José Feldman (Universo de Versos n. 126 )


Uma Trova do Paraná

SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa


Ante os golpes do destino
jamais curve sua fronte,
note o pinheiro, menino,
tão altivo no horizonte!…
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Uma Trova sobre Ecologia, de Juiz de Fora/MG

JOSÉ TAVARES DE LIMA

Com revolta e desalento
vejo a queimada funesta
transformar em chão cinzento
o verdor de uma floresta…
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Última fonte de luz
entre as trevas da saudade,
a esperança ainda produz
um pouco de claridade…
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Nova Friburgo/RJ

RODOLPHO ABBUD


Em segredo, mas felizes,
na modéstia que arrebata,
do trabalho das raízes
surge a imponência da mata!…
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Uma Trova Humorística, de São João de Meriti/RJ

CLÉBER ROBERTO DE OLIVEIRA


Quanta coisa – minha nossa!-
leva a engano deprimente!…
-Vi que “casinha”, na roça,                                      
é banheiro… e tinha gente!                                         
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Não tem ateu que me cale
pregando o que fez Caim,
e nem desgosto que abale
a Fé em Deus, que há em mim!
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Uma Trova Hispânica, da Espanha

ROSANA J. VERA VIDAL


Donde expira el nuevo mundo
dulce sueño se ha creado,
en un despertar fecundo
al viejo mundo versado.
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Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Niterói/RJ

ÉLEN DE NOVAIS FÉLIX


Há na queimada que enlaça
a floresta em fogaréu,
escura nuvem que embaça
os olhos azuis do céu.
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Trovadores que deixaram Saudades

MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ


Sombra da nuvem no monte,
sombra do monte no mar.
Água do mar em teus olhos
tão cansados de chorar!
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Mar inconstante e profundo,
de tristezas e alegrias!
– É berço para Raymundo
e mata a Gonçalves Dias…
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Um Haicai de São Paulo/SP

BÁRBARA VIEIRA BATISTA


Caminhada matinal
Geada por todo lado
Na praça vazia
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


O mar que geme e palpita
no seu tormento profundo,
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Flávio Roberto Stefani
*Glosa sem verbos*
Só Nós Dois


MOTE:

Meia luz… noite… a vidraça…
a cama… o beijo… e depois…
um brinde… o champanhe… a taça…
o amor… o sonho… nós dois…

GLOSA:

Meia luz… noite… a vidraça…
a lua… o céu… o luar…
o encanto… o vento com graça…
o sereno… a flor… o lar…

O quarto… lençóis… cetim…
a cama…o beijo… e depois…
volúpia… desejo enfim…
eu e você juntos… pois…

Beleza… as flores… a praça…
brisa… seresta… canção…
um brinde… o champanhe… a taça…
magia… vida… afeição…

O enlace… a paixão… o verso…
hoje… amanhã… o depois…
o infinito… o universo…
o amor… o sonho… nós dois!…
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Neste mundo, a certas vidas,
a morte seria um bem,
mas até a própria morte
se esquece delas também.
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


canta bem-te-vi
sol por todo o lado
natureza sorri
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Galáxia Poética do Francisco Pessoa

FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS
Fortaleza/CE

Queira Conversar com Deus
Faça Deus seu inquilino
Mas não lhe cobre aluguel
Nem mande assinar papel
Pois o contrato é divino
Se quer mudar seu destino
Para amenizar a dor
Nas veredas colha flor
Mas uma flor de verdade
Peça força de vontade
Ao Poder Superior.

Como revela a ciência
E eu mesmo comprovei
Só Deus sabe o que passei
Com a crise de abstinência
Percebi minha impotência
Perante aquela assassina
Sedutora messalina
Fez-me sua dependente
Uma paixão tão ardente
Pela tal da nicotina.

Tomei uma decisão
Fortaleci a vontade
Falei com sinceridade
Com meu frágil coração
Deus, a nós, nunca diz não
Se o pedido é salutar…
Queres experimentar?
Peça a ele como fiz
Sou hoje um homem feliz
Pois já deixei de fumar!!!
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

As sereias


Fui pelo mar em fora. A recurva trirreme
Ampla, em prata estendendo um rastilho de espuma,
Leva, léguas além, a áurea canção que geme
E canra, d’harpa, e ri, nas cordas, uma a uma.

Vibra sempre a canção; adelgaça-se a bruma;
Surge a lua, e ao luar, a superfície treme
Do mar que a essa canção em colo a vaga apruma,
Extreme de paixões, de cóleras extreme.

Tão sugestivo é o canto, e entre as vagas do oceano
Os golfins e dragões sorvem-lhe o eco em tal dose,
Que pouco a pouco vão tomando o aspecto humano.

Súbito, cessa o canto e as sereias em rima,
Mudas pasmam de ver esta metamorfose:
– Monstros do ventre abaixo e deusas ventre acima.
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Astro Rei


O sol nasceu nesta manhã cinzenta,
Quase sem cor, sem luz e sem destino,
Quase perdido como nau sem porto
E mais disperso que alguém sem tino.

O sol nasceu nesta manhã de inverno,
Quase sem céu, sem terra e sem mar,
Como um errante louco e alucinado,
Quase sem nada para iluminar.

O sol nasceu nesta manhã tão pobre
Para um tão nobre astro que é o Rei
Que traz a luz a vida e o calor
E tantas coisas que ainda não sei.

O sol nasceu numa manhã sem nada,
Como uma estrada na escuridão,
Sem ter a luz que brilha e acalenta
Os passos firmes de nossos irmãos.

O sol se pôs numa tarde cinzenta,
Como nasceu no alvorecer do dia,
Quase sem cor, sem luz e sem destino
E mais disperso que alguém sem tino…

O sol morreu numa tarde cinzenta…
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Suavíssima


Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .   
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .

Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . .  No fim da tarde . . .  além da bruma . . .

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Velho Novo Amor


todos os dias acordo pensando
naquelas canções
que fiz um dia só pra contar da solidão
que ficou dentro de mim, será que você
não pode escutar
todas aquelas canções, todo o nosso amor

meu coração é só teu e você vive
sempre em mim
além de tudo, acima de qualquer razão
mesmo que você ainda não saiba
mesmo que nada saia do lugar
o sol ainda brilha pra nós, juntos ou
se estivermos tão só

lá, lá, lá …

aquelas velhas canções
aquele nosso velho novo amor
o sol ainda brilha pra nós
juntos ou se estivermos tão sós
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Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


céu de primavera –
as fendas para o azul
no branco das nuvens
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Soneto do Fim e do Medo


Quando chegar o fim, que sei e espero,
Não me assalte o desamparo e medo,
Mas seja grande encontro com o vero
Que deixa o moribundo mudo e quedo.

Tenho medo do medo, é o que tenho.
O desespero é a grande ameaça,
Que na hora do fogo sob o lenho
Até santo bendizer faz à fumaça.

O Medo e a Dor são quase unos,
Nascidos com minutos de distância
Entre os seus partos importunos.

E esses gêmeos tristes e inquietos
Convivem com a Vida e sua ânsia
De alegria sob o céu e sob os tetos…
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Uma Poesia de Belo Horizonte/MG

CLEVANE PESSOA

Mulher mulheres


Mulher é você, que tem
estrelas nos olhos
(mesmo na
chuva do pranto)
que faz
espaços de
flores
(até no deserto
ardente)
Você de quem
disseram outrora
não valer
quase nada,
mas que vale
tanto…
Mulheres são
vocês, feitas de fitas,
nuvens e encanto,
gosto de mar,
de vento,
cristal de luz
feito encantado
dentro da terra,
formando
pedras preciosas,
brilhantes
Geodi, Ágata,
Água
liquefeita em
sangue:
sorriso, defesa,
entrega, posse…
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Aquela aranha paciente,
que tece despercebida,
lembra o destino da gente
e as armadilhas, da vida!
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Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Lua-de-mel


Eu e você, deitados lado-a-lado,
vamos chegando à mesma conclusão:
não existe futuro nem passado,
apenas um momento de ilusão.

Respirando uma só respiração,
não existindo certo nem errado,
compartilhamos de uma só emoção:
o casamento, em seu mais puro estado!

Em nosso momento único e infinito,
vamos lendo o que nunca foi escrito,
e cada qual cumprindo o seu papel.

Envolto pelo laço mais profundo,
vou penetrando aos poucos em teu mundo,
e o mundo cabe num quarto de hotel!

Cada instante do dia-a dia,

Cada instante do dia-a dia,
doce ou amargo,
recheado de fatos e sensações,
coberto com feitos,
é a vida ou a vivência
de uma história à parte.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

BICHO DA CONTA


Estas lengalengas dirigidas a insetos, eram ensinadas ás crianças para elas dizerem quando encontravam um deles nos campos. Era uma maneira de as ensinar a ter respeito pela natureza.

Debaixo da pedra
 Mora um bichinho
 De corpo cinzento
Muito redondinho

Tem medo do sol
Tem medo de andar
Bichinho de conta
Não sabe contar

Muito redondinho
Rebola, no chão
Rebola, na erva
E na minha mão

http://luso-livros.net/
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O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio…
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí…
como um salso chorando
na beira do rio…
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)
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Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Só um dia?


eternamente indecisa
rainha do lar
ou serva da vida?
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O Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Cântico


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
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Uma Poesia de Portugal

CESÁRIO VERDE
Lisboa (1855 – 1886)

Cabelos


Ó vagas de cabelos esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal do hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um pobre sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direcção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e enlanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de Verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos,
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.
……………………………….

Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.
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O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Caridade verdadeira,
Em todos os seus caminhos,
Quando oferece uma rosa
Sabe tirar os espinhos.
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Gestação do arco-íris
Leveza atestando o efêmero
— Bolha de sabão.
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

De  Mãos  Dadas

Ando na vida de mãos dadas
com a tua lembrança…

– E para que falar em esperança?

Não sei onde me levará esta ansiedade,
ou esta melancolia
cheia de umidade,
a me envolver como uma cerração…

Para a loucura?
Para a felicidade?
Ou para este morrer de cada dia
de quem vai tateando em noite escura …
cego do coração?

Que fazer?  Ando na vida
como quem anda
– perdido, andando em vão…

Ando na vida de mãos dadas
com a tua lembrança,
a fazer roda em silêncio… numa triste ciranda
sem canção…
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Aqui tudo pode
Até a cabra
fica de bode
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Um Soneto de Indaiatuba/SP

LUCAS MUNHOZ

O espelho do mar


 Olha-me, pelo espelho… Os meus poderes!
 Lembro-me, se cessar os teus fulgores;
 Lembro-me, ao meu olhar dos ditadores
 Ao luar poderoso, sem tolheres!…

 D´água que chora o Deus, pelos colheres!
 A lua primorosa, e os teus rigores
 Dos ares perfumosos, pelas flores
 Tens os entes perfeitos dos cozeres.

 Quanto a ti, pelos sonhos desejáveis!
 Lua, e os meus corações que me conheces
 São os deuses amáveis e adoráveis.

 Ao mar dos corações, pelo carinho!
 Amo-te, agora foste o mar que teces…
 Olho-te, pelo véu limpo, sozinho.
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O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Deus me deu cinco filhos e, feliz,
eu cumpri para os céus essa missão;
sinto neles a minha própria vida
como os dedos que toco, em cada mão,
quando rezo por todos, de hora em hora…
São pedaços de mim que vejo fora
porém nunca tirei do coração.
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O Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Quem Te Olhou nos Olhos


Quem Te olhou nos Olhos,
ouviu a canção das nuvens,
executada nas cordas solares.
E viu os lírios do coração se abrirem.
E naquele momento, sentiu
os justos se perderem de suas angústias
e as astúcias dos pensamentos
se converterem em serenos faróis.

Decifrou ele, em Teu Olhar,
os veios profundos
que no infinito desenham as estrelas,
teto de um mundo
que ainda vale a pena,
quando há no Ser o sonho
de reencontrar o verdadeiro lar.

Quem Te olhou nos Olhos,
sabia que estava diante do manancial solar,
maestro da lua, do mar
e de todos os vales profundos
onde ainda respiram os náufragos
e os insensatos passos dos absurdos.

Ao fitar Teus Olhos,
com certeza alimentou-se dessa aurora
e vestiu-se de gente pela primeira vez,
estreando a vida,
sentindo-se sagrada e ascendida criatura,
seiva da terra remida.

Aquele que Te fitou os Olhos
fez de si mesmo uma candeia eterna,
consciente de que ao olhar o próprio céu,
humanamente auto-gerou luz à sua hora
e enfim, se reconheceu.

Quem Te olhou nos Olhos
recebeu asas para a caminhada
ao longo dos séculos.

Nasceu.
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Uma Poesia Além Fronteiras

CÂNDIDO DA VELHA
Angola (1933)

As Idades da Pedra 1


É do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.

Este permanente arfar marinho
desperta a ressonância de oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.

Cheiros de primeira pâtria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira o corpo na fronteira do mar.

Reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vermos,
na babugem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.
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O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

A Serenata


Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

As ondas


Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto mar anima as ondas.
Sobem das fundas úmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:

Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.

Coxas de vago ônix, ventres polidos
De alabatro, quadris de argêntea espuma,
Seios de dúbia opala ardem na treva;

E bocas verdes, cheias de gemidos,
Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma,
Soluçam beijos vãos que o vento leva…
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema da Necessidade


É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
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UniVersos Melodicos

Wilson Batista e Sílvio Caldas

MEUS VINTE ANOS

(samba, 1942)

Neste samba, Wilson Batista vive um bom momento de sua carreira como letrista. Em versos simples, ele focaliza um problema existencial: o inconformismo do homem diante da velhice. Essa realidade indesejada é pressentida pelo protagonista “Nos olhos das mulheres” e confirmada no “Retrato da sala”, que “Faz lembrar com saudade” a sua mocidade.

Surpreendentemente, Wilson tinha apenas 29 anos na época em que fez a composição. Autor da melodia, Sílvio Caldas é também o intérprete de “Meus Vinte Anos” num disco que, lançado no final de 42, estendeu seu sucesso a todo o ano seguinte.

Nos olhos das mulheres
No espelho do meu quarto
É que eu vejo a minha idade
O retrato na sala
Faz lembrar com saudade
A minha mocidade

A vida para mim tem sido tão ruim
Só desenganos
Ai, eu daria tudo
Para poder voltar
Aos meus vinte anos.

Deixaste minha vida
A sombra colorida
De uma saudade imensa
Deixando-me ficaste
Mostrando-me o contraste
Matando a minha crença

E hoje desiludido
Muito tenho sofrido
Cheio de desenganos
Ai, eu daria tudo
Para poder voltar
Aos meus vinte anos.
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

PASSARINHO DA LAGOA

(cateretê/toada, 1949)

É uma roda de meninas, cantando:

Passarinho da lagoa
Se tu queres avoar
Avoa, avoa
Avoa já

O biquinho pelo chão
As asinhas pelo ar
Avoa, avoa
Avoa já

Quando dizem — O biquinho pelo chão — todas se curvam, imitando o passarinho. Quando cantam — As asinhas pelo ar — todas levantam os braços e balançam, imitando o bater das asas dos pássaros

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Gatas de Boa Viagem


Ao passeio matinal,
raios do sol mediterrâneo,
já me indaguei sobre mistérios
e à presença súbita de um anjo
foi-me dito,
pela boca sagrada do anjo: – É mais fácil secar este mar
com este pequeno balde…
Desta vez,
o inconsúltil mar-oceano,
um pequeno buraco, de areia,
uma pequena mulher,
angela da manhã,
uma pequena vasilha,
aos raios deste sol do equinócio,
brilham as águas verdes,
brilham-me, na memória, teus olhos verdes,
verdes campos, verdes matos;
azuis, os céus que também brilham…,
e ………………………………………………. de joelhos,
consulto o horizonte
à procura
do teu rastro, amor!

Testemunha-me a brisa da manhã,
certificam-me as algas marinhas
volutas conchinhas me dizem: ela está longe, meu poeta!
estamos longe, milhas e milhas,
miríades de passos – espaço –
muito longe…
Rastejo outra vez o horizonte
e à minha frente a mesma mulher,
de todos os dias,
a mesma vasilha, de todas as manhãs:

– Afinal, minha senhora, bons dias,
esse balde de areia…
algum aterro?
Sou um poeta, meio sonâmbulo,
desculpe, bons dias,
por favor?!

– Este balde de areia,
eu o levo todos os dias,
é a minha penitência,
a minha saudade;
quando eu era menina,
li a história de um rei,
um travesseiro,
também de areia…
– Quem repousava no meu travesseiro
[e fez o gesto: era regaço]
em viagem,
e aí eu busco esta areia
e espero…
mesmo sabendo que não…,
[e fez o gesto: era infinito]
mesmo assim, todos os dias,
um balde bem cheio. São histórias do mistério,
mistérios da areia,
mistério trino, Agostinho;
são histórias da saudade,
saudade ímpar, minha senhora:
Bom dia, até amanhã!
Um instantim,
senhor poeta,
esta areia que colho,
esta penitência que recolho
é para as minhas gatas…

Três,
lindas…
Uma está de gatinhos…

[…] O senhor quer um? Sim, eu quero!
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Ter


Tem o motivo: livro marcado
na página do meio. Metade
devorada em traço. O sinal
sublinhando a frase. Eu te amo
diz o personagem. E tu morres
em mim. Desnorteado tem o ensejo
de se fazer longe no estático
monumento aos mortos. O amor
avança páginas de palavras
na dominação dos personagens.
Tem a razão elencada em cisma.
Sismo: a gradação da tragédia.
=============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Sem Ter Amor É Difícil Viver

(Acróstico-poético nº 5075)

S-Se eu pudesse, tudo te dizer…
E-Entrelinhas do meu sofrer,
M-Marcadas pela despedida…
 –
T-Tomei-te aos belos braços
E-E trocamos fortes abraços
R-Revivendo um tempo de vida!
 –
A-Amamos sim, por tantos anos!
M-Matamos tantos sonhos insanos:
O-Os atrasos e a ausência dolorida
R-Revelaram enorme mágoa sentida!
 –
É-É tão difícil viver sem amor!
 –
D-Dia tornou-se longo e triste!
I-Infausta decepção com sabor
F-Fatídico de culpa que não existe.
Í-Inadimplência ao juramento sem efeito,
C-Contratado com plano inadequado?
I-Inacreditável como é que o amor acaba!
L-Lutar contra quem não quer mais nada?
 –
V-Vale a pena calar ao ver que a casa desaba
I-Inteira diante da imputação sem solução…
V-Voto vencido sem direito à declaração:
E-Enfado da culpa silenciosa que não agride
R-Repete à mente:-Faz falta a relação amorosa!
==========================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG


E você traz a luz do dia seguinte

A noite chega e impresso você vem
O carinho registrado, em mim é selo
Nessa cela meu corpo quer um bem
E sinto os seus dedos em meu cabelo.

É concreto, sinto, presencio e penso:
É tão forte, conheço esse sentimento
A alma berra o quer, e o corpo tenso
E ondas me trazem a sua voz ao vento.

Nada me rouba, já sou sua por direito
É um merecimento dual, e necessário
Palpita inexplicável chama no peito.

O sol a virar a esquina, já se anuncia
Quebro a sua voz em uma despedida
Na fresta da janela a clareza é poesia.
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

MINHA MÃE

(Imitação de COWPER)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera
Viver feliz com minha mãe também!
C. A. De Sá


QUEM Foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança
Dourou: – é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor – anjo do bem
Minha fronte infantil – encheu de rosas
De mimosos sorrisos? – Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe.
Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? – Minha mãe’
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso
Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: – minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma
Para ter minha mãe!
==========================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Amor imaginário


É maravilhoso, quando pela manhã,
encontro seu sorriso sereno à meu lado,
e com seus beijos exploradores, me delicio,
e o amor se faz, ao cantar dos pássaros.
E assim, nosso dia começa:
Com o café na cama, a seguir,
recheado de muito amor.

Quando você, para o trabalho sai,
com um ardente beijo, nos despedimos,
e é como se o mundo, nesse momento, parasse,
pois, apaixonados estamos, cegos de amor,
como no primeiro dia em que nos vimos,
naquele baile em que você,
para dançar, me convidou, alegremente.

Vivo hoje esse amor assim, intensamente
pois, à Deus pertence, o amanhã.
E ao final da tarde, quando para casa você volta,
trazendo nas mãos um bouquet de rosas,
vermelhas e perfumadas para mim,
não tenho dúvidas de que, esse amor,
apesar de ser imaginário, me faz feliz!…
===========================================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Sonho


Todos sabem que o sonho é passageiro,
e que nele tudo finda ao despertar,
mas quero mesmo assim ser o primeiro
a poder fechar os olhos e sonhar.

Quero me ver em algum lugar distante,
ver coisas novas, gente diferente,
outros sons e sensações trazer bastante
para lembrar-me depois de consciente.

Quero poder ofertar ao coração cansado
o sonho de também sentir-se apaixonado
e  tendo enfim ao lado a mulher amada.

Porque sonhar é realizar o que queremos
é ter aquilo que acordados não tivemos,
pois sonhar é dar um tudo a quem tem nada.
=================================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Lua Cheia


A velha mandinga contava à sua neta
sobre os sortilégios da Mãe Lua,
lá na boa noite, lá na noite quieta:

“Para a deusa nunca vais olhar,
porque se te mira quando tu a miras,
o Pássaro Prata ouvirás cantar.

E ao canto da ave o ventre se alua

e do bom marido, saberás das iras”.
================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se d’uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio
Que d’uns e d’outros olhos derivadas
S’acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.
================================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

O Anel de Vidro


Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
– Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste
===========================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 12


Quando conto as horas que passam no relógio,
E a noite medonha vem naufragar o dia;
Quando vejo a violeta esmaecida,
E minguar seu viço pelo tempo embranquecida;

Quando vejo a alta copa de folhagens despida,
Que protegiam o rebanho do calor com sua sombra,
E a relva do verão atada em feixes
Ser carregada em fardos em viagem;

Então, questiono tua beleza,
Que deve fenecer com o vagar dos anos,
Como a doçura e a beleza se abandonam,

E morrem tão rápido enquanto outras crescem;
Nada detém a foice do Tempo,
A não ser os filhos, para perpetuá-lo após tua partida.

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