinho,
Dei o meu colo pra você deitar,
Na noite de frio dei aconchego
E todo amor que se pode sonhar.

Dei o frescor da brisa suave
Que sopra na aurora bem de mansinho
Dei a cadência do vôo da ave
Que voa cadente em busca do ninho.

Dei pra você o meu mundo encantado
Um céu salpicado de constelações,
Dei o amor que tinha guardado,
Junto aos acordes de lindas canções.

Dei o apego de um homem apegado,
Afeito as coisas quem em vida vivi,
Dei o consolo e tive o cuidado,
De dar a você tudo o que você quis.

Tudo te dei em troca de nada,
Até os meus sonhos que um dia sonhei,
Dei pra você meus contos de fadas,
Mas vejo agora o quanto errei!

E é na presença de um homem presente,
Feliz e contente sem lamentar,
É que eu digo com todas as letras:
Você quis assim – e é assim que será.
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Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Encomenda

 –
Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
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Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Voz do Tempo


minha palavra se cala
vai na calada do tempo
a fala que não se cala
nem quando a gente consente em calar
escorre entre os dedos
escapam velhos segredos
desvendam mistérios
traçados na palma da mão
não tape os ouvidos, escute
aquilo que repercute da voz que gira com o mundo
e dirá quantas voltas do mundo é preciso
preciso, é urgente e te digo no momento em que calo
minha emoção incendeia o estopim da canção
falo do vento que leva palavras no ar
falo do fogo queimando pra clarear
arde em meu canto o que tanto me deixa a pensar
queima no tempo o que tenho pra te falar
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Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


a letra bonita
no cartão de Natal lembra
a amizade antiga
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Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Eterno Cavaleiro

(sobre uma litogravura do Guilherme de Faria)

Sob um certo e negro timbre da visão
Se pode ver o Eterno Cavaleiro
Sobre o campo entulhado em confusão
De corpos ceifados, sem celeiro,

Lançados sobre a face do planeta
Em terrível multidão de destroçados
Nem sequer semeados em valeta
Sem a cruz ou crescentes inclinados.

É o Triunfo daquele “miglior fabro” *
Que Deus deixou por conta do terror,
Pelo amor que tem pelo macabro

Que O fez caprichar na estrutura:
Branca ossada risonha ao seu dispor
Por mais tempo do que nossa carne dura…
––––––––––––
Nota de Lúcia Welt
* Il miglior fabro” – como Dante Alighieri se referiu ao poeta Guido Cavalcanti, preconizando o Poeta como o Melhor Fazedor ( ou fabricante, de imagens). Quem teorizou sobre isso foi o grande poeta e ensaista de poesia, Ezra Pound.

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Uma Poesia

CÉLIA LAMOUNIER

Grinalda de trovas


Minha família querida
Sorrisos distribuía
Dizendo: por toda a vida
SORRIA SEMPRE, SORRIA!

Sorria sempre, sorria
Mude sua vida, é hora
Passe a sorrir todo dia
QUE O SORRISO REVIGORA.

Que o sorriso revigora
Na minha infância eu ouvia.
Assim, vivi vida afora
NO DOMÍNIO DA ALEGRIA.

No domínio da alegria
Vivi eu sempre e, agora,
No meu templo de euforia
A TRISTEZA NUNCA MORA.
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


A neblina sobre a mata,
antes que o sol doure a terra,
parece um manto de prata
nos ombros verdes da serra.
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Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Limite


Por que adiarmos tanto
a felicidade que nos aguarda?
Por que esperarmos tanto
pelo que sempre foi nosso?
Anos eu te esperei,
amor,
mas agora,
cada segundo a mais
já se torna insuportável.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

O RÉU

 –
Réu, réu,
Vai ao céu,
Vai buscar
O meu chapéu.

Se está novo,
Traz-mo cá.
Se está velho,
 Deixa-o lá.

Nota:
Ouvem-se hoje em dia versões desta lengalenga substituindo a palavra “réu” por “béu”, talvez para suavizar a morbidade que está associada à rima, porque um réu para ir ao céu é porque foi julgado e condenado á morte. Se virmos o contexto histórico em que eram criadas as lengalengas de antigamente, veremos que esta rima está cheia de ironia.


http://luso-livros.net/
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Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Canção da Garoa


Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater;
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê…
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin…
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Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
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Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Menina de Rua


o homem dormia, em seu ninho
e o coração dela
esmolando um carinho
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Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Canção para a Amiga Dormindo

Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem…
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.
Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
Na minha poesia
De um sono sem fim…
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Uma Poesia de Portugal

ALMEIDA GARRETT
Porto (1799 – 1854) Lisboa

Não te amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d’alma.
E eu n’alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
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Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Arte nobre, ativa e bela
Venha de crentes ou ateus,
E sempre luz que revela
A Providência de Deus.
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Pássaros canoros
Energia em expansão
Almas projetadas…
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Universo Poético de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Curiosidade

    –
Gostaria de saber como e onde me encontras
agora que há tanto tempo não existimos…
…………………………………

(por um momento ficam turvos
teus olhos,
te ausentarás do mundo que te cerca
sem saberes dizer se és feliz ou infeliz?…

Ou me encontras, e passas…
Passas, e cumprimentas, e te vais,
e sorris?…)
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Esta vida é um mistério
Perto da maternidade
também tem um cemitério
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Um Soneto de Montanha/ES

LINDA LACERDA

Soneto da flor da infância


 Eu me lembro, eu me lembro, doce perfume da flor!
 Brancas gotas perfumadas e tinham cheiro de amor…
 Inebriavam as noites, da minha infância perdida,
 Uma cascata verde e branca no verde da minha vida…

 Lua serena no céu, a embranquecer minha ruazinha,
 Sem saber que o jasmineiro por me ver assim sozinha,
 Eu menina inocente, a me embalar em seus galhos,
 Flores lançava aos meus pés, qual fina colcha de retalhos… s.

 Foram-se meus verdes anos, cirandas e brincadeiras,
 A doce lembrança da infância, da juventude que passou…
 Joia que o tempo levou em leves asas ligeiras…

 De menina me fiz mulher, mas na memória ainda há dor
 Da doce lembrança dos dias, das minhas tardes trigueiras
 Quantas saudades eu sinto, meu jasmineiro em flor!
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O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Quando, há muitos janeiros, vim à luz,
foi chorando nos braços da parteira;
minha mãe, entre lágrimas e risos,
me beijava na face a vez primeira…
Dessa forma nasceu um trovador,
desprovido de bens, mas com amor
pra doar, neste mundo, a vida inteira.

Fonte:
Debate em Setilha Agalopada entre os potiguares Zé Lucas, Prof.Garcia e Ademar Macedo)

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Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Asilo ou Exílio?


Os chinelos não produzem som.
Nem o rádio tocando baixinho.
Mas a respiração se ouve do lado de fora.
E o sonho de ainda poder tocar as estrelas
talvez chegue até Deus.
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Uma Poesia Além Fronteiras

OLIVER FRIGGIERI
Floriana/Malta (1947)

Uma Estrofe sem Titulo


Dá-me as palavras de teus olhos, a noite escreve
Uma estrofe purpúrea sobre teu bonito rosto,
Brilha o orvalho, tuas bochechas um branco universo
De onde nada dá um passo descalço sem dor,
Toca estas mãos e sente o despedaçado coração
E nota o sangue quente, o pranto solene.
Pomba, não voes distante  come de minhas mãos,
Este é o grão que não mata, água pura.
Monótono o sino que dá a hora
Para que te vás desta janela entreaberta
Por mim para ti, monótono o suspiro
Gravado como ilusão que vem e vai.
Não voes distante, e diga comigo esta oração:
“Há raios de luz de lanterna enfocados em mim,
Há uma humilde estrela que brilha só para mim,
Há uma flor selvagem que se abre em meu peito,
Há uma chama de vela vacilante só para mim.”

(tradução: José Feldman)
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Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Sedução


A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
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Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Língua Portuguesa


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”!
E em que Camões chorou, exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
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Universo Poético de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
============================
UniVersos Melodicos

Laurindo de Almeida e Junquilho Lourival

MEU CABOCLO
(canção, 1942)


Caboclo ligeiro, valente, cismado
Tostado do sol
Que és destro na flecha
No tiro, no laço, na rede, no anzol
Caboclo que avanças nas curvas enganosas
Dos igarapés
Que as onças ferozes
Brincando intimidas
Caboclo, quem és?

Caboclo que em cima de frágil jangada
Por mares além, navegas cantando
Saudades profundas dos olhos de alguém
Caboclo que afrontas os mares bravios
O duro revés, caboclo responde
Teu nome ligeiro, caboclo, quem és?

Caboclo que em plena cochilha distante
Nos pagos ao luar, que saltas no lombo
De um potro rebelde, risonho a cantar
E danças o samba batido ao compasso
Dos teus próprios pés, caboclo responde
Teu nome ligeiro, caboclo, quem és?

E o forte caboclo, fitando o horizonte
Responde viril :
Meu nome é o mais lindo dos nomes do mundo
Meu nome é Brasil!
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

Marcha soldado


Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo,
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional.
============================
O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Fascínio


Ela – que morava no fascínio,
subitamente se instalou no ódio.
Quando o perfume das cartas…,
ah, as cartas, ridículas, que jamais foram;
ridículas essas outras, as de comprar, as de vender; […],
ou, nem me escreves –
(os procuradores):

“Ilmo. Sr.:”
Uma promessa vã:
na última hora, de todas as horas,
da nossa hora, amém,

[…]
num átimo, e, dos meus olhos cegos,
se…, à lembrança do teu nome:
[mesmo as palavras duras] o relâmpago,
a brisa. Só o fascínio!
Assim.
– Condições?

Aquém.
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Você


Rasgo a página não inscrita que da perda
não ficarão registros
do passado lavado
em novos passos imundos
de soberbos ataques
na chuva miúda
intermitente
sobre guarda-chuvas
abertos em proteção
e escudo: raios e trovões
não acontecidos na sequência
do desencontro

sim
você estava ali
seu perfume permanece
sobre o cheiro dos temperos e alguém cita
seu nome
e me volto em incertezas

página rasgada do que não escrevi no dia
que seria da chegada e não houve o tempo
seco das histórias de memórias difundidas
lendas sacramentadas em perdões e profecias

a chuva miúda aos poucos alaga a rua
em descaminhos
como os fins e os meios
repetidos em sangue não doado

sim
você esteve lá
seu perfume oferta
temperados pratos
insossos para sempre.
============================
Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Um grande amor só se faz com amor

Acróstico-especial nº 5076

U-Um grande amor tem seu valor:
M-Marcado pela ousadia e alegria!
 –
G-Guarde as regras para depois. O porquê da
R-Relação não se pergunta; não há resposta!
A-Atração, entre quatro paredes, dirá a você!
N-No momento certo, descubra a motivação!
D-Determine se quiser curtir o romantismo
E-E se conhece todas as fases preliminares…
 –
Á-Área distintas e exógenas são interessantes!
M-Mulheres e homens gostam de fazer charme!
O-O NÃO pode significar a fortaleza do SIM!
R-Recitar versos poéticos são excitantes, tente!
 –
S– Sapatos,unhas,meias,cabelos são avaliados!
Ó-O ambiente também responde pelas emoções!
 –
S-Suas roupas devem ser as mais confortáveis
E-E jamais vá a um encontro sem preparação…
 –
F-Faz parte da educação e da higiene pessoal!
A-Antecedência dá segurança ao casal enamorado!
Z-Zelosos amantes ensaiam mínimas palavras…
 –
C-Com certeza, o primeiro encontro é marcante e
O-O último também! Vale evitar os deslizes!
M-Muito cuidado para não trocar os nomes!
 –
A-Amar exige dedicação, atenção, compromisso!
M-Marcado o encontro, não falte e nem se atrase!
O-O que é mentira, em breve será descoberto!
R-Recomendação: Cuide do amor e não conheça a dor!
==========================
Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

A saudade é sem noção


Descrita é um mero sentimento e tão poética
Nem é como pinta na foto, é um falso retrato.
Mas sentida muda-nos totalmente a estética
Faz-nos tão necessitados de algo, isso é fato.

Descrita é apenas palavras amontoadas, sei
Com rimas ou sem rimas, e isso não importa.
Sentida é inesperada, porém eu já a esperei
Multíplice, com outra cara faz da alma torta.

E se descrita não é mais que um poema triste
E é assim que todo o mundo insiste em dizer.
Sentida: algo bom que a memória vem trazer.

Saudade abraça forte e ninguém pode negar
É um abraço de olhos fechados de algo vivido.
Descrever é simples, difícil é o ato do sentido.
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Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Cognac! …


VEM, MEU COGNAC, meu licor d’amores!…
Ê longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!…

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração – da vida esmalte,
Quem há que te não ame?
Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!

Cognac! – inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor – de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m’inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!
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Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Amor de verão


Quando o teu olhar cruzou com o meu
naquela linda noite de verão,
senti naquele instante uma emoção
indescritível em meu coração

Apaixonei-me e quis acreditar
que o teu amor ao meu correspondia,
e entreguei-me assim sem pensar
nos braços teus… que covardia!…

Você zombou de mim e de meus sentimentos
e eu não quis ver, não percebia…

E agora aqui estou, neste momento,
deitada nesta cama vazia
chorando lágrimas de arrependimento,
por um amor que só eu sentia …
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Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

O Tempo…


Dizem que o tempo é o melhor remédio,
que tudo põe em seu lugar e tudo cura.
Cura a doença, paixão e mesmo o tédio;
tudo aquilo que nos mata enquanto dura.

Mas o tempo tem também outra virtude
que há muito pouco acabei de descobrir,
depois de não te ver o quanto eu pude
e o quanto conseguisse o coração fugir.

É que hoje, sem querer, nos encontramos
e ao te olhar, a emoção tomou-me ainda
como estivesse te vendo a vez primeira.

Todo o tempo que passou, e foram anos,
o que fez foi conseguir deixar mais linda
a mulher por quem sonhei a vida inteira.
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Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Lua crescente


Tenra Vênus, com quinze primaveras
modos indicava: os pastores,
seus adoradores nos estábulos já eram

e nos campos de Chipre lavradores;
as feras se acoplaram com as feras
lá nas selvas, as flores com as flores;

e os deuses deveras a temeram:

morrer foi novo, e ver-se, por amores.
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Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
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Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Andorinha


Andorinha lá fora está dizendo:
– “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…

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